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Café: extra-forte


Outro dia li uma matéria sobre Jonathan Frazen, escritor do mais novo e comemorado best-seller Liberdade. Ganhei o livro e não o li ainda, mas o que me despertou foi sua fala sobre a importância do romance na cultura. É até óbvio pensar isso, sendo ele um escritor de romances, mas é bom que o assunto apareça quando livros de auto-ajuda e biografias desnecessárias pipocam por aí. O romance nos transporta para outros mundos, estórias de vidas possíveis e impossíveis, culturas distintas. Criamos um filme para cada livro que lemos. O romance é desprendido de obrigação; se lê por prazer. Para o romance precisamos de tempo, daquele que não tem nada a ver com internet, tecnologia, bate papo, rede social. O romance só precisa que você se aninhe numa poltrona gostosa e preste atenção.

Não conheço muita gente que lê assiduamente. Como também não conheço muita gente que gosta de Woody Allen (que também escreve!). Acho que os filmes dele são como esses romances aparentemente simples, mas que vão te ganhando página por página e às vezes o prazer que sentimos nem está na história em si, mas na forma como somos levados por ela, na narrativa.

Já falei que Woody usa o cinema clássico como base para seus filmes. Há o narrador onisciente que pontua o que é importante e os filmes costumam misturar gêneros, mas sempre de forma diferente, com aquela característica sutil que define um cinema de autor – quando sabemos, ainda que por intuição, quem é o diretor (o produtor ou o roteirista) do que estamos vendo. O último, Para Roma, com amor não é diferente.

A grande decepção está em quem imagina que esse filme será como Meia-noite em Paris. Meia-noite é incrível e surpreendente, tem uma trama original e o diretor se aproveita da onda cultural europeia dos anos 20 pra fazer uma de suas melhores comédias. Roma, que também não é como aqueles filmes nova-iorquinos que fizeram sua carreira, segue outro caminho. Ao invés de se concentrar numa única trama, os contos acontecem como nosso narrador explica, que em Roma, tudo é uma história. A partir daí temos um pai de família de classe média (Roberto Benigni) que se torna famoso da noite para o dia e sem motivo, com direito a paparazzi; uma moça do interior que se perde na cidade e termina num quarto de hotel de um ator italiano; o marido dela que entra numa confusão com o futuro chefe e uma prostituta (Penélope Cruz), não suficiente Woody Allen é pai de uma americana que vai se casar com um italiano socialista e descobre no pai deste um cantor de ópera e ainda, Alec Baldwin junto com Jesse Eisenberg e Ellen Page numa história deliciosa sobre o romance propriamente dito. Acho que não falta mais nada. Com tantos recortes, só nos resta entrar com a pipoca e nos perder pelas ruas e paisagens italianas.

O filme que traz a comédia como ponto forte, destaca com ela as outras ideias do momento: a fama sem motivo e prazo determinado, o que consideramos arte, a vaidade e, o simples mesmo, os costumes. Alec Baldwin faz o papel do ‘fantasma’ que assombra a consciência do personagem de Eisenberg, que vai receber em sua casa a amiga da namorada. Ellen Page chega e, se de imediato não impressiona, depois de um tempo e algum jogo de sedução, se torna uma paixão avassaladora. Ela me lembrou a personagem complicada de Cristina Ricci em Igual a tudo na vida (Anything Else, 2003). O mesmo jeito nervoso, a mesma farsa cult. O momento Benigni traz de volta a comédia italiana num papel de homem simples e perdido na vaidade que lhe foi imposta com a fama. Não preciso nem lembrar as referências de fama volátil (jogadores de futebol, bbbs e a lista é grande) que temos por aqui. Essa brincadeira também remete àqueles nossos programas matinais incriveis e de conteúdos sempre fundamentais aos seres humanos, como o que o artista fulano comeu no café da manhã. 

As delícias desse filme não se comparam à fantasia de Meia noite. Aqui temos estórias diurnas, rápidas, contidas nas falas altas de Penélope Cruz, no noivo italiano lindo, charmoso e sério (para contrariar o estereótipo), nos jantares tensos de sua família, no conto da paixão de verão. Essa fase Europa de Woody Allen vem cheia de novos sabores e cores vibrantes – a impressão que dá é que o fotógrafo agora tem uma importância maior – ou que nos outros filmes não nos preocupamos tanto, por serem sempre nos Estados Unidos. Talvez o mais distinto de todos seja, na verdade, Vicky Cristina Barcelona mas, ainda nele, vamos umas neuroses palpitando aqui e ali.

Para Roma com Amor é fortemente um filme turístico; vemos tudo o que é bonito e agradável. É um filme que acontece no cotidiano das pessoas, na forma em que as histórias simples funcionam, com leveza e graça. Os filmes de Woody deixam a impressão de que são fáceis de fazer, mas sua construção é complexa. Orquestrar uma equipe deste tamanho – ainda que seja só uma parte do todo (porque o diretor não precisa falar com toda a equipe sempre, mas com os que estão mais próximos) – e manter o clima do filme leve é um grande trabalho. Conseguir o resultado que vemos e com a qualidade e o talento de sempre, só se consegue com uma rotina de produção constante. Vale lembrar que nosso diretor faz em média um filme a cada um ou dois anos, cronograma apertado para muitos artistas. O que me deixou preocupada na verdade foi notar que a idade está finalmente chegando pra Woody Allen. Ele pareceu estar mais frágil fisicamente nesse filme. Ainda assim, não perdeu a mão e agora só nos resta esperar o próximo romance, em qualquer poltrona, com cinema ou literatura.

Título Original: To Rome, with love.
Diretor: Woody Allen
2012, EUA, Itália e Espanha. 112min.
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Buscar apartamento no Rio de Janeiro não é uma tarefa fácil. Não é para corações fracos e há que ter estômago. É uma situação absurda frente o valor dos imóveis (especialmente na zona sul) e a abordagem anacronicamente esnobe das imobiliárias. Parece sempre que estamos pedindo um favor: por favor, me permita alugar este imóvel por um preço abusivo. Nesse momento, precisamos parar um pouco pra respirar. Tem gente que enche a cara, faz meditação, terapia, se estressa ainda mais... entre tantas coisas que também faço, uma delas é imprescindível: ir ao cinema. São várias opções para destilar o ódio no coração que fica fácil passar duas horas numa sala escura não pensando na vida real.
***
Outro dia consegui escolher o filme: O Exótico Hotel Marigold é uma comédia leve, com grandes atores e que parece ser um desses filmes de verão, só que inglês (ao invés daquelas coisas meio sessão da tarde americanas). Com um roteiro leve e promessas de satisfação garantidas no trailer, ficou fácil. A história começa com a apresentação dos protagonistas: uma turma no fim da meia idade, insatisfeita com a vida que leva na Inglaterra, encontra num site a propaganda deste hotel magnífico, numa área paradisíaca da Índia e prometendo uma experiência única de vida. Um espaço para passar seus golden years em grande estilo. O grupo se conhece no aeroporto ao descobrir que têm o mesmo destino.

No elenco indiano, encontramos Dev Patel (o protagonista de Quem quer ser um milionário), como o gerente do hotel. A interpretação dele incomoda um pouco. Não sei como são os indianos na vida real, mas este me pareceu extremamente agitado para qualquer padrão. Com uma necessidade de sempre agradar os clientes num hotel caindo aos pedaços e os tendo como únicos hóspedes, não poderia ser diferente, mas ele sustenta uma aura de extrema ansiedade, combinada com uma agitação exagerada. A falta de respiração é tão constante que sua presença cansava, imaginando aquela positividade como uma esperança diante do impossível, uma agonia romântica. Em contrapartida, quase todos os outros personagens indianos do filme são pacientes, na medida correta (ou verossímil...).

Judi Dench é quem carrega o filme do lado inglês. Ela é nossa narradora ocasional a partir do momento que decide escrever um blog para contar ao filho à distância, a nova aventura. Ela acaba de se tornar viúva e viver na Inglaterra sem o marido perdeu o sentido. Como alternativa, resolve partir do zero num país desconhecido, completamente diferente de tudo o que já viu e com pessoas que lhe eram estranhas. Com coragem, consegue um emprego numa empresa de telemarketing, tendo como diferencial treinar os funcionários para atender o púbico de que faz parte adequadamente.

Encontramos também outros grandes atores, todos nomeados no cartaz, com destaque para Bill Nighy, no papel do marido que todos gostaríamos de ter. Este homem doce e gentil sofre com a intolerância da esposa que não consegue enxergar além de seu universo de mulher mimada e preconceituosa portanto, não se adapta.

Ainda e não menos importante, Maggie Smith faz uma das personagens importantes, talvez a que mais se transforma. Com uma postura rígida, acompanha a maior parte das outras estórias individuais, mas, ao contrário de Judi Dench que nos conta um pouco mais de si e dos outros, a primeira atua como uma observadora crítica e distante. Ao mesmo tempo, a partir do momento em que necessita da ajuda de outro e aí o confronto com as diferenças entre as culturas se torna evidente, é que surge a reviravolta e sua história se transforma.

Cada um parece estar ali não apenas para essa experiência exterior, como para – lembrando Comer, Rezar, Amar – se reencontrarem. Os dois filmes são parecidos nesse sentido; os personagens vão a um lugar diferente, buscando o estranho e acabam reconhecendo e relembrando quem são. Como o roteiro é  estruturado em cima de um grupo protagonista, temos ritmo e alguns momentos-chave; as interpretações dos estereótipos ganham peso frente às estórias particulares que devem preencher. Ali, sem conhecer ninguém, não é necessário manter uma máscara ou uma postura defensiva, mas dá para baixar a guarda e se permitir não censurar.

Com uma leveza nada boba – ao contrário de Comer... que acaba irritando quem o assiste – o filme nos guia entre piadas, estórias nem sempre tranqüilas e uma boa dose de sinceridade. Judi Dench nos carrega e junto com seus novos companheiros de vida mostram que uma nova oportunidade está sempre ali – com o perdão do clichê – basta saber procurar. Neste caso, a conclusão do filme tem ainda um plus, de não sabermos exatamente como terminaria cada estória, sem, no entanto, deixar nada por responder.


Título Original: The Best Exotic Marigold Hotel
2011, 124min, Reino Unido.
Diretor: John Madden.
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Correndo contra o tempo e tentando conciliar muitas obrigações e pouco lazer, finalmente assisti a Sete dias com Marilyn, com grande expectativa depois de ter visto o trailer e o lindíssimo cartaz. Saber que Michelle Williams faria o papel me convenceu sem precisar de sinopse. Vamos falar dele?

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Sete dias com Marilyn

O filme trata da adaptação do livro de Colin Clark (Eddie Redmayne), na época terceiro assistente de direção, que conviveu com Marilyn Monroe e o elenco de O Príncipe Encantado, com sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Segundo a estória - que ainda carrega a experiente Judi Dench e a mocinha de Harry Potter, Julia Ormond em papéis menores - Laurence era apaixonado por Marilyn e achou que trazendo ela à Inglaterra, conseguiria um grande filme e um grande amor. Só não sabia quão difícil seria conviver com uma estrela ainda maior do que ele.

Michelle Williams é Marilyn, uma atriz no auge da carreira, com trinta anos, três casamentos e não à toa, problemas com barbitúricos. A atriz consegue carregar a protagonista como eu não imaginei que ela fosse capaz, com toda a insegurança por trás do mito, seus problemas, mimos, dificuldades, refletindo ainda numa carência e numa dependência de todos que estavam ao seu redor. A atriz - que não tinha traços nem o corpo da diva - se transformou de tal forma que era impossível não ganhar o Globo de Ouro. 

Colin foi o garoto novo que deu a sorte de cruzar olhares e cativar a grande atriz. Com um jeito de ‘menina levada’, fetiche dos homens de então, todos se apaixonavam por ela por ser diferente, por não ser o padrão da mulher recatada e certinha da época com quem todos acabavam casando. Busquei a biografia da moça e sua história traz respostas: Marilyn não teve a família tradicional, foi abandonada pelos pais e viveu entre orfanatos e casas de família. Casou aos 16 para evitar outro orfanato e foi descoberta para o cinema com uma beleza e um carisma inigualáveis até hoje.

O filme me lembrou Sex and the City. Morando sozinha e sem tv a cabo, acabei aproveitando para rever alguns episódios e relembrar minhas amigas de Salvador e outras que fiz no Rio, hoje espalhadas pelo mundo. São as conversas intermináveis nos cafés, almoços, cinemas, bares e livrarias que me ajudaram a sobreviver nesses anos de pós-adolescência. A chegada à vida adulta, ao trabalho, estudos, moradia e relacionamentos precisam de muito debate, sempre. Ainda na série, o grande sucesso está na facilidade com que as quatro mulheres solteiras e bem sucedidas de NY vivem e tratam de sexo, carreira e relacionamentos de uma forma nunca vista antes – pelo menos na televisão. 

Há uma honestidade nas cenas, uma franqueza e um despudor que ao contrário de vulgarizar, torna os diálogos realistas e sinceros, não como um guia de comportamento, mas em conversas íntimas e finalmente compartilhadas, trazendo pra mesa o que antes ficava preso em casa e nos diários. As referências para as histórias, a moda, o sexo são reais e tão fundamentais para a formação quanto a educação que tivemos em casa ou a escola de nossa infância. Essa terceira etapa ajuda a nos definir, a desenvolver a personalidade, reforçar amizades e, porque não, contribuir para o nosso posicionamento com o mundo. 

Marilyn aparentemente não teve isso. Muito cedo ela viveu o sucesso e a solidão. Segundo o filme, as amizades não eram mais do que muletas ou profissionais em atendê-la de pronto e personalizadamente. Ao encontrar com nosso escritor, ela chega perto de vivenciar uma experiência, um romance de sonho pra ele e o que poderia chegar mais perto de pessoa normal pra ela. Por isso ela se apegou a ele naquela curta semana, por ver ali a possibilidade de algo puro e sincero e, no mínimo, uma companhia. Ainda assim, falamos de um mito, uma lenda e é assim também que a vemos aqui. O filme nos deixa apaixonados pelo personagem que Marilyn Monroe se transformou, basta relembrar a cena em que a protagonista canta na banheira ou ri com o protagonista em casa. 

O que dá o que pensar é que tanto as mulheres de Sex and the City quanto a Marilyn deste filme têm quase o mesmo perfil. Guardadas as diferenças de contexto, são mulheres bem sucedidas que são ou querem ser livres e percebem mais ou menos da mesma forma os relacionamentos, sempre desafios e enigmas. No entanto ainda hoje – poucos anos depois da série e muitos depois da atriz – o pensamento continua o mesmo. As histórias íntimas de todas estas personagens corajosas se repetem com as pessoas normais de qualquer tempo. 

Os romances, as críticas, os envolvimentos, ser solteira, namorada, casada, amante, de caso, com mais ou menos censura e dinheiro, perpassam gerações – o que muda são os termos, o tamanho das saias, a etiqueta. Até os preconceitos são iguais. Aparentemente, o que faltou a Marilyn foi a companhia feminina, ouvidos atentos e bocas doces e sarcásticas que a ajudassem com as dificuldades da vida.

Enquanto na década de 1950, Marilyn dominava os corações, audiências e filmes americanos exibidos no mundo inteiro, hoje vemos outras tantas Marilyns – respeitando a importância e singular majestade da primeira – em nosso cotidiano. A personagem que eu vi neste filme, engrandecida pela fotografia privilegiada, linda e característica da época, me passou uma ideia de uma mulher extremamente frágil – ou uma menina – lidando com uma pressão muito grande e uma exigência em se manter personagem a todo instante, sem nem saber direito quem é. 

Marilyn Monroe se fundiu em fantasia e realidade. Não me recordo de outros filmes que tragam cenas de sua história real à tona – mas imagino que existam alguns documentários – mas este trouxe o mito para mais perto de nós. Ainda assim, a impressão que temos é a de que é impossível não se apaixonar por ela. E, claro, agradecer por ser a pimenta que foi, ajudando a trazer um pouco mais de leveza e graça às vidas das mocinhas certinhas de então. Se é que elas realmente existiram.

Título Original: My week with Marilyn
2011 / UK, USA / 99min
Dir.: Simon Curtis.
Site oficial
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Agora me dei conta que não escrevi nada sobre o Chile. Foi minha primeira viagem pra fora do país sozinha. Não conhecia ninguém, à exceção de um contato de uma amiga de uma amiga que ia se casar por lá. Claudia é chilena ia se casar com um carioca em Santiago e generosamente me convidou para a festa. Sem nunca ter me visto.

Descobri que quando viajando só, as coisas mais fantásticas podem acontecer a qualquer momento, em qualquer esquina. Este casamento para poucos é um grande exemplo. E o mais legal é que não conhecendo ninguém, absolutamente tudo se torna novo. A cerimônia foi linda e rápida, percebi que se não todos, muitos eram amigos próximos e que estavam ali com a alegria de ver duas pessoas que se amam, casando. Me colocaram na mesa dos brasileiros e o que achei que ia ser um evento – para mim, de poucas horas – me fez ficar até o final e acordar meus colegas de quarto quando cheguei ao albergue. Bebemos muito, dançamos ainda mais e comecei a viagem da melhor forma possível.


Santiago é uma cidade especial. Provavelmente essa é uma frase que vai se repetir em todas as viagens, já que cada uma deve abarcar um monte de coisas, lugares e culturas interessantes. O negócio é que todos que tinham ido à Santiago (bem menos pessoas conheciam, ao contrário de Buenos Aires), me falavam que a cidade não era nada demais e nem tão charmosa quanto a portenha, que realmente é incrível.

Santiago é limpa, organizada, seus sistemas parecem funcionar muito bem e todas as pessoas foram muito educadas, simpáticas e prestativas. Do segurança do metrô a todos os policiais. Não é uma cidade de tango, ou cidade sensual como as nossas, mas ela vai te encantando sutilmente, você vai criando intimidade aos poucos e se surpreende sempre com a brutalidade com que a natureza se apresenta no meio de uma capital federal. É virar uma esquina e está lá, a cordilheira, como um imenso desafio, piscando pra você.


Em Santiago, os homens não te cantam nas ruas (à exceção do moço do caminhão que me mandou um beijo e pediu uma foto) e nas boates, te convidam apenas para dançar. E te pedem que olhe nos olhos. Essa é uma diferença brutal de comportamento, pelo menos pra mim. Quando nos chamam pra dançar no Brasil é um indício de que vão, no mínimo, lhe tocar, abraçar, encostar em você... e nunca se preocupam com os olhos. O rapaz que me convidou não estava interessado em mim, mas em outra brasileira do meu albergue e foi por isso que começamos a conversar. Ele era um pouco tímido e ela não se interessou. De alguma forma participei do assunto, já que ela não entendia muito espanhol e fui facilitar o diálogo. Terminei conversando bastante com ele, que tinha uma doçura no olhar, misturada com uma firmeza, alguma segurança de pessoa tranquila. Dancei com ele, mas era estranho perceber que ele ficava em encarando. Era estranho e divertido ao mesmo tempo. E intimidante. Até que ele percebeu e me questionou, por que eu não olhava pra ele. Expliquei que era muito diferente pra mim e que ficava tímida, e então ele me deu a sacada da coisa toda: se você olha nos olhos de um rapaz, ele é quem fica tímido e abaixa o olhar. E com isso, entendi como a cidade funcionava.


Quando começo a pensar nesta semana, milhões de pequenas histórias passam pela cabeça, não tanto como filmes, mas como um complexo amontoado de percepções íntimas, emoções de todo tipo, cenas incríveis, diálogos e vinho, muito vinho bom e despretensioso.

Fiquei num albergue perto da Avenida Brasil, mas foi sem querer. La Princesa Insolente me ganhou pelas fotos e pela pesquisa, e acertei em cheio. Não ficava no pico turístico, nas Ipanemas ou Copacabanas, mas era um espaço acolhedor e com muita gente disposta a conhecer mais gente ainda. No meu quarto eram 2 rapazes e 2 moças, contando comigo, mas nunca o mesmo grupo todas as noites. Um deles mais tarde se tornaria um companheiro acidental de quase a viagem inteira, incluindo o Atacama. Fabien é suíço e também estava viajando sozinho, com uma duração de jornada que só europeus e norte americanos conseguem ter.  Eu tinha uma semana em Santiago, outra no Atacama e parecia surreal só quinze dias para tanta coisa. De uma forma maluca, consegui encontrá-lo nas duas regiões e viramos companheiros de viagem, sempre trocando informações fundamentais, não importando se estávamos juntos ou não. A internet facilitou bastante o processo e íamos empolgando um ao outro sobre o que fazer ou não, especialmente no Atacama.


No topo do morro La Concepción tem uma santa. Como o Corcovado daqui, só que com outro clima. Claro, tinha o turismo, mas tinha silêncio. Todos tiravam fotos, mas falavam baixo e tinha uma arquibancada para sentar e ver a cidade inteira lá embaixo. Tinha também aquelas estantes com milhões de velas, promessas, pedidos e flores. A impressão que eu tenho é de que a cidade tem um tempo diferente. As pessoas param. Sentam, olham a vista, ficam nos parques, namoram. Olham nos olhos. Basta lembrar de Neruda e sua história e já dá pra ter uma ideia. E Salvador Allende. E o GAM. E a Catedral. E a garota da Catedral, desenhando calada o que acontecia ali.

E os cachorros? Santiago é uma cidade de cachorros. Estão em todos os lugares, vira-latas bem alimentados, tranquilos, convivem pacatamente com todo mundo. Estava no centro, atravessando uma rua para chegar ao prédio lindo do Correio, um monte de gente esperando o sinal. Uma policial estava do meu lado e um cachorro entre nós. Ele fez que ia atravessar antes da hora e a policial lhe chamou a atenção como se fosse dela. O cachorro obedeceu e atravessou a rua conosco. Não vi cocô nas ruas. Não sei como eles fazem para lidar com isso, mas nesse mesmo dia visitei o Museu de Arte Pre-colombiana, que também achei que ia ser um passeio rápido e me tomou um tempão. Lá tinha a história de como os cachorros eram elementos fundamentais da cultura. Tem uma escultura de um cachorro e uma explicação de que naqueles tempos eles eram guias de passagem para quem ia a La tierra de los muertos. É uma fidelidade que se mantém hoje, ainda mais quando lembramos dos filmes, tem até um com Richard Gere (com cara de ser bem meloso e ruim) que fala disso.


Em novembro, Santiago é quente e agradável de dia e fria à noite. O clima é meio seco, o que faz um bem danado pros cabelos e pra pele, desde que você também use hidratante. Senti mais sede do que o normal e era uma boa desculpa pra provar os sorvetes deliciosos de lá. Como não estou podendo comer frutos do mar, perdi uma grande parte da gastronomia, mas passei bem com as carnes e legumes. É uma cidade em que a comida não é das mais baratas, mas pra quem vive no Rio, tudo é possível e as porções são generosas. Ah! E as empanadas são sensacionais. Bem como as lojas de departamento. Precisava de roupas para o deserto e foi o que me salvou.


Esse ano, trabalhando no É Tudo Verdade, acabei conhecendo um casal de chilenos. O marido era protagonista do documentário do filho e passei alguns momentos com eles. De novo, pessoas incríveis, educadas, calorosas e tranquilas. Deve ter algo diferente na água de lá. E pensando bem, tem muito mais pra falar, mas vou deixar os pensamentos se organizarem um pouco mais, junto com as lembranças das pessoas e mais histórias surgirão naturalmente. Santiago não tem fim e ainda nem falei do deserto ao norte ou da minha vontade de ir ao sul. As viagens nunca terminam, eu acho. São sempre uma sequência de portas sem fechaduras. É só sair empurrando.
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Assisti outro dia, Ausência de Malícia (1981) de Sidney Pollack. O filme trata de uma jogada política sagaz, onde Paul Newman dá um show e ainda vemos Sally Field novinha. Filme bom, inteligente e gostoso de ver, foi indicado ao Oscar para melhor ator, roteiro e atriz coadjuvante, concorreu ao Globo de Ouro como melhor roteiro e melhor atriz (Sally) e no Festival de Berlim, vale pra uma tarde de preguiça no fim de semana. Lembrando disso e das fotos de Marlon Brando, resolvi trazer Paul Newman para trazer um pouco mais de beleza e qualidade ao blog.

A Vanity Fair fez em 2008 uma matéria legal sobre Paul, não só um dos caras mais bonitos do cinema, como um grande ator.

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Em Ausência de Malícia, com Sally Field. 

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Actor's Studio

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Butch Cassidy

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Com a esposa, Jane Woodward

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Jogando com Robert Redford
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O trailer chama atenção por já trazer os principais focos de tensão da história. Mas, mesmo sem vê-lo, só o cartaz é suficiente. Tomboy conta a chegada de uma nova garota à cidade, que está entrando na adolescência e começa a definir sua sexualidade.

Laure (Zoé Haren) tem 10 anos e acaba de se mudar com a família para uma nova cidade. Uma tarde, decide sair para conhecer os vizinhos e ao se apresentar, assume o nome de Mikael. A apresentação do filme é seu grande trunfo: as consequências e os comportamentos de Laure na rua e em casa são tão improvisados quanto essa nova identidade que concebeu para si.

O silêncio é a marca maior da produção. Voltando ao cartaz, vemos um mistério no rosto da protagonista. É ela, de cabelos curtos e camiseta, numa expressão séria e uma parede floral ao fundo. Esse é o momento em que sua irmã desenha seu retrato e pede que ela fique quieta enquanto termina. Mas a expressão, a paciência de Laure e o mistério que seu olhar carrega marcam o filme; ela é uma jovem calada. Por ser assim, por guardar para si o que lhe acontece, é que a narrativa funciona.
A câmera acompanha sua trajetória se fixando sempre no olhar; em Laure observando os garotos para mimetizá-los, em Lisa, a amiga e líder do grupo de quem passa a gostar e que se torna sua namoradinha, nos encontros com o espelho. Ao mesmo tempo, a acompanhamos em casa, nas brincadeiras com a irmã Jeanne, com os pais. Somos levados a participar da vida desta garota em planos quase documentais: não há música na maior parte do tempo, a luz é natural e os planos com poucos movimentos ampliam a visão da história que se desenrola, deixando que nos concentremos mais nas ações dos personagens do que em jogos estéticos de planos inusitados.

A questão de gênero e talvez da inocência são mote do filme e nos fazem pensar em quando e de que forma também nossas preferências sexuais são definidas. Laure se enxerga como um menino? Ela quer ser um menino? A protagonista não parece se importar com as diferenças entre ela e os garotos e só soma alguns apetrechos para não quebrar a ilusão criada. Ao mesmo tempo, se deixa maquiar por Lisa que se surpreende em como ela fica bem de menina. Outro destaque é quando sua mãe a obriga a usar um vestido, aumentando a tensão já no desenrolar do clímax. É aqui que percebemos duas fortes questões: como Laure se envergonha de usar a roupa e como sua família se comporta com essa reação. É como se a protagonista quisesse desaparecer, já que não pertence àquela situação e não se enxerga sob aquele figurino/personagem. Na verdade, sua mãe é quem a quer mais feminina – ainda que não imponha isso a maior parte do tempo, deixando-a livre para se vestir como quiser – e o pai está sempre ausente, mas com o abraço consolador que nada resolve, a relação de Laure com sua família acaba de se enchendo de não-ditos e mal-entendidos.
Com um filme tão sensível e tratando de personagens em formação, a diretora ainda teve uma grande ideia: chamar os amigos de Zoé Haren para participarem como atores mirins. Assim, ela ficaria mais à vontade no papel estando diante de conhecidos e a relação entre as crianças seria mais natural. Para fidelizar o personagem, Zoé cortou os cabelos e a transformação funcionou: ao olharmos para esta criança, não sabemos se é uma menina ou menino.
Apesar do filme se centrar na protagonista e na força de sua história, sua irmã não passa despercebida. Jeanne (Malonn Lévana) tem 6 anos, é esperta e atenta. Engraçada como se isso fosse parte não só do personagem como de si mesma, suas sacadas quebram a tensão do filme e trazem leveza, reforçando a intenção da diretora em manter a narrativa focada nas crianças. É ela que tem mais falas no roteiro e quem primeiro instaura a tensão em Laure da descoberta da farsa, quando abre a porta de casa para Lisa, que procura por Mikael.

Tomboy, que não tem palavra similar no português, significa menina que gosta de brincadeiras e atividades tipicamente de meninos. Não suficiente, o filme se apodera do sentido e o estende até o limite; tudo o que encontramos para caracterizar Laure é masculino: o quarto azul sem detalhes femininos, bonecos masculinos, roupas. Ao mesmo tempo, não aparenta uma confusão ou uma negação do corpo, como dito anteriormente. Talvez a idade ainda não propicie mudanças tão drásticas às crianças que ainda estão descobrindo a sexualidade e entrando na adolescência. Não é à toa que Lisa se interessa por ele/ela; já conhece todos os garotos e o mais misterioso e que não é como os outros é Mikael.

Cheio de grandes questões, esse é um filme simples. Com muito pouco e filmado em um verão, é o segundo longa de Céline Sciamma, feito de forma ainda mais enxuta que o primeiro, Lírios d’água (Water Lilies, 2007), que também aborda sexualidade e homossexualismo, só que na adolescência. Acredito, entretanto, que Tomboy não entra nessa classificação que o reduziria, mas como uma obra aberta e sensível. É um filme sobre a infância e o início da adolescência, um período de descobertas e formação, que aqui vivenciamos de forma leve e gostosa, nos permitindo tanto voltar no tempo e lembrar nossa própria história quanto pensar em como seria o futuro desta.

Título Original: Tomboy
Diretora: Céline Sciamma
2011 França / 80 min
Site Oficial
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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