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Café: extra-forte

 
Falar sobre a produção artística de Pasolini é sempre complicado. O poeta, diretor, roteirista, produtor de filmes e obras polêmicas e provocadoras quer dizer sempre muito mais do que expressa em seus filmes, ultrapassando o literal das sequências controversas. Entretanto,  pouco se fala sobre quem foi o criador de Saló (1975), Decameron (1971) e Teorema (1968), para além de sua arte. Neste Pasolini de Abel Ferrara, se fez exatamente isso: falar do homem, com Willem Dafoe (O grande Hotel Budapeste, 2014; Anticristo, 2009) o personificando em seus últimos dias de vida.

Nunca sabemos quando vamos morrer. Para a nossa sorte – ou azar, a depender do ponto de vista – provavelmente seremos pegos de surpresa e se criarão razões e mitos em torno do fatídico dia: um olhar distante, uma fala, uma declaração qualquer, coincidências. O que se diz aqui, nos últimos dias de Pier Paolo Pasolini é nada além de uma tentativa de resgatar estes momentos sem qualquer misticismo, mas com uma brilhante encarnação do ator americano no papel do diretor. A grande questão aqui talvez seja essa, sem grandes pretensões ou expectativas: a transformação de Willem Dafoe no mestre – a semelhança física por si só é gritante – ao tempo que vemos recortes de sua vida em família, entre amigos e com suas liberdades e perigos que a homossexualidade poderia assegurar à época, na Itália dos anos 70, católica como é até hoje.
O diretor italiano é pouco conhecido atualmente. Assassinado em 1975, não foi responsável por uma escola de cinema, mas deixou sua marca incontestável na história com filmes considerados polêmicos até hoje. Mas, apesar de sua importância para as artes e de seu pouco espaço na mídia contemporânea, Abel Ferrara se vale do pressuposto da familiaridade, de que teríamos um conhecimento prévio sobre o diretor e nos traz um perfil íntimo. Para o grande público, pode ser um problema.

A construção do filme, um emaranhado de situações que ilustram o que acontecia em seu último dia, parecem soltas demais, não criando necessariamente uma narrativa, mas um caleidoscópio daquele período. Esta dimensão variada, por outro lado, pode ser interpretada como a de uma vida qualquer, como a nossa, em que temos projetos em andamento, relações familiares, amorosas, nossa participação no mundo – sempre no tempo presente. Se os fragmentos não constituem um todo de início, meio e fim, a parábola do que seria um de seus futuros filmes, montada em paralelo com a vida real do protagonista, deixa clara sua conclusão sobre nossa mortalidade. E, como qualquer biografia de gente de verdade, entramos sabendo o que esperar do final.

Há algumas discrepâncias quanto a seu desfecho, especificamente sobre a forma como o diretor veio a morrer e isso me deixou confusa sobre no que acreditar. Os relatos oficiais indicam diferenças, mas o grosso da ação que culminou em sua morte não muda tanto. O fato é que era homofobia antes, como ainda é todos os dias por aqui. Se o filme nos deixa um tanto perdidos quanto à sua forma, talvez a proposta de deixar em aberto indicando a imprevisibilidade da vida, a certeza de que provavelmente não cumpriremos tudo o que nos propormos a fazer e, claro, deixaremos saudades seja uma conclusão em si.
Em uma das falas de Dafoe, original de Pasolini: escandalizar é um direito. Ser/estar escandalizado, um prazer. É este o retrato que vemos de um homem sério e certo do que propõe em seus filmes – a crítica ao capital, às hipocrisias, à religião, sempre pelo exagero – e é o trunfo do filme: Dafoe encarna o mito, seja na forma de andar, de falar, na expressão corporal, nas relações com as pessoas. Talvez aqueles que não conhecem a obra de Pasolini fiquem perdidos sem saber a dimensão deste homem para as letras e para o cinema – Ferrara dá indícios de sua relevância, mas não aprofunda, deixando para os espectadores a ‘árdua’ tarefa da cinefilia e da pesquisa. Sendo um filme de fragmentos, pode incomodar quem busca a narrativa tradicional que explica demais, direciona e nos faz acompanhar passivamente seu trajeto. O jeito é nos deixar levar, enxergar essa homenagem – um tanto estranha por se falar do momento da morte, mas condizente com um período em que questionamos nossos comportamentos e preconceitos – como uma abertura para a intimidade de um diretor maldito e majestoso.

*Esta crítica está no Blah Cultural! :)
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Eu queria dizer pra alguém que o filme era muito bom. Saí da sala de cinema cansada, mas era um cansaço físico do dia inteiro, longo e intenso que começou de manhã cedo em São Paulo e termina agora no Rio. São 01:22.

Eu disse ao taxista que o filme era magnífico. Cogitei a ideia de falar com o diretor, mas o burburinho da exibição valeria mais do que dar atenção a alguém com quem pouco se conversou e deixei para depois. Ali não ia sair muita coisa além do extasiado seu filme é muito bom, parabéns! Mas falei tanto com o taxista que no final, ele já queria assistir e perguntou quando seria a estreia.

Eu não conhecia o livro. Sem relação alguma com o momento, tinha acabado o Dois Irmãos e estava lendo o Relato de um certo Oriente. As referências de Milton Hatoum são comuns às suas obras e parecem ter uma levada autobiográfica. Os livros têm um ar denso e pesado, da umidade amazônica. O filme também.


Hoje é outro dia. Deixei o Relato descansando para ler Órfãos do Eldorado, que originou o filme. Conforme o diretor, Guilherme Coelho já havia dito, um é bem diferente do outro. Esta é a história de Arminto (Daniel de Oliveira), Florita (Dira Paes) e Dinaura (Mariana Rios). Florita vive com o Amando, pai de Arminto, e pede que este retorne à sua terra natal. Ele chega com a notícia de que seu pai está doente e decide encontrá-lo. Ao se readaptar a cidade, conhece Dinaura, uma mulher misteriosa e faz de sua busca uma obsessão.

Estive em Belém ano passado. Passei quatro dias e foi tempo suficiente para me declarar pela cidade. Belém é sincera. Ela não esconde seus vários problemas e lhe permite ver além, entranhada no início da região amazônica com o clima quente e úmido, que nos deixa mais sensíveis a uma natureza quase obscena de tão linda, abundante, morena. Belém é uma delícia para comer e possivelmente tem um dos melhores povos do país, se for possível falar assim. Órfãos é rodado parcialmente lá e carrega todos os elementos que representam o que há de místico e diverso na cidade, mas a percebemos sutilmente, talvez apenas pelo Ver-o-Peso, uma das referências turísticas, feira/mercado cartão postal que vende um compacto de tudo o que só se encontra por lá.


A ideia parece ter sido essa: desenvolver uma história que fugisse dos eixos principais do país, mas que fosse também nosso e representasse com a cultura local um extrato do todo. Se o livro traz um drama que percorre décadas, no filme percebemos em detalhes que falamos de um presente elástico. O objetivo era eliminar a marcação do tempo cronológico, reforçando o tempo da memória em elipses sutis. Assim chega o tecnobrega, as cachaças, os bares ribeirinhos, as comidas, os rios imensos e sem horizonte como o Atlântico, a vida em palafitas. O próprio relacionamento de Arminto e Florita ultrapassa o que podem ser dias, meses, anos e seus encontros reafirmam uma história que teve início na adolescência e é retomado com este mesmo furor em cenas belíssimas e sensuais, como um amor proibido e guardado há muito tempo.

Dira Paes, paraense e grande pelo talento, consegue de alguma forma incompreensível ser ainda maior, como uma mulher que está sempre à espera e parece ter o domínio do tempo, este tempo dentro da história, entre os personagens. Daniel de Oliveira é outro ator, que a cada personagem confirma uma transformação intensa e diferente. Sua pele brilha e sai do tom claro, como se o banho daqueles rios o dominasse por dentro. Parece ser isso mesmo, a encarnação de algum local, alguém em busca de um reencontro, numa perseguição teimosa e insana, preso entre duas mulheres. O trabalho com os atores construiu personagens que se comunicam no olhar, neles há a densidade de cada um e uma sedução voraz que os prende – nem preciso falar das aparições de Mariana Rios como uma mulher de sonho, por sua distância e beleza. Talvez seja isso, um filme de olhares.

Milton Hatoum não se reconhece como um escritor de realismo fantástico, mas seus textos são carregados de referências a mitos e lendas locais que relembram o estilo – talvez pela cultura amazônica e a mescla entre memória, sonho e realidade. E é esse o tom de convivência com o sobrenatural – ou mítico, religioso, lendário, quase sinônimos aqui – que adiciona particularidades tanto em seus livros quanto no filme. Assim, a montagem constrói com o roteiro a busca por um amor que se abre em mistérios, caminhos que percorremos sem prever um final – e sem conhecer o livro é ainda mais surpreendente. A construção do clímax, na alternância de sequências entre os protagonistas nos deixa tensos até o desfecho – é como desvendar um segredo em uma carta, vamos lendo ou desdobrando a folha sem querer abri-la totalmente, mas até chegar neste instante já fomos fisgados lá atrás e ficamos entre a vontade de rasgar e ler tudo de vez ou aguentar a agonia ou o prazer de cada palavra.


O livro traz a região amazônica para perto do resto do país, a caracterizando como um espaço além do exótico, quando reafirma suas distinções com os outros territórios nacionais. O filme extrapola esse objetivo com a força que só o audiovisual tem – estourando as cores locais, trazendo o dourado do sol na pele dos atores, mesclando sombras das casas vazias com uma floresta densa como o clima do filme, ao tempo que cresce com o reflexo dos rios escuros. A criação deste clima de memória, fantasia e realidade é uma parceria entre a diretora de arte Marghê Pennacchi e o diretor de fotografia Adrian Teijido, já conhecidos de outros grandes trabalhos.

Quando saía de outra sessão nacional no Festivaldo Rio, ouvi um casal que dizia que o filme era tão bom que não parecia brasileiro. Sem enveredar pelo passado cinematográfico, é nítido como a frase pesada hoje não faz sentido. O bom cinema brasileiro é como este filme, que traz um pouco da cultura de um lugar que pouca gente conhece, de uma região que pouca gente visita, é um dos lugares mais ricos do país e mundo, e ainda o faz bem, miscigenando gêneros, nos deixando sentir na pele aquele calor úmido dos relacionamentos e do local, nos fazendo querer conhecer mais, feliz de ter participado dos curtos minutos que retratam o Brasil na carne. Tive uma sensação parecida quando assisti ao Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009, Marcelo Gomes e Karim Ainouz). É uma descoberta que gera orgulho por ser nosso ou simplesmente por ter sido feito aqui. Saber que o mesmo Marcelo Gomes colaborou neste filme só reforça a parceria que deve ser o cinema e o sucesso como resultado. Que esta primeira ficção de Guilherme Coelho o leve adiante e nos traga mais filmes assim.
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Não sou especialista no assunto. Não me formei e sequer estudei sobre gênero, direitos, tragédias, feminismo, maternidade ou qualquer coisa que se relacione cientificamente a tudo isso. Eu sou só uma mulher.

Até falar mulher soa pesado. Parece que saímos da faculdade, entramos na vida adulta e muitas de nós ainda se consideram meninas. Independentemente se pagamos nossas contas, moramos sozinhas, temos todos os certificados de vida adulta, “mulher” parece pesar demais. Parece pertencer a uma maturidade que vemos em nossas mães e tias, mas talvez por “ser jovem” a aparente única maravilha do universo moderno, rápido e em transição ultrassônica, parece que não temos tempo de nos tornar mulheres – mas só parece.

E então eu queria falar sobre a sorte que temos. Nós, mulheres brasileiras temos muita sorte. Chegou esse vídeo hoje pra mim e eu agradeço todos os dias por não viver lá e correr o risco de perder meu rosto, imagina o sofrimento físico, mental e moral por que passam essas mulheres? Da mesma forma, a fotógrafa Stephanie Sinclair, ao fazer uma reportagem para a National Geographic, se deparou com meninas que são forçadas a um casamento antes da puberdade. Assim, além de fotos fundamentais que nos abrem os olhos para este outro pedaço do mundo, fundou a Too Young to wed e eu penso novamente que temos sorte, que não somos obrigadas a casar com ninguém em nenhum momento.


Vivemos do outro lado do oceano, do lado moderno e desenvolvido em que mulheres podem votar, trabalhar, ser presidentes, cientistas e até defensoras de nossos direitos. Vemos notícias como as já citadas ou como a que está no documentário Filha da Índia*, sobre a garota estuprada dentro de um ônibus que não resistiu aos ferimentos e morreu, e achamos assustador, obsceno, brutal. Comecei a ver o trailer do documentário e não aguentei, parei no meio de um depoimento que culpava a garota e descrevia parte das atrocidades. Ela havia pegado um ônibus com um amigo no início da noite, após sair de uma sessão de cinema. Eu pego ônibus quase todos os dias naquele horário e muitas vezes sozinha. Mas que bom, no Brasil não é assim. Chorei um pouco no ônibus, sem entender porque essa perversidade, porque é tão impossível para estes homens entender que a mulher é mais do que um corpo à sua disposição, para qualquer ação, qualquer massacre.

No Brasil que eu vivo, não dá pra andar tranquila na rua, entretanto. Como minha amiga diz, não tá pra pegar o caminho mais curto para chegar a algum lugar, se for o mais escuro. Não dá pra usar a roupa que se quer. Não dá pra andar sozinha na rua o tempo inteiro, ainda que sejamos ocidentais e nossas leis laicas não discriminem gênero. Não dá para pegar um ônibus e não olhar para todo mundo que está sentado, checando uma possível ameaça. Não dá para andar sem olhar para trás. No nosso Brasil não dá para pegar táxi sozinha em Olinda – ou qualquer lugar, não é privilégio dessa cidade – sendo gay e tendo que justificar isso ao motorista, que inaugura uma série de safadezas, baixo calão e nem estou falando do profissionalismo do sujeito – impensável chegar nesse requinte. E a amiga que desabafou o caso na rede social saiu com o mesmo medo que nos apavora em todos os parágrafos.

No nosso Brasil não tem ácido no rosto, tem água fervendo. “Não” tem casamento infantil, “não” tem estupro em larga escala e impunidade. Não temos mesmo os índices e as discrepâncias de um continente como a África ou a Ásia, mas estamos longe de um desenvolvimento e igualdade. Havendo, as feministas poderiam sair de férias ou fazer projetos sociais no estrangeiro.

No nosso Brasil, não dá para ter 32 anos, sem namorado, sem casamento, sem filhos. Aliás, até dá, mas é um enchimento de saco. Aparentemente esse é o deadline de sua vida, se ainda não tiver filhos, se prepare para um suplício familiar e dos amigos, cujos desejos sobre a sua reprodução anulam os seus próprios desejos de vida. No outro extremo, ser simpática é confundido com dar mole e mesmo comprometidos, esses homens se acham no direito de achar que podem flertar com você. Ainda assim, é você a safada, como é safada a mulher em desespero, que pariu um filho no quarto de empregada da casa onde trabalha. Ela não pôde abortar – em nossa república não temos direitos sobre nosso corpo – e deixou o bebê sob uma árvore, vigiando à espera de uma boa alma que levasse sua criança para uma vida melhor. Ela é a safada, enquanto nada se sabe ou se pergunta sobre o homem com quem esteve nove meses antes e desapareceu no mundo.

Eu sei que são muitos os assuntos e são todos diversos, mas todos eles tratam dessas mulheres, esse gênero que responde por tudo o tempo inteiro, sofre mais do que o outro em qualquer aspecto e segue aí, parindo mulheres e homens – sem saber quais destes serão seus futuros algozes.

Talvez ser mulher seja disso, entender quem somos, o poder que temos, no que nos tornamos e o que queremos. Não gosto do termo empoderar, que me perdoe quem usa. Acho que parte de uma definição de que não tínhamos poder e não acho que seja sobre aquisição, mas retomada. Se queremos uma sociedade igualitária como bem disse Meryl Streep outro dia, ou todos temos poderes, ou nenhum de nós tem. Sem distinção de gênero. Não sei como mudar isso, mas inundando os cérebros jovens e maduros com overdoses de educação já ajuda. É só um desabafo mesmo, um cansaço disso tudo, uma falta de entendimento diante das maldades, do descaso sobre o humano. E olha que nem listei nossas misérias cotidianas ou, mais leve um pouco, nossas questões subjetivas. Está na hora de estudar.

*O documentário Filha da Índia pode ser encontrado no Netflix.
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fotos: Guilherme Larrosa
Quando saía da sala de cinema, ouvi atrás de mim um casal mais velho falando: Que qualidade! Nem parece filme brasileiro! O que pode soar positivo levanta outras questões que quem faz cinema no Brasil espera um dia não precisar mais respondê-las.

Através da Sombra conta a história de Laura (Virginia Cavendish), uma jovem solteira contratada para ser tutora de uma pré-adolescente numa fazenda de café e lá percebe algo de estranho na casa e em quem a habita. Assumidamente filme de gênero, é o suspense e terror que nos levam juntos com a protagonista para um ambiente sinistro.

É um desafio fazer filmes de gênero no Brasil. À bem da verdade, desafio no Brasil é fazer filmes de forma geral: da ideia à distribuição, cada etapa passa por inúmeros processos burocráticos – sem mencionar a busca por financiamento – que cada produção é como uma gincana, se a palavra não eliminasse um profissionalismo imprescindível. Afora esta questão, o terror nacional remete à piada, ao humor negro. Algumas vezes pelas vias do bizarro, como os filmes de Zé do Caixão, que chocam e garantem risadas diante dos roteiros que se encaminham para uma estética do tosco, outras, enveredando pelo suspense ou obscuridade do enredo e aí lembramos tudo o que foi feito com base em Nelson Rodrigues. Mas um filme com terror ou suspense puro, não consigo lembrar o último que vi.
O que Walter Lima Jr. consegue é exatamente isso: um filme com os elementos clássicos que configuram o gênero. A começar pela ideia original: o roteiro é baseado no conto de Henry James, A outra volta do parafuso. Laura é entrevistada pelo tio dos órfãos para ser sua tutora. Aí temos o primeiro traço da personagem: uma mulher que veste roupas escuras que cobrem todo o corpo até o último botão do pescoço, não importando o quão quente esteja lá fora. É alguém que não sabe reagir à presença masculina, por falta de experiência associada a uma educação religiosa que reprime ao gargalo qualquer impulso sexual. Seduzida, aceita a oferta e segue para a fazenda que fica não se sabe onde e isso pouco importa, já que a ação do filme é enfatizada pelo isolamento dos personagens. Seu trabalho é educar a garota, mas um imprevisto traz o irmão que estava na escola de volta. A partir disso, estranhos eventos tomarão tanto a casa quanto Laura, nos presenteando com o que o diretor chama de trama diabólica.

Se a adaptação de Henry James já garante o interesse dos espectadores, há outros aspectos que rumam para sua qualidade. O tratamento do som, cujo destaque e uso devem ser calculados milimetricamente para potencializar os efeitos de suspense é realizado respeitando nossa inteligência. A fotografia de Pedro Farkas garante o apelo necessário, unindo dias de sol e noites brilhantes a uma aura sombria de um ambiente idílico e isolado. Quase nos vemos em Os Outros (Amenábar, 2001) pelo figurino de época e só o sabemos brasileiro por contexto – fazenda de café, negros como funcionários remetendo a um passado colonial, idioma. Pode ser esse mais um dos indícios que levaram meus vizinhos espectadores a essa ideia de filme internacional. Um detalhe que incomoda um pouco é a maquiagem de alguns personagens, mas claramente é uma escolha da direção que reforça as características do gênero.

Uma das célebres frases de Hitchcock é sobre a diferença entre suspense e surpresa. O suspense é quando é permitido ao espectador saber que há um corpo dentro de um baú que pode ser aberto a qualquer instante, como em Cortina Rasgada (Hitchcock, 1948). A surpresa é quando não esperamos aquela cena de impacto e tomamos um susto, como quando descobrimos o rosto verdadeiro da mãe de Norman Bates, em Psicose (Hitchcock, 1960). Um bom filme de terror deve conter estes dois ingredientes e isso vemos aqui, em um trabalho de montagem que dá ênfase a sequências brilhantes onde ora somos tomados de assalto e até rimos, quase pulando da cadeira, ora ficamos apreensivos aguardando os pequenos desfechos da narrativa, como a cena inesquecível do corredor e suas sombras.
Walter Lima Jr., retorna à ficção sete anos depois de Os Desafinados e dá um novo fôlego à sua cinematografia. Virginia Cavendish, que também é produtora do filme, reage bem ao seu entorno, fazendo de Laura uma vítima em uma estranha situação. As crianças do filme merecem atenção, em particular Xande Valois, que dá o tom certo de como a infância pode esconder segredos. Ator desde 2012 e hoje trabalhando em novela, foi uma escolha feliz no elenco que conta ainda com Mel Maia como sua irmã e Ana Lúcia Torres como a antiga governanta.

Se ainda há preconceito quanto à qualidade de nosso cinema ou o velho estigma da pornochanchada aposentada, marca indelével de nossa história cultural, as produções dos últimos anos estão revertendo o quadro com avidez, tanto pelo apuro estético quanto narrativo. Talvez Através da Sombra não precisasse de 100 minutos para contar sua história, mas o faz bem e encerra nos dando a certeza de que vale o ingresso e a polêmica.

*Esta crítica e a cobertura do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo estão no Blah Cultural! :)
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Ainda não consegui ir na Mostra de São Paulo. Ela acontece na seqüência do Festival do Rio e me mata de vontade de ir sempre. Eles trazem filmes do mundo inteiro, sob uma perspectiva menos pop, mas que garantem qualidade e diversidade internacional. Passei o olho na programação e selecionei alguns que não perderia. Não estão em ordem de prioridade e tem muitos além destes que merecem atenção. Vai de 22 de outubro a 04 de novembro. Programa obrigatório para quem está em Sampa.

1001 Gramas, Bent Hamer. Vi ano passado. Inteligente, sensível e com uma ‘aura’ diferente. 
Vale a pena.

Boi Neon, Gabriel Mascaro. Levou o Festival do Rio este ano. 
Não vi, mas deve ser muito bom. Aguardando o lançamento nacional.

Através da Sombra, Walter Lima Jr. Terror nacional, bem feito, grande final.
Órfãos do Eldorado
Órfãos do Eldorado, Guilherme Coelho. Um dos melhores filmes do ano. Só isso.

Mistress America, Noah Baumbach. Depois de Frances Ha, assistirei tudo dele. 
Segue com Greta Gerwig no elenco e roteiro. Será lançado nacionalmente, para a minha sorte, mas se pudesse, veria logo.

Como ganar enemigos, Gabriel Lichtmann. Segundo longa do diretor. 
O trailer promete uma comédia sagaz argentina. Me lembou Querida, vou comprar cigarros e volto, pela pegada do humor.

Girls Lost, Alexandra-Therese Keining. Fantasia que vai falar sobre gênero de uma forma linda. 
É o que diz o trailer, pelo menos. 3º longa da diretora, deu vontade de ver agora.

Homesick, Anne Sewitsky. Trailer polêmico, perturbador e impossível não ficar curioso com o desfecho.

Madres de los Dioses, Pablo Agüero. Na Patagônia, vemos as mulheres dominando a casa, a vida, a família. Aqui elas fazem tudo e juntas, são mais fortes. Não é uma bandeira feminista, é um retrato cultural de uma região isolada. O trailer me ganhou.
Beatles
Beatles, Peter Flinth. Porque o trailer é uma delícia. 
E porque fala de Beatles e de como é amar e descobrir essa banda. O trailer traz esse grupo de adolescentes ouvindo pela primeira vez o Sargent Peppers. Como não amar?

Monty Python, the meaning of life, James Rogan e Roger Graef. Monty Python. Precisa dizer mais?

Não, obrigado, Samuli Valkama. Promete ser gostoso, comédia romântica. 
Diretor finlandês em seu terceiro filme.

Olmo e a Gaivota, Petra Costa. Depois de Elena, assisto qualquer coisa dessa diretora. 
Premiado no Festival do Rio.

O homem de 100 anos que pulou a janela e desapareceu, Felix Herngren. 
Olha esse título? O trailer sugere uma comédia massa!
Virgem Juramentada
Virgem Juramentada, Laura Bispuri. Porque acompanho Alba Rohrwacher para sempre, desde A Solidão dos números primos.

Não perderia por nada. A cobertura será feita pela turma do Blah Cultural! E ainda vou trazer  pra cá algumas maravilhas do Festival do Rio. É bom que já ficamos preparados para os lançamentos dos filmes. Haja cinefilia. :)
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É muito difícil chegar à conclusão de que um relacionamento não está dando certo. Especialmente se não falta amor. É sempre doloroso buscar justificativas que fujam do tão conhecido – e justo se não fosse ilusão – se há amor, vale tudo. É sobre essa dificuldade em um imenso relacionamento de que trata Mon Roi.

Enquanto românticos, buscamos histórias de amor intensas. Sozinhos ou acompanhados, queremos (re)viver no cinema os romances, sofrer um pouco, nos apaixonar pelos personagens, por suas histórias. Terminando bem, saímos querendo aquilo para nós, o amor lindo, que se constrói e firma após algum desencontro e segue seu rumo de felizes para sempre. Dando errado, seguimos iguais, penosos porque acabou cedo demais o que tinha grandes chances. Muitos filmes acompanham as duas trajetórias, são feitos às dezenas e poucos acabam se destacando em nosso repertório. É aqui que entra a experiência da produtora-roteirista Etienne Comar e da atriz-roteirista-diretora Maïwenn.
Tony (Emmanuelle Bercot) e Giorgio (Vincent Cassel) se conhecem e em muito pouco tempo se apaixonam. É um amor pautado no cotidiano, com uma intimidade crescente entre uma advogada séria e eficiente, organizada, que trabalha em um escritório e ele, um dono de um restaurante, claramente um sedutor em todos os níveis, frequentando modelos e um grupo de amigos moderninhos. Os opostos parecem não ser um problema, o casal se equilibra numa sintonia fina e o amor se torna maior do que eles. Tony abre o filme se recuperando de uma grave lesão no joelho em um centro de reabilitação que a trata física e psicologicamente, enquanto se recorda do casamento com Giorgio. Nos flashbacks conhecemos a relação, onde amor é certeza e amálgama, ao passo que o cotidiano questiona se o para sempre pode ter um fim. O que parece um balde água fria nos transporta para o extremo oposto e não conseguimos sair imunes.

O roteiro intercala as terapias de uma mulher física e metaforicamente partida com o que a levou àquele momento. A fotografia tem uma relação especial com a história – ao passo que na clínica, há uma luz dourada de verão nos transmitindo tranquilidade, paciência e saúde, a transição para o passado é sutil e quase não se vê. As diferenças estão nos planos e enquadramentos inseridos em uma montagem mais atribulada condizente com o passado, contrastando com um presente mais tranquilo. Emmanuelle Bercot ultrapassa qualquer definição de grande atriz e entendemos todas as dores e alegrias de uma mulher que parece uma de nós – à exceção de alguns rompantes que nos dividem entre o exagero ou desespero. Giorgio é o rei de Tony, e seu personagem segue a vaidade, grandiosidade e galanteria de conquistador. Ao mesmo tempo, não é um personagem raso, mas um homem louco por sua mulher e essa sinceridade é percebida na experiência de Cassel. Louis Garrel é Solal, o irmão de Tony e é quem de longe sabe o tipo que ela escolheu. Ele quase nos irrita com suas certezas e deduções calmas, ao passo que conduz bem o papel alerta de irmão, com a falsa arrogância que encontramos em quem tem uma razão que não queremos aceitar.
O filme parece sintetizar: terminamos relacionamentos pelos mesmos motivos que os iniciamos. O que nos demanda uma retrospectiva matemática de nossas próprias histórias de alguma forma se confirma e é duro aceitar como verdade. Entregamos-nos e acreditamos estar vivendo o melhor. O problema é esta montanha russa parece não ter fim e, ao invés de ficarmos extasiados com o excesso de adrenalina, acontece o que sempre acontece quando exageramos na dose – enjoamos. Com sorte, tentaremos transformá-la em uma roda gigante, mais tranquila nos seus altos e baixos e, ainda assim, com acesso a grandes paisagens, que agora conseguimos enxergar melhor na velocidade de cruzeiro. Tony e Giorgio tentam, mas a roda gigante parece não chegar.

Ficamos sem saber se esse é um bom filme romântico ou realista. Parece com alguma coisa vivida por nós ou por alguém que conhecemos. O trunfo está em um final interessante, digno de uma direção cada vez mais experiente e um roteiro bem amarrado, que dá a voz à mulher, num perfil super humano para algo tão intenso. Talvez não fossem necessários os 130 minutos, mas, ainda assim, Maïwenn se reafirma na direção, nos felicitando com um cinema questionador, incômodo e honesto. Emmanuelle Bercot levou o prêmio de melhor atriz e o filme foi indicado a Palma de Ouro em Cannes este ano.

*Esta crítica e a cobertura do Festival do Rio estão no Blah Cultural! :)
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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