• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte

Em 2008, mudei para o Rio de Janeiro para fazer uma pós-graduação em cinema documentário. Neste mesmo ano participei da oficina do Recine – o Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Cinema de arquivo é aquele que se vale de imagens fotográficas e cinematográficas de algum passado, criado ou real. Como resultado, entregaríamos um curta com imagens do Arquivo Nacional brasileiro que entraria em competição. Recebemos uma seleção aleatória de filmes históricos, políticos e de eventos cívicos e nos cabia criar uma narrativa. No meio disso, me encontrei em um filme sobre meu avô paterno, Walter Ferreira.

Meu avô não era uma personalidade da grande História, mas em nossa família foi a figura máxima masculina no lado paterno. Homem simples e do interior da Bahia, destes que pouca gente conhece, exerce sempre uma curiosidade em mim, já que ele morreu quando eu era criança e para mim, é a imagem de um homem calado, sentado num sofá. O curta simples, sem trilha sonora ou orçamento, levou o prêmio de melhor roteiro. A ideia era fazer das imagens do Arquivo Nacional um complemento às fotografias de família, numa simbiose entre os grandes políticos, suas famílias e a minha.

Passou ontem no Festival do Rio, Allende, meu avô Allende. A história é contada pela neta de Salvador Allende e diretora, Marcia Tambutti Allende, que busca informações sobre o avô que pouco conheceu. Apesar de termos histórias completamente distintas, a similaridade de objetivos não só despertou minha curiosidade sobre a forma que ela encontraria para o filme, como trouxe grande surpresa: o início é bastante parecido com o do meu avô. A sequência inicial de voz off da diretora, as imagens de arquivo, a intimidade com o material e a sensibilidade de quem fala sobre a família me despertaram para um documentário que eu parecia já ter visto.
Marcia vai além dos meus três minutos. Ela parte de uma investigação sobre seu avô, mas encontra algo muito maior. O fascínio pelo personagem não é à toa, Salvador Allende é reconhecida figura pública chilena, foi presidente socialista do país em 1970, sendo derrotado e morto no golpe militar de Pinochet em 1973, que instaurou uma das mais dolorosas e longas ditaduras na América Latina. Enquanto interroga sua avó Hortensia de 92 anos, investigando a profundidade doméstica do herói nacional que foi o avô, recorre também à sua mãe e tia, suas primas, primo e irmão. Marcia atropela a todos, se incomodando e sem perceber que o silêncio é a grande voz de uma família atravessada por tragédias. Ao mesmo tempo, por haver uma intimidade e franqueza dos personagens-testemunhas, as próprias discussões, interrupções e queixas são expostas, numa montagem que corre entre as fotos de família e campanhas políticas, filmes maravilhosos íntimos e outros segredos. A construção de Salvador Allende dá ao público uma dimensão mais humana, com suas falhas, peculiaridades e brincadeiras ali expostas.

Apesar das invasões de privacidade em quedas de braço com os envolvidos, todos parecem querer contribuir para este complexo retrato do grande homem, que culmina num álbum familiar e essa construção é tanto metafórica quanto literal. Após o golpe de 73 que termina no suicídio de Allende, exílio de alguns e posterior suicídio de sua filha Beatriz em Cuba, a vida privada do núcleo entra em consonância com o passado nacional e é nítida a relevância deste filme familiar para o país e mundo.
Este é o primeiro documentário da diretora e é perceptível como funciona como uma necessidade, um conflito pessoal que precisava ser solucionado ou descoberto. Talvez por isso a insistência quase irritante e, em alguma maneira, a montagem reflete essa teimosia, que se resolve. As exposições familiares e relatos pessoais em filme correm o risco e garantem um retorno positivo com um final feliz, se for possível o adjetivo. Conhecemos outro Allende, mais humano, menos estampado em campanhas políticas e acabamos nos interessando até mais pelas mulheres da família – estas sim, sobreviventes e testemunhas de uma história que se confunde com aquela que aprendemos nos livros. De repente será esta, a próxima investigação da diretora que levou Cannes pra casa.

