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Café: extra-forte

À primeira vista, logo na apresentação da sessão, Amir Labaki nos introduz a Jorgen Leth, o diretor dinamarquês. Simpático, falante, assume o filme como extremamente pessoal e desinteressado da crítica e público, mas um tanto curioso para responder às futuras perguntas. Não falou muito sobre o filme, apresentou seu filho musicista e autor da trilha e vamos lá.


Corpos nus. Corpos femininos nus de mulheres jovens do Brasil, Venezuela, Haiti, Filipinas, Laos... não vemos América do Norte nem Europa, um pouco de Paris, sutilmente... por mais que eu tentasse ver o filme sem a ótica clichê da exploração sexual nos países ‘subdesenvolvidos pelo colonizador’, foi quase impossível fugir disso. O filme é sensual, mas não erótico.

O que entendo como erotismo é uma definição que se completa com o mistério. O erotismo pode estar num olhar, num sorriso e mais do que tudo, no que não se vê. É justamente o que perdemos aqui. Todo o exibicionismo dos corpos nos deixa com uma sensação de vazio ao tempo que o objetivo do erótico se constrói apenas com as questões do protagonista-diretor, mas jamais com respostas. É como uma adolescência tardia, desvendar o erotismo com poses e nus. O objetivo não seria o contrário?

Assisti com um grupo de 4 rapazes latino americanos. Saímos do filme e comentando com o venezuelano, chegamos à conclusão de ser sobre um senhor de meia idade que resolve viajar para se divertir com jovens e lindas mulheres. A forma como a câmera as invade nos quartos de hotel torna tudo ainda mais estranho. É um filme de exploração. Na seleção do elenco, ele as informa de que é um filme para reviver momentos do passado, romances antigos e que, com isso, elas irão sempre a um quarto de hotel se despir e ele vai filmar. Não teremos cenas de sexo. Durante o casting, vemos uma personagem que se diz atriz e ‘engole cobras’. Por mais inusitado que seja o fato na vida real, carregá-lo dentro de um filme com uma temática bacana, mas numa forma estranha, deixa tudo um pouco pior - grotesco e gratuito.

Fui ao filme achando que encontraria algo diferente. Vi um filme do diretor ano passado e me chamou atenção sua desenvoltura com a linguagem, como surpreendia a cada nova investida do produtor. The 5 Obstructions é um filme incrível. Lars Von Trier impõe cada vez mais regras para fazer a mesma seqüência e Jorgen Leth consegue vencê-las com maestria. Entendi que novamente veria algo interessante.

Ainda nos testes de elenco, ele faz questão de informá-las que não haverá cenas de sexo. Uma mulher nua num quarto de hotel já não imprime sexo na tela? Os closes justamente nas partes 'sensuais’ do corpo não são um indício? Será essa provocação o objetivo final? Mais feliz seria o filme que vi há milênios, Uma Relação Pornográfica. Aqui, uma mulher e um homem se encontram após responderem a um anúncio de jornal com o objetivo de realizar suas fantasias sexuais num quarto de hotel. É um filme belíssimo, inteligente, divertido e que mostra tudo o que precisamos ver.

As cenas de Erotic Man realmente causam impacto e ele nos informa, enquanto ator e autor em sua obra, que pretende descobrir o homem erótico e tentar transpor o erotismo na tela, mas o que vemos são corpos em camas, com um texto poético que se repete talvez tentando imprimir algum sentido de conjunto, que termina no vazio. É a expressão do que parece ser o sonho, desejo, capricho ou fantasia do diretor, num filme feito para si, como nos alertou e de fato não passa disso. Em todas as cenas em que se apresenta, apenas questiona, mas nada responde. Melhor seria deixá-lo em sua casa, para deleite próprio.

Da mesma forma como a estrutura do filme é de repetição da ação, tento não trazer isso para o texto e recordo a fotografia que remete ao passado, com uma névoa, uma imagem não tão limpa como nos acostumamos a ver – aí sim, um ponto positivo – e não muito mais.

Duas cenas chamam atenção por motivos diferentes: uma rememora Acossado, quando uma negra – vestida – senta-se numa cadeira e se vê observada por um homem com um palito na boca. A troca de olhares, os óculos Ray ban do homem, os closes e seu palito; a expressão final o transforma no grande personagem de Godard, Michel Poiccard. A cena número dois é mais impactante, polêmica e ainda tento entender sua razão no filme. Vemos uma cerimônia religiosa – candomblé, umbanda ou alguma parecida – em que uma de nossas protagonistas está incorporando alguma entidade e se manifestando. A cena se desenvolve, vemos o protagonista-diretor distante e vendo tudo do alto numa varanda, acompanhando o transe crescente, ela dançando, se transformando, se movimentando numa forma cada vez mais insinuante, claramente ‘fora de si’, exibindo seu corpo numa provocação, mais uma vez, sensual. Por que esta cena? O que se buscava com isso? Não seria um desrespeito a uma cultura que não pertence ao diretor? Não é um olhar colonizador se impondo sobre o colonizado mais uma vez?

Saí desconfiada, com um ‘sei não’ estampado no rosto. Uma parte de mim se sentia perdendo tempo com essa exibição e a outra, mais condescendente dizia que serviu para pensar, ainda que a estrutura do filme não se sustente e que s epercebam questões difíceis de aturar. Vemos imagens, criamos conceitos com o filme, levantamos questões, saímos com ‘mulheres bonitas’, ‘países exóticos', ‘dinamarquês’, ‘belíssima fotografia’, na cabeça. Não digo que falta justificativa – porque esse não é a finalidade dos filmes – mas também não encontrei objetivo. Por fim, acho que a vaidade, o machismo e o narcisismo foram além e os patrocinadores acreditaram em seu perfil de obstruções para confiar nesse novo 'sucesso' de filme de homem branco europeu. 

*Trailer aqui.
*Esse e outros realmente bons no É Tudo Verdade 2011.
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Acabo de voltar do cinema. Vi com uma amiga uma comédia romântica gostosa que nos deixou comentários divertidos e comparações com a vida real. Não é o melhor filme do mundo, mas também não é uma sessão da tarde, como ouvi na saída. O que me chamou a atenção foi como compreendemos tão rapidamente essa ‘sessão da tarde’ e com base nela conseguimos julgar a qualidade de um filme.

Sem levar tão a fundo a discussão, definir a qualidade de um filme no cinema como ‘sessão da tarde’ pode ser mais complicado do que aparenta. Para quem chegou ao Brasil hoje, Sessão da Tarde é uma faixa semanal da Globo de exibição de filmes. É naquele meio de tarde de segunda a sexta, onde estão em casa as crianças, os aposentados, pessoas enfermas ou de folga – meio sem ter o que fazer – e que assistem a um filme qualquer que esteja passando. Mas que filmes são esses?

Hoje eu realmente não sei. Tive uma ampla cota da programação durante minha infância e adolescência e vi alguns filmes incríveis que hoje tento encontrar. Curtindo a vida adoidado, Clube dos 5, Gatinhas e Gatões, Esqueceram de Mim, História sem Fim, Labirinto, A Lagoa Azul, Meu Primeiro Amor, Conta Comigo, Os Goonies, Gremlins, Ghostbusters, Os Garotos Perdidos são os que lembrei agora e  por quais quase todos da minha geração são aficionados. Garanto que alguns, inclusive, são melhores do que o que vi hoje. É meio nebuloso identificar os outros filmes incríveis, não me lembro agora se estavam enquadrados nesta Sessão, mas acho que sim, como Te pego lá fora, Três Solteirões e uma pequena dama, Querida, encolhi as crianças, Olha quem está falando, Quero ser grande, Harry e Sally. São também deliciosos.

Os filmes que me moldaram e me fizeram ser esse aglomerado de pensamentos, sentimentos e o que mais possa existir para definir uma pessoa, tinham uma comédia ingênua, boba. A adolescência era o primeiro beijo aos 14, o primeiro amasso, as amigas-irmãs, os grupinhos de escola, as brigas bobas, as piadas bobas, o rock’n roll não tão pesado, o primeiro porre. Tudo bem que minha adolescência foi um retardo da infância em grande parte, mas ainda assim tinha relação com o que acontecia nas sessões da tarde e nessa época ninguém se importava com dublagens.

Acontece que nem só de bons filmes vivíamos. A Sessão da Tarde conseguia ser muito trash algumas vezes, com filmes repetidos até a exaustão e que só copiavam fórmulas de sucesso anteriores. Seqüências de alguns filmes acima é o exemplo. Esqueceram de mim foi até o 4 e tivemos também o impossível De Volta a Lagoa Azul, só pra sentir o drama. Não dá pra aturar essas coisas e é daí talvez que venha a expressão da mocinha que saiu do meu filme hoje. Mas este também não era ruim de todo...

