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Café: extra-forte

Enquanto assistia Um senhor estagiário – título em português que poderia ser “o estagiário” e entregaria menos a ideia para quem não viu o trailer – me perguntei onde está o ator de Taxi Driver, Touro Indomável e O Poderoso Chefão. Robert De Niro é imenso e do alto de seus 72 anos, a qualidade do seu trabalho não vale discussão. Aqui também está bem, aqueles filmes têm mais de 35 anos e muita água já passou por debaixo desta ponte. Anne Hathaway, outra atriz inquestionável, nos seus 32 anos, também parece ser maior do que Jules Ostin, chefe de Ben Whitaker (De Niro). Então, com grandes atores e uma diretora experiente, o que houve?

O filme não é ruim, deixando claro. É uma comédia leve, com alguns bons diálogos e é sempre um prazer rever De Niro e Hathaway, que todos adoram. O problema está no excesso de leveza, na ampla gama de clichês de uma comédia de verão que não vai muito além. Tenho uma predileção pelo gênero, então assisto a maioria dos filmes que aparecem pela frente – o que me dá algum senso de loucura, mas bastante base, por outro lado.  Jules é diretora de uma startup, que está fazendo um sucesso estrondoso. Como a maioria das marcas nascidas na internet, seu crescimento foi vertiginoso e o que era um blog, virou uma loja de roupas virtual com 200 funcionários. Como parte de um projeto comunitário, criam um programa de estágio para idosos, para que unam sua experiência de vida à ocupação do tempo livre – além de não se importarem com a renda, já que são aposentados. Com isso, De Niro surge e a primeira cena já nos passa o teor do que veremos: a apresentação de seu personagem indica um senhor agradável, otimista e pragmático.
O filme mostra a rotina da empresa e as relações de trabalho que os estagiários – idosos e jovens – têm com o restante da equipe, focando na relação de Jules com Ben. A crise se deflagra quando um assistente de Jules sugere a contratação de um CEO, alguém com maior experiência de gestão que comandaria a empresa e traria mais segurança aos investidores. Essa estratégia entregaria o poder de Jules a um candidato homem – todos os entrevistados eram homens – por uma sugestão de outro homem. Onde está o erro? Com problemas em casa e no trabalho, sem tempo para comer ou dormir – a velha imagem do workaholic de salto  – decide pelo processo seletivo. Neste meio tempo, Ben está sempre ao seu lado, pronto para atendê-la nas atividades mais diversas e sempre com a frase certa no momento preciso – benesses da experiência que a idade traz e alguma noção de timming.

O filme corre sem grandes solavancos e ganha força em algumas cenas, como na parceria com os outros estagiários e aí o elenco brilha, com Adam DeVine, Zack Pearlman e Jason Orley no hilário choque de gerações. Ao mesmo tempo, não há nada muito extraordinário e os protagonistas carecem de profundidade, ainda que estejam sustentados por grandes atores. É uma falha de roteiro que acaba atravessando a história toda num clima morno, com algumas tiradas inteligentes, mas os estereótipos acabam mais fortes do que a ideia que está pro trás da história.

Nancy Meyers é diretora deste e de, entre outros, Simplesmente Complicado, O Amor não tira férias e Alguém tem que ceder. Os três filmes são deliciosos, trazem temas e papeis onde a mulher tem destaque e as histórias são centradas nos pares que estão perdidos, tentando encontrar uma saída para suas relações, sejam com o passado, com as diferenças entre as gerações e sempre em relacionamentos amorosos. Neste último, ao menos, o foco está no trabalho, na carreira de uma mulher que almeja o sucesso e vida pessoal – e não há nada de errado nisso (estamos em 2015, vale lembrar) – mas, ainda tomamos susto ao descobrirmos que Jules é mãe de família. Talvez o que falta neste estagiário seja algo que ultrapasse o bom moço. Não há sarcasmo, quase não há ironia e a construção de alguém sempre centrado e correto parece irreal. Não esperamos grandes aventuras de um senhor de setenta anos que resolve voltar ao trabalho, mas a submissão condescendente também incomoda. Ainda assim, vale para uma tarde de domingo, sem esperar que este seja um dos melhores filmes deste grande elenco e equipe – mas por tê-los, vale como passatempo.

