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Café: extra-forte

P.s.: Estou a disposição para ganhar livros para ler. Aceito todos de coração aberto e mente ávida. Indicações são também bem-vindas.
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Ontem li um texto de Borges que contava a história de um labirinto. Segundo o autor, era um romance policial que o leitor só entenderia no último paragrafo. Não era simplesmente um labirinto, mas um emaranhado de livro e labirinto que tratava da infinitude, do tempo, dos universos paralelos, como questões de múltipla escolha, sendo todas possíveis.

Estou digerindo a idéia junto com outros pensamentos correlatos, mas hoje me peguei pensando no Ano. Há mais ou menos um ano participei de uma edição do É Tudo Verdade aqui no Rio. Hoje fui novamente e vi uma estréia do filme de Eduardo Coutinho – Moscou – do qual ainda falarei. Fiquei pensando em quem eu era e em quem eu me tornei nesse intervalo.

Tudo acontece muito rápido. Faz-se a escolha e depois é só seguir o caminho quase que automaticamente. Nem dói. Os dias vão se tornando cada vez mais curtos em nossa memória e daqui a pouco já é amanhã e tenho muito o que fazer hoje, incluindo uma boa noite de sono. Noite essa, que já passo uma parte longa acordada. O dia é curto para nossas tarefas.

Há um ano eu começava meu primeiro trabalho. Há um ano eu ainda me equilibrava para me sustentar e hoje já dou cambalhotas e faço piruetas. Hoje estou indo ao terceiro trabalho, com sorriso no rosto de satisfação e agradecimento a tudo e todos que contribuíram para essas reviravoltas.

Sentei na poltrona do cinema e ela me pareceu familiar. Ao contrário do ano passado já conheço, reconheço e sou reconhecida por algumas pessoas que passam por mim, sentam, compartilham as sessões e espaços. Estou deitada numa cama de um apartamento quarto-e-sala em Copacabana, pertinho da rua que Drummond viveu e escreveu sua vida. Há pouco mais de um ano, morava com meus pais em Salvador, numa casa deliciosa e confortável, calorosa e com She-Ra para me proteger e acarinhar.

Que doidice. Um ano é muito e pouco ao mesmo tempo. Pense aí em quem você era há um ano e em quem você é hoje. Pense nas escolhas, nas oportunidades e alternativas que você aceitou e abdicou e em como elas vão lhe definindo. Ainda há por aí, em Salvador, a garota que não veio pro Rio. O que ela estará fazendo agora? Será que ela ainda pensa em partir? Mas quando? E para onde? Uma coisa é certa: a menina que partiu está por aqui, continua fazendo escolhas, definindo a própria vida e, quem sabe, mais cedo ou mais tarde dará outro pulo do gato.

Como Borges conta, todas as alternativas são possíveis e para cada bifurcação há duas opções que futuramente se transformarão em mais opções e vamos escolhendo aos poucos uma a uma para viver. Se escolhemos não escolher, é também uma escolha. Eu escolho escolher e vou seguindo esse caminho, meio perdido aparentemente, mas cheio de confiança e desafios. Antes assim do que olhar pro teto e elucubrar incessantemente viagens em sonhos de contos de fadas e vidas perfeitas.


Ah! O livro: Ficções, de Jorge Luis Borges.
O Conto: O Jardim de Veredas que se Bifurcam.
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Enquanto o texto não vem, vi este de rascunho. Completei:

Aníversário deveria ser uma semana. Um dia é muito pouco. Aperte Play e deixe a vida te levar no seu único dia de festejos sendo todos devidos somente a você. Eu, particularmente já começo semanas antes, importunando os queridos com lembretes da comemoração da minha existência.

A idade em si pouco importa. O que vale é passar anos e anos aprendendo, construindo, rindo, chorando, brincando e levando tudo muito e quase nunca a sério. Na minha festinha muita gente faltou, quase uma cidade*. Mas carreguei todos no meu coração, exatamente como fiz no Carnaval. Tudo o que construí desde o ano passado e que vou elevando andares a cada dia devo a mim e a vocês que de alguma forma estão a meu redor.

Um brinde a nós todos com o Champagne já bebido do dia 4 de março e os muitos que virão adiante!
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Onde estão as grandes histórias? Como encontrar motivos para filmar e como definir se eles são de fato filmáveis? Ao buscar o desconhecido, os documentaristas estão se voltando ao redescobrimento do que lhes é familiar.

