• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte

Sabe aqueles filmes que nos cativam a cada novo e instantâneo, natural pensamento que aflora sobre ele? Sem querer, após sermos apresentados, vão ressurgindo na memória durante o dia, ou a semana e queremos manter aquela satisfação da boa surpresa e o deleite de uma grande e sensível produção que participamos. Nordestina e visceral, esta Suely me tomou de corpo inteiro.

Parece que há um destino a ser cumprido, uma missão para determinadas mulheres e indo de encontro à correnteza que tenta lhe arrastar, ela se sustenta e rema, nada na direção contrária da tradição. E assim, toma outros rumos e vive sua própria jornada. Suely/Hermila é essa mulher; é a representação de tantas outras que querem ser apenas uma de cada vez e não parte de um conjunto.

Hermila é uma mãe que retorna à sua cidade natal vindo de São Paulo à espera do marido para aí viverem com o filho que carrega no colo. Como manda o destino trágico das mulheres, o marido não retorna e daí nasce Suely, um corpo novo na então Hermila que se rifa a troco de dinheiro para viver como nova em um outro mundo.

Atualmente, da safra do cinema nacional, a que mais me interessa é a nordestina. Muito por ser de onde eu vim, mas principalmente por ser o cinema puro, o cinema menos misturado à linguagem televisiva, o cinema mais distante das grandes emissoras. Talvez também o cinema mais pobre e por isso, mais rústico, mas isso é um engano estético, na verdade, porque a riqueza dele está na sutileza e no retrato do nosso coração em sua forma mais sincera. São filmes que nos tocam a alma, que nos lembram quem são e o que são as pessoas, a diversidade da vida neste país, os lugares menosprezados, as vidas nas pequenas cidades, quase documentários de tão reais situações encenadas.

Há poesia e beleza nas cenas deste filme, há a elegância da atriz e personagem Hermila que nos faz compreender suas estranhas ações, seu desespero controlado em movimentos calculados para atingir seus objetivos. Há uma doçura de jovem mulher e uma coragem pouco vista nas meninas de nossa idade preocupadas com pequenos problemas. E há uma tradição familiar quebrada em pequenos fragmentos com um roteiro muito bem amarrado em personagens-chave.

O Céu de Suely é um filme para mulheres que buscam seu próprio caminho, para mulheres que estão satisfeitas com a correnteza que as impulsiona e para os homens, muito bem retratados numa história que finalmente não os privilegia. Acima de tudo, é um filme sobre pessoas e sentimentos incompletos, que se totalizam na confusão da vida, nas conseqüências das decisões que tomamos com o coração e enfrentamos com a rotina. É um filme que lembra a mim mesma, às minhas comadres espalhadas pelo mundo, às nossas travessuras de novas adultas ainda meninas e à força que nos impulsionas para sermos apenas uma de cada vez e não todas de uma vez só. E essa sensibilidade veio de Karim Ainouz, um homem que surpreende, nordestino e fantástico, também retirante e vivente sensível de uma grande cidade que não a sua. O céu de Suely pode não ser o paraíso, mas vive de pôr-do-sol como nenhum outro poderia.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Estou lendo De cuba, com carinho, de Yoani Sanchez. O livro contém uma seleção dos posts dessa autora no Generación Y, sobre as situações que vive e conhece na Cuba de hoje, esmigalhada por seu próprio governo. Textos curtos, muito bem escritos levaram essa filóloga ao topo do mundo, ainda que não consiga sair de sua própria ilha.

Enquanto Cuba se consome, penso no que acontece ao meu redor. O Rio de Janeiro, ridiculamente futura sede olímpica, mantém os mesmos problemas de sempre e não parece medir esforços suficientes para aplacar a situação, apesar das propagandas políticas. Aqui o tráfico de drogas é a rotina, bem como as trocas de tiros, as balas perdidas. É claro que nem todos os acontecimentos são noticiados, mas este tipo de evento não assusta mais ninguém.

