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Café: extra-forte


A primeira vez que me impressionei com Sarah Polley foi assistindo Minha Vida sem Mim (Isabel Coixet, 2003). O filme é sobre uma mãe jovem que descobre ter um câncer terminal. Centrado na atriz, mostra na tragédia a sutileza diante do fim iminente. A protagonista entende ter como missão preparar sua família para que viva bem sem ela. Essa ideia dolorida e forte é mostrada no filme com uma delicadeza rara, poucas palavras e sem melodrama. Ano passado assisti Stories we Tell, dirigido por ela (perdi alguns filmes no intervalo, como A Vida Secreta das Palavras, Coixet, 2005 e Away from her, como diretora, em 2006). Stories é incrível, um documentário que consegue despertar interesse mesmo tratando da vida de sua família, sem parecer invasivo, fútil ou narcisista.

Take this Waltz ou ridiculamente em português Entre o Amor e a Paixão é um romance. A ficção dirigida por Sarah Polley em 2011 e lançado este ano, trata da jovem Margot (Michelle Williams) dividida entre o amor pelo marido Lou (Seth Rogen) e a paixão inesperada pelo vizinho Daniel (Luke Kirby). Depois de Stories, resolvi levar a diretora/atriz a sério. Sarah entrou para a direção apostando alto e resultando em ótimos filmes, em ficção e não ficção. Canadense, consegue fugir do padrão americano raso sem absorver a suposta profundidade do cinema europeu; os filmes sustentam um equilíbrio de ter algo a dizer e entreter a larga audiência. O próprio documentário já assegura isso com uma linguagem tranquila, trazendo ‘pessoas comuns’ para frente da câmera, mostrando sua insegurança, estranhamento e posterior familiaridade com o equipamento. É como se nos víssemos no lugar deles ao sermos entrevistados e, como é um filme de família, lembramos a nossa própria, rindo das piadas internas e do carinho íntimo que transparece na tela. Neste novo filme, por outro lado, há mais do que uma comédia romântica, mas um filme de personagens sensíveis, onde todos são complexos e categorizar como mocinho ou bandido fica impossível.

Michelle Williams, somando um filme bom a outro, se tornou referência para ir ao cinema. Seus personagens fortes encerram o perfil de recém-saída da adolescência – a primeira lembrança de sua carreira vem de Dawson’s Creek. Aqui, mais uma nuance dos relacionamentos é abordada: um casamento estável e recente entre dois jovens adultos perde sua base diante do novo. O dilema entre uma forte paixão que pode se tornar amor e um amor tranquilo, consolidado e também firme marcam a personagem. Seth Rogen é Lou, o marido tranquilo, uma ponta da corda. Aqui o ator deixa a comédia de lado e assume um homem comum, mas não menos interessante. Com ele não há mistério, Lou é franco, direto, aberto. É alguém que praticamente faz parte de nossa família. Da mesma forma, Sarah Silverman se destaca como sua irmã alcóolatra em remissão, também retraindo a veia cômica muito bem. Geraldine em sua sobriedade e intuição ajuda a cunhada, indicando que o vazio que ela pretende preencher é impossível, faz parte da vida. É o mesmo vazio que a faz procurar a bebida, como uma espécie de ansiedade e melancolia que nos pega desprevenidos de vez em quando.

A construção de Daniel é clara: ele é o ideal romântico, o desconhecido, interessante, artista, atencioso. É o personagem fácil de se gostar, é o que vem de fora, o que traz o novo. Daniel é a curiosidade. Ao mesmo tempo que ele desperta o interesse imediato de quase qualquer mulher, há outras razões para Margot ter se casado com Lou que não a estabilidade - provavelmente Lou foi esse mesmo mistério que ela busca em Daniel. Não há certo ou errado, em resumo. A montagem faz questão de explicitar as relações fora de casa nas escapadas de Margot e Daniel, aumentando a (nossa) ansiedade à medida que eles passam a se conhecer melhor; e dentro de casa com Lou, numa outra ótima situação doméstica e íntima, causando mais dúvidas e algum sofrimento em nossa complicada heroína.

