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Café: extra-forte

O Blah Cultural, revista de cultura virtual em que escrevo algumas críticas de cinema, solicitou a mim e aos outros colaboradores uma lista dos nossos melhores filmes do ano. É um negócio bem complicado esse, porque são muitos os aspectos a considerar, além do gosto que, claro, é um grande motivador. Assim, a revista traçou a média dos colunistas e a matéria final está aqui, nesse link. Por outro lado, achei legal deixar minha listinha aqui, que considera apenas os filmes que vi – o que significa que podem haver filmes ainda melhores que estes da lista, eu só não tive o prazer de experimentá-los. 

FORÇA MAIOR, de Ruben Östlund

Escrevi a crítica. O filme é grandioso sob muitos aspectos: o apuro estético e uniforme, quase matemático do figurino contrastando com a fotografia e os enquadramentos. Estes valem por si só e seu sentido é explicitado através da montagem, com o crescimento de uma tensão silenciosa que nos acompanha e é potencializado a cada sequência. Um roteiro que nos brinda com a chegada de uma família aparentemente perfeita e feliz – como muitas o são quando vistas a uma certa distância – para uma semana de esqui em um grande resort. Em certo momento, uma catástrofe se anuncia e o resultado disso impactará gravemente em cada um. Ainda assim, o filme não sai hermético, mas consegue sustentar um humor refinado e brutal. Esse é um daqueles filmes que podem ser vistos várias vezes.

O JULGAMENTO DE VIVIANE AMSALEM, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz

É um dos que devo a crítica ainda. Vi já no final do ano e é um filme que surpreendeu pelo longo tempo que ficou em cartaz. Viviane Amsalem vive em Israel e solicita o divórcio a seu marido, que lhe nega incontáveis vezes. A batalha dessa mulher na corte para conseguir o seu direito esbarra num código que, mais uma vez, favorece o homem, quando apenas com o consentimento dele – e não uma decisão judicial imparcial – é possível conseguir a separação. O filme se passa quase todo numa mesma sala, a corte, com os mesmos personagens e praticamente o mesmo diálogo, deixando claro, mas não cansativo para o espectador, o absurdo da situação. Ronit Elkabetz é Viviane e também a diretora da obra, persistente e paciente até o limite da razão. Prometo que é o oposto do tédio.

ÓRFÃOS DO ELDORADO, de Guilherme Coelho

Com certeza o melhor filme brasileiro do ano. A crítica está aqui e ainda fiz uma entrevista com o diretor. Baseado no livro homônimo de Milton Hatoum e primeira ficção do diretor, com Dira Paes e Daniel de Oliveira em um drama rodado no Pará. Uma história em que amor, família, herança e mistério caminham juntos com uma fotografia que deixa qualquer um que já visitou a região morrendo de saudades. Se no início somos seduzidos pelo encontro dos dois protagonistas, até o final seremos sugados não só por eles, mas por uma busca insana que Arminto (Daniel de Oliveira) precisa fazer para conseguir viver. Não dá pra falar mais do que isso, sem tirar a graça.

SEGUNDA CHANCE, de Susanne Bier

O primeiro filme que vi da diretora foi Em um mundo melhor (2010). Filmado na África, conta a história de um médico que precisa decidir se salvará a vida de um terrorista local, cujo prazer consiste em estuprar e assassinar mulheres. O conflito ético resvala numa crise familiar de tal forma que sentimos a mesma dificuldade sobre que rumo tomar, caso estivéssemos naquela situação. Em Segunda Chance há outro conflito. Aqui um policial perde o filho ainda criança e precisa decidir se ficará com o bebê de um bandido, cuja família é incapaz de lhe oferecer uma vida melhor. Mais uma vez, a diretora nos deixa entregue à nossa moral. Tenso até o final e com atuações impecáveis, por favor, veja e vamos discutir! A crítica está aqui.

BLIND, de Eskil Vogt

Uma mulher cega em seu apartamento passa os dias ouvindo música sentada numa cadeira em frente a uma janela que tem vista para a rua. Assim conhecemos Eilin e sua condição é tanto ponto de partida quanto metáfora para si e demais personagens. O filme tem um roteiro intricado e original que nos prende nos dias sem fim da protagonista, nas experiências dos coadjuvantes e, mais importante, na forma de contar suas histórias. A marca mais forte é o aspecto sensorial, que nos faz chegar mais perto de Eilin, de sua condição, passamos a participar de seu tatear, de reconhecimento de espaços, de sua adaptação – ela não nasceu cega. Norueguês e primeiro longa do diretor, não temos a velocidade de um filme comum e nem precisamos. Merece ser visto.