*Uma versão deste texto está no Blah Cultural. :)
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Há sempre uma segurança presumida em assistir os novos filmes dos grandes diretores. Não precisamos do trailer, ainda que a curiosidade seja grande. Basta saber que está lá o devido crédito, esperar alguns grandes atores e um filme, no mínimo, interessante. Às vezes damos azar e o diretor decepciona, mas é difícil. E Roman Polanski reafirmou sua qualidade.

Um diretor de teatro, Thomas (Mathieu Amalric) é convencido por uma atriz, Wanda (Emmanuelle Seigner) a fazer o teste para sua nova peça. É a adaptação do texto de Sacher-Masoch, A Vênus das Peles (1870) – cujo teor fez nascer o termo masoquismo. Os dois passam o texto juntos em um teatro fechado e isso será o filme. Há um grande risco em encerrar um longametragem em uma locação, mas não é novidade para Polanski. Muito já foi visto na Trilogia do Apartamento lá atrás, com Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968) e O inquilino (1976). Havia outras locações, mas o grosso da ação era nos apartamentos. Os três filmes merecem atenção, os dois primeiros ainda mais – são perfeitos. Da mesma forma, o penúltimo filme – O Deus da Carnificina (2011) – é uma adaptação teatral voltada ao cinema. Aqui há um confinamento em apartamento – dois casais discutem sobre o comportamento de seus filhos e acabam reproduzindo os desvarios e intolerâncias que permeiam a educação das crianças com humor negro audacioso e grandes interpretações – reflexo do contexto social e familiar em que vivem, concluiremos.
Ao contrário dos três primeiros, cujas ações principais eram pensadas em isolamento, delírio e silêncio dos protagonistas, O Deus da Carnificina e A Pele de Vênus, por usarem o teatro, são pautados na palavra, em diálogos mordazes extremamente bem construídos – além de não focarem em apenas um personagem. Não há falação, mas uma troca de texto útil que constrói a dramaticidade dos assuntos ali abordados. Se com A Vênus das Peles, Sacher-Masoch nos trouxe o masoquismo, podemos no mínimo, esperar alguma diversão ali – em pitadas de humor e alguma crueldade, se a palavra não for pesada demais.

O diretor recebeu o texto de Masoch um ano antes de produzir e, por ver ali uma obra original em que o homem é desmoralizado por uma mulher numa relação incomum de inversão de poder, achou interessante, além do desafio de prender o espectador usando as restrições já citadas. Mathieu e Emmanuelle estão fascinantes e sustentam a dramaticidade em planos criativos, estudados para dar à Wanda, desde o início, uma malícia que vamos apreendendo aos poucos, enquanto Thomas vai se deixando seduzir e entra em um jogo que se torna gradualmente complexo e perigoso. Há os exageros de atuação pertencentes ao teatro que se intercalam na sutileza do cinema quando estão fora de cena, atendendo ao telefone, tomando café. Aí também há um jogo com o espectador, cuja atenção é mantida na metalinguagem da ficção: são dois atores (Mathieu e Emmanuelle) interpretando no teatro uma atriz Wanda e Thomas, seu diretor, interpretando outros personagens – a Wanda que domina e Severin, seu escravo.
Em um desenlace surpreendente, ficamos boquiabertos entre a entrega de Severin/Thomas às tramas de Wanda/Wanda e até o que nos parece ridículo funciona em cena, tamanho o hibridismo do que é a ficção do texto da peça com seu ensaio. A fotografia de cena, cara às duas artes visuais é reconhecida aqui com maestria e novamente vem a metalinguagem, quando a própria Wanda é quem maneja as luzes do palco. Esse conhecimento, que deveria ser estranho a Thomas, indica que aquela aspirante à atriz é um pouco mais do que isso – mas ainda é cedo para dizer. O fato é que o filme extrapola o entretenimento – nos dá margem para relacionar assuntos agora frequentes, das relações de poder entre os gêneros, das relações antes ditas como perversas e com a ajuda da literatura pop estão quase naturalizadas, da objetificação da mulher. Essa complexidade em textos corridos e adaptados ao cinema e ao teatro – o livro corre em outro ritmo – e a permanência de um humor ácido, reafirmam a qualidade esperada de Polanski e nos faz aguardar o próximo filme com alguma ansiedade.