Como nosso Rio está o Irã e seus vizinhos; ninguém se abala mais com tantos atentados, vítimas, mortes à toa. Fico pensando em quantos blogueiros seriam necessários para tratar dos temas de cada país, de forma a impactar seu próprio sistema. Para que não pareça exagero: a cubana Yoani, ao lançar seu livro com sucesso mundo afora sem conseguir ir aos lançamentos, foi seqüestrada e espancada. Sem mencionar a luta diária para usar a internet ilegalmente.

Quando pensamos que aqui como Cuba, sofre de problemas crônicos, não vemos novidade nenhuma nas notícias dos jornais. A corrupção nacional, os viciados, seus traficantes e policiais, balas perdidas e assassinatos são notícias passadas e preenchem lacunas nos impressos na falta de coisa melhor a dizer. Agora, com algumas tragédias dignas de 2012, os tiroteios cariocas e atentados no Oriente Médio cederam lugar a Angra, Ilha Grande e Haiti. Não se preocupem, em um mês ou dois, as velhas novidades retornam às primeiras páginas.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários

Enquanto eu olho os postais dos Médicos Sem Fronteiras, fico pensando no que fazemos por aí para nós e para os outros. Nada dessa megalomania de vamos salvar o mundo ou 2012 chegará, mas as pequenas ações mesmo. E é claro que essa reflexão vem por conta do novo ano.

Não me venham com o altruísmo não existe, que ele em si carrega o que há de mais egoísta que é o sentimento de bem estar por ter feito algo por alguém em condição pior. Nada dessa energia carregada de amargura. Vamos pensar sim, no que podemos fazer por quem precisa, independente de qualquer sentimento ou benefício próprio. Talvez seja por isso que a medicina me ronda a cabeça como uma possibilidade.

Cenas de destruição no início do ano, réveillon devastado por diversas tragédias pelo globo e isso acontece sempre. Talvez por estar mais próximo de mim, no mesmo estado em que resido, me afetam de forma diferenciada. Ou talvez não, a situação em si, a dor coletiva de uma tragédia 'natural' é o que mais nos abala, as perdas de vidas que desconhecemos, as perdas em si.

Há muita tensão comigo e minha família nesse fim e início de anos. Problemas íntimos nos tomam o coração e o máximo que conseguimos é empurrar um sorriso de batalha e pensar para o bem, para um futuro promissor, para uma saúde coletiva, um bem maior, uma vida resolvida. Enquanto as coisas se encaminham para isso com obstáculos superados dia-a-dia como uma formiguinha carregando seu alimento maior que ela própria, o coração segue apertado, interrompido por momentos de distração no trabalho, com os amigos. De tanta oração, para tantos deuses e religiões, pedidos à natureza, esperamos sempre o melhor. O melhor para o ano, para nós, para todos.

E chega dessa ladainha positivista. A vida segue. Que nesse ano sejamos mais honestos, diretos, reflexivos, lutadores, pensantes, ativistas. Que novos ideais surjam, que a coletividade aumente, cada indivíduo se destaque como uno, se compreenda e então conviva.

E pode parecer difícil, complicado, distante e a preguiça nos ronda. Somos tomados de leve pelo conforto, pelo marasmo e pela paciência, mas no chega e basta é que corremos atrás e vemos de que substâncias somos feitos. É esse o sangue que tem que ferver. Que os orixás, deuses de todos os cantos e naturezas nos guiem e conosco, nos tranformem no que acreditamos que podemos ser e, por fim, sejamos.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
A única resenha possível para um livro tão maravilhoso, lá em 2009! Vem ler A solidão dos números primos, de Paolo Giordano comigo, aqui no Café. Um update maravilhoso a esse texto de emoção é dizer que saiu o filme, anos depois, que também é esplêndido, para a nossa sorte e felicidade. Mas é claro, leia o livro antes.

solidao-dos-numeros-primos

Acabei o livro. Comprei sábado de tarde e acabei hoje, segunda. Toda vez que eu acabo um livro, sinto alguma coisa que me percorre o corpo, mas que na verdade é puramente mental. É como se naquele momento exato da última palavra da última frase estivesse a resposta que vínhamos buscando desde a página um. Mas não, na verdade não é isso, o negócio é que como todo filme muito bom, ficamos com aquela expressão de quem acabou de conhecer alguma coisa diferente. Mas, como todo filme que acaba e livro que se lê, quase uma tristeza nos diz: agora eu já sei, a surpresa se foi.

Esse livro veio como uma surpresa boa. Caiu em mim uma matéria sobre seu autor, como se ele fosse uma pessoa que eu poderia ser: físico, 26 anos, primeiro romance. Pensei em fazer física um dia e me perguntei como seria o primeiro romance de um físico que, não suficiente, ganhou o prêmio mais importante da literatura italiana. Comprei, comecei a ler na manhã de domingo e o levei até mais da metade até a noite. Li mais um pouco hoje de manhã, como uma necessidade urgente de dar segmento à história. Fui pro trabalho com outro livro na bolsa, na tentativa de impedir que o final daquele chegasse logo. No trabalho, um senso crítico se apoderou de mim e começou a questionar o livro, se era realmente bom, se eu não o estaria aumentando, criando ilusões em cima de uma obra menor. O negócio é que quando me vi em casa, deixei a tv de lado, o computador e fui de encontro a ele, entre a agonia de ver as páginas indo embora e a delícia da história acontecer.

A Solidão dos Números Primos, conta a história de duas crianças que se conhecem numa escola. As duas carregam uma tristeza latente fruto de tragédias que não podem ser esquecidas. E crescem ao avançar das páginas. Não vale falar mais do que isso; é uma história de duas pessoas, num universo que poderia ser o nosso, com uma linguagem simples e rápida, sem muitos adjetivos. Há um motivo muito bonito para o título.

Agora que o livro se foi e será relido em breve com mais calma, verificando e ouvindo internamente cada frase, ficou aquele vazio da vontade de falar e falar sobre ele e sentir com alguém aquela experiência naquele mundo fictício. Enquanto isso não acontece, vivo os personagens em minha cabeça, recriando as situações, entendendo seus sentimentos, até sendo um pouco como eles.

*A Solidão dos Números Primos, Paolo Giordano. Editora Rocco.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Uma noite dessas estive numa festa de aniversário de uma pessoa que não conhecia. Fui acompanhando uma amiga em comum e aproveitei pra conhecer o bar na Lapa.

Saímos de lá, agora quatro meninas num carro dirigido por Camis, a amiga. Nossa motorista havia bebido umas cervejinhas antes, umas oito da noite e tinha parado por aí. Agora já eram 00:30. Na Praia de Botafogo a caminho de casa, uma blitz da Lei Seca.

A blitz ainda não se entendeu em estrutura. Eles sempre causam engarrafamentos surreais onde param. Paciência. Das risadas que foram minguando, o policial nos fez parar. Instantaneamente, nosso clima de curtição se transformou em tensão. Nenhuma de nós era da área de saúde para saber a duração do álcool no sangue e todas haviam bebido.

Camis foi chamada ao bafômetro. Tensa, tadinha, com razão já que era a dona do veículo, já imaginava o pior. Ao nosso redor, dezenas de carros, muitos meninos na casa dos vinte e início de trinta e um casal que chamou atenção: eram de meia idade, a senhora usava um vestido pavão em cores, maquiagem e uma cabeleira loira presa no alto da cabeça. O senhor, em eterna pose, caminhava e falava ao telefone. Na certa, os policiais pensaram: whisky. Até acho que eles foram pegos, porque não estavam com uma cara de muitos amigos. Outra figura era uma garota de top e short estilo esportista que conversava animadamente com um dos policiais. Momentos depois, uma das meninas de nosso carro lhe perguntou se tinha bebido e ela respondeu: muito.

Camis foi ao seu martírio junto comigo. Eu explicava segundo a lógica do momento: relaxe, você bebeu bem mais cedo, já tomou refrigerante e comeu coisinhas. Tudo acabará bem. E fingindo calma, fomos. Ela soprou três vezes o negócio na esperança do O.O aparecer no visor. Na maior educação e presteza, nosso algoz nos disse enfim: muito bem, senhoritas, podem ir pra casa. Na mesma calma, dissemos com o olhar: Viu? E por fim, ele: parabéns. Ela: Obrigada. Ainda que esse pudesse ser o início de uma história de amor com tantas gentilezas, acabou aí mesmo e fomos buscar nossa liberdade no carro.

A euforia continuou como havia iniciado antes da blitz, agora com a ênfase da vitória final. Ao deixar as duas meninas na primeira parada, uma delas diz: mas tem é gente bonita nessa Lei Seca, hein? À parte a surrealidade da comadre, a tensão não vale a pena. Ainda mais quando são policiais. Ainda mais no Rio. Ainda mais quando eu lembro que dois dias antes, saindo do banho de mar matinal do verão desavisado e toda enrolada na canga pra atravessar a rua, dois policiais desses que acham bonito mostrar a ponta do fuzil no carro, falam coisas quando passam por você.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
foi-apenas-um-sonho

A diferença entre o jovem e o adulto é que enquanto o primeiro vai levando a vida com a sacola carregada de sonhos acreditando que pode realizar a maioria deles, o adulto resume tudo numa bolsa, já os têm sob medida e restritos à realidade que conseguiu para si. É tudo uma questão de expectativas x frustrações e sucessos. À medida que vamos crescendo e adquirindo responsabilidades e anseios cada vez maiores, vamos entendendo a dificuldade de atingir nossos sonhos e mesuramos o que queremos e o que podemos ter. Isso é crescer. Por mais frustrante que pareça, é inevitável e pode quem sabe, promover os sucessos que tanto planejamos. 

Revolutionary Road é uma ficção. Dirigido por Sam Mendes, trata da vida do casal representado por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. O casal jovem, vivendo nos subúrbios americanos da classe média, se depara com sua vida e com a que pensaram em levar um dia. E surgem os conflitos naturais. 

O que interessa nesse filme, além das interpretações de todos os atores e da fotografia palatável, é o enfrentamento que o tema do filme propõe. Quem nunca se questionou como a vida seria, como será? Quem nunca almejou grandes objetivos e viu que na hora H tudo toma outras dimensões? Nada contra os sonhos, que carrego vários comigo, mas há sempre frustração quando se sonha demais.

leonardo-di-caprio-kate-winslet
Encontramos aqui um círculo social muito bem construído que universaliza a trama: os vizinhos, os colegas de trabalho, os filhos. O mundo que cerca os protagonistas é tão importante e diz tanto quanto suas interpretações; é o contexto que incomoda, que exemplifica ao espectador a recusa à satisfação. E somos carregados em discussões ácidas construídas com uma intimidade natural do casal de atores, os encontros dos secundários com eles e vamos percebendo situações que vivemos no dia a dia. É um texto que prescinde de temporalidade, de época. 

Ainda assim, Revolutionary Road é ambientado no início do século 20 sem crise americana. Uma geração de mulheres submissas, no velho conhecido espaço machista recebe este casal sedutor e inteligente que se apregoa diferente dos demais, ainda que viva a mesma realidade coletiva, da mesma forma. A insatisfação culmina num desmembramento da relação perfeita e encontramos no casal a verdade que não queremos ouvir: o contentamento e a decepção. 

É também um filme que fala sobre a coragem e o desespero e vemos uma linha tênue muito bem traçada entre os extremos. Filme que nos apaixonamos de cara, com um início profundamente sedutor que nos leva pelas entrelinhas do roteiro e quase não acreditamos no rumo dos acontecimentos. Vale cada prêmio. 

Ficha Técnica
Título ridículo em português: Foi Apenas um Sonho
2008, 119 min.
Diretor: Sam Mendes
Atores:
Kate Winslet
Leonardo DiCaprio
Kathy Bates
Michael Shannon
Share
Tweet
Pin
Share
2 Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
    Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
  • Spotlight
    Spotlight
  • Livro da Semana - Física em seis lições
    Livro da Semana - Física em seis lições
  • Amy
    Amy

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose