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Café: extra-forte

Buenas!

Em 2011, participei de um concurso do SESC DF, chamado Prêmio SESC de Contos Infantis - Monteiro Lobato. Eu tinha escrito um textinho, Borboletas, acho que em 2009 e que tinha ficado por aí. Publiquei no blog e pronto. Nessa do por que não, mandei. Fui selecionada para a coletânea e aí toca a esperar a publicação, entrar em contato com o pessoal do Sesc, até que imaginei que era um daqueles embustes e deixei pra lá. No último mês, depois de uma troca de e-mails iniciada por eles, combinam comigo de enviar as cópias do livro e pronto! Ontem eles aparecem aqui em casa!!

Igual a uma criança que ganha brinquedos no Natal, assim que o porteiro me deu o pacote pardo, abri, já imaginando o que seria. Rasguei tudo em 3 segundos, esperando o elevador chegar e estavam lá: as cinco cópias do livro infantil. Cheguei em casa pulando - Fiona, a cachorra, saiu correndo e se escondeu debaixo da cama - e querendo falar com o mundo.

É muito fácil ser feliz. O livro veio todo fofo, colorido, a fonte uma delícia de ler. Até ilustração tem! Eles foram super cuidadosos na edição, eu achei, não que eu entenda muita coisa de fazer livros. E também estou apaixonada por ele, então rola aquele momento de ilusão cega.

Mas, voltando, a sensação é muito gostosa! Não pela premiação em si, mas por ser um livro, porque agora a estória vai fazer parte - e aqui rola um rio de esperança - da vida e imaginário de outras pessoas. E não por vaidade, mas para compartilhar histórias, ideias. Um pouco como o blog, mas com outra dimensão e voltado pra crianças! É legal imaginar que outras pessoas concordaram com você, que curtiram suas ideias, que encontraram ali, alguma razão para te espalharem, ainda que seja só uma estória pra criança.

Cheguei no trabalho ainda pulando de alegria, como se tivesse ganhado na loto. Isso é bacana, dá uma estimulada legal, te retorna ideias, te investe de pensamento criativo e claro, porque ninguém é o suprassumo da humildade eterna, algum orgulho. Consegui falar com minha avó Lita, que escreveu um livro inteiro à mão, num caderninho e que me dá a força de sempre; falei com minha outra avó Angélica, porque ela é incrível, uma força que não sei de onde vem; com minha irmã linda e com meus pais, claro, sem eles, nada feito, são sempre os primeiros.

A internet ajudou a dividir isso com quem está longe e pude receber o carinho e apoio dos amigos. Essas comemorações são cada vez mais raras, eu acho. Normalmente essas redes sociais são cheias de abobrinhas e coisas que preferíamos não saber sobre os outros, mas a facilidade de comunicação também pode ser útil. Meus 15 minutos de fama se foram, mas a sensação gostosa continua. Quem sabe daí não saem mais maluquices da minha cabeça?

Para comprar: vou ver se o livro vende em algum lugar além do próprio SESC DF, que dificulta bastante a vida. Vou pedir alguns, em todo caso. Sei que é baratinho, 10 reais, mas lá em Brasília!



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Elena era diferente. Era intensa, uma artista com alguns problemas e extremamente sensível, como sua mãe e irmã. Elena sumiu e mesmo sem tê-la conhecido, sentimos sua ausência. Elena se tornou parte de nossa família quando virou filme.

Quando estava cursando a pós de Documentário, os professores insistiam para que fizéssemos filmes que só poderiam ser feitos por nós. Ainda que a premissa sirva para qualquer produção artística, o que eles queriam dizer era para falarmos de um tema nosso, que nos tocasse. Essa proposta, cada vez mais penso nisso, é o fator transformador do documentário brasileiro. A partir do momento em que seu criador decide falar de algo seu, essa esfera particular automaticamente – quando bem feito – deixa de ser uma exposição do próprio umbigo e passa a se relacionar com o universo do espectador. E aí, as referências individuais do autor conversam com as nossas, nos tornando participantes daquela história.

