• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte

Quando o cinema se volta à História, precisa dialogar em duas frentes: da memória e do fato. O segundo é mais fácil, parte de documentos, registros precisos do que aconteceu sem adjetivos, como as orações simples que definem lugar, hora, método, personagens. A memória, por outro lado, traduz os sentimentos, pois se vale da subjetividade, do que é individual, do que traz cores e nuances, personaliza e, paradoxalmente, torna o relato de registro mais real. Orestes traz o enfoque dos sujeitos – vítimas ou não – de violência no país, unindo as duas histórias, a do Brasil com a dos brasileiros. 

Rodrigo Siqueira (Terra Deu, Terra Come, 2010) traz mais uma abordagem original, agora com Orestes. Se a tragédia grega é de um o protagonista como o assassino da mãe Clitemnestra em vingança pelo assassinato do pai Agamenon, morto por ela e seu amante, aqui há um júri simulado de um novo Orestes que estrangula seu pai, assassino e delator de sua mãe, militante na ditadura. As duas tragédias fictícias se unem aos relatos verídicos do drama de Soledad e Cabo Anselmo, personagens reais da História do país e da vida de Ñasaindy, filha daquela e, com azar, talvez filha do mais famoso delator do Brasil. Cabo Anselmo foi um agente infiltrado da ditadura militar e suas ações culminaram na morte não apenas de Soledad, como de 6 outros militantes no que ficou conhecido como Massacre da Chácara São Bento, em 1973. Quando foi morta, Soledad já tinha Ñasaindy e estava grávida. Anselmo era seu namorado. 
Por si só, a história de Ñasaindy e a busca por sua origem – bem como o pânico da dúvida sobre sua paternidade – associada à tragédia grega já seria material suficiente para um filme, mas o diretor vai além. Experiente, amplia a violência histórica e traz José Roberto Michelazzo, torturado no ambiente em que visitam no filme, um prédio onde funcionou o Doi-Codi em São Paulo e mais: uma mulher cujo filho foi assassinado pela polícia, outro casal que perdeu o filho da mesma forma – sendo este um cara comum e o anterior, um dependente químico – Sandra Domingues, representante de uma organização que busca a justiça de um massacre infantil em Realengo, no Rio de Janeiro, uma enfermeira de hospital público, todos juntos em sessões de psicodrama, coordenadas por Marisa Greeb. Vemos um panorama da violência histórica e contemporânea no país, em encenações no júri e nestas sessões, além dos relatos da história de Ñasaindy, vítima desde o nascimento. 

O júri popular deu aos presentes o poder de decidir sobre a sorte do Orestes nacional. Os advogados de defesa e acusação – em oratórias brilhantes – deixam qualquer um na berlinda, entre a moral, a justiça – e todo o seu conceito subjetivo e objetivo ao mesmo tempo – e a lei. O mote traz de volta a Lei da Anistia e sua necessidade de revisão, já rechaçada pelo Supremo Tribunal Federal. Hoje, o que se mantém é o perdão indiscriminado de vítimas e algozes da ditadura, quase transformando todos em ‘farinha do mesmo saco’ – no que se refere a castigo e absolvição. Ao mesmo tempo, cada personagem no psicodrama é um representante da tragédia cotidiana. As discussões tomam fôlego, apertam o coração e nos posicionam como participantes, às vezes saindo do filme por não encontrar atores reais – e aí a dramaturgia da cena interrompida por observações de Marisa Greeb perde em narrativa cinematográfica – às vezes, nos remetendo a tudo o que vemos e ouvimos nas ruas e noticiários, como o posicionamento de Sandra, favorável à pena de morte, mas se dizendo contra a lei do talião, do olho por olho, dente por dente. Não há como não lembrar dos linchamentos frequentemente noticiados na mídia – a violência não é apenas policial. 
A edição acompanha os dois alicerces do filme e, em alguns momentos, as sessões parecem tomar muito tempo, mas é uma extensão necessária – é o reflexo das reações, dos sentimentos e para que ocorram, não há como cortar ou interromper. No júri o tempo é outro, da ordem da ficção e a montagem segue sem percalços, nos deixando divididos entre os olhares do público e os discursos dos advogados. Assim, no júri há planos fixos, para que a ação se concentre no espetáculo e oratória e, nas sessões de psicodrama, as câmeras precisam estar à mão, para que sejam fluidas e invisíveis. Ainda que a fotografia – lembrando o cinema direto, não usa luzes que não dos ambientes – saia um pouco escura e acinzentada, talvez o próprio tema favoreça a coloração em simbologia.   

