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Café: extra-forte

Comecei a prestar atenção no trabalho de Susanne Bier a partir de Em um mundo melhor, de 2010 que levou o Oscar de Filme Estrangeiro. O filme contava a história de um médico europeu em missão na África que precisava decidir se salvaria a vida de um ditador desses que trucida mulheres em todos os níveis e assassina a oposição. Em paralelo, mistura-se o profissional e o privado, à medida que sua família desmorona no outro continente com uma crise conjugal e um filho adolescente que se torna amigo de um garoto problemático. A obra consegue nos tornar permeáveis ao que se passa e nos colocamos na posição do protagonista – e aí a coisa muda de figura e entendemos porque além do Oscar, levou o Globo de Ouro e outros 10 prêmios pelo mundo.

Antes disso, em 2007, mas com menos impacto, ela já tinha feito Coisas que perdemos pelo caminho sobre o luto e a reconstrução da vida – também com uma questão a ser resolvida aqui. O filme bom, com atuações impressionantes de Benício Del Toro e Halle Berry já identificava o tema das perdas em nossas vidas – mas não havia me chamado à atenção para a direção.
Este ano estreou Segunda chance. Outro dilema moral, aqui a história está centrada no policial Andreas (Nikolaj Coster-Waldau – Jamie Lannister, de Game of Thrones), casado, que de repente encontra seu filho de um ano morto em casa. Em desespero ao ver sua mulher Anna (Maria Bonnevie, de Reconstrução de um Amor) em uma crise irreversível, revisita a casa onde havia feito uma batida policial e cuidara de um bebê com sinais de maus tratos, deixa o corpo de seu filho e pega a criança viva, acreditando que o casal viciado em drogas entenderá que o bebê morreu de alguma forma e que eles não teriam condições de salvá-lo. Esse é o trailer de um filme que nos deixará tensos até o último minuto.

O que parece o início de uma trajetória difícil é só a ponta do iceberg de um dilema moral em que, novamente, a diretora consegue nos atingir fundo. Sofremos com Andreas e Anna – entre o luto e a aceitação de uma segunda chance de felicidade – se é que existe a possibilidade, sofremos com Sanne (a modelo-agora atriz, May Andersen), mãe da criança que insiste em dizer que aquele cadáver não é seu de filho, e só não sofremos com Tristan (Nikolaj Lie Kaas, também de Reconstrução de um Amor) porque ele realmente é um cara complicado e garante algum humor ácido. Com um elenco estelar do cinema dinamarquês e uma tensão que não nos permite piscar, não sabemos o que esperar do final de uma história tão intensa.

Uma amiga escreveu sobre o filme tratando da dramaticidade da história, de como as perdas e o tema forte pesaram nela. Para mim e também para Camila – a comadre das sessões semanais de cinema – a percepção foi outra: o roteiro é tão bem construído e a diretora já tem em si o olhar de mostrar a vida como ela é ao invés de criar uma trilha sonora e construção de cenas que enfatizassem a lá novela a trama e o drama, que a ânsia era em ver o desfecho e entender – como consegui minutos antes da dissolução – como a história se fecharia. E saímos satisfeitas – se a palavra for essa e perplexas com o que vimos.

Além da estrutura narrativa ter seu peso comprovado em atuações impecáveis – como ver os olhares de pânico e choque de Maria Bonnevie se transformando, o desespero do personagem Andreas e até a relação que mantém com o veterano Ulrich Thomsen (Em um mundo melhor) como Simon, seu amigo e colega de trabalho que também convive com seus demônios, a fotografia e as locações reforçam a obra. É interessante entender o contexto cultural – é quase bizarro ver a mãe levando o filho que chorava em passeios noturnos para acalmá-lo. Ela caminhava de sua casa – num bairro deserto – tarde da noite, levando o filho num carrinho de bebê no acostamento das ruas na tranquilidade de um domingo no parque. Só em ver a cena, o público brasileiro já imagina que alguma tragédia acontecerá, mas não: é o dia-a-dia de uma cidade muito mais segura do que as nossas. A própria residência – cujas luzes da fachada reforçavam a delicadeza da fotografia – ressaltavam o afastamento do centro urbano. A ideia era deixá-los isolados, evidenciando tanto uma necessidade de se manter a paz e felicidade familiares (ou até o desespero nas cenas seguintes), como uma vida perfeita em oposição ao apartamento entulhado, sujo e desorganizado do casal ‘bandido’. 

