• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte


O que esperar de um filme que se chama Amor? Malmente se consegue definir a palavra por sentimento e aí está uma sequência de imagens e sons com o título. O que há no filme para ganhar algo tão almejado por todos? Em tantas músicas, filmes, peças de teatro e poesias, esse AMOR nos mostra mais do que emoção.

Truffaut diz que precisamos trair a realidade para fazer um filme. Essa traição é uma busca pela ilusão necessária do cinema. É preciso comprar o espectador, manipulá-lo, lhe garantir os minutos de alguma fantasia. E diz mais, que os diretores precisam sempre dizer não a alguma coisa para que, a partir desta recusa – ou do estabelecimento de seu dispositivo – buscar a forma de construir uma história. A forma porque cada um tem a sua, pessoal, intransferível – o olhar, nunca o tema (que pode se repetir). Neste filme, o dispositivo que temos é o apartamento. Quase toda a história se passa lá, a não ser por poucos momentos em que o casal indica uma vida social ativa, indo a um concerto. A reclusão é fundamental: a mulher (Anne) sofre um ataque e fica doente. Paralisada um lado do corpo, torna-se dependente de seu marido (Georges) à menor das necessidades enquanto definha. Tendo lhe prometido nunca mais levá-la a um hospital, sua vida se resume a fornecer o conforto para a mulher que ama, a vendo desaparecer diante de seus olhos.

Michael Haneke tem uma forma de fazer cinema. Seu olhar inquisidor parece sempre exigir mais de nós. Violência Gratuita, Caché, Violência Gratuita (remake) e A Fita Branca encarnam temas polêmicos em estruturas que nos obrigam a pensar, nos tirando do lugar comum. Haneke nos engravida de ilusão, por mais realista que seja a obra. E quando as luzes se acendem - sempre se acendem bruscamente em seus filmes - ficamos lá, deslocados com a realidade, ressaltando força e inteligência o que acabamos de ver. Nunca saímos como antes. Amor não é diferente. Confinados no apartamento durante quase toda a duração, não vemos nada além de Georges cuidando e acompanhando o fim de Anne. Ao mesmo tempo, a reclusão os esvazia de realidade, o tempo se perde numa rotina de dias parecidos, numa família que não vê televisão. O contato com o mundo está nas compras que o porteiro faz, nas visitas esporádicas da filha Eva (Isabelle Huppert), sempre culpada por sua ausência e (des)compromisso familiar. É esse isolamento que impõe àquele cotidiano uma gravidade maior, nos preparando para o futuro.

Amor fala do envelhecimento europeu. Com a alta perspectiva de vida, além da previdência social, há a questão de o que fazer com os mais velhos. Uma casa de repouso é a resposta de Eva. Morando em Londres, ela não vê alternativa e não acredita na força do pai. À recusa deste em atender, a solução foi contratar enfermeiras. É esse realismo que a história imprime, a espera diante de um final infeliz firmado num dia-a-dia longo e exaustivo que o afasta do melodrama. Sofremos por conceito, pelo que vemos, mas com uma distância imposta pela ausência de trilha sonora e diálogos firmes. A fotografia de Darius Khondji reforça a frieza do ambiente. Planos fixos, ausência de câmara na mão e aparência natural procuram não enfatizar qualquer caráter emotivo à história já trágica. Ela parece nos dizer 'veja, é assim que se passa a história, preste atenção em como a vida acontece'. Em um filme em que todos os personagens são ligados à música, só a ouvimos quando ela participa enquanto objeto de cena, em momentos específicos. Não há a trilha sonora vinda do espaço, o tema que arrasa corações e nos deixa em lágrimas.

