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Café: extra-forte

Não sei a de vocês, mas a minha semana foi muito corrida. Nem consegui escrever as críticas, mas chegou a bendita sexta-feira e tudo vai acabar bem! Amanhã tem bloco de Carnaval em Paquetá e tenho que acordar bem cedo, mas de tardinha já vale para assistir alguma coisa, né? Por isso, as pérolas dessa semana serão de impacto, desses filmes que não saem da cabeça, criam conversas de bar e, com sorte, alguma polêmica. Não tem essa de 'estava cansada, acabei dormindo'. Nestes aqui, não tem como! 

Noivo neurótico, noiva nervosa (1977, Woody Allen) – 133 minutos. 
Sétimo filme de um diretor de nada menos que 46 longa metragens, é sem sombra de dúvidas, um dos melhores de sua carreira. Woody Allen, com toda a polêmica bizarra sobre sua vida – fico pensando sobre ética e sobre gostar tanto de sua filmografia e não pensar ou tentar não associar isso a sua vida pessoal (um pouco como Polanski, sendo esse caso pior, ou até Michael Jackson, sendo talvez melhor) – e sobre o que muita gente pensa de sua atuação: “é sempre a mesma coisa” ou “ele nem é tão engraçado assim”, esse filme ultrapassa barreiras. É um romance entre Annie Hall (Diane Keaton jovem e complexa, em uma personagem sob medida) e Alvy Singer (Woody), duas pessoas que se conhecem por acaso e vivem uma história de amor como qualquer outra, não fossem os personagens extremamente bem construídos e os diálogos tão deliciosos e pautados na vida real. 

Feito em 1977, antecede Manhattan (outra obra prima, por mais estranho que seja chamar muitas obras de ‘primas’) e faz parte da longa fase New York do diretor. Pra quem adora comédia romântica, é um dos fundamentais, como Harry e Sally.


Making a murderer (2015, Moira Demos e Laura Ricciardi) – 60 min/episódio
Série documental sobre um homem aparentemente acusado erroneamente de ter cometido crimes bárbaros nos Estados Unidos. Condenado duas vezes à prisão perpétua, sendo inocentado pelo primeiro crime 18 anos depois de detido, passamos a conhecer a história de Steven Avery nesta primeira temporada de 10 episódios que nos deixa com vontade de ver mais. Dá muita raiva perceber as injustiças cometidas e o por vir, mas vale a pena. É interessante ver o peso da mídia em influenciar a opinião pública e como as forças locais (polícia e justiça) trabalham em conjunto e decidem por si sobre a vida de alguém pelo que parece ser pura implicância. Não suficiente, a construção da série – produção Netflix, o que significa uma preocupação forte no que diz respeito à narrativa – funciona como um crescente de expectativas e frustrações, mas sempre alimentando nossa curiosidade. Como sou compulsiva com séries, vi em uma semana.


Kramer vs Kramer (1979, Robert Benton) – 105 min
Sim, outro filme dos anos 70. E sim, outro filme sensacional. Kramer vs Kramer foi um dos filmes listados para assistir antes de ir ao curso de roteiro que fiz em NY. Sim, até eu fico pensando que foi em outra vida de tão distante, mas aconteceu, em 2012 e foi muito legal. Voltando ao filme, encontramos Dustin Hoffman e Meryl Streep, como um casal em crise. Joanna Kramer decide sair de casa e deixa Ted Kramer com a tarefa de conciliar o trabalho, a vida doméstica e a educação do filho ainda criança. O filme joga com essa relação homem x mulher, poderes e deveres, relações machistas e readaptação. É muito mais complexo do que um drama de divórcio e muito mais interessante também. Já vi mais de...sei lá, 6 vezes desde que fui ‘obrigada’. É um dos melhores filmes feitos e é muito despretensioso, o que o torna mais especial. E convenhamos: Meryl Streep e Dustin Hoffman juntos não poderiam fazer um filme ruim. Levou os principais prêmios do Oscar de 1980.


