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Café: extra-forte

O que nos faz querer investigar a vida alheia como mais interessante que a nossa? A função do documentarista enquanto pesquisador vem sendo essa desde muito tempo. Esse desbravador, esse antropólogo, etnógrafo que registra em sua câmera costumes, cultura, como um armazenamento de estilo de vida, de estudo biológico e social de uma época a ser relembrada em retrospectivas e homenagens futuras. Mas o que se espera quando essa investigação é interna, é autóctone, autofágica? Este falar de si para si, essa exploração do sujeito documentarista ao objeto documentarista também atrai a atenção do espectador. Mas, de onde surgiu essa redescoberta do eu nos filmes?

Essa nova categoria de cinema de autor no documentário não pode se considerar uma vanguarda. O que há é uma conseqüência histórica da aproximação da câmera ao sujeito que a utiliza, do que é possível descobrir primeiro ao seu redor, dentro de sua cultura então ali vivida e depois do que está dentro de sua casa, numa busca de se redescobrir, se reinventar, desnudar a alma dos familiares, a própria.

Esta nova fase do documentário se reflete não apenas no cinema, como no jornalismo, nos programas de tv, nos reality shows, na internet. O que se busca ao ligar a tv em casa é investigar a vida de alguém, como ratos de laboratórios, esperando desvendar seus momentos mais íntimos, suas verdades, o que se tenta esconder, como se vive. É a fechadura da casa ao lado, que na verdade é muito similar à sua, mas enquanto você não descobre isso, tudo soa mais interessante. Essa também é a descoberta de uma nova forma de pensar a sociedade, independente do título que se dê a ela. É a pós-modernista do homem perdido, é a revolução dos costumes com novos modelos, padrões, rompimento de valores antes estagnados de tão estabelecidos. Se o homem está perdido em si, não vai buscar se reencontrar no que lhe é distante, mas buscará o que lhe é parecido, próximo, para que não se perceba só e uno, mas em um grupo que lhe abrace.

Se os reality shows são a janela para a descoberta do outro – que se camufla e esconde no próprio excesso exibicionista – é também reflexo da própria vida de quem os assiste: o que se busca nesses programas é a identificação com os personagens reais daquela história real. É a vida real na tv, no cinema. Não só ali e talvez hoje até mais importante, a liberdade de expressão na internet, a democratização de quem a ela tem acesso é o veículo onde mais se expressa o que quer e, em grande parte das vezes, o que se exibe é a intimidade.

Essa expressão da vida de improviso, de capturar o momento real veio de muito cedo, dos Lumiére, Vertov, do início do que entendemos como cinema. A própria ficção tende, inúmeras vezes, a criar identificações nos personagens com base no que se vive, trazendo ao espectador algo que lhe pareça próximo, ainda que ficcionalizado. Aí estão os filmes de ficção, os seriados, as novelas (mais do que nunca). Mas, independente do que se procure definir como real, verdade ou qualquer palavra cujo peso e responsabilidades parecem maiores ao documentarista ou repórter, muitas vezes, vive-se muito mais a ficção na grande tela do que o espaço real que antes afastava o espectador da cadeira do cinema. Entretanto, ainda assim, existe esta barreira do gênero e algumas vezes, o alívio de que o que se vê numa ficção não é real.

É esse novo momento que o documentário parece viver. Não ir tanto atrás de animais selvagens em florestas longínquas, tribos nos confins vivendo seu dia-a-dia sem perturbação dessa cultura colonizadora, mas um retrato da própria cultura do cinema, de quem queria se esconder nas câmeras para trazer o outro e que agora ao contrário – através de si, exposto, abraça o público que se descobre.