O filme ainda surpreende quando vemos um Canadá fora do estereótipo. É verão e o clima quente imprime sensualidade na fotografia vibrante, cheia de primeiros planos, cores fortes, água e suor, vieses por janelas de vidro e cozinha. Vemos poucas roupas e até o toque dos personagens é carregado de tensão. É essa fotografia que nos prende, que alimenta o filme de forma que não percebemos, mas nos faz mergulhar na história aliviados por não sermos aqueles personagens e, ao mesmo tempo, querendo fazer parte do que vemos ali.

Uma amiga foi assistir comigo e disse ‘lá vem mais um filme sem final’. Acostumada às comédias românticas francesas e americanas, ela prefere aqueles filmes redondos, onde tudo que há pra ser dito é resolvido ali mesmo, na duração do filme. Mas se este se pretende mais próximo da realidade (à exceção da incomum profissão de Daniel), talvez ele não careça de um finalzinho redondo, mas de reticências, interrogações e alguma deixa para o futuro. Sarah Polley faz isso muito bem, talvez seja uma característica dela e não exclusiva da profissão, nas histórias que ajuda a construir, independente do gênero a que se dedica. A condição de permitir que participemos, que elas tomem nossos pensamentos quando saímos da sala, que nos faça discutir e imaginar ou que, pelo menos, tenhamos vivido umas duas horas de prazer, já valem o ingresso e a espera pelo próximo filme.
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Continuando o livro de Polanski, cheguei ao momento em que ele conta a morte de sua mulher, Sharon Tate. A atriz, grávida de 8 meses, foi assassinada em casa pela família Manson em 1969 na Califórnia. Charles Manson é um maníaco hippie que criou uma seita nos anos 60, cometendo uma série de assassinatos. Eu conhecia a história há algum tempo e ela sempre me remete à cena do estupro de Laranja Mecânica, então decidi rever.

Laranja é uma das adaptações literárias (do homônimo de Anthony Burgess) mais cultuadas do cinema moderno. Se você for a qualquer videolocadora – considerando que elas ainda existem – estará na prateleira de filmes cults ou clássicos modernos ou ainda, cinema de autor – Stanley Kubrick. A estória gira em torno de Alex (Malcom McDowell), jovem líder de uma gangue que pratica a ultraviolência – assaltos, estupros, arrombamentos, espancamentos – encorajados por drogas. Após matar uma mulher, Alex é sentenciado a 14 anos e se candidata a um tratamento correcional experimental oferecido pelo governo. Sai da prisão dois anos depois, avesso à violência ao limite da náusea e pensamentos suicidas. Ao voltar para casa, descobre que ali não é mais seu lugar, reencontra acidentalmente suas vítimas na rua e se torna, ele mesmo, vítima delas.
A importância do filme está tanto no texto quanto em sua adaptação. Kubrick manipula as características de Alex, o tornando simpático em todo o seu sadismo; aprendemos a gostar desse sujeito sarcástico que nos seduz com o olhar, com a liderança do grupo e a narração irônica, com neologismos próprios à geração jovem. O Alex de Burgess, por outro lado, é menos cativante, conforme conta Pauline Kael em sua crítica em 72. Ela diz que no livro Alex atropelava animais, espancava outros presos e gostava de garotas de 10 anos. Foi dela a conclusão de que nos filmes, somos gradualmente condicionados a aceitar a violência como um prazer sensual. Kubrick faz isso com precisão – ao tempo que nos traz um protagonista-vilão que se torna simpático apesar do que provoca, pinta todos os outros personagens (exceto o Ministro do Interior – outra figura sedutora) literalmente com tintas carregadas. São caricaturas de pessoas, estridentes, barulhentas, irritantes, cheias de maquiagem, cabelos coloridos e figurinos esdrúxulos, quase saídos de um filme de David Lynch. Ou estão à beira da passividade, como os pais de Alex, ou ao ponto de um surto psicótico, como o escritor, a dona do spa, o histérico diretor da prisão.  É impossível estar ao lado deles.

A fotografia dos filmes de Kubrick parece ser sempre estratégica. Com temas violentos, o diretor combina poucos momentos de câmera na mão – a movimentação da subjetiva por si só aumenta a agonia do espectador – com o oposto: planos quase fixos, com a câmera correndo em trilhos, em travellings lentos horizontais e aprofundando – com o apoio das locações e cenários – a perspectiva, em busca da nossa ansiedade da descoberta. Como resultado, queremos sempre ver. Para além de um bom filme de terror – em que ficamos entre descobrir e sofrer junto às vítimas (o olhar entre os dedos) – Kubrick orienta nosso olhar sempre para o centro da tela, o importante está ali, como um caminho que vai se afunilando, a frágil luz no fim de um túnel que nunca termina. Queremos e precisamos saber o que acontece, mesmo entendendo que dali não sairá nada bom.
Ainda nas cenas fortes, enquanto Alex é o algoz há sempre alteração da velocidade do corte e da cena em si, esvaziando a gravidade do que vemos, transformando o crime numa paródia teatral. Um espancamento em slow com música clássica às alturas remete mais a um espetáculo de dança do que chutes e socos; a animação quando ele ataca a dona do spa e até um ménage acelerado ganha outras conotações. Nada ali parece muito sério, tudo é parte de um balé sádico, mas infantil. Kubrick nos diverte ao invés de incomodar. Quando, por outro lado, Alex se torna vítima das experiências como cobaia na prisão, quando revê seus pais ou reencontra suas vítimas, a câmera espera: a montagem quase para, nos obrigando a uma contemplação que beira o tédio, de ver a apatia do personagem transformado e a ruína de suas expectativas, agora que está livre.

A relação entre o assassinato de Sharon e o filme é clara: vemos a casa do casal invadida pela gangue, o marido amarrado e preso e Alex cortando a roupa da mulher. Percebemos o horror do acontecimento no olhar agonizante do marido: a câmera nunca se vira para nos mostrar o óbvio, mas se concentra expressão torturada daquele que nada pode fazer. Sharon foi assassinada na ausência de Polanski, que estava em Londres, à espera do visto americano. A atriz estava em casa, com mais 4 amigos e amarrada a um deles – provavelmente pensaram que eram um casal. Todos foram amarrados e assassinados a facadas pelos Manson que, da mesma forma, chegaram no meio da noite.
As reviravoltas do filme abrem um leque para o imprevisível: fica clara a crítica à sociedade, à forma de governo, a uma geração perdida. A ficção científica traduz uma época em que nada parece progredir, quando as transgressões são a regra. A moral se perde à medida que vemos a trajetória de Alex e não sabemos o que é pior, sua transformação em um robô programado para o asco à violência ou sua versão original nociva por natureza. A dualidade que encontramos no herói se torna o cerne do filme, automaticamente destruindo a importância das consequências de suas ações em um futuro infeliz.
Visto pela primeira vez, o filme é de um impacto tremendo para o espectador. Esteve na minha cabeça como um dos melhores filmes que já vi por muito tempo. Numa segunda vez, isso se perde um pouco, já que sabemos todas as alterações de percurso de Alex. Ainda assim, é um filme para rever, mas confesso que em alguns momentos perdi o ritmo e a excitação que o olhar de Alex provoca. Mas, a sedução é permanente: as variações da nona sinfonia de Beethoven, nossa alegria quase masoquista de sofrer nos filmes de Kubrick, a fotografia inteligente e narração triunfante são imortais. Não sei mais se está entre os meus dez melhores filmes, mas entre os cem, com certeza.
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Roman Polanski tem uma história de vida difícil de defender. Tal qual Woody Allen, lhe pesa uma acusação forte e bizarra, entre estupro e pedofilia que o torna asqueroso e quase dá raiva ver seus filmes ótimos perderem valor com as acusações que recaem sobre seu diretor. Em todo caso e sem defender ninguém, trago a crítica de Repulsa ao Sexo (1965), indubitavelmente um grande filme.


Há uns anos, comprei uma autobiografia de Roman Polanski num sebo. Comecei a ler, mas me perdi no meio. Depois de ter visto um documentário meio fraquinho sobre ele no Festival do Rio, peguei o livro de volta. Boa parte do que Roman contava na conversa com o amigo diretor do filme, eu já havia lido, mas me deu uma curiosidade de saber com que filme ele conseguiu o reconhecimento.

Depois de A Faca na Água (1962) – seu primeiro filme com alguma reputação na Europa – Roman fechou em Paris em 20 dias o roteiro de Repulsa ao Sexo. Em sequência, foi à Londres e lá conheceu a Compton Club, uma mistura de produtora de filmes e exibidora de eróticos que queria mudar de ramo – e de imagem. Eles toparam fazer o que classificaram como filme de terror. Fecharam o orçamento em 45 mil libras – que logo se transformaram em 95 mil – e depois de alguma dificuldade de produção, o filme ficou pronto.

Como resultado, Repulsa ao Sexo tornou-se um compromisso artístico que nunca chegou à plena qualidade que eu buscava. Rememorando, os efeitos especiais me chocaram como sendo descuidados e os sets poderiam ter sido mais bem acabados. Entre todos os meus filmes, Repulsa ao Sexo é o de menor qualidade – tecnicamente, bastante inferior ao padrão que tentei alcançar. Sua insatisfação é justificada no livro; como o filme estourou o orçamento, volta e meia seus produtores tentavam encurtar a produção, afetando o resultado final. Ainda assim, Roman conseguiu muito do que tentaram cortar, mas sempre sob grandes lutas e discussões que quase o levaram a desistir. Com todo tormento, o filme é soberbo, Repulsa levou o Urso de Prata em Berlim, em 65.

Carol (Catherine Deneuve)
Contando com Gil Taylor, o fotógrafo de Dr. Fantástico (1964)  e Os Reis do Iê-iê-iê (1964), o filme é genial. A censura inglesa não fez cortes e psicanalistas perguntaram a Roman o que ele havia estudado para a construção de Carol, a personagem de Catherine Deneuve baseada em nada além de uma garota estranha que saía com um amigo dele em Paris e alternava entre a repulsa e um desejo sexual desenfreado. O filme é centrado nela, uma manicure linda e jovem, tímida e introspectiva que mora com a irmã. Insegura com a proximidade da viagem de férias desta, Carol insiste para que ela fique em casa, quase um apelo desesperado como quem vislumbra o mal à espreita. Dito e certo, quando só, Carol inicia um surto psicótico com alucinações de homens vindo a seu encontro. O filme foi o primeiro da trilogia do apartamento que surgiria com o sensacional O Bebê de Rosemary, em 1968 e O Inquilino, em 1976.

Trabalhar com Catherine Deneuve era como dançar um tango com um parceiro super hábil. Ela sabia exatamente o que eu desejava dela no set. Entrava direto no âmago do seu papel – tanto, que quando a filmagem terminava, ela própria parecia alheia e um pouco aloucada. A essa época, Catherine tinha 22 anos, mas já uma carreira no cinema, tendo feito mais de dez produções. A atriz segura o filme quase silencioso, com a câmera sempre próxima a seu rosto sem maquiagem, reagindo ainda à trilha sonora que enfatiza a tensão sem a gratuidade do suspense americano. O único momento de maior impacto sonoro é a primeira cena de alucinação, que nos faz pular da cadeira.


As notas de produção sobre Repulsa estão em pouco mais de dois capítulos do livro. Dá vontade de seguir contando tudo, mas aí se perde um pouco do filme. Vale ver como o suspense é criado com pouquíssimos diálogos, como Catherine incorpora Carol e como é esse estar alheia e um pouco aloucada de que trata o diretor. O olhar perdido, a ameaça constante de algo que não vemos, a distorção dos espaços. Para isso, a produção construiu um apartamento cujas paredes pudessem se mover, a fim de criar a ilusão de alteração da percepção espacial que uma distorção psíquica pode provocar. Hitchcock havia feito isso antes em Um corpo que cai (1958), quando James Stewart sobe uma longa escada em espiral. Com medo de altura, ao olhar para baixo a escadaria parece ainda maior e é, na verdade. Não havendo forma de alterar graficamente as cenas na época, era sempre necessário construir cenários flutuantes para garantir o efeito desejado. 

Repulsa ao Sexo se tornou a porta de entrada oficial de Polanski ao cinema do mundo. Com uma biografia tortuosa que envolve sua família campos de concentração, Segunda Guerra, lares adotivos, assassinato da esposa e suspeita de estupro, não existe forma de não respeitar esse cineasta por sua resistência. Desde pequeno buscando a educação profissional para o cinema, considera O Pianista (2002) seu melhor filme – talvez por ser um pouco autobiográfico – o que nunca significaria que os demais não são tão bons quanto. Repulsa e Rosemary, Lua de Fel (1992), A Dança dos Vampiros (1967) são inesquecíveis. Talvez em O Pianista ele tenha conseguido tudo o que sempre quis num filme e portanto a preferência, mas a tensão criada e os desdobramentos inevitáveis de Repulsa nos deixam meio estranhos no final, pensando, como ele nos conta, que qualquer pessoa, uma vez ou outra, experimentou um pavor irracional de alguma presença sinistra em sua casa. Uma ocasional troca de móveis, um assoalho que estala, um quadro caindo da parede – qualquer coisa pode disparar essa sensação. O que criamos a partir deste medo é que vai nos distinguir ou nos aproximar de Carol. Mas isso é outra história.
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Quando mudei para o Rio, morei sozinha por um tempo. Das coisas que mais sentia falta de Salvador, uma era comer em família. Não lembro ter feito alguma refeição completamente só na minha cidade. Com a família sempre perto (e numerosa) e amigos de todos os dias, eu vivia a plenitude das conversas no almoço, jantar e café da manhã. Sem falar nos acarajés, sorvetes e cafés, claro. Quando viajo sozinha acontece o mesmo. Não é a toa que quando estamos nesta condição, nos resta o esforço de conhecer pessoas interessantes para compartilhar os momentos fundamentais do convívio social.
18 comidas é um título óbvio. É sobre isso de que trata o filme, literalmente. Dividido em 3 partes – café da manhã, almoço e jantar – vemos as 18 estórias de personagens que se cruzam ao longo de um dia. Produzido na Espanha, o filme nos deixa com mais vontade de visitar o país só para participar daquela situação simples e deliciosa, daquelas pessoas e cultura que, mesmo em ficção, parecem acontecer todos os dias.
Há três cenas de uma mesma estória que gosto muito: um casal idoso e simples, sentado à mesa, sem dar uma palavra, comendo. O diretor me ganhou aí: sem um diálogo, um ‘a’ ele nos mostra que nada mais é necessário: os dois são cúmplices de uma vida inteira e muito do que há pra se falar já foi dito ou não precisa ser explanado à mesa. Aquele momento íntimo é deles dois – que acho até que não são atores, mas apenas um casal. Eles são muito reais.
Mudando para a ficção em si, vemos estórias de solidão, amor, sedução, de vida, enfim. São diversos os momentos que nos acompanham junto às refeições que – muitas vezes – são definidores de nossos futuros, momentos de decisão. Essa situações à mesa nem sempre são tranquilas e felizes, bem sabemos. O filme tem um ar simples, orgânico e é clichê, mas: dá água na boca. A Espanha, como o Brasil, tem uma riqueza gastronômica que faz com que as comidas pareçam sofisticadas, quando o preparo pode ser muito simples. Imagino que o fotógrafo perdeu um bom tempo traçando o conceito da luz, deixando cada história com um tom diferente – aí refletido também no prato e em seu preparo – nos seduzindo aos poucos.
Os atores são muitos e todos seguram bem o filme. Três deles, de três histórias me chamaram a atenção: o personagem de Pedro Alonso, o ator que prepara um café da manhã para Laura; o de Xosé Barato, o aniversariante, e a de Esperanza Pedreño, como Sol, a jovem e solitária mãe de família. O personagem de Pedro é um sedutor que busca conquistar sua amada pelo paladar, mas encontra dificuldades par alcançar o objetivo. O inesperado está sempre a seu redor. Já Lucas (Xosé Barato), é um jovem que acaba de acordar na casa de uma garota bonita e lhe prepara um café da manhã. É seu aniversário e ele conta com a expectativa de uma grande festa. Por fim, a mais intrigante das personagens, Sol, uma mulher perdida entre o vazio e a insegurança de um casamento infeliz. Não sabemos muito dela e o que vemos são expressões quase descontínuas, como se cada fala fosse revirada por dentro antes de se soltar no ar, trazendo ainda mais questões para nós e para esse amigo que não vê há tanto tempo e que está surpreso tanto pelo convite, quanto pela situação. É este personagem, Edu, quem dá o ritmo do filme: um cantor de rua, que a cada par de contos, canta trechos que se relacionam sutilmente com o que vemos.
Checando no site, confirmei, há muita improvisação. A estratégia do diretor era deixar os atores livres para se dedicarem a seus personagens, a fim de encontrar um resultado mais autêntico. Foi um risco acertado, já que o filme imprime intimidade, como se cada par envolvido nas estórias se conhecesse há tempos. E as cenas sérias, de discussão ou silêncios funcionam bem. Há uma tensão real no olhar de cada um, até por não saber como o outro vai reagir.
Estruturado como um panorama que parece cobrir as variáveis de situações nas três refeições principais, o filme alterna entre momentos de tensão lenta, de construção da ansiedade no personagem e no espectador, bem como outros instantes de puro deleite e alegria. Filmes de comida já ganham pontos por seu tema. Esse, como Simplesmente Martha – que já vi zilhões de vezes – carregam a paixão pela boa comida ao lado de boas histórias. Fui ao cinema sozinha e este foi meu primeiro filme no Festival do Rio de 2012 mas, para as refeições, ainda prefiro estar em boa companhia.
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Acho engraçado quando me perguntam sobre o que vou assistir no cinema: mas é documentário ou filme? Não que não exista diferenças entre a ficção e a não-ficção, mas os dois tipos de produção têm as mesmas características primordiais: podem ser sobre um fato real ou não, têm narrativa, personagens, diálogos, trilha sonora... o que muda é só a forma, nada mais. Ainda assim – e por mais que o público para esse tipo de filme tenha crescido bastante – rola um preconceito, como se a ficção fosse responsável por todo o entretenimento e sobrasse só a parte chata para o documentário. 