Reforço como característica no documentário brasileiro porque é onde vejo mais obras com essa cara. Perdi o É Tudo Verdade deste ano, mas acompanho há algum tempo as estreias documentais e é isso o que se confirma e parece interessar o grande público. Citando alguns que seguem a linha e que me vieram agora à cabeça: Santiago (João Moreira Salles), Cabra Marcado pra Morrer (Eduardo Coutinho), Passaporte Húngaro (Sandra Kogut), 33, Kiko Goifman, Rocha que Voa (Eryk Rocha), Di-Glauber (Glauber Rocha), Abuelos (Carla Valencia D'Avila, Chile). Ano passado, Sarah Polley trouxe Stories we tell, um documentário canadense que falava sobre sua mãe, tentava descobrir um pouco mais dela, resgatando em sua família e amigos um passado hoje perdido. A narração de seu pai deixa tudo mais bonito e o jogo de encenação com imagens de arquivo completa visualmente o que quase não parecia faltar. É o que mais se aproxima deste.


Em Elena é como se a diretora descarnasse o tema. É isso mesmo, ela se entrega numa correspondência com a irmã, cujo direcionamento prescinde do espectador. Toda a voz off fala para Elena como numa carta, em que Petra, a diretora, se dirige a você, à irmã. Somos espectadores de uma história de amor sem fim, familiar e fraterno, de uma perda irreparável que já passamos ou passaremos em nossas vidas de alguma forma. E aí, o cotidiano delas se transforma na vida de todos. Em paralelo, o filme ilustra uma tentativa de compreender o que aconteceu, o filme indica uma busca pela justificativa ou aceitação para o fim da irmã, para saldar ou, pelo menos, amenizar a dor e a saudade. Petra faz um desenho aprofundado da irmã, mas que perpassa por ela própria, sua mãe e seu pai, reforçando a ausência do último. Esse retrato de família dá indícios dos problemas das três mulheres, sua formação cultural e social e nos deixa livres para induzir e interpretar o porquê da tragédia.

Esses perfis são o panorama, a superfície do filme. Sua construção é feita como linhas de um tecido que, olhando de perto, percebemos o traçado dos fios, seus cruzamentos e rupturas. Aqui conseguimos ver a transformação da perda em poesia, com uma montagem que intercala imagens de arquivo – quando criança, as irmãs ganharam uma câmera doméstica – com Petra criança, a mãe e Elena adulta em NY, Petra andando sozinha pelas ruas, buscando nas esquinas americanas, vestígios de uma antiga presença e por fim, encenações leves, soltas como passos de dança, que pontuam o filme. São passados distintos que se cruzam, reforçando a proximidade das irmãs, a necessidade que uma tinha da outra e de como isso foi suficiente para moldar o futuro da caçula. A trilha sonora nos absorve, mantendo esse clima de saudade, amor e até de uma melancolia que parece fazer parte de todos daquela família. 
À parte a vida real dos personagens, o filme persegue uma aura onírica que expande o que seria um simples relato, uma carta. Os elementos que compõem o imaginário de Petra sobre Elena traduzem duas irmãs em figurinos e performances de sonhos, seja Elena em suas apresentações teatrais – que parecem um prenúncio do fim, sempre tensas – ou Petra com seus passeios, olhares e a própria composição do que vemos. Saímos com coração apertado, sofrendo por elas e por nós, com questões que sequer conseguimos formular. Elena nos deixa com vontade de saber mais, mais dessas mulheres que se mostraram tanto, que se abriram para todos. É um filme de amor, uma das homenagens mais bonitas e honestas que eu já vi, com uma carga de sentimento que quase nunca aparece em documentários. É também uma aula de cinema de uma menina em seu primeiro longa, com uma liberdade de expressão que encerra aquelas questões ultrapassadas do que é e o que não é documentário, do que pode e não pode. Elena é pra ser visto despreparado mesmo, é pra sentar na poltrona e se entregar ao destino do filme. Numa sala lotada num sábado à noite no Rio de Janeiro, ouvia-se o filme, silêncio e lágrimas. Na saída, vi em todos uma satisfação se essa for a palavra, de ter participado. Talvez tenhamos entendido que foi importante ter visto o filme, que a libertação de Petra foi ter reencontrado e redescoberto sua irmã, agora que se tornou mais velha do que ela.

Aqui o site do filme!
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Comecei a ler The War of Art, de Steven Pressfield. Esse livro foi uma forte indicação de Robert McKee, a quem fui assistir o workshop em NY. Ele é o consultor de roteiros mais bem sucedido dos Estados Unidos e também tem um livro interessante pra quem quer escrever, se interessa etc, Story. O livro de Pressfield fala sobre os obstáculos à criação, de forma geral e como atravessar as armadilhas e seguir em frente em seu processo. 

O caso é que estava aqui lendo o prefácio – do próprio McKee – e lembrei umas coisas do seminário, em que falava que devemos ter garra e paciência, que uma boa história não surge do nada, mas de muito esforço, tempo para errar e acertar, para desenvolver, amadurecer as ideias. Ele fala que a primeira ideia normalmente nem é essa coisa incrível que pensamos quando vamos desenvolvê-la. Aí vemos que realmente, outros caminhos se formam e surge um produto muito mais bonito, bem acabado, interessante. Que talento, eu diria agora, é a arte de seguir em frente após a suposta grande ideia e encontrar um resultado bom, depois de uma longa jornada.

Pois bem.

Essa noite fui ao teatro, ver um musical sobre Frank Sinatra. Há muitas semanas sem ver nada, surgiu o convite e fui lá. Confesso que sou resistente com teatro, não é a minha arte, meu negócio é com cinema e literatura, no máximo com TV. O teatro me quebra um pouco a ilusão que o cinema traz quase gratuitamente, e normalmente as peças razoáveis me parecem muito ruins. Mais ruins do que filmes ruins. Não sou estúpida também: as peças boas que já assisti me marcaram profundamente e seguem comigo como referências de arte para a vida.

Em todo caso, era uma estreia e era Sinatra e eu tinha voltado da NY de Sinatra, achei que valeria lembrar os momentos do passeio. O que importa disso tudo é que no final, o diretor nos informou que a peça foi montada em 28 dias. Isso é menos que um mês. É Fevereiro, que nem é um mês de verdade, mas um carnaval, véspera de ano novo. Eu não sei o tempo de desenvolvimento de um espetáculo, mas 28 dias para consolidar uma história, com um ‘roteiro’ bem escrito, diálogos interessantes, afinação entre os atores e o texto, atores e atores, atores e músicos, atores e música... é muito pouco, não?

É óbvio que a resposta é sim. E isso fica claro no primeiro diálogo, sem exagero, em que somos obrigados a saber que ali Sinatra tinha 45 anos e que não tinha se casado com ninguém, de forma gratuita, como uma resposta a uma pergunta que ninguém fez. Um texto introdutório, forçando sua biografia e depois uma sequência sem fim de músicas mal interpretadas, como um cover preguiçoso. Pior do que tudo isso: não havia história. Era como ouvir um cd ruim, daquelas versões piratas distorcidas de um cantor bom. As quatro bailarinas atrizes que acompanhavam o Sinatra da vez, coitadas, sobrou quase nada para elas, além de uns passos de sapateado e meia dúzia de falas. Do meio pro final nem isso tem, um Sinatra caído pelos cantos, invadindo a plateia com uma pronúncia esquisita – e mais uma vez lembro McKee contando algo sobre o cantor e sua dicção perfeita (vale prestar atenção) – emendando um hit atrás do outro.

Orgulhosos de seu rebento, o diretor, elenco e equipe estavam felizes. Natural, faz parte do show, é justo. Mas se vangloriar de uma peça montada nas coxas, não tem condição. Se ao menos houvesse uma história legal... as mulheres de Sinatra, interpretadas de relance pelas meninas bailarinas, se perdem no meio do caminho... e logo elas, que foram mulheres esplêndidas! Deveriam ter feito uma introdução ao público com um folheto, informando que não esperem muito, justificando essa ausência de estrutura - não por opção estética, mas quase como uma desculpa. Mas, de novo, sem tempo. E mais: a peça não foi escrita em 28 dias - imagino eu. O texto deveria ser a única coisa pronta - já que ele é o ponto de partida para qualquer obra - e ninguém notou que estava faltando algo? Pelo menos a banda de jazz, ao fundo, era boa.

Eu percebi que McKee me deixou ainda mais inconveniente. Mas convenhamos: fazer arte assim, não é fazer por amor. Fazer com amor toma tempo, cuidado, carinho. Não é só correria, calor e agonia. Foi a primeira vez que fui ao teatro e não tinha nada pra contar depois. De repente esse livro de Pressfield me tira a procrastinação e me leva de volta a meus filmes de boas histórias, às peças com texto, a roteiros por vir, textos a escrever. Esse sinatra pobre me serviu para fazer ouvir o verdadeiro e maiúsculo, além de me incomodar o suficiente para me fazer escrever essas anotações - não pretendo ser crítica teatral - e isso, por si só, já vale agradecer.
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Os Miseráveis entrou em cartaz. Sábado de sol, sala lotada, o filme de quase três horas ganhou aplausos no final da sessão. Mesmo sem entender muito o porquê – normalmente fazemos isso em festivais, quando alguém da equipe está presente – se notava o contentamento geral.
 

Presos puxam longas cordas de um navio para o porto. Lá do alto, um inspetor de polícia, Javert, fiscaliza o trabalho. Em condições sub-humanas, os miseráveis cantam em coro a força e resistência que os mantém vivos em tempos de guerra e peste, no século XIX. A câmera se aproxima de um deles, Jean Valjean, que olha com ódio para Javert. Imundo e fino, quase não reconhecemos o Wolverine, Hugh Jackman. Essa música forte, ritmada, já ganha o público: trancados, imundos e sem expectativas, guardam apenas rancor, a raiva que os sustenta a cada dia. Foi quando eu entendi que precisava ler o livro.

Os Miseráveis desse ano é uma adaptação do musical de 1980 ainda em cartaz e, claro, do livro de Victor Hugo, de 1862. Como toda versão, subtrai alguns personagens – o livro tem 5 volumes e inúmeras figuras menores em histórias que orbitam  Jean Valjean e Javert – a fim de manter o ritmo da narrativa fílmica. Ainda assim, poderia ter-se cortado um pouco mais.

Javert
Uma sequência me prende até hoje, dias depois do filme: cotada para o Oscar de melhor atriz coadjuvante, Anne Hathaway é Fantine, uma mulher que trabalha na fábrica de Jean Valjean – quando já é prefeito sob outro nome – para sustentar sua filha, que vive sob cuidados de uma família oportunista, os Thénardier. Fantine é despedida e sua tragédia se anuncia: se prostitui, perde sua beleza ao vender parte de si – cabelos e dentes – e só lhe resta a desgraça. Aqui, sofremos até seu fim, no primeiro terço do filme, com pena de perder a personagem tão bem construída. Em pouco mais de 3 minutos nos apaixonamos por sua voz, no ápice de seu sofrimento. Fantine espreme nosso coração com a música que transformou uma senhora comum da Inglaterra em uma das vozes mais emocionantes do planeta, I dreamed a dream, então por Susan Boyle. 

Extremamente afinada e impecável em cena, Anne Hathaway, nos faz sofrer em sua miséria sem saída. Com uma voz forte e inesperada, conjuga interpretação e desespero. Um dos melhores momentos do filme. A câmera se aproxima de seu rosto delicadamente em poucos cortes, exibindo sua magreza, mostrando sua transformação. Em pouco tempo, sai a mulher de rosa, limpa e de cabelos compridos, entra o nada, escória e lixo parisiense. O Oscar lhe é devido.

Jean Valjean
Jean Valjean e Javert (Russel Crowe) se atraem e repelem todo o filme, e esse cabo de guerra cansa; da mesma forma que Lincoln se arrasta por quase três horas em busca do clímax, aqui, mesmo com uma montagem mais dinâmica – o ritmo de um musical se dá como uma correnteza de canções que nos embala até o fim – a repetição beira a monotonia. Somos salvos pela fluidez das tramas paralelas, dos outros personagens que completam a história. Assim, temos o romance da juventude – a esperança em um amor puro; a insurreição estudantil que transformará a nação e salvará os miseráveis do fim – como uma utopia e a redenção, que encerra a trama.

Tom Hooper equilibrou o exagero patético dos musicais e a atuação marcada do teatro com a linguagem cinematográfica. O diretor de O Discurso do Rei retorna com Helena Bonham-Carter como par de Sacha Baron Cohen, o caricato Borat de outro tempo, como os Thénardier. Aqui eles são a comédia da maquiagem e trejeitos exagerados para a proximidade da câmera, que nos remetem ao circo, com uma edição rápida como a farsa que precisam montar para surrupiar moedas e bens de seus clientes do bar e ainda explorar a então criança, Cosette. Levada pelas grandes emoções que os musicais procuram explicitar na tela, não são meus momentos preferidos, apesar de terem seu público cativo. Ao mesmo tempo, o par Cosette adolescente – Marius, do amor romântico fica com pouco tempero. Cosette é Amanda Seyfried e sua atuação não diz muito, mas os momentos se salvam com o Marius, de Eddie Redmayne. Fazendo mais um papel de mocinha, a atriz parece presa à forma de seu personagem, não dominando-o, mas cerceada, como se a direção tendesse a formatá-la. Já Marius sustenta o olhar doce, aquele mesmo que encontramos em Marilyn, do apaixonado perdido.

marius-os-miseraveis
Marius, Os Miseráveis
As músicas são – claro – a melhor parte. De início estranhamos Russel Crowe – me parecia sempre muito truculento para um musical – e nos apaixonamos, como dito, por Anne Hathaway. As músicas de revolução; na prisão e nas barricadas, nos carregam e nos fazem, tímidos, cantar o refrão para dentro. Assim, somos carregados, como crianças ao dormir, para um sono de aventura, drama, romance, tragédia e alguma vitória. O filme traz de volta os musicais grandiosos que surgem de tempos em tempos com o propósito  de nos enternecer.

O gênero é específico quando quase não há diálogo, mas as trocas são todas de sentimento em voz. Por isso, não há como produzir tantos musicais em sequência: o mundo real das brutalidades não permite e a inocência não se sustenta por muito tempo. Nos permitimos poucas doses de grande ilusão de cada vez, como as pequenas e raras gentilezas que nos surpreendem em um dia qualquer. Saímos contaminados com a força de um filme que fala de povo, de infelizes, de alguma preocupação política que devemos ter. Mas saímos também como se tivéssemos visto um blockbuster de Hollywood (esse aqui é inglês), embasbacados pela grandiosidade da produção, entregues à imensidão de uma multidão que trabalhou em conjunto para expor essa tragédia mundo afora. Victor Hugo retornou às livrarias para ler agora, reeditado, impulsionado pelo sucesso do filme. Se a história reduzida já satisfaz, complementá-la com nossa imaginação do que foi omitido pode ser um prazer ainda maior. Com mais de vinte adaptações de apenas um texto, algo precioso nos aguarda.
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As prévias do Oscar já começaram e os filmes mais cotados são lançados simultaneamente no país. São tantos que, para dar conta destes e dos outros que seguem em circuito, temos que aproveitar as sessões durante a semana. Entretanto, nem tudo são flores e fico pensando por que alguns filmes seguem como favoritos.

Lincoln, de Spielberg é um deles. O filme, apesar da presença de Daniel Day-Lewis, não faz jus às 12 categorias que concorre: é chato.

Não conheço a história do presidente americano em detalhes, mas sua fama vem da luta pela abolição da escravatura com a aprovação da 13ª emenda. Associado a isso, o fim da Guerra de Secessão. Num cenário com potencial dramático, Spielberg perde a mão e nos traz uma fábula exagerada, o herói mítico sem ritmo. Logo na primeira cena vemos dois militares negros conversando com o presidente. Enquanto um é subserviente e concorda com todo o pensamento do líder, o outro assume uma postura crítica diante dos objetivos da guerra e da igualdade de cor. Em paralelo, o presidente atencioso com o primeiro e reflexivo com o segundo e já tiramos daí nossas primeiras conclusões da apresentação do personagem: é, realmente, um cara legal. A primeira escorregada também está aí: outro soldado, agora branco, aparece, conversam e ele cita um trecho de seu discurso mais importante, mas não consegue encerrá-lo. Quando sai de cena, o soldado crítico negro encerra o discurso se provando tão bom e preocupado com a nação quanto seu colega. Por que?
Com uma fotografia escura, em tons sempre frios que sinaliza o momento delicado da História americana, a luz, entretanto, nunca chega. À esperança de um final feliz – conseguimos a 13ª emenda! – a tragédia (quase clichê se não fosse real) do assassinato do herói. A montagem se arrasta presa por um roteiro de eterno vai-e-vem de explicações e justificativas para o fim – agradecendo a boa participação de David Strathairn e Tommy Lee Jones – a continuação da guerra e a importância de abolir a escravidão para o país. Em raros momentos, personagens isolados insinuam críticas ao sistema de governo e às ideias liberais, mas o objetivo é reforçar o mito, sustentar à repetição e de forma superficial a questão racial – ainda assunto delicado nos Estados Unidos – e desumanizar, no sentido exato do termo, a figura central do filme. O que resulta disso é literalmente uma maquiagem excessiva no ator: a impressão é que Daniel Day-Lewis tem 500 anos e que se move lentamente. É fato que os grandes presidentes perdem parte de sua saúde e juventude exercendo o cargo e Lincoln não era um garoto, mas não o extremo que assistimos. Independente disso, é ele quem sustenta a obra, nos surpreendendo com sua atuação. É ele, a justificativa para irmos ao cinema.

Talvez esteja aí a raiz problemática da trama: um roteiro que concorre ao “maior prêmio de cinema” sequer apresenta uma estrutura coerente. Nos princípios básicos de construção de personagem – especialmente sendo ele o protagonista da obra – sabemos que deve ser apresentado, sofrer alguma transformação e crescer, de qualquer forma. São essas elevações e declives que moldam a estrutura fílmica, garantem os ápices e anticlímax que nos prendem a qualquer enredo. O mais próximo disso que assistimos é Lincoln e os seus comprando votos no Congresso para aprovar sua emenda ou o dilema entre protelar a guerra em prol da alteração da constituição. Se fosse no Brasil, um país historicamente corrupto e levando em consideração a nobre causa que o dignifica, comprar votos ou negociar um estratagema para resolver o conflito, seriam problemas pequenos. Talvez por isso não nos surpreenda tanto quanto as críticas sobre o filme feitas por lá. 
Ainda vemos Sally Field como a mãe de família participativa, primeira dama que sofre a perda de um filho e agora um menor risco de perder outro – que decide ir para a guerra. Histérica, como os surtos de sua personagem em Brothers and Sisters, apresenta uma das falhas históricas, em que aparece no Congresso para acompanhar os debates e a votação final da emenda. Imagino que se à época era inimaginável, uma piada, pensar na mulher enquanto eleitora, que dirá ocupando uma cadeira lá – ainda que de ouvinte. Joseph Gordon-Levitt faz um personagem tão de escanteio que não careceria tanto sua participação no filme. Ele é o filho mais velho do presidente, esquecido, isolado. Seu momento de glória é quando decide ir para a guerra, trazendo o drama familiar para o filme. Ainda assim, a supressão de seu personagem não faria tanta falta na história.

O fato é que Spielberg é um romântico ou, ao menos, patriota. A construção disso é clara e parte sobretudo de seu protagonista, da trilha sonora – que faz brilhar o letreiro de Hollywood, tamanha ênfase – e do final com o clímax e posterior conclusão. As derrapadas históricas, concordo com o diretor, fazem parte da construção artística de um fato e doem muito pouco no público. Encantados com Daniel Day-Lewis e seus movimentos limitados, olhar e voz transformados, vemos mais uma vez, um ator completo. Estive me questionando sobre o personagem e, partindo disso, há que se fazer uma retrospectiva de sua carreira para nos darmos conta de que ele não erraria. Olhando fotos no site do filme e o trailer, revivo algumas cenas, olhares do protagonista, ações, postura. Como Joaquin Phoenix em O Mestre, Daniel Day-Lewis justifica a indicação nesta categoria.
Levando em consideração seus concorrentes ao melhor filme, dificilmente ganharia por mérito próprio. A Academia não se baseia somente em qualidade artística e um filme pró-americano, de Spielberg se torna lugar comum. O austríaco-francês Amor e também americano O lado bom da vida são muito mais interessantes e ricos. O peso aqui está na representatividade do tema, no que agrega, na questão racial (olha, há um presidente negro por lá) e na grandiosidade da produção. Não é uma categoria para se levar tão a sério – melhor contar com Filme Estrangeiro, Animação e Documentário – aí sim, costumam fazer boas seleções - mas para entender porque e o que move a indústria cinematográfica americana atualmente e ajudar na escolha do que assistir por aqui. 
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O que esperar de um filme que se chama Amor? Malmente se consegue definir a palavra por sentimento e aí está uma sequência de imagens e sons com o título. O que há no filme para ganhar algo tão almejado por todos? Em tantas músicas, filmes, peças de teatro e poesias, esse AMOR nos mostra mais do que emoção.

Truffaut diz que precisamos trair a realidade para fazer um filme. Essa traição é uma busca pela ilusão necessária do cinema. É preciso comprar o espectador, manipulá-lo, lhe garantir os minutos de alguma fantasia. E diz mais, que os diretores precisam sempre dizer não a alguma coisa para que, a partir desta recusa – ou do estabelecimento de seu dispositivo – buscar a forma de construir uma história. A forma porque cada um tem a sua, pessoal, intransferível – o olhar, nunca o tema (que pode se repetir). Neste filme, o dispositivo que temos é o apartamento. Quase toda a história se passa lá, a não ser por poucos momentos em que o casal indica uma vida social ativa, indo a um concerto. A reclusão é fundamental: a mulher (Anne) sofre um ataque e fica doente. Paralisada um lado do corpo, torna-se dependente de seu marido (Georges) à menor das necessidades enquanto definha. Tendo lhe prometido nunca mais levá-la a um hospital, sua vida se resume a fornecer o conforto para a mulher que ama, a vendo desaparecer diante de seus olhos.