*Essa crítica está também no Blah Cultural!
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Quando o cinema se volta à História, precisa dialogar em duas frentes: da memória e do fato. O segundo é mais fácil, parte de documentos, registros precisos do que aconteceu sem adjetivos, como as orações simples que definem lugar, hora, método, personagens. A memória, por outro lado, traduz os sentimentos, pois se vale da subjetividade, do que é individual, do que traz cores e nuances, personaliza e, paradoxalmente, torna o relato de registro mais real. Orestes traz o enfoque dos sujeitos – vítimas ou não – de violência no país, unindo as duas histórias, a do Brasil com a dos brasileiros. 

Rodrigo Siqueira (Terra Deu, Terra Come, 2010) traz mais uma abordagem original, agora com Orestes. Se a tragédia grega é de um o protagonista como o assassino da mãe Clitemnestra em vingança pelo assassinato do pai Agamenon, morto por ela e seu amante, aqui há um júri simulado de um novo Orestes que estrangula seu pai, assassino e delator de sua mãe, militante na ditadura. As duas tragédias fictícias se unem aos relatos verídicos do drama de Soledad e Cabo Anselmo, personagens reais da História do país e da vida de Ñasaindy, filha daquela e, com azar, talvez filha do mais famoso delator do Brasil. Cabo Anselmo foi um agente infiltrado da ditadura militar e suas ações culminaram na morte não apenas de Soledad, como de 6 outros militantes no que ficou conhecido como Massacre da Chácara São Bento, em 1973. Quando foi morta, Soledad já tinha Ñasaindy e estava grávida. Anselmo era seu namorado. 
Por si só, a história de Ñasaindy e a busca por sua origem – bem como o pânico da dúvida sobre sua paternidade – associada à tragédia grega já seria material suficiente para um filme, mas o diretor vai além. Experiente, amplia a violência histórica e traz José Roberto Michelazzo, torturado no ambiente em que visitam no filme, um prédio onde funcionou o Doi-Codi em São Paulo e mais: uma mulher cujo filho foi assassinado pela polícia, outro casal que perdeu o filho da mesma forma – sendo este um cara comum e o anterior, um dependente químico – Sandra Domingues, representante de uma organização que busca a justiça de um massacre infantil em Realengo, no Rio de Janeiro, uma enfermeira de hospital público, todos juntos em sessões de psicodrama, coordenadas por Marisa Greeb. Vemos um panorama da violência histórica e contemporânea no país, em encenações no júri e nestas sessões, além dos relatos da história de Ñasaindy, vítima desde o nascimento. 

O júri popular deu aos presentes o poder de decidir sobre a sorte do Orestes nacional. Os advogados de defesa e acusação – em oratórias brilhantes – deixam qualquer um na berlinda, entre a moral, a justiça – e todo o seu conceito subjetivo e objetivo ao mesmo tempo – e a lei. O mote traz de volta a Lei da Anistia e sua necessidade de revisão, já rechaçada pelo Supremo Tribunal Federal. Hoje, o que se mantém é o perdão indiscriminado de vítimas e algozes da ditadura, quase transformando todos em ‘farinha do mesmo saco’ – no que se refere a castigo e absolvição. Ao mesmo tempo, cada personagem no psicodrama é um representante da tragédia cotidiana. As discussões tomam fôlego, apertam o coração e nos posicionam como participantes, às vezes saindo do filme por não encontrar atores reais – e aí a dramaturgia da cena interrompida por observações de Marisa Greeb perde em narrativa cinematográfica – às vezes, nos remetendo a tudo o que vemos e ouvimos nas ruas e noticiários, como o posicionamento de Sandra, favorável à pena de morte, mas se dizendo contra a lei do talião, do olho por olho, dente por dente. Não há como não lembrar dos linchamentos frequentemente noticiados na mídia – a violência não é apenas policial. 
A edição acompanha os dois alicerces do filme e, em alguns momentos, as sessões parecem tomar muito tempo, mas é uma extensão necessária – é o reflexo das reações, dos sentimentos e para que ocorram, não há como cortar ou interromper. No júri o tempo é outro, da ordem da ficção e a montagem segue sem percalços, nos deixando divididos entre os olhares do público e os discursos dos advogados. Assim, no júri há planos fixos, para que a ação se concentre no espetáculo e oratória e, nas sessões de psicodrama, as câmeras precisam estar à mão, para que sejam fluidas e invisíveis. Ainda que a fotografia – lembrando o cinema direto, não usa luzes que não dos ambientes – saia um pouco escura e acinzentada, talvez o próprio tema favoreça a coloração em simbologia.   