Emmanuelle Riva (Hiroshima, mon amour, Alain Resnais) se despe de qualquer vaidade e enfrenta uma doença da velhice a reduzindo numa senhora frágil e senil, cujo corpo não reage ou se sustenta e o pensamento regride. Assistindo ao filme, fiquei pensando em como uma atriz nos seus oitenta anos se sentiria interpretando uma senhora que está morrendo nos seus oitenta anos. A relativização entre a vida real e seu personagem, ao tempo que não a imuniza de situação semelhante, lhe prepara para um talvez futuro não tão longínquo. Jean-Louis Trintignant (Z, Costa Gavras), por outro lado, segue como se seu personagem dependesse disso, prepará-la para o fim. É dele a prova de amor, o mais profundo, de vida inteira. O carinho no olhar, as confissões inéditas que lhe faz só confirmam que havia ainda muito o que viver e trocar. Mas, ao tempo que Annie deixa de ser, o sentimento se transforma. Agora Georges é também pai. Seu desespero inicial toma o lugar de uma ternura que perde terreno para a paciência e a estafa. Todos os bons sentimentos estão ali, mas até quando, até quanto se pode suportar, até onde é amor?
Deixando o espectador abandonado no cinema, Haneke mais uma vez nos impõe a reflexão. Uma sala grande e lotada saiu calada, cada um pensando em seu futuro ou no presente de alguém próximo. Pensando nesse amor, em Anne e Georges como gente que conhecemos – guardados os excessos ficcionais – em Anne e seu fim, em George e seu fim. Não é um filme tranquilo, é uma representação honesta de um sentimento difícil, sem romantismos ou melodrama e por isso não choramos, não entramos numa catarse, não expiamos nossas dores. Saímos com uma história que não nos pertence, mas nos atinge de forma profunda, como as ações de Georges, como Anne, nas primeiras e importantes sequências do filme. E aí entendemos todas as premiações e, de novo, a força e inteligência do cinema de autor.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Terminei de ler Liberdade hoje. O livro de Jonathan Franzen tem 600 páginas e uma grande história sobre uma família americana. No começo ainda não tinha me encantado, mas investi e em 3 dias terminei o livro, concentrada e naquela agonia das boas histórias que precisamos perseguir. O problema, como eu previ parágrafos antes, está em um detalhe no final da história que me irritou por ser uma saída fácil para um de seus personagens. O que parecia original, com todos os seus dilemas, trama interessante e bem tecida, perdeu um pouco da glória que esbanjava, desatando um nó de forma óbvia. É um livro bom, mas o clichê me entristeceu. Vale a pena ler, mesmo com o movimento em falso.

