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Café: extra-forte

Eu fico me perguntando porque nos abalamos com esse acidente do Air France. Tudo parece um filme, tão surreal é o acontecido. Hoje, com a tecnologia que se tem, com a segurança que é voar... um avião desaparece com quase 300 pessoas no meio do mar. Ao mesmo tempo, é algo distante, não conheço os passageiros ou seus parentes e o que costumava ser exibido nos noticiários era apenas uma gripe nova.

Hoje acordei mais cedo. Levantei e a primeira coisa em que pensei foi justamente no avião. Esses acidentes, ainda mais que os terrestres, apenas atestam a vulnerabilidade de que somos feitos. Não sei, mas encaramos a vida com uma falsa segurança de que vamos viver bastante e que nosso dia-a-dia durará anos. Ainda que dentro de nós saibamos que estamos à mercê do que pode acontecer, nunca esperamos por isso.

Tive um amigo que sofreu um acidente aéreo e perdeu a vida. Mais novo que eu e muito próximo, meu querido sequer conseguiu sair do aeroporto; a aeronave tentou alçar vôo e caiu. Tão estranho o fato que uma semana antes o havia encontrado, conversávamos, vivíamos. Por mais sinistro que pareça isso tudo, é somente parte do que somos e de como é estar. Há sempre e somente o presente.

O 447 apenas nos relembra e cria uma sintonia de tristeza, uma harmonia coletiva de dor, de encontrarmos nas histórias dos passageiros-vítimas, algo com que se identificar. É dessas coisas que ninguém espera, não se entende, não se esquece. Que se pense em destino, desígnios do divino e sobrenatural. Como mais uma das questões da humanidade, o sumiço da aeronave que já se consolida com um aparecimento de destroços, não conseguirá explicar porque aquelas pessoas ou aquele vôo, se tudo não passou de uma rotina estranhamente alterada.
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Sua mãe uma vez lhe disse que as borboletas traziam sorte. Mas como trazer borboletas? Ela morava no alto de um desses prédios de cidade grande. Nunca tinha visto bichos de verdade, além desses de metrópole. Lembrou que uma vez foi no zoológico e viu, de longe, os bichos das florestas que nunca iria.

Ainda assim, desceu para o jardim do prédio. Resolveu ir em busca de borboletas. Sua mãe não lhe disse como fazer e nem teria tempo, já que essa foi uma conversa para iluminar uma criança triste sem amigos na escola. Então ela corria e corria, agora todas as tardes, esperando e tentando alcançar as borboletas. Do alto do prédio alguém observava.

Pegou duas, mas a primeira morreu esmagada na sua euforia. A segunda, depois do enterro daquela, foi tratada com bastante carinho. Ela a levou para o quarto e, segurando suas asinhas, investigou cada detalhe do inseto dourado. Não sabia ela que, quando pegamos nas asas, elas deixam de voar. Então, quando soltou a borboleta no céu a viu despencar andares abaixo. Que tipo de sorte era aquela?

Desolada, sua mãe então lhe disse que não mexesse mais com insetos, mas o estrago já estava feito. O porteiro lhe disse que não adianta pegar borboletas, mas casulos, que a graça era vê-las nascer. Sem saber o que eram casulos, perguntou E a sorte?, Você verá quando ela aparecer., ele respondeu. Mas, mais difícil do que pegar borboletas em jardins de prédio era encontrar seus casulos.

Dias e mais dias, ela desistiu. Não havia casulos em seu jardim. As borboletas precisam de árvores, natureza, tranquilidade, não um punhado de arbustos e flores instaladas em concreto. Triste, voltou ao apartamento e de lá não saiu até suas férias. Distraída na varanda, sem mais o que fazer, olhava para o teto. Lá embaixo, o jardim inútil. Em cima, teto, branco, umas folhas e flores ao redor, nada além de formigas.