Histórias que Contamos é um documentário que lotou as sessões do Festival do Rio. Foi uma surpresa, é verdade, não esperava que um filme canadense sobre a família de uma atriz não blockbuster tivesse tanto apelo, mas me enganei. Sarah Polley tenta recontar a história de sua mãe através de conversas com seus irmãos, pai e amigos próximos, a fim de descobrir como era essa mulher que ela conheceu por tão pouco tempo.

Por que um filme sobre uma família que não conhecemos nos interessaria? Os documentários têm se tornado cada vez mais pessoais, centrados em experiências de vida dos próprios diretores ou ainda, buscando nas pessoas comuns, motivos para filmar. O meu interesse é claro; gosto de buscar uma forma de contar histórias reais com imagens, de encontrar uma particularidade no mundo que seja interessante ilustrar e que sim, tenha alguma relação comigo – cá entre nós, todos os filmes têm a ver com seus autores, exceto talvez, por aqueles dominados pelo mercado. Fui para este filme depois de ter visto os primeiros segundos do trailer. O carimbo do NFB – National Film Board, do Canadá – ajudou: acompanho os filmes deles há algum tempo, especialmente os projetos interativos, alguns são incríveis, mas sem divulgação para atingir grande público. O Canadá tem uma forte e tradicional escola de cinema – documental e de animação – que investe em projetos criativos e diversificados, basta ver no site o volume de produção. Então, além do selo, o trailer me ganhou com a seguinte locução off em imagens domésticas: quando você está no meio de uma história, ainda não é uma história. Mas apenas uma confusão, um rugir obscuro, uma cegueira. É só depois que se torna algo parecido com uma história, quando você a está contando para você mesmo ou para outra pessoa. Se pensarmos bem, é isso mesmo: uma história só existe a partir do momento em que é contada, em que é criada uma narrativa sobre um acontecimento. Fui ao cinema.

Além do jogo narrativo com diversos ângulos da mesma história, é um filme de família. O tema sedutor promove um olhar sobre os entes queridos não apenas para guardar registros, mas para descortinar um mistério íntimo. Para quem foi criado em uma família unida, fica claro que ela é a principal responsável por construir uma visão de mundo em que você faz parte, baseada na educação, nos valores e na cultura privada que o núcleo desenvolve. Interessa bastante – e é voyeurista – perceber como os outros vivem, como carregam as características que os definem como parte desse grupo e os diferencia dos demais, como percebemos sua intimidade até parecida com a nossa, sem fazer disso um reality show.

Quando eu vim pro Rio em 2008, participei do Recine, um festival de cinema de arquivo que ofereceu uma oficina de realização. Dela saiu No tempo de meu avô... um filme de 3 minutos em que eu fiz uma brincadeira, uma homenagem a meu avô paterno que faleceu quando eu era criança. Como não soube muito dele, busquei na família – em minha avó principalmente – suas histórias, queria conhecê-lo da forma que era possível. Com fotografias antigas e imagens do Arquivo Nacional brasileiro, construí fragmentos de uma vida que talvez tenha sido um pouco real. Qual não foi a minha alegria quando vi Sarah Polley fazendo algo parecido sobre sua mãe?

O filme dela é um longa-metragem lindo. Monta a trama a partir de entrevistas atuais com seus irmãos, com o pai e amigos, imagens de arquivo em super-8, incrementando o caráter afetivo do que vemos. A película de super-8 granula muito fácil e dá aquela impressão de foto antiga, de máquina de revelar. Mesmo não sendo imagens de nossa família, imaginamos nosso pasado com essa cara de registro também. Juntando a isso, temos filmagens complementares – reconstituições com atores, ilustrando o que faltava. Sob a narração de seu pai, conhecemos sua mãe e vamos além: não é pela exposição familiar, a revelação de um segredo, mas uma construção narrativa complexa de um acontecimento tão mirabolante, que o pai resolveu colocá-lo no papel. É esse o texto que ele lê para nós. Sarah, por sua vez, fala muito pouco. Ela é quem faz as perguntas, mas pouco responde quando é questionada. O objetivo dela é ouvir, mostrar ao espectador como cada um conta a história - ou sua história. Com uma equipe enxuta e sendo integrante da família que quer saber o que os outros pensam, as entrevistas são sempre carregadas de lembranças de momentos especiais e situações inesperadas. Estamos com a diretora, que transforma em presente uma descoberta já feita e cria em nós suspense, sofremos de ansiedade até o clímax, rimos e nos emocionamos; aquela família é a nossa, durante os 108 minutos da projeção.

Premiada em diversos festivais e indicada a outros tantos, Sarah Polley é uma atriz reconhecida. Nos traz esse documentário, dirigido e escrito por ela, que segue visitando diversos festivais. Para ela, como para mim, cada familiar é participante ativo de uma memória coletiva, em que cada um entende possuir a versão verdadeira dos fatos. O interessante é que existem tantas versões quanto são seus atores e é essa fascinação por encontrar o real a partir do outro que nos move. Ela constrói com cada olhar, um mosaico de informações que se complementam e se contradizem a todo instante. A partir daí, vemos uma questão se formar em nós: onde está a verdade? Quem a detém? E a resposta surge como outra questão: importa? Não são todas essas histórias um pouco verdadeiras?