Michael Haneke tem uma forma de fazer cinema. Seu olhar inquisidor parece sempre exigir mais de nós. Violência Gratuita, Caché, Violência Gratuita (remake) e A Fita Branca encarnam temas polêmicos em estruturas que nos obrigam a pensar, nos tirando do lugar comum. Haneke nos engravida de ilusão, por mais realista que seja a obra. E quando as luzes se acendem - sempre se acendem bruscamente em seus filmes - ficamos lá, deslocados com a realidade, ressaltando força e inteligência o que acabamos de ver. Nunca saímos como antes. Amor não é diferente. Confinados no apartamento durante quase toda a duração, não vemos nada além de Georges cuidando e acompanhando o fim de Anne. Ao mesmo tempo, a reclusão os esvazia de realidade, o tempo se perde numa rotina de dias parecidos, numa família que não vê televisão. O contato com o mundo está nas compras que o porteiro faz, nas visitas esporádicas da filha Eva (Isabelle Huppert), sempre culpada por sua ausência e (des)compromisso familiar. É esse isolamento que impõe àquele cotidiano uma gravidade maior, nos preparando para o futuro.

Amor fala do envelhecimento europeu. Com a alta perspectiva de vida, além da previdência social, há a questão de o que fazer com os mais velhos. Uma casa de repouso é a resposta de Eva. Morando em Londres, ela não vê alternativa e não acredita na força do pai. À recusa deste em atender, a solução foi contratar enfermeiras. É esse realismo que a história imprime, a espera diante de um final infeliz firmado num dia-a-dia longo e exaustivo que o afasta do melodrama. Sofremos por conceito, pelo que vemos, mas com uma distância imposta pela ausência de trilha sonora e diálogos firmes. A fotografia de Darius Khondji reforça a frieza do ambiente. Planos fixos, ausência de câmara na mão e aparência natural procuram não enfatizar qualquer caráter emotivo à história já trágica. Ela parece nos dizer 'veja, é assim que se passa a história, preste atenção em como a vida acontece'. Em um filme em que todos os personagens são ligados à música, só a ouvimos quando ela participa enquanto objeto de cena, em momentos específicos. Não há a trilha sonora vinda do espaço, o tema que arrasa corações e nos deixa em lágrimas.

Emmanuelle Riva (Hiroshima, mon amour, Alain Resnais) se despe de qualquer vaidade e enfrenta uma doença da velhice a reduzindo numa senhora frágil e senil, cujo corpo não reage ou se sustenta e o pensamento regride. Assistindo ao filme, fiquei pensando em como uma atriz nos seus oitenta anos se sentiria interpretando uma senhora que está morrendo nos seus oitenta anos. A relativização entre a vida real e seu personagem, ao tempo que não a imuniza de situação semelhante, lhe prepara para um talvez futuro não tão longínquo. Jean-Louis Trintignant (Z, Costa Gavras), por outro lado, segue como se seu personagem dependesse disso, prepará-la para o fim. É dele a prova de amor, o mais profundo, de vida inteira. O carinho no olhar, as confissões inéditas que lhe faz só confirmam que havia ainda muito o que viver e trocar. Mas, ao tempo que Annie deixa de ser, o sentimento se transforma. Agora Georges é também pai. Seu desespero inicial toma o lugar de uma ternura que perde terreno para a paciência e a estafa. Todos os bons sentimentos estão ali, mas até quando, até quanto se pode suportar, até onde é amor?
Deixando o espectador abandonado no cinema, Haneke mais uma vez nos impõe a reflexão. Uma sala grande e lotada saiu calada, cada um pensando em seu futuro ou no presente de alguém próximo. Pensando nesse amor, em Anne e Georges como gente que conhecemos – guardados os excessos ficcionais – em Anne e seu fim, em George e seu fim. Não é um filme tranquilo, é uma representação honesta de um sentimento difícil, sem romantismos ou melodrama e por isso não choramos, não entramos numa catarse, não expiamos nossas dores. Saímos com uma história que não nos pertence, mas nos atinge de forma profunda, como as ações de Georges, como Anne, nas primeiras e importantes sequências do filme. E aí entendemos todas as premiações e, de novo, a força e inteligência do cinema de autor.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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