E finalmente a frente fria chegou ao Rio de Janeiro. Depois dos calores quase enlouquecedores dos últimos dias, o pessoal lá de cima cooperou. Agora ventos e uma esfriada bacana no meio da tarde. O único problema grave disso é o sono brutal que me ataca sempre que chove gostosinho. Ainda mais de tarde. Ainda mais quando temos o que fazer. Ainda mais quando o trabalho é essencialmente intelectual. Ontem, com o sol universal dos 30 e vários graus, fiquei à base de suco de maracujá e meio lerda. A salvação do possível friozinho de hoje é o café. O único mal da chuva é que ela molha.

Poucas vezes temos a oportunidade de ver atores se transformando tanto em apenas um filme. Através de truques cinematográficos, vemos histórias de vida sendo contadas diante de nós e entre as boas atuações e a maquiagem, quase ficamos perdidos no encantamento da trama. Assim é O Curioso Caso de Benjamin Button.
A história que vemos é a de um homem que nasce com todas as características de um idoso: problemas de saúde, rugas, tudo o que entendemos como pertencentes à terceira idade. O bebê, abandonado por um pai horrorizado nas escadas de uma casa de repouso, passa uma parte da vida morando com idosos e sendo tratado quase como um igual. Com o passar do tempo e da vida, vai rejuvenescendo e tornando-se cada vez mais o Brad Pitt que conhecemos. O drama nos prende até o fim pois, além da bonita e surreal história de amor com Daisy (Cate Blanchet), esperamos o fim da fantasia, queremos descobrir qual será o destino de Benjamim.
A história é narrada a partir de um diário de Benjamin, em posse de uma senhora Cate Blanchet, também extremamente bem maquiada, num quarto de hospital em New Orleans em seus minutos finais. Daisy pede a filha que leia o conteúdo e a partir daí, entramos na história propriamente dita, contada em flashbacks, enquanto – no tempo presente – o Katrina avança pela cidade em noticiários de televisão. A relação entre o Katrina e o enredo não existe, ficando apenas como marco temporal, uma indicação do ano em que se passa a trama e uma lembrança para os espectadores da devastação. Inclusive, não é necessária de todo a narração da filha (Julia Ormond) do casal, já que são apenas pausas da história, momentos de suspiros das personagens.
O filme imprime uma aura de fábula, quando já no início conta-se de uma construção de um grande relógio para a estação de trem da cidade. Estamos em 1918 e o fim da guerra traz alívio e a dor da perda de muitos filhos da pátria. O responsável pelo relógio, outro pai que perde o filho, constrói o instrumento em tempo regressivo para que se lembre sempre da tentativa de que com a volta do tempo, traga também em retorno os mortos de guerra. É nesse clima de tristeza e fantasia que nasce Benjamin, como um trote do destino, velho de nascença.
Quem dirige o filme é David Fincher, aquele mesmo de Seven e Clube da Luta, ambos com Brad Pitt. No roteiro, ninguém menos que o autor de outra história incomum, Forrest Gump (Eric Roth), agora reponsável pela obra baseada no homônimo conto de Fitzgerald. Ficamos com um filme de história que, como Forrest, conta com o apoio de uma forma singular de narrar, onde fatos inusitados acontecem e as explicações nem sempre correspondem ao que entendemos como realidade, mas, ainda assim, acompanhamos as trajetórias. É neste clima de biografia que vemos a vida de Benjamin acontecer; de um senhor de poucos anos a um jovem ou até criança octogenário. A passagem de sua vida e o encontro com as pessoas que a cruzam as transforma, marcando em cada uma força e vontade de viver, de aproveitar o tempo que temos e dele extrair o máximo. Assim são os romances do protagonista, assim é o amor impossível por Daisy.
A vontade de acompanhar a história do filme não passa nem quando chegamos próximos do fim. Como um bom livro, fica a vontade de tentar estender a história, de ler mais devagar, de aproveitar a beleza do filme, suas cores e os marcos de quase um século retratado. Esperamos que o amor do casal protagonista perdure, como percebemos os percalços e as formas de superação de Benjamin como lições de quem teve uma vida de complicações mas soube percebê-la com a sabedoria que só o tempo traz. Benjamin já nasce com ela. O site oficial segue aqui.
Nada como as expectativas... sempre que penso em ir à praia por aqui, fico comparando com as de Salvador, imagino as 300 mil pessoas disputando pedacinhos de areia e todo mundo que você nunca viu, grudado do seu lado fingindo que isso é normal. O calor, a água gelada... enfim. Com essas expectativas em alta, insisti em lutar contra o calor e o dia estava muito bonito. Fui à praia.
Surreal. A praia estava vazia, sossegada, tinha areia de sobra, a maré estava baixa. Sentei ao lado de uma mãe com filha adolescente e começamos a conversar. O problema de ir á praia sozinha é a neura de deixar a bolsa pra Deus observar e acreditar que jamais será roubada. Conversamos um bocado, passamos o tempo, as duas eram muito simples e simpáticas e nos revezávamos em olhar as bolsas.
A água: deliciosa. Não sei, acho que hoje havia uma conspiração a meu favor, porque foi tudo muito bom. Acho que as forças sobrenaturais resolveram fazer uma investida em mim e tirar metade da chatice do primeiro parágrafo. Não tive do que reclamar. A água estava gostosa, o mar calmo e pude fazer uma coisa que não fazia há muito tempo: nadar. Fui transportada para o universo marítimo, com as energias mais do que recicladas, renovadas e parecia um começo de ano. De dentro d'água fiquei vendo a costa de Copacabana e finalmente, numa distração, pensei: que lugar bonito, né rapaz?
Tenho muita sorte mesmo: até prendedor de cabelo da moça do artesanato ganhei... e estava realmente precisando de um. Tudo deu muito certo. Valeu, aê!
Mais uma vez ferve o Rio de Janeiro. Enquanto escrevo de uma sala de reunião, o calor entra pela varanda e surrealmente insisto em tomar café quente. Passam dos 35° e tive que sair do ônibus atrás de um táxi emergencial para não chegar aqui derretendo. O táxi me salvou com o ar condicionado e minha aparência venceu o termômetro.
Antes disso, um menino, possível japonês, sentou ao meu lado no coletivo. Sempre escolho as cadeiras altas porque ventila mais e nem sempre encontro ônibus com ar condicionado. Um dia terei carro novamente. O negócio é que o japa estava do meu lado, entendendo como japa uma suposição, pelo fato dele arranhar no inglês e o amigo dele perguntar algo sobre Hiroshima. O fato é que, com o japa do meu lado e quatro meninas em pé, seguíamos nosso destino comum. As quatro meninas me fizeram lembrar de mim mesma na idade delas, já que uma se parecia bastante comigo. Acho que perdi muito tempo me divertindo com as conversas das garotas e o jeito de falar delas... adolescentes são muito parecidas em quase qualquer lugar do mundo.
Um ônibus pára ao nosso lado. As meninas continuavam a falar e o japa tinha sacado do bolso um guia do Rio para japas. O ônibus ao lado também cozinhava pessoas. Janelas passaram por nós e pude ver uma senhora gordinha, igual a um cuscuz, só que bronzeado. Tinha voltado da praia e vi que no seu cabelo ainda tinha areia. Fiquei nervosa. Fiquei pensando em como eu tinha sorte de não estar ao lado dela. Não suficiente, na janela atrás dessa, um rapaz de seus vinte e tantos, venceu surpreendentemente o calor ou foi vencido por ele, ainda não decidi. O que importa é que ele dormia a sono solto, com o rosto colado no vidro da janela, fazendo aquelas nuvenzinhas de vapor que dão um aspecto meio podre na cena toda.
A situação foi tão insólita e eu estava tão distraída, que comecei a rir sozinha. O rapaz da janela estava com a boca muito aberta, como se o mestre dos magos tivesse lhe dado a poção do sono e ele automaticamente tivesse caído para o lado. O japa deve ter achado chato ou difícil desvendar os próprios rabiscos, porque acabou rindo sozinho da mesma situação que eu e aquele sentimento de compartilhamento passou por nós. Se eu gostasse da japas, teria sido aquelas cenas de amor à primeira vista dos filmes, em que dividir um momento acaba virando dividir a vida no fim da história. O japa até tentou pegar a câmera pra tirar uma foto, mas demorou demais e o ônibus resolveu acabar com o exibicionismo de seus clientes, indo embora.
No fim da história fiquei pensando em como meu ônibus era mais arrumadinho de pessoas, em como a gordinha cuscuz deveria estar agoniada (eu estaria... ou melhor, jamais ficaria suja de praia desse jeito) e em como o sono venceu o calor, o vidro da janela e o cheiro da praia. Definitivamente eu tinha muita sorte de estar no ônibus ao lado.
Com a chegada do ano novo, pensei em novidades, em situações novas além de um novo calendário. Numa viagem relâmpago de volta a Salvador, encontrei os meus e me senti em casa. Hoje estou de volta, sozinha no Rio e também em casa. Essa tranqüilidade de dormir pesado com os barulhos da rua é que me fez perceber o quanto eu mudei em apenas um ano.