*O link pro curta sobre meu avô está aqui!
**Essa crítica e a cobertura do Festival do Rio estão no Blah Cultural! :)
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Há menos de um mês saiu na mídia uma série fotográfica sobre europeus que resolveram viver de forma autossuficiente na natureza. O fotógrafo Antoine Bruy viajou sem rota definida pelo continente e com a ajuda da sorte e acaso, um personagem o levou a outro. As fotos refletem tanto uma necessidade de sair dos centros urbanos e viver de forma simples, quanto à adaptação e essa redefinição de ‘simples’ e isolamento. Profundo, elimina o romantismo desta alternativa e nos faz refletir, tanto nas escolhas dos fotografados, quanto na forma como vivemos. Após assistir In Natura, lembrei imediatamente das fotos, ainda que o filme exiba a relação com a natureza em outro contexto.

De Ole Giaever e Marte Vold, In Natura não cai na ideia já conhecida de tantos filmes de adentrar a natureza buscando um refúgio do caos das grandes metrópoles. Tampouco, é uma longa jornada após uma catástrofe na vida pessoal do protagonista. É simplesmente a história de um Martin, um homem casado e entediado, pai de um garotinho, que resolve passar um fim de semana em uma trilha próxima à sua cidade e reflete sobre as escolhas de vida. Não chega a ser um tratado existencialista hermético, pelo contrário, o filme é carregado de ideias sobre o cotidiano e, à medida que vamos conhecendo o personagem em sua intimidade, nos identificamos cada vez mais com sua história.
Já na primeira sequência, temos uma grata surpresa: Martin está em seu trabalho e ouvimos sua voz em off, seu pensamento sobre aquele momento, sobre escritório e sua decisão sobre o fim de semana. Este é um recurso que guiará todo o filme e dará a tônica cômica, dramática e reflexiva de suas ações. O mote, conforme o poster indica é: quem é você quando ninguém está olhando? E é essa descoberta que faremos aqui, não apenas sobre Martin, mas refletindo em nós, em quem somos em essência e no que pensamos. É apenas quando estamos a sós que temos essa liberdade e intimidade expostas para nos reencontrarmos.

Com 5 atores no elenco e 80 minutos de duração, Ole Giaever faz o protagonista, escreve, dirige e edita. Esse perfil enxuto de produção parece ser o costume do diretor, cujos filmes anteriores também lidavam com essa simplicidade e não reduzem em nada a qualidade do que vemos. O filme lançado ano passado foi premiado em Berlim e está fazendo o circuito dos maiores festivais. O fantástico da estrutura, da construção narrativa e do personagem é que todos se fundem na locução: ela trará o ritmo das cenas e aproximará Martin de nós. Com imagens deslumbrantes da Noruega, vemos a jornada de um homem comum que se transforma em herói justamente por sua humanidade.
Em exibição no Festival do Rio, este já pode ser um dos melhores filmes do ano. A necessidade de isolamento é comum a todos, especialmente quando não moramos sozinhos. O fato do ser humano ser gregário não o exclui da individualidade e, tanto a esposa de Martin compreende isso, que o deixa partir. Esta é uma grande surpresa para o marido, que esperava alguma resistência e se sente culpado. Ao mesmo tempo, ao estar só e se ver tentando encontrar uma solução para a sua vida, entende que apenas com uma atitude drástica, digna de um ponto de virada de roteiro, seria salvo. Esta associação de vida com a de uma narrativa clássica traz uma metalinguagem sutil e novamente honesta. Martin precisa chegar ao seu limite.

O próximo filme do diretor está sendo feito direto de sua varanda (From the Balcony – título provisório) e será uma ficção que dará continuidade a esta linha de pensamentos inusitados e quase absurdos do dia a dia, que nos arrancam gargalhadas justamente por sua naturalidade – por mais paradoxal que esta frase possa soar. É esperar que a leveza e inteligência de In Natura se perpetue na carreira de Ole Giaever. E mais uma vez, como a cinefilia aponta, é hora de buscar os outros filmes do diretor.

*Esta crítica e a cobertura completa do Festival do Rio estão no Blah Cultural! :)
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
 
Quando pensamos em ver filmes sobre amizade, é sempre aquela coisa de grandes amigos que passam por experiências e sobrevivem pela união. A maioria é de filmes como Conta Comigo (1986) e Thelma & Louise (1991), que carregam na aventura e emoção, mas de forma crescente e positiva. Não é o que acontece em Rainha do Mundo.

Devastador, este filme conta a história de Cat (Elisabeth Moss) e Ginny (Katherine Waterston), duas amigas de sempre, hoje com trinta e poucos anos que resolvem passar uma semana numa casa de campo. Cat acaba de se separar e há menos de um ano perdeu o pai, com quem trabalhava e tinha como referência na vida. Ginny então traz a amiga para que se recupere enquanto o ex-namorado esvazia o apartamento. É neste reencontro que elas lembrarão o ano anterior, quando era Ginny quem estava em dificuldades, as diferenças entre elas e como sobreviver às duras perdas.

