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Café: extra-forte


Não vá. Se você acha que um filme com Cristian Bale, Johnny Depp, Marion Cotillard e dirigido por Michael Mann tem tudo para dar certo, se enganou. Fui assistir, com a certeza absoluta de que o filme era bom, que seria interessante ver uma aventura histórica e real sobre os bandidos da América nos anos 30. Tsc tsc.

Não sei o que aconteceu. Não entendi a proposta do filme, a câmera louca, a fotografia estranhíssima. Convenhamos que de Depp não esperamos mais do que uma ótima performance, bem como de Marion (para quem não lembra, Piaf). Já Cristian Bale, que costuma me deixar em crise, assim permaneceu. Começo a achar que ele não é bom ator, mas que teve oportunidades e continua crescendo. Seu mérito é muito mais de metamorfoses físicas do que efetivamente boa interpretação.

A história rende um filme tranquilamente: bandidos nos anos 30, plena crise americana, tocando o terror em assaltos a bancos à luz do dia. Não costumam matar, mas quando fazem só atingem os policiais. Criamos ainda a identificação com John Dillinger (Johnny Depp) e seu romance com a personagem de Marion, torcemos pelo final feliz e tudo mais. Mas, ainda assim, o excesso de closes, de movimentação da câmera, além de deixar o espectador tonto e perdido, o retira do filme completamente e ele começa a olhar para o relógio.

Eu fiquei com cara de interrogação, tentando decifrar o porquê daquelas cenas, de alguns diálogos, da existência de Cristian Bale e seu personagem: não sei se ele era o espertinho ou o banana, por exemplo. Sei que ele era quase o mais espertinho dos bananas. Parecia no fim das contas, um filme feito com câmeras digitais deficientes, que careciam de lentes que suprissem planos abertos. Estranho, já que o próprio Michael Mann é responsável por ótimos filmes, como outro policial, Miami Vice. Provavelmente não foi por falta de grana ou não teríamos estes atores em cena.

O resultado do aglomerado de desacertos, com o destaque dado na trilha sonora ultra-temática é um enigma: o que queria o diretor? Um filme de arte? Uma palhaçada? Uma experiência estética? Ou ele só deu azar e bateu a cabeça antes de dirigir? Independente de que respostas encontremos, uma assertiva é válida: talvez sirva como sessão da tarde.

Título Origina: Public Enemies
Diretor: Michael Mann
EUA, 2009. 143 min.
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Parece que não muda quase nada, mas a cada casa nova, nosso coração se preenche de aventuras, possibilidades e a certeza de que sempre acumulamos tranqueiras. Essa re-acomodação do espírito e das coisas, uma quase nova rotina e olhos frescos pra vida entram na contramão do sobe e desce de bagulhos, roupas, sapatos, livros, dvds.

Agora a relação é outra. Moro num apartamento onde as coisas são minhas e isso adquire uma estabilidade que gera uma agonia, inquietação por dentro. O morar se faz ainda mais firme e não se sente isso só por estar longe de casa, em minha Salvador, com minha família, mas esse fincar de bandeira no Sudeste acentua a vontade de sair por aí. Por mais louco que pareça, é a mais sincera vontade que me percorre.

Adoro o lugar que vivo. Foi o primeiro que morei quando vim de Salvador e por acasos (ou não) da vida, parei nele agora. Enquanto construo o dia-a-dia das amizades, do trabalho, da família ao telefone, viajo em novas experiências, imagino novos caminhos e rotas. Invejo os apresentadores de tv pé na estrada. Mas acredito também que, para que a partida a novos rumos seja mais do que uma experiência de espírito e aventuras, precisamos do pé no chão, de alguma estratégia e lógico, grana.

