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Café: extra-forte

Se você acha que esta aí é a minha primeira ou até a última etapa para chegar ao trabalho todos os dias, está muito enganado. Fazendo as contas aqui, é a terceira. Vamos contar:
metro-rio
Rio de Janeiro, Cosme Velho
  1. Saio de casa, ando oito quadras até a estação de metrô;
  2. Pego o delicioso metrô com ar condicionado e leio o jornal curtinho que resume em poucas linhas as principais matérias do dia. Minha estação de metrô é gênia, porque é a primeira da linha, então SEMPRE tem lugar pra sentar;
  3. Saio do metrô e chego nesse ponto aí que vocês estão vendo. É o Largo do Machado e o ônibus de integração (faz parte da linha do metrô) me leva até Cosme Velho;
  4. A parte terrorífica: chego no último ponto do trajeto e subo andando uma ladeira esperta. Sem respirar, chego na porta do trabalho.
Apesar da atividade física e dos trajetos todos, é fácil chegar lá e não demora tanto. A parte mais lenta é a do ônibus, mas, muito mais pelo trânsito e por eu sair no último ponto do que pela distância. A única coisa brutal disso tudo é subir a ladeira depois da noite do seu aniversário, de ressaquinha e com 35 graus na cabeça. Você acaba achando que vai morrer em algum momento, mas já descobri a técnica: finja que a ladeira não existe. Suba na paz do senhor, devagar e sempre e sempre, sempre leve uma garrafinha de água. A ladeira não é muito comprida, mas dá pra cansar.

E como tudo pode ser um pouco pior do que parece, aqui está a ajuda divina que nos impulsiona pra cima: quando chegamos numa etapa da ladeira, temos a opção de virar à esquerda ou direita. Como as forças sobrenaturais estão de acordo comigo ainda, a minha ladeira é a da direita: infinitamente menos brutal que a da esquerda (que, se você subir pra sempre dá no Corcovado - sentiu o drama?). Outra coisa sensacional é que estamos num bairro extremamente arborizado, que alivia o sofrimento. A solução para a maratona é se forçar a ser uma garota saudável e evitar sair durante a semana, evitar beber e dormir cedo. Ou você acaba com a ladeira ou ela lhe acaba. A diferença é que ela não faz esforço algum.

Em resumo, é como dizem os sábios: se não güenta vara, peça cacetinho.
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Rio de Janeiro. Com muitas indefinições em vista, não consegui me programar para ir a Salvador no Carnaval. Achei que ia ser tranqüilo, ainda que quisesse realmente ir e passar uns momentos no circuito. O Carnaval chegou, as indefinições tornaram-se definições e não pude ir. Não poderia simplesmente pegar um avião e ir à minha cidade, fazer uma visita.

O carnaval daqui é expressamente diferente do de lá. Ainda que eu tenha minhas chatices bairristas, de fato, não há como comparar a festa nas duas cidades. Aqui está acontecendo o carnaval de rua e as escolas de samba. As escolas não me interessam tanto, o desfile, o glamour... a festa que eu conheço é aquela das pessoas pulando, rindo, numa alegria eufórica e contagiante. O carnaval de rua é o que mais se aproxima disso. Fui a uns blocos, mas todos tocavam samba e não me empolguei tanto.

Em um desses dias, me falaram que ia tocar um bloco afro e que as músicas eram mais parecidas com as de Salvador, que até atabaques tinham. Fui. Me perdi de umas companheiras de festa e estava sozinha no meio do bloco. De repente Já chegou o verão, calor no coração, a festa vai começar soou alto e eu estava no Carnaval da Bahia. A mesma alegria me pegou e carregou e todas as pessoas ao meu redor tornaram-se Barra-Ondina. Enquanto eu cantava e pulava de uma forma que não esperava nunca, lágrimas caíam numa violência que eu lutava entre cantar e chorar.

É como eu amo Salvador sem nem perceber. É como nós estamos enraizados ainda que distantes. Não é simplesmente o carnaval da cidade. Não é simplesmente o povo ou minha família. Salvador tem uma espiritualidade ou uma energia que só quem é de lá consegue sentir na plenitude. Quem não é de lá e participa de uma festa como essa normalmente se apaixona, mesmo sem saber pelo quê. Não conheço muitos lugares no mundo, mas com certeza nenhum se compara. E não é exagero. É uma força tão grande que os blocos daqui tocam músicas de lá, que o carnaval daqui homenageia o de lá. É um conjunto. Minha cidade é um aglomerado de corações que, quando batem no mesmo ritmo, entram em sintonia com o universo e mesmo longe, podemos sentir sua vibração.
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Cá estou eu ouvindo a chuva. Enquanto o tempo passa arrastado, o novo céu cinza do Rio despenca. Na casa de Pedro não se ouvem carros. Talvez de longe. É só o barulho da chuva. Pingos no chão, em canos, em lona, em alguma coisa metálica. A janela que dá para os fundos é só chuva e prédios, fundos de prédios. Na casa de Pedro é silêncio de chuva.

Lembro de minha casa em Salvador. Há a mesma chuva torrencial, há um silêncio parecido, com uns barulhos de pássaros no meio. Há uma rede e um gramado. Há o sofá da sala e sempre que posso deito nele e curto a melhor preguiça de todas. Há agora uma saudade gostosa de minha cachorra nos dias de chuva.

De volta à minha casa carioca, mesmo sem estar lá agora, sei que é chuva, ônibus, pessoas, buzinas e carros. E acaba sendo tudo preguiça e talvez um friozinho à noite. Pode ser o clima do filme que estamos criando: duas casas, duas pessoas, uma amizade e trilha sonora. Acho que é uma combinação, uma coordenação de temas, motivos e características que fazem essa história combinar muito mais com cinza, água e ventos do que com o céu estupidamente azul e os trinta e cinco graus do verão.

Precisamos trabalhar. Enquanto a construção da primeira idéia, o primeiro corte do filme chega ao fim (e é claro que a segunda etapa é tão ou mais difícil que esta e está chegando), acredito que já posso ir desvendando e desenvolvendo as conclusões deste aprendizado.

Cada filme, independente de seu tamanho, conteúdo e complexidade, traz um universo de aprendizados que nunca conseguimos traduzir totalmente em imagens. O filme traz uma parcela, um conjunto de experiências selecionadas que se combinam numa lógica e traduzem uma história. O que sobra é a maioria, são as reflexões, os encontros, as conversas, pedaços de textos e vozes, pensamentos que guardamos como registros de mais um trabalho, de saberes adquiridos e trocados, e sempre vontade de fazer mais, pensar mais, produzir mais.

O cinema é como um vício que, com todas as dificuldades, insistimos em querer passar a vida fazendo. Muito mais do que pensar em produzir arte - porque esta é uma grande palavra de status - queremos produzir apenas e tentar construir novas histórias. Há sempre muito o que contar por aí.
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E finalmente a frente fria chegou ao Rio de Janeiro. Depois dos calores quase enlouquecedores dos últimos dias, o pessoal lá de cima cooperou. Agora ventos e uma esfriada bacana no meio da tarde. O único problema grave disso é o sono brutal que me ataca sempre que chove gostosinho. Ainda mais de tarde. Ainda mais quando temos o que fazer. Ainda mais quando o trabalho é essencialmente intelectual. Ontem, com o sol universal dos 30 e vários graus, fiquei à base de suco de maracujá e meio lerda. A salvação do possível friozinho de hoje é o café. O único mal da chuva é que ela molha.
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Poucas vezes temos a oportunidade de ver atores se transformando tanto em apenas um filme. Através de truques cinematográficos, vemos histórias de vida sendo contadas diante de nós e entre as boas atuações e a maquiagem, quase ficamos perdidos no encantamento da trama. Assim é O Curioso Caso de Benjamin Button.

A história que vemos é a de um homem que nasce com todas as características de um idoso: problemas de saúde, rugas, tudo o que entendemos como pertencentes à terceira idade. O bebê, abandonado por um pai horrorizado nas escadas de uma casa de repouso, passa uma parte da vida morando com idosos e sendo tratado quase como um igual. Com o passar do tempo e da vida, vai rejuvenescendo e tornando-se cada vez mais o Brad Pitt que conhecemos. O drama nos prende até o fim pois, além da bonita e surreal história de amor com Daisy (Cate Blanchet), esperamos o fim da fantasia, queremos descobrir qual será o destino de Benjamim.

A história é narrada a partir de um diário de Benjamin, em posse de uma senhora Cate Blanchet, também extremamente bem maquiada, num quarto de hospital em New Orleans em seus minutos finais. Daisy pede a filha que leia o conteúdo e a partir daí, entramos na história propriamente dita, contada em flashbacks, enquanto – no tempo presente – o Katrina avança pela cidade em noticiários de televisão. A relação entre o Katrina e o enredo não existe, ficando apenas como marco temporal, uma indicação do ano em que se passa a trama e uma lembrança para os espectadores da devastação. Inclusive, não é necessária de todo a narração da filha (Julia Ormond) do casal, já que são apenas pausas da história, momentos de suspiros das personagens.

O filme imprime uma aura de fábula, quando já no início conta-se de uma construção de um grande relógio para a estação de trem da cidade. Estamos em 1918 e o fim da guerra traz alívio e a dor da perda de muitos filhos da pátria. O responsável pelo relógio, outro pai que perde o filho, constrói o instrumento em tempo regressivo para que se lembre sempre da tentativa de que com a volta do tempo, traga também em retorno os mortos de guerra. É nesse clima de tristeza e fantasia que nasce Benjamin, como um trote do destino, velho de nascença. 

Quem dirige o filme é David Fincher, aquele mesmo de Seven e Clube da Luta, ambos com Brad Pitt. No roteiro, ninguém menos que o autor de outra história incomum, Forrest Gump (Eric Roth), agora reponsável pela obra baseada no homônimo conto de Fitzgerald. Ficamos com um filme de história que, como Forrest, conta com o apoio de uma forma singular de narrar, onde fatos inusitados acontecem e as explicações nem sempre correspondem ao que entendemos como realidade, mas, ainda assim, acompanhamos as trajetórias. É neste clima de biografia que vemos a vida de Benjamin acontecer; de um senhor de poucos anos a um jovem ou até criança octogenário. A passagem de sua vida e o encontro com as pessoas que a cruzam as transforma, marcando em cada uma força e vontade de viver, de aproveitar o tempo que temos e dele extrair o máximo. Assim são os romances do protagonista, assim é o amor impossível por Daisy. 

A vontade de acompanhar a história do filme não passa nem quando chegamos próximos do fim. Como um bom livro, fica a vontade de tentar estender a história, de ler mais devagar, de aproveitar a beleza do filme, suas cores e os marcos de quase um século retratado. Esperamos que o amor do casal protagonista perdure, como percebemos os percalços e as formas de superação de Benjamin como lições de quem teve uma vida de complicações mas soube percebê-la com a sabedoria que só o tempo traz. Benjamin já nasce com ela. O site oficial segue aqui.
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Nada como as expectativas... sempre que penso em ir à praia por aqui, fico comparando com as de Salvador, imagino as 300 mil pessoas disputando pedacinhos de areia e todo mundo que você nunca viu, grudado do seu lado fingindo que isso é normal. O calor, a água gelada... enfim. Com essas expectativas em alta, insisti em lutar contra o calor e o dia estava muito bonito. Fui à praia.

Surreal. A praia estava vazia, sossegada, tinha areia de sobra, a maré estava baixa. Sentei ao lado de uma mãe com filha adolescente e começamos a conversar. O problema de ir á praia sozinha é a neura de deixar a bolsa pra Deus observar e acreditar que jamais será roubada. Conversamos um bocado, passamos o tempo, as duas eram muito simples e simpáticas e nos revezávamos em olhar as bolsas.

A água: deliciosa. Não sei, acho que hoje havia uma conspiração a meu favor, porque foi tudo muito bom. Acho que as forças sobrenaturais resolveram fazer uma investida em mim e tirar metade da chatice do primeiro parágrafo. Não tive do que reclamar. A água estava gostosa, o mar calmo e pude fazer uma coisa que não fazia há muito tempo: nadar. Fui transportada para o universo marítimo, com as energias mais do que recicladas, renovadas e parecia um começo de ano. De dentro d'água fiquei vendo a costa de Copacabana e finalmente, numa distração, pensei: que lugar bonito, né rapaz?

Tenho muita sorte mesmo: até prendedor de cabelo da moça do artesanato ganhei... e estava realmente precisando de um. Tudo deu muito certo. Valeu, aê!
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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