Sem sorte, ela se preparava para o pior: a viagem da família. Se lembrou imediatamente do barulho, dos primos que a perturbavam, daquele ar de cheiro estranho, de como ficaria mais sozinha do que nunca, já que sua mãe a deixava lá no fim de semana. Sem brinquedos, sem revistas, Vá brincar com seus primos, ela insistia, como se fosse uma obrigação divertida. Como se eles gostassem dela.

Era uma casa grande, como uma dessas raras fazendas de família. Muito espaço, frutas, até uma vaca, tinha. Mas ela não se importava e até se incomodava demais com os mosquitos e aquele leite estranho. Resolveu andar, assim ficaria longe dos mosquitos, da vaca, dos primos. Andou tanto que cansou. Parou embaixo de uma mangueira. Não era janeiro, o que lhe restavam eram apenas as folhas verdes da copa. Olhando de perto num galho baixo, viu que tinha algo de estranho. O tronco era todo liso, terminava em galhos menores e folhas, muitas folhas. Mas aquilo não era uma flor, não era um nó, o que era? Tocou com a pontinha do dedo: nada. Mexeu de um lado para outro, aquele negócio pendurado, pequeno e marrom. Nada. Resolveu puxar. Tentou abrir, mas ficou com nojo, porque era meio mole. Deitou no chão e, como se tivesse uma lupa ou fosse um lobo, encostou o rosto e farejou, olhou, tentou entrar naquele saquinho de alguma coisa. Nessa brincadeira, dormiu.

Acordou depois de sonhar alguma coisa que esqueceu. Esqueceu também de lembrar do sonho, que ela sempre tentava fazer mas esquecia que tinha que lembrar, todas as manhãs. Nesse momento, pensou em algo mais importante. Sabia que ele era quieto, esquisito e vivia imitando ela. Se ela desceu para catar borboletas, ele foi no dia seguinte, meio escondido. Ela sempre sabia e sempre fingia que não. Era quase um jogo de esconder às avessas. Ficou pensando em como ele a venceria, depois que levasse esse saquinho para casa.

Quando sua mãe finalmente a pegou, ela estava tranquila. Havia passado dois dias inteiros na mangueira, olhando o saquinho marrom. Assim que chegou em casa, achou importante e digno bater à porta do vizinho. Ele sabia que ela estava a caminho, já que viu o carro entrando na garagem. Abriu a porta assustado, como se tivessem descoberto seu segredo. Sem muito dizer, ela abriu a mão e ele viu, sabia o que era, ainda que ela dissesse que era seu saquinho da sorte, já que não encontrara borboletas e nem nada parecido. Ele, que sabia um tanto mais, ao tentar pegar o casulo, ela deu um passo atrás. Ele foi à frente e, quando abriu a boca para contar então o segredo, o saquinho começou a se mexer e ela sentiu medo. Ele pôs sua mão embaixo da dela, para que não deixasse cair. Ela quase chorava, mas não faria isso na sua frente. A borboleta voou pelo apartamento. Ela precisava da borboleta, era dela, ela havia encontrado. Ele queria a borboleta, merecia, sabia o que era o casulo. Mas, quando a borboleta encontrou a janela, era tarde demais. Indo embora, virou-se um instante para os dois e, como se piscasse com o bater das asas, se despediu. E eles ficaram ali, juntos e calados, sem perceber que a sorte lhes chegara em forma de amizade.
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1.
O maior problema do Flamengo nessa cidade são seus torcedores. Eles passam horas gritando de onde estiverem para quem quiser e não quiser ouvir, 'mengo'. Ontem, no começo do jogo (Botafogo x Flamengo), o 'mengão' fez um gol. Eu estava saindo de casa e vi uma cena que depois percebi ser clássica: ouvi a torcida e pensei: gol. Um sujeito estava em seu apartamento, foi até a janela e gritou 'mengo!'. Ele viu que quase não tinha ninguém na rua além de mim. Gritou de novo, já meio sem jeito. Segundos depois, uma menina, no mesmo prédio que o dele, foi à janela e gritou 'mengo!'. Essa nem percebeu o vazio da rua e o vizinho calado que a observava na janela ao lado. Eles me lembram os cachorros que trocam uivos distantes nas noites de cidades menores.

