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Café: extra-forte



Eu poderia dizer que hoje existem dois tipos de garotas da minha idade: as que já iniciaram sua família e estão ou querem estar o quanto antes, grávidas; e aquelas que estão solteiras, vivendo a vida de outra forma. Claro que entre uma coisa e outra existem gradações que diversificam e relativizam tudo, mas vamos manter assim pra facilitar. Burt e Verona são esse casal, um pouco mais velhos que eu e que estão grávidos, mas cuja vida se parece muito mais com a minha do que com essa referência organizada dos jovens casados. Até porque eles não são casados, apenas vivem juntos. Em seu sexto mês de gravidez, decidem partir para descobrir onde e como querem viver e finalmente fazer surgir a família que eles esperam.

Do outro lado, tenho esse casal de amigos que estão grávidos e super organizados. Eles são minha referência mais próxima de jovens pais, ainda que estejamos em regiões distintas do país. E quanto mais perguntas eu faço a ela para saber como é estar grávida, o que se sente, o que muda, ela me dá as respostas evasivas de uma grande transformação: nulas. Porque, quando se está em processo pouco se sabe dele se há muita distração, e às vezes as transformações são muito mais íntimas e sutis do que algo que seja fácil de notar, como uma cor nova nos cabelos.

Burt e Verona estão neste filme de Sam Mendes, Away we go, que vi ontem aqui em casa. Nesta viagem, buscam suas referências de amigos e familiares em algumas cidades dos EUA e Canadá. Assim, encontram tipos de família tão díspares como podem ser na vida real e, mais do que perdidos, compreendem que estão no caminho certo, ainda que não saibam bem qual seja. O que esse filme tem de incrível é a possibilidade que ele cria. As situações são tão comuns que dá pra se enxergar nelas. Por serem mais velhos que eu, já imagino que minha gravidez não seguirá como a de minha amiga, mas muito mais próxima da ‘realidade’ deste filme. Estarei grávida pelos trinta, não sei se numa situação de conforto e estabilidade (ainda mais tendo em conta minha situação financeira atual...) e levaremos isso como der.

E o formato do filme nos prende nessa jornada; filmes de viagens tendem a nos levar pelos caminhos de belas paisagens, mas neste vamos além, estamos por eles, por nos vermos em parte como eles são e até por concordarmos que existem aqueles tipos que acompanhamos; nas histórias tristes, nas famílias desestruturadas, nos desequilíbrios de pais despreparados, naquelas pessoas que nunca deveriam ser pais, nos pais alternativos e naqueles fantásticos que queremos nos espelhar.

Essa seleção de situações que espelham as famílias americanas é mais uma que Sam Mendes nos traz. O diretor fez além desse, Beleza Americana, Revolutionary Road e Soldado Anônimo , além de Estrada para Perdição. Talvez dê para perceber mais fortemente nos três primeiros a particularidade das visões que ele tem sobre seu país, que já o identificam num cinema de autor. No caso de Away, é estranho, mas ele não chegou aqui aos cinemas, foi direto para as locadoras, mesmo tendo público garantido. Não é um filme impactante como Beleza Americana ou Estrada para Perdição, mas tem seu impacto e é sensível como poucos. As atuações são mais uma vez impecáveis; o casal é muito bem construído e o mais engraçado é ver a inocência inteligente no olhar do pai – John Krasinski - e, com isso, a preocupação da mãe - Maya Rudolph - em não saber como será esse futuro, na certeza de que eles se amam e de que não querem ser como os outros. Ainda Maggie Gyllenhaal como a mãe ‘alternativa’ e o casal incrível interpretado por Melanie Lynskey e Chris Messina.

Não suficiente, Jeff Daniels – que já é um expert em filmes sobre o comportamento da sociedade americana – a trilha sonora incrível e a fotografia de Ellen Kuras, que já fez tanta coisa que me surpreendi de não ter notado seu nome antes, quando vi a filmografia no imdb. Incrível. É um filme sincero e simples, dando os melhores significados para esses dois adjetivos. Não há mais o que falar, só que precisamos sempre ver filmes assim e esperar que sejam feitos mais e melhores, se isso for possível.


Título original: Away we go
Diretor: Sam Mendes
2009, EUA.
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Achei que seria um texto fácil de começar, na verdade. A questão é que o filme trata da dor de perder uma pessoa querida e isso em si, já traz bastante sentimento, quando você passa a associar a sua vida como exemplo. Porque para você chegar onde o filme pretende te transportar, naturalmente e até sem querer, você acaba se comparando àquela situação. E daqui pra ali já começa a apertar o coração.