Lançado internacionalmente ano passado, resta saber se terá fôlego para mais alguma premiação além do título em San Sebastian e outras quatro indicações. De qualquer forma, este tem o mesmo peso de Em um mundo melhor e ainda deixou a vontade de ver o restante da filmografia da diretora. A certeza da evolução estética e narrativa é um fato, nos dando a quase certeza de que bons filmes dessa diretora nos aguardam.
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Comecei a levar o cinema a sério quando era adolescente. Na verdade, não sei se foi sem querer ou que tipo de vocação e indicações me apareciam, mas assistia tudo o que me apresentavam e comecei a prestar mais atenção nos filmes diferentes. Acho que é uma curiosidade insaciável de viver tudo e conhecer tudo e os filmes são um grande facilitador, como uma janela para vários mundos e experiências.


I love to fly. It's just you're alone, there's peace and quiet, nothing around you but clear blue sky. No one to hassle you. No one to tell you where to go or what to do. The only bad part about flying is having to come back down to the fuckin' world.
Rat.


Então, meio sem saber direito o porquê e acho que na mesma época, assisti Kids (1995), Christiane F. (1981), Diário de um Adolescente (1995) e Laura Palmer (1992). Todos causaram impacto absurdo, mas acho que Kids me aterrorizou mais, porque parecia mais próximo. Na época lembro que não tinha gostado muito, acho que não tinha compreendido direito e fiquei com uma impressão de que aquilo tudo era um exagero, um filme sem necessidade. Mas, na verdade, estava realmente assustada. 

Aqueles jovens de classe média, vivendo na rua, usando drogas e se entregando a riscos e descaso em meio às descobertas de si e do mundo era algo que me deixava perplexa, porque eles também eram adolescentes e ainda tinha uma protagonista tão inocente quanto eu, mas menos medrosa – e talvez eu me visse nela. A narrativa, que parecia acompanhar um grupo real de jovens, tirava a tinta da fantasia e nos deixava a todos, os de verdade e os da ficção, no mesmo mundo.

Christiane F. e Diário de um Adolescente mesmo sendo bastante diferentes, tinham uma roupagem que me deixava mais distante deles. Não tinha amigos que usavam as drogas, a própria Christiane F. era viciada em heroína e eu nem sabia direito o que era. Na minha adolescência, o máximo que se ouvia falar era de um vizinho mais velho da rua da casa de meus avós que fumava maconha e isso era quase um sinônimo de “pessoa muito assustadora, nunca fale com ele”. Então, ainda que estes filmes trouxessem histórias tristes e difíceis, especialmente Christiane, por ser baseado em uma história real, era mais um aprendizado do que algo que assustasse de fato. 

Por fim, Laura Palmer, meu primeiro David Lynch. Como vinha de um seriado cuja existência eu desconhecia, entrei no meio da história dessa adolescente que buscava uma diversão mais arriscada numa cidade pequena e muito bizarra. Na verdade, exceto pela questão da prostituição e das fantasias – não era um filme permitido para menores – senti uma atração absurda por aquela forma de direção, a bizarrice surrealista, um humor macabro e uma trilha sonora e fotografia sedutoras me ganharam e nunca mais fui a mesma. Mas esse é o mais distante dos três outros.


Este mês morreu Mary Ellen Mark, uma grande fotógrafa americana desconhecida pra mim. Depois de começar a estudar fotografia, um dos meus interesses é conhecer o trabalho dos ícones pela mesma razão que vejo filmes de tudo quanto é canto. Assim, fiquei feliz de não conhecê-la ainda e depois um pouco triste dela ter morrido. Descobri que tinha produzido um documentário em 1984 e que seu marido o dirigiu, Streetwise. 

Sem saber nada sobre, fui atrás - o filme tinha alguma grande referência onde buscava e vi que algo importante tinha ali. Até parei de pesquisar as incríveis fotografias e o encontrei completo na internet.  Semana passada, Kids, Christiane F., Laura Palmer, Diário de um Adolescente e até Taxi Driver vieram juntos  e de vez em mim, com esse filme impecável.

E implacável. Streetwise conta a história de um grupo de adolescentes que vive nas ruas de Seattle e sua rotina consiste em drogas, furtos, prostituição, sobrevivência, mendicância, violência e algum carinho, amor e cuidado. Eles estão ali um pouco por opção, por virem de famílias desestruturadas, por achar que aquele é o melhor ou único meio que têm ou por uma conclusão que varie das anteriores. O filme é feito nos moldes do cinema direto, acompanhando a vida de 9 personagens, quase sem intervenção. 

Ao mesmo tempo, há momentos de depoimentos que se intercalam com a rotina, mas quase não se ouvem perguntas, tampouco se vê o câmera ou o diretor. Ficamos perplexos com a franqueza daqueles jovens subnutridos de feições infantis e discurso firmado em um presente que nos deixa sem esperança ou até 'permissão' de imaginar qualquer tipo de futuro.

A protagonista é Tiny (Erin Blackwell) uma prostituta de 14 anos – e incomoda muito descrevê-la assim. Sua mãe alcoólatra acredita que a jovem está passando por uma fase e aceita sua escolha, como se todos vivêssemos em um mundo de contrários, onde a distorção é regra. Tiny nos conta, com uma consciência tranquila e precoce, como costuma se dar bem nas ruas, porque muitos homens têm taras em meninas muito novas, ou como quando anuncia para mãe a possibilidade de estar grávida. Ao mesmo tempo que segura essa independência familiar, mantém um relacionamento amoroso com Rat, outro garoto da mesma idade que nos conta como ela já quer se casar sendo tão jovem. 

Essa sinceridade permeia todos os personagens; não há vergonha em falar de si, de como se vive, do que se faz. Ficamos nos perguntando se tudo isso não faz parte de uma encenação deles mesmos, como uma defesa quando se provoca alguém ou simplesmente ao ligar a câmera, mas não. A consistência e o credo no que dizem e vivem confirmam cada sentença.


O filme foi feito com o intuito de evidenciar que até em Seattle – considerada na época uma das melhores cidades americanas para viver – existia crianças e adolescentes que sobreviviam nas ruas. Kids veio direto à mente nos primeiros 5 minutos, talvez pela displicência com que vivem, transmitindo um realismo angustiante, muito pior que a ficção. Em Taxi Driver, é impossível  não relacionar a personagem de Jodie Foster a Tiny, ainda que pareça ser mera coincidência.

Imprescindível para quem estuda e gosta de documentários, o modelo do cinema direto é marcado sempre por registrar a situação com uma interferência clara – não se quer esconder que é um filme – mas que busca o registro sem interromper ou propor conclusões precipitadas. Estas acabam partindo de nós, espectadores. E ali, naqueles 9 personagens de uma história sem final (feliz, aparentemente), vemos um pouco de tudo o que acontece com muitos jovens em qualquer lugar do mundo em 1984, antes, hoje e amanhã. 

São como uma eterna uma geração marginal sem futuro, vivendo somente do agora. Não são inocentes, na medida em que podem tentar reverter suas vidas, mas são também inocentes, quando encontram ali sua razão de sobrevivência. Assassinatos, prostituição, suicídio, gravidez, dsts, violência, assaltos. E são tão crianças que não sabemos o que sentir, diante de uma falsa esperteza, uma malandragem ingênua que em uma confusão de sentimentos, percebemos mais pena do que raiva.

Streetwise é também um livro de fotografias de 1988 e Tiny teve sua vida acompanhada nos anos seguintes. Em 2005 Martin Bell e Mary Ellen Mark fizeram um curta de resgate sobre ela. Hoje, Erin Blackwell não é tiny, mas uma mãe de 10 filhos de diversos pais, casada. Streetwise ganhará uma sequência, com financiamento no kickstarter e em breve saberemos o futuro destes ex-jovens à margem, tendo certeza que destes, pelo menos 3 morreram ainda nos anos 80. Que Mary Ellen descanse em paz, sou grata por ter lhe descoberto, um pouco triste e eterna fã. 
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Este foi provavelmente o filme mais impactante do É Tudo Verdade desse ano. Arrisco a afirmação quase como certeza, já que os 43 prêmios – incluindo o Oscar – e 16 outras indicações parecem concordar. Não que um filme precise de atestados de qualidade, mas Cidadão Quatro vai muito além de um documentário sobre espionagem.

O choque vem em grande parte do próprio tema: descobrimos que os Estados Unidos e mais alguns países, investigam cada espirro que qualquer pessoa no globo dá. Eles sabem o exato momento e local. O que de antemão não parece grandes coisas e uma teoria da conspiração já teria certeza disso há muito tempo, tem implicações maiores. Como o protagonista e principal agente da alegação reflete, o problema não está na simples invasão de privacidade, mas no que ela acarreta – em termos de violação da intimidade, diferenças de opinião, negociações entre grandes empresas, articulações políticas. Pensando de forma ampla: como você se sente livre, sabendo que um governo retem todas as informações a seu respeito? O quão à vontade você fica para se opor a ele, por exemplo? Para se manifestar contrário a qualquer conceito que a maioria apoie? O assunto aqui não é só sobre que sites você visita escondido na internet.

O que Edward Joseph Snowden, com então 29 anos, americano, morando no Havaí com uma conta bancária recheada, um trabalho exclusivo e uma namorada queria ao arriscar tudo em prol de nossa liberdade de restringir nossa privacidade a quem nos interessa? Talvez ele tenha percebido o alcance de seu trabalho, um prestador de serviços de alto escalão para a Agência Nacional de Segurança, com acesso irrestrito à vida privada de qualquer pessoa. De certa forma, o próprio Facebook já fornece boa parte das informações sobre nossas vidas – ou melhor, nós fazemos isso através dele – mas a permissão não dada a um governo de ter acesso indiscriminado a essas informações é a grande questão. Snowden conclui que o povo americano – e consequentemente todo o planeta – deveria pelo menos, saber o que está acontecendo com seus dados e opinar se deseja divulgá-los a quem quer que seja por quaisquer que sejam as razões. Então, ele viaja para Hong Kong em sigilo e aguarda Laura Poitras – a diretora do filme – e Glenn Greenwald – jornalista do The Guardian, para as entrevistas que mudarão as vidas de todos nós.

De acordo com a filmografia da diretora e informações no filme, Cidadão Quatro é o terceiro filme da trilogia que a diretora fez sobre o Onze de Setembro (de 2001). Os outros filmes não chegaram aqui, mas por sinopse e estética do atual, notamos que busca no Cinema Direto uma aproximação de linguagem. Assim, vemos em tempo real as afirmações e acontecimentos quando da entrevista de Snowden e as repercussões na mídia, na vida de cada um envolvido no escândalo. Tememos por todos, eles se tornaram não ingenuamente os propagadores das verdades inconvenientes sobre os grandes sistemas secretos de vigilância do governo e sociedade mais paranoicos que existem. Essa tensão provocada diante das perseguições, possíveis ameaças, fuga de Snowden para lugares mais seguros, tentativas frustradas de exílio, perda de contato entre eles, nos deixa com os olhos grudados na tela em um suspense sem fim, digno do melhor Hitchcock. E é essa a grande sacada do filme: se formos pensar bem, já conhecemos e a história – é de 2013. Mas, independente de quando aconteceu, o filme consegue nos manter numa tensão como se fossem notícias de ontem ou de meia hora atrás. A graça do Cinema Direto é justamente essa: o retrato de uma situação presente, suas consequências, seu desenvolvimento. Não há reconstituições, imagens de arquivo retratando um passado, nada disso. Sofremos por imaginar uma potencial catástrofe na vida de nossos heróis, imaginamos o alcance da espionagem na vida de todas as pessoas, pensamos em nossa própria, no que queremos proteger e divulgar e, por fim, nos sentimos indefesos, diante da certeza de que tudo o que é nosso, agora pode ser de todo mundo.

A diretora aprofunda e dá um contexto ao presente: intercala as entrevistas e repercussões da delação de Snowden com entrevistas de Obama e outros funcionários da Agência, filmagens dos “centros de investigação”, as distâncias obrigatórias criadas entre eles e um final impressionante que nos deixa ainda mais curiosos e instigados a continuar ali, aguardando a sequencia deste Cidadão. Saí com a impressão de que era uma ficção, ao ver uma história tão bem construída, de como surpreendente e invasivo era aquilo tudo e de que parecia realmente uma versão inteligente, realista e apurada de um filme de espião. Agora é torcer para consequências menos drásticas a estes que já tiveram suas vidas alteradas em definitivo e esperar passarmos despercebidos por mais essa malha fina - agora do neurótico governo gringo imperialista.

Título Original: Citizen Four
Diretora: Laura Poitras
2014 EUA / Alemanha / Reino Unido
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cinema-documentario
É Tudo Verdade | Festival Internacional de Cinema Documentário 2015

Essa semana, em São Paulo e no Rio de Janeiro acontece a vigésima edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. Dirigido e idealizado por Amir Labaki, o evento se consagrou como um dos mais importantes termômetros para avaliar as produções do gênero no mundo. Entre os destaques, uma mostra ao homenageado e incansável Vladimir Carvalho, um filme de seu irmão, fotógrafo e cineasta Walter Carvalho, a estreia do último filme de
Eduardo Coutinho, Últimas Conversas e um panorama do que acontece no mundo e no Brasil em mostras competitivas de curtas e longas, bem como outras retrospectivas que homenageiam o gênero nesses 20 anos e seminários. Ontem, estivemos em duas sessões: Competitiva Internacional de Curtas e o longa nacional Sete Visitas, de Douglas Duarte. Como sempre, ficou claro que ainda há muito para ver até o dia 19 de abril e a mostra de curtas abriu o apetite e deixou a vontade de passar a semana inteira nos cinemas. O É Tudo Verdade é gratuito, acontece essa semana e na próxima em São Paulo e no Rio de Janeiro, seguindo depois para Belo Horizonte, Santos e Brasília. Mais informações sobre programação e salas do circuito em www.etudoverdade.com.br
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Essa semana é o início do fim de uma era. Como anunciada pela própria AMC, detentora dos direitos de exibição de Mad Men nos Estados Unidos, uma das maiores séries de todos os tempos chega ao fim. E não é daqueles finais de mentira, em que ano que vem mudam de ideia e produzem mais uma temporada. Essa termina mesmo. Mas por que uma série sobre os homens das agências de publicidade nos anos 60 em Nova York faria tanto sucesso agora?

Don Draper (John Hamm) é o diretor criativo da Sterling Cooper, uma agência de publicidade de Manhattan. Casado, família feliz no subúrbio e mulher perfeita, é o padrão do homem de negócios que vive uma vida dupla, com suas liberdades na cidade e o conforto de um lar sempre bem arrumado e disponível para lhe atender. Betty Draper (January Jones) é sua mulher, uma ex-modelo que largou a iniciante carreira para se casar com o homem dos sonhos. Ansiosa e começando a ter ataques de pânico, ficamos surpresos de já perceber uma complexidade em uma personagem que não parecia ser tão importante na trama. Ledo engano.

De volta ao escritório, Joan Harris (Christina Hendricks) é a responsável por todas as secretárias e é meio o departamento pessoal da empresa. Ela é quem direciona, ordena, educa as novas moças, para que atendam às necessidades de seus chefes mimados. Percebemos nela um poder feminino – além de uma beleza estonteante – utilizado de forma brilhante e às vezes ingênua, à medida do que era possível na época. É ela quem recebe Peggy Olson (Elisabeth Moss), a nova secretária de Don que chega no primeiro episódio e se torna uma das protagonistas da série. Ainda estranha em uma terra estranha, Peggy é assediada por todos os jovens executivos – assédio não era um problema na época – entretanto, ela inverte o jogo: casamento não é a carreira que busca ali dentro.

Roger Sterling (John Slattery) é um dos sócios da agência que, junto com seu mentor, Bert Cooper (Robert Morse), fazem a magia acontecer no encontro com os clientes. Como qualquer agência de publicidade em qualquer lugar e época, essa também é repleta de jovens vivendo seus vinte anos buscando glamour, cheios de ambições, hormônios e ansiedades, sempre à flor da pele. Mas a série ainda vai além desse ecossistema, do envolvimento de clientes e campanhas e outros grandes personagens: Don é como um Dr. House, um gênio criativo que promove soluções surpreendentes ao custo de uma personalidade forte, sedutora e difícil. Encantador de mulheres e destruidor de corações guarda insegurança e mistério latentes, que desvendaremos aos poucos.

Se no início da série entramos nos anos 60, esses mad men – como a série indica, termo criado por publicitários para definir publicitários – viviam uma vida de estabilidade e segurança da década anterior. Em casa, a paz de uma família com funções definidas e liberdades cerceadas. Em Manhattan, tudo o que o dinheiro e o poder podem lhes oferecer. A grande sacada é a década em que tudo se passa. Os anos 60 são um dos pilares da revolução cultural mundial e em Nova York isso é demonstrado gradual e inteligentemente. Vemos o comportamento feminino se transformando, personagens conquistando seus espaços e revendo seus próprios conceitos, liberdades sendo concedidas, divórcio, aborto, o rock’n roll, as danças, a bebida. Isso apenas em comportamento. Historicamente, ainda mais: o crescimento da televisão nos lares e como a própria publicidade se transforma e ganha espaço para além dos impressos, Nixon, todos os Kennedys em suas tragédias, Martin Luther King, Muhamad Ali (então, Cassius Clay), Vietnã, homem à Lua, mísseis em Cuba, Beatles, Bob Dylan, Stones. É um momento revolucionário no sentido pleno da palavra e que se aplicou em todos os aspectos da sociedade de então. Onde mais isso se veria de forma tão gritante e explícita se não numa agência fomentadora de tendências e ideias, vendendo produtos que atendam a esses novos comportamentos, desejos e modismos?

A série, exibida no Brasil pela HBO, seduz logo na primeira temporada, apresentando os personagens em diálogos rápidos, inteligentes, cheios de segundas intenções e subentendidos em trocas de olhares e muitos, muitos cigarros e doses de uísque. A vida desses homens e mulheres dentro da agência em disputas de poder e vaidade é alimentada pelas relações fora dela: os casos extraconjugais, as crises daí decorrentes, seus núcleos familiares. É uma trama intricada de base simples, sua narrativa vai se amarrando à medida que seus personagens deixam o primeiro perfil que apreendemos e se tornam mais complexos, reduzindo  estereótipos e lhes enriquecendo de humanidade.
Com uma fotografia trabalhada de forma a mostrar a arquitetura, a decoração e planos que complementavam o olhar de cada protagonista em cena, com uma direção de arte impecável, figurino e a própria forma de se travarem os diálogos marcando firmemente a geração e suas transformações, Mad Men arrebatou 93 premiações (incluindo 4 Globos de Ouro e 4 Emmys) e 271 indicações em todas as categorias possíveis.  A série de Matthew Weiner (um dos criadores de Os Sopranos) estreou em 2007 nos Estados Unidos e é sucesso absoluto. Ela, não apenas faz uma contextualização histórica muito fiel, trazendo um cotidiano de comportamento e mídia, como transcende a narrativa de base – estamos diante de um drama sobre pessoas e suas relações diante de um novo mundo que se descortina em uma década única. A conheci há pouco tempo e só não me arrependo mais pelo atraso, porque consegui ver todas as temporadas sem esperar em agonia. Até agora.
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Saí de Força Maior com uma sensação estranha. Fui assistir com uma amiga e conversamos na saída, como sempre. Minhas respostas eram evasivas, fazia tempo que não via algo que me deixasse numa nebulosa, quase sem conseguir digerir ou entender plenamente. Não é um filme difícil. Você consegue sentar e assistir, compreender a história, as falas, interpretações, fotografia, tudo. A percepção acontece e já dá pra dizer se teve algum impacto em você ou não, logo de cara. É aquela velha história de que uma obra de arte se define pela impressão que causa em quem a vive – é tudo sempre sobre emoção. Sem ela, não é arte.

Força Maior conta a história de uma jovem família sueca que resolve passar uma semana nos Alpes franceses esquiando. De classe média alta, os pais na casa dos 30 anos e com filhos pré-adolescentes aproveitam a estação de esqui de luxo. São quase como um comercial de margarina, perfeitos, bonitos, felizes. Durante um almoço, presenciam uma avalanche próxima ao restaurante e o pânico de um grave acidente será a válvula de escape para uma transformação desse núcleo familiar.


Quais são nossos papeis na vida? Como nos definimos? Que funções devemos preencher nos formulários? Hoje o meu teria ‘solteira’ e ‘sem filhos’. Minhas obrigações são basicamente comigo e com aqueles por quem tenho apreço, mas nenhum deles depende de mim ou do que provejo para viver. Minha família – irmã, pais, etc – é autogerida e cada um responde por si. Somos todos maiores e eu sou a caçula – não que signifique muito quando se é adulto, mas ainda assim, de alguma forma, entendemos e cuidamos, cumprimos com a manutenção dessa estrutura na medida do possível.

Proteção, segurança, cuidado, carinho, amor, atenção. São as palavras definidoras de relacionamentos, mas não são garantia de futuro ou efetividade em qualquer circunstância. O que você faria se vivesse uma situação de perigo iminente? De catástrofe natural? De acidente de avião? Colocaria a máscara em você primeiro – aliás, como manda o regulamento – ou defenderia seu ente mais amado antes? Ninguém sabe essas respostas. A maioria vai dizer que protegeria o outro. E como isso nos define – de verdade? Como nós nos julgaríamos se não respondêssemos à altura do que prometemos um dia para alguém – até para nós mesmos, diante de um inesperado e aterrorizante presente? O que significa não atender a essas expectativas? Acredito que somos um conjunto de percepções, impossíveis de definir como um padrão de comportamento baseado em situações de rotina e controle. Diante do inesperado, talvez uma resposta diferente não deva ser julgada como inaceitável. Mas – ao mesmo tempo – é impossível não pensar nisso.


O filme faz isso de forma brilhante. Vencedor de 29 prêmios com outras 25 indicações, em duas horas e muito humor mordaz, ficamos perdidos entre que sentimentos devemos ter diante do que vemos. Sem entrar em detalhes – porque esse filme deve ser contado o mínimo possível – compreendemos a reação da mãe, entendemos o pai, até porque o filme prima por fugir daquele maniqueísmo barato e até as reações dos personagens secundários, seus amigos, são interessantes. O filme ainda vai muito além: nos põe em xeque, faz a velha questão do ‘se fosse comigo’ e por isso saí sem conseguir dizer muita coisa. Para o público brasileiro, a atuação às vezes seca e cheia de silêncios nos traz a certeza de que é algo diferente que se passa ali, além de culturalmente estarmos distantes. 

Robert Östlund, o diretor com 3 longas de ficção no currículo e alguns documentários, indica que não precisa mais do que isso para fazer uma grande obra. A maturidade da montagem e a trilha imponente nos preparam para um suspense que não nos deixa respirar - e esse nem é o foco do filme. A cada dia de esqui a agonia aumenta, não sabemos se aguentaremos viver aquele desconforto, e ao mesmo tempo é impossível piscar – morbidamente precisamos ver até onde eles serão capazes de ir e rimos quase nervosos a cada sequência. A fotografia, que me incomodou um pouco no início com a grandiosidade do branco e quase estoura tudo em nossa frente, faz isso intencionalmente para nos mostrar que toda essa claridade não significa – de forma alguma – transparência, e aí se torna maravilhosa. Da mesma forma, a ênfase no azul e tons frios dos figurinos, os planos familiares extremamente calculados simbolizam uma perfeição inútil daquele comercial lá citado – que só existe na superfície.

No fim das contas, não há papeis definidos. As famílias não são como as de 40 anos atrás, pré-moldadas em parâmetros fixos numa rotina de dependência emocional e financeira. Mas, ainda sim são famílias, com suas funções primordiais – nas famílias ocidentais urbanas – voluntariamente estabelecidas. Hoje talvez tenhamos mais liberdade de definir quem somos, escolher nossos caminhos, mesmo que uma ruptura se torne um grande problema. O fato é que saí do filme lá atrás pensando e há um tempo passo aqui para dividir um pouco. Fico na certeza absoluta de que vou revê-lo, preciso reviver o humor ácido, os diálogos que parecem banais, mas representam uma grande e honesta sacada de como somos, de como devemos ser ou de como outros supõem que sejamos. É um programa indispensável, crítico e delicioso. 
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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