Estamos falando de Sexo sem Compromisso, com Aston Kutcher e Natalie Portman. De cara, você já sabe que é uma comédia romântica. Não precisa nem ver o trailer, basta ver o cartaz. De cara, você já sabe que tudo acabará bem e que é um filme alto astral, não importa o enredo. É a mesma coisa de sempre: mocinho conhece mocinha. Os dois se separam.

Tudo acaba bem. Saímos felizes e com inveja daquela ilusão toda. É sempre assim. São comédias românticas, feitas especialmente e sob medida para nos causar esse efeito. E não adianta teimar com isso: o mocinho e a mocinha são lindos. Sempre. Partindo desse princípio, podemos deixar de lado o excesso de crítica e nos entregar, como quem não quer nada, a alguma distração boba.

Não é o melhor filme dos dois atores, na verdade passa longe disso, mas também nos ocupa com bobagens positivas, ilusões desnecessárias – como diria o mocinho de outra comédia romântica (essa sim, muito boa) 500 dias com ela – e risadas cúmplices. A verdade é: normalmente os rapazes não gostariam deste filme, as moças o acham bobo e é, de fato. Mas eu sou boba e me diverti bastante. Se fosse enquadrar na Sessão da Tarde, colocaria um tanto abaixo de Harry e Sally, mas ainda distante de De Volta a Lagoa Azul ou, pra quem não os viu, entre a clássica comédia romântica super legal e o cúmulo da inocência num filme que perdeu a diversão e deixou apenas o tédio.
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Quando estava na faculdade de cinema anos atrás, estudei um pouco sobre linguagem. Numa matéria que não me lembro agora – se oficina de comunicação escrita ou semiótica – tratamos da origem da linguagem, do fim da oralidade para a escrita e me surgiu uma questão que ficou sem resposta: como é pensar sem palavras? Porque, toda vez que pensamos, frases, verbos, construções lingüísticas são feitas em nossa mente. Como Oliver Sacks diz em Vendo Vozes, a fala faz parte do pensamento.

vendo-vozes

Estava no sebo aqui na frente de casa – que por sinal vai fechar as portas e me deixar tristíssima mês que vem – vendo se achava alguma coisa que me despertasse a curiosidade e meio sem querer, o cara que trabalha lá me mostrou esse Vendo Vozes. Resolvi levar e, entre a dúvida e o arrependimento por ter dito isso, fui pra casa com o livro na mão. Achei que esse poderia ser daqueles que compramos no impulso e ficam empoeirados em casa como uma proposta para um futuro improvável. No fim das contas, comecei a ler o livro e não consigo largar dele.

O livro trata um pouco da história da surdez pré-lingüística e o surgimento da língua dos sinais e de sua importância. Surdez pré-lingüística foi o termo que deram para aquelas pessoas que nascem surdas, que não tiveram acesso até onde se recordam de ouvir qualquer palavra. Claro que para isso, consideramos a palavra como forma de linguagem primordial e essa é uma questão também levantada e bem lembrada de sua importância quando o autor cita a Bíblia, como um dos grandes exemplos: no princípio era o Verbo. 

O que passa é durante a história da evolução da linguagem dos sinais, viu-se que o desenvolvimento humano dos surdos nesta condição era muito mais rápido do que se eles aprendessem de imediato a ler lábios, falar como fosse possível – já que não tinham parâmetro para como falar, se nunca ouviram – ou até escrever.  Mas isso ainda não respondia a minha pergunta, apenas a tornava mais densa. Eu tinha pensado nos surdos, sabia como eles se comunicavam, mas nunca havia me passado pela cabeça a possibilidade deles não pensarem como os que ouvem ou já ouviram pensam. E aí a pergunta segue viva.

A leitura é extremamente acessível, como vários outros livros de Oliver Sacks, esse neurologista que trouxe aos pobres mortais conceitos, questões interessantes e normalmente restritas aos ambientes acadêmicos e profissionais. Uma das pistas que me ajudam a chegar perto da resposta que procuro é:


“A linguagem [de sinais] que usamos entre nós, sendo uma imagem fiel do objeto expresso, é singularmente apropriada para tornar nossas idéias acuradas e para ampliar nossa compreensão, obrigando-nos a adquirir o hábito da observação e análise constantes.”