Pode parecer que ao público não faça diferença; continua sendo voyeur de uma vida que não é a sua. Mas quão maior é seu interesse ao perceber como vivem e pensam outras pessoas de seu tempo, as pessoas comuns, como é imensa ou até distante a identificação com quem lhe é próximo, é um estudo social do eu por eu mesmo, repleto de falhas, as assumindo e o mais importante: permitindo a conclusão inacabada à quem o assiste. É em busca disso que esse espectador vai conhecer esta safra de filmes e assim o cinema documental retorna com peso de desafio e novidade. Mas nada mais é senão espiar a janela do vizinho e ali encontrá-lo junto a um espelho.
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Estou sem tv. Ela quebrou ontem. Liguei à noite e ouvia, mas não via. O problema de você ter a tv quebrada é quebrar a rotina com isso. Não é simplesmente o desconforto de descer um lance de escada e mais 10 andares no elevador carregando uma tv de 29 polegadas, pegar um táxi até a assistência técnica e ainda chegar tarde no trabalho, mas o fato de não assistir seus programas e nem ter como reclamar deles.

Muito ruim. Daí não posso ler livros por muito tempo senão durmo antes do programado pelo meu relógio e me lasco numa insônia madrugada adentro. Mas já decidi não me estressar com isso hoje.

É incrível como são essas coisas que fazem a diferença e que nos lembram como é morar sozinho. Ninguém reclama dos meus quatro pares de sapatos na entrada de casa, do guarda chuva pendurado ao lado da tv, da bolsa jogada no sofá, dos casacos no outro. Dos papéis na escrivaninha e da cama quase eternamente desarrumada. E normalmente até que eu sou arrumadinha, mas esses dias têm sido complexos. Muita preguiça. Lavo os pratos.

Fazendo a rotina acontecer, tentando descobrir coisas para quebrar o marasmo. Agora mesmo, estou brincando de equilibrar a tábua da mesa do computador nas coxas, equilibrando o notebook e vendo até a que ângulo ele não vira. Ainda com frio e preguiça de botar uma roupa de gente. A parte boa é que fui ao cinema e o filme era muito bom - Se beber, não case!. Depois conto.

Ah! Hoje entrei no Copa Palace. Bonito o menino. De verdade. Chique total, pé direito nos infernos. Silencioso. Vale muito um filme de terror. 4800 a mega suíte plus da Madonna, do Tom Cruzes e do Wolverine. E, no caminho de volta, ainda descobri a melhor confeitaria do Rio de Janeiro: Traiteurs de France. Comi três coisas, e se pudesse comia mais.

Nhé. Deixetá que já já acabo com isso. Em breve, cenas dos próximos capítulos.
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Há filmes que passam por nós sem que os percebamos. Vão aos cinemas, entram nas locadoras e um belo dia encontramos na capa um motivo e a surpresa é inevitável. São filmes como Respiro que devem, primordialmente, ser vistos no cinema.


filme-respiro

Infelizmente o vi apenas agora, na minha tv, numa noite de chuva. Respiro conta a história de uma família siciliana que vive em Lampedusa, uma pequena ilha. O nome da ilha só dá pra saber se você já conhecer o local ou ler a sinopse no dvd, porque o filme não indica e prescinde disso. Esta família tem uma mãe cuja natureza é distinta de todas as pessoas ali residentes e seu comportamento confunde e incomoda a vida da comunidade.

O filme tem algo que me lembra Lucía e o Sexo, de Julio Medem. Em Lucía, a protagonista também é uma mulher impetuosa e intempestiva cuja cartilha da própria vida vai escrevendo com os sentimentos e impulsos. Ainda temos fotografias e locações (no caso de Lucía, Espanha) cuja beleza natural deve espantar até os moradores. Mas as semelhanças acabam aí.

A beleza de Respiro está na ausência. Em Grazia, que diz muito em pouquíssimas palavras, que vive conforme a natureza e o mar em seu olhar. Grazia é instinto, sua paixão pela vida está, não no que seria o termo liberdade, mas numa forma de viver autônoma e independente, espontânea. E, enquanto seu marido luta para conseguir conviver com tanto amor a esta estranheza, aqueles que estão sob sua órbita percebem apenas incômodo e desconforto. Tão próximos e não menos importantes, os filhos e seu carinho, o querer de cada um e como compreendem o que têm ao seu redor. A cada um, uma expressão particular, uma relação íntima, um entendimento. Aqui a compreensão das partes, dos filhos, das funções sociais que conhecemos tão bem vão se transformando gradualmente, suavemente como se devesse ser sempre assim.

Ao mesmo tempo em que percebemos a trajetória do filme como a história de um vilarejo em que todos parecem vizinhos, embarcamos numa cultura particular de um povo que vive bem com o que acharíamos muito pouco. A cultura arraigada ali, o calor entre as pessoas e o olhar vibrante como as palavras, criam um ritmo próprio e queremos que o filme nunca acabe. De roteiro aparentemente simples, é firme a complexidade e universalização das relações. Conseguimos fazer parte de um universo que nos é distante geograficamente, culturalmente. Assim é contada uma boa história, como acontece a um bom livro.

Felizmente vi Respiro agora. O filme há que ser visto com o carinho de quem quer conhecer, ter uma experiência de beleza e emoção, a paixão, comer com olhar cada nuance da fotografia e do natural que transborda das locações. É uma pena, porque só consigo pensar em elogios e palavras que se repetem em minha cabeça e dá vontade de conversar, falar, narrar cada cena que nos marca, cada luz e fotografia, os diálogos, os personagens, o olhar de cada um, os sentimentos ali contidos e depois expostos. A impressão que dá é que os atores não mais existem, que são aqueles personagens, que não há encenação. É um filme em que o ideal é que se escreva pouco sobre ele, que se assista e sinta. Assim é mais fácil entender, sem pensar muito, ou pensando com o coração.

Título Original: Respiro
Diretor: Emanuele Crialese
Itália, 2002. 91 min.

Citado:
Título Original: Lucía y el Sexo
Diretor: Julio Medem
Espanha, 2001. 128 min.
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Deu pra chover por aqui. Enquanto molha tudo ao redor e vai esfriando nossos pés e eu uso sempre calças e meias para dormir, fico pensando numa forma de praticar exercícios físicos. Além de grana, é o que me falta no momento.

Já me acostumei com o Rio, com o clima de chuva do inverno e já aceitei que quando chove nós temos que trabalhar assim mesmo. Já entendi que se molhar faz parte das circunstâncias e ser sábio é perceber que a hora pra isso é a de voltar pra casa. Então, nesses momentos de chuva e frio gostoso, dormir tem sido delicioso, bem como comer coisinhas, alugar filmes, ir ao cinema, escrever. O Rio é bonito com chuva também.

O engraçado da chuva aqui é que parece que as nuvens dominam todo o espectro visível. Conforme me disse um amigo ontem, as nuvens aqui são mais baixas do que lá. JC some, o Pão também. Até a violência parece se esconder sob uma voz general que diz: está frio para subir o morro.

Filmes brotam nos cinemas, lojas e locadoras. Acho o frio uma delícia, porque não é mortal como em São Paulo ou Friburgo e não é fajuto, como o da terrinha. É frio, de fato mas não de neve. É o frio de uma blusa e um casaco.

Penso no Flamenco que deixei por lá e que me custa achar por aqui. Penso no marasmo que será uma academia e que me voltarei aos pensamentos de o que estou fazendo aqui, por que as pessoas gostam e insistem em levantar peso (e se vangloriam com isso). Penso nos domingos que tiro pra sair perambulando pela Atlântica, de casaco, calça e chinelos e em como isso é muito melhor do que andar loucamente como se fugisse de alguém. Mas não dá pra caminhar debaixo de chuva. Não uma pessoa rinítica como eu.

Em dias assim, melhor mesmo é se deixar levar com o tempo. A chuva nos traz os amigos, o aconchego de um abraço, o sorriso íntimo de cada conquista. O inverno é tímido: é a estação que se encolhe no frio, mas mantem um olhar esperançoso para a primavera que se aproxima. Em dias assim, precisamos ao menos planejar, estudar, pensar nossos próximos movimentos. Estudar as propostas que ainda não recebemos. Em dias assim, capuccino ou vinho... ou café com pão de queijo à espera da próxima sessão.
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Não vá. Se você acha que um filme com Cristian Bale, Johnny Depp, Marion Cotillard e dirigido por Michael Mann tem tudo para dar certo, se enganou. Fui assistir, com a certeza absoluta de que o filme era bom, que seria interessante ver uma aventura histórica e real sobre os bandidos da América nos anos 30. Tsc tsc.

