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Café: extra-forte

Tentei fugir, mas não consegui: hoje me apareceu a cópia pirata do "Ó Paí, ó" e assisti. Somemos a isso os acontecimentos do III Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual nesta semana e o caderno especial lançado pelo jornal A Tarde sobre o evento.O Seminário foi grande, com convidados especiais, temas interessantes e oportunidades de ser um acontecimento cultural de peso na cidade. Filmes importantes foram lançados e se buscou pensar o audiovisual em suas diversas performances. O cinema baiano teve um destaque polêmico.Alguns acreditam que existe Cinema Baiano. Acreditar nisso é separá-lo do Cinema Brasileiro, que deveria abarcar todas as produções nacionais, independente de onde foram feitas. É compreensível: somos paternalistas. Só é permitido entender assim, já que não falamos sinceramente dos filmes que fazemos, sempre passamos a mão na cabeça de nossos diretores e dizemos 'muito bem'; quase não fazemos filmes e ainda assim, nos achamos especiais e diferentes do restante do país.

Encaremos a realidade: vivemos de editais e pronto. Nem todos os nossos filmes são bons, André Setaro tem razão em suas palavras. Seu artigo publicado no caderno do A Tarde nada mais diz senão a verdade sobre nós. Mas o que ele fez foi um crime: jogou na nossa cara que somos assim, não disse um 'tudo bem' no final e pronto, ficamos 'com a cara mexendo', pra fazer jus à coleção de falatórios do "Ó Paí, ó".O mais interessante é que não para por aí. O link: isso tudo aconteceu de uma só vez no Seminário. Descobriram a polêmica de fazer Cinema Baiano, depois ouviram um importante critico de cinema dizer que este não existe porque não há cinematografia suficiente e mais, ainda falou que precisamos aprender. Quase ficamos à deriva, não fossem as manifestações de nossos pais protetores nas listas de cinema e em outras manifestações.

Perdemos tempo pensando em como nos proteger frente ao nada que nos infrenta. Em um espaço destinado ao conhecimento, debate e cultura, discutimos o formato de nossos umbigos e gritamos quando alguém os acha feios. Perdemos de conversar mais, de saber mais sobre quem faz o quê, de mostrar pra quem é estudante o que acontece de fato no cinema feito na Bahia e no mundo. Tudo se transformou num bate-boca vazio e sem sentido. Deveríamos achar ótimo ter alguém para criticar nossos filmes, só assim aprenderíamos alguma coisa. Apenas intuição, boa vontade e elogios não servem de nada.E, pra fechar com chave de ouro, o filme da Mônica Gardenberg. Filme feito na Bahia, sobre a Bahia: é uma coleção de falatórios, de nossas gírias e dos tipos que circulam por aqui. É a soma do dicionário baianês com todos os clichês há pensados para a terra do acarajé. É a superfície da superfície da margem de qualquer realidade baiana e mais, atesta que o jeitinho brasileiro é exclusividade do baiano, já que nunca foi tão explorado como neste filme. Não solicitamos dramas, produções de crítica social, temas sérios. Pode ser até sobre o Carnaval, como foi, só que poderia ir além, como... mostrar realmente o Carnaval... mostrar realmente o Pelourinho, como as pessoas são, como não vivemos só de farra e 'gaiatice'.

Do filme inteiro só vi que somos atirados... nada mais. É clipe de Carnaval, filme feito por turista e para turista. As pessoas que vivem em Salvador, que trabalham com cultura... ou que simplesmente pensam, não deveriam gostar do filme. Ele perde em verossimilhança e, sem isso, não há obra que se sustente. Tiraram uma foto da "Salvador do Carnaval Mundial" e colocaram em movimento. E aí, esse filme faz parte do Cinema Baiano? Melhor é dizer que somos brasileiros...Ganhamos com "Ó Paí, ó" a lembrança de sermos provincianos sem solução, eternos adoradores de farra e orgulhosos de nossa dança e sensualidade. Somos tão vaidosos que nem ligamos muito pra essas coisas sérias. Somos bonitos e pronto, nossa música é fantástica. Mas somos tão pequenos que discutimos isso tudo em Seminários Internacionais. Ou é por que somos grandes demais e só o nosso espaço é suficiente? Será que precisamos de mais alguma coisa?
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Enquanto a gripe tenta dominar meu organismo, fico pensando no último filme que vi: Apocalypto, de Mel Gibson. Após o terrorífico filme de Jesus que estigmatizou para sempre a carreira do Coração Valente, eis que nosso cineasta resolveu virar antropólogo: lançou uma aventura Maia. Como de costume, utiliza os idiomas referentes a cultura que propõe retratar, ainda que a linguagem de seus filmes não fuja às aventuras norte-americanas. Até entendo esse bloqueio, ele não pode não pensar como americano, isso é fato. Os chistes são do tipo que vemos em Velocidade Máxima ou em outros que têm 'matar' em alguma parte do título. Ainda assim, resolvi dar um voto de confiança porque nunca vi ninguém retratar a cultura maia e achei auspiciosa a idéia. Vamos em frente, pensei.

O filme não passa de uma correria nas matas tropicais dos índios que mais pareciam brasileiros do que maias, salvo engano, bravos donos das terras mexicanas. Em resumo: três tribos, duas são açoitadas por uma mais 'civilizada' (que parece combinar mais com a nossa idéia dos Maias mesmo) que os utiliza como sacrifício aos deuses. Aqui surgem questões como: por que diferentes tribos falam o mesmo idioma? por que só percebemos no império maia a escravidão, a exploração e o sacrifício? por que, um filme que retrara uma cultura de época não realmente trata da cultura, mas apenas de suas expressões de violência? Acredito que o diretor tenha buscado alguma analogia com a vida real, mas ele deve ter percebido que esta idéia culmina numa critica à sua própria cultura e não a que eles acham ser a dos bad guys.

Obviamente no filme há o personagem principal e este foge o tempo todo, sendo o único sobrevivente homem de sua tribo. (Sim, é mais um desses filmes em que só sobra um para contar a história) Chega o momento em que ele percebe que não adianta fugir e que deve enfrentar aqueles que invadiram sua vida e lhe tiraram a paz, os amigos, a família, e não há mais o que perder. O clichê não diria melhor: a caça vira caçador e Jaguar Paw se torna senhor de seu destino.

Ao contrário do que eu esperava, o filme tem uma reviravolta interessante e a transformação do personagem é muito bonita e bravia. Imaginava eu que ia ser mais um filme em que a inocente vítima apenas foge e seu trunfo é sair viva da trama, mas aí o momento da coragem torna a vítima em algoz e nosso senso de justiça aflora, passamos a desejar o assassinato de todos os malvados.

Infelizmente o final é ridículo, mas vale a idéia da coragem, da força que somos capazes de possuir e da crença que devemos ter em nós. Chega um momento em que nossa única decisão válida é o enfrentamento, não apenas por uma justiça ou pelo que acreditamos ser certo ou errado, mas por ser nossa única opção, aquela que nos faz ser quem somos.

De ontem pra hoje a gripe se fortaleceu no meu ser, mas estou enfrentando como o indiozinho e esperando um filme realmente legal na tv, com café preto bem quente e comidinhas gostosas.

Só um último ps: o pôster não condiz com o filme, nem é o protagonista na capa e não se vê nada direito. É feio e parece ter sido feito às pressas. Aproveitando, queria opiniões sobre a fotgrafia, que não achei nada demais, mas creio que deve ser um desafio para um diretor de fotografia filmar em florestas.
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Não é só vontade de sair... é vontade de sair, de gritar, de fugir de tudo, de sumir na vida, com uma praia azul e vazia na frente pra ficar lá dentro do mar, fingindo que sou peixe. É esta droga de sentimento de que tem alguma coisa errada ou que vai acontecer e que me aperta e de que estou fazendo as coisas erradas muitas vezes... e no fim, nem sei se são erradas ou se eu que estou achando tudo errado.

Não é só a mudança do trabalho, é o que insisto com meus próximos e preocupados, é algo mais... são as vontades de outras coisas, também não tão grandes e difícieis; até alcanáveis elas são. E, enquanto eu tenho a certeza de que o que planejo e almejo vai me amadurecer e me tornar outra, existe uma pontinha de dúvida, lá dentro, quase escondida, que insiste no "é disso que você realmente precisa agora?" Mas continuo fingindo que não ouço isso, porque sei que é estupidez e que eu realmente preciso disso por muitos motivos.

Tem umas coisas na Bíblia, que não sei direito porque não li a Bíblia, que são chamadas de Grandes Revelações. O que importa é só o título. Acho que na vida passamos por momentos de Grandes Revelações e que antes destes momentos chegarem, uma crise deve acontecer. Porque as Revelações não surgem como uma surpresa, não são um susto. As grandes descobertas são fruto de estudos e na vida acontece o mesmo. Daí acho que estou num momento pré-Grandes Revelações.

Hoje acordei cedo e fui ver tv. Descobri que não ia fazer a prova de espanhol porque havia perdido aulas e não sabia pra onde iam as coisas por lá e fui pro sofá. Estava passando nada na tv e assisti assim mesmo, mais pra que as imagens passassem por mim e me dessem tempo de pensar na vida e me distrair ao mesmo tempo: a tv tem a capacidade de fazer refletir sobre tudo o que não passa lá e, ao mesmo tempo, te fazer ignorar sobre esses assuntos quando seus pensamentos se encontram com a vida real e se tornam resoluções e responsabilidades, aí é o momento em que você se desconecta dos pensamentos e vai se distrair com as imagens. Entre uma coisa e outra fiquei me perguntando porque eu me divertia mais antes. Não é depresão nem nada disso, acho que é essa coisa de novas perspectivas e o que elas trazem mesmo e vejo isso porque me tornei mais crítica com tanta besteira que estou num momento de deixar de ser chata de uma vez por todas e permitir que todas as coisas horríveis, chatas, burras, estúpidas e grotescas existam sem a minha percepção tão clara disso. Como uma pessoa reticente costuma me dizer, seja mais leve... estou tentando...

Enfim, vai passar quando tudo se resolver, apesar da imagem do mar azul estar sempre me rodeando como uma vontade entranhada em mim. Vontade eu sei, que nunca vai se esgotar e vou estar sempre buscando... buscando...
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Foi a frase que o ator Paulo José falou para o Matheus Nachtergaele outro dia aí. Tô lendo a Bravo! nova e ela diz isso em uma reportagem sobre o ator de Baixio das Bestas, filme que ainda não entrou em cartaz em Salvador, do Cláudio Assis.

Conheci esse menino Cláudio no último Festival de Gramado, junto com a companhia divertidíssima e especialíssima dos queridos Renato Gaiarsa, Rodrigo Luna, Edgar Navarro, Wladimir Carvalho e José Araripe. A viagem foi estranha, parecia que eu estava no universo paralelo do Brasil. Lugar frio demais, bonito demais, branco demais, parecia um cenário... e eu no meio daquilo tudo, até as pessoas eram estranhas, parece que faziam parte de um roteiro... Sabe o A noite americana, do François Truffaut, que a primeira seqüência é a filmagem de uma cena numa praça e quando ele grita corta! você toma um susto? Pois é... fiquei esperando alguém gritar o corta!, mas nunca aconteceu. Ao invés disso, tivemos almoços gratuitos e divertidos, dançamos com o pessoal do restaurante que parecia aquele do Solar do Unhão (chamamos ele de Solar do Unhão de Gramado), assistimos filmes bacanas, concorremos a premiações, conhecemos algumas pessoas legais, comemos muito, bebemos mais ainda.

Tudo é muito bom de lembrar nesta viagem: Marcela morrendo de frio e quase chorando no quarto do hotel, dizendo que não ia sair de lá e no fim das contas estávamos as duas passeando no meio das nuvens; a carona que pegamos de um homem que ficou com pena de nos ver no ponto de ônibus; a enorme quantidade de chocolate que comi e café que bebi de graça; as pessoas que conheci e as coisas que aprendi.

3 noites maravilhosas:
1. A que encontramos as meninas. Depois de passar muita raiva diante da frieza das pessoas do sul que nunca conversavam com a gente, topamos com duas meninas que estudavam em Caxias do Sul. A primeira coisa que nos perguntaram foi se éramos de lá e quando dissemos que não, elas deram graças a deus e saímos para beber. Foi ótimo! No fim das contas, elas não tinham onde dormir e foram dormir escondido lá no nosso quarto. Depois tomamos pagação do mercenário dono...

2. Não lembro como começou, só sei que estávamos com os troféus do Gramado Cine Vídeo, eu com os de Xanxa e Rosalvo, e Luna e Wrewre com os que lhe cabiam e saímos para ver a estréia do Wood & Stock. Quando passamos pelo tapete vermelho todo mundo achou que a gente era global ou sei lá o quê e o pessoal do Tocantins que conhecemos num passeio ficou nos gritando e tiramos fotos. Quase um Oscar, imagine! A diversão mesmo foi que eu tinha bebido e comecei a ver o filme...e dormi. Mas o filme é massa!!!

3. A última noite do Festival de Cinema. Arara, Cláudio, Edgar, Chela, euzinha, Luna e Wrewre bebendo um monte de vinho na varanda de um restaurante qualquer do lado do Palácio dos Festivais. Bebi e ri demais nesse dia. Me diverti muito e saí feliz e cantante para o hotel, já sem frio, claro: eu pra um lado, Chela pro outro, sempre me gritando para segui-la. Descobri que não fui a única a estranhar os costumes frios da região. O Cláudio não curtiu muito e o Araripe teve que sair para apresentar algum prêmio no Festival.

Enfim, o que eu sei é que ainda espero o filme do Cláudio aparecer por aqui, com muita ansiedade. Mas a frase. É muito boa. Melhor ainda é que o Matheus a considera irretocável. Essa matéria da Bravo! tem uns tópicos sobre o ator, como um retrato falado. Este fala sobre o fascínio da morte, a do suicídio. Não sou exatamente fascinada por isso, mas ele é, talvez por não ter conhecido a mãe que morreu assim... o mais legal é pensar que o Paulo José falou isso, provavelmente num de seus dias de bom humor. Ele é um ator que parece sempre estar de bom humor. Mesmo com seu problema de saúde, está sempre bem, querendo viver da melhor forma possível. Provavelmente ele falou essa frase numa conversa amena, com um tom de voz tranquilo de quem sabe o que é a vida porque já viveu muito mais que muita gente deste país e soube aproveitá-la.

Nesse fim de semana fui ver um filme francês no cinema com Renato. Passou o trailer do documentário sobre o Niemeyer e eu lhe disse: Renato, sou fã desse cara. Eu acho que o Niemeyer, o Chico Buarque e o Tom Jobm é que são brasileiros de verdade. Vou acrescentar à lista o Paulo José. Na verdade, eu só lembrei dos três naquele momento, mas dia desses faço a lista quase completa.
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Hoje não sei sobre o que escrever. Vamos ver o que acontece, mas já ia começando assim: almocei no Tango. Claro que só comi besteiras deliciosas, como torta de café e torta de atum com um monte de coisas dentro. Mais um capuccino. E um enjôo gigante, vontade de vomitar e muito arrependimento. Estava tudo maravilhoso, só que comi demais. E essas coisas demais sempre dão problemas... enfim.

* * * * *

Depois de uma noite mal dormida, acordar cedo e uma rinite interminável durante todo o dia, consegui driblar a chuva e chegar em casa. Prontamente tomei banho e soltei os filhotes (parêntese: tenho filhotes de She-ra, são dois dálmatas, He-Man e Tila) e me joguei no sofá com o bom e velho cobertor. Eu sou aquele personagem do Snoopy, amigo do Charlie Brown que vive com um cobertor por todos os lugaes...Mino? Sei lá, nunca sei o nome dele. Fui mudando os canais da tv, tenho mania doente de zapear, normalmente fico no máximo meia hora vendo tv e pronto. Só que desta vez foi diferente. Quando mudei os canais todos, estava passando um filme estranho. Chamava-se: Monólogos da Vagina.

Achei o título tão inusitado que resolvi experimentar. Era uma mulher americana que havia feito diversas entrevistas com mulheres pelo mundo, especialmente pelos EUA, e havia descoberto muitas coisas interessantes sobre o universo sexual da mulher. Algo como um Relatório Hite mais popular ou o outro filme que trata da vida sexual das pessoas, muito bom, por sinal, Kinsey, é seu título. Em Monólogos, a entrevistadora estava num palco, realmente executando um monólogo sobre a vagina. Um não, vários! Ela se valia das experiências coletadas nas entrevistas - algumas delas inclusive são apresentadas a nós - e criava em cima um texto bacana, com diversas impressões e expressões sexuais.

O filme me provocou diversas sensações. Não sou uma militante das descobertas sexuais da humanidade e nem me interessam muito os programas a la Sue alguma coisa que falam de sexo na tv. Não sou puritana, só acho que é uma coisa muito divertida e natural e que todos devem fazer sempre que sentirem vontade com as pessoas que sentirem vontade e se elas assim concordarem. A grande questão é que não é comum vermos a vagina como o foco das atenções. Na grande maioria das vezes, ou trata-se de sexo por ele mesmo, enquanto 'pacote completo' ou do pênis, que não discutiremos aqui. Entre os monólogos, a apresentadora/atriz/entrevistadora trazia um panorama sobre o próximo texto, com alguns trechos das entrevistas e informes, acontecimentos que causaram o novo subtema.

E aí vemos desde coisas realmente excitantes, de gemidos e prazeres e motivos e observações - um texto fala de uma história de uma mulher que passou a amar sua vagina depois que um cara com que se relacionou passou a observá-la realmente 'em todas as suas formas e peculiaridades', por assim dizer. E percebemos que algumas mulheres entrevistadas nunca se viram e não sabem como realmente são, como seu corpo se define, e em cada palavra, gesto, olhar, percebemos o interior de mulheres maravilhosas que se esconderam muitas vezes com medo da imagem que fariam de si mesmas. Já outras, por vezes se intimidavam com a câmera, mas ainda assim, percebíamos uma liberdade maior e risos, muitos risos de se encontrarem à vontade de conversar sobre um assunto que poucas pessoas falam com elegância e não com vulgaridade.

Só me incomodei um pouco com o fim, depois de alguma excitação e muitos risos - a personagem é engraçada e surreal - porque o último tema era sobre um parto que ela presenciou e ela poetizou o momento, que a maioria das mulheres acha lindo e deve ser mesmo. Quando eu for adulta espero pensar o mesmo, mas por enquanto a idéia me assusta um pouco... O texto escancarava o parto em detalhes e, como já vi em outros filmes, nunca me foi uma expriência agradável. Tenho minhas agonias com isso, ainda que queira ter três filhos. Penso no barrigão e na criancinha, mas nunca no entreato...

Por fim, aconselho a nós todos esse filme que causa estranhamento, incômodo, excitação e admiração. São muitas informações, um horizonte amplo e que queremos que seja ainda maior, vemos mulheres corajosas e tranquilas com seu conhecimento e não-conhecimento de si mesmas, vemos situações impactantes e uma forma de descobrimento incrível, tanto para os rapazes quanto para as moças. E, não me canso de dizer, sou fã da mulher corajosa que se mostrou e mostrou seu trabalho a tanta gente, de forma tão natural. Precisamos de mais mulheres assim, que consigam chegar lá na frente e dizer apenas: somos mulheres.
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Antonio Máquez

Esta segunda-feira aconteceu em Salvador um espetáculo de ballet flamenco da Companhia Antônio Márquez, de Madri. O TCA estava cheio das pessoas que nunca vemos pela cidade, à exceção de minhas coleguinhas do flamenco que tentamos aprender nas noites de segundas e quartas. O espetáculo não foi barato como os xous da Concha Acústica, mas valeu cada centavo e talvez eu ainda fosse capaz de pagar mais.

Acho que minhas necessidades de ver coisas diferentes aliadas ao cansaço extremo dos pequenos conflitos do dia-a-dia me impulsionaram como num desafio para cruzar a cidade. O espetáculo foi magnífico, me estimulou 1000% para continuar na danza e me divertir, porque não há esporte melhor do que o conhecimento.

Sempre conheci muito pouco sobre o Flamenco. Sabia que era uma dança espanhola e tive pouquíssimas experiências visuais, já tinha visto em filmes e só. Entrei ano passado e me apaixonei, mas, ainda assim, não tinha noção da beleza e energia dos movimentos execuados com perfeição. Antonio Márquez transformou a noção de limite entre a sensualidade e o equilíbrio que a rudeza dos passos no tablado e do quase flutuar do ballet clássico poderiam permitir. Se eu conseguisse realmente identificar todo o acontecido no palco em palavras, não valeria tanto a pena.

Estou redescobrindo meus prazeres mais uma vez. Eu sei que isso tudo pode parecer muito intecional, levando em conta que meus convidados de mesa já se empolgaram com o último escrito, mas estou disposta a esse novo desafio.

Um bom reencontro como tive esses dias com amigos de longa data, regado a velhas histórias e novos acontecimentos, amigos de sempre e que nunca causam estranhamento quando nos cumprimentamos.

O café com chantily do Tango, que já mencionei e a notícia de que abriram outra cafeteria na cidade. Hoje estive na aula de espanhol e me tremia tanto de frio... só porque não havia tomado café. Nada como a hora do intervalo pra alimentar nossos vícios mais divertidos e simples.

Uma conversa de telefone e boas idéias no trabalho que te surpreendem e alegram. Uma ponta de orgulho dos colegas e a satisfação de ainda se divertir com todos eles.

Sei lá. São pequenos prazeres que vão alimentando nossa vida e dirimindo nossas queixas, amenizando nossas ansiedades e permitindo que consigamos viver os diversos sabores do cotidiano. É necessário uma pitada de qualquer coisa nova durante a rotina para nos sentirmos diferentes. Só assim percebemos que passamos com o tempo e não apenas que ele passou por nós, como uma duração de qualquer coisa.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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