Ao assistir mais um episódio repetido de Sex and the City, vi Carrie Bradshaw numa cena que me será recorrente neste verão: a personagem estava sentada de frente para um ventilador, lendo um livro. Se o verão carioca permitir menos frentes frias do que as freqüentes, o glamour fantasioso da televisão se transportará para meu apartamento térreo. Ainda assim, esta foi uma noite de dezenove graus bastante agradável. Deitada no sofá de uma outra cidade em um outro estado que há um ano nunca havia sequer visitado, estou à vontade.
É claro que minha relação com Salvador é muito diferente da que tenho com o Rio. Enquanto em Salvador encontro a cidade inteira como extensão da minha casa (percorro as ruas com olhos fechados, as pessoas, o jeito, a fala, a comida, tudo é família, não apenas familiar), no Rio essa dimensão se restringe ao espaço da residência. Os olhares são outros como meu comportamento e a familiaridade vai se construindo aos poucos. As ruas já percorro com tranqüilidade, descubro que caminhos seguir e amizades manter. Neste ano que chega, minha busca está mais uma vez entre conhecer o ofício do audiovisual, ser ainda mais seletiva e perder menos tempo.
Morar só continua sendo um prazer e cada vez mais, descoberta. Vou vivendo o dia-a-dia com a certeza de que só depende de mim construí-lo, das ações mais banais, como ir ao mercado, às necessidades urgentes, como uma visita a um hospital às cinco da manhã, ardendo em febre. São responsabilidades e a disciplina que vamos criando e aprendemos a manter, por vezes trocando experiências com conhecidos em situação parecida ou até contando para aqueles que estão distantes.
Acaba que o texto traz idéias que se renovam e reciclam, fruto dessa vida que ultrapassa a temporalidade dos dias que nos fazem atravessar mais um ano. Eu queria propor mudanças de mundo e aquelas lembranças, projetos, propostas, grandes sonhos que temos para nós e para os outros, os outros todos que existem por aí. Eu sei, entretanto, que seria apenas mais uma vontade do que a certeza de que daria certo, então deixo a vontade, o desejo de mudanças e a certeza de neste processo já me encontro.
Que venha o novo e que nos torne um pouco melhor do que somos ou acreditamos ser.
Cozinhei beringelas. Nunca tive muita proximidade com elas, sempre comi meio sem saber direito... entendia a berinjela como pedacinhos de coisas e via no mercado a bicha lá, inteira, roxa e verde. Estranha, mas bonita.
Decidi que faria beringelas recheadas, não porque as comi em algum lugar, mas porque inventei que deveria ser gostoso... como pimentões recheados. Fui no mercado, comprei a danada e coloquei na geladeira. Uma semana se passou. Todas as manhãs, abria a geladeira e lá estava ela, roxa e verde, bonita, mas estranha. Tive medo. Já pensou se a berinjela não é gostosa? Ela nem decide se prefere j ou g.
Hoje acordei mais pra tarde que manhã e lá estava ela novamente, me encarando. Resolvi tentar, afinal de contas o Girassol começou a esmorecer e precisava fazer alguma coisa. Recheei beringelas. Destruí a cozinha mais uma vez, nessa onda de programa de tv culinário para você mesma.
Abri as janelas, troquei a água do Girassol e cada dia que passa descubro que gosto mais e mais dele. Ele é muitíssimo amarelo, suas pétalas ficam resistindo e todos os dias aparecem as mini-abelhas. É a parte boa de morar no térreo. As mini-abelhas.
Terminei meu programa culinário, limpei a cozinha - parte que nunca aparece nos programas - e fui comer as beringelas com recheio de carne moída e todas as coisas que encontrei pela geladeira. O recheio, como sempre, ficou muito bom. As beringelas...
Murchar não é uma palavra legal para o Girassol. Porque ele não murcha, exatamente. Seu caule vai descendo devagarzinho, como se estivesse dizendo para o sol: seja feita a sua vontade, frente o peso da enorme flor. E a flor... ela tem um cheiro adocicado, mas fresco... parece que acabou de sair do banho.
Não agüentei comer as beringelas. A casca tem um sabor mais forte que não topei e um cheiro muito forte de planta. Não consigo comer vegetais com cheiro muito forte ou gosto expressivo de que saiu do mato. Gosto daquelas que disfarçam mesmo... por isso, não me chame para: casca de berinjela, açaí, beterraba e similares.
Quando eu era pequena, meu pai plantou um girassol no jardim. Eu passava um tempo enorme vendo ele se mover de acordo com o sol. Meu Girassol não faz isso. Ele foi presente e, assim, sacado da terra para minhas mãos, perdendo o super poder. Ao mesmo tempo, trouxe uma energia incrível, transformando dias como o de hoje.