Hoje um livro, ontem um filme. Fui ao cinema ver o novo alemão que desembarcou aqui. Barbara – título da produção e da protagonista – é uma pediatra de Berlim oriental que após a prisão é enviada para trabalhar num hospital de uma pequena cidade. Barbara tem ódio, não consegue se imaginar vivendo com tantas restrições e é permanentemente vigiada. Enquanto sua casa rotineiramente recebe visitas da Stasi que acompanha seus passos, vasculha sua casa e corpo em busca de evidências subversivas, ela aproveita pequenos momentos de liberdade para tramar sua fuga ao lado do namorado, que consegue circular pelo país e ocasionalmente a encontra. Ao mesmo tempo, conhece e se envolve com a vida local, as crianças que atende e seu chefe no hospital.
No livro vemos o conceito de liberdade tomar proporções pouco imaginadas e passamos a perceber a noção de responsabilidade que a palavra carrega. É uma família de classe média nos Estados Unidos – dos subúrbios de casas iguais com gramados na frente e cerca baixa – nos anos de Bush filho, da política imperialista e anti-terror pré e pós 11/09. As liberdades individuais entram em conflito, reforçando as fragilidades de cada um, a cada escolha que faz. O livro migra nossa atenção entre os personagens os deixando um por um, por alguns momentos, como protagonistas. Assim, pontos de vista diferentes são expostos, realidades individuais, o conceito amplo e pessoal do título se dilui e diversifica, sem perder o eixo narrativo principal. É a era da liberdade total nos Estados Unidos (pra quem é americano), onde o poder é tanto que se pode construir uma guerra sob falsos pretextos, inclusive libertários.
Na Alemanha de Barbara já não havia guerra escancarada. Era uma situação estabelecida, sob pressão de um país dividido. A liberdade existia até a página dois, quando parávamos de concordar com o sistema. As restrições de cultura e comportamento acabavam por moldar o pensamento, transformando alguns em indivíduos amedrontados e outros em vigias permanentes de um descuido alheio, como câmeras de segurança. Assim, mesmo não sabendo a história prévia de nossa heroína (Nina Hoss), nos afiliamos a ela que, com a frieza da resistência e de quem traça uma meta estampada no rosto, contrasta com o carinho que cede aos seus pacientes. Barbara é o oposto de seu chefe, Andre (Ronald Zehrfeld), um homem atencioso por natureza, que guarda a distância saudável de quem atende.
Segundo Setaro, o clichê é um movimento determinado que impulsiona a narrativa. Se usado com exagero se torna previsível e determina uma 'queda' no tecido dramatúrgico ou, mesmo, um 'enchimento' desnecessário. Se este é a pedra no caminho que me incomoda no livro, no filme funciona bem. A história de Bárbara se cruza com a de outros personagens, determinando o rumo da trama, alterando seu percurso planejado. Esses encontros a transformam também; aos poucos ela se permite oferecer migalhas de intimidade em pequenos sorrisos e trocas de olhares. É um filme tenso à medida que sabemos o que nossa heroína quer, vemos seu planejamento e ficamos aguardando, ansiosos, sua liberdade, com uma trilha sonora hitchcockiana. O suspense está ali, como um clichê moralista final, e que até nos deixa com alguma esperança de reviravolta que não acontece e não desagrada.
Filmado em ordem cronológica – surpresa indicada pelo imdb – é acertado o crescimento no tom agressivo e nervoso que carrega. Os personagens ficam mais à vontade uns com os outros à medida que nos aproximamos do desfecho, quase tapando os olhos diante de cada decisão de nossos protagonistas. A fotografia do filme colabora, se aproveita de paisagens lindas e bucólicas, traduzindo o espaço numa cidade em que aparentemente nada acontece. Planos fechados de Barbara e Andre traduzem uma aparente frieza dela e curiosidade dele, sempre contida. A mal entendida passividade de Andre evolui para pequenas imposições quase nunca atendidas pela independência de Barbara, mas ainda assim, com posicionamentos éticos reafirmados à sombra de qualquer dúvida.
O filme é mais um da leva de produções alemãs que tratam de sua história recente. Como no Brasil, Argentina e Chile, rever o passado é fortalecer o ideal de nunca repeti-lo. Adeus, Lênin! e A Vida dos Outros, sobre o período da Guerra Fria e A Queda, A Onda e Uma Mulher contra Hitler já mais próximos da Segunda Guerra são grandes exemplos, todos da última década. Talvez Barbara se destaque por trazer uma história de resistência focada numa personagem forte, desafiadora. Ainda assim, como costumam ser as grandes histórias, essa também cede ao apelo moral e a figura feminina se torna um tanto materna, mas nada que a reduza, apenas a naturaliza num ambiente estéril. Abrindo espaço onde não há liberdade e com poucas saídas satisfatórias, Barbara é um filme completo. Em seus clichês bem preenchidos, retrata uma história que poderia ser muito comum, se não verdadeira e saímos do cinema boquiabertos com Nina Hoss e o equilíbrio na direção de Christian Petzold. Vale as 14 indicações, os 7 prêmios nos festivais europeus e americanos em que competiu e a nossa ansiedade deixada pra trás ao fim da projeção.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários


Todo bebê é um mistério. Acho que até para os pais. Por não falarem, tudo o que sabemos deles vêm de suas expressões, choros, trejeitos. Como um filhote de animal ou como os animais de forma geral. Mesmo tendo sido bebês, é impossível recordar o período, o que nos deixa enternecidos, curiosos e cautelosos com os que fazem parte de nossa vida.

Bebês é um documentário de 2012 que acompanha o primeiro ano da vida de 4 bebês espalhados no mundo. Mongólia, Japão, Estados Unidos e Namíbia são os extremos escolhidos por Thomas Balmès a partir de uma ideia do ator Alain Chabat. O objetivo fica claro com o dispositivo: encontrar famílias com histórias completamente diferentes umas das outras e criar um paralelo entre as culturas através desses pequenos personagens.

O cartaz diz everybody loves babies. Mesmo não gostando da propaganda estranha, é difícil encontrar alguém que os deteste. As imagens do pôster já nos mostram como é impossível não amá-los: crianças lindas com aquele olhar penetrante e fofo. Essa atração irresistível que eles exercem em nós nos transporta para fora do mundo duro e real das notícias de jornais, nos deixa esperançosos e bobos, com vozes estranhas e jeito infantil. A docilidade, ternura e inocência são cativantes e aqui intensificadas pela ausência de diálogo. O diretor disse estar fazendo um filme animalista, mas talvez seja mais correto entender como uma etnografia mesmo, daqueles filmes de antropólogos do audiovisual.

A construção do filme os acompanha do nascimento até o primeiro ano, passando pelo primeiro ‘mamãe’, engatinhar, ficar de pé e finalmente, andar. Comemoramos cada vitória nos sorrisos, choros, banhos e xixis das crianças, junto ao carinho que emana de seus pais. Por não haver palavra – linguagem limitadora numa produção multinacional – vemos todos como iguais e as diferenças culturais nos aproximam, aumentando nossa curiosidade e nos fazendo tender a gostar dos mais distantes. Assim, Ponijao é uma delícia de bebê da Namíbia que vive basicamente com sua mãe, outras mulheres e um rebanho de crianças, mama de outros peitos que não os seus e vive a natureza com uma intensidade só comparada a Bayar, seu respectivo na Mongólia. Este, um bebê explorador é o mais encantador de todos. Acostumado a ficar sozinho em casa, amarrado a um tecido para sua proteção – seus pais precisam trabalhar fora ou ausentar-se constantemente – emana uma tranquilidade ao conviver com diversos animais e uma curiosidade que nos gruda um sorriso na cara, como apaixonados pela primeira vez. Esse acompanhar da câmera e sua equipe não desperta tanto a curiosidade das crianças, lhes permitindo agir naturalmente, reforçando mais uma característica de filmes etnográficos, quando a equipe se torna invisível para seus protagonistas.

Hattie, nos Estados Unidos e Mari no Japão não ficam atrás. O detalhe é que por viverem em grandes capitais, com hospitais, tecnologias e urbanidade pulsante, se tornam mais comuns para nós. Continuamos vibrando com suas fofuras, mas as novidades são poucas. É até mais gostosa a identificação pela diferença que temos por Bayar e Ponijao, por perceber formas de viver alternativas, cujo nosso sanitarismo e senso de perigo jamais seriam permitidos aceitar, mas que não deixamos de concordar com eles ainda assim. A força da cultura, imponência do ambiente e da simplicidade, a rotina nessas comunidades ermas – porque são residências isoladas, com muito pouco de tudo ao redor, exceto a natureza – garante uma liberdade, a construção da independência e a vida com pouco se torna muito mais rica aos nossos olhos romantizados.

Com uma fotografia que equilibra grandes paisagens distintas e seus personagens em planos aproximados, temos os bebês e suas famílias de todas as formas possíveis. Em ângulos fechados, acompanhando suas intimidades com um olhar não invasivo, participando da vida de todos sem necessariamente alterá-las. Tudo isso sempre com aspas, já que a mera presença de uma câmera transforma a percepção que temos da realidade filtrada por ela.

O filme foi feito com muito carinho e isso é sentido em toda a sua construção, confirmado no making of, com as famílias se vendo e vendo as demais na tela do computador. A montagem acompanha os quatro em igual medida, nos dando prazer em assistir, querendo sempre mais. Ao mesmo tempo, mais não é possível. Pensar numa série que os acompanhe seria ótimo se não fosse tão voyeurista e invasivo. No fim, vivemos mais ou menos da mesma forma, especialmente quando somos muito pequenos. O filme me apareceu num momento especial; com tantos bebês de amigos perto de mim, é uma delícia ver seu crescimento entre as viagens para Salvador. Quando chego lá, em média a cada 3 meses, é notável a evolução, como se desenvolvem rápido e como encontro nesses Bebês de Balmès e Chabat os meus sobrinhos. Continuam um mistério para mim e à medida que crescem, as linguagens se desenvolvem e participamos mais da vida um do outro, mas o desvendar, o entendimento através do olhar e o sorriso puro, gostaríamos que ficassem para sempre.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

A primeira vez que me impressionei com Sarah Polley foi assistindo Minha Vida sem Mim (Isabel Coixet, 2003). O filme é sobre uma mãe jovem que descobre ter um câncer terminal. Centrado na atriz, mostra na tragédia a sutileza diante do fim iminente. A protagonista entende ter como missão preparar sua família para que viva bem sem ela. Essa ideia dolorida e forte é mostrada no filme com uma delicadeza rara, poucas palavras e sem melodrama. Ano passado assisti Stories we Tell, dirigido por ela (perdi alguns filmes no intervalo, como A Vida Secreta das Palavras, Coixet, 2005 e Away from her, como diretora, em 2006). Stories é incrível, um documentário que consegue despertar interesse mesmo tratando da vida de sua família, sem parecer invasivo, fútil ou narcisista.

Take this Waltz ou ridiculamente em português Entre o Amor e a Paixão é um romance. A ficção dirigida por Sarah Polley em 2011 e lançado este ano, trata da jovem Margot (Michelle Williams) dividida entre o amor pelo marido Lou (Seth Rogen) e a paixão inesperada pelo vizinho Daniel (Luke Kirby). Depois de Stories, resolvi levar a diretora/atriz a sério. Sarah entrou para a direção apostando alto e resultando em ótimos filmes, em ficção e não ficção. Canadense, consegue fugir do padrão americano raso sem absorver a suposta profundidade do cinema europeu; os filmes sustentam um equilíbrio de ter algo a dizer e entreter a larga audiência. O próprio documentário já assegura isso com uma linguagem tranquila, trazendo ‘pessoas comuns’ para frente da câmera, mostrando sua insegurança, estranhamento e posterior familiaridade com o equipamento. É como se nos víssemos no lugar deles ao sermos entrevistados e, como é um filme de família, lembramos a nossa própria, rindo das piadas internas e do carinho íntimo que transparece na tela. Neste novo filme, por outro lado, há mais do que uma comédia romântica, mas um filme de personagens sensíveis, onde todos são complexos e categorizar como mocinho ou bandido fica impossível.

Michelle Williams, somando um filme bom a outro, se tornou referência para ir ao cinema. Seus personagens fortes encerram o perfil de recém-saída da adolescência – a primeira lembrança de sua carreira vem de Dawson’s Creek. Aqui, mais uma nuance dos relacionamentos é abordada: um casamento estável e recente entre dois jovens adultos perde sua base diante do novo. O dilema entre uma forte paixão que pode se tornar amor e um amor tranquilo, consolidado e também firme marcam a personagem. Seth Rogen é Lou, o marido tranquilo, uma ponta da corda. Aqui o ator deixa a comédia de lado e assume um homem comum, mas não menos interessante. Com ele não há mistério, Lou é franco, direto, aberto. É alguém que praticamente faz parte de nossa família. Da mesma forma, Sarah Silverman se destaca como sua irmã alcóolatra em remissão, também retraindo a veia cômica muito bem. Geraldine em sua sobriedade e intuição ajuda a cunhada, indicando que o vazio que ela pretende preencher é impossível, faz parte da vida. É o mesmo vazio que a faz procurar a bebida, como uma espécie de ansiedade e melancolia que nos pega desprevenidos de vez em quando.

A construção de Daniel é clara: ele é o ideal romântico, o desconhecido, interessante, artista, atencioso. É o personagem fácil de se gostar, é o que vem de fora, o que traz o novo. Daniel é a curiosidade. Ao mesmo tempo que ele desperta o interesse imediato de quase qualquer mulher, há outras razões para Margot ter se casado com Lou que não a estabilidade - provavelmente Lou foi esse mesmo mistério que ela busca em Daniel. Não há certo ou errado, em resumo. A montagem faz questão de explicitar as relações fora de casa nas escapadas de Margot e Daniel, aumentando a (nossa) ansiedade à medida que eles passam a se conhecer melhor; e dentro de casa com Lou, numa outra ótima situação doméstica e íntima, causando mais dúvidas e algum sofrimento em nossa complicada heroína.

O filme ainda surpreende quando vemos um Canadá fora do estereótipo. É verão e o clima quente imprime sensualidade na fotografia vibrante, cheia de primeiros planos, cores fortes, água e suor, vieses por janelas de vidro e cozinha. Vemos poucas roupas e até o toque dos personagens é carregado de tensão. É essa fotografia que nos prende, que alimenta o filme de forma que não percebemos, mas nos faz mergulhar na história aliviados por não sermos aqueles personagens e, ao mesmo tempo, querendo fazer parte do que vemos ali.

Uma amiga foi assistir comigo e disse ‘lá vem mais um filme sem final’. Acostumada às comédias românticas francesas e americanas, ela prefere aqueles filmes redondos, onde tudo que há pra ser dito é resolvido ali mesmo, na duração do filme. Mas se este se pretende mais próximo da realidade (à exceção da incomum profissão de Daniel), talvez ele não careça de um finalzinho redondo, mas de reticências, interrogações e alguma deixa para o futuro. Sarah Polley faz isso muito bem, talvez seja uma característica dela e não exclusiva da profissão, nas histórias que ajuda a construir, independente do gênero a que se dedica. A condição de permitir que participemos, que elas tomem nossos pensamentos quando saímos da sala, que nos faça discutir e imaginar ou que, pelo menos, tenhamos vivido umas duas horas de prazer, já valem o ingresso e a espera pelo próximo filme.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários

Continuando o livro de Polanski, cheguei ao momento em que ele conta a morte de sua mulher, Sharon Tate. A atriz, grávida de 8 meses, foi assassinada em casa pela família Manson em 1969 na Califórnia. Charles Manson é um maníaco hippie que criou uma seita nos anos 60, cometendo uma série de assassinatos. Eu conhecia a história há algum tempo e ela sempre me remete à cena do estupro de Laranja Mecânica, então decidi rever.

Laranja é uma das adaptações literárias (do homônimo de Anthony Burgess) mais cultuadas do cinema moderno. Se você for a qualquer videolocadora – considerando que elas ainda existem – estará na prateleira de filmes cults ou clássicos modernos ou ainda, cinema de autor – Stanley Kubrick. A estória gira em torno de Alex (Malcom McDowell), jovem líder de uma gangue que pratica a ultraviolência – assaltos, estupros, arrombamentos, espancamentos – encorajados por drogas. Após matar uma mulher, Alex é sentenciado a 14 anos e se candidata a um tratamento correcional experimental oferecido pelo governo. Sai da prisão dois anos depois, avesso à violência ao limite da náusea e pensamentos suicidas. Ao voltar para casa, descobre que ali não é mais seu lugar, reencontra acidentalmente suas vítimas na rua e se torna, ele mesmo, vítima delas.
A importância do filme está tanto no texto quanto em sua adaptação. Kubrick manipula as características de Alex, o tornando simpático em todo o seu sadismo; aprendemos a gostar desse sujeito sarcástico que nos seduz com o olhar, com a liderança do grupo e a narração irônica, com neologismos próprios à geração jovem. O Alex de Burgess, por outro lado, é menos cativante, conforme conta Pauline Kael em sua crítica em 72. Ela diz que no livro Alex atropelava animais, espancava outros presos e gostava de garotas de 10 anos. Foi dela a conclusão de que nos filmes, somos gradualmente condicionados a aceitar a violência como um prazer sensual. Kubrick faz isso com precisão – ao tempo que nos traz um protagonista-vilão que se torna simpático apesar do que provoca, pinta todos os outros personagens (exceto o Ministro do Interior – outra figura sedutora) literalmente com tintas carregadas. São caricaturas de pessoas, estridentes, barulhentas, irritantes, cheias de maquiagem, cabelos coloridos e figurinos esdrúxulos, quase saídos de um filme de David Lynch. Ou estão à beira da passividade, como os pais de Alex, ou ao ponto de um surto psicótico, como o escritor, a dona do spa, o histérico diretor da prisão.  É impossível estar ao lado deles.

A fotografia dos filmes de Kubrick parece ser sempre estratégica. Com temas violentos, o diretor combina poucos momentos de câmera na mão – a movimentação da subjetiva por si só aumenta a agonia do espectador – com o oposto: planos quase fixos, com a câmera correndo em trilhos, em travellings lentos horizontais e aprofundando – com o apoio das locações e cenários – a perspectiva, em busca da nossa ansiedade da descoberta. Como resultado, queremos sempre ver. Para além de um bom filme de terror – em que ficamos entre descobrir e sofrer junto às vítimas (o olhar entre os dedos) – Kubrick orienta nosso olhar sempre para o centro da tela, o importante está ali, como um caminho que vai se afunilando, a frágil luz no fim de um túnel que nunca termina. Queremos e precisamos saber o que acontece, mesmo entendendo que dali não sairá nada bom.
Ainda nas cenas fortes, enquanto Alex é o algoz há sempre alteração da velocidade do corte e da cena em si, esvaziando a gravidade do que vemos, transformando o crime numa paródia teatral. Um espancamento em slow com música clássica às alturas remete mais a um espetáculo de dança do que chutes e socos; a animação quando ele ataca a dona do spa e até um ménage acelerado ganha outras conotações. Nada ali parece muito sério, tudo é parte de um balé sádico, mas infantil. Kubrick nos diverte ao invés de incomodar. Quando, por outro lado, Alex se torna vítima das experiências como cobaia na prisão, quando revê seus pais ou reencontra suas vítimas, a câmera espera: a montagem quase para, nos obrigando a uma contemplação que beira o tédio, de ver a apatia do personagem transformado e a ruína de suas expectativas, agora que está livre.

A relação entre o assassinato de Sharon e o filme é clara: vemos a casa do casal invadida pela gangue, o marido amarrado e preso e Alex cortando a roupa da mulher. Percebemos o horror do acontecimento no olhar agonizante do marido: a câmera nunca se vira para nos mostrar o óbvio, mas se concentra expressão torturada daquele que nada pode fazer. Sharon foi assassinada na ausência de Polanski, que estava em Londres, à espera do visto americano. A atriz estava em casa, com mais 4 amigos e amarrada a um deles – provavelmente pensaram que eram um casal. Todos foram amarrados e assassinados a facadas pelos Manson que, da mesma forma, chegaram no meio da noite.
As reviravoltas do filme abrem um leque para o imprevisível: fica clara a crítica à sociedade, à forma de governo, a uma geração perdida. A ficção científica traduz uma época em que nada parece progredir, quando as transgressões são a regra. A moral se perde à medida que vemos a trajetória de Alex e não sabemos o que é pior, sua transformação em um robô programado para o asco à violência ou sua versão original nociva por natureza. A dualidade que encontramos no herói se torna o cerne do filme, automaticamente destruindo a importância das consequências de suas ações em um futuro infeliz.
Visto pela primeira vez, o filme é de um impacto tremendo para o espectador. Esteve na minha cabeça como um dos melhores filmes que já vi por muito tempo. Numa segunda vez, isso se perde um pouco, já que sabemos todas as alterações de percurso de Alex. Ainda assim, é um filme para rever, mas confesso que em alguns momentos perdi o ritmo e a excitação que o olhar de Alex provoca. Mas, a sedução é permanente: as variações da nona sinfonia de Beethoven, nossa alegria quase masoquista de sofrer nos filmes de Kubrick, a fotografia inteligente e narração triunfante são imortais. Não sei mais se está entre os meus dez melhores filmes, mas entre os cem, com certeza.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Roman Polanski tem uma história de vida difícil de defender. Tal qual Woody Allen, lhe pesa uma acusação forte e bizarra, entre estupro e pedofilia que o torna asqueroso e quase dá raiva ver seus filmes ótimos perderem valor com as acusações que recaem sobre seu diretor. Em todo caso e sem defender ninguém, trago a crítica de Repulsa ao Sexo (1965), indubitavelmente um grande filme.


Há uns anos, comprei uma autobiografia de Roman Polanski num sebo. Comecei a ler, mas me perdi no meio. Depois de ter visto um documentário meio fraquinho sobre ele no Festival do Rio, peguei o livro de volta. Boa parte do que Roman contava na conversa com o amigo diretor do filme, eu já havia lido, mas me deu uma curiosidade de saber com que filme ele conseguiu o reconhecimento.

Depois de A Faca na Água (1962) – seu primeiro filme com alguma reputação na Europa – Roman fechou em Paris em 20 dias o roteiro de Repulsa ao Sexo. Em sequência, foi à Londres e lá conheceu a Compton Club, uma mistura de produtora de filmes e exibidora de eróticos que queria mudar de ramo – e de imagem. Eles toparam fazer o que classificaram como filme de terror. Fecharam o orçamento em 45 mil libras – que logo se transformaram em 95 mil – e depois de alguma dificuldade de produção, o filme ficou pronto.

Como resultado, Repulsa ao Sexo tornou-se um compromisso artístico que nunca chegou à plena qualidade que eu buscava. Rememorando, os efeitos especiais me chocaram como sendo descuidados e os sets poderiam ter sido mais bem acabados. Entre todos os meus filmes, Repulsa ao Sexo é o de menor qualidade – tecnicamente, bastante inferior ao padrão que tentei alcançar. Sua insatisfação é justificada no livro; como o filme estourou o orçamento, volta e meia seus produtores tentavam encurtar a produção, afetando o resultado final. Ainda assim, Roman conseguiu muito do que tentaram cortar, mas sempre sob grandes lutas e discussões que quase o levaram a desistir. Com todo tormento, o filme é soberbo, Repulsa levou o Urso de Prata em Berlim, em 65.

Carol (Catherine Deneuve)
Contando com Gil Taylor, o fotógrafo de Dr. Fantástico (1964)  e Os Reis do Iê-iê-iê (1964), o filme é genial. A censura inglesa não fez cortes e psicanalistas perguntaram a Roman o que ele havia estudado para a construção de Carol, a personagem de Catherine Deneuve baseada em nada além de uma garota estranha que saía com um amigo dele em Paris e alternava entre a repulsa e um desejo sexual desenfreado. O filme é centrado nela, uma manicure linda e jovem, tímida e introspectiva que mora com a irmã. Insegura com a proximidade da viagem de férias desta, Carol insiste para que ela fique em casa, quase um apelo desesperado como quem vislumbra o mal à espreita. Dito e certo, quando só, Carol inicia um surto psicótico com alucinações de homens vindo a seu encontro. O filme foi o primeiro da trilogia do apartamento que surgiria com o sensacional O Bebê de Rosemary, em 1968 e O Inquilino, em 1976.

Trabalhar com Catherine Deneuve era como dançar um tango com um parceiro super hábil. Ela sabia exatamente o que eu desejava dela no set. Entrava direto no âmago do seu papel – tanto, que quando a filmagem terminava, ela própria parecia alheia e um pouco aloucada. A essa época, Catherine tinha 22 anos, mas já uma carreira no cinema, tendo feito mais de dez produções. A atriz segura o filme quase silencioso, com a câmera sempre próxima a seu rosto sem maquiagem, reagindo ainda à trilha sonora que enfatiza a tensão sem a gratuidade do suspense americano. O único momento de maior impacto sonoro é a primeira cena de alucinação, que nos faz pular da cadeira.


As notas de produção sobre Repulsa estão em pouco mais de dois capítulos do livro. Dá vontade de seguir contando tudo, mas aí se perde um pouco do filme. Vale ver como o suspense é criado com pouquíssimos diálogos, como Catherine incorpora Carol e como é esse estar alheia e um pouco aloucada de que trata o diretor. O olhar perdido, a ameaça constante de algo que não vemos, a distorção dos espaços. Para isso, a produção construiu um apartamento cujas paredes pudessem se mover, a fim de criar a ilusão de alteração da percepção espacial que uma distorção psíquica pode provocar. Hitchcock havia feito isso antes em Um corpo que cai (1958), quando James Stewart sobe uma longa escada em espiral. Com medo de altura, ao olhar para baixo a escadaria parece ainda maior e é, na verdade. Não havendo forma de alterar graficamente as cenas na época, era sempre necessário construir cenários flutuantes para garantir o efeito desejado. 

Repulsa ao Sexo se tornou a porta de entrada oficial de Polanski ao cinema do mundo. Com uma biografia tortuosa que envolve sua família campos de concentração, Segunda Guerra, lares adotivos, assassinato da esposa e suspeita de estupro, não existe forma de não respeitar esse cineasta por sua resistência. Desde pequeno buscando a educação profissional para o cinema, considera O Pianista (2002) seu melhor filme – talvez por ser um pouco autobiográfico – o que nunca significaria que os demais não são tão bons quanto. Repulsa e Rosemary, Lua de Fel (1992), A Dança dos Vampiros (1967) são inesquecíveis. Talvez em O Pianista ele tenha conseguido tudo o que sempre quis num filme e portanto a preferência, mas a tensão criada e os desdobramentos inevitáveis de Repulsa nos deixam meio estranhos no final, pensando, como ele nos conta, que qualquer pessoa, uma vez ou outra, experimentou um pavor irracional de alguma presença sinistra em sua casa. Uma ocasional troca de móveis, um assoalho que estala, um quadro caindo da parede – qualquer coisa pode disparar essa sensação. O que criamos a partir deste medo é que vai nos distinguir ou nos aproximar de Carol. Mas isso é outra história.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
    Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
  • Spotlight
    Spotlight
  • Livro da Semana - Física em seis lições
    Livro da Semana - Física em seis lições
  • Amy
    Amy

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose