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Café: extra-forte

Um passarinho pousou na minha janela. Era domingo nublado. O dia de preguiça, tv e sofá foi interrompido por essa visita inusitada: morando no térreo, quase não vemos passarinhos. Ele pousou na minha janela e ficou me encarando, me provocando pra ver o que eu faria.

Eu fiz o que tinha que ser feito: fiquei encarando o passarinho pra saber o que ele faria. Ele ficou lá, parado, volta e meia fingia que ia voar, tentando me testar. Achava ele que eu ia correr para ver que caminho ele tomaria. E eu ficava ali, parada, vendo ele sacudir as asas, se exibindo. Desliguei a tv.

O passarinho passou a tarde comigo, nessa brincadeira boba que nos deixa felizes. Dei água e ele se esbaldou. Tentei alcançá-lo, mas se assustou. Nesse tempo todo, quase não me dei conta de que o passarinho precisava voar. Quando menos esperava, ele ia longe, pelo céu cinza e sem vento. E o meu domingo de preguiça, tv e sofá foi transformado pela beleza dos pequenos gestos.
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As fotos são de Murray Garret, na casa do ator, nos anos 60. Você pode vê-lo 22 vezes mais na Caixa Cultural carioca por estes dias, em seus filmes. Marlon foi ícone de um tempo em que não haviam tantas categorias e que a frescura masculina era restrita aos homossexuais. Sem emo, homo, uber, metro ou qualquer outro derivado, aquilo sim, era homem de verdade numa época em que a musculação era trabalho braçal e bomba só se conhecia da que explodia.
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Há gente que pensa que para tudo há uma explicação complicada nas artes. Você vê um filme simples e acha que o diretor quis fazer uma interpretação implícita, uma crítica social. Você vai a um museu e passa três horas olhando o quadro da Monalisa para descobrir se ela está rindo, cínica, chorando ou simplesmente curtindo com sua cara. E com a poesia não é diferente. Como eu sou o tipo da pessoa que desconfia das coisas, costumo pensar que às vezes as coisas simplesmente são uma brincadeira, uma manifestação do tédio, uma curtição qualquer.

Mari, minha comadre, esteve aqui neste último fim de semana e me trouxe um livro pra ler: Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto. O livro traz logo de cara uma entrevista deliciosa com o poeta, seguida de intervenções de outros amigos que aparecem para homenageá-lo. Ainda estou na entrevista, feita por telefone, numa circunstância muito difícil, em que a filha do poeta estava internada num hospital e ele sofria do coração. Duplamente.

O livro é um achado e a diversão segue ainda que com estes percalços. É muito divertido, por exemplo, quando Drummond fala sobre programas de tv e diz que assiste ao Sem Censura, o programa eterno da TVE (atual TV Brasil). Ele diz que como são vários entrevistados sempre, às vezes fica meio chato. Pense nisso: Leda Nagle comanda! Outro programa que ele gosta, e aí lembro de meu pai, é o dominical Globo Rural. Eu gosto do programa porque via como meu pai cedinho no domingo, coisas de fazenda, mato, bichos, sementes, plantações, cultivo. Drummond diz que não sabe como não se tornou fazendeiro.

Como Woody Allen, o escritor sabe prender o leitor com suas palavras simples e jeito de viver sem vaidades aparentes. Enquanto Geneton o persegue tentando arrancar algum orgulho de seus textos, ele os assume como expressão de sentimentos, nada mais. Segue um predacinho que resume a história e deixa muito professor de literatura envergonhado:

“A pedra, afinal, existiu de verdade ou foi somente uma imagem?

Não; foi uma criação minha. Não tinha nada. Minha intenção era fazer apenas um poema monótono,sobretudo monótono – e com poucas palavras. Um poema repetitivo. Um poema chato mesmo. Uma brincadeira. Não tinha intenção nem de fazer uma coisa que agredisse o gosto literário nem também uma coisa que permitisse uma revolução estilística. O poema muito menos tinha uma intenção filosófica – aludindo a dificuldade que a vida pode oferecer à pessoa. Nada disso!


Apenas o seguinte: fazer um poema com poucas palavras repetidas e bastante chato, bastante árido, bastante pedregoso. Uma brincadeira! Eu tinha vinte e poucos anos e nenhuma pretensão de fazer nada que pudesse irritar os outros. Era uma brincadeira, como a gente costuma fazer quando moço.”


E saber que ficamos tentando descobrir, cruzando referências de tempo, espaço e história o porquê da maldita pedra.
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Se você acha que esta aí é a minha primeira ou até a última etapa para chegar ao trabalho todos os dias, está muito enganado. Fazendo as contas aqui, é a terceira. Vamos contar:
metro-rio
Rio de Janeiro, Cosme Velho
  1. Saio de casa, ando oito quadras até a estação de metrô;
  2. Pego o delicioso metrô com ar condicionado e leio o jornal curtinho que resume em poucas linhas as principais matérias do dia. Minha estação de metrô é gênia, porque é a primeira da linha, então SEMPRE tem lugar pra sentar;
  3. Saio do metrô e chego nesse ponto aí que vocês estão vendo. É o Largo do Machado e o ônibus de integração (faz parte da linha do metrô) me leva até Cosme Velho;
  4. A parte terrorífica: chego no último ponto do trajeto e subo andando uma ladeira esperta. Sem respirar, chego na porta do trabalho.
Apesar da atividade física e dos trajetos todos, é fácil chegar lá e não demora tanto. A parte mais lenta é a do ônibus, mas, muito mais pelo trânsito e por eu sair no último ponto do que pela distância. A única coisa brutal disso tudo é subir a ladeira depois da noite do seu aniversário, de ressaquinha e com 35 graus na cabeça. Você acaba achando que vai morrer em algum momento, mas já descobri a técnica: finja que a ladeira não existe. Suba na paz do senhor, devagar e sempre e sempre, sempre leve uma garrafinha de água. A ladeira não é muito comprida, mas dá pra cansar.

E como tudo pode ser um pouco pior do que parece, aqui está a ajuda divina que nos impulsiona pra cima: quando chegamos numa etapa da ladeira, temos a opção de virar à esquerda ou direita. Como as forças sobrenaturais estão de acordo comigo ainda, a minha ladeira é a da direita: infinitamente menos brutal que a da esquerda (que, se você subir pra sempre dá no Corcovado - sentiu o drama?). Outra coisa sensacional é que estamos num bairro extremamente arborizado, que alivia o sofrimento. A solução para a maratona é se forçar a ser uma garota saudável e evitar sair durante a semana, evitar beber e dormir cedo. Ou você acaba com a ladeira ou ela lhe acaba. A diferença é que ela não faz esforço algum.

Em resumo, é como dizem os sábios: se não güenta vara, peça cacetinho.
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Rio de Janeiro. Com muitas indefinições em vista, não consegui me programar para ir a Salvador no Carnaval. Achei que ia ser tranqüilo, ainda que quisesse realmente ir e passar uns momentos no circuito. O Carnaval chegou, as indefinições tornaram-se definições e não pude ir. Não poderia simplesmente pegar um avião e ir à minha cidade, fazer uma visita.

O carnaval daqui é expressamente diferente do de lá. Ainda que eu tenha minhas chatices bairristas, de fato, não há como comparar a festa nas duas cidades. Aqui está acontecendo o carnaval de rua e as escolas de samba. As escolas não me interessam tanto, o desfile, o glamour... a festa que eu conheço é aquela das pessoas pulando, rindo, numa alegria eufórica e contagiante. O carnaval de rua é o que mais se aproxima disso. Fui a uns blocos, mas todos tocavam samba e não me empolguei tanto.

Em um desses dias, me falaram que ia tocar um bloco afro e que as músicas eram mais parecidas com as de Salvador, que até atabaques tinham. Fui. Me perdi de umas companheiras de festa e estava sozinha no meio do bloco. De repente Já chegou o verão, calor no coração, a festa vai começar soou alto e eu estava no Carnaval da Bahia. A mesma alegria me pegou e carregou e todas as pessoas ao meu redor tornaram-se Barra-Ondina. Enquanto eu cantava e pulava de uma forma que não esperava nunca, lágrimas caíam numa violência que eu lutava entre cantar e chorar.

É como eu amo Salvador sem nem perceber. É como nós estamos enraizados ainda que distantes. Não é simplesmente o carnaval da cidade. Não é simplesmente o povo ou minha família. Salvador tem uma espiritualidade ou uma energia que só quem é de lá consegue sentir na plenitude. Quem não é de lá e participa de uma festa como essa normalmente se apaixona, mesmo sem saber pelo quê. Não conheço muitos lugares no mundo, mas com certeza nenhum se compara. E não é exagero. É uma força tão grande que os blocos daqui tocam músicas de lá, que o carnaval daqui homenageia o de lá. É um conjunto. Minha cidade é um aglomerado de corações que, quando batem no mesmo ritmo, entram em sintonia com o universo e mesmo longe, podemos sentir sua vibração.
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Cá estou eu ouvindo a chuva. Enquanto o tempo passa arrastado, o novo céu cinza do Rio despenca. Na casa de Pedro não se ouvem carros. Talvez de longe. É só o barulho da chuva. Pingos no chão, em canos, em lona, em alguma coisa metálica. A janela que dá para os fundos é só chuva e prédios, fundos de prédios. Na casa de Pedro é silêncio de chuva.

Lembro de minha casa em Salvador. Há a mesma chuva torrencial, há um silêncio parecido, com uns barulhos de pássaros no meio. Há uma rede e um gramado. Há o sofá da sala e sempre que posso deito nele e curto a melhor preguiça de todas. Há agora uma saudade gostosa de minha cachorra nos dias de chuva.

De volta à minha casa carioca, mesmo sem estar lá agora, sei que é chuva, ônibus, pessoas, buzinas e carros. E acaba sendo tudo preguiça e talvez um friozinho à noite. Pode ser o clima do filme que estamos criando: duas casas, duas pessoas, uma amizade e trilha sonora. Acho que é uma combinação, uma coordenação de temas, motivos e características que fazem essa história combinar muito mais com cinza, água e ventos do que com o céu estupidamente azul e os trinta e cinco graus do verão.

Precisamos trabalhar. Enquanto a construção da primeira idéia, o primeiro corte do filme chega ao fim (e é claro que a segunda etapa é tão ou mais difícil que esta e está chegando), acredito que já posso ir desvendando e desenvolvendo as conclusões deste aprendizado.

Cada filme, independente de seu tamanho, conteúdo e complexidade, traz um universo de aprendizados que nunca conseguimos traduzir totalmente em imagens. O filme traz uma parcela, um conjunto de experiências selecionadas que se combinam numa lógica e traduzem uma história. O que sobra é a maioria, são as reflexões, os encontros, as conversas, pedaços de textos e vozes, pensamentos que guardamos como registros de mais um trabalho, de saberes adquiridos e trocados, e sempre vontade de fazer mais, pensar mais, produzir mais.

O cinema é como um vício que, com todas as dificuldades, insistimos em querer passar a vida fazendo. Muito mais do que pensar em produzir arte - porque esta é uma grande palavra de status - queremos produzir apenas e tentar construir novas histórias. Há sempre muito o que contar por aí.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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