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Café: extra-forte


Não preciso dizer que algumas séries de televisão duram para sempre e que marcam o crescimento de gerações com interesses que se tornam comuns. Assim é com muitas delas e a partir daí se desenvolvem grupos tão heterogêneos que quase apenas a linguagem audiovisual consegue unificar, que diga Hollywood e todo seu sucesso histórico e global. Hoje, numa sala de cinema lotada de poucos homens e muitas mulheres, mais uma vez todas poderiam ser boas amigas.


Sex and the City 2 é um filme bobo, feminino, de meninas e mulheres, sobre amizade e relacionamentos em que todas já conhecemos os protagonistas, suas histórias de vida e não é difícil saber também o final. Sabemos que o figurino será no mínimo ousado e que todas vamos querer os sapatos que elas usam, os namorados e maridos de algumas e que ali é o reduto da fantasia que nos permitimos viver durante pouco mais de duas horas.

A série se consagrou no mundo por mostrar quatro amigas solteiras, trintonas, vivendo em Manhattan, falando e praticando sexo de maneira casual, sem maiores polêmicas. Todos os luxos eram permitidos: homens lindos, restaurantes e cafeterias, boates badaladas, moda e sapatos, muitos sapatos. E um histórico de relações que qualquer mulher pós-vinte consegue se identificar em menor ou maior instância. Não há só bobagem nisso: há uma espécie de retrato – guardando os limites da ficção – das mulheres da útlima década que vivem amizade, amor, sexo, trabalham e garantem seu espaço. Aqui falamos de independência feminina, relacionamentos e comportamento com uma comédia em tons de crônica com estilo e inteligência. Nesse bocado de ‘futilidade’ viveram e assistiram muitas outras mulheres da vida real, acompanhando as trajetórias das single ladies americanas. E agora, que na ficção continuam suas vidas nesta seqüência, marcamos outro encontro na grande tela.

Não por acaso, que aqui no Brasil surgiram programas de tevê que deram voz às mulheres: aquele com quatro mulheres independentes, algum estilo, idades variadas e importância no meio artístico-cultural que conversam sobre tudo o que rola no mundo ou outro de pior gosto une outras quatro falando de sexo tórrido e descritivo, cujo apelo é muito mais vulgar do que interessante. Este último, além da pobreza na qualidade e conteúdo cria uma confusão entre quebra de tabus, originalidade, ousadia e objetivo, este último que ainda não consegui identificar. Sem falar nas entrevistadoras e nos canais brasileiros voltados ao público feminino.

Voltando ao filme, claro que ele peca em alguns detalhes, falas muito marcadas, os estereótipos de sempre e a caricatura de um Oriente Médio que só os americanos têm a cara dura de fazer, que se inclua aí até a fotografia. De uma forma ou de outra, quem vai assistir não espera muita coisa além de reencontrar Carrie, Samantha, Miranda, Charlotte, Mr. Big e até o charmosíssimo Aidan. E sobre suspiros, risos, gargalhadas, oohhs e aahhs, as mulheres e até os homens – um senhor inicialmente rabugento que estava ao meu lado é um exemplo – riem das loucuras femininas das moças agora comprometidas e sempre complicadas.

Seria muito bom esperar uma seqüência para matar novamente a saudade das meninas, mas não sei se será possível. As crises estão acabando pra elas e o jeito vai ser comprar o box para rever as histórias que já sabemos de cor. Engraçado além do filme é ver a coreografia de risos e expressões que ganha o cinema cheio. Éramos todas comadres rindo juntas, criticando as roupas, amando os sapatos e rapazes do filme, nos surpreendendo com algumas cenas, partilhando da mesma emoção. E podem contar com mocinhas de 18 às senhoras, mães e avós. Fato que só reforça a necessidade das grandes salas frente ao mercado crescente do cinema em casa. Para que melhor, quando até as gargalhadas fora de tempo causam ainda mais gargalhadas e o público se solidariza com ele mesmo? É um cinema participativo que um dvd não se compara jamais, ainda mais se vamos aos domingos. Se esse texto saiu tão bobo e feliz com o filme, nada mais é do que o reflexo de uma boa sessão com ótima e vasta companhia, num momento mulherzinha. Que me desculpem os cults, mas tudo tem seu momento.

Título original: Sex and the City 2
Diretor: Michael Patrick King
2010, 146 min. EUA.
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Quando asistimos Estamira, imaginamos aquela mulher re-construída no documentário de Marcos Prado, com aquela voz, poder e miséria pouca vezes repetida no audiovisual. Neste documentário, mistura de dor, genialidade e belíssima fotografia, Estamira mais uma vez e tantas outras, pois é difícil esquecê-la quando a conhecemos assim. Garapa dói ainda mais. Agora José Padilha é quem nos mostra outra miséria, escondida nos programas assistencialistas do país... miséria que até sabemos existir, mas esquecemos diante do progresso sem ordem deste Brasil.

Garapa é a mistura de água com açúcar dada em mamadeiras às crianças pelas mães, no intuito de enganar uma fome permanente. As crianças deste filme, desnutridas, cheias de doenças e com a maior delas: uma falta de futuro, de fim útil, o excesso de ignorância e miséria reinantes, a pobreza que ninguém quer ver. Porque estamos acostumados a meninos de rua, viciados em crack, assaltantes, desesperados. O que não estamos acostumados é a apatia, o fim pelo fim, a aceitação por não se saber outro que são expostos nesse filme. É a crueza do Sertão, aquele de Vidas Secas lá atrás... atualizado nesse documentário em p&b.

Não importa onde estejam: se à margem de uma cidade maior, se no meio do nada, se atendidas ou não por algum programa do governo. Ainda há pessoas sem carteiras de identidade que sequer sabem sua própria idade; ainda há pessoas que vivem sem saber mesmo o que significa este verbo; ainda há pessoas sem sonhos. E as crianças deste filme, muito ou tão doloridas quanto seus pais, todos vítimas. Outro dia estive conversando com uns amigos e se falava do crescimento econômico do país, da possibilidade de se chegar do quase nada à classe média em pouco tempo, da ‘facilidade’ de entrar em uma universidade e todos acreditávamos nisso, nesta nação grande, aconchegante e democrática, de um presidente forte internacionalmente, ele mesmo o próprio retrato de esperança... há que assistir Garapa para perder um pouco dessa ilusão.

Ao mesmo tempo, enquanto alguém que estuda a arte, há um embate moral nessa história toda. Aprendi a defender o filme pelo que ele se propõe, por seu objetivo final, mas, como uma pedra no sapato, fica a questão da ‘exploração’ da imagem de quem só tem isso a que se agarrar. Essas três famílias passam fome. Uma equipe vai fazer um filme sobre a fome e os encontra como exemplo perfeito. Como é lidar com uma situação tão discrepante e depois voltar ao hotel, jantar, almoçar, tomar café com a impregnação do real a alguns quilômetros de distância? Como se manter próximo para filmar e distante para algum apoio? Como ignorar o assunto do filme que se faz e não prestar qualquer ajuda, ou ver a fome enquanto lhe sobra comida? Numa situação limite, foi dado um analgésico a uma criança com dor de dente. Mas é um detalhe diante do todo. Independente de uma assistência futura, de uma promessa de ajuda pós-filme... algo de culpa permeia minha cabeça sem nem ter feito parte desta equipe, ao mesmo tempo que defendo a produção e encaro a obra como pronta, ótima e útil e, que se houvesse algum assistencialismo prévio, não haveria filme. Dilemas.

As semelhanças em Estamira não são à toa. Não apenas a temática, a questão ética, quanto à parceria entre os dois diretores é permanente. Marcos Prado e José Padilha se reencontram aqui também, na fotografia, no cinema brasileiro direto, na aposta em filmes importantes. E é esse o cinema que permite a ‘não’-interação com o tema a filmar e que o torna tão íntimo para quem assiste e talvez até para quem participe. A vida daquelas pessoas é tão escancarada que percebemos que sequer onde moram as famílias têm privacidade. Como as cidades pequenas em que estão localizados, seus habitantes participam e têm opiniões a dar, reclamações, invasões. Vizinhos são sempre observadores de nossas vidas, como a câmera-olho que os permite nos visitar. E é essa exposição que evidencia a importância vital das mulheres nestas famílias. Invariavelmente elas se tornam protagonistas das ações, já que depende delas o parco sustento de todos, desde a preparação da garapa, a busca por água, o cuidado com os filhos, o recebimento do bolsa família, a visita a uma ONG ou até a defesa da própria situação frente às criticas de quem os invade. Aos homens, álcool, desilusão, despreparo, apatia, brigas, doenças e o cuidado mais como favor do que como obrigação aos filhos.

É um filme duro e importante. Traz-nos uma culpa pelo que desperdiçamos, nos indica uma perspectiva escamoteada pelas políticas públicas e índices eleitoreiros, escancara o que não queremos ver, mostra que este Brasil existiu desde sempre e ainda existirá por muito tempo. A situação de insegurança alimentar que esse filme expõe também identifica uma condição internacional, já que há esta fome em todo globo. Aqui temos um detalhamento apurado do cotidiano dessas famílias à beira de um precipício. E não há melodramas, novelas ou um quê de responsabilidade social que poderia ser pregado como um religioso no seu palanque/palco. A idéia que temos ao assisti-lo é simplesmente de que é daquela forma que realmente eles vivem. E isso sim, é a mais grave e dolorosa conclusão.

Garapa
Direção: José Padilha
Ano: 2009 - Brasil
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É impossível não falar sobre a chuva. Quando o verão desse ano assou e fritou a todos nós aqui no Rio também não dava para pensar em outra coisa. Em todos os lugares, bares, restaurantes, trabalho, bancas de revistas era sempre calor e um verão quente além dos quarenta graus. Falou-se também sobre o apagão do calor. E todos faziam parte de uma mesma conversa, um tom monocórdio, repetitivo, uma chatice.

Achei que não ia precisar falar sobre a chuva do Rio. Não vivi o dia "D" dos alagamentos, a cidade deserta como num ataque de zumbis. Não vivi as horas de engarrafamento maiores que uma jornada de trabalho, os prejuízos, afogamentos, a devastação. Neste dia eu passava frio em São Paulo e esperava. Não tinha aeroporto aberto. Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, que será a oitava maior economia do mundo, parou.

Eu vi, entretanto, o dia "E". O dia depois de amanhã daquele pessoal de Niterói. Niterói e São Gonçalo já haviam sido as cidades da Grande Rio mais assoladas por essa tempestade louca. Mas o deslizamento de terra do dia 08 foi de uma crueldade sem limites. Não se falava em mais nada, em qualquer jornal. O Nacional, especialmente, não tinha outro assunto. A rotina carioca voltou, mas aquele monte de terra e lixo, lixo, lixo, lixo, porque não dá pra esquecer, em cima de um monte de gente...

Que o Brasil é craque em miséria, a gente sabe disso. Temos aí filmes e filmes pra mostrar, as ruas que exibem suas mazelas como uma vitrine para turista, os passeios de carros 4x4 subindo as favelas cariocas. As reportagens de fome, sujeira, os ‘Ilha das Flores’... todas as classes assistem, vêem, vivem, presenciam, cada um a seu modo. Mas nessa miséria toda é possível viver. É possível subir um aterro sanitário e chamá-lo de seu. É possível morar, construir, viver. Não pelo dinheiro, mas por aquela nossa velha apatia do poder público, dos olhos vendados da justiça, da cegueira coletiva, da estupidez e do descaso. E não tem esse direito humano reclamado que seja suficiente.

E aí, chove. E é morro. E tem terra. Lixo e chorume. É uma ladeira de lixo com casas em cima. E cai. E pouca gente se salvou. Parece o Haiti sem a música. Sem o terremoto, sem a pobreza cruel daquele país, mas a falta de humanidade deste daqui, que tem muito mais do que o Haiti e vive a mesma situação. Não dá pra falar de outra coisa. E convém lembrar que não dá pra ouvir o prefeito de Niterói dizer que não sabia. Ninguém sabia... e foram feitas melhorias na região... o que no meu português significa: estimular os moradores a permanecerem ali. Eu achei que não precisaria falar da chuva, do que todos vimos nas televisores, do que muitos infelizmente viveram de perto. Mas, se nem ao menos pensarmos um pouco e falarmos sobre, vai chegar o dia em que não se falará mais nada.
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Até hoje não entendi bem como a Globo exibiu Dourado do BBB 10 falar que apenas homossexuais pegam HIV. Até agora não entendi como a emissora não se pronunciou com uma campanha educativa e preventiva, como não aproveitou e cortou no ar mesmo a loucura que foi essa afirmação, mas se postou covardemente de forma passiva e neutra, responsabilizando apenas o personagem de seu programa por suas falas e atos.

Ora, sabemos o que é essa emissora, sabemos o poder que tem e o público deste programa, sempre imenso. E hoje, saiu uma notícia nos jornais, informando que no BBB a justiça obrigou a emissora a se pronunciar agora de forma direta sobre a doença. Eu até entendo a lerdeza da justiça, o que é difícil de entender é a displicência geral.

Essa seria uma oportunidade perfeita para uma campanha, para um movimento, para qualquer coisa. E o que reinou foi a apatia nacional. Nem ouvi pessoas comentando isso! Precisou eu lembrar a meus amigos e colegas de trabalho o caso, e discutir partindo da lembrança de apenas um e não de um incômodo geral.

Estranho isso. E olha que coisa: exatamente quando eu estava pensando nas próximas linhas para este texto quase sem fim, o BBB exibe uma cartela com uma locutora e texto, indicando as formas de contágio do HIV. Tudo bem, ajuda. Mas poderia ser melhor.

A culpa não é do personagem. Ele pode ser ignorante. Muita gente é. Nem todo mundo foi educado para muitas coisas. Pouca gente foi. Acho que não apenas a frase infeliz e, quem sabe, em alguma instância ingênua e carregada de preconceitos, mas o resultado dela, tanto da emissora quanto dos que a assistem. Esse é o reflexo deste país. É por situações como essas que adolescentes engravidam, que muita gente efetivamente contrai o HIV, que meninas morrem fazendo abortos ilegais e lipoaspirações clandestinas. E com um motivo tão óbvio, não se fez nada.

É como eu ia dizendo ao fim... muito estranho isso. E nem precisei falar da ausência do governo nesse momento. Porque uma governança séria, falaria sério sobre isso. Aproveitaria uma deixa óbvia e fácil. E a partir daí, se transformaria alguma coisa em alguém... em alguém que vê televisão, em alguém que só tem isso pra ver... em alguém onde não há como buscar educação... e tudo o que bastou aparentemente foi uma cartela de 10 segundos na tela. Lugar bom pra se viver.
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Como tudo na vida, no início ninguém reclama muito, o que vale é a experiência, tudo é diferente. Por mais que eu já tivesse usado ônibus algumas vezes em Salvador, a experiência cotidiana tem outros... sabores.

No buzu, o convívio social é mais democrático. Pessoas com algum dinheiro, pessoas sem dinheiro, pessoas sem nem a sombra do dinheiro volta e meia se encontram, com suas particularidades. Uma vez, um pirralho adolescente resolveu que queria fumar dentro do veículo. Já mais vazio, eu, um homem alto e fortão um pouco mais à frente, uma senhora também. O pentelho sequinho fantasiado de rebelde senta justamente atrás de quem? Pois é, e me acende um cigarro. Não deu outra: o fortão se levantou em todos os seus vários quilos e músculos de trabalhador braçal, grudou ao lado do pirralho e disse: você vai apagar agora ou prefere que eu faça isso? Me apaixonei.

E quando o ônibus parou pela primeira vez numa lanchonete no meio da minha volta pra casa? Passageiros dentro, normalmente à noite. Eles param em uma lanchonete específica de Copacabana, pegam o lanche e sobem novamente. Quando vi isso, não sabia bem o que pensar, se: “pô, ele deve estar com fome mesmo, pra parar nessa agonia aqui” ou “ok... ele é o DONO do ônibus e pouco liga pras outras pessoas... os CLIENTES que estão aguardando a refeição do motorista e cobrador”. A meu ver, os motoristas e cobradores têm momentos de parar seus carros para justamente irem ao banheiro e comer. E eles nem avisam... simplesmente param e se você tem um compromisso, se está com fome também, se simplesmente está cansado e precisa ir pra casa, problema seu.

Mas nem sempre as coisas são bizarras. Existem muitos motoristas bacanas e gentis, educados, generosos. Na chuva, principalmente. Facilitam nossa vida, tentam parar onde pedimos, até se oferecem para nos ajudar. No fim das contas, pegar ônibus é uma arte. Não pode simplesmente esperar e algumas vezes terá que sair correndo no meio da rua, de salto, com saia balançando ao vento. Relaxe: todo mundo já fez isso um dia. E ônibus para mais pra mulher bonita mesmo, não tem jeito. Mas também... não custa nada sorrir e agradecer.

O maior problema do buzu é a higiene. Esqueça detalhes como ônibus apostando corrida, fechando carros, freando bruscamente, você caindo por cima das pessoas. O negócio é que esse contato democrático não respeita a higiene. A igualdade é para todos, mas a limpeza pra poucos. E nem é por grana, é porcaria mesmo, educação. Minha sorte é que não costumo pegar ônibus muito cheios, então não rola aquele constrangimento e guerra da apalpação masculina. Mas o calor carioca do verão tira nossas forças. Caí na besteira de economizar e tentar a sorte dos raros com ar condicionado que me servem. Quando não achava, pensava, mas esse aí também vai pra lá e entrava. Eu chegava no trabalho cansada, destruída. Não digo nem suada, porque com 40 graus poucas pessoas não estavam assim. Mas é cruel, porque realmente tem gente que não gosta de banho, então você pensa né, lavar a mão, impossível.

E o barulho? Tem gente que, não suficiente com o sacolejar dos ônibus-sardinha com seus metais batendo, ainda liga algo no celular e acha que toda a comunidade tem que ouvir junto. A pessoa que inventou o mp3 no celular nunca pegou ônibus. Nem todo mundo tem fone ou cérebro, afinal de contas. E a música NUNCA é boa. Mas, com todas as agonias e diversões de um passeio de ônibus, não é tão ruim. É questão de hábito mesmo, tranqüilidade e cálculo. E a forma mais sincera e visceral de conhecer uma cidade. Mas... de vez em quando um taxi também não mata ninguém.
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Ao contrário do que parece, é fácil entender porque Guerra ao Terror ganhou vários prêmios. Mas, antes de tudo, vamos entender realmente do que ele trata. O filme é sobre o trabalho de um esquadrão anti-bomba no Iraque. Este grupo de 3 homens vai onde há uma ameaça e enquanto dois dão cobertura, um terceiro vestido adequadamente vai ao local e a desarma. E, uma pequena observação: o filme é dirigido por uma mulher.

Por mais que isso pareça pouco, é estranho e interessante ver um filme de guerra dirigido por uma mulher. Em nossa cabeça passa, ainda que sutilmente, aquela idéia de porque uma mulher se interessaria em fazer um filme de ação, um filme de guerra e ainda: quase não pôr mulheres no filme. Mas a melhor parte desse pensamento que aparece sem querer e sem que queiramos, é que ele rompe com o ideário padrão.

Antes de ver o filme fiquei me perguntando se ia ganhar o Oscar. Como todo mundo, tinha visto Avatar e me deslumbrado com seus efeitos, com a brincadeira 3d, com a megalomania. No caso de Kathryn Bigelow não tem muito disso. O foco, aliás, bem escolhido levando em conta o tema, a relação destes homens com sua atividade e, principalmente, entre si. A chegada de um novo líder na equipe, aquele que desarma as bombas, após a morte iminente do grande amigo e líder anterior, desequilibra as relações e percepções dos envolvidos. E é nisso que está a graça.

Logo na primeira seqüência, o filme já diz ao que veio: o esquadrão em atividade, um dos três colocando a roupa de proteção, as cenas de ambientação, “cenas de Iraque”, cenas meio sujas, câmera na mão, tensão. O filme mantém esse ritmo até o fim e nossa respiração fica presa a cada investida deles em campo. Não adianta: nos afeiçoamos aos personagens, independente de política. O filme foi construído assim, o roteiro é assim, assim quis a direção. E são bons personagens. Jovens, bonitos e corajosos, humanos, homens dispostos a enfrentar o "vida ou morte" todos os dias, com seus dilemas, seus medos. Cada um dos protagonistas carrega um motivo que cria a empatia; um é o mais novo, que precisa de mais cuidados; o outro não sabe bem o porquê de estar ali e muito menos de não estar e o terceiro, com aquele perfil de estou aqui porque gosto, é disso e para isso que vivo.

O filme ganhou quando me perdi dentro dele. Cada cena fora do quartel era uma tensão, ainda que saibamos que no início ninguém morre senão o filme acaba. Essa tensão é difícil de construir quando as situações são parecidas e têm que ser mesmo, afinal o objetivo é mostrar o dia a dia. Não suficiente, a fotografia merece várias exclamações (!!!!!!!!!). O câmera conseguiu ser repórter, espectador, documentarista e diretor de fotografia de ação. Os planos à luz quase natural o tempo todo ou tendendo a isso criou uma atmosfera realista, bem como a inconstância de movimentos, os planos quase tremidos mas perfeitamente inteligíveis. E não vou nem comentar aqueles em super câmera lenta, porque são obras de arte. Só vendo pra sentir.

Não vi todos os filmes que concorreram ao Oscar desse ano. Vi apenas Avatar e este. Mesmo tendo gostado bastante de Avatar, não passa muito de efeitos especiais numa história bonita até, mas secundária. Tudo compreendido, deve ter sido bastante difícil e caro de fazer, de construir o mundo de James Cameron. Mas, mais interessante achei esse. Mesmo sendo um filme de guerra, mesmo sendo unilateral e mesmo mantendo os iraquianos calados e de cara fechada todo o tempo com uma única exceção trágica do garoto, passemos por cima das obviedades. Kathryn deu um show de direção num filme de situação estabelecida. Teoricamente não há heróis, mas participantes do mesmo conflito. O filme não prevê o fim da guerra, muito pelo contrário, a meu ver não culpa tanto os iraquianos, não há nada muito tendencioso (além de ser um filme americano, claro) que nos impeça de assisti-lo. Claro, melhor seria se fosse mais ambíguo, se ouvíssemos aqueles que armam as bombas e suas também tragédias diárias, mas não era o objetivo deste, não era seu recorte.

O Oscar é uma premiação política. Filmes sobre não só essa, mas todas as Guerras americanas pelo mundo são sempre melhor posicionados. Há um cuidado em se manter o moral norte americano, essa é a política óbvia. É preciso que se vá a ele sem esperar muito. É um filme de guerra, é um filme de relações humanas numa guerra, é um filme de ação. Tem tiros, tem crueldade. E é americano e bom.

Título Original: The hurt Locker
Direção: Kathryn Bigelow
EUA, 2008, 131 min
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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