Não sei o que aconteceu. Não entendi a proposta do filme, a câmera louca, a fotografia estranhíssima. Convenhamos que de Depp não esperamos mais do que uma ótima performance, bem como de Marion (para quem não lembra, Piaf). Já Cristian Bale, que costuma me deixar em crise, assim permaneceu. Começo a achar que ele não é bom ator, mas que teve oportunidades e continua crescendo. Seu mérito é muito mais de metamorfoses físicas do que efetivamente boa interpretação.

A história rende um filme tranquilamente: bandidos nos anos 30, plena crise americana, tocando o terror em assaltos a bancos à luz do dia. Não costumam matar, mas quando fazem só atingem os policiais. Criamos ainda a identificação com John Dillinger (Johnny Depp) e seu romance com a personagem de Marion, torcemos pelo final feliz e tudo mais. Mas, ainda assim, o excesso de closes, de movimentação da câmera, além de deixar o espectador tonto e perdido, o retira do filme completamente e ele começa a olhar para o relógio.

Eu fiquei com cara de interrogação, tentando decifrar o porquê daquelas cenas, de alguns diálogos, da existência de Cristian Bale e seu personagem: não sei se ele era o espertinho ou o banana, por exemplo. Sei que ele era quase o mais espertinho dos bananas. Parecia no fim das contas, um filme feito com câmeras digitais deficientes, que careciam de lentes que suprissem planos abertos. Estranho, já que o próprio Michael Mann é responsável por ótimos filmes, como outro policial, Miami Vice. Provavelmente não foi por falta de grana ou não teríamos estes atores em cena.

O resultado do aglomerado de desacertos, com o destaque dado na trilha sonora ultra-temática é um enigma: o que queria o diretor? Um filme de arte? Uma palhaçada? Uma experiência estética? Ou ele só deu azar e bateu a cabeça antes de dirigir? Independente de que respostas encontremos, uma assertiva é válida: talvez sirva como sessão da tarde.

Título Origina: Public Enemies
Diretor: Michael Mann
EUA, 2009. 143 min.
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Parece que não muda quase nada, mas a cada casa nova, nosso coração se preenche de aventuras, possibilidades e a certeza de que sempre acumulamos tranqueiras. Essa re-acomodação do espírito e das coisas, uma quase nova rotina e olhos frescos pra vida entram na contramão do sobe e desce de bagulhos, roupas, sapatos, livros, dvds.

Agora a relação é outra. Moro num apartamento onde as coisas são minhas e isso adquire uma estabilidade que gera uma agonia, inquietação por dentro. O morar se faz ainda mais firme e não se sente isso só por estar longe de casa, em minha Salvador, com minha família, mas esse fincar de bandeira no Sudeste acentua a vontade de sair por aí. Por mais louco que pareça, é a mais sincera vontade que me percorre.

Adoro o lugar que vivo. Foi o primeiro que morei quando vim de Salvador e por acasos (ou não) da vida, parei nele agora. Enquanto construo o dia-a-dia das amizades, do trabalho, da família ao telefone, viajo em novas experiências, imagino novos caminhos e rotas. Invejo os apresentadores de tv pé na estrada. Mas acredito também que, para que a partida a novos rumos seja mais do que uma experiência de espírito e aventuras, precisamos do pé no chão, de alguma estratégia e lógico, grana.

Enquanto a partida não chega, invisto em aventuras na cidade que aprendi a desbravar e que hoje tenho a pretensão de dizer que me viro muito bem nela, conheço alguns caminhos e sou difícil de me perder. Talvez as pequenas novidades e encontros pelo trajeto atenuem minha ânsia de partir. Por enquanto, a estabilidade me tem e as tranqueiras vão virar utilidades para outros.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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