O ritmo do filme funciona como um pêndulo variando entre emoção e razão, sempre caro à narrativa documental. A proposta parece ter sido esta: fazer pensar sobre os fatos, tanto sob a ótica da grande justiça, a que o Orestes deve ser submetido, quanto de sua relativização, da nossa posição como indivíduos, cujos sentimentos e ideias são levados em consideração. Nisso o filme brilha e realça sua importância, especialmente nos depoimentos de Ñasaindy, José Roberto Michelazzo e Sandra Domingues, cuja coragem e posicionamento – ainda que contraditório e até por sê-lo – representa grande parte da opinião pública. São as diversas verdades das histórias individuais e nossas tristes heranças da História nacional que moldam nossas leis e comportamentos, fazendo com que este filme seja um dos mais relevantes ao tratar da violência e mereça destaque e debates por onde passe – justamente por ser, também, ficção. 

*Essa crítica está no Blah Cultural! :)
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Procurando no dicionário o significado de maiden, cheguei em dois sentidos próximos ao que se refere o título do filme: um é mais direto e trata de algo feito pela primeira vez e o outro, indireto e poético, diz que maiden é mulher virgem, solteira, que nunca se casou. Eliminando o ‘virgem’ para evitar uma discussão sobre a sexualidade que não tem relação com a obra, seguiremos com estes dois: mulher solteira/que não se casou e/ou que faz algo pela primeira vez.

Isso porque Laura Dekker foi a pessoa mais jovem a cruzar num barco todo o planeta. Com 14 anos, após uma batalha judicial de 10 meses na Holanda que queria impedi-la de realizar seu sonho – não seria algo imprevisível, já que é uma menor que faria uma viagem arriscada e a justiça queria salvaguardar sua saúde e garantir sua educação formal – ela consegue o que queria e parte em sua jornada. Filmando a si e ao percurso enquanto está no mar e com o apoio de outros cinegrafistas por onde passa, vemos um perfil em transformação da adolescente teimosa a uma mulher em formação, se tornando independente e redefinindo seus objetivos.

Tomando um pouco de distância do filme, ele poderia muito bem se passar por ficção. Essa garota jovem demais, bonita, cheia de discursos e opiniões, ganhando cada vez mais espaço no mundo parece ter saído de uma história de aventura. O fato é que tudo aconteceu e vê-la se filmando, nos deixa dentro daquele barco, participando como observadores atentos e ansiosos. Apesar de nova, Laura estudou navegação e tinha experiência de tripulante desde criança, em família. O afinco em cuidar, preparar e ajudar a reformar o barco junto a seu pai e economizar cada centavo para a viagem já indicava uma obstinação e vocação que poucos têm tão cedo. Talvez tenha sido por esta postura que a justiça holandesa a autorizou.
Os pouco mais de 80 minutos são realmente muito poucos pro que estamos vendo. As observações de Laura enquanto está só sobre sua história de vida, família e criação, a relação com a escola, saem de uma imaturidade infantil para uma conclusão do que quer para si e um dos marcos é quando decide mudar a bandeira de seu veleiro, da Holanda – onde foi criada – para Nova Zelândia, onde nasceu. Este é um dos momentos mais emblemáticos do filme, junto com a longa permanência no Oceano Índico. Enquanto o barco se movimenta, vamos juntos com ela e os dias passam numa velocidade de filme de ação. Mas quando acaba o vento e ficamos a sós, como nos resolvemos? Em tempos de internet em todos os lugares, o tédio de 5 minutos é insuportável, imaginemos agora semanas quase à deriva no meio de uma imensidão azul. A valoração do tempo necessariamente se transforma e mais uma vez nos pegamos pensando em nossa própria trajetória.

Em filmes de viagens – documentário ou ficção – há sempre datas ou contagem de dias e desenhos de mapas, gráficos que determinam a duração do filme muito mais do que do percurso. Estas pontuações colaboram para a nossa orientação de tempo e espaço, a diegese fílmica. São marcações de tempo que, quando o filme é bom, quase nos angustiam, como um livro que gostamos tanto que não queremos terminá-lo e vamos alongando a leitura numa tortura, querendo sempre saber mais e com pena de saber tudo. Este filme tem o mesmo efeito: à medida que atravessamos os mares com Laura, suas tormentas e maravilhas, sabemos que em breve tudo aquilo terminará e nos deixará felizes, reflexivos e saudosos. Jornadas assim pegam sempre os apaixonados por viagens, são implacáveis. E por ser uma garota falante – claramente foi orientada para não emudecer e fazia da câmera seu interlocutor, como Wilson, do Náufrago – participamos de seu diálogo, anotando suas observações sobre a natureza, seus conhecimentos de mapas e navegação, numa fotografia que, mesmo sem querer, traz imagens magníficas da natureza quase em estado puro.

Enquanto tem a posse de sua imagem com a câmera na mão, a edição nos mostra uma menina de fibra, que até em tempo ruim enxerga beleza, compromisso e orientação. Ao mesmo tempo, quando em terra firme já é vista ao invés de se mostrar, quase não fala. Claro que há aí dois fatores preponderantes: um cansaço físico e psicológico de estar sempre como apresentadora de seu próprio programa  e, ao mesmo tempo, é o momento que precisa ter para conhecer o entorno, as pessoas, a natureza continental e se preparar para a nova saída. A edição de Maidentrip merece atenção, basta imaginar o tempo de seleção do que era útil ao filme e a imensidão que foi descartada. Se sentimos falta de mais histórias, mas conseguimos sair disso satisfeitos, curiosos e reflexivos é porque deu certo. O tempo do filme nos deixa sofrendo nos momentos finais, esperando que Laura, agora independentemente de que idade venha a ter, continue circulando por aí e nos trazendo um pouco mais da intimidade que tem com o mar, de encontrar aí sua casa e de ter a coragem para abandonar todo o resto e nos fazer pensar se a forma como vivemos é a que realmente queremos viver.
Maidentrip é um desses achados maravilhosos do Netflix. Está lá e você pode passar por ele diversas vezes como fiz e não dar trela para esta garota da capa. Confie, se uma menina de 14 anos resolveu viajar o mundo sozinha num barco e saiu ilesa, ela tem algo pra te contar.
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Lançado nos cinemas semana passada, Que horas ela volta chegou fazendo barulho por duas razões principais: a qualidade inquestionável do filme e a polêmica em torno do debate com a diretora Anna Muylaert após exibição em Recife. O mais interessante é que foi justamente por ser bom que todo o resto aconteceu.

O filme conta a história de Val (Regina Casé), uma empregada doméstica pernambucana que trabalha para uma família de classe alta em São Paulo. Há anos no serviço, Val mora onde trabalha, recebe a notícia de que sua filha Jéssica (Camila Márdila) irá à cidade prestar o vestibular e sua chegada rompe com o equilíbrio da casa. O filme promove um retrato fiel não apenas da classe alta, como um recorte amplificado das diferenças sociais e a delicada relação entre patrão e empregado. Frases como você é como se fosse da família são utilizadas de forma inócua, sem se perceber um preconceito gritante no quase, além de ser uma mentira descabida. Enquanto não há Jéssica, há o afeto maternal de Val com Fabinho (Michel Joelsas), filho adolescente da família que também fará a prova, o ciúme interesseiro da mãe Bárbara (Karine Teles) e o pai bon vivant (Lourenço Muterelli) que espera a vida passar, já que vive de renda e não tem muito o que fazer.
A posição da mulher aqui é vista sob diversas óticas – faz lembrar imediatamente o também bom Casa Grande (Fellipe Barbosa, 2015), onde as relações de trabalho se confundem com um senso de superioridade explicado na diferença de classe. Aqui vemos uma mulher que receberá a filha que vem do Nordeste, sempre estigmatizado pelos sudestinos educados. Jéssica, ao contrário do que se espera, é letrada, impetuosa e com um caráter contestador, se surpreende e se incomoda com a submissão confundida na obediência da mãe na casa. Ela representa a quebra de paradigma, o esforço de alavancar a vida com o próprio suor e os estereótipos aqui muito bem construídos dos arquétipos nacionais não são gratuitos, mas representações de uma realidade que não é novidade para ninguém. Bárbara, cujo nome não poderia ser melhor, age brutalmente e expõe uma franqueza que nos envergonha, o comportamento de tantos que conhecemos bem.

Val é maravilhosa, porque se descobre em transformação a partir dos novos conflitos. As duas, num dueto orgânico, escancaram suas verdades e segredos, que a distância da sobrevivência impediu a convivência nos primeiros anos de mãe e filha. Val é aquela que sai da cidade em busca de trabalho, em prol de uma qualidade de vida para os seus, como o herói que sai para a aventura com uma missão cujo fracasso é imponderável. Ao mesmo tempo, ao reconhecer o tratamento familiar que recebia como uma esmola de afeição que ninguém pede, mas  aceita como um hábito ruim, mais uma vez se prova dona de seu destino e reconhece uma saída para ela e a filha. Regina Casé incorpora a personagem como se fizesse parte de si, da mesma forma que Camila Márdila, uma atriz jovem, traz maturidade de interpretação singular. As duas acabam de dividir o prêmio de melhor atriz em Sundance.
E então, aconteceu o debate com Anna Muylaert após a exibição e os cineastas Cláudio Assis (Amarelo Manga) e Lírio Ferreira (Sangue Azul), alcoolizados, não permitiram que se continuasse a conversa. A situação foi tão gritante que virou notícia. O ponto do machismo se fez presente, ao tempo que um filme cujo foco está na mulher, dirigido por outra que é interrompida continuamente por outros igualmente talentosos, mas que não estão naquele palanque. A necessidade de chamar a atenção e estragar o evento não esbanja outra razão que não aquela de ocupar um panteão que não lhes pertence. É necessário dar o tempo e espaço devidos à mulher, especialmente quando já são dela. Para quem discorde da visão machista, uma das observações de Assis foi sobre a protagonista estar acima do peso – numa clara atitude preconceituosa não apenas com o gênero, mas com a imagem, reduzindo uma grande atuação a um aspecto físico insignificante.

Após a repercussão vieram pedidos de desculpas dos dois, bem como a decisão da Fundação Joaquim Nabuco de proibir por um ano a exibição de trabalhos e presença dos dois diretores na instituição. Mais uma vez Cláudio Assis se fez presente em sua retratação, não apenas assumindo o que lhe é devido, mas invertendo a discussão ao se colocar como alguém sendo atacado por pessoas caretas – o termo que define os conservadores também define em grande parte o machismo, ironia maior não há. Talvez o comportamento destes diretores não tenha sido conscientemente para atrapalhar o evento, mas é um fato estabelecido que a provocação reafirmou a velha cartilha do comportamento brasileiro em que o homem tem que estar à frente – ainda que pra isso precise atropelar quem estiver passando ou, simplesmente, calar a mulher que fala. Que horas ela volta? desbancou os eleitos a concorrer à vaga para o Oscar 2016. Todos os filmes eram de diretores homens.
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Amor é um filme francês de 2013 que levou não sei quantos prêmios para casa e é uma das produções que fala mais honestamente sobre o sentimento, levado até o fim e extremo do que se espera dele. É um filme duro e difícil, mas ao mesmo tempo, terno, honesto, amoroso. Dói assistir.


Amor (Love 3D) é também o novo filme de Gaspar Noé que causou comoção em Cannes esse ano, agora em 3D. Polêmico como o outro, mas tendo no sentimento um olhar singular, o diretor buscou expô-lo através do sexo, porque essa conjugação produz a melhor sensação que se pode ter na vida, de acordo com seus personagens. Gaspar Noé é o criador também de Irreversível (2002), um filme de desespero e ódio de um homem que busca vingar a mulher estuprada. Tenso até o fim, violento e brutal, esse nos deixa sem piscar e nos provoca não sei quantos sentimentos.

Love 3D é um filme jovem. A história é sobre Murphy (Karl Glusman), entre seus 20 e tantos anos que recebe uma mensagem de voz da ex-sogra preocupada com a filha Electra (Aomi Muyock), de quem não tem notícias há 2 meses. A garota, após terminar o intenso relacionamento com o protagonista, pede que lhe deixe para sempre. Em sua casa, Murphy vive com o filho e Omi (Klara Kristin), a mulher que engravidou, enquanto vivia com Electra. Agora, Murphy relembra todo o relacionamento que teve com aquela que ainda ama e de quem hoje nada sabe.


O filme tem algumas considerações que tentam sustentar a trama, como o mito de Electra (ou o complexo de Édipo para a mulher) e Murphy com sua lei. Electra deixa claro sua posição com relação ao pai ao não querer apresentar o novo namorado, pois este não seria bom o suficiente e ela não queria passar a informação de um relacionamento com outro homem que não seu progenitor. Murphy então, literalmente nos abre a revelação que funciona apenas como um aposto à história, já que não é utilizada para nada mais que não a construção de uma personagem complicada, intensa e em formação, indicando que de fato há uma questão amorosa e complexa na relação de pai e filha, com e para Electra – que não nega e tampouco desenvolve o assunto no decorrer do filme. 

Murphy, por sua vez, é o reflexo da lei criada pelo dono do nome no fim dos anos 40 – quando se diz que se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará. Então, ele sofre com a ausência de Electra e a possibilidade de algo muito ruim ter lhe acontecido, devido ao seu caráter errante e descontrolado.

Uma história simples, sem grandes atores – talvez a que se destaque seja exatamente aquela que não vive mais ali – cuja polêmica é percebida pela quantidade de cenas de sexo explícito e em 3D na tela. O que no início pode nos deixar excitados como um filme pornô com grande fotografia e corpos lindos, nos anestesia gradualmente e toda a força das cenas perde impacto. 

Conhecendo Gaspar Noé, é clara a intenção de perturbar a plateia sempre que possível e essas cenas nos provocam em grande escala, desde o estímulo visual que aquece o sangue a um escândalo de violência como o filme anterior que nos leva na direção oposta, do asco e horror. Ao mesmo tempo, as cenas onde a intimidade surge – não falando de sexo aqui – são as mais bonitas e interessantes, que ajudam a construir o relacionamento deles como algo plausível que tenta corroborar aquele amor. Aqui sim, há a grande beleza, nos silêncios compartilhados, no companheirismo, no que há de extraordinário do convívio cotidiano – pena que não há um equilíbrio entre os dois pólos para trazer mais interesse e estrutura à trama.

Talvez o filme valha a pena para saciar nossa curiosidade na feitura das cenas de intimidade, pela beleza e sinceridade com que se apresentam e foram feitas – é sexo, é explícito e é 3D. Por outro lado, a ausência de aprofundamento e a longa duração, nos tiram um pouco desse prazer voyeur e quase entediam.


Talvez seja esse o ponto, então. Talvez a ideia seja essa mesmo de praticarmos juntos a experiência pura do cinema, traduzindo seu objeto de desejo primeiro – a satisfação do olhar – da forma mais conhecida que é a curiosidade pela volúpia, aqui traduzida literalmente neste voyeurismo de um filme erótico – quase uma redundância metafórica para os cinéfilos. Juntos numa sala de cinema – por sorte a minha estava vazia – haverá uma mistura de sensações, desde o acanhamento ao sentar-se ao lado de um desconhecido, até um prazer compartilhado que será manifestado no íntimo de cada espectador – um duplo do erótico pelo erótico e o prazer sentido como uma experiência compartilhada. Será sempre numa sala de arte, para um público específico – ou curioso simplesmente – e de fato, interessante. Os desavisados sairão da sala. 

Não fosse longo demais, talvez assistisse novamente neste contexto e observaria os olhares às primeiras cenas, enquanto ainda estamos atentos e animados. O fato é que a justificativa da obra – de que deveríamos ver mais sobre amor e sexo da forma como acontecem na vida real, ao invés de reforçar uma grande história, traz exatamente o oposto: apenas uma desculpa para trazer sexo bem filmado aos cinemas. Fosse um pouco mais desenvolvido narrativamente como o Amor anterior - de poucas palavras - ganharia nas discussões polêmicas que não se voltam apenas para a questão sexual, mas para a franqueza da intimidade tratada realisticamente numa tela grande.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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