Homem Urso (2005)
Ainda que o espectador possa se enganar no início, O Homem Urso não fala simplesmente de um viajante excêntrico que resolve morar na natureza. A vida nas intempéries e com perigos que os instintos animais – e aqui conto com o humano dentro do conjunto – é apenas o pano de fundo para a exibição daquele que se colocou diante das câmeras, o real personagem que se exibe numa comunicação de programa de tv inexistente. E há uma questão que complexifica o que exibimos: temos as seqüências realizadas pelo personagem que se apresenta e conversa com a câmera e ainda a mão do diretor, Werner Herzog, que traduz em história horas de material bruto.

Em Svyato, vemos uma criança que descobre, como Narciso, seu reflexo. O pai o ‘protegeu’ do momento até seus dois anos e agora registra e exibe para nós, o encontro de Svyato consigo mesmo. Acompanhamos sua surpresa, seu susto, o medo, o confronto a tentativa de encontrar o outro – pois não conhece sua imagem. Vitor Kossakovsky buscou na sua maior intimidade um mote para filme, o jogo da representação mais puro e honesto – no caso das expressões da criança – para transformar o documentário numa experiência de quem se assume voyeur.

Nos filmes acima, percebemos o olhar do outro em duas escalas: enquanto Svyato se apresenta na tela sob o olhar de seu pai, O Homem Urso mescla imagens de um sujeito-personagem, registros de uma vida, montados por um diretor distante. Mas ainda há uma outra possibilidade: a da exibição do próprio autor. Em Passaporte Húngaro, a brasileira e diretora Sandra Kogut se põe diante das câmeras numa tentativa de tirar o passaporte húngaro através da herança genética familiar. Sandra não apenas se mostra, como conta a história de sua família através de seus parentes mais velhos.

A questão que se abre nos três filmes é a clara intimidade do autor com o que tenta exibir. À exceção do primeiro, em que este não é diretamente o produtor-ator das imagens, nos outros dois a intimidade é marcante. A idea de transformar em filmes, relatos da vida particular é o que nos interessa.

Em O Homem Urso, vemos a construção do personagem entre entrevistas de amigos e suas próprias imagens por ele produzidas, contando sua rotina, seus sentimentos, suas necessidades como se, de um diário íntimo, fizesse um programa de tv sobre a relação do homem com a natureza selvagem. Esta necessidade do relato, de deixar o registro diário marcado, da narração se voltar a um público, é fruto de uma geração que compartilha seus diários. São os blogs, por assim dizer, a marca desta geração que com a adição da popularização das câmeras digitais, transforma-se também num produtor de imagens para o mundo.

É a necessidade de expressão, a ideia de que há um conhecimento que precisa ser partilhado, este mote de que cada um torna-se produtor de conhecimento e informação sugere que todos temos algo a dizer aos demais. Mas, o que há de tão interessante e fundamental a ser dito? Por que essa necessidade de transmitir conhecimentos particulares ao mundo?

Enquanto Thimothy Treadwell enxerga o mundo e nos mostra através de suas lentes, Werner Herzog as reinterpreta e tenta descobrir aí não o que o personagem-produtor quer nos mostrar, mas uma tentativa de revelar quem é esse personagem, o que vemos dele no que ele conta. Para um documentarista contemporâneo, é um material riquíssimo, já coberto de polêmica e narrativa: um personagem que passou momentos da vida se filmando na natureza selvagem ao redor de ursos, morre como alimento para eles. Com final trágico e registrado, é quase um filme pronto e com público garantido. Não tirando o mérito de Herzog, é um filme sensível e que nos dá essa dimensão do outro que buscamos encontrar nas imagens montadas, muito mais do que nos depoimentos tradicionais de quem o conheceu.

Svyato (2005)
Em Svyato, a história toma outro rumo. É um diretor que exibe também a intimidade de alguém na tela, entretanto o confronto é um pouco mais complicado: tratamos de uma criança, do filho do autor, que lhe prega uma peça e nos mostra. Por muito tempo se pensou que os documentaristas precisariam buscar tesouros perdidos, encontrar antropólogos etnográficos e descobrir nações outras, pessoas diferentes, mundos ou grandes histórias. Kossakovsky se esconde através de espelhos, liga suas câmeras e espera o filho vir descobri-los, como em um trote. Em sua experiência, assistimos nos surpreendendo com as expressões e manifestações da criança que só agora entendeu o que é sua imagem refletida. São 45 minutos quase sem texto ou cortes, em planos fixos. Svyato, muito mais do que um documentário diferente, é uma experiência prática para educadores, psicólogos, curiosos. Com um tema simples, a pretensão do diretor está justamente em contar histórias banais.

Kossakovsky já havia nos presenteado com sua outra experiência Tishe!, registros a partir da janela de seu apartamento de uma esquina russa por um ano. O filme se vale da montagem para transformar semanas e meses em poucas horas e, ainda assim, entendermos o passar do ano por suas estações. Presenciamos também nos momentos de rotina, ciclos outros e, em um final singelo e surpreendente, conseguimos não ter a impressão de que o tempo passou por nós e nos perguntamos se o que vimos foi de fato um documentário.

Sandra Kogut aprofunda as questões antes abordadas. Ela não se deixa filmar, ela não é o personagem de alguém; ela filma e se filma. Ela é o personagem e diretor, inserindo ainda, sua família como coadjuvante. Com mais uma idéia de investigação, a diretora parte para a resolução de um problema, ampliando sua esfera de atuação. Convoca seus avós na pesquisa de herança genética e colhe daí muito mais, histórias de mundo e vida entrecruzadas por quem viveu momentos importantes.

Um Passaporte Húngaro (2001)
Sandra Kogut concretiza, por fim, o mote de falar de si para exibir o mundo: ao contar histórias de seus avós e familiares, percebemos as vivências no mundo, no contexto de eventos marcantes historicamente, tratando literalmente de temas polêmicos, importantes não só para esta família, mas para muitas outras. O interesse de quem assiste pode começar apenas na intenção curiosa, mas é surpreendido e ampliado pelos relatos ali exibidos.

Sandra amplia o blog da geração, trazendo importância, fontes que viveram os momentos que contam, comprovações. Ainda é o descobrimento de um novo mundo, ainda que dentro de sua própria casa. Se Sandra tira de sua casa o mundo para quem a assiste, Kossakovsky traz o mundo para sua casa, as descobertas íntimas de seu filho, a exibição da própria imagem. Por fim está Herzog, que do mundo retirou para seu filme um sujeito que tentava exibir a vida selvagem dos documentários de busca tradicionais. Herzog, entretanto, consegue nos mostrar intimidades da figura que apresenta o mundo, como num jogo do contrário, em que o que nos interessa é ver quem ou o quê está próximo e não o longínquo desconhecido.


Passaporte Húngaro, Sandra Kogut
Brasil, Bélgica e França, 2001 - 72 min.

O Homem Urso (Grizzly Man), Werner Herzog
EUA, 2005 - 103 min.

Svyato, Vitor Kossakovsky
Russia, 2005 - 45 min.
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Um passarinho pousou na minha janela. Era domingo nublado. O dia de preguiça, tv e sofá foi interrompido por essa visita inusitada: morando no térreo, quase não vemos passarinhos. Ele pousou na minha janela e ficou me encarando, me provocando pra ver o que eu faria.

Eu fiz o que tinha que ser feito: fiquei encarando o passarinho pra saber o que ele faria. Ele ficou lá, parado, volta e meia fingia que ia voar, tentando me testar. Achava ele que eu ia correr para ver que caminho ele tomaria. E eu ficava ali, parada, vendo ele sacudir as asas, se exibindo. Desliguei a tv.

O passarinho passou a tarde comigo, nessa brincadeira boba que nos deixa felizes. Dei água e ele se esbaldou. Tentei alcançá-lo, mas se assustou. Nesse tempo todo, quase não me dei conta de que o passarinho precisava voar. Quando menos esperava, ele ia longe, pelo céu cinza e sem vento. E o meu domingo de preguiça, tv e sofá foi transformado pela beleza dos pequenos gestos.
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As fotos são de Murray Garret, na casa do ator, nos anos 60. Você pode vê-lo 22 vezes mais na Caixa Cultural carioca por estes dias, em seus filmes. Marlon foi ícone de um tempo em que não haviam tantas categorias e que a frescura masculina era restrita aos homossexuais. Sem emo, homo, uber, metro ou qualquer outro derivado, aquilo sim, era homem de verdade numa época em que a musculação era trabalho braçal e bomba só se conhecia da que explodia.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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