Aqui um texto de Sarah sobre seu filme.
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Outro dia estava passando na tv o melhor programa que o Multishow já exibiu, Não conta lá em casa. Para quem não conhece, ele gira em torno de 3 amigos que viajam para os sítios mais perigosos do planeta – perigosos aí por diversas razões – e nos contam como é a vida lá fora. Essas visitas a lugares extremos são repletas de informações bacanas – para além da experiência narcisista daqueles que mostram jovens mochileiros curtindo a vida ou de bicicleta por praias paradisíacas, porque isso por si só seria interessante – consegue ser crítico sem ser maçante, com linguagem simples e jovem, que todo mundo pode entender. Trata sempre de temas fortes e importantes para a formação e informação de qualquer espectador. É uma pena, na verdade, que seja tão curto – entre 26 minutos.
O episódio era em Chernobyl. Os amigos foram guiados por uma mulher que dava os detalhes do acidente, do que aconteceu antes, durante e depois. Usavam casacos compridos, com gorros ou bonés para não encostarem em coisa alguma. Não lembro se usavam luvas, mas andavam um medidor de radiação portátil que apitava constantemente e era o que definia até onde eles podiam ir. Não havia como desligar o som e quando o bipe ficava mais frequente e mais intenso, era zona proibida. A tensão que esse som provocava neles e em nós – espectadores seguros em casa – era quase insuportável. Eles visitaram os espaços abandonados da cidade, mas não podiam tocar em nada: plantas, móveis, paredes, tudo ainda estava contaminado. 26 anos depois do acidente.
Terra Esquecida é uma ficção ucraniana que fala da vida após aquele 26 de abril de 1986. O filme acompanha duas histórias: a de Anya (a irreconhecível Olga Kurylenko de 007 Quantum of Solace), que perde o marido no dia do casamento quando este foi chamado conter um incêndio – o governo tentou esconder da população o acidente, transformando a catástrofe numa desgraça ainda maior – e a do engenheiro nuclear que tem que ficar na cidade e obriga sua mulher e filho a irem embora. De uma terra feliz e com orgulho soviético estampado nos cartazes, monumentos e alegrias desenvolvimentistas, vemos agora tristeza no olhar de todos. Toda a cidade de Prypiat é evacuada 3 dias depois para regiões seguras, mas ainda próximas.
Dez anos se passam e Anya é guia turística da região de Chernobyl. Namorada de um francês que quer voltar a Paris e amante de um morador de Prypiat, cidade que virou sítio turístico da desolação, vive entre a busca de outra vida além de seu passado e cultura, e a necessidade quase biológica de estar perto, porque estar ali é viver a realidade dos seus. O filme é narrado por ela em francês, lembrando Hiroshima, mon amour. Em 1959, Alain Resnais mostra a relação amorosa entre uma francesa e um japonês na voz dela, perguntando, questionando, tentando entender o que foi aquela catástrofe. Aqui, com menos poesia mas um olhar também íntimo, ela narra para si, Anya está perdida.
O filme escapa do melodrama gratuito que o tema produziria e segue para um cotidiano sem saída em que nós, impotentes e tensos com tanta contaminação radioativa, assistimos. As cenas fortes são sutis, se concentram nos diálogos duros, na força das interpretações que, em sua maioria, parecem ser de não-atores. Os indícios da catástrofe se percebem com as alterações climáticas, logo no início do filme. É angustiante saber o que vai acontecer antes dos personagens, entender o destino trágico que os aguarda enquanto eles vivem confusos, aquela situação sem controle. Ainda assim, o filme é rico em imagens de vazio, do que foi deixado para trás, imagens cinzas de um passado promissor. Ainda assim, não foi necessário chegar ao grotesco, de corpos alterados e doenças cruéis.

O assunto de ver imagens da desgraça alheia lembrou o livro Diante da Dor dos Outros, de Susan Sontag. Aqui, ela trata das imagens de guerra e atrocidades, em como e por que as vemos, como reagimos a elas. Concordo quando nos diz que por mais impotentes estejamos diante do que vemos (que normalmente é o outro, o que está distante de nós), tais imagens não podem ser mais do que um convite a prestar atenção, a refletir, aprender, examinar as racionalizações do sofrimento em massa propostas pelos poderes constituídos, e a partir de então entender o porquê, como e quem são os agentes daquela dor. O fato do filme não seguir para uma vitimização gratuita é que o torna fundamental. Ele trata de um fato que aconteceu no passado e como a sociedade reagiu a ele, da forma que pôde.  
Tomei um susto quando vi a ficha técnica e descobri que a moça bonita de 007 era Anya. Ela surpreende pela transformação não apenas física, mas do olhar, da expressão sempre triste. Em seu primeiro filme de ficção, a diretora israelense Michale Boganim nos apresenta uma estória de amor quase documental – o que vemos ali é real, basta buscar fotos da região para conferir – de uma cidade perdida no tempo e isolada do mundo, ainda perigosa e doente, mas jamais esquecida por quem viveu ali.

Mais sobre Chernobyl aqui.
E aqui sobre Prypiat.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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