Ou ainda


“Com base na linguagem da ação, De l’Epée criou uma arte metódica, simples e fácil com a qual dá a seus pupilos idéias de todo tipo e, ouso dizer, idéias mais precisas do que as que em geral se adquirem com a ajuda da audição. Quando, na infância, somos reduzidos a julgar o significado das palavras a partir das circunstâncias nas quais as ouvimos, ocorre com freqüência que apreendemos o significado apenas aproximadamente e nos satisfazemos com essa aproximação durante toda a nossa vida. É diferente no caso dos surdos ensinados por De l’Epée. Este só tem um meio de dar a eles idéias sensoriais: é analisar e fazer com que o pupilo analise junto. Assim, ele os conduz de idéias sensoriais a idéias abstratas; podemos avaliar o quanto a linguagem da ação de De l’Epée é mais vantajosa do que os sons falados por nossas governantas e preceptores.”

Esses são trechos tirados do livro de outros autores - sendo o primeiro um surdo 'pós-linguístico' e do século XIX, quando a surdez já era vista não como um impasse, mas um desafio a superar, que era descobrir uma forma de desenvolver, de dar valor e condição a estas pessoas. 

Entretanto, minha questão primeira não foi resolvida e ainda há outras no caminho, quando leio o livro. Acabo de falar com um amigo que teve a experiência de ensinar a surdos com um intérprete para LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Ele me disse que não havia um ‘gesto’ específico para FÍSICA, e que assim, a intérprete tinha que soletrar. Tudo bem, é uma saída, mas ela destoa um pouco das noções (ok, séc. XIX) acima, quando entendiam ser a linguagem dos sinais completa. E, pensando adiante, como se definem algumas abstrações? Como se define paz, saudade... será que há um gestual ou serão soletrados também, o que acaba se tornando necessário retornar à palavra... e voltamos à questão do ensino da mesma e o pensamento ‘sem palavra’ passa a se tornar mais difícil.

Acredito que não encontrarei as respostas neste livro - nem ele se presta diretamente a esse tema, mas já traz alguns desenvolvimentos e eu ainda não passei de um terço da leitura. A partir dos surdos talvez se chegue mais perto, ou se imaginássemos aqueles idiomas de símbolos, como o Chinês, Japonês... apesar eles também escreverem conforme o alfabeto, há os símbolos que formam diretamente conceitos e não letras. Mas ainda não é o caso, já que é apenas uma convenção de conceituar através dos símbolos as palavras que entendemos. É só um ‘alfabeto’ distinto.

Isso parece mais uma história sem fim, mas até o fim do livro, alguma noção deve surgir ou pelo menos, ainda mais questões.
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Quase quatro horas. Precisamente, três horas e cinqüenta e oito minutos. E durante todo esse tempo assistimos numa boa a saga de Scarlett O’Hara, uma das personagens mais lembradas da história do cinema.


...E o Vento Levou é um filme que todo mundo já viu um pedaço. Na minha adolescência via trechos, porque passava na tv tarde da noite e sempre caía no sono. Um dia cismei que ia ver todo. Achei cansativo e não dei importância a um filme interminável com forte teor racista e uma história ‘nada demais’. Grande erro.

Hoje, domingo de sol e calor aqui no Rio, não tive coragem de enfrentar o mar congelante com a areia escaldante e lotada. Fiquei em casa e coloquei o filme. Essa menina se tornando mulher na tela, se reerguendo sobre seu próprio orgulho, enfrentando tudo com a moral da necessidade e vaidade estampadas em suas ações. Era o sul dos Estados Unidos com os brancos ricos de grandes terras, famílias tradicionais, escravidão e racismo. Chegou a Guerra da Secessão e os ianques invadiram o sul, unificando o país, transformando em passado e devastação o que era a vida cotidiana dos que moravam ali. Scarlett descobriu a fome, a pobreza, a família destruída pela guerra e com isso, nos diz: Jamais passarei fome novamente.

Mas, além de toda a trama épica, este é um filme de amor. Scarlett, amava além de sua terra, sua casa Tara, amava o homem que não poderia ter, que havia noivado a benevolente Melanie. Estas duas mulheres passam a maior parte da vida juntas por necessidade e tornam-se amigas. Scarlett então conhece Rhett - interpretado pelo galã Clark Gable - e, ao contrário do esperado, sente por ele um incômodo pela semelhança na falha de caráter dos dois. Enquanto Scarlett faz o que estiver a seu alcance para conquistar seus objetivos - casa-se duas vezes, manipula os que estão a seu redor - Rhett é um aventureiro galanteador que participa de qualquer negócio que lhe renda algum lucro. 