O ritmo do filme funciona como um pêndulo variando entre emoção e razão, sempre caro à narrativa documental. A proposta parece ter sido esta: fazer pensar sobre os fatos, tanto sob a ótica da grande justiça, a que o Orestes deve ser submetido, quanto de sua relativização, da nossa posição como indivíduos, cujos sentimentos e ideias são levados em consideração. Nisso o filme brilha e realça sua importância, especialmente nos depoimentos de Ñasaindy, José Roberto Michelazzo e Sandra Domingues, cuja coragem e posicionamento – ainda que contraditório e até por sê-lo – representa grande parte da opinião pública. São as diversas verdades das histórias individuais e nossas tristes heranças da História nacional que moldam nossas leis e comportamentos, fazendo com que este filme seja um dos mais relevantes ao tratar da violência e mereça destaque e debates por onde passe – justamente por ser, também, ficção. 

*Essa crítica está no Blah Cultural! :)
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
 
Procurando no dicionário o significado de maiden, cheguei em dois sentidos próximos ao que se refere o título do filme: um é mais direto e trata de algo feito pela primeira vez e o outro, indireto e poético, diz que maiden é mulher virgem, solteira, que nunca se casou. Eliminando o ‘virgem’ para evitar uma discussão sobre a sexualidade que não tem relação com a obra, seguiremos com estes dois: mulher solteira/que não se casou e/ou que faz algo pela primeira vez.

Isso porque Laura Dekker foi a pessoa mais jovem a cruzar num barco todo o planeta. Com 14 anos, após uma batalha judicial de 10 meses na Holanda que queria impedi-la de realizar seu sonho – não seria algo imprevisível, já que é uma menor que faria uma viagem arriscada e a justiça queria salvaguardar sua saúde e garantir sua educação formal – ela consegue o que queria e parte em sua jornada. Filmando a si e ao percurso enquanto está no mar e com o apoio de outros cinegrafistas por onde passa, vemos um perfil em transformação da adolescente teimosa a uma mulher em formação, se tornando independente e redefinindo seus objetivos.

Tomando um pouco de distância do filme, ele poderia muito bem se passar por ficção. Essa garota jovem demais, bonita, cheia de discursos e opiniões, ganhando cada vez mais espaço no mundo parece ter saído de uma história de aventura. O fato é que tudo aconteceu e vê-la se filmando, nos deixa dentro daquele barco, participando como observadores atentos e ansiosos. Apesar de nova, Laura estudou navegação e tinha experiência de tripulante desde criança, em família. O afinco em cuidar, preparar e ajudar a reformar o barco junto a seu pai e economizar cada centavo para a viagem já indicava uma obstinação e vocação que poucos têm tão cedo. Talvez tenha sido por esta postura que a justiça holandesa a autorizou.
Os pouco mais de 80 minutos são realmente muito poucos pro que estamos vendo. As observações de Laura enquanto está só sobre sua história de vida, família e criação, a relação com a escola, saem de uma imaturidade infantil para uma conclusão do que quer para si e um dos marcos é quando decide mudar a bandeira de seu veleiro, da Holanda – onde foi criada – para Nova Zelândia, onde nasceu. Este é um dos momentos mais emblemáticos do filme, junto com a longa permanência no Oceano Índico. Enquanto o barco se movimenta, vamos juntos com ela e os dias passam numa velocidade de filme de ação. Mas quando acaba o vento e ficamos a sós, como nos resolvemos? Em tempos de internet em todos os lugares, o tédio de 5 minutos é insuportável, imaginemos agora semanas quase à deriva no meio de uma imensidão azul. A valoração do tempo necessariamente se transforma e mais uma vez nos pegamos pensando em nossa própria trajetória.

Em filmes de viagens – documentário ou ficção – há sempre datas ou contagem de dias e desenhos de mapas, gráficos que determinam a duração do filme muito mais do que do percurso. Estas pontuações colaboram para a nossa orientação de tempo e espaço, a diegese fílmica. São marcações de tempo que, quando o filme é bom, quase nos angustiam, como um livro que gostamos tanto que não queremos terminá-lo e vamos alongando a leitura numa tortura, querendo sempre saber mais e com pena de saber tudo. Este filme tem o mesmo efeito: à medida que atravessamos os mares com Laura, suas tormentas e maravilhas, sabemos que em breve tudo aquilo terminará e nos deixará felizes, reflexivos e saudosos. Jornadas assim pegam sempre os apaixonados por viagens, são implacáveis. E por ser uma garota falante – claramente foi orientada para não emudecer e fazia da câmera seu interlocutor, como Wilson, do Náufrago – participamos de seu diálogo, anotando suas observações sobre a natureza, seus conhecimentos de mapas e navegação, numa fotografia que, mesmo sem querer, traz imagens magníficas da natureza quase em estado puro.

