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Café: extra-forte

Deu pra chover por aqui. Enquanto molha tudo ao redor e vai esfriando nossos pés e eu uso sempre calças e meias para dormir, fico pensando numa forma de praticar exercícios físicos. Além de grana, é o que me falta no momento.

Já me acostumei com o Rio, com o clima de chuva do inverno e já aceitei que quando chove nós temos que trabalhar assim mesmo. Já entendi que se molhar faz parte das circunstâncias e ser sábio é perceber que a hora pra isso é a de voltar pra casa. Então, nesses momentos de chuva e frio gostoso, dormir tem sido delicioso, bem como comer coisinhas, alugar filmes, ir ao cinema, escrever. O Rio é bonito com chuva também.

O engraçado da chuva aqui é que parece que as nuvens dominam todo o espectro visível. Conforme me disse um amigo ontem, as nuvens aqui são mais baixas do que lá. JC some, o Pão também. Até a violência parece se esconder sob uma voz general que diz: está frio para subir o morro.

Filmes brotam nos cinemas, lojas e locadoras. Acho o frio uma delícia, porque não é mortal como em São Paulo ou Friburgo e não é fajuto, como o da terrinha. É frio, de fato mas não de neve. É o frio de uma blusa e um casaco.

Penso no Flamenco que deixei por lá e que me custa achar por aqui. Penso no marasmo que será uma academia e que me voltarei aos pensamentos de o que estou fazendo aqui, por que as pessoas gostam e insistem em levantar peso (e se vangloriam com isso). Penso nos domingos que tiro pra sair perambulando pela Atlântica, de casaco, calça e chinelos e em como isso é muito melhor do que andar loucamente como se fugisse de alguém. Mas não dá pra caminhar debaixo de chuva. Não uma pessoa rinítica como eu.

Em dias assim, melhor mesmo é se deixar levar com o tempo. A chuva nos traz os amigos, o aconchego de um abraço, o sorriso íntimo de cada conquista. O inverno é tímido: é a estação que se encolhe no frio, mas mantem um olhar esperançoso para a primavera que se aproxima. Em dias assim, precisamos ao menos planejar, estudar, pensar nossos próximos movimentos. Estudar as propostas que ainda não recebemos. Em dias assim, capuccino ou vinho... ou café com pão de queijo à espera da próxima sessão.
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Não vá. Se você acha que um filme com Cristian Bale, Johnny Depp, Marion Cotillard e dirigido por Michael Mann tem tudo para dar certo, se enganou. Fui assistir, com a certeza absoluta de que o filme era bom, que seria interessante ver uma aventura histórica e real sobre os bandidos da América nos anos 30. Tsc tsc.

Não sei o que aconteceu. Não entendi a proposta do filme, a câmera louca, a fotografia estranhíssima. Convenhamos que de Depp não esperamos mais do que uma ótima performance, bem como de Marion (para quem não lembra, Piaf). Já Cristian Bale, que costuma me deixar em crise, assim permaneceu. Começo a achar que ele não é bom ator, mas que teve oportunidades e continua crescendo. Seu mérito é muito mais de metamorfoses físicas do que efetivamente boa interpretação.

A história rende um filme tranquilamente: bandidos nos anos 30, plena crise americana, tocando o terror em assaltos a bancos à luz do dia. Não costumam matar, mas quando fazem só atingem os policiais. Criamos ainda a identificação com John Dillinger (Johnny Depp) e seu romance com a personagem de Marion, torcemos pelo final feliz e tudo mais. Mas, ainda assim, o excesso de closes, de movimentação da câmera, além de deixar o espectador tonto e perdido, o retira do filme completamente e ele começa a olhar para o relógio.

Eu fiquei com cara de interrogação, tentando decifrar o porquê daquelas cenas, de alguns diálogos, da existência de Cristian Bale e seu personagem: não sei se ele era o espertinho ou o banana, por exemplo. Sei que ele era quase o mais espertinho dos bananas. Parecia no fim das contas, um filme feito com câmeras digitais deficientes, que careciam de lentes que suprissem planos abertos. Estranho, já que o próprio Michael Mann é responsável por ótimos filmes, como outro policial, Miami Vice. Provavelmente não foi por falta de grana ou não teríamos estes atores em cena.

O resultado do aglomerado de desacertos, com o destaque dado na trilha sonora ultra-temática é um enigma: o que queria o diretor? Um filme de arte? Uma palhaçada? Uma experiência estética? Ou ele só deu azar e bateu a cabeça antes de dirigir? Independente de que respostas encontremos, uma assertiva é válida: talvez sirva como sessão da tarde.

Título Origina: Public Enemies
Diretor: Michael Mann
EUA, 2009. 143 min.
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Parece que não muda quase nada, mas a cada casa nova, nosso coração se preenche de aventuras, possibilidades e a certeza de que sempre acumulamos tranqueiras. Essa re-acomodação do espírito e das coisas, uma quase nova rotina e olhos frescos pra vida entram na contramão do sobe e desce de bagulhos, roupas, sapatos, livros, dvds.

Agora a relação é outra. Moro num apartamento onde as coisas são minhas e isso adquire uma estabilidade que gera uma agonia, inquietação por dentro. O morar se faz ainda mais firme e não se sente isso só por estar longe de casa, em minha Salvador, com minha família, mas esse fincar de bandeira no Sudeste acentua a vontade de sair por aí. Por mais louco que pareça, é a mais sincera vontade que me percorre.

Adoro o lugar que vivo. Foi o primeiro que morei quando vim de Salvador e por acasos (ou não) da vida, parei nele agora. Enquanto construo o dia-a-dia das amizades, do trabalho, da família ao telefone, viajo em novas experiências, imagino novos caminhos e rotas. Invejo os apresentadores de tv pé na estrada. Mas acredito também que, para que a partida a novos rumos seja mais do que uma experiência de espírito e aventuras, precisamos do pé no chão, de alguma estratégia e lógico, grana.

Enquanto a partida não chega, invisto em aventuras na cidade que aprendi a desbravar e que hoje tenho a pretensão de dizer que me viro muito bem nela, conheço alguns caminhos e sou difícil de me perder. Talvez as pequenas novidades e encontros pelo trajeto atenuem minha ânsia de partir. Por enquanto, a estabilidade me tem e as tranqueiras vão virar utilidades para outros.
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Qual o problema que esse pessoal que vai ao cinema tem com os créditos? Eu até entendo que pra quem não é da área não diz muito aquele monte de letras subindo a tela depois de duas horas de projeção, mas respeitem quem curte até o fim, ainda mais se há imagens passando por detrás das letras. A parte boa é que a seqüência era bastante interessante no filme A Partida, em que o 'preparador' de corpos para o funeral japonês arruma um deles de forma bem bonita e respeitosa. Enquanto isso acontece e paramos para ver, uma senhora de meia idade fica bem na nossa frente e comenta alto com a amiga que está precisando se reconectar ou que se sente desconectada ou algo cibernético do gênero, mas acho que ela quis dizer ir para um spa.

Dizer que A Partida é um filme bobo é quase maldade. A história é bonita, mas quando não é o conteúdo, é a forma que escapole. Um violoncelista perde o emprego quando a orquestra em que tocava é dissolvida. Casado e com contas a pagar, retorna à cidade natal e encontra emprego numa espécie de agência funerária que prepara os corpos para o funeral. É um ritual japonês, da maquiagem ao figurino e sob a presença dos familiares. A esposa, claro, não sabe da profissão do marido e os problemas começam.

O que poderia ser um filme bonito cai no brega e no exagero. Minha tese é a de que, para universalizar-se com um tema tão específico à cultura oriental, eles aliviaram em alguns tons, pesaram em outros e trouxeram diversas e gratuitas referências ocidentais. Para isso temos uma esposa quase histérica de tão sorridente e aparentemente submissa, a Ave Maria tocada no violoncelo - que deprime até Amélie Poulain e Poliana - mais violoncelo e paisagens inundando o cinema, numa possível metáfora de equilibrio e ascensão de nosso personagem principal, algumas situações que puxam para a comédia da piada física: trejeitos, caretas, expressões.

Uma sequencia magnifícia e que vale o destaque: logo no início do filme, enquanto nosso herói trabalha na Orquesta, eles se apresentam numa construção belíssima da cena, tocando a nona. Melhor momento do filme.

Mas o fato é que depois de um papo de bar divertido com amigos, dois chopps devassíssimos e uma boa companhia no cinema, quase vale qualquer filme. De alguma forma esse ganhou o Oscar do ano, passando por cima de outros ótimos, como The Class e Valsa com Bashir. Na verdade, compreender porque estes dois últimos não venceram é apenas abrir os olhos um pouco mais: Bashir nos traz a guerra do Líbano, um massacre sem fim e The Class é um retrato ao que se entende, fiel das relações sociais em escolas francesas cujos alunos são, em maioria, imigrantes. Dá pra entender porque um filme tão distante da realidade americana, tão inocente e sem culpas entrou na jogada e faturou.

Críticas às cafonices à parte, o filme garante lágrimas aos mais sensíveis, imagens belíssimas de natureza (cerejeiras, pássaros... toda a fauna e flora japa que vemos nos docs da NatGeo) e um conjunto de sequencias com os rituais celebrados. Até parece um pedaço do Japão verdadeiro. Fiquei me perguntando e comentei com Mati sobre as interpretações e concordamos que tanto o protagonista quanto a esposa poderiam ser melhor elaborados, sem tanta caricatura. Já os personagens mais velhos, como o dono da agência funerária, a dona da casa de banho e seu colega de trabalho, merecem prêmios. Carregam o filme.

Acho que é o velho problema da expectativa. Eu li ou vi um filme... ou foi Bukowski... acho que foi Bukowski, um conto seu que um personagem diz: A expectativa é a mãe da decepção e o Acaso, pai da Felicidade (ou algo do gênero, que não sou boa com citações). Faz sentido até...

Título Original: Okuribito
Diretor: Yôjirô Takita
País: Japão, 2008
130 min.
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Um sopro de ar, uma leveza, um olhar, o riso. Como uma brisa que passa, ficou o sorriso solto no espaço, uma vontade de alguma coisa que não sabemos bem definir, um movimento novo na atmosfera.

O mar, como eu, está de ressaca. De dentro do táxi, só me dei conta disso quando passei pela orla à noite. Ainda com as janelas fechadas do vento frio, dava pra ver as ondas quebrando com violência na praia. Dentro, um movimento urgente, que nos intriga e inquieta. O mar tem dessas coisas, expressa tudo o que não conseguimos. Mas não há muito o que fazer. Fico parada e espero que o passarinho dentro de mim se acalme novamente e mantenha seu ninho onde nasceu. Ainda não é hora de dividir.

Quando conhecemos as histórias particulares, entendemos o que é melhor para nós, calculamos toda a matemática que nos é posta, mas o que queremos de prova é outra coisa. E, se como o vento que sopra ainda lembra a agradável brisa de outros dias, que a deixemos na memória, esperemos a turbulência sossegar e vivamos quase tranquilamente. Às vezes é só o tempo nos mandando um recado carinhoso.
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Eu fico me perguntando porque nos abalamos com esse acidente do Air France. Tudo parece um filme, tão surreal é o acontecido. Hoje, com a tecnologia que se tem, com a segurança que é voar... um avião desaparece com quase 300 pessoas no meio do mar. Ao mesmo tempo, é algo distante, não conheço os passageiros ou seus parentes e o que costumava ser exibido nos noticiários era apenas uma gripe nova.

Hoje acordei mais cedo. Levantei e a primeira coisa em que pensei foi justamente no avião. Esses acidentes, ainda mais que os terrestres, apenas atestam a vulnerabilidade de que somos feitos. Não sei, mas encaramos a vida com uma falsa segurança de que vamos viver bastante e que nosso dia-a-dia durará anos. Ainda que dentro de nós saibamos que estamos à mercê do que pode acontecer, nunca esperamos por isso.

Tive um amigo que sofreu um acidente aéreo e perdeu a vida. Mais novo que eu e muito próximo, meu querido sequer conseguiu sair do aeroporto; a aeronave tentou alçar vôo e caiu. Tão estranho o fato que uma semana antes o havia encontrado, conversávamos, vivíamos. Por mais sinistro que pareça isso tudo, é somente parte do que somos e de como é estar. Há sempre e somente o presente.

O 447 apenas nos relembra e cria uma sintonia de tristeza, uma harmonia coletiva de dor, de encontrarmos nas histórias dos passageiros-vítimas, algo com que se identificar. É dessas coisas que ninguém espera, não se entende, não se esquece. Que se pense em destino, desígnios do divino e sobrenatural. Como mais uma das questões da humanidade, o sumiço da aeronave que já se consolida com um aparecimento de destroços, não conseguirá explicar porque aquelas pessoas ou aquele vôo, se tudo não passou de uma rotina estranhamente alterada.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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