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Café: extra-forte

Filmes de volta no tempo tendem a ser pessimistas, como as ficções científicas ou até as comédias sobre crianças que querem ser adultos. Em Entre Nós somos levados por amigos de classe média alta, felizes e com vinte e poucos anos cheios de ideias e planos para o futuro. É nessa idade que criamos expectativas de carreira, relacionamentos, de vida. O que vem depois raramente chega perto do que se espera, ainda mais quando nossas decisões são graves o suficiente para impedir tantas realizações e alegrias.

O filme conta a história de um grupo de jovens aspirantes a escritores, que se reúne para passar férias numa casa de campo. O ano é 1992 e juntos decidem se escrever cartas e enterra-las para serem abertas depois de dez anos. Nesta viagem, dois deles sofrem um acidente e um morre, deixando um livro pronto enquanto o outro ainda estava escrevendo seu primeiro romance.
O mote usado não incomoda: o sobrevivente assume a autoria do livro que se torna um sucesso. Recentemente vimos outros com a mesma ideia, de Woody Allen Você vai conhecer o homem dos seus sonhos e As Palavras, com Bradley Cooper no elenco. Quando os amigos se reencontram para abrir as cartas, confrontam anos de um passado cheio de alegrias, mas que começou trágico. Os personagens amadurecidos e um tanto amargos pelo tempo se encaram para uma tarefa agora não tão prazerosa, afinal, cada um sabe o que se prometeu e as ideias de um futuro melhor ficaram apenas no papel. Não apenas isso, é uma década de transição política e econômica para o país. A alusão não é gratuita: os Morelli fizeram questão de pegar o período e enquadrar aí jovens que já estivessem em idade de analisar criticamente tanto suas vidas quanto o contexto.

Há alguns incômodos de roteiro e atuação; espera-se que o personagem de Caio Blat tome atitudes que não se concretizam, ficamos presos em cenas de suspense que se esvaziam com uma trilha sonora que se perde em ênfases gratuitas. Maria Ribeiro também deixa a desejar, como se estivesse sempre esperando seu momento – a impressão que nos passa é que ela não segue fluida, como Carolina Dieckmann. Esta surpreende juntamente com Paulo Vilhena nos dois momentos do filme, particularmente nas cenas de ‘2002’. Rodado quase todo em uma locação, participamos dos jogos de cena e das sequências de suspense e romances frustrados – ainda frágeis, mas boas tentativas – enriquecidas com uma trilha sonora oscilante, que ganha com Caetano Veloso, nostálgico e doce em Na asa do vento.


O drama é um diferencial nesse atual cinema brasileiro. O filme conseguiu sair da comédia escrachada televisiva e dos filmes violentos – mesmo com o carimbo Globo Filmes, o que pode ser uma abertura para novos olhares – vemos uma estrutura narrativa com cara de cinema, brasileiro, bem construído, com uma montagem que sustenta uma trama psicológica em que as ações estão mais concentradas em trocas de olhares, falas e silêncios. Ao mesmo tempo, a fotografia intensifica a tensão em planos fechados nos rostos dos atores, enquanto define o isolamento psicológico de cada personagem diante de uma paisagem explorada em planos abertos. Dirigido por Paulo Morelli – de Cidade dos Homens e Viva Voz – com co-direção de seu filho Pedro, esperamos que a partir deste possamos ver mais filmes ‘grandes’ menos televisivos em salas comerciais, que abordem temas e classes distintas das favelas e estereótipos do restante do país. O cinema brasileiro carrega uma gama considerável de bons filmes, mas por falta de recursos e apoio na distribuição, são vistos em festivais para tentar alcançar público e visibilidade e acabam em poucas semanas de circuito comercial. Com Entre Nós talvez ocorra diferente com o apelo dos atores, uma distribuição pesada e uma produção de qualidade. É esperar o público participar e perceber que podemos fazer filmes diferentes dos gêneros já estabelecidos no país.
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Uma pesquisa recente diz que checamos nossos telefones em média 100 vezes por dia.

Todos os dias ela acorda com o despertador do telefone. No tato, silencia o aparelho. Minutos depois, pega os óculos e checa o que pode haver mudado em menos de oito horas, porque sua noite não chega a tanto. Passa o dia com o aparelho por perto, recebe recados, tenta atender a todos. Trabalha em um computador e se divide entre tarefas longe dele, o celular, o telefone do trabalho. Em casa, vê televisão, programa o despertador, lê um pouco – quando ‘dá tempo’ – checa o aparelho pela última vez. Conversa com alguém e dorme. São sempre pessoas reais, ela se defende. Mas não há uma sequer, a seu lado. Dorme afogada em travesseiros.

Em Her, Theodore é um homem que mora sozinho e quase não tem vida social, exceto por um casal de vizinhos que visita ocasionalmente. É redator numa empresa que recebe encomendas para escrever cartas pessoais, de amor. Separado da mulher, seus dias funcionam ao redor de máquinas: celular, computador, videogame. Até que ele conhece Samantha, um sistema operacional novo que promete organizar sua vida virtual e acaba fazendo muito mais do que isso.

Nessa correria tecnológica, ela quase não tem tempo pra si, mas isso também parece mudar. Uma desconexão lenta e gradual parece acontecer com o cansaço das redes sociais, os mesmos assuntos, as mesmas pessoas, mesmas publicações. É tudo o mesmo, as diferenças e novidades do início de carreira no mundo virtual se foram. Hoje se conversa sobre o dia a dia, mantendo uma atualização dispensável e frívola. Voltou a ler, a correr, a tentar falar menos (e menos de si) nesses aparelhos e mais ao vivo, a cores e sobre outros assuntos. Theodore fez o caminho inverso. Ao se deparar com um tédio, a velha preguiça de quem é solteiro e tem por obrigação sair, conhecer pessoas, ter experiências para então não ser mais solteiro ou se divertir como um inveterado, encontra em casa um refúgio e agora uma companhia: o software que conversa com você numa voz humana, feminina e sensual e que parece fabricar para si sentimentos em códigos binários a partir de cada nova conversa e atualização.
Spike Jonze busca em seus filmes uma estrutura dramática que, não importa a história, está sempre trabalhando pessoas complicadas em situações que mexem com nosso imaginário – basta lembrar Quero ser John Malkovich e Onde vivem os monstros. Aqui não é diferente: ouvimos a voz sensual de Scarlet Johansson e a fragilidade de um homem sensível e sozinho que, apenas no olhar, notamos em Joaquin Phoenix. Os dois personagens evoluem quando estreitam seu relacionamento. Samantha se humaniza a partir das necessidades de Theodore: uma das perguntas-chave do início do filme é sobre seu relacionamento com a mãe e quando ensaia uma resposta, é cortado pelo sistema que se reinicia sob a voz feminina, sexy e até maternal de nossa personagem. Scarlet é apenas voz e ainda assim - por sua reconhecida imagem de símbolo sexual é impossível confundi-la - imprime toda a carga de uma personagem física, com crescente formatação de sentimentos e alterações - atualizações de si mesma à medida que a história avança. Já Theodore cresce ao redor dela: enquanto Samantha nutre suas carências afetivas e lhe faz companhia como nenhuma pessoa conseguiria, o protagonista passa a se relacionar melhor com as pessoas próximas, mas firmado numa segurança que lhe parece real e, por isso, seus amigos aceitam.

O filme fala sobre solidão no fim das contas e de como buscamos, agora que um chat vale mais do que um abraço, uma resposta imediata para nossos anseios e angústias. Com isso, criamos nestas pessoas virtuais sentimentos verdadeiros plantados em ilusões, em um conforto pela distância e também por ela, uma intimidade que seria conquistada com mais tempo em uma experiência ‘física’. Esse paradoxo é a marca maior do filme e reforça a transformação das relações sociais agora que precisamos das redes para nos comunicar.

É difícil sair dessa falsa zona de conforto que a internet formou em nós. Agora há uma necessidade de se fazer feliz virtualmente, de se mostrar bem, sempre presente e atualizado. Como se toda a nossa vida fosse interessante o tempo inteiro e neste mesmo instante devêssemos dividi-la com os nossos 700 amigos. Assim, qualquer pessoa que utilize minimamente estas redes provavelmente não passará incólume ao filme. O diretor leva o caso ao extremo, a hipérbole do relacionamento com uma máquina nada mais é do que uma grande sacada – além de um tapa na cara – para nos trazer à realidade. Hoje não se usa mais o telefone para fazer ligações. Estas voltaram a ser raras não por seu custo, mas porque nos aproximam mais da realidade, de alguma forma ganharam um misto de invasão, incômodo e intimidade. Assim, usamos a troca de mensagens instantâneas para qualquer situação, salvo para falar com nossos pais. Além de trabalhar com a internet, fazemos todo o resto, como lembra muito bem Medianeras. Compras, envio de currículos, rede social de amizades, de trabalho, de relacionamento, de jogos. Perdemos um tempo razoável publicando notícias sobre nós mesmos. Vamos a exposições para fazer check-in, a menos que seja proibido fotografá-las, aí somos obrigados a parar para ver. A ansiedade em compartilhar é tão urgente que não conseguimos prestar atenção no que está diante de nós e publicamos fotos de costas para o que fomos conhecer, porque na verdade, o objetivo é só dizer que estava lá. É como ler a orelha do livro e dizer que conhece a história, rezando para que não te perguntem nada. O que importa é estar por dentro.
Agora ela pensa em como pode ter 700 amigos e ainda se sentir sozinha de vez em quando. Diariamente fala com no máximo 7 deles e mesmo assim, não muito. Chega a ser assustador pensar que há 700 pessoas olhando seus movimentos, recados, fotos engraçadas. Ao mesmo tempo, acha inusitado que vejam o que escreve, não é uma pessoa desinteressante, acredita. É mais uma mistura de narcisismo e carência, mas sabe que seu caso não é dos mais graves e sabe que dentre estes 700, há aqueles que não ficam um dia sem acessar a vida virtual, sem atualizar, ainda que só queiram uma resposta para um ‘bom dia’, por falta de assunto.

O clímax do filme nos faz pensar em como são os relacionamentos a distância, como criamos neles uma dependência com nossas expectativas sempre frustradas e porque os evitamos - ou insistimos em manter. Eles são uma versão do que está na tela, numa montagem crescente e íntima - com uma trilha sonora delicada que nos acalenta sem percebermos - em que vemos Theodore mais feliz, melhorando como pessoa, mas seguindo por um caminho torto e sem saída, a menos que estejamos numa rara ficção científica otimista. E, se passamos o filme com pena de nosso herói em sua jornada a um provável fracasso, quanto tempo demoramos a abrir um chat com alguém, mandar uma mensagem, publicar sobre o filme, tirar uma foto assim que saímos dele? 
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Ficamos surpresos na primeira sequência do filme, com Matthew McConaughey quase 20kg mais magro e pensamos: esse promete. O ator, que sempre fez filmes de aventura e comédias românticas entre razoáveis e ruins, emagreceu bastante para fazer o protagonista, Ron Woodroof. Segundo o filme, Ron era um texano estereotipado, machista e homofóbico que se descobre com Aids no início dos anos 80 e com o gatilho da morte na cabeça, decide viver. Baseado em história real. 

Antes de entrar nos pormenores do filme, é importante dizer que foi dos que mais impactou. Eu evito ver filmes de doença, são sempre dramas imensos e tristes e eu sempre, sempre sofro muito – deve ser um viés hipocondríaco ou reflexo por vir de uma família de médicos. Buscando uma vida mais tranquila, tinha me prometido escapar desse gênero. Mas, sento na sala e lembro que este é o filme da AIDS, do cartaz e do trailer e topei. Há um tempo a doença não aparecia nos cinemas e nesse sentido, é importante que esteja aí, que se torne assunto novamente, quase como uma função social, sem perder o entretenimento. Nos anos 80, como hoje, Aids era um tabu. A diferença é que lá era o começo de tudo: da doença, da epidemia, da falta de tratamento, do preconceito.
Assim, quando Ron aparece na emergência do hospital e lhe passam o diagnóstico, sua surpresa e indignação surgem com uma explosão, como se o tivessem difamado, indicando uma possível homossexualidade. Não suficiente, recebe junto uma sentença de morte e também a recusa. Os tratamentos para Aids eram experimentais e ele – o anti-heroi do momento e eterno descrente das leis e do governo americano – burla quaisquer regulamentos para consegui-los.

Conforme li nas críticas, o filme saiu mais polêmico do que qualquer outra coisa. Era quase óbvio esperar uma resposta – ainda que não se tenha perguntado – da comunidade gay e transexual, dos outros Clubes de Compras ou dos conhecidos e familiares de Ron. Os filmes baseados em fatos reais costumam ser mal compreendidos, como se devessem àquela história um fundamento tão igual como aconteceu, quase como um relato documental. Enquanto um dos jornais dizia que Ron não era nada além de um homem comum, ordinário, que estava fazendo o que achava certo para sobreviver e ainda ganhar dinheiro com isso, outros diziam que era uma afronta à comunidade transexual colocar um ator não transexual, heterossexual para o papel – Jared Leto – que o executa muito bem, inclusive. Não suficiente, os próprios Clubes de Compras, se sentiram menosprezados, porque o filme só tratou de um, que nem era dos maiores, sequer o primeiro. De uma forma ou de outra, sempre haverá quem queira contar sua própria versão e o que não se percebe é que o que estamos vendo diante de nós é justamente isso – apenas uma versão.

O filme parte da descoberta da doença, à criação e crescimento do Clube de Compras. Funcionava como uma sociedade em que se paga um valor pela exportação dos medicamentos – também experimentais, muitos proibidos nos Estados Unidos, mas que tinham algum resultado em outros países – e recebia-se o medicamento mensalmente. Mais um viés importante do filme, o desconhecimento da dosagem do AZT, a citação sobre a indústria farmacêutica interferindo - ou seria 'contribuindo' - para as decisões do governo que, como no Brasil, é foco de controvérsia e corrupção dos grandes laboratórios e suas licenças. Ron estudou, buscou alternativas, viajou o mundo atrás de respostas para a nova e incurável síndrome, buscando alongar a vida de quem estava contaminado. Compreendendo que boa parte de seu público era homossexual, viu que além de precisar se adaptar, se permitiu conhecer e conviver. Assim, se tornou grande amigo de Rayon (Jared Leto) um homem cujo sonho impossível diante das circunstâncias era uma cirurgia de mudança de sexo.
O filme é centrado nestes dois personagens e é a forma como foram dirigidos e se entregaram aos papéis, que o torna especial. Saí do cinema bem até, diferente do que esperava, e fui conhecer mais a história do sujeito. O Ron do cinema ultrapassa seus limites em todas as esferas possíveis e sai de uma pessoa que odiaríamos para outra que faríamos questão de apertar as mãos. A grande questão está no depois. Descobri que o Ron da vida real provavelmente era, pelo menos, bissexual – segundo relato de seus amigos, de pessoas que conviveram com ele, de sua esposa. Esse ponto não invalida a qualidade do filme enquanto ficção, mas abre um leque enorme de questionamentos e aí sim, uma polêmica justificada em questões diversas: por que o tornaram homofóbico e heterossexual no filme? O fato dele ser gay ou bissexual reduziria seu público a uma categoria, transformaria seu gênero para filme gay? Essa foi uma estratégia industrial para ter público apenas ou para que o público que não veria esse filme caso o protagonista fosse gay tivesse acesso ao fundamento da história? Bom, levando em conta que estamos lidando com uma indústria, não dá pra pensar como Polyana e acreditar que Hollywood quer nos enviar uma mensagem. A ficção nos dá liberdade para fazemos o que quisermos com qualquer história e, por isso, os alertas de ‘baseado, inspirado, livremente inspirado em fatos reais’ existem. Ao mesmo tempo, é uma característica que altera completamente a história e talvez ela tivesse menos apelo e pipoca se excluíssemos a homofobia como ponto transformador no herói. De uma forma ou de outra, o filme ganha créditos por trazer uma história muito bem contada, com impacto na audiência por diferentes abordagens do tema em uma só produção, com atores em performances históricas e um lembrete para a turma mais nova sobre precaução. Imperdível.
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Quando estudei cinema brasileiro, era obrigatório conhecer o Cinema Novo e seus diretores grandes e intelectuais, Humberto Mauro com a divertida Velha a fiar e sempre, os documentaristas contemporâneos. De alguma forma o Brasil – talvez pela história política e riqueza cultural e natural, vai saber – desenvolveu essa categoria de cineastas do real que não perde em nada (acho até que ganha) pros internacionais. Então, em todas as listas destes mestres tem um que se destaca, Eduardo Coutinho.

Sou fã de documentários desde criança, quando assistia os filmes da National Geographic com baleias pulando em mares distantes, leopardos correndo em pradarias, elefantes e girafas. Dormia assistindo isso aos domingos de tarde no sofá de casa, em algum canal que não me lembro. E a voz forte e tranquilizadora do narrador, pausadamente falando ‘agora o leão ataca sua presa’ enquanto toda a cadeia alimentar aparecia sangrando na tela. E dava sono, mas era – e ainda é – muito legal de assistir.

O tempo passou e se antes as cenas já eram incríveis, hoje são surpreendentes. O HD veio, as grandes lentes e as câmeras desenvolvidas especialmente para estas cenas de proximidade e velocidade nos deixam boquiabertos e quase esquecemos o narrador. Ele também se especializou e os filmes são deliciosos, dão água na boca mesmo, de tão gostoso que é assisti-los. E olha que são só bichos vivendo.

Do outro lado, tem aqueles documentários de pessoas, muitos muito chatos, com depoimentos longuíssimos, entrevistas frias, quase um interrogatório. Essas biografias de alguém famoso costumam encher um pouco o saco e valem pelo que há entre as entrevistas: as cenas de shows, filmes ou qualquer coisa que o biografado fez de relevante. Dá pra ver, claro, mas não é grande coisa. É por causa desses que muita gente diz que documentário não é filme, porque não conseguem se conectar com o que está na tela e tudo parece uma grande reportagem.

Mas o extraordinário veio, ainda bem. Eduardo Coutinho fez uma escola de cinema sem querer. Ele trouxe os depoimentos mais emocionantes que já vimos na tela, de gente que nunca ouvimos falar. Ele conseguiu contar histórias imensas de pessoas lindas, como muitas que conhecemos e não sabemos sua dimensão. Coutinho conversava com seus entrevistados, ele tinha um dom de puxar assunto e deixar a pessoa à vontade, como se estivesse em casa... algumas vezes eles estavam e a visita era o diretor.

Terminei o curso de cinema com um documentário. Queria mostrar Salvador por quem vivia nela. A cidade vazia é só cartão postal. Conheci pessoas especiais, um pedaço bem pequeno de suas histórias e vi que era isso o que eu queria fazer, eu queria saber da vida dos outros. Anos depois, fiz a pós em documentário e encontrei Coutinho ao vivo. Acho que eu sempre aparecia nas aulas dele como um cachorro babão em frente a um forno de frango de padaria. Eu queria tudo dele, queria saber tudo, queria ouvi-lo falar eternamente sobre cinema, sobre seus filmes, sobre a vida, sobre qualquer coisa que ele quisesse falar. Era legal vê-lo fumando horrores – imagine – numa sala fechada, sendo que só ele podia fumar. Era legal encontra-lo nas sessões dos festivais de documentário todos os anos e assistir filmes na mesma sala. Era legal assistir palestras. Porque era um cara inteligente e era uma pessoa normal. E seus filmes sempre tinham algo único, emocionante e nunca morno.

Uma amiga me disse ontem que quando eu conto um filme legal, as pessoas ficam com vontade de assistir, como se fosse a oitava maravilha do mundo. Não é isso, é só porque eu gosto muito mesmo de cinema, de entender a produção, conhecer bastidores e histórias e, mais importante, as histórias dentro das histórias. Coutinho tem uma filmografia rica de personagens e experiências que atendem a um público vasto que merece assisti-la. Seus filmes são sobre as pessoas e somos quase guiados por elas, com uma naturalidade que nem a câmera parece incomodá-las. A construção dos filmes é tão sensível que perdemos a noção de tempo e no final o que vimos é muito mais do que histórias de um monte de gente; nos identificamos com elas, vemos um espelho dessa sociedade diversa em diferentes espaços, vemos jogos de narrativas e ainda – como se não bastasse tudo – são aulas de cinema.

Coutinho morreu num dia que era pra ser um dos mais bonitos do ano. 2 de fevereiro é uma data importante, uma festa linda na minha cidade, dia de branco e azul e Yemanjá. Dia de jogar rosa branca no mar e agradecer pelo que se tem. Dia de encontrar os amigos e frequentar um pouco daquela energia positiva que uma festa de paz traz. E nesse mesmo dia, aqui no Rio, com uma brutalidade imensa, meu diretor favorito se vai. Eu sou só mais uma que lamenta e fica com o coração apertado como se perdesse um familiar, que não conhecia a tragédia particular de um grande homem que manteve sua residência fechada em um drama imenso e que não fazia parte dessa mídia de celebridades. Como eu, tem muita gente sofrendo com isso, com a perda de um mestre, alguém que servia como base para o que queremos fazer e o Cinema – com letra maiúscula que significa todo o cinema do mundo inteiro – perdeu um de seus maiores criadores.
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Há dois momentos que marcaram quando vi Frances Ha e nenhum deles está no cartaz. O cartaz lindo, vale dizer, tem um monte de adjetivos que passam bem os sentimentos de quem tem o prazer de ver o filme. Você sai extasiado, feliz, emocionado, animado, um monte mesmo de adjetivos e todos ao mesmo tempo.

Sometimes it’s good to do what you’re supposed to do when you’re supposed to do it. (Às vezes é bom fazer o que você deve fazer quando você tem que fazer)
E por mais que pareça óbvia, é uma boa frase e indica uma ideia maluca da protagonista, seguida de um quase arrependimento. Frances (Greta Gerwig) é uma garota que está perto dos 30 anos, quer viver de dança e sobrevivendo de atividades próximas disso, enquanto tenta de todo jeito, morar em algum lugar. Ela precisa amadurecer, definir uma forma de viver mais estável pelo menos e que lhe traga felicidade. Esse crescimento não vem do nada, mas com uma aceitação do que somos e o que queremos. E para muita gente, como para mim e para a mocinha do filme, é difícil definir o que queremos e se somos capazes de cumprir. O que nos leva a outro diálogo do filme, quando perguntam a ela o que faz:

It’s kind of hard to explain. (É meio difícil de explicar.)
Because what you do is complicated? (Por que o que você faz é complicado?)
Because I don’t really do it. (Porque eu não faço, na verdade.)

E é essa a grande graça do filme, a descoberta dela – e de todas as pessoas nesse momento de vida – de uma forma realista e divertida ao mesmo tempo. A fotografia e a construção da personagem criam um ambiente que lembra as grandes comédias do cinema mudo, com o p&b e trilha sonora que nos pegam pela nostalgia, se não parecesse tanto o (meu, pelo menos) presente. É como se o diretor buscasse uma forma leve e romântica com uma ingenuidade na medida e de outros tempos e os representasse na fotografia, a enriquecendo com diálogos sinceros.
Depois de ver este, busquei outros filmes com Greta, para ver se o que ela tem é um estilo de atuar ou se é exclusivo do personagem. Cheguei à conclusão de que é um pouco dos dois. Ao assistir Lola Versus vemos uma personagem um pouco menos... carismática (não é a melhor palavra – particular talvez seja), mas uma garota parecida, vivendo outros dilemas. Lola Versus tem uma pegada mais comum, um filme bacana, mas mediano. Já Arthur, em que faz opar romântico do protagonista dessa comédia insossa, é uma personagem sem grandes artifícios. Numa comparação um tanto cruel pra quem não gosta, é como a Meg Ryan dos tempos modernos, em filmes muito menos bobos, mas ainda assim, leves e gostosos de assistir. Seu melhor personagem é, sem dúvida, Frances.
A produção lembra muito os filmes de Woody Allen. É NY, nossa protagonista é engraçada e inteligente com uma forma diferente de ver a vida. Mas o filme tem um ganho – não desmerecendo Woody – que é a direção de Noah Baumbach. Se em A Lula e a Baleia e Margot e o Casamento, ele já mostrou uma sensibilidade diferencial, aqui surpreende. É um cinema independente gostoso de ver, pautado em situações de vida real que nos aproxima de seus personagens e histórias.

Saímos apaixonados pela história, especialmente – pela forma dela. Também por Greta que, não coincidentemente, esteve no último filme de Woody, Para Roma, com Amor, num papel menor. Talvez seja cedo dizer qualquer coisa sobre o futuro dessa atriz-roteirista-produtora-diretora, mas ela parece ter um perfil das novas boas comédias. E saímos, talvez me repetindo, felizes, emocionados e querendo mais filme, a trilha sonora, resolver os (nossos) problemas e sentindo que precisamos ver tudo de novo.
 O site ótimo do filme está aqui: http://www.franceshamovie.com/
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Não saí bem de Camille Claudel 1915. Achei o filme pretensioso ao mostrar Juliette Binoche desnuda demais, ao usar pessoas com deficiência, mulheres alienadas do mundo e delas mesmas. Achei grande a ausência de ação, mesmo entendendo o objetivo disso. O assisti há uns meses. Hoje, o filme é muito bom. Não passei o tempo inteiro pensando, mas das vezes que me vinha vontade de escrever, o sentimento voltava, com novas interpretações. Li uma entrevista de Juliette Binoche que comprova o novo olhar sobre o filme. Bruno Dumont é um diretor dos melhores.


Em 1915, aos 51 anos, Camille Claudel vivia reclusa num sanatório em Villeneuve-lès-Avignon, no sul da França, tida como louca por acreditar que Rodin, seu ex-amante queria lhe tomar a autoria por suas esculturas e destruir sua vida. Sua esperança era a visita do irmão, lhe fazer entender que não era louca e ser resgatada. O título do filme é uma marcação de tempo que não se vê na tela. Os dias passam, mas não temos uma noção clara de quantos meses compõem o ano e isso pouco importa. A ideia da sucessão de dias iguais em um sanatório incomoda o suficiente nesses 95 minutos de filme. Mas, ao tempo que tanta dor  exposta parece insuportável, conseguimos ver na sutileza de Juliette uma transformação no caráter da personagem.

Dando uma olhada na filmografia de Bruno Dumont, vi que ele fez A Humanidade, em 1999. Assisti quando estreou, mas acho que era muito nova para entender sua dimensão. Ainda estava na escola, antes de cursar cinema e me preparar para esse tipo de filme. Bruno Dumont, fica claro, não filma para todos. Ele faz longos planos fixos, silêncios que quase não se veem mais nas telas, poucos diálogos e temas duros. Não é pra ser fácil mesmo, nem para os atores. Deu a impressão de que Jean-Luc Vincent (Paul Claudel) ficou meio perdido, possivelmente tiveram que lhe guiar com alguns diálogos, para sustentar a ação de ser o irmão de Camille. O que se prova nesta estranheza e se confirma na biografia de Camille é que Paul também não era das pessoas mais coerentes. Ainda restam dúvidas se Camille precisava ser encerrada num manicômio como foi.


Juliette não usa maquiagem em Camille, o filme todo se passa no sanatório e o máximo de liberdade que vemos está nas cenas de locações externas, nos passeios que ela faz no parque ao redor da construção. É tudo ermo, seco, dos mesmos tons. Um olhar superficial vai desistir, vai encontra-lo monótono, deprimente, mas é preciso um esforço maior para entender a agonia que ele nos provoca. Esse é o tipo de reação que fundamenta a arte e causa tanta polêmica em suas interpretações. Gaspar Noé e Claudio Assis, por exemplo, nos provocam pelo asco à violência, nos mostram tanta crueza em seus filmes que saímos enojados, passando mal. Basta lembrar Irreversível e Baixio das Bestas. Já David Lynch e Stanley Kubrick provocam com o mistério, o primeiro chegando perto do surrealismo, ou com a criação de um mundo particular onde o nosso surreal é real; e Kubrick pelo suspense inteligente, pois ainda que saibamos o que vem a seguir, há tanta tensão no virar da esquina que acabamos esperando mais – e ainda que nada aconteça, saímos satisfeitos.

Bruno Dumont incomoda. Ele quer que olhemos para esta Camille e sintamos a espera pelo nada, o vazio, a repetição, perceber a esperança de sair dali se esvaindo, como uma ampulheta sempre invertida para recomeçar. Hoje temos não sei quantos dispositivos de ‘passar o tempo’. A tecnologia não nos deixa sozinhos, podemos passar a vida com a cabeça ‘ocupada’, se quisermos. Como quando o cinema sonoro nasceu, em que não havia espaço vazio de som, hoje parecemos ter esquecido o silêncio, a imobilidade, o tempo de pensar. E Camille/Juliette entende isso muito bem. Em uma entrevista, ela diz — A ideia era estar despida de qualquer artifício, nada entre o diretor e eu. Era uma crueza que a personagem requeria (...) Fiz um acordo com o Bruno: ok, não vai ter roteiro, mas então vou precisar trabalhar com uma preparadora de elenco por duas semanas. Tinha medo do lado louco de Camille, queria entrar na loucura dela, mas também ter alguém que me fornecesse marcas para sair dela.

A interpretação da ascese da personagem como o clímax pode deixar uma impressão como a que tive inicialmente, equivocada da grandiosidade da obra a partir de “tão pouco”. Mas basta um olhar mais sensível, com mais paciência – esta que nos foge sempre – e entenderemos porque Juliette Binoche, a dama do cinema francês aceitou fazer qualquer coisa com Bruno Dumont, até um filme em que poderia enlouquecer, trabalhar com base em nada e ganhar menos do que deveria.

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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