A caça (2012, Thomas Vinterberg) – 115 min
Esse é tenso. Um solitário professor de jardim de infância que está tentando conseguir a guarda de seu filho adolescente é acusado de molestar uma garotinha que acontece de ser filha de seu melhor amigo. O clima é pesado e complicado, a trama se desenvolve como uma aula de roteiro e temos Mads Mikkelsen, o novo Hannibal – da série – como aquele que é caçado. O filme levou nada menos que 35 prêmios, além de outras 62 indicações. Dinamarquês, Thomas Vinterberg tem uma forma especial de filmar, baseada um pouco no dogma, mas explorada adiante em grandes filmes, com mais experiência e dinheiro, claro. Vale do início ao fim, só não vale piscar enquanto estiver assistindo.


 Up – Altas Aventuras (2009, Peter Docter e Bob Peterson) – 96 min
E pra aliviar a barra depois dessa agonia toda que A Caça provoca, vai ter desenho! Up é uma comédia para toda a família, mas é divertida de verdade e não é babaca. Ela faz parte da geração das novas animações que conseguem, com um roteiro criativo e inteligente, servir a um grupo diverso de espectadores. O filme conta a história de um senhor que decide ir a Paradise Falls, realizar um antigo sonho e leva meio sem querer um escoteiro muito animado junto. Terno e inteligente, é imperdível mesmo. E, claro, feliz e inocente, como os filmes infantis precisam ser, para dar alguma esperança a essa humanidade.

E aí, gostou? Deixa uns comentários aqui, para eu ver se estamos no caminho certo?! :)
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E chegamos aos indicados da segunda semana! Aqui no Rio estamos vivendo um verão digno de... Gramado?, com uma frente fria que não nos deixa. Claro que com isso não temos praia, aquela vida ao ar livre, correr no calçadão, reclamar do calor dos 40 e não sei quantos graus. Reclama-se da chuva, de roupa molhada e dos incômodos de sempre, mas com certeza estamos dormindo melhor e não ligar o ar condicionado todos os dias é um ganho imenso – a companhia de luz deve estar chateada. O friozinho é sensacional para aquele momento de recolhimento, café quente e preto na caneca, edredon, televisão ligada e não sei quantos filmes e séries que nos deixam felizes confortáveis.

Segue a nova listinha que embala essa preguiça maravilhosa:

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What happened, Miss Simone? (2015, Liz Garbus) – 101 minutos.
Você pode até achar que não conhece Nina Simone e ter vergonha de falar isso por aí, já que a mulher ficou muito famosa (de novo) depois desse doc lançado ano passado. Ela reapareceu rapidinho na mídia nos últimos dias porque foi divulgado que David Bowie lhe ajudou em um dos momentos mais difíceis de sua vida. Quando você assistir esse documentário, vai descobrir não só que a conhece, como a vida conturbada e difícil que esta mulher de voz maravilhosa, inteligência e força levou. Tinha seus problemas e mais dificuldades do que boa parte de nós por sofrer de uma doença mental, mas nada disso a impediu de se tornar uma diva no melhor sentido não-celebridade-fútil pode ter. O filme nos transporta para sua vida e acompanhamos seus dramas, sucessos, felicidades, tragédias e renascimentos. Concorre este ano ao Oscar de melhor documentário. A crítica está aqui!

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Cães de Aluguel (1992, Quentin Tarantino) – 99 minutos
Tarantino está em cartaz nos cinemas com seu novo Os oito odiados. Surgiu outra lenda na mídia que indica que todos os seus filmes teriam uma conexão – mas para confirmarmos, temos que revê-los, não é mesmo? Cães de Aluguel para mim é um dos melhores. Eu, inclusive, prefiro estes do início de carreira, que são menos ‘de ação’, têm roteiro com ótimos diálogos e elenco. Aqui, seis ladrões interpretados apenas por: Tarantino, Harvey Keitel, Tim Roth, Steve Buscemi, Edward Bunker e Michael Madsen acabaram de assaltar uma joalheria e alguma coisa dá muito errado. Depois de todo o planejamento, o que se desconfia agora é de que um deles é um policial infiltrado. Tenso, engraçado, inteligente e ácido – além de violento, como não poderia deixar de ser – é a lição número um para conhecer a fundo a filmografia do diretor.  

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Tomboy (2011, Céline Sciamma) – 82 minutos.
Em 2014, assisti Girlhood (Garotas) no Festival do Rio. Fui ver sem saber nada do trailer, apenas porque li o nome da diretora e lembrei que era a mesma de Tomboy. Girlhood não está na Netflix, mas espero que chegue algum dia, é sensacional e confirma minha intuição de que é um presente acompanhar a carreira dessa mulher. Tomboy conta a história de Laure (Zoé Haren), de 10 anos, cuja família acaba de se mudar para uma nova casa. Aqui ela terá que se adaptar ao novo bairro, aos novos amigos. Tudo é muito recente, inclusive suas descobertas e transformações. O filme é uma delícia de assistir, é feliz e dramático ao mesmo tempo, é incrível a naturalidade da protagonista em um papel tão complexo e como a direção aborda o tema, com um olhar que nos permite desvendar e acompanhar sua trajetória. Para deixar tudo mais tranquilo nas locações e na dinâmica com atores mirins, Céline chamou os amigos reais de Zoé para participarem – o que funciona muito muito bem. Vale a pena demais. Tem crítica também!!

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A delicadeza do amor (2011, David e Stéphane Foenkinos) – 111 minutos.
Como não poderia faltar, tem romance também. A delicadeza do amor é uma comédia romântica francesa que traz Audrey Tautou (Amélie Poulain) e François Damiens (O Novíssimo Testamento) numa parceria digna do melhor café que possa existir. Natalie está se adaptando ao luto, perdeu seu marido, melhor amigo, amor da vida. No trabalho, tenta se livrar das investidas de seu chefe sem noção e, de uma forma inusitada, se encontra com Markus, um sueco sensível que trabalha alguns andares abaixo, no mesmo prédio. Não quero falar mais nada, mas para quem busca um filme engraçado, sensível, fofo e romântico sem dar enjoo, é esse.

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 Chef (2014, Jon Favreau) – 114 minutos.
Quem ainda não viu esse filme está perdendo uma das melhores comédias de 2014. Dirigido e protagonizado por Jon Favreau, esse filme independente de elenco estelar (Scarlett Johansson, Sofia Vergara, Robert Downey Jr, John Leguizamo e Dustin Hoffman) é tão divertido e despretensioso quanto literalmente gostoso. Após pedir demissão do restaurante em que trabalhava como chef, Carl (Favreau) resolve montar um food truck (bom e velho podrão que virou gourmet) de comidas maravilhosas. Essa proposta o faz repensar sua forma de viver e se relacionar com seus amigos e familiares. É um filme que dá pra ver com família, amigos, enfim, com qualquer entidade que esteja do seu lado. Arranja uma comida gostosa e senta, porque vale o ingresso!
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Os cristãos radicais que se preparem, vem muita piada pela frente. Que abram seus corações e permitam imaginar uma brincadeira criativa como esta, rodada na Bélgica. Já adianto: vale a pena até o último segundo.

O Novíssimo Testamento
Deus é mau humorado, perverso e cria leis arbitrárias para perturbar a paz de apenas toda a humanidade. Vivendo com sua filha Ea, de 10 anos, sua mulher, uma deusa que tolera as loucuras do marido e aguardando o retorno de JC – sim, Jesus Cristo – ele trabalha incessantemente em um computador, testando nossa paciência com catástrofes naturais, elaborando tragédias pessoais e leis esdrúxulas tão conhecidas entre nós, como a da torrada, que sempre cai com o recheio para baixo. A ideia aqui é que de fato, odiemos o rapaz.

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Assim que Ea é espancada por ter entrado no escritório do pai, foge de casa para viver em liberdade. Aconselhada pelo irmão e a um toque no computador, informa a todos os viventes quanto tempo terão de vida e assim, como o próprio Deus assume, agora não precisariam mais dele e levariam suas vidas como bem entendessem. Essa comédia é fantástica em todos os aspectos; sob o olhar literário, a ideia de deus, os milagres, a família, nos remetem a Borges e Cortázar, que criam universos fictícios e nos prendem em seus sistemas de coerências, tornando os absurdos verossímeis. Filmes como Delicatessen (1991, Marc Caro, Jean-Pierre Jeunet), O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001, Jean-Pierre Jeunet) e Quero ser John Malkovich (1999, Spike Jonze) também fazem parte deste grupo. A fundação deste mundo fantástico se dá aqui no conjunto da obra: os cenários na casa de Deus, a forma como chegar à Bruxelas, a ambientação de época. A crítica à religião e sua história seguem o mesmo rumo, nos levando para o território seguro da comédia inteligente – jamais sairemos inertes desta sessão.

Deus é Benoît Poelvoorde o já consagrado ator de Românticos Anônimos (2010, Jean-Pierre Améris) e Coco antes de Chanel (2009, Anne Fontaine). Irritante e desengonçado, tem arroubos de grosseria que nos fazem querer amassar seu crânio, mas a falta de jeito com a própria vida e os azares que a cidade lhe propicia já o fazem pagar pelo que nos deve e rimos de sua desgraça. Yolande Moreau é a mulher de Deus e também uma deusa. Submissa ao marido, aceita todo tipo de violência moral para si e para sua filha. Com um ar inocente e, ao mesmo tempo, indiferente e ingênuo, ela nos remete àquele tipo que aceita tudo por entender que a vida é assim mesmo. Isso irrita, mas há um fundamento. E Yolande o faz magistralmente. Além deles, ainda vemos a esperta Ea (Pili Groyne) e ninguém menos que Catherine Deneuve e François Damiens (A delicadeza do amor e A família Bélier) como os novos apóstolos.

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Comédia leve, inteligente e fácil de assistir, é um adendo ao que há de melhor no cinema belga hoje. A  perseguição de Deus corre em paralelo com as transformações da população e as histórias dos apóstolos valem como episódios de um seriado. Há alguns exageros, mas nada que incomode tanto - são mais fruto de simbolismo do que escracho. Quinta ficção de Jaco Van Dormael, a fantasia já se faz característica em seus filmes. Candidato ao Globo de Ouro esse ano como filme estrangeiro, levou outros 6 prêmios e 4 indicações em outros festivais. Imperdível.
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Ariane Ascaride (A delicadeza do amor, 2011) é a protagonista da nova comédia de Robert Guédiguian (Marie Jo e seus dois amores, 2002 e As neves do Kilimanjaro, 2011) que está nos cinemas. A atriz é também mulher e musa do diretor que lhe entrega este filme como uma homenagem. A história está centrada no dia de seu aniversário, em que espera e se prepara para receber o marido e os filhos e, por um acaso infeliz, nenhum deles pode comparecer. Ela então resolve sair de casa e fazer do dia, uma aventura.

Na mitologia há uma Ariadne, cujo fio ajuda Teseu, seu amado, a encontrar a saída do labirinto em que estava o Minotauro, metade animal, metade homem que precisava matar. O fio de nossa Ariane é uma guia invisível que a transforma em um amuleto da sorte para quem a encontra. Para além da sorte alheia, é o mesmo fio e narrativa condutora do filme, que lhe permite uma jornada de autoconhecimento e percepção de seu lugar no mundo. A ficção corre nesta direção, orientando a protagonista, lhe transformando numa mestre e aprendiz frente seus novos desafios.

Filme de verão francês, os diálogos são sua graça, mas enquanto estrutura deixa a desejar. Os caminhos que Ariane percorre nesta viagem mudam sua vida de tal maneira e velocidade, que se transformam em uma espécie de sonho, confirmado com a tartaruga, que ganha o status de personagem quando passa a conversar com a protagonista. Nada disso seria um problema se não faltasse um aprofundamento maior nos personagens, cujas histórias particulares e ótimas atuações, em particular dos atores Jean-Pierre Darroussin (taxista) e Gérard Meylan (Denis, dono do restaurante), acenam para um algo mais que não se desenvolve. Ficamos na superfície de histórias grávidas, como contos que acabam rápido demais. 

Mãe de uma família carinhosa, Ariane se é um emblema – o que torna a homenagem ainda mais bonita – de boa pessoa, em um símbolo com missões a resolver, para facilitar a vida de todos e, quem sabe assim, se reencontrar, após sair do labirinto que criou para si. De presente para nós, ainda a vemos cantar e a encontraremos em sua própria Fontana de Trevi, relembrando o clássico felliniano A Doce Vida (1960). De qualquer maneira, o filme acende questões caras ao povo francês, como tolerância, imigração, generosidade e o cuidado com o outro, de forma leve e brincalhona, como um filme razoável para uma tarde de domingo. 
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Um dos meus programas preferidos era ir uma tarde na videolocadora do bairro, circular pelas estantes, escolher não sei quantos filmes e me internar em casa. Sempre morei perto de Itapuã, em Salvador, e as locadoras do bairro acabaram se tornando pequenas demais, então eu zerava as prateleiras e precisava partir para uma loja maior. Me encontrei na extinta GPW, a maior videolocadora de Salvador, a mais maravilhosa, com a maior variedade. Quando entrei na faculdade de cinema, fiz estágio lá, acabei sendo cliente e funcionária. A vida não poderia ser melhor.

Existia um cargo de indicador de filmes, que era o que todo mundo ali queria ser. Seu trabalho, como diz o título, era sugerir filmes para o público que ficava perdido entre as estantes. Então eu ‘peruava’, assistia algumas indicações, depois conversava com os indicadores. Outras vezes, buscava minhas próprias cobaias, vítimas esquecidas nos corredores, para me meter em suas vidas e sugerir filmes.

Aqui a ideia é a mesma, nossa maior locadora atual, a Netflix, deixa muitos amigos meus perdidos e aí resolvi me meter a indicadora e sugerir 5 por semana, dos imperdíveis da vida. E os primeiros são:

Feitiço do Tempo (1993, Harold Ramis) – 101 minutos.
Bill Murray e Andie McDowell protagonizam essa comédia de erros, com cara de boba, com um roteiro engenhoso e original para a época. Harold Ramis, dirigiu também Ghostbusters, Férias Frustradas e Máfia no Divã. Essa é a base de sua comédia, leve, inteligente, satírica na dose certa, não apelativa. Levou 5 prêmios e outras 8 indicações entre melhor ator, atriz e roteiro.

A outra história americana (1998, Tony Kaye) – 119 minutos
Edward Norton é um ex-neonazista recém-saído da prisão por assassinar duas pessoas, se diz reformado e pronto para ajudar o irmão (Edward Furlong) e impedir que este repita seus erros do passado. Político, polêmico e violento, esse filme não nos deixa piscar um segundo. Edward Norton perdeu o Oscar para o inusitado Roberto Benini, de A Vida é Bela.

Harry e Sally – feitos um para o outro (1989, Rob Reiner) – 96 minutos.
Se fosse produzido nesta década, é um fato que a história viraria um seriado. Comédia romântica mais clássica e maravilhosa de todas, vale se você está apaixonado, se começou a namorar agora, se está casado há décadas, infeliz, se tomou pé na bunda, se não está com ninguém. Tem tudo aí dentro, sem falar nos diálogos excepcionais que Nora Ephron criou e a trilha sonora imbatível. Lançou de vez Meg Ryan e deixou Billy Crystal até charmoso. Levou 4 prêmios e 16 indicações, incluindo melhor ator, atriz, roteiro e filme.

Psicose (1960, Alfred Hitchcock) – 108 minutos.
Acho que não preciso falar desse. Suspense clássico, reconhecido por todos, um dos melhores filmes já feitos, de ninguém menos que Hitchcock, que inaugura nosso terror dos chuveiros com cortina branca. Anthony Perkins é Norman Bates, dono de um motel de beira de estrada que vive com sua mãe adoentada numa casa de colina. Em uma noite chuvosa, recebe Marion Crane (Janet Leigh), uma mulher em fuga que precisa descansar por uma noite. É nesse clima de abandono e tensão que tudo acontece. Esse filme é da categoria impossível deixar de ver. Tem tudo aí: romance, intriga, independência feminina, trapaça, crime, suspense, terror. Hitchcock ficava na porta dos cinemas e não permitia aos atrasados entrar na sala. Daí você imagina a relevância e o cuidado que o mestre tinha com o espectador e sua obra. Esse tem crítica!

Maidentrip (2013, Jillian Schlesinger) – 82 minutos.
O primeiro documentário da lista, conta a travessia que Laura Dekker, com apenas 14 anos, fez pelos oceanos do planeta. Seu sonho de vida era viajar o mundo em um barco e, com experiência cultivada na família, conseguiu autorização da justiça holandesa para enfrentar o desafio. Com câmeras no barco e se filmando todo o tempo, temos a impressão de participar de sua jornada, nas dificuldades e alegrias. Além de paisagens deslumbrantes, vemos a garota amadurecer e perceber que essa aventura é muito menos romântica do que lhe parecia. Ela carrega hoje o título de pessoa mais jovem a fazer a circum-navegação pelo planeta. Esse tem crítica!
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Um diretor de cinema virgem aos 33 anos, reprimido sexualmente encontra nesta situação sua válvula de escape para produções que transformam o olhar sobre o cinema no mundo. Ao viajar para o México a convite de um escritor americano que financia um grandioso projeto de cinema, se depara com o calor dos trópicos, a vida latina, sua sexualidade aflorada à base de pimenta e um modo de vida que desconhecia. Poderia ser uma ficção qualquer, um romance clichê se não fosse por alguns detalhes: a assinatura de Peter Greenaway e Sergei Eisenstein como seu protagonista.

Greenaway teve a ideia de retratar Eisenstein nos dez dias que passou na cidade de Guanajuato, durante as filmagens de seu novo filme. O projeto iniciado em 1932 nunca foi adiante, Eisenstein não teve acesso aos negativos para edição, foi obrigado a retornar à União Soviética e apenas em 1979, Grigori Aleksandrov monta o filme a partir dos storyboards, textos e anotações do diretor russo já falecido. Até aí, nenhuma questão, senão uma releitura sobre um grande personagem que pouco conhecemos em sua intimidade. 
Autor de O ladrão, o cozinheiro, sua mulher e o amante (1989), Livro de Cabeceira (1996), e outros que marcaram a cinematografia por sua inventividade e roteiros originais, Greenaway traz um jovem Eisenstein com o perfil de um gênio infantil, que ainda não se descobriu sexualmente. O autor de Encouraçado Potemkim (1925), Greve (1925) e Outubro (1928) é redesenhado perambulando pela cidade com seu guia e posterior amante Palomino Cañedo (Luís Alberti), descobrindo um modo de vida mais livre, perigoso e, em seu caso particular, com luxos que jamais teria em seu país.

Há aí dois pontos de inflexão: o primeiro é de que o filme é muito divertido. E muito bom, se não partirmos da ótica cinéfila que se ofende quando brincamos com os ídolos. Eisenstein é esse jovem histriônico, vibrante e de fala rápida, como se a velocidade do pensamento não acompanhasse a voz. A interpretação de Elmer Bäck é magnífica e abraça integralmente a proposta do filme; ele está à vontade no personagem bonachão, ultrapassa a semelhança física com aquele da vida real e ficamos esperando mais, como se essas quase duas horas não fossem suficientes para participarmos de suas aventuras e transformações. 
O segundo ponto é o de que Greenaway não quis fazer um documentário, um filme baseado em fatos reais ou uma cinebiografia como vem sendo alardeado por aí. Pode-se dizer que é um filme homenagem sobre um grande diretor que, muito provavelmente, boa parte do público sabe quem é de ouvir falar. Seus filmes de maior relevância remontam os anos 20, tratam da Revolução Russa e sim, são muito bons, mas nunca farão parte da cultura popular. Não são filmes fáceis, apesar de dinâmicos. Os três: Potemkim, Outubro e Greve, todos anteriores à viagem do México, trazem as bases teóricas de um autor de cinema completo, que trabalhava a prática e o pensamento acerca de sua arte. Figura obrigatória das escolas e fundador de uma das mais antigas escolas de cinema, o Eisenstein teórico lançou as bases da montagem de filmes de uma forma que ainda hoje poucos fazem bem.  Se por um lado, Greenaway criou um herói que jamais saberemos o quão fiel à realidade seria e aí há um risco apenas purista – e talvez até supérfluo – por outro, o resgatou para a contemporaneidade e estimulou a curiosidade do público sobre sua obra e vida. Eisenstein virou pop.
                                        
De resto, está tudo aí: o diretor, como sempre, brinca com a linguagem, apresentando nosso protagonista diversas vezes entre fotos reais e imagens do ficcional, ao mesmo tempo o relacionando a uma semelhança física e remarcando o território da ficção. Outros terão a mesma apresentação: o fotógrafo e seu produtor – que apenas são pontuados na obra, assim como Diego Rivera e Frida Kahlo. A divisão da tela em três partes, repetição de planos e sobreposição são tanto uma tentativa de homenagear o russo, quanto a liberdade de um diretor já estabelecido. Os movimentos de câmera especificamente no quarto de hotel onde Eisenstein se hospeda marcam um trabalho complexo de toda a equipe, em planos que parecem tomar os 360 graus do ambiente em uma discussão com os financiadores e não chegamos a ficar tontos, mas é surpreendente ver o preparo dos atores, a coreografia da cena, a criação de um clima cada vez mais tenso e dramático – ainda que sempre sarcástico. A fotografia é um deleite à parte e, de novo, outra marca desta cinematografia junto com o trabalho do departamento de arte. Os contrastes, o terno branco de Eisenstein – o único que tinha – se opõe às roupas escuras e elegantes de seu guia. A aura dourada da suíte, com banheira e chuveiro com canos dourados, o piso claro e translúcido, uma cama imensa traduzem um luxo impossível para o soviético.
O filme foca no relacionamento de Cañedo e Eisenstein e suas diferenças culturais, além de reafirmar a impossibilidade de conclusão do projeto mexicano. As causas para o fracasso foram tanto de cronograma quanto orçamento e é estranho pensar desta maneira quando não era o primeiro filme de um diretor conhecido por sua competência. A inferência é de que Eisenstein teria se desconcentrado naquele país ao se descobrir enquanto homem, se permitindo viver uma história de amor impossível na União Soviética – ou na Rússia contemporânea – sendo crime, o relacionamento homossexual. Mas, novamente, são interpretações baseadas na história da produção e na criatividade deste diretor. Por fim, o filme é tão rápido e cheio de nuances, que dá vontade de rever, para retomar alguns diálogos e planos. Mas calma, não deve ser levado tão a sério pelos fãs do soviético. Greenaway investiu tanto nesta experiência que seu próximo filme está em produção e traz novamente nosso herói, agora encontrando as personalidades do mundo que cruzaram seu caminho. Estamos aguardando.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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