• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte

Eis que fui pegar ônibus. Eram quase nove da manhã, o sol brilhava no céu e o mar convidava para curtir. Assumindo a responsabilidade do trabalho, fingi que não era comigo e fui ao ponto de ônibus. Quando fui atravessar a rua, meu ônibus passa e eu abstraio essa situação, mesmo estando atrasada, prefiro não me estressar e perder o dia bonito só por causa do transporte público. Pressa para quê? A vida é assim, pensei.
Atravessei e esperava. Esperava numa boa, me distraindo com tudo, até que vi as três meninas negras sentadas no banco. Elas estavam muito juntas, deviam ter uns vinte e poucos anos e parecia que faziam questão da proximidade; uma delas estava deitada, com a cabeça no colo da outra, que mexia no cabelo. As roupas simples, mas as unhas dos pés e mãos de um rosa choque lindo, que destacava ainda mais a beleza de suas peles. Todos os passantes olhavam para as meninas de comportamento esquisito. Pareciam três irmãs, vindas não sei de onde, sérias, que olhavam desconfiadas e falavam baixinho, uma no ouvido da outra. Eu evitava olhar, mas elas me atraíam de uma forma que eu só me distraía com a tentativa de ler os letreiros dos ônibus.
Depois de uns vinte minutos com o vento e o cheiro do mar me provocando, o Lauro de Freitas azul aparece e entro. Para o bem da nação estava vazio e escolhi o lado oposto ao do mar para sentar. A bem da verdade, eu até sentei do lado do mar, mas além do menino ao meu lado ter me olhado de uma forma muito esquisita - até agora não sei se ele me odiava, paquerava ou estranhava - a criatura da frente fez o favor de brincar de sauna e fechou a janela. Olhei com cara de 'droga' e fui pro outro lado. Pelo menos o menino deve ter agradecido. Acho que tem dias que não queremos ninguém perto de nós e tinha espaço de sobra no ônibus... ele deve ter se perguntado "meu deus, tanto lugar no mundo pra essa menina sentar e ela escolhe logo aqui? Só pode ser pirraça..."

Me mudei e sentei. No banco de trás tinha um cara. Ele parecia com um cara do trabalho, mas, como ele me olhou de forma estranha também - juro que não sei o que se passa - nem olhei no rosto dele e sentei. Ele ouvia coisas no mp3 player e estava encostado na janela com o braço para o lado de fora. Eu descobri isso porque a mão da criatura ficava ameaçadoramente na MINHA janela, sem tocar, mas tomando a lateral. Como eu sou o tipo da pessoa que fica vendo a vida do lado de fora dos transportes, via a hora dele me estapear toda ou fazer cócegas... aí comecei a pensar em que reação teria se ele fizesse algo do tipo. Imagine você, no ônibus, num dia lindo, sentada, vendo a vida passar, e uma mão enorme a te ameaçar? De início achei que ele tava jogando meleca fora, daquele jeito que todo mundo sabe fazer, aí me concentrei e analisei os movimentos e não, ele não era tão podre. Ele tava só recebendo o vento na mão...

Nesse ínterim, a outra mão surge, enorme, apoiada no topo do assento ao meu lado. Um choque, claro. Percebi que ou ele toca violão ou não entende de unhas. A mão tinha unhas enormes e me assustei. Para desviar da situação, olhei pra janela e um alívio esfriou meu corpo: ela já não estava lá. Já pensou se as duas estivessem?

É claro que ele nem deve ter percebido toda a situação surreal que causou... só sei que ele levantou e sentou numa cadeira mais à frente. Quando foi minha vez de sair, ele ainda estava lá e não resisti: olhei bem para as duas mãos, ameaçadoramente, como todo mundo tinha feito comigo durante o caminho.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sôbre o Amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
Juscelino Kubitschek
Brasília, 02 de outubro de 1956.


Assim pensava o JK, no auge de sua esperança e fé na nação, no crescimento e progresso que Brasília traria. Ele, como Lúcio Costa, Bernardo Sayão, Niemeyer, Burle Marx e muitos outros que, na cidade planejada para ser o coração do país pensavam que teríamos o que merecíamos e que os candangos que estavam construindo e vivendo pelo país se orgulhariam do que a cidade nação deveria ser.

Brasília, coração do país, foi construída para gerir os mandos e desmandos da vastidão de culturas, nações e populações brasileiras. A arquitetura e as artes se voltaram para o progresso dos 50 em 5 e o país viveu duas décadas de efervescência cultural e política, ensino de qualidade e outras benfeitorias. O aumento de nossa dívida externa foi perdoado pelo interesse e desafio em fazer uma nação crescer em plena América do Sul, Latina, única de idioma português e dimensões continentais.

O que entristece é o óbvio. Com tanta vontade, deu-se o pior. Brasília está suja e podre. Seus odores se espalham por todo o país. Seus prédios estão repletos do ideal do progresso – em suas paredes, pinturas e estruturas, mas no convívio só há desmame, descaso e atraso. Sem precisar tratar do estampido contaminador da corrupção, só nos resta uma saída: sair. Evadir do país ou dizimar a escória política que nos rege. Enquanto nos encontramos entre a covardia de desistir e a loucura de continuar, mais e mais tiram, mais e mais matam e roubam. E as caridades aumentam, porque a culpa é nossa. Nós elegemos e mantemos.

