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Café: extra-forte

Essa semana é o início do fim de uma era. Como anunciada pela própria AMC, detentora dos direitos de exibição de Mad Men nos Estados Unidos, uma das maiores séries de todos os tempos chega ao fim. E não é daqueles finais de mentira, em que ano que vem mudam de ideia e produzem mais uma temporada. Essa termina mesmo. Mas por que uma série sobre os homens das agências de publicidade nos anos 60 em Nova York faria tanto sucesso agora?

Don Draper (John Hamm) é o diretor criativo da Sterling Cooper, uma agência de publicidade de Manhattan. Casado, família feliz no subúrbio e mulher perfeita, é o padrão do homem de negócios que vive uma vida dupla, com suas liberdades na cidade e o conforto de um lar sempre bem arrumado e disponível para lhe atender. Betty Draper (January Jones) é sua mulher, uma ex-modelo que largou a iniciante carreira para se casar com o homem dos sonhos. Ansiosa e começando a ter ataques de pânico, ficamos surpresos de já perceber uma complexidade em uma personagem que não parecia ser tão importante na trama. Ledo engano.

De volta ao escritório, Joan Harris (Christina Hendricks) é a responsável por todas as secretárias e é meio o departamento pessoal da empresa. Ela é quem direciona, ordena, educa as novas moças, para que atendam às necessidades de seus chefes mimados. Percebemos nela um poder feminino – além de uma beleza estonteante – utilizado de forma brilhante e às vezes ingênua, à medida do que era possível na época. É ela quem recebe Peggy Olson (Elisabeth Moss), a nova secretária de Don que chega no primeiro episódio e se torna uma das protagonistas da série. Ainda estranha em uma terra estranha, Peggy é assediada por todos os jovens executivos – assédio não era um problema na época – entretanto, ela inverte o jogo: casamento não é a carreira que busca ali dentro.

Roger Sterling (John Slattery) é um dos sócios da agência que, junto com seu mentor, Bert Cooper (Robert Morse), fazem a magia acontecer no encontro com os clientes. Como qualquer agência de publicidade em qualquer lugar e época, essa também é repleta de jovens vivendo seus vinte anos buscando glamour, cheios de ambições, hormônios e ansiedades, sempre à flor da pele. Mas a série ainda vai além desse ecossistema, do envolvimento de clientes e campanhas e outros grandes personagens: Don é como um Dr. House, um gênio criativo que promove soluções surpreendentes ao custo de uma personalidade forte, sedutora e difícil. Encantador de mulheres e destruidor de corações guarda insegurança e mistério latentes, que desvendaremos aos poucos.

Se no início da série entramos nos anos 60, esses mad men – como a série indica, termo criado por publicitários para definir publicitários – viviam uma vida de estabilidade e segurança da década anterior. Em casa, a paz de uma família com funções definidas e liberdades cerceadas. Em Manhattan, tudo o que o dinheiro e o poder podem lhes oferecer. A grande sacada é a década em que tudo se passa. Os anos 60 são um dos pilares da revolução cultural mundial e em Nova York isso é demonstrado gradual e inteligentemente. Vemos o comportamento feminino se transformando, personagens conquistando seus espaços e revendo seus próprios conceitos, liberdades sendo concedidas, divórcio, aborto, o rock’n roll, as danças, a bebida. Isso apenas em comportamento. Historicamente, ainda mais: o crescimento da televisão nos lares e como a própria publicidade se transforma e ganha espaço para além dos impressos, Nixon, todos os Kennedys em suas tragédias, Martin Luther King, Muhamad Ali (então, Cassius Clay), Vietnã, homem à Lua, mísseis em Cuba, Beatles, Bob Dylan, Stones. É um momento revolucionário no sentido pleno da palavra e que se aplicou em todos os aspectos da sociedade de então. Onde mais isso se veria de forma tão gritante e explícita se não numa agência fomentadora de tendências e ideias, vendendo produtos que atendam a esses novos comportamentos, desejos e modismos?

A série, exibida no Brasil pela HBO, seduz logo na primeira temporada, apresentando os personagens em diálogos rápidos, inteligentes, cheios de segundas intenções e subentendidos em trocas de olhares e muitos, muitos cigarros e doses de uísque. A vida desses homens e mulheres dentro da agência em disputas de poder e vaidade é alimentada pelas relações fora dela: os casos extraconjugais, as crises daí decorrentes, seus núcleos familiares. É uma trama intricada de base simples, sua narrativa vai se amarrando à medida que seus personagens deixam o primeiro perfil que apreendemos e se tornam mais complexos, reduzindo  estereótipos e lhes enriquecendo de humanidade.
Com uma fotografia trabalhada de forma a mostrar a arquitetura, a decoração e planos que complementavam o olhar de cada protagonista em cena, com uma direção de arte impecável, figurino e a própria forma de se travarem os diálogos marcando firmemente a geração e suas transformações, Mad Men arrebatou 93 premiações (incluindo 4 Globos de Ouro e 4 Emmys) e 271 indicações em todas as categorias possíveis.  A série de Matthew Weiner (um dos criadores de Os Sopranos) estreou em 2007 nos Estados Unidos e é sucesso absoluto. Ela, não apenas faz uma contextualização histórica muito fiel, trazendo um cotidiano de comportamento e mídia, como transcende a narrativa de base – estamos diante de um drama sobre pessoas e suas relações diante de um novo mundo que se descortina em uma década única. A conheci há pouco tempo e só não me arrependo mais pelo atraso, porque consegui ver todas as temporadas sem esperar em agonia. Até agora.
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Saí de Força Maior com uma sensação estranha. Fui assistir com uma amiga e conversamos na saída, como sempre. Minhas respostas eram evasivas, fazia tempo que não via algo que me deixasse numa nebulosa, quase sem conseguir digerir ou entender plenamente. Não é um filme difícil. Você consegue sentar e assistir, compreender a história, as falas, interpretações, fotografia, tudo. A percepção acontece e já dá pra dizer se teve algum impacto em você ou não, logo de cara. É aquela velha história de que uma obra de arte se define pela impressão que causa em quem a vive – é tudo sempre sobre emoção. Sem ela, não é arte.

Força Maior conta a história de uma jovem família sueca que resolve passar uma semana nos Alpes franceses esquiando. De classe média alta, os pais na casa dos 30 anos e com filhos pré-adolescentes aproveitam a estação de esqui de luxo. São quase como um comercial de margarina, perfeitos, bonitos, felizes. Durante um almoço, presenciam uma avalanche próxima ao restaurante e o pânico de um grave acidente será a válvula de escape para uma transformação desse núcleo familiar.


Quais são nossos papeis na vida? Como nos definimos? Que funções devemos preencher nos formulários? Hoje o meu teria ‘solteira’ e ‘sem filhos’. Minhas obrigações são basicamente comigo e com aqueles por quem tenho apreço, mas nenhum deles depende de mim ou do que provejo para viver. Minha família – irmã, pais, etc – é autogerida e cada um responde por si. Somos todos maiores e eu sou a caçula – não que signifique muito quando se é adulto, mas ainda assim, de alguma forma, entendemos e cuidamos, cumprimos com a manutenção dessa estrutura na medida do possível.

Proteção, segurança, cuidado, carinho, amor, atenção. São as palavras definidoras de relacionamentos, mas não são garantia de futuro ou efetividade em qualquer circunstância. O que você faria se vivesse uma situação de perigo iminente? De catástrofe natural? De acidente de avião? Colocaria a máscara em você primeiro – aliás, como manda o regulamento – ou defenderia seu ente mais amado antes? Ninguém sabe essas respostas. A maioria vai dizer que protegeria o outro. E como isso nos define – de verdade? Como nós nos julgaríamos se não respondêssemos à altura do que prometemos um dia para alguém – até para nós mesmos, diante de um inesperado e aterrorizante presente? O que significa não atender a essas expectativas? Acredito que somos um conjunto de percepções, impossíveis de definir como um padrão de comportamento baseado em situações de rotina e controle. Diante do inesperado, talvez uma resposta diferente não deva ser julgada como inaceitável. Mas – ao mesmo tempo – é impossível não pensar nisso.


O filme faz isso de forma brilhante. Vencedor de 29 prêmios com outras 25 indicações, em duas horas e muito humor mordaz, ficamos perdidos entre que sentimentos devemos ter diante do que vemos. Sem entrar em detalhes – porque esse filme deve ser contado o mínimo possível – compreendemos a reação da mãe, entendemos o pai, até porque o filme prima por fugir daquele maniqueísmo barato e até as reações dos personagens secundários, seus amigos, são interessantes. O filme ainda vai muito além: nos põe em xeque, faz a velha questão do ‘se fosse comigo’ e por isso saí sem conseguir dizer muita coisa. Para o público brasileiro, a atuação às vezes seca e cheia de silêncios nos traz a certeza de que é algo diferente que se passa ali, além de culturalmente estarmos distantes. 

Robert Östlund, o diretor com 3 longas de ficção no currículo e alguns documentários, indica que não precisa mais do que isso para fazer uma grande obra. A maturidade da montagem e a trilha imponente nos preparam para um suspense que não nos deixa respirar - e esse nem é o foco do filme. A cada dia de esqui a agonia aumenta, não sabemos se aguentaremos viver aquele desconforto, e ao mesmo tempo é impossível piscar – morbidamente precisamos ver até onde eles serão capazes de ir e rimos quase nervosos a cada sequência. A fotografia, que me incomodou um pouco no início com a grandiosidade do branco e quase estoura tudo em nossa frente, faz isso intencionalmente para nos mostrar que toda essa claridade não significa – de forma alguma – transparência, e aí se torna maravilhosa. Da mesma forma, a ênfase no azul e tons frios dos figurinos, os planos familiares extremamente calculados simbolizam uma perfeição inútil daquele comercial lá citado – que só existe na superfície.

No fim das contas, não há papeis definidos. As famílias não são como as de 40 anos atrás, pré-moldadas em parâmetros fixos numa rotina de dependência emocional e financeira. Mas, ainda sim são famílias, com suas funções primordiais – nas famílias ocidentais urbanas – voluntariamente estabelecidas. Hoje talvez tenhamos mais liberdade de definir quem somos, escolher nossos caminhos, mesmo que uma ruptura se torne um grande problema. O fato é que saí do filme lá atrás pensando e há um tempo passo aqui para dividir um pouco. Fico na certeza absoluta de que vou revê-lo, preciso reviver o humor ácido, os diálogos que parecem banais, mas representam uma grande e honesta sacada de como somos, de como devemos ser ou de como outros supõem que sejamos. É um programa indispensável, crítico e delicioso. 
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Quando meu primo morreu, eu só pensava em como a vida poderia ser tão irônica. Pra mim, ele estava no caminho certo, tinha se encontrado finalmente, ultrapassado as maiores dificuldades até ali e justo então, quando estava tudo andando certinho, se foi como um cometa. Meu primo era um cara incrível, inteligentíssimo, jovem, emocional, quente, artista, amigo.

Hoje eu acho que não tinha nada certo, não sei por que ele se foi tão cedo e o que fica é uma saudade, às vezes uma inquietação e aquele desejo frustrado de partilhar mais encontros, mais futuros. Não sei se ele já havia se encontrado, não sei se alguém já se encontrou, mas espero que sim. É uma jornada contínua, um caminho maravilhoso – com todos os perrengues e dores, porque sou otimista – uma eterna construção de nós mesmos.

Em 2007 estreou Na Natureza Selvagem. O filme dirigido por Sean Penn conta a história real de Christopher McCandless, um jovem que resolveu subir sozinho o Alasca depois que se formou. A jornada de Chris era a busca romântica de sentido para sua vida, ele não se encaixava no perfil convencional de sua família, de classe média americana e era muito radical em suas ideias, julgando sempre todos antes de tentar compreendê-los. O filme, sensível e intenso, mostra a transformação de um jovem em um homem, focando sempre na jornada, muito mais do que no destino.

Acabo de sair de Livre, o novo de filme roteirizado por Nick Hornby e dirigido por Jean-Marc Vallée, cujo trabalho anterior o tornou famoso, Clube de Compras Dallas. Agora vemos a trajetória real de Chreyl Strayed, uma mulher que busca se reencontrar, cruzando a Pacific Crest Trail, uma trilha de pouco mais de 1760km, que segue do México ao Canadá sozinha, com 26 anos. Se no filme de Sean Penn me identifiquei com os questionamentos, a tomada de rédeas da vida, agora com uma mulher como protagonista da trama, um pouco mais velha, também em uma história real e sozinha, o interesse foi muito maior.

O filme é construído em torno de flashbacks, como em Na Natureza e focado nos pensamentos da protagonista. Assim, montamos seu perfil, encontrando as razões para sua jornada. Com formação literária e deixando rastro em citações de grandes autores pelas marcações da trilha, conhecendo seu passado e o caminho presente como uma combinação de purgante e elixir, somos levados em uma história que vai muito além do aguado Comer, Rezar, Amar. Num percurso longo e arriscado – sendo mulher só acentua isso – não há tempo para lamentos. É uma personagem que busca se manter forte o tempo inteiro, mas com uma sensibilidade em texto e voz off (como pensamento), que a humaniza. Imagino que esse perfil venha da real Cheryl, cuja vida amarga a impedia de ser outra coisa e acabou servindo como base para um grande desafio para a sempre fofa Reese Witherspoon. A atriz e produtora surpreende, com uma firmeza, determinação e maturidade para o papel, nas diversas transformações por que passa a personagem. Foi dela a ideia de produzir e atuar no filme, comprando os direitos.

Em pouco mais de duas horas, acompanhamos essa mulher, com a qualidade que vimos em Clube de Compras, outro filme focado numa história dura e real. A trilha sonora acalenta e entristece por vezes, mas nos transporta para uma intimidade bem elaborada, quase controlando nossas emoções. Nick Hornby, nesta adaptação omite alguns fatos relevantes que fazem falta na trama, mas não a reduzem de todo. Talvez eu buscasse algo mais nesse filme, entretanto. Talvez um pouco mais de fragilidade, saber mais da história pregressa, da relação de Cheryl com sua mãe – e aqui Laura Dern que a encarna merece todas as premiações – e com os irmãos, que só vemos um na obra. Talvez o filme precisasse ser um pouco mais duro e detalhado, pensando melhor, que trouxesse um aprofundamento maior, mais tempo de percurso, mais histórias. Ao mesmo tempo, a leveza das situações, o pouco de comicidade que traz, é o que garante a conexão com o público.

Essa sensação de que falta algo pode ser mérito: nos deixa sedentos pelo que fatalmente encontraremos no livro. Essa mulher, que sozinha atravessou seu país em busca de si, provavelmente se reencontrou sendo outra, vencendo o luto de quem mais amava e guiava seus passos, ainda que ela não reconhecesse. É importante que se veja esse filme para que as mulheres - mas não só elas - se compreendam como promotoras de seus destinos, busquem novos encontros com elas próprias, para que se saiba partilhar outros depois. Por mais que saibamos disso, não custa lembrar numa sala cheia, de preferência com famílias assistindo. Saí da sessão pensando na trajetória dessa mulher, na minha, nas das minhas amigas que buscam construir suas histórias. Saí querendo saber o que os casais ali pensavam disso, o que todas as pessoas pensavam, na verdade. Como elas compreendiam, se como uma aventura, se era desvario, desespero ou necessidade. Se era sério ou se achavam exagero. Queria ter encontrado meu primo pra dividir isso com ele, mas uma coisa é certa: concordaríamos de imediato. 
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Comecei a gostar de Woody Allen cedo, adolescente ainda, por causa de minha mãe. Lembro ter ido com ela ao cinema ver Desconstruindo Harry, lançado em 1997 quando tinha 14 anos. Não sei se entendi muita coisa, mas achei divertido. Ela, como eu, gosta desse humor que está entre o sarcástico, irônico e inocente ao mesmo tempo, sem palavrões, cenas de sexo explícito ou grande violência. Para fazer um filme assim, tem que ter tino pra coisa, uma sensibilidade que só os grandes comediantes conseguem sustentar.

E aí que hoje é mais um desses domingos de dia nublado que eu amo tanto. Ele te deixa sem culpa e de camisola, sem essa necessidade de ter que sair, ter que fazer algo, ter que ver pessoas, ter que. É domingo e está nublado e eu não tenho que fazer nada, no máximo me arrastar da cama pro sofá – ainda mais depois de um sábado intenso. O máximo que consegui inventar foi essa série nova que espero cumprir: um filme por semana, Filme de Domingo.

***

Manhattan é um dos filmes mais lindos e favoritos pelo planeta, de Woody Allen. Vi que é de 1979, o que surpreende, porque a história não é marcada pelo tempo. Mostra a ilha do ponto de vista de quem a ama, com a delicadeza do preto e branco e o próprio Woody fazendo o personagem de sempre.

Esse é um daqueles filmes que nos deixam pensando, por mais fácil que seja. Não é como um Bergman da vida, cabeçudo, ou um Haneke, que temos que digerir. Terminamos Manhattan e ficamos imaginando a cidade, seus cafés, o Central Park e aquele clima todo construído por um apaixonado, querendo que o filme se transforme numa série, para que dure um pouco mais. Conheci NY anos atrás e por ser cenário de não sei quantos filmes e programas de tv, parece mesmo que já estivemos em algumas 'locações', mas sempre, sempre nos surpreendemos. Passei 15 dias e nesse tempo fiquei em dúvida se viveria lá ou não. Ainda hoje não consigo uma resposta. Mas é uma cidade fácil de gostar, sem dúvida.

A abertura do filme dá indícios do nosso protagonista: um escritor falando no momento de criação, pensando no texto. Em voz off, a narrativa perambula pelos bairros da ilha com uma sinfonia ao fundo, como uma ode. Nesse momento, já estou apaixonada. Isaac (Woody) é um roteirista divorciado que decide largar o trabalho para terminar seu livro. Ele está saindo com Tracy (Mariel Hemingway, neta do escritor), uma adolescente de 17 anos e acaba se envolvendo com Mary (Diane Keaton), a então amante de seu amigo. Como se não bastasse, sua ex-mulher (Meryl Streep, sensacional) acaba de lançar um livro sobre o fim do casamento deles.

Por mais enrolada que pareça a história, o roteiro segue brilhantemente, com uma naturalidade que torna tudo plausível. É impossível não pensar sobre o romance com Tracy, a adolescente e traçar um paralelo com a vida pessoal do diretor. O casamento com Soon-Yi, 35 anos mais jovem – filha adotiva de Mia Farrow, ex-mulher de Woody – acontece apenas em 1997, mas o romance começa anos antes. Incomoda um pouco ver Isaac e Tracy, não pela diferença de idade, mas pelo fato de ser uma adolescente. O contraponto da história, entretanto, é muito claro e é, provavelmente sua justificativa: Tracy é mais madura que Isaac. Ela é segura, sabe o que quer e ele entende que ela ainda tem muito o que viver, não compreende que o que ela sente é mais do que um desejo e a deixa em segundo plano. O relacionamento com Mary, por outro lado, toma proporções deliciosas e a parceria com Diane Keaton vai ter seu clímax anos depois, em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, outro filme fantástico do diretor. Os dois quase repetem seus personagens conturbados no filme seguinte.

Talento é sorte. 
O importante na vida é ter coragem.

Em uma mesa de bar, discutem a vida e por mais que essa frase aconteça num contexto em que pode passar desapercebida, sua força é brutal. É o princípio básico da criação artística, está em todos os livros e é mencionado em todas as escolas do tipo, mas se aplica a qualquer área. E não concerne apenas ao trabalho, mas nessa coragem de viver, de assumir riscos, nos posicionar e ser honestos na forma como somos, admitir o que queremos e seguir em frente. É disso que fala o filme inteiro, em que cada personagem assume os compromissos que tem consigo e tenta definir seus desejos. 

A graça dos filmes de Woody está em manter uma aparência de vida real, encontros e desencontros, como os acasos da vida, decisões equivocadas, personalidades complexas em situações simples, pessoas que sempre parecem sofrer além da conta por problemas quase banais – a psicanálise está sempre presente. O que engrandece Manhattan são suas reviravoltas e falas, o próprio protagonista é mais rico aqui do quem em outros filmes, menos caricato em suas neuroses. O reconhecimento da mudança do personagem por ele mesmo é um ganho tremendo e saímos completamente apaixonados pela história, que dá o golpe de misericórdia no último diálogo.

É uma história de amores, pela cidade, por pessoas e suas complexidades. E, ao chegar no que ele acha ser o fim do poço, se pergunta: pelo quê vale viver? É nesta resposta que reside toda a graça e grandeza. E também por isso, a saudade de dona Stela bateu forte, vou atrás dessa mulher linda e grande que não suficiente ser minha mãe, ainda me deu Woody de presente pra vida.
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Vou te falar, coração, é difícil.

Hoje tiveram as eleições no Brasil e ganhou Dilma, de esquerda. Quem perdeu foi Aécio, de direita. Mais uma vez criou-se uma dicotomia de que a esquerda é intelectual, pró-povo, assistencialista, corrupta, incompetente, ignorante. Do outro lado estava a elite, também corrupta, com intelectuais inexpressivos que se consideravam a força pensante da nação, a representação da inteligência e progresso, que arrastavam não sei quantos estados nas costas. Isso tudo são preconceitos e estupidezes, com seus ideais superficiais que eliminam qualquer verdade de qualquer lado. Ok. 

Não entrando no mérito dos partidos e representantes, o ‘povo’ fez pior. O povo das redes sociais, minhas não sei quantas centenas de amigos com suas outras centenas de amigos destilando ódio, preconceitos de todo o tipo, venenos a escorrer pelos lábios corroborados por outros venenosos. Dos dois lados. Há uns, como eu, que preferem não se envolver. Assisto em meu camarote particular e privilegiado os discursos, fico no conforto de evitar qualquer embate de qualquer tipo para qualquer lado, uso a linha “não voto, justifico”, e se fosse votar? Acho que seria Dilma, e não vou nem me explicar, discuto política não muito além do que sei, aprendo ainda mais e sou aberta o suficiente para ouvir os dois lados sem precisar agredir nenhum. Não fico em cima do muro, só não entendo de política como acho que entendo um pouco mais de outras coisas e evito julgamentos precipitados. 

E, na verdade, esse desabafo é sobre isso... sobre os velhos julgamentos e a intolerância nossa de cada dia. Moro no Rio de Janeiro há seis anos. Trabalho numa grande empresa. Sou baiana. Sou baiana e amo ser baiana com todos os orgulhos e vergonhas. Gosto do Rio de Janeiro e tolero também seus inúmeros defeitos porque, afinal de contas, escolhi e gosto de morar aqui. Faço bem o meu trabalho, estudo sempre, procuro me envolver com outras coisas, crescer, me tornar maior pra mim mesma. Gosto de axé, forró e rock, acarajé e feijoada, vivo a diversidade e a possibilidade de conhecer gente e culturas – o máximo e mais díspares, sempre que posso. 

Na minha rede social tem gente de tudo quanto é canto. Gosto de gente, de falar, de conviver, de entender porque somos diferentes e em que nos identificamos. Só que tem uns tipos específicos que se tornaram agressivos e perversos. Ainda não os eliminei desse convívio virtual porque eles servem como um alerta para o que está por aí, eu acho. Não são os amigos de fé ou os mais ou menos amigos, ou qualquer coisa nessa linha. São pessoas da contingência, de conhecer por contexto, momento de vida, história. E são pessoas que se dizem acima de outras pessoas. Infelizmente, pelo que pude acompanhar, a maior parte delas é a que reside por aqui, pelo Sudeste. 

A gente tenta relevar o tempo inteiro esse preconceito que temos, de que o sudeste se acha desenvolvido, melhor do que qualquer região do país, mais inteligente, mais rico – e é, sem dúvida, se pensarmos em dinheiro – e que tem essa certeza de que eles são a força motriz do país, que viveriam muito bem sem o restante e que acham que representamos o atraso e marasmo, a preguiça reinante, a ignorância e o descaso pelo país,que acreditamos ser o assistencialismo a tábua de salvação e enriquecimento da classe menos favorecida e de como somos acomodados e nunca trabalharemos, porque tem quem faça por nós. E você chega animada, vindo de um estado maravilhoso – pobre, lascado, com seca, mas com pessoas de coração aberto, trabalhadoras, batalhadoras, sobreviventes e que ainda estampam um sorriso no rosto e fazem graça da própria desgraça, porque é o que tem pra hoje – e você vira uma caricatura. Por você ser simpática e ter seu sotaque e defender o que acha certo e o que lhe moldou, se transforma num apelido, que vejo como carinho mesmo e adoro, mas que imediatamente lhe identifica como quem vem de fora e você até acha graça e ri, afinal ser baiano é realmente muito bom. 

Só que chegam as eleições e já no fim do primeiro turno começaram as verdades da rede social. As elucubrações que essas pessoas desenvolveram, seu alto índice de conhecimento e reflexão em ofensas e graves agressões que até saíram do seguro universo virtual e tomaram as ruas. Foram dias intensos e longos para esse pessoal. Horas gastas em discussões, declarações de votos e juras como se seus candidatos fossem, cada um, a salvação para um país agonizante, para o mundo, para sempre. Aconteceu um fanatismo como o futebol, uma loucura desenfreada que me lembrou a final da copa do mundo, quando um homem de meia idade, negro, com uma camisa do flamengo gritou perto de mim em alto e bom som, Heil Hitler, num bar, torcendo para a Alemanha. 

As pessoas se entregam às suas recentes convicções e carregam suas bandeiras sem perceber que o tecido atrapalha a visão e os mastros batem em quem está ao redor, machucando. Hoje, agora que as eleições acabaram, vi minha família mais calma – feliz e triste ao mesmo tempo – mas mais calma, aceitando o destino trágico e esperançoso (tem de tudo na minha casa) que vem pela frente. Vi, por outro lado, alguns sudestinos da minha rede se mostrando com indignação e raiva tão grandes que chegam a assustar. Escarrando seus preconceitos em notas vulgares, vomitando suas amarguras, frustrações e grosserias de tal forma que chegam a machucar esse pobre coração e minha vontade fica oscilando entre discutir e desistir. E tanto ódio pra quê, gente? Essa certeza ingênua de que são tão especiais e inteligentes é sim o que podemos chamar – ao contrário de nomear Estados inteiros – de ignorante. 

Vamos estudar mais, conhecer melhor o país, olhar para os lados e até abaixar um pouco a cabeça, sair do salto e dessa postura altiva, ver quem está ao redor, ser mais humildes, visitar o que se critica fora das festas, ir além das praias maravilhosas e de águas quentes das férias, das pessoas simpáticas e calorosas, das comidas que não se encontram em todos os lugares, das frutas, da natureza, de tudo que também significa esse país gigante. Eu achei que a grande piada do dia seria a do Acre, o último estado a fechar suas urnas. A ironia define a grandeza do país: por mais esquecido que sejamos em alguns pontos, somos fundamentais por nossa união. 

Mais amor, por favor.
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Acabei de ver Jessy, de Rodrigo Luna, Paula Lice e Ronei Jorge. O curta deixou, como as grandes histórias, uma vontade de continuar e um sorriso de satisfação, o prazer de ver um filme com um tema grávido de interpretações em uma forma estruturada que nos faz querer mais, ao mesmo tempo entendendo que o que está ali é suficiente.

Escolhi não ler a sinopse por já conhecer Luna e Ronei, parte da equipe e saber dos talentos de cada um, mas fiquei com algumas dúvidas e talvez por isso, gostei mais. Não sabia se era uma ficção, um documentário. Sabia que a protagonista era uma atriz, Paula Lice, mas o contexto das cenas e dos outros participantes deixaram tudo suspenso. Foi uma boa confusão, trouxe a elegância dos grandes documentários. Hoje dá pra dizer que nesse gênero, o país conseguiu desenvolver um estilo híbrido, que se vê nos maiores diretores, com uma linguagem própria e madura que se liberta dos estereótipos que transformam a não ficção em reportagem e filme chato. Essa liberdade nada mais é que a negação de um mito que obriga os documentários a mostrarem um mundo real que não existe diante de uma câmera. O que há é a verdade de um documentário, do que existe porque a câmera está ali registrando e como interpretamos este registro - é aqui que reside a riqueza dessas obras.

O filme conta a história de uma atriz que se prepara para sua performance como a transformista Jessy, numa casa de shows no Beco dos Artistas, em Salvador. Ela ensaia e é dirigida por artistas experientes que trabalham ali mesmo e a todo instante orientam, estimulam e a produzem. Enquanto vemos o ensaio, nos encantamos com nossa protagonista sem saber direito se ela faz uma personagem-atriz que está criando um personagem ou se é a atriz de verdade ensaiando um personagem – esta encenação se contamina com o cenário real, em enquadramentos como o cinema direto, com a mínima interferência do que acontece diante das lentes.

A construção de Jessy nos empurra para frente: para mim traz uma saudade pelo sotaque – essa baianidade que não me deixa – uma região que é pouco vista em filmes, apesar de fazer parte do circuito turístico alternativo da cidade, e aí seguimos imaginando uma pré-história daquele presente: quem são aquelas pessoas, a riqueza e o carinho com que se tratam, a preocupação em mostrar um bom trabalho, as performances em si, o ambiente do Beco, como é seu cotidiano. Há uma questão de gênero que não dá para deixar passar: o que se quer mostrar é a transformação, a preparação e o nascer do personagem, mas é impossível esquecer que estamos vendo uma mulher se transformando num transformista. Em um determinado momento, uma das pessoas que a orienta no ensaio pergunta: você quer fazer uma mulher? E é uma pergunta direta que faz todo o sentido na preparação para o personagem, e concluímos que é, na verdade uma mulher que está ali. Mas, a resposta não dada é: não. Ela não quer fazer uma mulher, ela quer outra coisa.

Além dessa complexidade, ainda há as encenações dos coadjuvantes: estes artistas estão encenando para a câmera? São eles mesmos ali porque já estão acostumados com os holofotes de suas personagens ou tem algo de querer se mostrar um pouco mais? E a protagonista que é uma atriz se preparando para um papel, o que vemos dela e o que vemos de construção para a câmera – quem é personagem e quem é pessoa? É uma metalinguagem que consegue ser, ao mesmo tempo, óbvia e sutil em pouco mais de dez minutos, que não precisa dizer mais do que o que está ali. De bônus, as gargalhadas deliciosas e ternas de uma mulher-profissional-atriz e tudo o mais que ela queira ser e que vamos concordar de imediato, porque  agora ela nos dominou.

Depois do filme fiquei parada, pensando. Nem tinha me tocado de que a sinopse estava na minha frente com algumas respostas, mas a melhor delas eu nem havia perguntado: há uma versão maior, que amplia essa história. Mesmo sem ser nada importante e estar distante do ritmo de produção e criação tão forte e delicioso que é fazer filmes, fiquei orgulhosa por serem amigos e poder encontrá-los nos festivais. Ainda mais depois de ver uma produção inteligente e delicada, em que a primeira cena se comunica com a última com uma força que transforma e esclarece seu sentido inicial. Agora entendemos aquela expressão silenciosa e aguardamos ansiosos por uma extensão que nos permita conhecer mais Jessy, Paula Lice e o que quiserem nos contar.
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joao-ubaldo-ribeiro
João Ubaldo Ribeiro
Eu já estava pronta pra dizer que esse é o melhor livro que li esse ano. O melhor de muito tempo, na verdade. E é mesmo... mas eu li outros muito bons em que não escrevi nada (o de Ingmar Bergman, Lanterna Mágica é impressionante, por exemplo... assim como Macbeth, assustador) que agora fiquei tímida de considerar esse tanta coisa assim e esquecer dos outros. Mas o fato é que esse é um dos melhores em muito tempo e que me surpreendeu. Não sou crítica de livros, mas acho que todo mundo deveria, pelo menos saber que existe uma coisa dessas no mundo.

Sargento Getúlio foi o primeiro livro escrito por João Ubaldo Ribeiro, felizmente baiano, infelizmente morto nesse ano cheio de perdas inacreditáveis e dolorosas. Com este, ele já se tornou um dos maiores escritores de sua geração... de qualquer geração. Isso porque ele traz o nordeste profundo, aquele que é ridicularizado, taxado de ignorante e analfabeto, de bruto e rude. E ele traz no texto o que há de mais honesto, no âmago, no coração, de Brasil mesmo.

Eu sou nordestina de litoral e capital, do que já foi – não sei se ainda é – a maior do nordeste, Salvador. Não é motivo de glória, é só pra falar de tamanho, apesar de amar ser baiana, soteropolitana e ter orgulho disso, com todos os defeitos e qualidades que surgem daí. O fato é que eu venho de uma cidade grande, cuja distância com a linguagem desse texto não é cotidiana, apesar de bem próxima.

João Ubaldo é baiano de Itaparica, quase um apêndice de Salvador, de tão próxima que a ilha é de nós. Não sei a biografia dele, mas imagino que tenha tido muito da vida urbana e deve ter feito uma pesquisa e prestado atenção em muita coisa pra chegar nesse livro. É uma delícia de ler principalmente quando já se ouviu João falar alguma vez. O homem tinha uma voz grossa e uma calma pra falar, um sotaque delicioso e conhecido que faz qualquer retirante – moro no Rio há seis anos – se derreter e mostrar um sorriso que é todo saudade. Ler esse livro trouxe uma mistura doida de sentimentos pelo assunto, pela forma e por conseguir imaginar as entonações, os ritmos da fala do protagonista.

Sargento Getúlio é um homem desses rudes, brabos, cabra macho mesmo de sertão. Ele precisa levar um preso de Paulo Afonso, na Bahia, para Aracaju, em Sergipe e isso é uma viagem bem longa, ainda mais se considerarmos que ele vai por terra. Então, nosso homem segue falando tudo o que lhe acontece, nos pormenores, explica toda a sua situação sempre no presente e vamos participando do seu dia a dia em uma fala sem fim, quase sem parágrafos, quase sem parar. E não conseguimos parar de ler também. E se odiamos esse homem por algumas ações que pratica e o achamos mais ruim que o demônio, em outras, ele é um ser humano, um homem-coração. Porque o nordestino é isso mesmo, é macho até onde pode, com ou sem machismo. É macho no sentido da coragem, de meter as caras e fazer valer. É macho de enfrentar a vida, nem que precise de um facão (ou peixeira, se preferir) do lado. É macho até pra amar, que vai lá no fundo da coisa e se entrega todo, nem que se rasgue todo de dor depois. E se somos brutos é porque somos brutos, não porque somos ruins ou ‘maleducados’. Somos brutos porque não somos finos, somos sinceros e diretos e imperativos, mas cuidamos e protegemos de quem gostamos como se fossem uma parte de nós, um membro de nosso corpo ou até mais que isso.

E por isso e tudo mais que é ser nordestino é que esse livro é fantástico. Porque ele nos faz adorar essa história e sofrer com as atrocidades e gargalhar em alguns momentos e morrer de fome e água na boca em outros e é sempre uma emoção diferente e sempre sentimos tudo e às vezes precisamos repetir a linha de cima porque não pegamos o ritmo da fala e é tão deliciosamente regional, que precisamos mesmo ler de novo pra entender... não sei se quem não é nordestino ou nortista pega o assunto inteiro, mas vale muito tentar. E vemos um mundo de cidades que nunca ouviríamos falar e de situações de um cotidiano pequeno e maravilhoso e é quando nos perguntamos o que queremos – o que eu quero em mais uma grande capital, ainda mais distante da minha. E isso tudo num livro de ficção, que nos desperta pra mil outras ideias e pensamentos. Meu pai me perguntou, sem ter lido o livro (mas estou atazanando todo mundo que passa por mim nesses tempos com ele, porque só falo desse bendito Getúlio agora) quando vão fazer o filme e eu acho que não combina. Mas dá em música.

sargento-getulio
Sargento Getúlio, João Ubaldo Ribeiro
E como me empolguei muito, resolvi colocar uns trechos aqui:

“Eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu nome é um verso e meu avô era brabo e todo mundo na minha raça era brabo e minha mãe se chamava Justa  e era braba e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu, todas as coisas eu sou melhor. Pode vim.”

“Mas não vou dizer a todo mundo que cortei a cabeça do tenente. Só digo ao chefe e calo a boca e cruzo os braços e boto o olho no vento. E quem quiser que bote o olho no meu. E pronto. E se ninguém quiser ir comigo, eu vou só, aviu Amaro? É, disse o padre, eu não sou esses machos todo.”

“(...)é isso mesmo, padre, é isso mesmo e esse troço já está me dando uma ingrizilha que eu não aguento, nunca tive tanta perturbação, não gosto dele. É como que me dá uma vontade de chorar, mas é de pena de mim.”

“Morrer é como que dormir e dormindo é quando a gente termina as consumições, por isso é que a gente sempre quer dormir. Só que dormir pode dar sonhos e aí fica tudo no mesmo. Por isso é que é melhor morrer, porque não tem sonhos, quando a gente solta a alma e tudo finda.”

E tem muito mais e mais bonito até, como o amor por Luzinete e todo o seu desenrolar. E todo mundo deveria ler. De verdade.

E obrigada, João. Me deixou muito feliz pelo livro e muito triste por não ser possível ler mais, mas vou catar a bibliografia inteira depois disso.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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