Enquanto tem a posse de sua imagem com a câmera na mão, a edição nos mostra uma menina de fibra, que até em tempo ruim enxerga beleza, compromisso e orientação. Ao mesmo tempo, quando em terra firme já é vista ao invés de se mostrar, quase não fala. Claro que há aí dois fatores preponderantes: um cansaço físico e psicológico de estar sempre como apresentadora de seu próprio programa  e, ao mesmo tempo, é o momento que precisa ter para conhecer o entorno, as pessoas, a natureza continental e se preparar para a nova saída. A edição de Maidentrip merece atenção, basta imaginar o tempo de seleção do que era útil ao filme e a imensidão que foi descartada. Se sentimos falta de mais histórias, mas conseguimos sair disso satisfeitos, curiosos e reflexivos é porque deu certo. O tempo do filme nos deixa sofrendo nos momentos finais, esperando que Laura, agora independentemente de que idade venha a ter, continue circulando por aí e nos trazendo um pouco mais da intimidade que tem com o mar, de encontrar aí sua casa e de ter a coragem para abandonar todo o resto e nos fazer pensar se a forma como vivemos é a que realmente queremos viver.
Maidentrip é um desses achados maravilhosos do Netflix. Está lá e você pode passar por ele diversas vezes como fiz e não dar trela para esta garota da capa. Confie, se uma menina de 14 anos resolveu viajar o mundo sozinha num barco e saiu ilesa, ela tem algo pra te contar.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários
Lançado nos cinemas semana passada, Que horas ela volta chegou fazendo barulho por duas razões principais: a qualidade inquestionável do filme e a polêmica em torno do debate com a diretora Anna Muylaert após exibição em Recife. O mais interessante é que foi justamente por ser bom que todo o resto aconteceu.

O filme conta a história de Val (Regina Casé), uma empregada doméstica pernambucana que trabalha para uma família de classe alta em São Paulo. Há anos no serviço, Val mora onde trabalha, recebe a notícia de que sua filha Jéssica (Camila Márdila) irá à cidade prestar o vestibular e sua chegada rompe com o equilíbrio da casa. O filme promove um retrato fiel não apenas da classe alta, como um recorte amplificado das diferenças sociais e a delicada relação entre patrão e empregado. Frases como você é como se fosse da família são utilizadas de forma inócua, sem se perceber um preconceito gritante no quase, além de ser uma mentira descabida. Enquanto não há Jéssica, há o afeto maternal de Val com Fabinho (Michel Joelsas), filho adolescente da família que também fará a prova, o ciúme interesseiro da mãe Bárbara (Karine Teles) e o pai bon vivant (Lourenço Muterelli) que espera a vida passar, já que vive de renda e não tem muito o que fazer.
A posição da mulher aqui é vista sob diversas óticas – faz lembrar imediatamente o também bom Casa Grande (Fellipe Barbosa, 2015), onde as relações de trabalho se confundem com um senso de superioridade explicado na diferença de classe. Aqui vemos uma mulher que receberá a filha que vem do Nordeste, sempre estigmatizado pelos sudestinos educados. Jéssica, ao contrário do que se espera, é letrada, impetuosa e com um caráter contestador, se surpreende e se incomoda com a submissão confundida na obediência da mãe na casa. Ela representa a quebra de paradigma, o esforço de alavancar a vida com o próprio suor e os estereótipos aqui muito bem construídos dos arquétipos nacionais não são gratuitos, mas representações de uma realidade que não é novidade para ninguém. Bárbara, cujo nome não poderia ser melhor, age brutalmente e expõe uma franqueza que nos envergonha, o comportamento de tantos que conhecemos bem.

Val é maravilhosa, porque se descobre em transformação a partir dos novos conflitos. As duas, num dueto orgânico, escancaram suas verdades e segredos, que a distância da sobrevivência impediu a convivência nos primeiros anos de mãe e filha. Val é aquela que sai da cidade em busca de trabalho, em prol de uma qualidade de vida para os seus, como o herói que sai para a aventura com uma missão cujo fracasso é imponderável. Ao mesmo tempo, ao reconhecer o tratamento familiar que recebia como uma esmola de afeição que ninguém pede, mas  aceita como um hábito ruim, mais uma vez se prova dona de seu destino e reconhece uma saída para ela e a filha. Regina Casé incorpora a personagem como se fizesse parte de si, da mesma forma que Camila Márdila, uma atriz jovem, traz maturidade de interpretação singular. As duas acabam de dividir o prêmio de melhor atriz em Sundance.
E então, aconteceu o debate com Anna Muylaert após a exibição e os cineastas Cláudio Assis (Amarelo Manga) e Lírio Ferreira (Sangue Azul), alcoolizados, não permitiram que se continuasse a conversa. A situação foi tão gritante que virou notícia. O ponto do machismo se fez presente, ao tempo que um filme cujo foco está na mulher, dirigido por outra que é interrompida continuamente por outros igualmente talentosos, mas que não estão naquele palanque. A necessidade de chamar a atenção e estragar o evento não esbanja outra razão que não aquela de ocupar um panteão que não lhes pertence. É necessário dar o tempo e espaço devidos à mulher, especialmente quando já são dela. Para quem discorde da visão machista, uma das observações de Assis foi sobre a protagonista estar acima do peso – numa clara atitude preconceituosa não apenas com o gênero, mas com a imagem, reduzindo uma grande atuação a um aspecto físico insignificante.

Após a repercussão vieram pedidos de desculpas dos dois, bem como a decisão da Fundação Joaquim Nabuco de proibir por um ano a exibição de trabalhos e presença dos dois diretores na instituição. Mais uma vez Cláudio Assis se fez presente em sua retratação, não apenas assumindo o que lhe é devido, mas invertendo a discussão ao se colocar como alguém sendo atacado por pessoas caretas – o termo que define os conservadores também define em grande parte o machismo, ironia maior não há. Talvez o comportamento destes diretores não tenha sido conscientemente para atrapalhar o evento, mas é um fato estabelecido que a provocação reafirmou a velha cartilha do comportamento brasileiro em que o homem tem que estar à frente – ainda que pra isso precise atropelar quem estiver passando ou, simplesmente, calar a mulher que fala. Que horas ela volta? desbancou os eleitos a concorrer à vaga para o Oscar 2016. Todos os filmes eram de diretores homens.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Amor é um filme francês de 2013 que levou não sei quantos prêmios para casa e é uma das produções que fala mais honestamente sobre o sentimento, levado até o fim e extremo do que se espera dele. É um filme duro e difícil, mas ao mesmo tempo, terno, honesto, amoroso. Dói assistir.


Amor (Love 3D) é também o novo filme de Gaspar Noé que causou comoção em Cannes esse ano, agora em 3D. Polêmico como o outro, mas tendo no sentimento um olhar singular, o diretor buscou expô-lo através do sexo, porque essa conjugação produz a melhor sensação que se pode ter na vida, de acordo com seus personagens. Gaspar Noé é o criador também de Irreversível (2002), um filme de desespero e ódio de um homem que busca vingar a mulher estuprada. Tenso até o fim, violento e brutal, esse nos deixa sem piscar e nos provoca não sei quantos sentimentos.

Love 3D é um filme jovem. A história é sobre Murphy (Karl Glusman), entre seus 20 e tantos anos que recebe uma mensagem de voz da ex-sogra preocupada com a filha Electra (Aomi Muyock), de quem não tem notícias há 2 meses. A garota, após terminar o intenso relacionamento com o protagonista, pede que lhe deixe para sempre. Em sua casa, Murphy vive com o filho e Omi (Klara Kristin), a mulher que engravidou, enquanto vivia com Electra. Agora, Murphy relembra todo o relacionamento que teve com aquela que ainda ama e de quem hoje nada sabe.


O filme tem algumas considerações que tentam sustentar a trama, como o mito de Electra (ou o complexo de Édipo para a mulher) e Murphy com sua lei. Electra deixa claro sua posição com relação ao pai ao não querer apresentar o novo namorado, pois este não seria bom o suficiente e ela não queria passar a informação de um relacionamento com outro homem que não seu progenitor. Murphy então, literalmente nos abre a revelação que funciona apenas como um aposto à história, já que não é utilizada para nada mais que não a construção de uma personagem complicada, intensa e em formação, indicando que de fato há uma questão amorosa e complexa na relação de pai e filha, com e para Electra – que não nega e tampouco desenvolve o assunto no decorrer do filme. 

Murphy, por sua vez, é o reflexo da lei criada pelo dono do nome no fim dos anos 40 – quando se diz que se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará. Então, ele sofre com a ausência de Electra e a possibilidade de algo muito ruim ter lhe acontecido, devido ao seu caráter errante e descontrolado.

Uma história simples, sem grandes atores – talvez a que se destaque seja exatamente aquela que não vive mais ali – cuja polêmica é percebida pela quantidade de cenas de sexo explícito e em 3D na tela. O que no início pode nos deixar excitados como um filme pornô com grande fotografia e corpos lindos, nos anestesia gradualmente e toda a força das cenas perde impacto. 

Conhecendo Gaspar Noé, é clara a intenção de perturbar a plateia sempre que possível e essas cenas nos provocam em grande escala, desde o estímulo visual que aquece o sangue a um escândalo de violência como o filme anterior que nos leva na direção oposta, do asco e horror. Ao mesmo tempo, as cenas onde a intimidade surge – não falando de sexo aqui – são as mais bonitas e interessantes, que ajudam a construir o relacionamento deles como algo plausível que tenta corroborar aquele amor. Aqui sim, há a grande beleza, nos silêncios compartilhados, no companheirismo, no que há de extraordinário do convívio cotidiano – pena que não há um equilíbrio entre os dois pólos para trazer mais interesse e estrutura à trama.

Talvez o filme valha a pena para saciar nossa curiosidade na feitura das cenas de intimidade, pela beleza e sinceridade com que se apresentam e foram feitas – é sexo, é explícito e é 3D. Por outro lado, a ausência de aprofundamento e a longa duração, nos tiram um pouco desse prazer voyeur e quase entediam.


Talvez seja esse o ponto, então. Talvez a ideia seja essa mesmo de praticarmos juntos a experiência pura do cinema, traduzindo seu objeto de desejo primeiro – a satisfação do olhar – da forma mais conhecida que é a curiosidade pela volúpia, aqui traduzida literalmente neste voyeurismo de um filme erótico – quase uma redundância metafórica para os cinéfilos. Juntos numa sala de cinema – por sorte a minha estava vazia – haverá uma mistura de sensações, desde o acanhamento ao sentar-se ao lado de um desconhecido, até um prazer compartilhado que será manifestado no íntimo de cada espectador – um duplo do erótico pelo erótico e o prazer sentido como uma experiência compartilhada. Será sempre numa sala de arte, para um público específico – ou curioso simplesmente – e de fato, interessante. Os desavisados sairão da sala. 

Não fosse longo demais, talvez assistisse novamente neste contexto e observaria os olhares às primeiras cenas, enquanto ainda estamos atentos e animados. O fato é que a justificativa da obra – de que deveríamos ver mais sobre amor e sexo da forma como acontecem na vida real, ao invés de reforçar uma grande história, traz exatamente o oposto: apenas uma desculpa para trazer sexo bem filmado aos cinemas. Fosse um pouco mais desenvolvido narrativamente como o Amor anterior - de poucas palavras - ganharia nas discussões polêmicas que não se voltam apenas para a questão sexual, mas para a franqueza da intimidade tratada realisticamente numa tela grande.
Share
Tweet
Pin
Share
2 Comentários
“A filmagem me permite voltar a sentir a dignidade da existência de cada um, inclusive a minha. O cinema é uma maneira de preservar a memória das coisas. O documentário nos ajuda a conservar os traços daquilo que se passou. É um meio de resistir ao esquecimento."
Jia Zhangke

Quando um cineasta resolve fazer um filme sobre outro, é sempre um misto de cinefilia – esta adoração pelos filmes e o mundo que os cerca – e a relevância daquele, não apenas para o cinema enquanto arte, como também enquanto veículo de informação e reflexão, como o clichê da janela que se abre para o mundo ou, neste caso, para um mundo bastante específico.

O Mundo (2004) é título de um dos filmes de Jia Zhangke, diretor chinês de 45 anos, com mais de 20 filmes no currículo (entre ficção e documentário) e protagonista do último filme de Walter Salles, Jia Zhangke – um homem de Fenyang. Na obra de 2004, a história se passa em um parque temático de Pequim, que retrata cenograficamente os pontos turísticos e maravilhas dos cinco continentes. É também neste cenário que acontece uma das diversas entrevistas de Walter Salles com o diretor e então, em uma conversa de grandes observações, percebemos a relação e os contrastes da cultura chinesa com a ocidental. Se o slogan do parque diz que se pode viajar o mundo sem sair de Pequim (ou de casa), o mesmo vale para a internet. Jia ainda faz uma analogia entre aquela cidade de fantasia e as semelhanças de onde vivemos, imersos em redes sociais virtuais – outro simulacro que só acentua, com a velocidade e a chegada do capitalismo no país, o individualismo e a solidão.
À primeira vista, parece que estamos numa sessão de cinema para deleite da crítica e seu público ‘alternativo’. Da mesma forma, me perguntei onde haveria interesse do grande público neste documentário de quase duas horas sobre um diretor alheio ao circuito comercial. Não demora a se encontrar a resposta. Ao percorrer a trajetória do diretor em trechos de seus filmes, discussões sobre eles, conversas com os protagonistas e equipe técnica, ultrapassamos o espaço da produção para adentrar o pensamento artístico, a subjetividade e identidade chinesas para além da Revolução Cultural e sua organização coercitiva. Alguns filmes do diretor seguem censurados no país.

A grande questão deste documentário – e Walter Salles assume no livro que nasceu em conjunto, O mundo de Jia Zhangke (Cosac Naify, Jean-Michel Frondon, com textos de Walter Salles, Cecília Melo e do próprio Jia Zhangke) é sobre a representação cinematográfica da vida na China vista pelo cineasta e como ela se contrapõe ao que é propagado oficialmente. Claro, isso acontece em qualquer nação e naquelas totalitárias é ainda mais forte, mas o diretor consegue traduzir o cotidiano de forma honesta, a vida como é vivida e com senso crítico, posto que seja natural e humano discordar ou apenas questionar. Ainda assim, o caso é que, junto ao contraponto que faz ao regime apenas exibindo o que seria ‘comum’ em seus filmes, percebemos também o reflexo do progresso e sua velocidade atropelando a todos, como acontece deste lado do planeta e na China contemporânea.
Assistindo Plataforma (2000), vemos um filme sobre jovens entre a fase adulta e a adolescência nos anos 70, quando o mundo se abria culturalmente e se insistia em mudar o que era absurdo. Na China, o que se via era um tanto diferente, com traços fortes da Revolução Cultural no pensamento dos pais, enquanto os jovens tentavam se encontrar e entender o porquê de tanto cerceamento. Esta censura que é transmitida para a nova geração é exatamente o que aconteceu com o diretor – o filme inclusive é rodado em seu vilarejo – e a necessidade de enxergar a vida de outra forma é iminente e necessária. A mise-en-scène é tão realista que os diálogos parecem mais de improviso, bem como o entorno, que se vale de objetos de cena e cenário reais. Essa forma de tratar do tema, com não-atores e atores jovens com pouca experiência nos deixa em cima da tênue linha que divide o documentário da ficção e isso também permeia toda a obra do diretor.

O filme de Walter Salles responde algumas destas questões sem que o diretor brasileiro apareça. Aqui a ideia é de uma série de entrevistas em locações, cidades onde vive e viveu o protagonista e seus familiares. Um ponto curioso dentre tantos outros é sobre a forma de fazer seus filmes. Jia nos diz que quando filma sem grandes problemas, aí é que se preocupa. Ele acredita mais em sua produção quando nascem dela os conflitos e dúvidas, pois daí vem a certeza de um trabalho bem estruturado e pensado. Em outro livro que trata do documentário por quem os faz (A verdade de cada um, Org. Amir Labaki, Ed. Cosac Naify), um dos autores, o diretor russo Viktor Kossakovski afirma algo parecido: “não filme se já souber de antemão o que quer dizer.” A ideia de Salles não é de um documentário de observação, mas sobre as respostas que Jia Zhangke e quem está em seu entorno transmitem a nós, produzindo um encantamento, curiosidade sobre sua obra e o entendimento definitivo de porque para nosso diretor – e para quem quer que assista aos filmes do chinês – este é um dos mestres do cinema contemporâneo.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
 
Dei a sorte de estar em São Paulo semana passada e passei no MIS – Museu da Imagem e do Som*, para ver a exposição de Truffaut. Coisas de quem é fissurado e nerd, mas a exposição vale a pena para quem curte o diretor, a Nouvelle Vague ou simplesmente, cinema.

François Truffaut** foi o parceiro de Jean-Luc Godard e mais alguns outros na abertura da Nouvelle Vague. O movimento cinematográfico francês dos anos 60 aconteceu não por acaso, na mesma década de nosso Cinema Novo e um pouquinho depois do Neo-realismo italiano. É a década das transformações de comportamento e cultura no mundo e o cinema é a arte que expressa isso de forma mais direta a seu público. Vale a pena a exposição para saber mais também sobre a Nouvelle e seus fundadores.

O diretor e crítico de cinema era fissurado por Hitchcock de tal forma que fez alguns suspenses – acabo de lembrar Woody Allen fazendo dramas a lá Bergman – e uma série de entrevistas com o mestre, culminando em um livro fantástico e indispensável, Hitchcock / Truffaut. Fizeram ainda um documentário sobre os dois, que sairá este ano. Ele trabalhou assiduamente na revista mais importante da crítica cinematográfica da França e, por muito tempo, do pensamento sobre cinema no mundo, a Cahiers du Cinéma, fundada por André Bazin, mestre teórico desta geração. Para além dessa conversa toda, o que importa é que acabo de rever Os Incompreendidos.

O filme de 1959 é inaugural para a nova estética do cinema francês de então. À primeira vista você não entende bem sua relevância, mas sente algo diferente quando o assiste. É a história de um garoto de 14 anos, que tem em casa a displicência e falta de cuidado, educação e carinho dos pais, na escola o tratamento abusivo de professores autoritários e, com isso, inicia uma carreira de pequenos delitos por onde passa. Antoine Doinel, cujo crescimento do personagem – e do ator, Jean-Paul Léaud – vai permear a filmografia do diretor, é extremamente complexo e humano em construção, como o retrato de um jovem inocente que parece ser atropelado pelas circunstâncias e vê nestas oportunidades desviantes uma saída para viver. A parceria de Truffaut - Léaud se fundiu não apenas nas filmografias, como nas personalidades. Não era incomum acreditarem serem os dois apenas um, ou que o jovem Léaud fosse filho do cineasta.

Os incompreendidos é um filme para ser revisto de tempos em tempos. Como alguns poucos outros, de vez em quando bate uma saudade, como se devêssemos reencontrar velhos amigos e ter a certeza de momentos especiais. Acontece a mesma coisa com Manhattan (Woody Allen) e Acossado (outro fundamental da Nouvelle, lançado logo depois e a estreia de Godard). Assisti outro dia o documentário sobre Woody Allen, e notei que ele e Truffaut dizem algo parecido, sobre como é maravilhoso viver realizando os próprios sonhos. Talvez não tenha sido tão romântico como conto, mas ter liberdade para produzir o que se imagina é suficiente. Truffaut disse***: eis porque sou o mais feliz dos homens: realizo meus sonhos e sou pago pra isso. Sou diretor de cinema. Fazer um filme é melhorar a vida, organizá-la à sua maneira, é prolongar as brincadeiras de infância, construir um objeto que é ao mesmo tempo um brinquedo inédito e um vaso onde disporemos, como se se tratasse de um buquê de flores, as ideias que temos em determinado momento ou de forma permanente***.

Mas o filme é ainda mais do que essa vontade de rever. Ele trata da adolescência universalizando o tema; conseguimos ver um pouco do Pequeno Nicolau e de Coração (livro, Edmondo de Amicis) nos momentos mais leves, nas salas de aula e nas relações com os colegas de classe. O registro quase documental – e aqui Truffaut reclamaria, já que a não-ficção não é pra ele – inaugura essa dramaturgia do que parece simples e natural, quando as atuações são tão orgânicas que ali não parecem personagens, mas pessoas do cotidiano. É o olhar voltado para um cinema sem firulas, envolto numa perspectiva de mudança, como seus planos de câmera e montagem insinuam. Talvez essa fluidez venha da experiência de vida do diretor, que conheceu os reformatórios de perto, bem como a juventude um tanto infeliz. O filme de 99 minutos dura muito menos do que parece e nos apegamos tanto a Antoine que quando acaba, ficamos à espera de uma sequencia que nunca aconteceu (que o diretor se arrependeu de não ter feito).


Les 400 coups (título original) se traduz como os 400 golpes (expressão similar ao nosso ‘pintar o sete’) e soa metafórico para as artimanhas do jovem, que pratica seus golpes como uma reação aos que recebe da sociedade e de sua família. Em português, a tradução soa mais poética, Os incompreendidos e também correta. Vemos um retrato da cidade da forma que não estamos acostumados e que nos toma um tempo para entender, só sabemos ser Paris pelos créditos de abertura, com a base da torre Eiffel sem vê-la por completo, como se aqui não fosse possível alcançar o céu. O mesmo vale para Antoine e mais uma vez o filme vence; talvez vejamos pouco na vida e no cinema atuais os maus tratos escolares, mas a de nosso herói e seus desdobramentos seguem atemporais. A identificação com aquele jovem não nos toma por completo, mas um fragmento já é suficiente para nos remeter ao que vivemos. E daí vem a saudade e a eterna vontade de voltar ali.

*Link para o MIS – a exposição segue em São Paulo até outubro.

**François Truffaut é um destes gênios do cinema. Pro nosso azar, morreu cedo demais, mas deixou uma filmografia digna de respeito e prazer para nós. Dá uma olhada aqui, que quase tudo vale a pena. Mesmo tendo nos deixado em 84, quando eu tinha um ano, ele é considerado um mestre atemporal, do quilate de Kubrick, Scorsese, Godard, Capra, Allen, Kurosawa, Glauber. Dá muita vontade de escrever mais sobre ele, passar horas lendo seus livros e artigos, vendo seus filmes ou, simplesmente, enchendo o saco dos amigos com essas conversas. J

***Livro:  O prazer dos olhos – François Truffaut. Editora Zahar.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

Hoje é um daqueles dias que escolhemos para homenagear alguém. Agora é a vez de nossos pais, co-responsáveis por nossa existência, com sorte por nossa educação, formação e o que mais for possível.

Eu fui muito feliz nesse quesito. Tenho um pai que não poderia amar mais, simplesmente porque não cabe. Como minha mãe, ele me deu educação, caráter, aqueles conceitos de bom e mal, certo e errado que vêm junto com a bagagem de vida dele(s), e que funcionaram bem comigo.

Meu pai teve a mim e a minha irmã, duas meninas e ainda assim, não nos mimou para sermos princesas, quiçá para esperar príncipes em carruagens. Ao contrário, nos criou como seres humanos, dotados de inteligência e curiosidade, responsabilidade, cuidado e respeito pelo outro, quem quer que seja. Colocamos a mão na massa para o que for necessário: na saúde e na doença, nas tristezas e alegrias. Somos um núcleo separado geograficamente, mas sólido como aqueles seres unicelulares da biologia. Sabemos lavar, passar e cozinhar, fazer mercado, pagar contas, ler, escrever e pensar. Graças a eles. Nossa bagagem cultural é diversa por formação, tamanha a diferença entre as famílias materna e paterna, mas é uma boa mistura – dá uma diluída nas realidades de cada contexto e nos deixa mais críticas e paradoxais. Como toda grande família, a nossa também é um caos.

Somos quatro partes de um todo, inseridos em círculos maiores, mas concentrados na velha unidade familiar. Tenho sorte de ter esse jovem ao meu lado, de contar piadas, de vê-lo contando outras não engraçadas e rir assim mesmo, porque é engraçado só de ouvir. É bom falar com ele sobre política, é interessante ouvir as opiniões sobre os filmes que eu gosto e que ele não vê o porquê e trocamos argumentos, é sempre um desafio gostoso indicar filmes e é maravilhoso quando acerto. É massa viajar e contar para ele como foi, ele esquecer tudo e meses mais tarde, depois de ver um documentário na tv, me indicar o lugar pra ir. É bom sair pra almoçar, quase esperando dar errado, pra ouvir ele falar ‘que nunca mais bota os pés ali’ e mais oitocentas histórias que valem contar mais tarde, pra uma turma bem menor do que essa, na verdade.

Meu pai é médico e quando eu era criança, era como ter um super-herói em casa. Ele era e é estressado com um monte de coisas, com o planeta, com o Brasil, com todas as injustiças e, como nós, está cansado dessa maluquice toda. Mas é porque ele tem um coração imenso – como minha mãe e minha irmã também, nossa família é toda coração – e sofremos juntos com as barbaridades. Mas ele, agora pensando, continua herói e pai não só meu, mas de muita gente e não das histórias em quadrinhos, mas da vida, é uma referência de pessoa que carrego sempre comigo e cujas lições procuro manter e seguir.

Meu pai odeia redes sociais. Por isso, para arrumar mais um motivo para colocá-lo em todos os lugares, trago junto um curtinha de 3 minutos, sobre o cara que deu origem a esse ômi, meu avô, Walter Ferreira. É de um festival de cinema de arquivo que teve aqui no Rio, o Recine, no ano que desembarquei, 2008. Fruto de um workshop de cinema de arquivo, o curtinha me rendeu, ainda que seja bem simples, o prêmio de melhor roteiro. É uma homenagem a um outro pai que ficou na minha memória infantil, cujos detalhes fui resgatando com a ajuda de minha avó, minha prima, meus pais. É uma brincadeira com o acervo do Arquivo Nacional brasileiro e algumas fotos de família.



Feliz dia dos pais, espero que gostem e é claro que estou com saudades.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
    Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
  • Spotlight
    Spotlight
  • Livro da Semana - Física em seis lições
    Livro da Semana - Física em seis lições
  • Amy
    Amy

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose