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Café: extra-forte


"Temos que aceitar a nossa eixstência em toda a plenitude possível; tudo, inclusive o inaudito, deve ficar possível dentro dela. No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar."

"Falando-se novamente em solidão, torna-se cada vez mais evidente que ela não é, na realidade, uma coisa que nos seja possível tomar ou deixar. Somos nós."

Estes são trechos de um dos livros mais importantes que já li. É Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke. O livro é simples, trata de uma coletânea de cartas a um jovem escritor que aspira o título de poeta. Rilke escreve para ele, respondendo a seus anseios, nunca criticando seus textos, mas lhe mostrando formas de ver a vida, a união imprescindível de pensamento e sentimento. O texto é simples e corrido, mas há que prestar atenção a cada vírgula e pausa, pois aí é que está o verdadeiro, o imo de suas palavras, as entranhas de todo o livro. E depois, um texto belíssimo, de presente, quase que esquecido depois ds cartas. Sabe aquela caixa onde guardamos nossas correspondências afetuosas? Aí escrevemos um texto que gostamos muito. Guardamos lá. É onde está, no livro.

E eu, que converso tanto com dois amigos sobre solidão, encontro aí, não minhas palavras, mas minhas idéias descritas. E é tão difícil, ás vezes, seguir o que pensamos. Mas devemos. E esses trechos são para eles. Acreditem, não sou a única que pensa assim. E a você que me emprestou e depois percebeu que eu não poderia ficar sem o livro, valeu. Você bem sabe a importância disso tudo.

É só.
:)
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Esta é uma noite de insônia. Fui dormir na hora errada, entretida nos contos de Maupassant e são quase quatro da manhã. Enquanto minha mente se torturava em pensamentos de dúvidas eternas e cruéis (sabe aquelas decisões que devemos, mas nunca nos atrevemos a tomar?), os minutos passavam. Desisti e acendi a luz.

Estou no meu inferno astral. Domingo é meu aniversário e meu fevereiro não foi dos melhores. esta é a segunda noite seguida de mal dormir e amanhã tem trabalho.

Hoje fui ver o mar. Parei o carro em Praia do Flamengo e fiquei vendo a chuva chegar. Era como uma imensa cortina cinza que, ao invés de sujar, limpava de doce as águas salgadas. Enquanto o aguaceiro vinha, eu esperava. A água batia no meu rosto e me molhava a roupa. Deu vontade de tirar tudo e correr pro mar. Passou. Voltei pro carro, fechei o vidro e me tranquei.

A água molhava o vidro e o mar era todo pingos de chuva. O céu era cinza. Uma tranqüilidade meio triste me foi tomando o espírito. Não sei se da chuva no mar, do cinza do céu ou de mim, apenas. Liguei o carro esperando alguém que nunca veio. Cheguei em casa sem esperar mais nada, tomei banho, comi e dormi na hora errada.
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Já é quase março, mas pouco importa: falemos do meu janeiro. Tirei férias o mês todo. Como marinheira de primeira viagem em férias oficiais de trabalho, não planejei nada. Ia ser apenas uma viagem de sete dias para Cumuruxatiba com a turma do trabalho e pronto.

Fui ao sul da Bahia, me diverti muito, me estressei um pouco e voltei a Salvador. Ficaram enchendo, dizendo que eu não deveria perder as férias por aqui, por que eu não viajava pra Arraial D'Ajuda, que eu fosse sozinha e tudo o mais. Acabou que me empolguei com a ideia e fui.

Uma semana sozinha. Depois segui viagem e parei em Itacaré. Outra semana sozinha. A bem da verdade, estive só comigo mesma, mas sempre rodeada de pessoas bacanas. O incrível é que quando você independe de qualquer pessoa ou condição, pode escolher tudo o que te cerca: companhia, amizades, experiências. Não me arrependi de nenhuma das escolhas, ganhei algumas amizades e, acredito, uma amiga. Vi como é fácil estar só e como é importante trocar.

As experiências destas três semanas de janeiro longe de Salvador me fizeram crescer muito mais do que três meses aqui. É só ter confiança em si e saber até onde, até que ponto se pode contar com os outros. Este janeiro me ampliou os horizontes para um ano realmente novo. Disso tenho certeza.

***

*Minha primeira viagem sozinha. Na vida.
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Antigamente, num reino mágico e distante, existia um blog chamado Instantâneos. Anos se passaram, mudanças foram vividas e hoje nasceu o Café: extra-forte. Deliciem-se, mas, antes de tudo, seguem os dois textos iniciais do ano - Janeiro de 2007 e De noite na cama; resquícios do que foi a vida num Instante.

***
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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