A família encabeçada por Pierce Brosnan e Susan Sarandon perde o filho mais velho. Era um garoto modelo, do tipo que não dá trabalho, nem cria problemas pra ninguém. O típico cara sensacional, legal pra caramba, super amigo. Como meu amigo que perdi há uns anos, por exemplo. Então encontramos essa família perdida entre a dor e não saber como lidar com isso, cada um vivendo sua própria condição e o pai tentando confortar todos, sem saber como reagir a si próprio.

O que há de especial no filme não é exatamente a trama, mas a interpretação dos atores. Porque a história é comum, com alguns exageros, algumas cenas desnecessárias, mas que se apóia em situações tão singulares quanto sinceras, basta lembrar da relação criada entre a namorada do que morreu com o pai da família. A função deste (aparentemente como todos os pais se acreditam) era segurar as pontas, quando nem ele se tinha sob controle e encontra nela uma força parecida, junto com uma necessidade de carinho e proteção. E eu, que tinha tantas críticas em relação a Pierce Brosnan, tiro meu chapéu ao ver tanta força também no início do filme, no plano-seqüência dos mais bonitos que já vi na vida, quando a família volta do enterro, no banco de trás de um carro, mudo, sem trilha sonora, como a vida mesmo.

Pensando alto e longe, essa poderia ser a seqüência do ponto de vista da família do jovem Alexander Supertramp, de Na Natureza Selvagem. As estruturas familiares são bastante parecidas; o pai enquanto dono da casa, a mãe de uma força incrível cujos embates com o marido são inevitáveis e um irmão (irmã neste caso) mais novo que perde a referência que tinha a seguir. Claro que a história real de Alexander Supertramp – Cris McCandless é diferente porque sua busca era outra e a impressão de impacto na vida dos que conviveram com ele foi muito maior até por isso (ainda mais se imaginamos que ali é real). Mas a continuação da história familiar não parece ser muito diferente do que vimos neste, como uma família que tenta se reestruturar após tanto.

Não havendo preconceitos e com alguma vontade de encarar um drama, esse até vale. Não é um filme para grandes expectativas e, talvez por eu ir acreditando nisso, tive uma boa experiência. É uma história triste, mas possível porque é americana, o próprio peso é bem dimensionado, algo que se pensássemos numa produção européia seria muito mais doído. Vale para uma tarde de tédio num domingo ou um fim de semana chuvoso em casa.

Título original: The greatest
Direção: Shana Feste.
2010, EUA,
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Não preciso dizer que algumas séries de televisão duram para sempre e que marcam o crescimento de gerações com interesses que se tornam comuns. Assim é com muitas delas e a partir daí se desenvolvem grupos tão heterogêneos que quase apenas a linguagem audiovisual consegue unificar, que diga Hollywood e todo seu sucesso histórico e global. Hoje, numa sala de cinema lotada de poucos homens e muitas mulheres, mais uma vez todas poderiam ser boas amigas.


Sex and the City 2 é um filme bobo, feminino, de meninas e mulheres, sobre amizade e relacionamentos em que todas já conhecemos os protagonistas, suas histórias de vida e não é difícil saber também o final. Sabemos que o figurino será no mínimo ousado e que todas vamos querer os sapatos que elas usam, os namorados e maridos de algumas e que ali é o reduto da fantasia que nos permitimos viver durante pouco mais de duas horas.

A série se consagrou no mundo por mostrar quatro amigas solteiras, trintonas, vivendo em Manhattan, falando e praticando sexo de maneira casual, sem maiores polêmicas. Todos os luxos eram permitidos: homens lindos, restaurantes e cafeterias, boates badaladas, moda e sapatos, muitos sapatos. E um histórico de relações que qualquer mulher pós-vinte consegue se identificar em menor ou maior instância. Não há só bobagem nisso: há uma espécie de retrato – guardando os limites da ficção – das mulheres da útlima década que vivem amizade, amor, sexo, trabalham e garantem seu espaço. Aqui falamos de independência feminina, relacionamentos e comportamento com uma comédia em tons de crônica com estilo e inteligência. Nesse bocado de ‘futilidade’ viveram e assistiram muitas outras mulheres da vida real, acompanhando as trajetórias das single ladies americanas. E agora, que na ficção continuam suas vidas nesta seqüência, marcamos outro encontro na grande tela.

Não por acaso, que aqui no Brasil surgiram programas de tevê que deram voz às mulheres: aquele com quatro mulheres independentes, algum estilo, idades variadas e importância no meio artístico-cultural que conversam sobre tudo o que rola no mundo ou outro de pior gosto une outras quatro falando de sexo tórrido e descritivo, cujo apelo é muito mais vulgar do que interessante. Este último, além da pobreza na qualidade e conteúdo cria uma confusão entre quebra de tabus, originalidade, ousadia e objetivo, este último que ainda não consegui identificar. Sem falar nas entrevistadoras e nos canais brasileiros voltados ao público feminino.

Voltando ao filme, claro que ele peca em alguns detalhes, falas muito marcadas, os estereótipos de sempre e a caricatura de um Oriente Médio que só os americanos têm a cara dura de fazer, que se inclua aí até a fotografia. De uma forma ou de outra, quem vai assistir não espera muita coisa além de reencontrar Carrie, Samantha, Miranda, Charlotte, Mr. Big e até o charmosíssimo Aidan. E sobre suspiros, risos, gargalhadas, oohhs e aahhs, as mulheres e até os homens – um senhor inicialmente rabugento que estava ao meu lado é um exemplo – riem das loucuras femininas das moças agora comprometidas e sempre complicadas.

Seria muito bom esperar uma seqüência para matar novamente a saudade das meninas, mas não sei se será possível. As crises estão acabando pra elas e o jeito vai ser comprar o box para rever as histórias que já sabemos de cor. Engraçado além do filme é ver a coreografia de risos e expressões que ganha o cinema cheio. Éramos todas comadres rindo juntas, criticando as roupas, amando os sapatos e rapazes do filme, nos surpreendendo com algumas cenas, partilhando da mesma emoção. E podem contar com mocinhas de 18 às senhoras, mães e avós. Fato que só reforça a necessidade das grandes salas frente ao mercado crescente do cinema em casa. Para que melhor, quando até as gargalhadas fora de tempo causam ainda mais gargalhadas e o público se solidariza com ele mesmo? É um cinema participativo que um dvd não se compara jamais, ainda mais se vamos aos domingos. Se esse texto saiu tão bobo e feliz com o filme, nada mais é do que o reflexo de uma boa sessão com ótima e vasta companhia, num momento mulherzinha. Que me desculpem os cults, mas tudo tem seu momento.

Título original: Sex and the City 2
Diretor: Michael Patrick King
2010, 146 min. EUA.
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Quando asistimos Estamira, imaginamos aquela mulher re-construída no documentário de Marcos Prado, com aquela voz, poder e miséria pouca vezes repetida no audiovisual. Neste documentário, mistura de dor, genialidade e belíssima fotografia, Estamira mais uma vez e tantas outras, pois é difícil esquecê-la quando a conhecemos assim. Garapa dói ainda mais. Agora José Padilha é quem nos mostra outra miséria, escondida nos programas assistencialistas do país... miséria que até sabemos existir, mas esquecemos diante do progresso sem ordem deste Brasil.

Garapa é a mistura de água com açúcar dada em mamadeiras às crianças pelas mães, no intuito de enganar uma fome permanente. As crianças deste filme, desnutridas, cheias de doenças e com a maior delas: uma falta de futuro, de fim útil, o excesso de ignorância e miséria reinantes, a pobreza que ninguém quer ver. Porque estamos acostumados a meninos de rua, viciados em crack, assaltantes, desesperados. O que não estamos acostumados é a apatia, o fim pelo fim, a aceitação por não se saber outro que são expostos nesse filme. É a crueza do Sertão, aquele de Vidas Secas lá atrás... atualizado nesse documentário em p&b.

Não importa onde estejam: se à margem de uma cidade maior, se no meio do nada, se atendidas ou não por algum programa do governo. Ainda há pessoas sem carteiras de identidade que sequer sabem sua própria idade; ainda há pessoas que vivem sem saber mesmo o que significa este verbo; ainda há pessoas sem sonhos. E as crianças deste filme, muito ou tão doloridas quanto seus pais, todos vítimas. Outro dia estive conversando com uns amigos e se falava do crescimento econômico do país, da possibilidade de se chegar do quase nada à classe média em pouco tempo, da ‘facilidade’ de entrar em uma universidade e todos acreditávamos nisso, nesta nação grande, aconchegante e democrática, de um presidente forte internacionalmente, ele mesmo o próprio retrato de esperança... há que assistir Garapa para perder um pouco dessa ilusão.

Ao mesmo tempo, enquanto alguém que estuda a arte, há um embate moral nessa história toda. Aprendi a defender o filme pelo que ele se propõe, por seu objetivo final, mas, como uma pedra no sapato, fica a questão da ‘exploração’ da imagem de quem só tem isso a que se agarrar. Essas três famílias passam fome. Uma equipe vai fazer um filme sobre a fome e os encontra como exemplo perfeito. Como é lidar com uma situação tão discrepante e depois voltar ao hotel, jantar, almoçar, tomar café com a impregnação do real a alguns quilômetros de distância? Como se manter próximo para filmar e distante para algum apoio? Como ignorar o assunto do filme que se faz e não prestar qualquer ajuda, ou ver a fome enquanto lhe sobra comida? Numa situação limite, foi dado um analgésico a uma criança com dor de dente. Mas é um detalhe diante do todo. Independente de uma assistência futura, de uma promessa de ajuda pós-filme... algo de culpa permeia minha cabeça sem nem ter feito parte desta equipe, ao mesmo tempo que defendo a produção e encaro a obra como pronta, ótima e útil e, que se houvesse algum assistencialismo prévio, não haveria filme. Dilemas.

As semelhanças em Estamira não são à toa. Não apenas a temática, a questão ética, quanto à parceria entre os dois diretores é permanente. Marcos Prado e José Padilha se reencontram aqui também, na fotografia, no cinema brasileiro direto, na aposta em filmes importantes. E é esse o cinema que permite a ‘não’-interação com o tema a filmar e que o torna tão íntimo para quem assiste e talvez até para quem participe. A vida daquelas pessoas é tão escancarada que percebemos que sequer onde moram as famílias têm privacidade. Como as cidades pequenas em que estão localizados, seus habitantes participam e têm opiniões a dar, reclamações, invasões. Vizinhos são sempre observadores de nossas vidas, como a câmera-olho que os permite nos visitar. E é essa exposição que evidencia a importância vital das mulheres nestas famílias. Invariavelmente elas se tornam protagonistas das ações, já que depende delas o parco sustento de todos, desde a preparação da garapa, a busca por água, o cuidado com os filhos, o recebimento do bolsa família, a visita a uma ONG ou até a defesa da própria situação frente às criticas de quem os invade. Aos homens, álcool, desilusão, despreparo, apatia, brigas, doenças e o cuidado mais como favor do que como obrigação aos filhos.

É um filme duro e importante. Traz-nos uma culpa pelo que desperdiçamos, nos indica uma perspectiva escamoteada pelas políticas públicas e índices eleitoreiros, escancara o que não queremos ver, mostra que este Brasil existiu desde sempre e ainda existirá por muito tempo. A situação de insegurança alimentar que esse filme expõe também identifica uma condição internacional, já que há esta fome em todo globo. Aqui temos um detalhamento apurado do cotidiano dessas famílias à beira de um precipício. E não há melodramas, novelas ou um quê de responsabilidade social que poderia ser pregado como um religioso no seu palanque/palco. A idéia que temos ao assisti-lo é simplesmente de que é daquela forma que realmente eles vivem. E isso sim, é a mais grave e dolorosa conclusão.

Garapa
Direção: José Padilha
Ano: 2009 - Brasil
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É impossível não falar sobre a chuva. Quando o verão desse ano assou e fritou a todos nós aqui no Rio também não dava para pensar em outra coisa. Em todos os lugares, bares, restaurantes, trabalho, bancas de revistas era sempre calor e um verão quente além dos quarenta graus. Falou-se também sobre o apagão do calor. E todos faziam parte de uma mesma conversa, um tom monocórdio, repetitivo, uma chatice.

Achei que não ia precisar falar sobre a chuva do Rio. Não vivi o dia "D" dos alagamentos, a cidade deserta como num ataque de zumbis. Não vivi as horas de engarrafamento maiores que uma jornada de trabalho, os prejuízos, afogamentos, a devastação. Neste dia eu passava frio em São Paulo e esperava. Não tinha aeroporto aberto. Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, que será a oitava maior economia do mundo, parou.

Eu vi, entretanto, o dia "E". O dia depois de amanhã daquele pessoal de Niterói. Niterói e São Gonçalo já haviam sido as cidades da Grande Rio mais assoladas por essa tempestade louca. Mas o deslizamento de terra do dia 08 foi de uma crueldade sem limites. Não se falava em mais nada, em qualquer jornal. O Nacional, especialmente, não tinha outro assunto. A rotina carioca voltou, mas aquele monte de terra e lixo, lixo, lixo, lixo, porque não dá pra esquecer, em cima de um monte de gente...

Que o Brasil é craque em miséria, a gente sabe disso. Temos aí filmes e filmes pra mostrar, as ruas que exibem suas mazelas como uma vitrine para turista, os passeios de carros 4x4 subindo as favelas cariocas. As reportagens de fome, sujeira, os ‘Ilha das Flores’... todas as classes assistem, vêem, vivem, presenciam, cada um a seu modo. Mas nessa miséria toda é possível viver. É possível subir um aterro sanitário e chamá-lo de seu. É possível morar, construir, viver. Não pelo dinheiro, mas por aquela nossa velha apatia do poder público, dos olhos vendados da justiça, da cegueira coletiva, da estupidez e do descaso. E não tem esse direito humano reclamado que seja suficiente.

E aí, chove. E é morro. E tem terra. Lixo e chorume. É uma ladeira de lixo com casas em cima. E cai. E pouca gente se salvou. Parece o Haiti sem a música. Sem o terremoto, sem a pobreza cruel daquele país, mas a falta de humanidade deste daqui, que tem muito mais do que o Haiti e vive a mesma situação. Não dá pra falar de outra coisa. E convém lembrar que não dá pra ouvir o prefeito de Niterói dizer que não sabia. Ninguém sabia... e foram feitas melhorias na região... o que no meu português significa: estimular os moradores a permanecerem ali. Eu achei que não precisaria falar da chuva, do que todos vimos nas televisores, do que muitos infelizmente viveram de perto. Mas, se nem ao menos pensarmos um pouco e falarmos sobre, vai chegar o dia em que não se falará mais nada.
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Até hoje não entendi bem como a Globo exibiu Dourado do BBB 10 falar que apenas homossexuais pegam HIV. Até agora não entendi como a emissora não se pronunciou com uma campanha educativa e preventiva, como não aproveitou e cortou no ar mesmo a loucura que foi essa afirmação, mas se postou covardemente de forma passiva e neutra, responsabilizando apenas o personagem de seu programa por suas falas e atos.

Ora, sabemos o que é essa emissora, sabemos o poder que tem e o público deste programa, sempre imenso. E hoje, saiu uma notícia nos jornais, informando que no BBB a justiça obrigou a emissora a se pronunciar agora de forma direta sobre a doença. Eu até entendo a lerdeza da justiça, o que é difícil de entender é a displicência geral.

Essa seria uma oportunidade perfeita para uma campanha, para um movimento, para qualquer coisa. E o que reinou foi a apatia nacional. Nem ouvi pessoas comentando isso! Precisou eu lembrar a meus amigos e colegas de trabalho o caso, e discutir partindo da lembrança de apenas um e não de um incômodo geral.

Estranho isso. E olha que coisa: exatamente quando eu estava pensando nas próximas linhas para este texto quase sem fim, o BBB exibe uma cartela com uma locutora e texto, indicando as formas de contágio do HIV. Tudo bem, ajuda. Mas poderia ser melhor.

A culpa não é do personagem. Ele pode ser ignorante. Muita gente é. Nem todo mundo foi educado para muitas coisas. Pouca gente foi. Acho que não apenas a frase infeliz e, quem sabe, em alguma instância ingênua e carregada de preconceitos, mas o resultado dela, tanto da emissora quanto dos que a assistem. Esse é o reflexo deste país. É por situações como essas que adolescentes engravidam, que muita gente efetivamente contrai o HIV, que meninas morrem fazendo abortos ilegais e lipoaspirações clandestinas. E com um motivo tão óbvio, não se fez nada.

É como eu ia dizendo ao fim... muito estranho isso. E nem precisei falar da ausência do governo nesse momento. Porque uma governança séria, falaria sério sobre isso. Aproveitaria uma deixa óbvia e fácil. E a partir daí, se transformaria alguma coisa em alguém... em alguém que vê televisão, em alguém que só tem isso pra ver... em alguém onde não há como buscar educação... e tudo o que bastou aparentemente foi uma cartela de 10 segundos na tela. Lugar bom pra se viver.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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