Os anos se passam e Scarlett, agora uma mulher poderosa, casa-se com o ‘mocinho’ da história. A moral do casal os une como as duras palavras que trocam durante todo o filme. Se Rhett é um homem apaixonado, é também capaz de dizer a Scarlett que não adianta querer o homem dos outros, que nunca será dela, senão um peso no coração.

A trama segue sempre num crescente e para mim, que não lembrava da história em detalhes, foi quase como a primeira vez. Revemos cenas emblemáticas que hoje fazem parte do imaginário coletivo cinematográfico. É aqui que está o pôr-do-sol da frase que já citei ou aquela em que ouvimos de Scarlett se reerguendo mais uma vez, afinal, amanhã será um outro dia. Há sempre uma obstinação, uma certeza de que como o sol tornará a brilhar, nossa protagonista vencerá mais uma batalha. E Vivien Leigh, que era uma atriz inglesa em ascensão, com esse filme tornou-se uma das mais importantes de seu tempo. Ela vive sua personagem de tal forma que acreditamos sem pestanejar e não há um só momento de hesitação em seus atos, em sua fala, no olhar.


O filme ainda dá margem para outras questões. É uma adaptação do livro homônimo, escrito por Margaret Mitchell que ganhou o Pulitzer em 1937. O que significa que é uma obra escrita por uma mulher sobre uma mulher no sul dos Estados Unidos extremamente machista, onde a opinião feminina pouco importa e o que lhes confere valor é o marido que têm e a forma como se comportam. Aqui temos uma protagonista feminina que casa 3 vezes, rompe com as boas maneiras da mesma forma que investe no que acha importante para viver e ainda sustenta a própria família custe o que custar. É a emancipação da mulher em tempos de guerra, quando a população masculina sofria baixas consideráveis e as mulheres, sozinhas, precisavam criar seus filhos e não passar fome numa terra devastada.

Além de toda a grandiosidade da obra, há uma imensa estrutura de produção por trás. Era a época dos grandes estúdios, das grandes estrelas, que fundaram o star system da Hollywood que conhecemos hoje. Este é um filme de produtor, que contratou vários diretores, roteiristas e foi criando uma equipe diversa, imensa, desde que cumprisse com suas exigências para o que ele imaginava que deveria ser o filme, além de ser mais uma experiência com o recente cinema colorido, o technicolor. Foi o produtor, David O. Selznick, que acompanhou toda a montagem sem a interferência dos diretores. Tanto trabalho sob mão de ferro rendeu 8 dos 12 Oscars a que o filme foi indicado.

...E o vento levou não deve ser visto antes de dormir. É de fato um filme longo, mas que merece atenção; são histórias dentro de uma grande história, com muitas nuances e cujos detalhes, personagens, diálogos e tramas são enriquecidos com uma trilha sonora inesquecível. É um filme grandioso e complexo, que tem que ser visto como um filme épico e de uma época e que se sustenta como só os clássicos conseguem, sem mofar com o tempo ou perder a majestade.
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Fui pra Disney quando tinha 15 ou 14 anos. Fui com as melhores amigas num pacote turístico padrão e foi nossa primeira viagem juntas. E na Disney vimos aquele desfile com os fogos de artifício no céu. Confesso que não me disse muita coisa, porque o desfile era muito longo e chato, então o encanto foi quebrado ali mesmo.


Todo São João que consigo passar em família envolve fogos. Desde muito pequena essa é a nossa maior festa, com uma tradição gostosa de muita comida, música boa e estouros coloridos. Meu pai já sofreu acidente com fogos, mas segue feliz nessa teimosia e acabamos nos juntando a ele e somos aí, crianças novamente.

Este Ano Novo passei no Rio com outros amigos. Fizemos um esquema tranqüilo, comemos bem, bebemos e quando estava pertinho de meia noite, fomos ao Aterro do Flamengo ver os fogos. Não gosto de Ano Novo. Não me sinto muito animada, rola uma nostalgia não sei de quê e é sempre um aperto no peito. Normalmente passo em família, que ameniza um pouco a situação já que nos entendemos no olhar e conhecemos nossos comportamentos e necessidades, mas morando longe tem sido cada vez mais raro.

Na festa desse ano, tudo seguiu nos conformes e lá no Aterro, no meio de um monte de gente desconhecida, com chuviscos de água e confetes coloridos, os fogos finalmente fizeram seu espetáculo e o tempo passou sem que eu percebesse tanto.

No meio daquela multidão de roupas brancas, esperanças difusas e muita bebida, quando as maiores luzes pareciam chover sobre nós todos, como crianças nos encantávamos, nos apaixonávamos e víamos naquela pintura estridente o brilho das cores tocando nosso coração pelo olhar. Ontem eu consegui entender sentindo, o porquê dos fogos, das luzes e cores, a importância de queimar dinheiro desta forma, tão repetida no mundo inteiro em qualquer grande celebração.

É que é justamente naquele momento que todos param o que estão fazendo, param de pensar e ficam bestas mesmo, olhando, admirando, se aquecendo por dentro numa celebração contínua e conjunta, ainda que sentida diferentemente por cada um. E a multidão se entusiasma a cada novo estrondo, como uma surpresa sabida e bem vinda, festejada como um nascimento, o renascimento da juventude, da esperança, da ingeuidade, da inocência. O ano que vem nos permite isso tudo, afinal de contas. É bem ali, naquela meia noite que somos capazes de sonhar sinceramente, sem a auto-crítica apontando na esquina. E nesse meio tempo, ainda descobrimos na outra margem da baía de Guanabara que podíamos ver ainda mais luzes e cores, em Niterói. Esse espetáculo duplo nos manteve por 25 minutos em pé, elegendo quais eram os mais bonitos, ouvindo suspiros e, ainda que algum aperto no peito me soprasse, respirava manso dentro de mim, distraído, sereno.

Voltamos para casa também no meio de toda a turma da praia, num clima abafado, mas ouviam-se felizes e altos Feliz Ano Novo!, com saudações, palmas e abraços. Como uma celebração branca e baiana de Yemanjá, seguíamos todos em paz, esperando de coração, um ano melhor.
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Fim de férias sempre traz uma mistura de saudade e tristeza, não? Uma nostalgia do pouco tempo que tivemos sem preocupações até que elas sutilmente começam a nos contaminar, por jornal, familiares... e aos poucos aquela rotina anual vai se tornando presente, ainda que você tenha alguns dias restantes de suposta tranqüilidade.

Assim aconteceram minhas deliciosas férias. Fui à Argentina, tive novas e revigorantes experiências, conheci bastante gente, algumas pessoas legais que carregarei comigo, reforcei laços de amizade, aprendi mais uma vez a selecionar aqueles que me acompanham. Diverti-me bastante, visitei lugares incríveis. Mas, um belo dia, com muitos e-mails preocupados da minha família, descubro que o Rio de Janeiro entrou em guerra. Feliz por estar longe, triste pela situação e preocupada com meus amigos que vivem aqui, uma parte das minhas férias se perdeu nesse limbo e percebi que o lugar em que escolhi viver deveria perder seus apelidos e se completar com substantivos sinceros.

Continuo gostando do Rio, não tenho previsão pra sair daqui, mas sou realista. Não há como ter grandes esperanças de uma transformação radical nesta cidade, com a manutenção da força como ela é hoje constituída. E, se vimos a polícia de todos os tipos unida ao Exército para combater os traficantes do Alemão - e sentimos um orgulho da justiça nacional, uma esperança de paz e uma vontade de aniquilar os bandidos - vamos deixar claro que os grandes chefões desta equipe fugiram em escolta policial.

Se a proposta de combater o tráfico é permitir a vigência da força podre no poder, melhor seria deixar todos de volta, assim não haveria mais tiroteios, inocentes não teriam suas casas invadidas ou sofreriam queimaduras em ônibus, tiros acidentais, no fim do mês todos ficariam felizes com bolsos cheios. Mas, como o objetivo final é ludibriar a população e a impressão internacional que se tem desta capital maravilhosa, vamos à Copa do Mundo e às Olimpíadas.

E eu nem ia falar sobre isso. É que acabei de ouvir uns estrondos que não são de tiros ou bombas, talvez fogos, mas aprendemos aqui a entrar em alerta quando qualquer som similar chega para nós. Tomara que estes sons não sejam de carregamento de droga no Pavão-Pavãozinho, hoje pacificado. Ou eu preciso lembrar que um dos policiais do Pavão foi flagrado assaltando banco em Niterói?
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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