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Café: extra-forte


A pergunta esdrúxula e de resposta óbvia não é tão simplista, mesmo comportando apenas três palavras.

Tão antiga quanto o conceito de humanidade, a homossexualidade parece ressurgir socialmente de tempos em tempos como uma grande novidade. Anormalidade, doença, opção, são todas palavras equivocadas e insuficientes.

Se invertermos os pólos e analisarmos a heterossexualidade, não há muita diferença. E para os heteros como eu, certamente não é uma opção. Aqui não é uma discussão de gênero e sociedade, mas somente uma opinião de quem partilha algum desejo. O desejo não vem como opção, mas como uma pulsão, uma das forças que nos move independentemente de nossas vontades.

É muito estranho que a sociedade precise se meter na sua cama e avaliar se você deve ou não dormir com alguém e por quê. Não sei quem lhes deu esse passe livre sobre nós e como se concordou tão rapidamente com tudo.

O fato é que sempre houve essa posição conservadora – também familiar – que encontra aí por alguma razão o direito de intervir em nossas intimidades. Vi de perto uma dessas histórias e insisti sempre no porquê da polêmica do não pode, não deve. A procriação e tudo mais é possível pra todos assim como a constituição de uma família e o casamento. Dá pra entender, as famílias não querem deixar de existir, querem perpetuar esse legado incrível e individualista do nada que somos. O que não se entende é que até para as famílias, a diversidade é possível. E saudável.

Trabalhando com comunicação, tenho a sorte de conviver na diversidade. Já ouvi de amigos gays sobre sua infância e adolescência e em como era uma batalha diária se entender, se aceitar e se preparar pra uma luta mesmo, de autodescoberta, exposição e sofrimento. De como essas marcas só começam a ser suavizadas agora que se transformam em adultos.

E dá pra ver que assim, a minha vida sempre foi um mar de rosas, com algodão doce e ursinhos carinhosos, não importando qualquer problema que estivesse vivendo. Sem ter que me explicar o tempo inteiro ou até fazer terapia para entender por que eu seria e me via de forma diferente, eu era simplesmente igual a todo mundo, isso não era uma grande novidade e não havia ninguém de cara feia me olhando.

E por que, nestes tempos depois de tanta História e histórias se volta a crer que um projeto de lei possa entender a "opção" sexual como parâmetro de (a)normalidade? Justo agora que se levantam bandeiras, mais uma vez, contra as intolerâncias? Agora que os preconceituosos finalmente estão recebendo uma merecida e atrasada lição e que se pode reclamar abertamente os abusos e ter seu direito justificado sem sentir vergonha? Parece que vivemos num mundo retrô, onde voltamos às ruas para lutar pelo que, teoricamente, havia sido conquistado décadas atrás.

Há que ser um preconceito tão antigo como a segregação religiosa, há de vir de uma mente tão tacanha como a de um sujeito cujos próprios desejos parecem estar reprimidos, tensionados em uma paixão tão forte e tão proibida que se transforma em ódio e intolerância. Como Alan Chambers e sua igreja de cura gay nos Estados Unidos que hoje pede desculpas ao mundo por sua trajetória horrenda e, ele próprio se assumiu homossexual, este pastor brasileiro precisa acordar do pesadelo em que vive. Ele sim precisa de tratamento e todos os que concordam com essa ação insana.

Que não seja uma sina, que esse movimento de contrassenso funcione no seu extremo oposto em tempos de ruas cheias. Que nos faça ridicularizar o sujeito, sua ideia e destituí-lo de seu poder político, religioso e perigoso. E que no próximo futuro retrô, com causas tão fundamentais como estas de hoje, se ria dessa sandice, se conte como uma piada de bar, o dia em que um político entendeu que sexo era doença.
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Não estive nas manifestações. Não vi o bicho pegar, não corri da polícia, não tomei bala de borracha.

Pego ônibus todos os dias, uns mais caros que outros a depender da hora que vou ao trabalho. Moro no Rio, onde várias pessoas sofreram acidentes por falta de treinamento de seus motoristas, minha mãe inclusive, há muito tempo. Ontem, quando tudo aconteceu, estava no trabalho.

Acompanhei pela tv e pelo facebook que, com tanta gente diferente falando da mesma coisa, temos um panorama menos oficial e talvez por isso, mais honesto.

Tenho amigos jornalistas e mesmo que não fosse o caso, sofri pela repórter que tomou bala de borracha no olho. Fiquei pensando, entretanto, que se ela virou notícia por ser da notícia, quantas outras pessoas não se tornaram vítimas dessa ação desmedida da polícia e de quem a comanda, e não ficamos sabendo. Hoje ex-coronéis avaliam a operação e não mencionam o excesso de força, como se não fosse significativo, como se os outros não fossem importantes.

Porque o problema não está simplesmente na instituição policial, mas em alguns bandidos que fazem parte dela. Eles talvez estivessem aguardando a carta verde que receberam de alguém para botar pra fora toda a sua raiva contida, sua monstruosidade, sua brutalidade diária que já esparramam aonde a notícia não chega.

É óbvio dizer que não é mais o preço da passagem. Acho que a Turquia ajudou a lembrar de que é importante ter opinião, que se não falarmos, a democracia perde sua razão de ser. A Turquia viu sua praça se tornar o início, o que levou a outros problemas talvez muito maiores do que mais um shopping. Como aqui, a ira policial nos fez ver além, nos trouxe tudo o que evitamos pensar todos os dias, em prol do trabalho, das contas, os direitos assegurados e não exercidos.

Acho que é o momento fundamental para a imprensa se posicionar como vem fazendo, apoiando quem lhe parece mais justo. Nos cabe ler os dois lados, entendendo seus relatos, sem necessariamente aceitá-los. Soa moderado demais nessa semana absurda falar assim, mas é ingênuo crucificar o jornal pela opinião que emite.


Os jornalistas que estiveram ontem em São Paulo e no Rio viram o que aconteceu. Eles têm alguma ideia de quem fez o quê e isso é preciso que seja dito, espalhado como uma epidemia, se não nos jornais que são oficiais, corporativos e políticos demais, nos blogs, nessas redes sociais todas, para que se conheça a indignação, os porquês diversos e acumulados por tanto tempo.

As notícias de hoje contam que os policiais prenderam manifestantes por formação de quadrilha. Imagino que tinham uns baderneiros nessas cidades, como tem o pessoal que vai ao Carnaval só pra procurar briga. Nas aglomerações as distorções são possíveis, mas não representam o todo e não devem ser tomadas como referência, mas como ponto de atenção. As manifestações de ontem já não serão as únicas e chamarão, espero, mais gente ainda. São reuniões de protesto, não de combate. Ninguém quer bater ou apanhar ali, só querem ser ouvidos por quem eles decidiram que deveriam ocupar seus governos.

É um sentimento estranho esse. É triste ver as imagens de ontem, da sandice da Ordem. O descontrole assusta, ainda mais quando é dele o poder de fogo. É esquisito não ter feito parte, ter acompanhado no conforto de uma sala fria de ar-condicionado. É também incômodo eu acho, talvez essa seja a palavra mais próxima, ver isso tudo e ver gente que consegue sublimar esse presente e viver da rotina alienada da opinião formada, da alegria sincera até, do alívio de encerrar uma semana de trabalho, de hoje ser mais uma sexta-feira. Mas é corajoso, não encontrei a palavra que represente o sentimento, ver que há mais por vir, que é importante se colocar agora, especialmente nesse ano que todos miram o Brasil, esse país jovem, menos bobo do que eu pensava e de futuro complicado.
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Buenas!

Em 2011, participei de um concurso do SESC DF, chamado Prêmio SESC de Contos Infantis - Monteiro Lobato. Eu tinha escrito um textinho, Borboletas, acho que em 2009 e que tinha ficado por aí. Publiquei no blog e pronto. Nessa do por que não, mandei. Fui selecionada para a coletânea e aí toca a esperar a publicação, entrar em contato com o pessoal do Sesc, até que imaginei que era um daqueles embustes e deixei pra lá. No último mês, depois de uma troca de e-mails iniciada por eles, combinam comigo de enviar as cópias do livro e pronto! Ontem eles aparecem aqui em casa!!

Igual a uma criança que ganha brinquedos no Natal, assim que o porteiro me deu o pacote pardo, abri, já imaginando o que seria. Rasguei tudo em 3 segundos, esperando o elevador chegar e estavam lá: as cinco cópias do livro infantil. Cheguei em casa pulando - Fiona, a cachorra, saiu correndo e se escondeu debaixo da cama - e querendo falar com o mundo.

É muito fácil ser feliz. O livro veio todo fofo, colorido, a fonte uma delícia de ler. Até ilustração tem! Eles foram super cuidadosos na edição, eu achei, não que eu entenda muita coisa de fazer livros. E também estou apaixonada por ele, então rola aquele momento de ilusão cega.

Mas, voltando, a sensação é muito gostosa! Não pela premiação em si, mas por ser um livro, porque agora a estória vai fazer parte - e aqui rola um rio de esperança - da vida e imaginário de outras pessoas. E não por vaidade, mas para compartilhar histórias, ideias. Um pouco como o blog, mas com outra dimensão e voltado pra crianças! É legal imaginar que outras pessoas concordaram com você, que curtiram suas ideias, que encontraram ali, alguma razão para te espalharem, ainda que seja só uma estória pra criança.

Cheguei no trabalho ainda pulando de alegria, como se tivesse ganhado na loto. Isso é bacana, dá uma estimulada legal, te retorna ideias, te investe de pensamento criativo e claro, porque ninguém é o suprassumo da humildade eterna, algum orgulho. Consegui falar com minha avó Lita, que escreveu um livro inteiro à mão, num caderninho e que me dá a força de sempre; falei com minha outra avó Angélica, porque ela é incrível, uma força que não sei de onde vem; com minha irmã linda e com meus pais, claro, sem eles, nada feito, são sempre os primeiros.

A internet ajudou a dividir isso com quem está longe e pude receber o carinho e apoio dos amigos. Essas comemorações são cada vez mais raras, eu acho. Normalmente essas redes sociais são cheias de abobrinhas e coisas que preferíamos não saber sobre os outros, mas a facilidade de comunicação também pode ser útil. Meus 15 minutos de fama se foram, mas a sensação gostosa continua. Quem sabe daí não saem mais maluquices da minha cabeça?

Para comprar: vou ver se o livro vende em algum lugar além do próprio SESC DF, que dificulta bastante a vida. Vou pedir alguns, em todo caso. Sei que é baratinho, 10 reais, mas lá em Brasília!



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Elena era diferente. Era intensa, uma artista com alguns problemas e extremamente sensível, como sua mãe e irmã. Elena sumiu e mesmo sem tê-la conhecido, sentimos sua ausência. Elena se tornou parte de nossa família quando virou filme.

Quando estava cursando a pós de Documentário, os professores insistiam para que fizéssemos filmes que só poderiam ser feitos por nós. Ainda que a premissa sirva para qualquer produção artística, o que eles queriam dizer era para falarmos de um tema nosso, que nos tocasse. Essa proposta, cada vez mais penso nisso, é o fator transformador do documentário brasileiro. A partir do momento em que seu criador decide falar de algo seu, essa esfera particular automaticamente – quando bem feito – deixa de ser uma exposição do próprio umbigo e passa a se relacionar com o universo do espectador. E aí, as referências individuais do autor conversam com as nossas, nos tornando participantes daquela história.

Reforço como característica no documentário brasileiro porque é onde vejo mais obras com essa cara. Perdi o É Tudo Verdade deste ano, mas acompanho há algum tempo as estreias documentais e é isso o que se confirma e parece interessar o grande público. Citando alguns que seguem a linha e que me vieram agora à cabeça: Santiago (João Moreira Salles), Cabra Marcado pra Morrer (Eduardo Coutinho), Passaporte Húngaro (Sandra Kogut), 33, Kiko Goifman, Rocha que Voa (Eryk Rocha), Di-Glauber (Glauber Rocha), Abuelos (Carla Valencia D'Avila, Chile). Ano passado, Sarah Polley trouxe Stories we tell, um documentário canadense que falava sobre sua mãe, tentava descobrir um pouco mais dela, resgatando em sua família e amigos um passado hoje perdido. A narração de seu pai deixa tudo mais bonito e o jogo de encenação com imagens de arquivo completa visualmente o que quase não parecia faltar. É o que mais se aproxima deste.


Em Elena é como se a diretora descarnasse o tema. É isso mesmo, ela se entrega numa correspondência com a irmã, cujo direcionamento prescinde do espectador. Toda a voz off fala para Elena como numa carta, em que Petra, a diretora, se dirige a você, à irmã. Somos espectadores de uma história de amor sem fim, familiar e fraterno, de uma perda irreparável que já passamos ou passaremos em nossas vidas de alguma forma. E aí, o cotidiano delas se transforma na vida de todos. Em paralelo, o filme ilustra uma tentativa de compreender o que aconteceu, o filme indica uma busca pela justificativa ou aceitação para o fim da irmã, para saldar ou, pelo menos, amenizar a dor e a saudade. Petra faz um desenho aprofundado da irmã, mas que perpassa por ela própria, sua mãe e seu pai, reforçando a ausência do último. Esse retrato de família dá indícios dos problemas das três mulheres, sua formação cultural e social e nos deixa livres para induzir e interpretar o porquê da tragédia.

Esses perfis são o panorama, a superfície do filme. Sua construção é feita como linhas de um tecido que, olhando de perto, percebemos o traçado dos fios, seus cruzamentos e rupturas. Aqui conseguimos ver a transformação da perda em poesia, com uma montagem que intercala imagens de arquivo – quando criança, as irmãs ganharam uma câmera doméstica – com Petra criança, a mãe e Elena adulta em NY, Petra andando sozinha pelas ruas, buscando nas esquinas americanas, vestígios de uma antiga presença e por fim, encenações leves, soltas como passos de dança, que pontuam o filme. São passados distintos que se cruzam, reforçando a proximidade das irmãs, a necessidade que uma tinha da outra e de como isso foi suficiente para moldar o futuro da caçula. A trilha sonora nos absorve, mantendo esse clima de saudade, amor e até de uma melancolia que parece fazer parte de todos daquela família. 
À parte a vida real dos personagens, o filme persegue uma aura onírica que expande o que seria um simples relato, uma carta. Os elementos que compõem o imaginário de Petra sobre Elena traduzem duas irmãs em figurinos e performances de sonhos, seja Elena em suas apresentações teatrais – que parecem um prenúncio do fim, sempre tensas – ou Petra com seus passeios, olhares e a própria composição do que vemos. Saímos com coração apertado, sofrendo por elas e por nós, com questões que sequer conseguimos formular. Elena nos deixa com vontade de saber mais, mais dessas mulheres que se mostraram tanto, que se abriram para todos. É um filme de amor, uma das homenagens mais bonitas e honestas que eu já vi, com uma carga de sentimento que quase nunca aparece em documentários. É também uma aula de cinema de uma menina em seu primeiro longa, com uma liberdade de expressão que encerra aquelas questões ultrapassadas do que é e o que não é documentário, do que pode e não pode. Elena é pra ser visto despreparado mesmo, é pra sentar na poltrona e se entregar ao destino do filme. Numa sala lotada num sábado à noite no Rio de Janeiro, ouvia-se o filme, silêncio e lágrimas. Na saída, vi em todos uma satisfação se essa for a palavra, de ter participado. Talvez tenhamos entendido que foi importante ter visto o filme, que a libertação de Petra foi ter reencontrado e redescoberto sua irmã, agora que se tornou mais velha do que ela.

Aqui o site do filme!
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Comecei a ler The War of Art, de Steven Pressfield. Esse livro foi uma forte indicação de Robert McKee, a quem fui assistir o workshop em NY. Ele é o consultor de roteiros mais bem sucedido dos Estados Unidos e também tem um livro interessante pra quem quer escrever, se interessa etc, Story. O livro de Pressfield fala sobre os obstáculos à criação, de forma geral e como atravessar as armadilhas e seguir em frente em seu processo. 

O caso é que estava aqui lendo o prefácio – do próprio McKee – e lembrei umas coisas do seminário, em que falava que devemos ter garra e paciência, que uma boa história não surge do nada, mas de muito esforço, tempo para errar e acertar, para desenvolver, amadurecer as ideias. Ele fala que a primeira ideia normalmente nem é essa coisa incrível que pensamos quando vamos desenvolvê-la. Aí vemos que realmente, outros caminhos se formam e surge um produto muito mais bonito, bem acabado, interessante. Que talento, eu diria agora, é a arte de seguir em frente após a suposta grande ideia e encontrar um resultado bom, depois de uma longa jornada.

Pois bem.

Essa noite fui ao teatro, ver um musical sobre Frank Sinatra. Há muitas semanas sem ver nada, surgiu o convite e fui lá. Confesso que sou resistente com teatro, não é a minha arte, meu negócio é com cinema e literatura, no máximo com TV. O teatro me quebra um pouco a ilusão que o cinema traz quase gratuitamente, e normalmente as peças razoáveis me parecem muito ruins. Mais ruins do que filmes ruins. Não sou estúpida também: as peças boas que já assisti me marcaram profundamente e seguem comigo como referências de arte para a vida.

Em todo caso, era uma estreia e era Sinatra e eu tinha voltado da NY de Sinatra, achei que valeria lembrar os momentos do passeio. O que importa disso tudo é que no final, o diretor nos informou que a peça foi montada em 28 dias. Isso é menos que um mês. É Fevereiro, que nem é um mês de verdade, mas um carnaval, véspera de ano novo. Eu não sei o tempo de desenvolvimento de um espetáculo, mas 28 dias para consolidar uma história, com um ‘roteiro’ bem escrito, diálogos interessantes, afinação entre os atores e o texto, atores e atores, atores e músicos, atores e música... é muito pouco, não?

É óbvio que a resposta é sim. E isso fica claro no primeiro diálogo, sem exagero, em que somos obrigados a saber que ali Sinatra tinha 45 anos e que não tinha se casado com ninguém, de forma gratuita, como uma resposta a uma pergunta que ninguém fez. Um texto introdutório, forçando sua biografia e depois uma sequência sem fim de músicas mal interpretadas, como um cover preguiçoso. Pior do que tudo isso: não havia história. Era como ouvir um cd ruim, daquelas versões piratas distorcidas de um cantor bom. As quatro bailarinas atrizes que acompanhavam o Sinatra da vez, coitadas, sobrou quase nada para elas, além de uns passos de sapateado e meia dúzia de falas. Do meio pro final nem isso tem, um Sinatra caído pelos cantos, invadindo a plateia com uma pronúncia esquisita – e mais uma vez lembro McKee contando algo sobre o cantor e sua dicção perfeita (vale prestar atenção) – emendando um hit atrás do outro.

Orgulhosos de seu rebento, o diretor, elenco e equipe estavam felizes. Natural, faz parte do show, é justo. Mas se vangloriar de uma peça montada nas coxas, não tem condição. Se ao menos houvesse uma história legal... as mulheres de Sinatra, interpretadas de relance pelas meninas bailarinas, se perdem no meio do caminho... e logo elas, que foram mulheres esplêndidas! Deveriam ter feito uma introdução ao público com um folheto, informando que não esperem muito, justificando essa ausência de estrutura - não por opção estética, mas quase como uma desculpa. Mas, de novo, sem tempo. E mais: a peça não foi escrita em 28 dias - imagino eu. O texto deveria ser a única coisa pronta - já que ele é o ponto de partida para qualquer obra - e ninguém notou que estava faltando algo? Pelo menos a banda de jazz, ao fundo, era boa.

Eu percebi que McKee me deixou ainda mais inconveniente. Mas convenhamos: fazer arte assim, não é fazer por amor. Fazer com amor toma tempo, cuidado, carinho. Não é só correria, calor e agonia. Foi a primeira vez que fui ao teatro e não tinha nada pra contar depois. De repente esse livro de Pressfield me tira a procrastinação e me leva de volta a meus filmes de boas histórias, às peças com texto, a roteiros por vir, textos a escrever. Esse sinatra pobre me serviu para fazer ouvir o verdadeiro e maiúsculo, além de me incomodar o suficiente para me fazer escrever essas anotações - não pretendo ser crítica teatral - e isso, por si só, já vale agradecer.
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Os Miseráveis entrou em cartaz. Sábado de sol, sala lotada, o filme de quase três horas ganhou aplausos no final da sessão. Mesmo sem entender muito o porquê – normalmente fazemos isso em festivais, quando alguém da equipe está presente – se notava o contentamento geral.
 

Presos puxam longas cordas de um navio para o porto. Lá do alto, um inspetor de polícia, Javert, fiscaliza o trabalho. Em condições sub-humanas, os miseráveis cantam em coro a força e resistência que os mantém vivos em tempos de guerra e peste, no século XIX. A câmera se aproxima de um deles, Jean Valjean, que olha com ódio para Javert. Imundo e fino, quase não reconhecemos o Wolverine, Hugh Jackman. Essa música forte, ritmada, já ganha o público: trancados, imundos e sem expectativas, guardam apenas rancor, a raiva que os sustenta a cada dia. Foi quando eu entendi que precisava ler o livro.

Os Miseráveis desse ano é uma adaptação do musical de 1980 ainda em cartaz e, claro, do livro de Victor Hugo, de 1862. Como toda versão, subtrai alguns personagens – o livro tem 5 volumes e inúmeras figuras menores em histórias que orbitam  Jean Valjean e Javert – a fim de manter o ritmo da narrativa fílmica. Ainda assim, poderia ter-se cortado um pouco mais.

Javert
Uma sequência me prende até hoje, dias depois do filme: cotada para o Oscar de melhor atriz coadjuvante, Anne Hathaway é Fantine, uma mulher que trabalha na fábrica de Jean Valjean – quando já é prefeito sob outro nome – para sustentar sua filha, que vive sob cuidados de uma família oportunista, os Thénardier. Fantine é despedida e sua tragédia se anuncia: se prostitui, perde sua beleza ao vender parte de si – cabelos e dentes – e só lhe resta a desgraça. Aqui, sofremos até seu fim, no primeiro terço do filme, com pena de perder a personagem tão bem construída. Em pouco mais de 3 minutos nos apaixonamos por sua voz, no ápice de seu sofrimento. Fantine espreme nosso coração com a música que transformou uma senhora comum da Inglaterra em uma das vozes mais emocionantes do planeta, I dreamed a dream, então por Susan Boyle. 

Extremamente afinada e impecável em cena, Anne Hathaway, nos faz sofrer em sua miséria sem saída. Com uma voz forte e inesperada, conjuga interpretação e desespero. Um dos melhores momentos do filme. A câmera se aproxima de seu rosto delicadamente em poucos cortes, exibindo sua magreza, mostrando sua transformação. Em pouco tempo, sai a mulher de rosa, limpa e de cabelos compridos, entra o nada, escória e lixo parisiense. O Oscar lhe é devido.

Jean Valjean
Jean Valjean e Javert (Russel Crowe) se atraem e repelem todo o filme, e esse cabo de guerra cansa; da mesma forma que Lincoln se arrasta por quase três horas em busca do clímax, aqui, mesmo com uma montagem mais dinâmica – o ritmo de um musical se dá como uma correnteza de canções que nos embala até o fim – a repetição beira a monotonia. Somos salvos pela fluidez das tramas paralelas, dos outros personagens que completam a história. Assim, temos o romance da juventude – a esperança em um amor puro; a insurreição estudantil que transformará a nação e salvará os miseráveis do fim – como uma utopia e a redenção, que encerra a trama.

Tom Hooper equilibrou o exagero patético dos musicais e a atuação marcada do teatro com a linguagem cinematográfica. O diretor de O Discurso do Rei retorna com Helena Bonham-Carter como par de Sacha Baron Cohen, o caricato Borat de outro tempo, como os Thénardier. Aqui eles são a comédia da maquiagem e trejeitos exagerados para a proximidade da câmera, que nos remetem ao circo, com uma edição rápida como a farsa que precisam montar para surrupiar moedas e bens de seus clientes do bar e ainda explorar a então criança, Cosette. Levada pelas grandes emoções que os musicais procuram explicitar na tela, não são meus momentos preferidos, apesar de terem seu público cativo. Ao mesmo tempo, o par Cosette adolescente – Marius, do amor romântico fica com pouco tempero. Cosette é Amanda Seyfried e sua atuação não diz muito, mas os momentos se salvam com o Marius, de Eddie Redmayne. Fazendo mais um papel de mocinha, a atriz parece presa à forma de seu personagem, não dominando-o, mas cerceada, como se a direção tendesse a formatá-la. Já Marius sustenta o olhar doce, aquele mesmo que encontramos em Marilyn, do apaixonado perdido.

marius-os-miseraveis
Marius, Os Miseráveis
As músicas são – claro – a melhor parte. De início estranhamos Russel Crowe – me parecia sempre muito truculento para um musical – e nos apaixonamos, como dito, por Anne Hathaway. As músicas de revolução; na prisão e nas barricadas, nos carregam e nos fazem, tímidos, cantar o refrão para dentro. Assim, somos carregados, como crianças ao dormir, para um sono de aventura, drama, romance, tragédia e alguma vitória. O filme traz de volta os musicais grandiosos que surgem de tempos em tempos com o propósito  de nos enternecer.

O gênero é específico quando quase não há diálogo, mas as trocas são todas de sentimento em voz. Por isso, não há como produzir tantos musicais em sequência: o mundo real das brutalidades não permite e a inocência não se sustenta por muito tempo. Nos permitimos poucas doses de grande ilusão de cada vez, como as pequenas e raras gentilezas que nos surpreendem em um dia qualquer. Saímos contaminados com a força de um filme que fala de povo, de infelizes, de alguma preocupação política que devemos ter. Mas saímos também como se tivéssemos visto um blockbuster de Hollywood (esse aqui é inglês), embasbacados pela grandiosidade da produção, entregues à imensidão de uma multidão que trabalhou em conjunto para expor essa tragédia mundo afora. Victor Hugo retornou às livrarias para ler agora, reeditado, impulsionado pelo sucesso do filme. Se a história reduzida já satisfaz, complementá-la com nossa imaginação do que foi omitido pode ser um prazer ainda maior. Com mais de vinte adaptações de apenas um texto, algo precioso nos aguarda.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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