2.
Era uma vez uma viagem ao Rio. Eles, alemães. Pai, mãe e filho. A mãe, gorda, rosto bonito, queria fazer topless e ler revistas. Foi ao mar. O filho, de talvez 14 anos, parecia bastante com o pai, só que mais magro e atlético. O pai, um sujeito de meia idade, provavelmente desses que tem amante, mais pelo dinheiro do que pela beleza. Barrigudo, calvo de fios lisos, pálido. Feio.

A família feliz vê duas meninas na praia. Sentada a branquinha, deitada a morena. Como o costume manda, o pai olha para a morena. Ela, já acostumada à situação, comenta cansada com a amiga. Elas observam o comportamento do pai. A mãe finge que não vê. A criança é criança. O pai insiste.

Traçou-se um perfil raso e talvez falso da família. O que importa é a intransigência, audácia e ousadia do pai. Não há mais respeito. É o tipo do olhar que de tanta teimosia, irrita. Fomos almoçar. Ao olhar o cardápio do restaurante de beira de praia, ganho uma flor com um 'for you'. Thank you. Provavelmente outro pai. Não me virei para olhar.

3.
Noite de Hamlet. Contos depois.
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Por que há tanta necessidade de se definir tudo? Por que é tão difícil perceber que algumas coisas que vivemos e sentimos simplesmente não possam se definir? O que há de errado nisso? Uma breve reflexão sobre o texto e diálogos em Kim-Ki-Duk e Kieslowski.

primavera-verão-outono-inverno-filme
Primavera, verão, outono, inverno...e primavera
É engraçado como esse é um pensamento recorrente em mim. Hoje tive uma conversa com uma amiga que retomava essa história, uma busca por definições de sentimentos, pensamentos, experiências... acho sim que a partir do momento em que definimos algo, acabamos perdendo toda a dimensão que este mesmo algo poderia ter. É como se eu perguntasse a você: Quem é você? E você me respondesse: Eu sou Fulano. Mas, a quantas pessoas eu posso fazer essa mesma pergunta e obter a mesma resposta? Você se define apenas por um nome? Ou uma frase?

Assim também e talvez ainda mais evidente seja se tratarmos dos sentimentos. Quando dizemos que amamos alguém, limitamos tudo o que sentimos a uma frase, a um termo. Mas o amor, o ódio, o carinho, o sentimento que for, é muito mais amplo e infinito em nós do que um verbo consegue exprimir.

kieslowski-filme
A dupla vida de Veronique
O mais interessante da conversa toda é a confluência das situações que vivi ainda hoje e que entraram em sintonia com o tema. Assistindo A Dupla Vida de Véronique, de Kieslowski vemos com força total a expressão de sentimentos sem o prejuízo da palavra. Numa estória em que sentimentos são o mote principal, não há espaço para aquele conhecido excesso de diálogos. E o diretor conseguiu traduzir na tela, com a fotografia, com o elenco, com a música. Há forma melhor do que essa para reinterpretar ou transmitir o que sentimos?

Agora, acabo de ver o Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera. O filme quase não tem diálogos e os que há são fundamentais. Dá para sentir como a ausência de fala pode dizer muito mais. É um filme que lhe transporta, transforma seu estado de espírito, te inunda com um outro olhar, num outro tempo e espaço. Numa outra vida mesmo. São filmes assim que nos tornam diferentes, causam estranhamento, nos dão aquele tempo de sentir, de pensar, de participar ou, como diria um professor de artes, de fruir. Mais uma vez, não adianta tentar definir muito, apenas indicar o filme. Para esse, não vale nem sinopse.

Acredito que precisamos de momentos como os que tive hoje, simples, baratos, tranquilos e ricos. São eles que nos sustentam, nos fazem crescer. É tempo de parar e refletir, não viver apenas o todo-dia-a-mesma-coisa. E, se faltarem palavras, relaxe: a brincadeira é exatamente essa. Até porque, você nunca consegue dizer tudo o que quer e jamais será entendido como espera.

Filmes:
A Dupla Vida de Vèronique
Título original: La double vie de Vèronique
Diretor: Krzysztof Kieslowski
País: França, Polônia
1991, 93 min.

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera
Título original: Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom
Diretor: Kim Ki-Duk
País: Coréia do Sul
2003, 99 min.
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simplesmente-feliz-filme

Um filme sobre a ousada proposta de levar a vida mais leve.

Normalmente os domingos costumam ser mais ou menos assim: acordo tarde porque saí na noite anterior; às vezes estou com uma ressaca mortal que me deixa letárgica, às vezes é só preguiça: costumo passar o dia de camisola, no sofá, vendo tv, lendo livro e cochilando. No sábado, fez um dia lindo. Estamos no Outono e a temperatura está uma delícia. Não vemos muito isso em Salvador, que costuma ser quente quase o ano inteiro. Aqui está tudo muito gostoso: venta de leve, céu azul, é um ar fresco e à noite tem feito um friozinho de dormir sem ventilador e ter sono profundo.

Acontece que ontem passei o dia inteiro quase de preguiça, entre conversar com Luciene e fazer nosso almoço, ir ao salão para deixar as unhas de mocinha e tomar susto com a Esquadrilha da Fumaça. Em seguida, cine e boteco. Dormi às 02:30h. Acordei às 10h, de sono pesado e mamis ao telefone. Fiquei lerda sem ressaca e coragem de sair. Me situei entre que dia lindo para fazer alguma coisa e jamais irei na praia, que deve estar lotada: o que eu precisava mesmo era de um impulso de um amigo, parente, conhecido, vizinho etc. Não rolou. Me obriguei a sair de casa às 16:15h para ir ao cine novamente. E é onde tudo começa.

O filme foi Simplesmente Feliz. Vendo o trailer você decide se conseguirá ver o filme com uma protagonista que é quase irritante O negócio é que a professora de primário de 30 anos que vive com a amiga em Londres é uma otimista do tipo quase-débil. Ela é feliz em todas as direções, à primeira vista: reconciliadora, graciosa, irritante e risonha. Mas o que me interessou no trailer é que eu tinha a certeza de que seria um filme leve, sem maiores pretensões e que tinha chances de sair uma comédia divertida mesmo, nos limites que o roteiro prevê. E assim foi.

Sozinha no cinema mais cult da cidade, com três salas pequenas, café, teatro, exposição e livraria, cheguei mais cedo e me deparei com milhares de velhinhas e velhinhos com menos preguiça do que eu. Fui à livraria e quase desandei no consumismo. Fiquei um tempo olhando os livros, esperando que algum me desse um tchauzinho ou piscasse o olho. Tentei, esperei, mas consegui sair da loja sem gastar. Estou em busca de livros específicos e preciso me concentrar neles e não no resto do universo. Entrei no cine e descobri que uma sala com pessoas mais velhas é sempre melhor, porque elas realmente ficam caladas e estão interessadas em ver o filme de verdade. Terminado o filme, tentei uma outra sessão, mas já tinha visto o seguinte e fui pra casa.

Vim com uma sensação estranha, o filme me causara uma pontuação no peito. Eu estava feliz? Eu estava tranqüila? E por que um filme aparentemente bobo me causaria tantas perguntas? Saí da praia de Ipanema e segui pra minha rua com cara de interrogação, exclamação e muitas reticências, como se andasse em outro planeta. Sabe como é? É como se você desconhecesse tudo a seu redor, as pessoas que te olham quando você passa, os elogios decorosos e indecorosos, o filhote de labrador que ficou brincando comigo até eu entender que o coroa dono dele poderia achar que meu interesse era nele e saí de perto.

Acho que esse filme traz um amálgama de reflexões que parte de situações do cotidiano que vivemos, sem interpretar a todo instante. É um novo ponto de vista vindo de um filme que não usa a fantasia – como Amélie Poulain – mas o dia-a-dia de qualquer pessoa. E a personagem irritante com roupas coloridas além da conta vai ganhando outras dimensões, como todo indivíduo. Sua complexidade é intensificada de acordo com suas reações a acontecimentos banais. Uma grosseria, uma briga, uma situação delicada no trabalho, com a irmã, e como a personagem reage a tudo, um ponto de vista novo que não infantiliza as situações vividas, mas nos traz novas perspectivas e oportunidades.

É ainda um filme que fala de amizade, de escolhas que fazemos na vida e de como elas nos transformam sem percebermos. É um filme que, ao contrário de particularizar situações, nos aproxima delas, como se todos pudéssemos passar por experiências similares. Sem maiores pretensões, é um filme que nos preenche a cada seqüência, a cada nova resposta para as perguntas ali expostas. É, por fim, um filme leve e tranqüilo, com uma velha lição de moral que é dada de uma forma diferente e inteligente. E ela ainda dança flamenco!

Título original: Happy-go-Lucky (2009)
Diretor: Mike Leigh
País: Inglaterra
118 min.
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Não sei se todo mundo viu, mas eu vi e, mais uma vez, acho que a repercussão que teve aqui foi muito pequena e superficial. Nesta semana, com a greve dos trens da empresa SuperVia do Rio de Janeiro, milhares de trabalhadores ficaram sem transporte principal e mais, quando a greve começou a ceder e alguns trens voltaram a funcionar, os clientes foram espancados e levaram chicotadas ao entrar nos vagões. Eu não sei o que acontece... eu sei que vi apenas uma pessoa do trabalho comentar o assunto e tudo se passou como se o caso não fosse grave. Por que os caras não foram presos?

Ás vezes fico me perguntando porque as pessoas tomam algumas atitudes de forma tão desesperada. Não sendo alienada ou estúpida, entendo a agonia do povo em tomar os trens - o Rio de Janeiro é uma cidade grande que se espalha muito além da Zona Sul e Centro e o trem é um meio de transporte fundamental de ligação destes com os bairros periféricos. Os moradores dos bairros distantes costumam ter poder aquisitivo bastante inferior aos que moram do lado de cá e faltar um dia de trabalho ou os 4 da greve pode lhes causar o emprego de que dependem. Mas, ao tempo que penso nisso, se eu visse os funcionários da SuperVia chicoteando pessoas que entravam nos trens, eu não entraria. E acho surpreendente como não aconteceu um quadro de violência ainda maior, sinceramente, não entendi como ninguém cercou esses animais da SuperVia e lhes deu uma surra.

Cesar Cabral criticou as concessionárias de transporte público cariocas, dando ênfase óbvia aos trens (para quem não está ligado, são aqueles trens que aparecem no filme Central do Brasil). Esses trens estão sucateados até o limite, os acidentes nas vias são praticamente semanais, sem falar que ocasionalmente ainda acontecem trocas de tiros de traficantes com traficantes e traficantes com policiais. A falta de respeito com os conterrâneos é absurda por aqui. Não que seja em gradação menor em outros cantos.

Essa situação da SuperVia só se tornou alarmante de fato porque o espancamento foi veiculado ao vivo, lembrando as situações de tortura que rolam mundo afora. Surpresa para poucos: se Sérgio Cabral não fez um pronunciamento efetivo de suspensão das atividades da empresa, se o diretor da empresa apenas pediu desculpas e admitiu a fragilidade de seus funcionários agora demitidos, se os direitos humanos não apareceram para reclamar, não sei porquê. O que eu sei é que ainda haviam policiais no local que se fizeram de besta e não impediram a ação dos psicopatas.

No fim da história, em busca do escrever por aqui, saiu essa agonia. O jornal da manhã mostrou as imagens da semana e, mais uma vez, saiu a sequência de imagens da GloboNews mostrando as agressões nos trens abarrotados de gente. Que a semana que vem mostre alguma coisa legal, para variar.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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