Enquanto a partida não chega, invisto em aventuras na cidade que aprendi a desbravar e que hoje tenho a pretensão de dizer que me viro muito bem nela, conheço alguns caminhos e sou difícil de me perder. Talvez as pequenas novidades e encontros pelo trajeto atenuem minha ânsia de partir. Por enquanto, a estabilidade me tem e as tranqueiras vão virar utilidades para outros.
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Qual o problema que esse pessoal que vai ao cinema tem com os créditos? Eu até entendo que pra quem não é da área não diz muito aquele monte de letras subindo a tela depois de duas horas de projeção, mas respeitem quem curte até o fim, ainda mais se há imagens passando por detrás das letras. A parte boa é que a seqüência era bastante interessante no filme A Partida, em que o 'preparador' de corpos para o funeral japonês arruma um deles de forma bem bonita e respeitosa. Enquanto isso acontece e paramos para ver, uma senhora de meia idade fica bem na nossa frente e comenta alto com a amiga que está precisando se reconectar ou que se sente desconectada ou algo cibernético do gênero, mas acho que ela quis dizer ir para um spa.

Dizer que A Partida é um filme bobo é quase maldade. A história é bonita, mas quando não é o conteúdo, é a forma que escapole. Um violoncelista perde o emprego quando a orquestra em que tocava é dissolvida. Casado e com contas a pagar, retorna à cidade natal e encontra emprego numa espécie de agência funerária que prepara os corpos para o funeral. É um ritual japonês, da maquiagem ao figurino e sob a presença dos familiares. A esposa, claro, não sabe da profissão do marido e os problemas começam.

O que poderia ser um filme bonito cai no brega e no exagero. Minha tese é a de que, para universalizar-se com um tema tão específico à cultura oriental, eles aliviaram em alguns tons, pesaram em outros e trouxeram diversas e gratuitas referências ocidentais. Para isso temos uma esposa quase histérica de tão sorridente e aparentemente submissa, a Ave Maria tocada no violoncelo - que deprime até Amélie Poulain e Poliana - mais violoncelo e paisagens inundando o cinema, numa possível metáfora de equilibrio e ascensão de nosso personagem principal, algumas situações que puxam para a comédia da piada física: trejeitos, caretas, expressões.

Uma sequencia magnifícia e que vale o destaque: logo no início do filme, enquanto nosso herói trabalha na Orquesta, eles se apresentam numa construção belíssima da cena, tocando a nona. Melhor momento do filme.

Mas o fato é que depois de um papo de bar divertido com amigos, dois chopps devassíssimos e uma boa companhia no cinema, quase vale qualquer filme. De alguma forma esse ganhou o Oscar do ano, passando por cima de outros ótimos, como The Class e Valsa com Bashir. Na verdade, compreender porque estes dois últimos não venceram é apenas abrir os olhos um pouco mais: Bashir nos traz a guerra do Líbano, um massacre sem fim e The Class é um retrato ao que se entende, fiel das relações sociais em escolas francesas cujos alunos são, em maioria, imigrantes. Dá pra entender porque um filme tão distante da realidade americana, tão inocente e sem culpas entrou na jogada e faturou.

Críticas às cafonices à parte, o filme garante lágrimas aos mais sensíveis, imagens belíssimas de natureza (cerejeiras, pássaros... toda a fauna e flora japa que vemos nos docs da NatGeo) e um conjunto de sequencias com os rituais celebrados. Até parece um pedaço do Japão verdadeiro. Fiquei me perguntando e comentei com Mati sobre as interpretações e concordamos que tanto o protagonista quanto a esposa poderiam ser melhor elaborados, sem tanta caricatura. Já os personagens mais velhos, como o dono da agência funerária, a dona da casa de banho e seu colega de trabalho, merecem prêmios. Carregam o filme.

Acho que é o velho problema da expectativa. Eu li ou vi um filme... ou foi Bukowski... acho que foi Bukowski, um conto seu que um personagem diz: A expectativa é a mãe da decepção e o Acaso, pai da Felicidade (ou algo do gênero, que não sou boa com citações). Faz sentido até...

Título Original: Okuribito
Diretor: Yôjirô Takita
País: Japão, 2008
130 min.
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Um sopro de ar, uma leveza, um olhar, o riso. Como uma brisa que passa, ficou o sorriso solto no espaço, uma vontade de alguma coisa que não sabemos bem definir, um movimento novo na atmosfera.

O mar, como eu, está de ressaca. De dentro do táxi, só me dei conta disso quando passei pela orla à noite. Ainda com as janelas fechadas do vento frio, dava pra ver as ondas quebrando com violência na praia. Dentro, um movimento urgente, que nos intriga e inquieta. O mar tem dessas coisas, expressa tudo o que não conseguimos. Mas não há muito o que fazer. Fico parada e espero que o passarinho dentro de mim se acalme novamente e mantenha seu ninho onde nasceu. Ainda não é hora de dividir.

Quando conhecemos as histórias particulares, entendemos o que é melhor para nós, calculamos toda a matemática que nos é posta, mas o que queremos de prova é outra coisa. E, se como o vento que sopra ainda lembra a agradável brisa de outros dias, que a deixemos na memória, esperemos a turbulência sossegar e vivamos quase tranquilamente. Às vezes é só o tempo nos mandando um recado carinhoso.
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Eu fico me perguntando porque nos abalamos com esse acidente do Air France. Tudo parece um filme, tão surreal é o acontecido. Hoje, com a tecnologia que se tem, com a segurança que é voar... um avião desaparece com quase 300 pessoas no meio do mar. Ao mesmo tempo, é algo distante, não conheço os passageiros ou seus parentes e o que costumava ser exibido nos noticiários era apenas uma gripe nova.

Hoje acordei mais cedo. Levantei e a primeira coisa em que pensei foi justamente no avião. Esses acidentes, ainda mais que os terrestres, apenas atestam a vulnerabilidade de que somos feitos. Não sei, mas encaramos a vida com uma falsa segurança de que vamos viver bastante e que nosso dia-a-dia durará anos. Ainda que dentro de nós saibamos que estamos à mercê do que pode acontecer, nunca esperamos por isso.

Tive um amigo que sofreu um acidente aéreo e perdeu a vida. Mais novo que eu e muito próximo, meu querido sequer conseguiu sair do aeroporto; a aeronave tentou alçar vôo e caiu. Tão estranho o fato que uma semana antes o havia encontrado, conversávamos, vivíamos. Por mais sinistro que pareça isso tudo, é somente parte do que somos e de como é estar. Há sempre e somente o presente.

O 447 apenas nos relembra e cria uma sintonia de tristeza, uma harmonia coletiva de dor, de encontrarmos nas histórias dos passageiros-vítimas, algo com que se identificar. É dessas coisas que ninguém espera, não se entende, não se esquece. Que se pense em destino, desígnios do divino e sobrenatural. Como mais uma das questões da humanidade, o sumiço da aeronave que já se consolida com um aparecimento de destroços, não conseguirá explicar porque aquelas pessoas ou aquele vôo, se tudo não passou de uma rotina estranhamente alterada.
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Sua mãe uma vez lhe disse que as borboletas traziam sorte. Mas como trazer borboletas? Ela morava no alto de um desses prédios de cidade grande. Nunca tinha visto bichos de verdade, além desses de metrópole. Lembrou que uma vez foi no zoológico e viu, de longe, os bichos das florestas que nunca iria.

Ainda assim, desceu para o jardim do prédio. Resolveu ir em busca de borboletas. Sua mãe não lhe disse como fazer e nem teria tempo, já que essa foi uma conversa para iluminar uma criança triste sem amigos na escola. Então ela corria e corria, agora todas as tardes, esperando e tentando alcançar as borboletas. Do alto do prédio alguém observava.

Pegou duas, mas a primeira morreu esmagada na sua euforia. A segunda, depois do enterro daquela, foi tratada com bastante carinho. Ela a levou para o quarto e, segurando suas asinhas, investigou cada detalhe do inseto dourado. Não sabia ela que, quando pegamos nas asas, elas deixam de voar. Então, quando soltou a borboleta no céu a viu despencar andares abaixo. Que tipo de sorte era aquela?

Desolada, sua mãe então lhe disse que não mexesse mais com insetos, mas o estrago já estava feito. O porteiro lhe disse que não adianta pegar borboletas, mas casulos, que a graça era vê-las nascer. Sem saber o que eram casulos, perguntou E a sorte?, Você verá quando ela aparecer., ele respondeu. Mas, mais difícil do que pegar borboletas em jardins de prédio era encontrar seus casulos.

Dias e mais dias, ela desistiu. Não havia casulos em seu jardim. As borboletas precisam de árvores, natureza, tranquilidade, não um punhado de arbustos e flores instaladas em concreto. Triste, voltou ao apartamento e de lá não saiu até suas férias. Distraída na varanda, sem mais o que fazer, olhava para o teto. Lá embaixo, o jardim inútil. Em cima, teto, branco, umas folhas e flores ao redor, nada além de formigas.

Sem sorte, ela se preparava para o pior: a viagem da família. Se lembrou imediatamente do barulho, dos primos que a perturbavam, daquele ar de cheiro estranho, de como ficaria mais sozinha do que nunca, já que sua mãe a deixava lá no fim de semana. Sem brinquedos, sem revistas, Vá brincar com seus primos, ela insistia, como se fosse uma obrigação divertida. Como se eles gostassem dela.

Era uma casa grande, como uma dessas raras fazendas de família. Muito espaço, frutas, até uma vaca, tinha. Mas ela não se importava e até se incomodava demais com os mosquitos e aquele leite estranho. Resolveu andar, assim ficaria longe dos mosquitos, da vaca, dos primos. Andou tanto que cansou. Parou embaixo de uma mangueira. Não era janeiro, o que lhe restavam eram apenas as folhas verdes da copa. Olhando de perto num galho baixo, viu que tinha algo de estranho. O tronco era todo liso, terminava em galhos menores e folhas, muitas folhas. Mas aquilo não era uma flor, não era um nó, o que era? Tocou com a pontinha do dedo: nada. Mexeu de um lado para outro, aquele negócio pendurado, pequeno e marrom. Nada. Resolveu puxar. Tentou abrir, mas ficou com nojo, porque era meio mole. Deitou no chão e, como se tivesse uma lupa ou fosse um lobo, encostou o rosto e farejou, olhou, tentou entrar naquele saquinho de alguma coisa. Nessa brincadeira, dormiu.

Acordou depois de sonhar alguma coisa que esqueceu. Esqueceu também de lembrar do sonho, que ela sempre tentava fazer mas esquecia que tinha que lembrar, todas as manhãs. Nesse momento, pensou em algo mais importante. Sabia que ele era quieto, esquisito e vivia imitando ela. Se ela desceu para catar borboletas, ele foi no dia seguinte, meio escondido. Ela sempre sabia e sempre fingia que não. Era quase um jogo de esconder às avessas. Ficou pensando em como ele a venceria, depois que levasse esse saquinho para casa.

Quando sua mãe finalmente a pegou, ela estava tranquila. Havia passado dois dias inteiros na mangueira, olhando o saquinho marrom. Assim que chegou em casa, achou importante e digno bater à porta do vizinho. Ele sabia que ela estava a caminho, já que viu o carro entrando na garagem. Abriu a porta assustado, como se tivessem descoberto seu segredo. Sem muito dizer, ela abriu a mão e ele viu, sabia o que era, ainda que ela dissesse que era seu saquinho da sorte, já que não encontrara borboletas e nem nada parecido. Ele, que sabia um tanto mais, ao tentar pegar o casulo, ela deu um passo atrás. Ele foi à frente e, quando abriu a boca para contar então o segredo, o saquinho começou a se mexer e ela sentiu medo. Ele pôs sua mão embaixo da dela, para que não deixasse cair. Ela quase chorava, mas não faria isso na sua frente. A borboleta voou pelo apartamento. Ela precisava da borboleta, era dela, ela havia encontrado. Ele queria a borboleta, merecia, sabia o que era o casulo. Mas, quando a borboleta encontrou a janela, era tarde demais. Indo embora, virou-se um instante para os dois e, como se piscasse com o bater das asas, se despediu. E eles ficaram ali, juntos e calados, sem perceber que a sorte lhes chegara em forma de amizade.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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