Mas continuamos acreditando no deixe estar. Deixe estar que tudo vai ser bom e certo um dia, que a justiça deixará de ser cega e enxergará de vez as veleidades daqueles que estranhamente possuem demais e são tão poucos. Deixe estar que nossas necessidades básicas de ser humano serão supridas sem precisarmos pedir por favor e gritar. E aí, deixemos estar logo tudo de vez, deixemos sessões fechadas de eleições corruptíveis de cassação, impostos usurpadores aprovados mais uma vez e mais uma vez para nada, porque deveriam ir à Saúde e lá nem se viu a cor. A única cor freqüente é a do sangue, nas raivas nos rostos daqueles em filas de hospitais e clínicas, daqueles que perderam seus amores sem atendimento médico e daqueles que assistem televisão e vêem jornais, lêem jornais e vêem parentes dos outros morrendo, se preocupam com os seus próprios e pedem pra sempre ter condições de não sofrer das mazelas. Esse é só um aspecto.

E nem podemos rezar direito, já que na maioria das vezes, também precisamos pagar pra isso.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários




Era sábado. Depois do cumprimento das atividades familiares, me vi livre pra encontrar as pessoas de sempre e pôr as histórias em dia. Combinei de encontrar uma amiga assim que essa saísse do trabalho e pronto, resolvido. A amiga dormiu exausta e fiquei com o controle da televisão, pai, mãe e cachorros... paciência. Era sábado, eu estava tranquila, ficaria em casa numa boa... também não tinha muita opção. O resultado de tudo foi a produção de uma geléia de morango deliciosa que fiz com base no gostosíssimo programa de tv culinário de Jamie Oliver, que passa num canal fechado.

Tenho um fraco por programas de cozinha e receitas... tenho o costume de assisti-los e roubar umas dicas simples que deixam os pratos super ultra mega saborosos. Jamie Oliver é um britânico que começou seus programas de tv com a apresentação das receitas numa cozinha simples, com um monte de utensílios bacanas, dicas importantes, tudo aparentemente fácil de fazer. Na seqüência, um convidado chegava e se deliciava. Pude perceber a evolução de seu programa, quando ele foi passear pela Itália, aprendendo a cozinhar outras delícias. Cada episódio era interessantíssimo, pois mesclava a feitura dos pratos com a exposição casual da cultura italiana.

Ainda houveram apresentações ao vivo, em um teatro e agora ele apresenta um programa de uma horta, ou uma casa de campo com um quintal cheio de segredos. O de ontem foi o morango. Ele fez uns três pratos com o morango, entre eles a geléia. Depois ele jogou a geléia num arroz doce, mas não precisamos evoluir tanto... segue o preparo:

1. Pegue todos os morangos que existirem na sua geladeira. Na minha tinha um potinho, mas pra sair bonito na foto coloquei tudo num prato. O Jamie fez com dois quilos de morango. Corte os moranguinhos para a etapa posterior ser mais fácil de realizar;

2. Para cada quilo, 150 gramas de açúcar comum, cristalizado. Nada dessa coisa de açúcar refinado que faz muito mal para nossa preservadíssima saúde. Joga lá na vasilha dos morangos cortados;


3. Essa é a parte mais divertida. Quando passamos por momentos de raiva e sentimos vontade de destruir as coisas, xingar, dar murros e tapas... lave bem as mãos e mate os morangos: espremas-os o máximo que conseguir. Uns pedacinhos continuarão lá, não se preocupe, mas triture com vontade. É nojento, mas é muito gostoso de fazer;

4. Joga toda a morangada batida e de aspecto duvidoso numa panela, mexa só de vez em quando, tire as espumas que aparecerem quando as bolhinhas da fervura surgirem e deixa lá por 20 minutos em fogo médio;



5. Deixe esfriar para não queimar a língua, bota num pão, torrada, biscoito ou similar e se divirta! Não esquece um cafezinho pra acompanhar. Fica bom, viu!? Não dura tanto quanto aquelas que compramos nos mercados, mas não tem química nenhuma envolvida, o sabor é muito mais leve e autêntico. Claro que deve ir à geladeira.

No fim da história, fiquei vendo Memórias de uma Gueixa pela segunda vez. O filme, apenas um curto parêntese, vale a pena. Apesar da vergonha de ser falado em inglês, o idioma original da terra dos olhos puxados, trata de uma forma bacana do papel destas mulheres na sociedade oriental. Trata ainda da beleza, da vaidade e da inteligência femininas. Não é um filme para um sábado à noite, mas não faz mal assistir de vez em quando...
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
    Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
  • Spotlight
    Spotlight
  • Livro da Semana - Física em seis lições
    Livro da Semana - Física em seis lições
  • Amy
    Amy

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose