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Café: extra-forte


Sem assistir novos filmes num fim de semana atribulado, fechei o domingo com chave de ouro no show de Paul McCartney. Já tinha perdido o de São Paulo e não poderia deixar de ir, estando Paul no Rio de Janeiro.

Para chegar pegamos o metrô até a Central do Brasil e de lá um trem direto ao Engenhão. Foi minha primeira visita à Central, meu primeiro trem carioca. Uma fila incrível nos aguardava na entrada do estádio, mas tínhamos tempo. Fui com 3 amigos que encontro de vez em quando e foi como se o tempo não houvesse passado.

Foi incrível! Não sei se pela excitação do evento, se por ser um show grande, pelos fanáticos – como eu – que cantavam com toda a voz e pulmão todas as músicas do começo ao fim... mesmo sem conseguir ver o palco direito, valeu cada minuto. Fiquei pensando em como deve ser difícil montar um set list com tantos sucessos de carreira, mas ele escolheu bem e como nos filmes em que não leio sinopse, aqui também não sabia a rotina do show e cada música era uma grande surpresa. Cada primeiro acorde nos levava ao delírio, já reconhecíamos quase todas assim e os gritos, xingamentos, lágrimas e abraços celebravam aquela imensa comunhão musical.

Segunda teve um show extra. O amigo que foi domingo comigo havia comprado o ingresso de segunda e me disse que eu ia me arrepender se não fosse. Na verdade, quando ele me falou que já tinha o ingresso, eu comecei a sofrer. Imaginar que poderia ver o show novamente, de repente até de mais perto, ver Paul no palco junto com os músicos... reviver chorando the long and winding road... eu merecia isso. E fui.

Consegui ficar muito mais perto por um valor não tão absurdo graças ao desespero dos cambistas e não só me acabei em the long and winding road como fiz o mesmo em let it be. Não sei exatamente por que... acho que por estar sozinha naquele momento e sozinha por escolha, porque queria ficar na frente e outro amigo que foi comigo não era tão fanático assim... acho que acabei também ficando mais à vontade e me deixei levar nessas duas lindas músicas. Um rapaz me viu naquela alegria chorosa, me abraçou e me consolou, mas nem precisava... era um transbordamento feliz.

O Rio estava me entediando há um tempo e eu precisava de fortes emoções, fortes e boas que eu sabia que encontraria ali. As duas noites recarregaram minhas energias, eu estava tranqüila novamente e ainda reencontrei grandes amigos. São prazeres fundamentais. Era preciso viver. Foi importante.

Soube de uma lenda que Paul vem no último bimestre. Mesmo não sendo meu Beatle favorito, não posso encontrar com John, então... Eu tinha esquecido como é divertido ir a um show e encontrar tanta gente ali, feliz, vibrando com o mesmo motivo, na mesma energia, buscando o mesmo fim. Como nos entregamos naquelas 3 horas, esperando que elas nunca acabassem... Eu entendi porque Paul faz um show longo: é porque já conhecemos tanto as músicas que elas passam muito rápido... o tempo corre e nos perdemos. Quando olhava no relógio, me assustava como já estava perto do fim e todos ainda estavam gritando e vivendo, rindo, pulando. Valeu cada centavo. Agora é esperar.
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Se Tarkovski diz em certo sentido, o passado é muito mais real, ou de qualquer forma, mais estável, mais resistente que o presente, o qual desliza e se esvai como areia entre os dedos, adquirindo peso material somente através da recordação, é justamente deste peso e de como lidar com a recordação que trata Rabbit Hole ou ridiculamente em português Reencontrando a Felicidade.

Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart) formam um casal que perdeu há oito meses o filho de poucos anos num acidente. Eles, ao contrário de estar reencontrando a felicidade – como assim definiu o título em português alguém que não entendeu o filme – buscam apenas conseguir conviver com a realidade, com o presente, lidando com um passado ao mesmo tempo feliz e triste.

Enquanto o pai tenta se apegar às recordações tentando reviver momentos com o filho em filmes gravados no celular, reclama da ausência de fotos na casa e vai à terapia de grupo na esperança de se reerguer, a mãe prefere transformar o presente, arrumando a casa, guardando e doando o que não vai mais ter uso, como as roupas e brinquedos do filho. O interessante é perceber que o tratamento da perda aqui é individual. Apesar de todos viverem uma dor compartilhada, as manifestações são particulares e é esse o ponto forte do filme.

Rabbit Hole refere-se aos buracos de coelho, parte de uma teoria sobre universos paralelos em que através deles conseguimos atravessar deste para outros universos onde seria possível viver versões de nós. Daí  vem a própria construção do poster, onde vemos frações de uma mesma pessoa. A explicação quem nos dá é um adolescente que está criando uma história em quadrinhos com esse tema. Becca o encontra e começa a ler um livro sobre o assunto. Para ela, é interessante pensar que em algum lugar, ainda que em outro universo, ela está se divertindo. Sem falar que a expressão rabbit hole nos remete a outras obras que se valem desta teoria, onde os mais óbvios são Alice no País das Maravilhas, Matrix e um pouco mais distante, A Origem. A teoria dos universos paralelos sempre esteve nos filmes, enriquecendo e tornando mais complexas as tramas. Especialmente em filmes de ficção científica. Mas aqui, funciona como um caminho para se pensar alternativas. Não tanto em relação à dor, mas como uma forma de olhar diferente o que se está vivendo, tornar suportável.

Com toda a carga trágica do filme, este não é um melodrama. A postura dos atores, a forma como foram dirigidos deixa claro que o objetivo é muito mais a sinceridade do que a pungência.  Este resultado é fruto da construção dos personagens e a de Nicole Kidman merece atenção. Ela nos prende com o menor dos movimentos, acreditamos nela apenas com o olhar, com uma frase, num personagem complexo e fantástico. Ao mesmo tempo, vemos um Aaron Eckhart crescendo. Ele ainda não tem a presença de um protagonista, mas seu desenvolvimento é notável, especialmente quando nos lembramos dele como o Duas Caras de Batman e agora nesse drama quase real. Há ainda personagens secundários, alguns descartáveis e outros marcantes como o de Dianne Wiest, que faz a mãe de Becca, uma mulher que também sofreu perdas e ajuda a filha dentro do limite que lhe foi imposto.

As construções de contexto também se tornam elementos chave. A fotografia mantém uma aura de passado, especialmente na residência do casal. Tons monocromáticos em gradações distintas, de figurino e iluminação, a fotografia em si, com um filtro de textura quase palpável e enquadramentos nos olhares, focos nas expressões e momentos de silêncio são a chave. Filmes silenciosos devem ser difíceis de fazer. Construir a cena na expressão e nos enquadramentos exige não só preparo, mas refinamento dos atores e do diretor. Talvez aqui tenha sido menos difícil ao se tratar de uma adaptação de uma peça e, já tendo sido montada, ficou mais fácil perceber os momentos onde – e aí vai um clichê – menos é mais.

Não é um filme leve. É um filme que fala sobre perda de alguém fundamental. Ao mesmo tempo, é um filme real, possível. O que vemos na tela é muito parecido com o que vivemos em algum momento e isso é doído, mas, ao mesmo tempo, conseguimos ultrapassar os apertos e perceber que não é só disso que trata o filme, mas de amor e de relacionamentos. Numa sessão cheia, conseguimos ainda gargalhar e se solidarizar, em conjunto, com o que víamos na tela.

Trailer aqui.
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Vejo agora o que eu teria que me tornar para deter homens como ele.
Batman

No fim de semana passado, Osama morreu. Talvez por ter perdido algumas noites numa gripe sem fim, quando soube da notícia na segunda de manhã, acho que não reagi da forma adequada. As notícias sobre o Casamento Real finalmente haviam saído da mídia e agora festejos como o Ano Novo apareciam na TV. Os americanos foram às ruas na noite de domingo festejar histéricos o fim de uma era. Passou. Agora as notícias que correm são radiais. Elas partem deste foco Obama matou Osama para porque, o que, quando, como, onde, cadê.

O Coringa do último Batman é o melhor vilão já criado no cinema. Ele representa loucura, com uma insanidade quase lógica. O Coringa não tem planos, desorganiza o crime dos outros com um ideal: matar Batman. Ele não tem medo, não tem religião, não tem amigos. Durante o filme, ele procura justificar para cada vítima a razão para aquele sorriso de cicatriz; a marca indelével de seu caráter estampada na face: mesmo morto, ele estará rindo.

Não há ninguém mais assustador do que esse vilão, simplesmente por conta do riso. Não há nada mais assustador do que a perversidade, a loucura consentida, o escárnio consciente, a ausência de medo. O sorriso de que derivam gargalhadas pode se transformar no terror mais brutal. 

Entendendo que o objetivo de Batman não é matar o Coringa, mas livrar Gotham City dos criminosos, começamos a nos perguntar, como os cidadãos de Gotham, por que isso estava demorando tanto. Batman havia perdido a credibilidade e já queriam bani-lo, estava causando muitos estragos na cidade, deixando inocentes morrerem. Enquanto isso, o Coringa atacava, espalhando medo, informando a todos seu objetivo e esperando um retorno da sociedade. Os vilões são sempre simples, porque são leais aos seus objetivos e não medem esforços para cumpri-los.

Após os ataques terroristas do Coringa, Batman não pôde mais ficar quieto. Ele nem queria se meter nessa briga, ia deixar para o procurador da justiça, mas o estrago já estava feito: ele estava no meio do tiroteio e tinha que contra atacar. Como todo terrorista – porque hoje em dia sabemos absolutamente tudo sobre eles – seus ataques inesperados eram o toque de gênio. Gotham estava em pânico.

Em uma cena, Batman, já em desespero encontra um dos bandidos que contratou o Coringa e pergunta onde aquele está e a resposta é: Ninguém vai lhe dizer nada. Eles sabem qual é a sua. Você segue as regras. O Coringa não segue regra alguma. Ninguém vai traí-lo por você. Se quer pegá-lo, só tem uma saída. Mas você já sabe qual. É só tirar a máscara que ele irá até você. Ou deixe mais pessoas morrerem enquanto se decide. Sabemos o que foi necessário aqui, governos que entraram e saíram, pedidos de apoio negados, rios de dinheiro, invasões, assassinatos. Todas as regras foram quebradas paulatinamente, com uma sobrancelha levantada em ar de desafio esperando um impedimento que nunca chegou.

O filme segue e um ou dois minutos depois, Harvey Dent, o procurador da justiça (e do bem, aparentemente) encontra-se com Batman. Ambos atrás do Coringa. E Batman diz: Você é o símbolo de esperança que eu nunca poderei ser. Sua luta contra o crime organizado é o primeiro raio de luz legítimo em Gotham há décadas. E numa discussão, Batman entrega Gotham a Harvey.

As analogias de um filme de super-herói com a vida real são tão gritantes, que só a descrição das cenas já revela mais do que qualquer discurso presidencial. Fica meio confuso definir quem é mocinho e bandido e isso também é legal no filme, porque Batman é o Cavaleiro das Trevas, um herói sombrio, politicamente incorreto, não um raio de sol e proteção, como o Super Homem. Aliás, falando em Super Homem, a última notícia é de que abandonaria os Estados Unidos, porque lá o pessoal estava acreditando que ele era de domínio norte-americano, quando o objetivo primeiro do Super Homem é salvar toda a humanidade.

Além disso, outras questões nos deixam de orelha em pé. O artigo do Economist que trata da ética no assassinato de Osama, de como isso foi aceito ou não mal recebido por países que antes condenavam esse tipo de operação é um deles. Ainda no livro de Ali Kamel, Bush havia solicitado apoio a estes países e todos se mantiveram incólumes numa política de não estão me incomodando, então deixa quieto. O artigo é bem feliz quando traz uma dúvida sincera: o que era de fato fundamental? Era fundamental matar Osama? Se fosse capturado vivo, seria melhor ou pior? A morte de terroristas – assumindo que quem os classifica são os EUA – é a solução final?

E, como toda a indústria do entretenimento, já temos livros e filmes em produção sobre a morte do Osama, a tropa de elite que o matou, provavelmente um perfil de cada presidente envolvido e o que mais possa corroborar a situação de forma que todos possam aceitar sem engasgos.

Se o irmão mais velho domina a quadra da escola, quem vai brigar com ele quando ele não quiser ninguém lá dentro? Num mundo de tanta diversidade e apatia política, não temos pais para dizer o que é certo e errado, se nem órgãos internacionais se manifestam. Acabaremos todos cedendo aos caprichos do mais forte para não apanharmos ou sermos colocados de castigo. É esta a democracia de que tanto se fala por aí?

Todos se esconderam sob a capa da hipocrisia. Como o Comissário Gordon permitiria o Batman matar o Coringa, aqui ninguém manifestou repúdio ou, pelo menos, alguma estranheza nos festejos em torno de um assassinato. Há, inclusive, justificativas cordiais para tanta alegria, outro fato assustador do momento. Nem se ouve falar em direitos humanos, ONU ou qualquer coisa do gênero. Que fique claro: o objetivo não é defender, proteger, salvaguardar a honra do terrorista, mas se fazer entender que matá-lo não transforma ninguém em herói. Ainda que acabem por transformar o bandido em mártir.

Se Batman usa a mesma moeda que o Coringa – que consegue até transformar o correto procurador no Duas Caras – quem vai nos salvar ou, mais importante: de quem seremos salvos? E se outro dia aparecer um Coringa mais louco? Os países que se oporiam continuarão na política de vendar os olhos? Ou será que tudo vai terminar como os filmes de Jason em que nos preocupamos em saber onde está a cabeça do serial killer para provar que ele morreu? Enquanto todos se ocupam com perguntas de esquiva, perde-se o motivo do crime, ou melhor, da legítima defesa, justiça, paz e igualdade porque tanto prezam os super-heróis.
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Os primeiros cinco minutos de um filme costumam ser os mais importantes. São eles que prendem o espectador no cinema, selando o pacto da ilusão e, ainda que não garantam sua estadia até o fim da história, conseguem intrigar quem a assiste. Assim faz o diretor Denis Villeneuve em Incêndios.
Ao contrário do que costumo escrever aqui, a história não é simples. A primeira seqüência nos deixa em alerta: uma música pesada, forte e alta do Radiohead acontece enquanto vemos longos planos – agora não me recordo se é um plano-seqüência ou tem alguns cortes, mas a cena é lenta – de um garoto tendo sua cabeça raspada numa espécie de reformatório. A criança olha para a câmera e percebemos que, no mínimo, tem alguma coisa errada com ela. Mas não, esse não é um típico filme de terror.
A secretária de um tabelião morre e deixa de herança para o casal de filhos gêmeos duas cartas. O tabelião é responsável por ler o testamento da mãe, que inaugura uma aventura no melhor estilo Joseph Campbell: a menina vai à busca do pai que acreditava estar morto enquanto seu irmão deve encontrar um terceiro filho de sua mãe, que eles desconheciam a existência. O objetivo de cada jornada é entregar uma carta e assim ela descansará em paz, com um enterro digno e terá cumprido suas promessas.
Logo de cara percebemos que os gêmeos Simon e Jeanne Marwan não tinham uma relação muito feliz com a mãe, Narwan. Simon admite que agora terá paz e não procurará ninguém; quer enterrar a mãe da forma correta, enquanto Jeanne, professora assistente de matemática pura numa universidade, para resolver esta equação complexa e querendo satisfazer este último desejo, investe na busca por seu pai. Assim, encontra o passaporte da mãe, uma foto com dizeres árabes numa parede e um crucifixo. Embarca para o Líbano.
Aqui quase nada sabemos. Em algum momento durante o filme há a referência ao Líbano, mas é muito sutil, dando a impressão de que para o diretor não importava identificar um país no Oriente Médio já que os conflitos ali são disseminados. Essa situação embaralhada me deu agonia e senti falta de um embasamento mais forte do que a escola me ensinou sobre Oriente Médio, religiões e conflitos. Não entendia, por exemplo porque Narwan sendo católica em alguns momentos tinha que esconder seu crucifixo, mas em outro, exibí-lo foi suficiente para salvá-la. Não compreendia a frente de luta católica num país mulçumano que, pelo que vemos na TV, tem embates rotineiros com os judeus. Resolvi acabar com a ignorância e parti pra outra aventura, após o filme: o livro de Ali Kamel – Sobre o Islã – e não só não consigo largá-lo um minuto, como descobri uma parte imensa da história que eu desconhecia. 
Investigando também na internet, consegui entender as referências que corroboram ser o Líbano, pano de fundo do filme. Quando Jeanne visita o país em busca do passado da mãe, lhe dizem que para conhecer a região, há que visitar o sul. Foi justamente lá que eclodiu a guerra nos anos 80 onde mulçumanos, judeus e cristãos se envolveram em conflitos sangrentos que deixaram de saldo vítimas nas três religiões. É aqui que justifica como a religião poderia proteger e boicotar as defesas de nossa protagonista.
Incêndios é título e referência óbvia para o que se passa no filme. Durante os flashbacks que contam a história, vemos massacres dos conflitos em cenários destruídos por uma guerra que não acabou. Essa idéia chega ao presente com as ruínas que Jeanne visita; ela busca redescobrir a mãe a partir do encontro de um pai que nunca soube ter.  Em um determinado ponto do filme, depois de ver os desdobramentos de Narwan numa tragédia clássica, fiquei me perguntando se aquela cronologia era possível; se era possível  viver tanto, tanto sofrimento, em uma vida só. Destrinchando: uma mulher grávida vê o namorado ser assassinado por seu irmão, tem o filho, é obrigada a abandoná-lo, se muda para a capital. Quando a guerra explode, foge da família e vai a busca do filho, se envolve na luta para assassinar um opositor importante do governo, é presa por 15 anos, torturada, estuprada e consegue, de alguma forma, parar no Canadá.
Os gêmeos, que nada sabiam deste passado e vão descobrindo com a mesma distância que o espectador – por isso o melodrama não acontece – percebem que a mãe fria que eles conheciam era só uma fração da mulher que ela foi; um resquício de passado resumido numa vida pacata no Canadá. Simon, a pedido da irmã a encontra e passa a fazer parte da história, vendo também ele, como e o que tornou sua mãe a que ele conheceu. A relação destes irmãos agora perdidos, numa jornada que os confunde no coração onde também fica difícil se reconhecer, é um pouco a sensação que o espectador tem até o clímax, quando as soluções são encontradas e o final se torna mais impactante do que os incêndios na tela.
O filme segue cheio de detalhes que enriquecem a trama. É longo e isso também é notado a cada desdobramento. Ficamos nos perguntando, ali sentados o quanto conseguimos agüentar assistir, com tanta tensão; funciona como aqueles jogos de estratégia em que, vencendo uma etapa outro desafio mais complicado se abre para nós. Ainda na referência da matemática: o professor titular com quem trabalha Jeanne dá a dica, dizendo que não adianta; vocês vão se cansar, ficar frustrados, sozinhos e a equação vai trazer uma resposta ainda mais complexa. No caso deste filme, outro nó para os personagens, uma nova tragédia na tela.
Bresson diz em uma de suas Notas*: sua imaginação vai mirar menos os eventos que os sentimentos querendo esses últimos os mais documentais possíveis. Essa relação de importância com o sentimento é o que move o filme; a transformação dos personagens; o crescimento do irmão oculto, os gêmeos frente à descobertas, o final. O foco nunca esteve nos eventos por trás da história, nos incêndios literais, mas naqueles que ocorriam internamente em cada envolvido. Talvez por isso não conquistou o Oscar de filme estrangeiro, por não ser um filme de vencedores e vencidos; dentro um contexto real em que os EUA estão presentes e sequer aparecem de relance na tela dentro de uma história que poderia ser explicitamente política e buscou o foco numa dinâmica familiar.  
Há tanto para se dizer deste filme, que terminar por aqui incomoda. Ao mesmo tempo, seria preciso falar do contexto e não da trama, dos atores incríveis, do personagem ambíguo do tabelião – Remy, de Invasões Bárbaras – do terceiro filho e de como sua história cresce; da trilha sonora que pontua momentos com músicas atuais e que colaboram para o desenvolvimento do filme no presente; de como a montagem segue lenta, mas nunca entediante; fazendo com que nós descubramos a história a partir dos relatos dados aos gêmeos – e enriquecidos com as cenas em paralelo da mãe naquele presente já antigo.
Encontrar uma realidade como Ali Kamel cita, parecida com a que vivem as pessoas nas favelas controladas pelo tráfico, só que no Líbano com o Hezbollah, o morador não concorda com os traficantes, odeia o que eles fazem, mas se submete, com medo de ser morto. Por fim, fica a curiosidade de saber o que quase passou despercebido; como foi sua ida ao Canadá? Como vive a comunidade mulçumana lá e como funciona essa rede de comunicação e esses poderes extraterritoriais e além-governo? Talvez esta resposta esteja no olhar enigmático do tabelião, que guarda o mistério e espera que ele se descortine, ao invés de nos mostrá-lo de graça, o que transformaria essa história num conto previsível.

*BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematógrafo. Ed. Iluminuras, São Paulo. 2005.
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Outro dia, saindo mais cedo do trabalho, entrei no ônibus do metrô. Algumas paradas depois, e eu sentada na penúltima fileira, seguia distraída lendo um livro sobre o universo dos surdos, quando o senhor que estava do meu lado se levanta bruscamente e cede lugar a outro, cego. O toco com a mão e ofereço o braço para que se apoie enquanto senta. 

Este senhor é um pai de uma família de cegos: mulher e dois filhos. Não me lembro se ele me contou como conheceu sua mulher e nem como chegamos a esse ponto da conversa, recordo que ele frisou que a família era como ele. Acho que tudo começou com um ‘que horas são’. 

Em uma cena de O Fabuloso destino de Amélie Poulain, a protagonista decide se tornar a heroína de sua própria história e livrar o mundo de forma divertida dos injustos. Uma das coisas que fez, é ajudar um senhor cego a atravessar a rua, lhe narrando tudo o que acontece à sua volta. De forma rápida, imagino eu, as imagens iam se construindo no pensamento daquele homem, dando um ar de novo aos sons que ele ouvia por hábito. Com o meu vizinho de ônibus, tive que abandonar a história de quem não ouve para aprender a de quem não vê.

Eu só havia conhecido um cego em toda a minha vida. Era um massagista, colega de trabalho de minha mãe, fisioterapeuta. Eles trabalharam juntos por anos quando eu era adolescente e sempre que eu ia à clínica de meus pais ele estava ocupado. Tinha lista de espera. 

O cego que conheci também é massagista. Também tem fila de espera. Imagino que a privação de um dos sentidos intensifica os demais; principalmente a audição e o tato, que agora são estes de que depende mais primordialmente para viver. Percebi que ele tem consciência do que o cerca, falou de brincadeira sobre o ponto final do ônibus do metrô, que insistentemente os motoristas sempre param de forma que a porta de saída fique de frente para uma árvore. Ele dizia que era de propósito, para testar sua atenção. 

Uma parte de mim se sentiu como uma criança ao ver alguém diferente pela primeira vez. Mesmo tendo conhecido o amigo de minha mãe, nunca estive tão perto fisicamente com alguém que me parecia tão à vontade. Ele não se portava como uma vítima, pelo contrário, me contou numa conversa tranquila e gostosa como vivia numa casa com um terreno grande, que plantava e cuidava do quintal com a mulher, e minhas perguntas insistentes eu guardei pra mim. Minha vontade era de descobrir como ele imagina, como cria imagens, se compreende o conceito de cor. Ele frisou, quando soube que eu trabalhava numa TV, que ouvia muito rádio; claro, pensei, muito mais eficaz do que a televisão.

Não consegui perguntar quase nada, tive vergonha. Não sei como são as reações das pessoas e não queria que minha curiosidade se transformasse num abuso, numa invasão, num desconforto. Tinha perguntas de criança, perguntas simples, diretas e sem ternura, de quem quer saber como o mundo funciona com restrições. Talvez também por isso esteja lendo sobre os surdos. Entender a forma do pensamento sem termos todos os veículos que permitem a compreensão é um desafio e é algo que me motiva profundamente.

Então, enquanto ele falava no trânsito – que dessa vez pedi mil engarrafamentos para que demorasse um pouquinho mais – eu olhava pra fora, através da janela fechada aquele mundo todo de paisagens banais que vemos todos os dias quase do mesmo jeito e não imaginamos como elas são importantes.
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Apenas pelo cartaz, já temos uma idéia de como será o filme. Dois âncoras televisivos: Harrison Ford sério, Diane Keaton sorrindo jocosamente para ele. No meio, uma garota entre telefones e papéis com uma expressão atrapalhada no rosto. Sem nem olhar os grafismos, já dá pra ter uma noção do que vem pela frente: comédia romântica.
Não tão romântica se partirmos para a definição do ‘gênero’ (menino conhece menina etc, etc.. são felizes para sempre), já que a história não trata disso. Aqui uma produtora de TV perde o emprego em New Jersey e é contratada para trabalhar na mesma função em NY, ganhando menos, num programa fraco. Ela é a produtora executiva do Daybreak, um programa de entretenimento matutino parecido com os que temos na televisão brasileira. Notícias, futilidades, frivolidades e, por que não, imbecilidades.
O conflito se instaura quando nossa heroína, no primeiro dia de trabalho demite o âncora galã-estúpido e precisa encontrar outro em pouquíssimo tempo. A solução está no personagem de Harrison Ford, um jornalista premiado anos atrás que, claro e como qualquer pessoa faria, recusa a oferta. Nesse embate, contratualmente ele é obrigado a fazer o programa e os problemas só aumentam.
O filme tem boas idéias que explora pouco: é estranho como a roteirista de O Diabo Veste Prada não investiu tanto em pequenas e ótimas seqüências – a mocinha vai a NY procurar trabalho, vai procurar lugar pra morar, as cenas dela com o mocinho tinham fôlego, poderiam ser continuadas e mais embasadas... e ficamos presos nesses embates Harrison Ford x Diane Keaton, Harrison Ford x Rachel McAdams, Rachel McAdams x mundo... o roteiro enfraquece e até com todos os problemas na cabeça, você percebe que está no cinema e a ilusão vai embora. A atuação de todos é extremamente caricata – entendo que é o estilo do filme – mas ultrapassa em muito essa idéia e esvazia os personagens.
Esta não é uma comédia escrachada, não é Mike Meyers ou Jim Carey, não segue por aí – mas tem cenas que até os envergonhariam porque ficam entre o escracho e o plausível e não funcionam. A própria postura de nossa protagonista, como li em uma crítica, beira o despreparo profissional; uma produtora executiva tem que ser atenta, firme, prática, objetiva. Não deveria ser a garota perdida que derruba coisas o tempo inteiro e tem uma primeira atitude firme para amolecer no que sobrou da história. Houve alguma transformação no personagem, é visível, como nos outros dois de que falamos, no final todos vão em busca do mesmo objetivo. Agora, depois disso tudo, me diga uma coisa: se você recebesse a oferta dos sonhos, diria não? 
Acho que este filme está perto de uma versão pobre de Bridget Jones em seus momentos de ridículo na televisão. Eles tiveram muito e fizeram pouco, baseando-se na credibilidade da equipe: diretor de Notting Hill, roteirista de Diabo Veste Prada, o próprio elenco... e juntando tudo, ainda não funcionou bem. Em todo caso, para mim, há momentos de identificação com a transformação do personagem, a pressão do trabalho – apesar de nossas ‘produções’ serem diferentes, a mudança de endereço, mas acabam aí. O perfil é realmente diferente.
É óbvio que é um filme bobo. Pelo cartaz, pelo trailer, não tem pra onde correr. Não espere demais, faça como eu: esteja estressada e cansada - porque qualquer coisa leve, boba vai ser ótima e pensar demais nesses momentos não vale mesmo a pena. Se fôssemos voltar aquela história do Sessão da Tarde, esse certamente não ficaria entre os melhores.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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