Elisabeth Moss era Peggy da série Mad Men (2007-2015). A reencontrei em Cala a Boca, Phillip Morris (2014), filme de Alex Ross Perry, diretor também deste, e lembrei de Garota, Interrompida (1999), mas nada do que foi visto antes dá a dimensão de grandeza desta atriz. Tanto na série como nos outros filmes já havia demonstrado um talento que a definiria como uma das grandes atrizes de sua geração, mas aqui, de alguma forma, consegue superar a si mesma. Cat segue um destino difícil rumo a uma séria depressão e vemos suas dores e delírios se aprofundarem de tal forma que nos contorcemos no cinema. Fica claro que o filme é muito mais do que um tratado sobre as separações e  perdas que precisamos viver, é uma análise honesta e dura da depressão enquanto doença.
Conhecemos Ginny como a boa amiga que vai resgatá-la, ajudá-la a se recompor das dores que começam a afligir Cat agora também fisicamente. Mas de cara há um estranhamento entre elas que cresce exponencialmente, intercalando confrontos e carinho. Se no passado Ginny era quem sofria por um cara que não a queria mais, foi incapaz de perceber que com Cat não era, necessariamente, a mesma coisa. Talvez seja essa a grande dificuldade de quem convive com uma pessoa clinicamente deprimida. Há uma névoa que impede de distinguir o que é doença do que é um sofrimento momentâneo e egoísta e enquanto esta nuvem não se dissipa, não conseguimos compreender o outro, entender o aprofundamento de um sentimento que se transforma em doença, que requer mais atenção, mais carinho, mais paciência – mais cuidado.

Cala a boa, Phillip Morris (2014) é um filme pretensioso. Ou é um filme que fala de pessoas pretensiosas e muitas vezes temos vontade de socar a tela por nos fazer participar daqueles diálogos arrogantes e vazios. O filme esteve no Festival do Rio ano passado e tem Jason Schwartzmann fazendo o protagonista chato e engraçado ao mesmo tempo – grande ator – Elisabeth Moss e Jonathan Price. Alex Ross Perry consegue nos transportar para qualquer situação, nos manipulando, seja por irritação com os personagens de Phillip ou na tensão deste último filme. Aqui o transtorno remete diretamente aos delírios de Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (Polanski, 1965) em interpretação nos seus pontos críticos.

O fato é que a história da amizade se constrói aos poucos e em silêncios que, como o clichê indica, acabam dizendo mais do que as palavras. Estamos tão entregues à dramaturgia das personagens – a chegada de Rich (Patrick Fugit), amigo de Ginny traz um tempero para a acidez dos diálogos e a discussão de Cat com ele é soberba – que ficamos aguardando o momento em que tudo vai explodir. Esta semana que passam juntas nos deixa ansiosos, curiosos pelo desfecho, apaixonados pela sincronia entre as amigas e fissurados por uma história em que a montagem do filme joga conosco ao entregar um passado em proporções desiguais e esporádicas regadas com um humor sombrio, trazendo momentos de uma leveza suspeita, inteligente e mordaz. As alterações de comportamento das personagens ganham tons à medida que se descortinam novas cenas de um passado que parecia cor de rosa.

A fotografia linda, granulada dentro de casa e clara com o cenário deslumbrante do lado de fora deveria nos deixar aconchegados numa confortável casa de campo. Mas este retiro em meio à natureza funciona como um isolamento de tudo e o exílio do mundo é também um catalisador da disputa de poder. Esta queda de braço é sutil, como a trilha sonora que delicadamente cria um suspense insuportável. Os enquadramentos remetem aos dramas de Bergman em seus personagens femininos, pautados neste mesmo silêncio que amplifica os sentimentos no olhar. Se Cat expressa melhor em palavras e tenta fazer Ginny entender minimamente o que acontece, ainda que não assuma ou sequer compreenda a gravidade, Ginny, por outro lado é um muro de apreensão, medo e ignorância. O fato é que esse filme tenso nos deixa sem piscar, crescendo junto com ele e tentando definir quem é, de fato, esta rainha. Com este filme, Alex Ross Perry confirma maturidade estética e narrativa, se tornando uma referência do cinema independente americano. 

Esta crítica está no Blah Cultural! :)
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

Conversando com um colega no trabalho, falávamos sobre cinema e ele dizia que para um filme ser bom, precisava ficar na cabeça por alguns ou vários dias, para ser digerido, lembrado. Não precisaria ser por completo, mas alguma cena, alguma fala, a história, a fotografia, um elemento que fosse relevante o suficiente para se prender em nós. Concordo com essa ideia e sem pensar muito, este filme ficou comigo a semana inteira, em busca de conclusão.

Tribunal é o longa de estreia de Chaitanya Tamhane. Ele conta a história do julgamento de um cantor e ativista social, Narayan Kamble (Vira Sathidar), que se apresenta nos bairros pobres de Mumbai e é também professor, acusado de incitar ao suicídio com suas músicas um jovem que trabalhava nos esgotos e foi encontrado morto. Acompanhamos o vai e vem do tribunal, os argumentos do Estado contra os da defesa e a trajetória de pouca sorte deste homem persistente. Em paralelo, vemos as rotinas da promotora Nutan (Geetanjali Kulkarni) e do advogado de defesa Vinay Vora (Vivek Gomber), numa clara distinção entre tradição e globalização de uma nação em desenvolvimento.


À primeira vista, ficamos incomodados com o ritmo moroso do filme. As sequências parecem se estender além do necessário, como se fosse um problema de corte. Em determinado momento nos sentimos afundando na cadeira, frente àquele descompasso da rotina do tribunal em protelar um julgamento aparentemente simples, mas que é constantemente postergado por argumentos absurdos da promotoria com base em leis retrógradas e sem aplicação lógica na sociedade contemporânea. Em um paralelo com as discrepâncias do discurso tradicionalista no tribunal ir de encontro à exposição dos fatos por parte da defesa – que já resolveria o absurdo que é a acusação, vemos as rotinas pessoais dos advogados que corroboram seus argumentos quando estão em ação. Nutan atende aos costumes de uma sociedade patriarcal e machista de classe média, em que a mulher deve cumprir todas as atividades do lar e da família de forma submissa e ainda trabalhar. Ao mesmo tempo, Vinay Vora, que retruca a aplicação de leis vitorianas, frequenta bares e restaurantes onde toca música brasileira e internacional, compra em delicatessens caras, se veste e vive como nós e, neste sentido, é mais distante da cultura local.

A necessidade do Estado se eximir da culpa da morte de seu funcionário e imputá-la em um cantor de rua é justificada quando vemos as condições de trabalho da vítima, ao mesmo tempo em que reforça a manutenção da sociedade de castas com uma justiça de desigual proporção. A miséria é eviscerada em uma exposição crítica do sistema social indiano: um trabalho que já seria de difícil execução com todo o suporte e que, por ser destinado às classes mais inferiores de uma sociedade verticalizada, é feito de forma ainda pior, igualando estes homens a baratas. Com um curta no currículo e este longa, o diretor chamou atenção por onde passou. Tribunal levou 16 prêmios até agora e outras 5 indicações, ao mesclar atores e não atores em um cinema naturalista que nos faz questionar até onde é ficção o que está diante de nós. Essa dramaturgia é o trunfo de um filme que nos carrega para uma conclusão amarga e irônica. Um detalhe extra da produção: Usha Bane, a viúva Sharmila Pawar é também viúva na vida real de um homem que morreu nos esgotos.


Saí do filme pensando na última sequência e em como ela tinha deixado todos perplexos e alguns indignados. Depois de um tempo, ficou clara sua razão e o filme foi se fixando ainda mais, em suas nuances, interpretações, discursos e construções brilhantes. Os absurdos de uma justiça que se assemelha à nossa e nos faz ver uma miséria que talvez também pudesse – porque a Índia feliz ou infelizmente supera em descaso – nos ser comum, traz outras tantas questões sobre cultura, sociedade e tradição. Sair de uma Índia exótica e vê-la em seu dia a dia é o que nos aproxima e causa interesse. Um presente, esse filme.

Essa crítica e a cobertura completa do Festival do Rio estão no Blah Cultural! :)
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

Eu deveria ter talvez 18 anos quando vi o filme Pink Floyd The Wall. Conhecia o disco e estava num bar que tocava rock em Salvador, o Café e Cultura, que nem existe mais. Bebia com uns amigos e conversávamos qualquer coisa, quando me distraí com uma televisão presa na parede. Passava o filme e dele eu nada sabia. O fato é que enquanto todos conversavam eu perdi o que hoje parecem ter sido muitos minutos na tela. O impacto das animações, o peso da narrativa, o muro em si e suas conotações, a música fantástica em muitos sentidos. Não tinha nada de especial acontecendo na minha vida, era adolescente indo pra vida adulta e estava tudo certo, mas ficou uma marca, da mesma forma.

A primeira sequencia do novo filme dirigido por Roger Waters e Sean Evans traz Liam Neeson contando uma experiência pessoal com o show The Wall na época do lançamento do disco, quando Pink Floyd ainda tinha Roger Waters. Liam fala em preto e branco, sem trilha sonora e sem corte,  sobre como estar ali foi fundamental naquele momento de sua vida e como o evento se transformou em um marco, um indicativo de um ponto de virada. Conta sobre o medo e o início de sua carreira, quando ainda não era conhecido e vivia a incerteza do sucesso.


O filme de 1982 é uma ficção dirigida por Alan Parker que conta a história de Pink (Bob Geldof), um cantor de rock que entra em colapso ao construir um muro simbólico para se isolar de todos que o oprimem – a mãe, a mulher, o sistema. Após um delírio em um show em que ele se transforma num ditador e violenta parte de sua plateia, é julgado e obrigado a quebrar o muro para retornar à sociedade. A obra é a representação audiovisual do álbum, descrito como ópera rock, um clássico do rock, sucesso absoluto no mundo. O roteiro do filme é de Roger Waters.

Este mês estreia Roger Waters The Wall, um filme que traz o show de 2012 – um espetáculo impressionante em qualquer nível – direção, som, músicas, jogo de luz, cenografia, efeitos visuais, equipe, banda, edição – cenas do filme de 82 e em paralelo, um pouco da história do próprio Roger. O conjunto nos deixa embasbacados e mesmo conhecendo o disco e tendo visto a ficção, essa também é uma experiência transformadora. Como se não bastasse, a turnê que originou o filme é dedicada a Jean Charles e todas as vítimas de violência por conflito armado – guerras ou urbanos. Roger Waters perdeu o pai aos sete meses de vida, na Segunda Guerra. Seu pai havia perdido o pai na Primeira Guerra. Ambos eram soldados.


O filme de 82 nos deixa um pouco pesados, remete a outros tantos filmes fundamentais, ainda que não seja este o objetivo – 1984, Metrópolis, Os Incompreendidos, Laranja Mecânica –  e em todo o delírio e narrativa fantasiosa há um realismo quase cotidiano. A expressão da TV que anestesia – como as drogas da faixa Comfortably Numb – as três partes de Another Brick in the wall, que trazem os marcos narrativos do filme e cada uma puxa um tema, todos convergindo para o medo, que nos isola e cega. O filme de hoje é magnífico, porque se aproveita deste medo e aí sim, o afasta do delírio de um personagem isolado e nos transporta para uma história que é a nossa própria, dos nossos medos, dos medos coletivos e de como as guerras são provocadas pelo mesmo sentimento e que dele se alimentam.

Ao contrário da ficção, este novo The Wall nos resgata e levanta, nos faz pensar sobre as guerras e nos faz viver aquele show nos deixando numa posição confortável e intrigante ao mesmo tempo: ficamos emocionados pelo espetáculo, ficamos querendo muito ir ao show e saímos envolvidos e reflexivos pelos assuntos, homenagens e provocações. Não suficiente, há a história pessoal entre as músicas; Roger Waters faz uma travessia de carro, do túmulo de seu avô ao de seu pai, exibindo uma triste coincidência – se é que podemos chamar assim – ou um destino trágico para esta família que perde os seus para uma violência inútil. Esta viagem do protagonista-diretor-cantor-roteirista é um recorte tanto ficcional quanto documental em sua construção e funciona bem, porque toda a sequência é complemento ao show, em significado. Há a verdade do relato e da forma como é exposto, fazendo do filme uma obra diferente e difícil de categorizar.


Saí dos 132 minutos querendo mais, esperando após os créditos o bônus da conversa de Roger com Nick Mason, baterista do Pink Floyd respondendo a perguntas dos fãs sobre a banda, o show, David Gilmour. Saí com vontade de ir ao show e de rever o filme no mesmo momento, que agora fica indo e vindo à memória. Saí feliz pela homenagem aos mortos por guerras e medos que levam tantos a tomar medidas extremas e até triste por ver que ainda precisam se fazer lembrar e homenagear, quando na verdade, não deveria haver tantas vítimas. O que fica é a certeza de que esse é um filme imenso, imperdível para fãs da banda e do cantor, surpreendente para quem pouco conhece e fundamental para qualquer pessoa que goste de cinema, grandes histórias e música. 

*Essa crítica está no Blah Cultural! :)
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
A graça de ir a um festival de cinema é conhecer diretores e filmes que não chegariam a você de outra forma. Claro, hoje existe a internet e seu arsenal infinito de possibilidades, mas se não investigar nos sites dos festivais, nos blogs e revistas de quem estuda e escreve sobre o assunto, acabamos num limbo de inúmeros nomes, países, cinematografias e nenhum guia para se orientar.

Este ano, o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro traz uma mostra de Grandes Mestres. Dentre estes, está Hong Sang-soo, diretor sul coreano de A Visitante Francesa (2012), Ha Ha Ha (2010), entre outros. Para a minha sorte ou azar, não conhecia nada dele, nem mesmo estes citados e mais conhecidos e fui ver o mais recente, Right now, wrong then (2015), que já visitou os festivais de Toronto e Locarno. O diretor é um dos queridinhos dos festivais internacionais e por onde passa, causa um alvoroço do quilate de Woody Allen, Polanski ou Almodóvar.
O filme conta a história do encontro do diretor de cinema Ham Cheon-soo (Jae-yeong Jeong), que visita uma cidade para exibir seu filme e comentá-lo, com uma pintora, Yoon Hee-jeong (Min-hee Kim), que cruza seu caminho. Passam um dia juntos em uma conversa que vai criando intimidade entre eles, até seu desfecho. E aí, acontece toda a graça, quando as sequências se repetem, como em Feitiço do Tempo (1993, Harold Ramis) e não só vemos a transformação dos protagonistas, como suas mudanças de atitudes que convergem para um novo destino. Esse jogo narrativo é tão divertido quanto conciso e nós, por não termos amplo conhecimento da dramaturgia e cinematografia sul coreanas, somos pegos desprevenidos no jogo de cena. É muito divertido perceber as sutilezas entre as sequências – enquanto no filme americano elas são mais óbvias pelo número de repetições, aqui as variações quase passam despercebidas, a começar pelos títulos. Somos convocados para um jogo que se aprofunda e nos deixa pensando em nossas atitudes quando em novos encontros. Quem estamos mostrando para o outro? Somos nós ou uma versão mais ou menos agradável a depender do recebemos em troca?

O cinema estava cheio e se dividia entre silêncio e algumas gargalhadas, especialmente de dois vizinhos meus. Acabei sendo contagiada pelo riso deles, o filme saiu delicioso e me vi gargalhando junto. As interpretações dos atores parece estranha, especialmente no personagem do diretor, Ham. É algo como uma caricatura de um homem que encontra uma bela mulher e não sabe como reagir a ela nas duas sequências. Os exageros se traduzem tanto como a inocência, inibição frente a uma paixão recém-descoberta, quanto em um sentido de comédia quando tenta seduzi-la, em falas entrecortadas com expressões que nos parecem mais insegurança do que conquista. Já a pintora Min se equilibra entre uma personagem tímida, ingênua e, ao mesmo tempo, observadora, tentando entender com questionamentos diretos, qual a densidade de seu parceiro.
Acompanhando a crítica oficial de Locarno e Toronto, o que se confirma nesse filme é um cinema de autor, que repete as fórmulas com um adendo de inovação e criatividade narrativas, como em Woody Allen ou qualquer grande mestre. Alguma coisa na cinematografia, nos planos escolhidos – à exceção talvez do zoom, que não se vê tanto em comédias românticas – remete ao cinema francês, mais leve e sutil, deixando a cargo dos atores a ação, ao invés de fragmentá-la em uma montagem mais frenética. O fato é que esta inusitada e estranha surpresa nos resgata das histórias tragicômicas de nossos próprios quase relacionamentos para este novo, com cara de romance de um tempo que não existe mais.  Agora é correr para tentar ver o outro filme do diretor que está no Festival, A Montanha da Liberdade (2014). É, sem dúvida, um bom e divertido início para a maratona cinematográfica deste ano.

*Esta crítica está no Blah Cultural! :)
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
    Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
  • Spotlight
    Spotlight
  • Livro da Semana - Física em seis lições
    Livro da Semana - Física em seis lições
  • Amy
    Amy

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose