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Café: extra-forte

Enquanto o texto não vem, vi este de rascunho. Completei:

Aníversário deveria ser uma semana. Um dia é muito pouco. Aperte Play e deixe a vida te levar no seu único dia de festejos sendo todos devidos somente a você. Eu, particularmente já começo semanas antes, importunando os queridos com lembretes da comemoração da minha existência.

A idade em si pouco importa. O que vale é passar anos e anos aprendendo, construindo, rindo, chorando, brincando e levando tudo muito e quase nunca a sério. Na minha festinha muita gente faltou, quase uma cidade*. Mas carreguei todos no meu coração, exatamente como fiz no Carnaval. Tudo o que construí desde o ano passado e que vou elevando andares a cada dia devo a mim e a vocês que de alguma forma estão a meu redor.

Um brinde a nós todos com o Champagne já bebido do dia 4 de março e os muitos que virão adiante!
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Onde estão as grandes histórias? Como encontrar motivos para filmar e como definir se eles são de fato filmáveis? Ao buscar o desconhecido, os documentaristas estão se voltando ao redescobrimento do que lhes é familiar.

Homem Urso (2005)
Ainda que o espectador possa se enganar no início, O Homem Urso não fala simplesmente de um viajante excêntrico que resolve morar na natureza. A vida nas intempéries e com perigos que os instintos animais – e aqui conto com o humano dentro do conjunto – é apenas o pano de fundo para a exibição daquele que se colocou diante das câmeras, o real personagem que se exibe numa comunicação de programa de tv inexistente. E há uma questão que complexifica o que exibimos: temos as seqüências realizadas pelo personagem que se apresenta e conversa com a câmera e ainda a mão do diretor, Werner Herzog, que traduz em história horas de material bruto.

Em Svyato, vemos uma criança que descobre, como Narciso, seu reflexo. O pai o ‘protegeu’ do momento até seus dois anos e agora registra e exibe para nós, o encontro de Svyato consigo mesmo. Acompanhamos sua surpresa, seu susto, o medo, o confronto a tentativa de encontrar o outro – pois não conhece sua imagem. Vitor Kossakovsky buscou na sua maior intimidade um mote para filme, o jogo da representação mais puro e honesto – no caso das expressões da criança – para transformar o documentário numa experiência de quem se assume voyeur.

Nos filmes acima, percebemos o olhar do outro em duas escalas: enquanto Svyato se apresenta na tela sob o olhar de seu pai, O Homem Urso mescla imagens de um sujeito-personagem, registros de uma vida, montados por um diretor distante. Mas ainda há uma outra possibilidade: a da exibição do próprio autor. Em Passaporte Húngaro, a brasileira e diretora Sandra Kogut se põe diante das câmeras numa tentativa de tirar o passaporte húngaro através da herança genética familiar. Sandra não apenas se mostra, como conta a história de sua família através de seus parentes mais velhos.

A questão que se abre nos três filmes é a clara intimidade do autor com o que tenta exibir. À exceção do primeiro, em que este não é diretamente o produtor-ator das imagens, nos outros dois a intimidade é marcante. A idea de transformar em filmes, relatos da vida particular é o que nos interessa.

Em O Homem Urso, vemos a construção do personagem entre entrevistas de amigos e suas próprias imagens por ele produzidas, contando sua rotina, seus sentimentos, suas necessidades como se, de um diário íntimo, fizesse um programa de tv sobre a relação do homem com a natureza selvagem. Esta necessidade do relato, de deixar o registro diário marcado, da narração se voltar a um público, é fruto de uma geração que compartilha seus diários. São os blogs, por assim dizer, a marca desta geração que com a adição da popularização das câmeras digitais, transforma-se também num produtor de imagens para o mundo.

É a necessidade de expressão, a ideia de que há um conhecimento que precisa ser partilhado, este mote de que cada um torna-se produtor de conhecimento e informação sugere que todos temos algo a dizer aos demais. Mas, o que há de tão interessante e fundamental a ser dito? Por que essa necessidade de transmitir conhecimentos particulares ao mundo?

Enquanto Thimothy Treadwell enxerga o mundo e nos mostra através de suas lentes, Werner Herzog as reinterpreta e tenta descobrir aí não o que o personagem-produtor quer nos mostrar, mas uma tentativa de revelar quem é esse personagem, o que vemos dele no que ele conta. Para um documentarista contemporâneo, é um material riquíssimo, já coberto de polêmica e narrativa: um personagem que passou momentos da vida se filmando na natureza selvagem ao redor de ursos, morre como alimento para eles. Com final trágico e registrado, é quase um filme pronto e com público garantido. Não tirando o mérito de Herzog, é um filme sensível e que nos dá essa dimensão do outro que buscamos encontrar nas imagens montadas, muito mais do que nos depoimentos tradicionais de quem o conheceu.

Svyato (2005)
Em Svyato, a história toma outro rumo. É um diretor que exibe também a intimidade de alguém na tela, entretanto o confronto é um pouco mais complicado: tratamos de uma criança, do filho do autor, que lhe prega uma peça e nos mostra. Por muito tempo se pensou que os documentaristas precisariam buscar tesouros perdidos, encontrar antropólogos etnográficos e descobrir nações outras, pessoas diferentes, mundos ou grandes histórias. Kossakovsky se esconde através de espelhos, liga suas câmeras e espera o filho vir descobri-los, como em um trote. Em sua experiência, assistimos nos surpreendendo com as expressões e manifestações da criança que só agora entendeu o que é sua imagem refletida. São 45 minutos quase sem texto ou cortes, em planos fixos. Svyato, muito mais do que um documentário diferente, é uma experiência prática para educadores, psicólogos, curiosos. Com um tema simples, a pretensão do diretor está justamente em contar histórias banais.

Kossakovsky já havia nos presenteado com sua outra experiência Tishe!, registros a partir da janela de seu apartamento de uma esquina russa por um ano. O filme se vale da montagem para transformar semanas e meses em poucas horas e, ainda assim, entendermos o passar do ano por suas estações. Presenciamos também nos momentos de rotina, ciclos outros e, em um final singelo e surpreendente, conseguimos não ter a impressão de que o tempo passou por nós e nos perguntamos se o que vimos foi de fato um documentário.

Sandra Kogut aprofunda as questões antes abordadas. Ela não se deixa filmar, ela não é o personagem de alguém; ela filma e se filma. Ela é o personagem e diretor, inserindo ainda, sua família como coadjuvante. Com mais uma idéia de investigação, a diretora parte para a resolução de um problema, ampliando sua esfera de atuação. Convoca seus avós na pesquisa de herança genética e colhe daí muito mais, histórias de mundo e vida entrecruzadas por quem viveu momentos importantes.

Um Passaporte Húngaro (2001)
Sandra Kogut concretiza, por fim, o mote de falar de si para exibir o mundo: ao contar histórias de seus avós e familiares, percebemos as vivências no mundo, no contexto de eventos marcantes historicamente, tratando literalmente de temas polêmicos, importantes não só para esta família, mas para muitas outras. O interesse de quem assiste pode começar apenas na intenção curiosa, mas é surpreendido e ampliado pelos relatos ali exibidos.

Sandra amplia o blog da geração, trazendo importância, fontes que viveram os momentos que contam, comprovações. Ainda é o descobrimento de um novo mundo, ainda que dentro de sua própria casa. Se Sandra tira de sua casa o mundo para quem a assiste, Kossakovsky traz o mundo para sua casa, as descobertas íntimas de seu filho, a exibição da própria imagem. Por fim está Herzog, que do mundo retirou para seu filme um sujeito que tentava exibir a vida selvagem dos documentários de busca tradicionais. Herzog, entretanto, consegue nos mostrar intimidades da figura que apresenta o mundo, como num jogo do contrário, em que o que nos interessa é ver quem ou o quê está próximo e não o longínquo desconhecido.


Passaporte Húngaro, Sandra Kogut
Brasil, Bélgica e França, 2001 - 72 min.

O Homem Urso (Grizzly Man), Werner Herzog
EUA, 2005 - 103 min.

Svyato, Vitor Kossakovsky
Russia, 2005 - 45 min.
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Um passarinho pousou na minha janela. Era domingo nublado. O dia de preguiça, tv e sofá foi interrompido por essa visita inusitada: morando no térreo, quase não vemos passarinhos. Ele pousou na minha janela e ficou me encarando, me provocando pra ver o que eu faria.

Eu fiz o que tinha que ser feito: fiquei encarando o passarinho pra saber o que ele faria. Ele ficou lá, parado, volta e meia fingia que ia voar, tentando me testar. Achava ele que eu ia correr para ver que caminho ele tomaria. E eu ficava ali, parada, vendo ele sacudir as asas, se exibindo. Desliguei a tv.

O passarinho passou a tarde comigo, nessa brincadeira boba que nos deixa felizes. Dei água e ele se esbaldou. Tentei alcançá-lo, mas se assustou. Nesse tempo todo, quase não me dei conta de que o passarinho precisava voar. Quando menos esperava, ele ia longe, pelo céu cinza e sem vento. E o meu domingo de preguiça, tv e sofá foi transformado pela beleza dos pequenos gestos.
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As fotos são de Murray Garret, na casa do ator, nos anos 60. Você pode vê-lo 22 vezes mais na Caixa Cultural carioca por estes dias, em seus filmes. Marlon foi ícone de um tempo em que não haviam tantas categorias e que a frescura masculina era restrita aos homossexuais. Sem emo, homo, uber, metro ou qualquer outro derivado, aquilo sim, era homem de verdade numa época em que a musculação era trabalho braçal e bomba só se conhecia da que explodia.
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Há gente que pensa que para tudo há uma explicação complicada nas artes. Você vê um filme simples e acha que o diretor quis fazer uma interpretação implícita, uma crítica social. Você vai a um museu e passa três horas olhando o quadro da Monalisa para descobrir se ela está rindo, cínica, chorando ou simplesmente curtindo com sua cara. E com a poesia não é diferente. Como eu sou o tipo da pessoa que desconfia das coisas, costumo pensar que às vezes as coisas simplesmente são uma brincadeira, uma manifestação do tédio, uma curtição qualquer.

Mari, minha comadre, esteve aqui neste último fim de semana e me trouxe um livro pra ler: Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto. O livro traz logo de cara uma entrevista deliciosa com o poeta, seguida de intervenções de outros amigos que aparecem para homenageá-lo. Ainda estou na entrevista, feita por telefone, numa circunstância muito difícil, em que a filha do poeta estava internada num hospital e ele sofria do coração. Duplamente.

O livro é um achado e a diversão segue ainda que com estes percalços. É muito divertido, por exemplo, quando Drummond fala sobre programas de tv e diz que assiste ao Sem Censura, o programa eterno da TVE (atual TV Brasil). Ele diz que como são vários entrevistados sempre, às vezes fica meio chato. Pense nisso: Leda Nagle comanda! Outro programa que ele gosta, e aí lembro de meu pai, é o dominical Globo Rural. Eu gosto do programa porque via como meu pai cedinho no domingo, coisas de fazenda, mato, bichos, sementes, plantações, cultivo. Drummond diz que não sabe como não se tornou fazendeiro.

Como Woody Allen, o escritor sabe prender o leitor com suas palavras simples e jeito de viver sem vaidades aparentes. Enquanto Geneton o persegue tentando arrancar algum orgulho de seus textos, ele os assume como expressão de sentimentos, nada mais. Segue um predacinho que resume a história e deixa muito professor de literatura envergonhado:

“A pedra, afinal, existiu de verdade ou foi somente uma imagem?

Não; foi uma criação minha. Não tinha nada. Minha intenção era fazer apenas um poema monótono,sobretudo monótono – e com poucas palavras. Um poema repetitivo. Um poema chato mesmo. Uma brincadeira. Não tinha intenção nem de fazer uma coisa que agredisse o gosto literário nem também uma coisa que permitisse uma revolução estilística. O poema muito menos tinha uma intenção filosófica – aludindo a dificuldade que a vida pode oferecer à pessoa. Nada disso!


Apenas o seguinte: fazer um poema com poucas palavras repetidas e bastante chato, bastante árido, bastante pedregoso. Uma brincadeira! Eu tinha vinte e poucos anos e nenhuma pretensão de fazer nada que pudesse irritar os outros. Era uma brincadeira, como a gente costuma fazer quando moço.”


E saber que ficamos tentando descobrir, cruzando referências de tempo, espaço e história o porquê da maldita pedra.
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Se você acha que esta aí é a minha primeira ou até a última etapa para chegar ao trabalho todos os dias, está muito enganado. Fazendo as contas aqui, é a terceira. Vamos contar:
metro-rio
Rio de Janeiro, Cosme Velho
  1. Saio de casa, ando oito quadras até a estação de metrô;
  2. Pego o delicioso metrô com ar condicionado e leio o jornal curtinho que resume em poucas linhas as principais matérias do dia. Minha estação de metrô é gênia, porque é a primeira da linha, então SEMPRE tem lugar pra sentar;
  3. Saio do metrô e chego nesse ponto aí que vocês estão vendo. É o Largo do Machado e o ônibus de integração (faz parte da linha do metrô) me leva até Cosme Velho;
  4. A parte terrorífica: chego no último ponto do trajeto e subo andando uma ladeira esperta. Sem respirar, chego na porta do trabalho.
Apesar da atividade física e dos trajetos todos, é fácil chegar lá e não demora tanto. A parte mais lenta é a do ônibus, mas, muito mais pelo trânsito e por eu sair no último ponto do que pela distância. A única coisa brutal disso tudo é subir a ladeira depois da noite do seu aniversário, de ressaquinha e com 35 graus na cabeça. Você acaba achando que vai morrer em algum momento, mas já descobri a técnica: finja que a ladeira não existe. Suba na paz do senhor, devagar e sempre e sempre, sempre leve uma garrafinha de água. A ladeira não é muito comprida, mas dá pra cansar.

E como tudo pode ser um pouco pior do que parece, aqui está a ajuda divina que nos impulsiona pra cima: quando chegamos numa etapa da ladeira, temos a opção de virar à esquerda ou direita. Como as forças sobrenaturais estão de acordo comigo ainda, a minha ladeira é a da direita: infinitamente menos brutal que a da esquerda (que, se você subir pra sempre dá no Corcovado - sentiu o drama?). Outra coisa sensacional é que estamos num bairro extremamente arborizado, que alivia o sofrimento. A solução para a maratona é se forçar a ser uma garota saudável e evitar sair durante a semana, evitar beber e dormir cedo. Ou você acaba com a ladeira ou ela lhe acaba. A diferença é que ela não faz esforço algum.

Em resumo, é como dizem os sábios: se não güenta vara, peça cacetinho.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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