EU SOU INGRID BERGMAN, de Stig Björkman

Primeiro documentário da lista, Ingrid Bergman é a atriz de Casablanca (1942, Michael Curtiz), para quem não se recorda. Essa mulher sueca e linda é vista aqui em seus filme de família, com depoimentos sobre sua trajetória fílmica e pessoal, suas correspondências, seus amores e filhos. A riqueza está tanto nas imagens de arquivo como em um reconhecimento ainda maior que daremos a essa atriz após saber mais dela. Não é um filme biográfico de fã que ressalta apenas as qualidades e sucessos do objeto de estudo, mas tenta dar um apuro humano, relegando a nós os julgamentos, questionamentos e qualificações. É um filme lindo, íntimo e pessoal sobre uma das maiores atrizes de todos os tempos. A crítica tá aqui!

ROGER WATERS – THE WALL, de Sean Evans e Roger Waters

Esse pode ser o Segundo documentário da lista, se não restringirmos muito o significado do gênero. The Wall foi a última turnê feita por Roger Waters – ex-Pink Floyd até agora e ele o transformou num filme grandioso – em todos os sentidos. Mistura de documentário, show, biografia, espetáculo, ficção, poesia e manifestação, merece ser visto na maior tela que você dispor, porque é um deleite para os olhos. O show em si, que está integral aqui, nos deixa morrendo por dentro por não termos ido, mas a captação foi tão bem arquitetada para áudio e imagem, que é a definição ideal de prazer para os olhos. Há que gostar do disco The Wall, mas imagino que não seja problema para a maioria das pessoas de lucidez. :) A crítica!

QUE HORAS ELA VOLTA?, de Anna Muylaert

Outro nacional, Que horas ela volta? conta uma história sem novidades. Uma doméstica (Regina Casé surreal, porque não parece a do Esquenta!) pernambucana vive numa casa de classe média alta em São Paulo e recebe a notícia de que sua filha virá à cidade para prestar vestibular. Com o aval da família para quem trabalha, recebe sua filha que passará um tempo ali, no quartinho dos fundos que a mãe habita. Só que essa moça recebeu educação e senso crítico que lhe permitem questionar um sistema a partir de dentro, de seu funcionamento orgânico e esbarrará nas estruturas de poder e preconceitos vigentes. Vale cada centavo e, mesmo não sendo novidade, foi surpreendente. Conto mais aqui, mas não deixe de ver.

JIA ZHANG-KE – O HOMEM DE FENYANG, de Walter Salles

O Blah me encaminhou para assistir esse documentário sobre um diretor de cinema chinês de quem eu nunca tinha ouvido falar. Pensei: lascou, não tenho tempo para ver os filmes e gosto de estudar, saber de quem e o que estou falando. Mas fui em frente, por conhecer Walter Salles, estudar documentário e gostar de desafios. O filme é maravilhoso porque ultrapassa a superfície da cinematografia do diretor e expande para o pequeno universo das relações humanas, do progresso e futuro, do cotidiano em uma sociedade fechada, para os conceitos de família e vida, de escolhas. O filme consegue ser tanto pequeno, quando trata do dia-a-dia e da feitura dos primeiros filmes do diretor sem orçamento, para um olhar macro, que revela aos poucos a grandiosidade desse diretor jovem e extremamente sensível e inteligente. Pode ver sem medo, provo aqui. Vai ser bom.

ACIMA DAS NUVENS, de Olivier Assayas

Sim, é aquele filme com a menina de Crepúsculo. E sim, é possível que ela esteja atuando bem. Neste drama, Maria Enders (Juliette Binoche) é uma atriz que recebe uma proposta para fazer uma personagem mais velha de uma obra em que havia trabalhado décadas antes como a personagem mais nova. Valentine (Kirsten Stewart) é sua assistente pessoal que estará ao lado dela para o funcionamento de sua agenda e carreira e será um dos pontos de conflito, quando a relação entre elas ganha outras cores. É uma história dentro da história com tantas nuances que só não ficamos perdidos porque a direção e o roteiro são extremamente bem executados. É um thriller, drama, romance e algo de comédia ao mesmo tempo. E tem Juliette Binoche, precisa dizer mais?
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Difícil mesmo. A história de minha morte conta os momentos finais de Giacomo Casanova, um escritor e aventureiro do século dezoito, de alguma maneira filósofo e sedutor. Contando assim, lembramos a figura e um ou outro filme foi baseado em sua vida, mas o complicado aqui é encontrar forças dentro de si para permanecer assistindo esta produção do catalão Albert Serra.

Quando vemos um filme bom ou razoável, somos levados por ele como numa maré baixa. Os sentimentos que ele nos provoca, majoritariamente calculados por seu diretor – Hitchcock era especialista nisso – nos fazem percorrer sua duração e saímos dizendo que não vimos o tempo passar, que pareceu curto e ficaríamos outras duas horas ali sentados para uma história tão original. Mas o que pensar de um filme que busca o contrário, que exprime um tédio que nos faz sentir a poltrona nos engolindo, que cada gole de água parece durar dez minutos e que se contarmos no relógio, sofreremos a ilusão do estiramento do tempo? Mas, mais do que isso: qual é o objetivo desta provocação?

Não foram poucas as críticas que seguiram este pensamento, de um filme que se pretende denso, mas na verdade é vazio, com os clichês sexuais de um libertino cuja moral é um termo que desconhece e que, nem acerca disso aprofunda, nos relegando imagens supostamente provocantes que, a esta altura, pouco efeito produzem. Ao mesmo tempo, este mesmo filme ganha Locarno e a disparidade entre uma premiação e a péssima recepção do público nos deixa a pensar.
Estamos nos últimos dias de Casanova (Vicenç Altaió), o título do filme remete ao livro deste, A história de minha vida, suas memórias amplamente reconhecidas como uma grande obra, fascinante, registro de uma época. Casanova conviveu com grandes nomes da cultura, mas nada disso importa aqui, o máximo que se apresenta é uma carta de Voltaire e alguma menção à Rousseau. Sua vida parece uma rotina de prazeres à espera de algum grande acontecimento que nunca chega. As mulheres surgem para satisfazer seus desejos, sua rotina se alterna entre comida, sexo e defecação. A escatologia remete à Saló (1975, Pasolini), mas nada surpreende mais do que a presença de Drácula (Eliseu Huertas). Sim, o vampiro que poderia trazer algo de sobrenatural, de uma sedução propriamente dita em oposição ao protagonista histriônico, surge tão lento quanto o primeiro, com forte maquiagem e se arrastando em direção às mesmas mulheres, agora vítimas com pescoços à disposição. Claro, percebe-se a pulsão da morte encontrando o sexo e há o confronto de época entre o racionalismo e o romantismo nos dois personagens, mas ainda com algum esforço de interpretação.

A fotografia parece ser o que há de mais extraordinário, dividindo claramente o filme nos períodos de luz – Casanova em seu castelo – e sombra, a chegada do vampiro e os dias finais na floresta. Ainda assim, não se faz suficiente: faltam diálogos pontuados, atuações marcantes, narrativa fluida. À exceção de seu amigo-vassalo Pompeu (Lluis Serrat), que veste muito bem seu personagem – além do protagonista – com uma naturalidade mais coerente com o entorno, as mulheres parecem estar num hiato constante, numa espera de qualquer coisa, de sua morte ou da manifestação de um desejo tardio.

Nada aqui é por acaso e este complicado filme pode ter sua razão de ser: ao fim da vida, talvez não restasse muito mais do que tédio e zombaria, talvez a personagem buscasse esse prazer que se mostrava cada vez menos suficiente, mas sempre fundamental. O fato é que passamos esta duração aguardando uma cena que se conecte organicamente à que lhe sucede e essa costura deixa falhas.
Albert Serra apostou alto no filme, acreditando na intelectualidade de seus espectadores, mas talvez os únicos que tenham efetivamente apreciado a obra sejam os jurados de Locarno e seus pares. O tédio do século XVIII foi perfeitamente expressado aqui, reafirmando a necessidade hedonista de um homem educado como clerical e escolheu uma vida livre, mas custosa à Inquisição da época. Talvez esperássemos um filme menos galhofeiro, que trouxesse o mistério visto no trailer e na primeira sequencia. Ali sim, ficamos desejosos, à expectativa de um filme poético, diferente, interessante e até com algum suspense em um ritmo incomum. Aqueles filmes que devemos apreciar com cuidado.

Ao contrário, o filme nos fixa na cadeira porque desejamos montá-lo em nossas cabeças, à espera de algo que se conclua grandiosamente, mas não se sustenta. Em determinado momento, nos perguntamos o porquê daquilo tudo e não vemos luz, além de confirmar uma pretensão delirante de seu diretor. De alguma forma, sobrevive uma curiosidade de ver o restante da filmografia e, de repente, apreciar um olhar distinto do que estamos acostumados. Ainda assim, com todo esse vazio e tédio, o filme persiste em nós como uma peça intrigante, curiosa, que não necessitaria destes imensos 148 minutos, mas que nos prende em grandes imagens que nos deixa inquietos e, em alguma instância, reflexivos.
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E chegou 2016! Que este seja um ano de Cinema para todos nós, com todos dramas, suspenses, comédias e romances com finais felizes! Inauguramos o ano com um filme que segue nos cinemas do país, um documentário sobre ninguém menos que Ingrid Bergman, uma das divas do cinema, cultuada internacionalmente e que pouco se sabia sobre sua vida pessoal. Esta era uma mulher de peso, força, vitalidade e amor: pela carreira, por seus filhos, pela vida. Imperdível.
Ingrid Bergman dá saudade. É estranho falar assim, mas a protagonista de Casablanca (1942), Notorious (1946), Stromboli (1950) e Sonata de Outono (1978) deixou uma marca no Cinema por vários motivos e é impossível esquecê-la. A atriz que morreu há mais de 30 anos ultrapassa sua filmografia e comprova sua relevância em obra e vida. Este documentário lindo e íntimo de Stig Björkman nos aperta o peito.

Ingrid Bergman – in her own words traça a biografia da atriz a partir de suas cartas, filmes familiares e diários, trazendo um olhar subjetivo, de alguma maneira dando voz a quem não mais podemos ouvir. É uma forma que parte do íntimo para mostrar o todo e sair do modelo entediante da cronologia rasa. Ingrid viveu uma vida plena e intensa, se reconstruindo sempre que achava necessário e com as duras consequências de suas escolhas. Nascida em 1915 na Suécia e órfã aos 12 anos, iniciou sua carreira aos 20, sempre buscando algo além da mera exposição da beleza, entendendo a arte como uma forma de viver. 

O star system americano, esse que molda o elenco, forjando a ferro e fogo suas personalidades também o fez com ela. Ingrid faz parte daquele Olimpo de grandes e inalcançáveis estrelas, com a aura mística da era de ouro. Ela conseguiu ultrapassar esta construção artificial dos grandes nomes e garantiu seu espaço em uma carreira internacional. Ao escolher Roberto Rossellini como o novo amante e depois marido, foi julgada por uma Hollywood invasiva e convencional. Adúltera, quebra o padrão de comportamento da época, é quase banida dos Estados Unidos e decide viver na Itália. Na América dos anos 50, as liberdades eram privilégio masculino e imagina-se o perigo de uma mulher adorada por todos, servindo de modelo feminino e imaginário masculino, tomar a dianteira de sua vida e romper o casamento.
Além da história com Rossellini, que lhe deu mais 3 filhos além da que já tinha do primeiro casamento – entre eles, a atriz Isabela Rossellini – outros homens de peso passaram por sua vida e um deles foi Robert Capa. O celebrado fotógrafo de guerra pode ter sido a primeira grande paixão da atriz e a certeza de que seu casamento não teria força suficiente para ser de vida inteira. Ela viveu seus romances, deixando aos maridos boa parte da responsabilidade sobre os filhos, tentando conciliar uma vida de mulher, mãe e, primordialmente, atriz.

Talvez seja neste aspecto que o filme peque um pouco, por nos deixar querendo ver mais sobre sua vida profissional, além do retrato pessoal. O que apreendemos aqui é sua avidez, a luta por seus papeis, o encontro com os diretores geniais do mundo – Rossellini, Hitchcock, Renoir, Curtiz, Bergman, Lumet, mas ainda superficialmente demais, não satisfazendo nossa curiosidade. Quase não ouvimos muito sobre seus trabalhos, à exceção de algumas curtas entrevistas com Liv Ullman e Sigourney Weaver, algumas falas da própria Isabella e os encontros finais com Ingmar Bergman – para Sonata de Outono – nos deixam sedentos e ansiosos. O processo criativo dos grandes artistas é sempre interessante de visitar.

Em suas correspondências há muito da vida familiar, surpreendentemente, e ansiedades quanto aos projetos, mas nada detalhadamente sobre eles. É um ponto fraco do filme, que poderia ser o definitivo sobre a atriz, mas opta pelo percurso íntimo, sublimando a carreira. Esta opção nos regala com o que não costumamos ver, é bem verdade, e nos aproxima de sua protagonista, evidenciando sua humanidade, a tornando ainda maior, mas não dá o devido peso que a tornou grande para o mundo, sua qualidade e experiência enquanto atriz.
Ingmar Bergman e Ingrid Bergman
A graça maior, que retoma a importância desse documentário, é vê-la nos filmes de família, reencontrando sorrisos em contraste com os densos personagens que fez. Vê-la à vontade e ouvir suas cartas e diários é sempre um presente para a cinefilia e seus seguidores. O que falta aqui traz de volta a nostalgia e a vontade de revê-la, buscá-la em sua filmografia, confirmando sua importância para o Cinema e tentando entender porque este sim, sempre foi seu grande amor.

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Como uma seleção de contos em um livro, 5 vezes Chico – o velho e sua gente é um documentário de 5 diretores brasileiros sobre o Rio São Francisco ou são 5 pequenos documentários interligados pelo rio. De qualquer forma, é uma coleção de fotografia linda, cheio de boas histórias e muita verdade.

Gustavo Spolidoro, Ana Rieper, Camilo Cavalcante, Eduardo Goldenstein e Eduardo Nunes se reúnem em torno desse rio que atravessa 521 municípios em cinco estados. Assim, a terceira maior bacia hidrográfica do país é retratada sob cinco vieses: histórias de pescadores, sincretismo religioso, uma família que sofre com a escassez dos peixes, Cícero, um homem que se considera o último cangaceiro do semiárido e vive do turismo histórico e, por fim, desembocamos no encontro do rio com o mar, em cenas belíssimas graças à diretora de fotografia Heloisa Passos, com seu Heleno nos contando um pouco sobre o rio e a importância que tem para sua vida.

Como nas histórias curtas que os bons contos proporcionam, ficamos ansiosos por ouvir mais, saber mais, ainda que o que se diz ali deva se bastar. Aqui, de cara nos deparamos com um trabalho estético sem igual, com estas águas correndo como o sangue nas veias e nos caminhos que perfuram nos solos com sua força em alguns momentos abrindo os famosos cânions, em outros numa paz que tranquiliza os corações e proporciona a pesca, a lavação de roupas, a vida ribeirinha.

Vivemos um período difícil no país provavelmente em todos os aspectos. A cada mirada, um problema se avizinha que parece sem solução e a morte do Rio Doce, outro fundamental ao país, é mais uma destas grandes feridas – além da já ameaçada e aguardada para o próximo verão, escassez de água. Ver o Rio São Francisco em seu esplendor, retratado com a sensibilidade destes diretores tão diversos que buscaram na vida dos desconhecidos, dos que vivem – literalmente – à margem, é um presente.

A montagem conecta as histórias de forma sutil e quase não percebemos que estamos começando uma nova em outro trecho da correnteza. Aos poucos, nos deparamos com os novos personagens que contam um pouco de suas vidas e com o olhar sob a cultura nacional vista de dentro e por poucos. Os cotidianos, a dependência da natureza, o sustento e a vida simples e tão rica nos deixa saudosos de um passado, de uma viagem em família quando éramos menores e cruzávamos a Bahia de carro para ver um céu mais estrelado que o da capital.

Neste documentário, não espere dados geográficos, legendas explicativas dos trechos, suas barragens ou quaisquer interferências pedagógicas – reside aí a originalidade do conjunto. Não percebemos quem dirige que trecho, da mesma forma. A ideia é que seja um caminho fluido como o curso do rio, que percorra os diferentes olhares e que juntos, tome uma forma orgânica. Essa ausência de pausas nos toma de susto,já que inicialmente esperamos algum tipo de crédito que separe seus episódios. Após este primeiro momento de adaptação, segue-se bem e passa-se a acompanhar de forma tranquila o que é exposto. A profundidade da narrativa está nas entrelinhas; o que vemos aqui é a superfície do rio e de quem vive dele e para ele. Em curtas, não conseguimos ir ao âmago de nossos objetos, mas tão somente conhecê-los, como se estivéssemos sendo apresentados ali e ficássemos esperando o momento da conversa. Ficamos assim, com esta poesia de filme, que traduz um pouco a vida no rio e com o rio. Nada além, mas, bem feito e um deleite para os olhos, deixando a vontade de saber mais, entre a superfície das águas platinadas, suas margens e uma curiosidade insatisfeita e feliz sobre sua natureza e força. 
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Conversei com Guilherme Coelho, diretor de Órfãos do Eldorado via e-mail, ele entre os festivais de Varsóvia e Chicago, eu no Rio de Janeiro. Segue um trecho do bate papo.

TR: A história do livro começa no início do século passado. O que te fez trazê-la para um período mais próximo do nosso?
​GC: Uma coisa que a gente não queria era fazer um épico, então sabíamos desde o início que deveríamos cortar as muitas elipses de tempo do livro. Eu fui entendendo também que não gostaria de fazer um filme de época, pois poderia ser cafona. (...) Que fosse atemporal, descolado do tempo cronológico. (...) O diretor de teatro Frank Castorf foi uma importante referência pra mim nisso. Suas peças são interessantes colisões de diferentes tempos, num palco. Então fomos atrás de misturar tempo, memória e fantasia, no cenário amazônico.
TR: ​Você fez algumas alterações com relação ao livro. Quanto tempo levou para fazer o roteiro, quantos tratamentos fez para chegar a esta forma?
​GC: Trabalhei uns 3 anos no argumento e no roteiro, e com muita gente. Perdi a conta das versões. Eu queria escrever sozinho, mas sempre ouvindo os outros. Adoro ter com quem trabalhar. Cinema é legal porque é coletivo. A escrita do filme eu sabia que tinha que vir de mim, pois ao escrever um filme como esse você já está dirigindo o filme. (...)

Trabalhei o argumento com a Maria Camargo, depois com a Leticia Simões e com a Aline Portugal​, e terminei a versão final com o Marcelo Gomes. Trabalhei o roteiro com a Aline, e depois com o Hilton Lacerda. Depois, Marcelo Gomes e João Emanuel Carneiro terminaram de pensar o roteiro comigo. Na filmagem, reescrevi algumas cenas, depois da Karen Harley, montadora do filme, nos visitar em Belém. Na montagem, que é a continuação do roteiro, Karen e eu trabalhamos com o Marcelo Gomes e com o João Emanuel, amigos e importantes parceiros neste filme.  

TR: ​Como você chegou aos enquadramentos propostos? Foi estudando as locações muito previamente ou seguiu um pouco o processo documental de interferir o mínimo no espaço urbano e natural da região?
​GC: A gente viajou muito em busca de locação. Viajei com o Milton Hatoum, Marcelo Gomes, Maria Camargo, Karen Harley, ​Marcello Maia, Tiago Marques, Teijido. Eu fotografei a região durante seis anos. Fiquei apaixonado por Belém, e vivi muito a cidade sempre que ia visitar. Ficava viajando com o filme na minha cabeça, em Belém, e subindo e descendo os rios nos barcos. A intervenção foi mínima, mas como tínhamos que criar uma atmosfera de fantasia e tragédia, tivemos que escolher bem o que enquadrar. Enquadrar não é apenas escolher o que fica no quadro, mas talvez, mais importante é o que não está no quadro. A diretora de arte Marghê Pennacchi e o Adrian Teijido, fotógrafo, trabalharam comigo em pensar como criar esta Amazônia fantástica e onírica. O trabalho dos fotógrafos Luis Braga e Marcel Gautherot foram importantes referências para nós.


TR: Qual é a sua relação com o Pará? Como surgiu o encontro com Milton Hatoum?
GC: Meus avós paternos são paraenses, de Belém, e como muitos paraenses pegaram um Ita no Norte e vieram pro Rio na década de 1940. Eu nunca tinha ido a Belém até oito anos atrás, quando fui fazer um trabalho, um video institucional. Aproveitei para ficar dois dias em Belém pra pesquisar um pouco sobre a história deles e pra fazer umas imagens da cidade com o meu amigo e fotógrafo Alberto Bellezia (que fotografou o "Fala Tu” e o “PQD”).

Belém me encantou e fiquei voltando à cidade nos próximos anos, primeiramente sob o pretexto de fazer um filme sobre a vida do meu avô, que trabalhava nos telégrafos bem em frente ao porto de Belém. Eu estava trabalhando nesse roteiro quando, em 2009, o Milton Hatoum lançou “Órfãos do Eldorado”. A Alexandra Maia, autora carioca e minha amiga, me recomendou que eu lesse, pois achou que haviam semelhanças com o roteiro que eu estava tentando fazer. E realmente tinha muito do que eu estava trabalhando: decadência, dissipação, enlouquecimento.

Eu já tinha trocado emails com o Milton Hatoum acerca do grande Dalcídio Jurandir, romancista paraense da segunda metade do século XX, que escreveu dez livros do seu chamado Ciclo do Norte. (...) Então, voltei ao Milton para falar sobre o “Órfãos”. Rapidamente entendi que grande parte da produção deveria se passar em Belém, minha musa, mesmo que nunca falássemos ou mostrássemos no filme que ali era Belém. Belém é uma cidade mágica; uma cidade de muitas épocas; a melhor comida do Brasil; de gente sem afetação, que conversa sobre literatura numa esquina de bar; e celeiro de uma tradição visual muito forte, de onde vieram ou beberam importantes fotógrafos e artistas plásticos brasileiros.

TR: Essa é sua primeira ficção; como foi essa transição de um "gênero" pro outro? Acha que é episódica ou pretende se manter mais próximo a um "tipo" de filme?
GC: Eu quero voltar a fazer documentários quando estes forem projetos com um dispositivo, isto é: a forma do filme, o seu processo, é o que há de principal - e não o seu tema. Não quero fazer mais filmes sobre “isso” ou “aquilo”, mas sim filmes que tenham um processo, um formato que explore linguagem narrativa e/ou visual.

Na ficção, eu gostaria de fazer outros filmes que sejam apoiados no trabalho dos atores e também na construção de uma atmosfera singular, com as equipes de arte e de fotografia.
Diz-se que fazer documentário é ir ao encontro do outro, e que fazer ficção é falar de si. Como "eu sou um outro” quero tentar alternar entre os dois gêneros, e assim deixar que eu seja tantos.

TR: Não encontrei referências suas de outras produções que não documentais e, ao mesmo tempo, o filme parece feito por alguém com muita experiência. Você participou de algum outro projeto ficcional antes?
GC: Eu só havia participado de roteiros, e nenhum havia sido filmado. Tinha produzido dois comerciais, e dirigido um videoclipe, mas tudo muito rápido. Eu nunca havia embarcado numa “construção” ficcional, de ter que pensar tom, conversar referências com os departamentos de arte, figurino e fotografia. Tudo isso me assustou muito no começo. Mas eu tive muita sorte em ter sempre ao meu lado, ao longo de todo o processo desse filme, a minha ex-mulher, Amora Mautner, que tem muito talento e experiência em fazer justamente isto: pesquisar, discutir e colaborar com equipes na criação de “mundos ficcionais”. Ela foi fundamental pra que eu entendesse, não o que eu gostaria de fazer, mas sim como liderar este processo com muita ética de trabalho, uma certa megalomania, estando muito aberto aos colaboradores e fazendo-os parte integral de tudo. Por tudo que ela me ensinou e pelo amor que vivemos, e que tanto me inspirou a contar esta história, o filme é dedicado a ela.


TR: Como foi o processo de construção de personagens e preparação dos atores? Você já tinha ideia do elenco desde o início? 
GC: Eu sempre soube que a Florita teria que ser a Dira. Sobre o Arminto, eu fui levado ao Daniel pela loucura e doçura dele. Ele foi um parceiro maravilhoso, um profissional exemplar, e uma referência como pessoa bacana e íntegra. Depois achamos a Mariana Rios, que foi também de uma dedicação admirável. O Adriano Barroso (Denísio Cão) eu sempre quis escalar, pois o conhecia de Belém, onde ele é um importante ator e produtor cultural. De resto havia o elenco de Belém, que eu queria muito ter no filme, inclusive para falarmos o português na segunda pessoa de maneira correta.

Fizemos uma preparação no Rio (de Janeiro) com a Maria Silvia Siqueira Campos e com o Marcelo Grabowsky, e lá em Belém (nos rios) continuamos este trabalho, mas tendo conosco também o mestre em butô Tadashi Endo. Foi muito bacana, e nos ajudou a chegar numa energia conflitante e numa tensão que eu queria para as atuações. O desafio era fazer melodrama, com atuações fortes, mas não melodramáticas. 

TR: Quais são suas referências cinematográficas? E literárias, já que este é um filme que parte de um livro?
GC: "Last Days" do Gus Van Sant foi referência pra atuação e pro desenho de som; Malick foi referência pra câmera, mas acho que não ficou muito; David Lean foi referência pra fotografia, foi importante na composição os planos abertos. A ideia era fotografar a Amazônia como um deserto; Apitchapong foi referência pro verde e pras lendas, mas não acho que tem muito a ver.

TR: Para terminar, algum projeto futuro em mente?
GC: Estou trabalhando num roteiro há um ano, talvez agora ele ande. Uma história de pai e filho aqui no Rio.

*Veja aqui o trailer do filme!
**A crítica está aqui no Café, logo abaixo e neste link.
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Bamba nos deixou de golpe. Como um raio, passou rápido demais, naquela luz toda que só vemos de relance e às vezes piscamos e perdemos sua beleza. A notícia de sua ausência veio como o estrondo que o raio faz, o trovão que nos deixa trêmulos no coração, nas pernas, o susto que aperta o peito e traz a adrenalina. Da adrenalina eu sempre gostei. Sou de natureza tranquila, mas os agitos são bem vindos. Passando férias curtas na Bahia escolhida por ele para viver e onde nasci e sempre elegi como minha eterna paixão, aqui também Mahomed Bamba ficou. 

Conheci esse homem lindo como meu professor de Estética do Cinema talvez em 2001, 2002. Simpático com todos, educado, gentil, cortês, nos seduziu imediatamente. Éramos a primeira turma do curso de cinema na cidade. Jovens cheios de energia criativa e vontade de ser artista. Ele chegou rindo, aquele sorriso largo, uma qualidade no ensino, aulas deliciosas e iluminadoras. Como todos nós, ele não era perfeito, mas era uma dessas pessoas maravilhosas que temos sorte de conhecer e nem pensamos em muito mais do que isso. 

Lembro de um dos primeiros Panoramas de Cinema que exibiu um filme de Costa do Marfim. Era em um dia de semana - ou talvez um sábado - de manhã, nesses horários que só gente cinéfila maluca frequenta as salas. Éramos cinco anônimos numa sala vazia de multiplex de shopping e quando a sessão acabou, ouvi o "madmoiselle reuter" de sempre. A única aluna do curso de cinema na sala, ele me perguntou por que ver um filme da Costa do Marfim e eu disse que era por não conhecer o cinema de lá e ter como referência do país justamente ele - o professor. Assim nos tornamos amigos, eu acho.

Sempre existiu um carinho mútuo muito grande. Ele me acompanhou durante a graduação e até no conturbado trabalho de conclusão de curso que me fez querer acabar com o autoritário produtor francês. Com toda a paciência do mundo, este homem mediou os conflitos, traduziu os idiomas de lá pra cá e de cá pra lá, me fez mais tolerante e finalizamos - com a ajuda de tantos outros colegas e professores - o primeiro filme da minha vida, o mais complicado, a primeira experiência meio profissional. 

Eu às vezes pensava que sentia falta de ter um mentor. Sabe quando estamos meio perdidos sobre o que fazer da vida, escolhas de carreira, estudos, viagens? Eu sempre vivi e vivo isso, são crises cotidianas, mas percebi que ao contrário do que pensava, não estava sozinha. Meus mentores me acompanharam e aconselharam durante algum tempo, foram talvez uns quatro ou cinco professores que viraram amigos pra vida. E, ainda assim, de todos eles o que mais teve paciência e esteve presente até alguns dias atrás foi justamente esse moço marfinense. Moro no Rio de Janeiro há 7 anos e nossas conversas de corpo presente foram substituídas pelo universo virtual dos e-mails e trocas de mil dicas, piadas, sugestões e mensagens no facebook. A essa rede social só tenho a agradecer agora. Mas foi esta mesma rede que partiu meu coração ontem, indicando o fim da parceria.

Da adrenalina pesada convertida em lágrimas incontroláveis de um coração que tem vergonha de chorar em público mas não se controla e se esvai em rio, tento transformar a dor nos sorrisos que ele sempre tirou de mim e de quem viveu junto de alguma forma, em abraços solidários e também inconsoláveis. Das críticas dos filmes que me pedia para escrever, das que me indicava para ler, das trocas de opiniões com a aprendiz que sempre serei, das discussões no facebook - das engraçadas sobre qualquer maluquice - às cinematográficas. As mil dicas sobre livros e filmes, as mil horas me ouvindo sobre os cursos de cinema fora do país, os mestrados aqui e ali, os oitocentos projetos inacabados. Só tenho a agradecer por tudo e pedir desculpas, talvez, por não ter dado mais em retorno. 

Entre ontem e hoje foram não sei quantos recados, notas e homenagens dos meus colegas e amigos, alunos e professores, conhecidos e desconhecidos. Esse homem era unânime, foi a palavra que eu encontrei. Que tentemos levar nossas vidas como ele seguia, com um sorriso que até quem não o conheceu sabia ser honesto, elegante, sincero.

Eu só queria ter convivido mais tempo. Queria ter vindo pra esse último Panorama que você me chamou e não vim. Queria mais um cafezinho, mais discussões, mais comentários. Ficou um carinho imenso, essa vontade de chorar que vai e vem da saudade e a lembrança desse homem brilhante e carinhoso que tive a honra de conhecer. 

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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