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Café: extra-forte


Nada como as expectativas... sempre que penso em ir à praia por aqui, fico comparando com as de Salvador, imagino as 300 mil pessoas disputando pedacinhos de areia e todo mundo que você nunca viu, grudado do seu lado fingindo que isso é normal. O calor, a água gelada... enfim. Com essas expectativas em alta, insisti em lutar contra o calor e o dia estava muito bonito. Fui à praia.

Surreal. A praia estava vazia, sossegada, tinha areia de sobra, a maré estava baixa. Sentei ao lado de uma mãe com filha adolescente e começamos a conversar. O problema de ir á praia sozinha é a neura de deixar a bolsa pra Deus observar e acreditar que jamais será roubada. Conversamos um bocado, passamos o tempo, as duas eram muito simples e simpáticas e nos revezávamos em olhar as bolsas.

A água: deliciosa. Não sei, acho que hoje havia uma conspiração a meu favor, porque foi tudo muito bom. Acho que as forças sobrenaturais resolveram fazer uma investida em mim e tirar metade da chatice do primeiro parágrafo. Não tive do que reclamar. A água estava gostosa, o mar calmo e pude fazer uma coisa que não fazia há muito tempo: nadar. Fui transportada para o universo marítimo, com as energias mais do que recicladas, renovadas e parecia um começo de ano. De dentro d'água fiquei vendo a costa de Copacabana e finalmente, numa distração, pensei: que lugar bonito, né rapaz?

Tenho muita sorte mesmo: até prendedor de cabelo da moça do artesanato ganhei... e estava realmente precisando de um. Tudo deu muito certo. Valeu, aê!
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Mais uma vez ferve o Rio de Janeiro. Enquanto escrevo de uma sala de reunião, o calor entra pela varanda e surrealmente insisto em tomar café quente. Passam dos 35° e tive que sair do ônibus atrás de um táxi emergencial para não chegar aqui derretendo. O táxi me salvou com o ar condicionado e minha aparência venceu o termômetro.

Antes disso, um menino, possível japonês, sentou ao meu lado no coletivo. Sempre escolho as cadeiras altas porque ventila mais e nem sempre encontro ônibus com ar condicionado. Um dia terei carro novamente. O negócio é que o japa estava do meu lado, entendendo como japa uma suposição, pelo fato dele arranhar no inglês e o amigo dele perguntar algo sobre Hiroshima. O fato é que, com o japa do meu lado e quatro meninas em pé, seguíamos nosso destino comum. As quatro meninas me fizeram lembrar de mim mesma na idade delas, já que uma se parecia bastante comigo. Acho que perdi muito tempo me divertindo com as conversas das garotas e o jeito de falar delas... adolescentes são muito parecidas em quase qualquer lugar do mundo.

Um ônibus pára ao nosso lado. As meninas continuavam a falar e o japa tinha sacado do bolso um guia do Rio para japas. O ônibus ao lado também cozinhava pessoas. Janelas passaram por nós e pude ver uma senhora gordinha, igual a um cuscuz, só que bronzeado. Tinha voltado da praia e vi que no seu cabelo ainda tinha areia. Fiquei nervosa. Fiquei pensando em como eu tinha sorte de não estar ao lado dela. Não suficiente, na janela atrás dessa, um rapaz de seus vinte e tantos, venceu surpreendentemente o calor ou foi vencido por ele, ainda não decidi. O que importa é que ele dormia a sono solto, com o rosto colado no vidro da janela, fazendo aquelas nuvenzinhas de vapor que dão um aspecto meio podre na cena toda.

A situação foi tão insólita e eu estava tão distraída, que comecei a rir sozinha. O rapaz da janela estava com a boca muito aberta, como se o mestre dos magos tivesse lhe dado a poção do sono e ele automaticamente tivesse caído para o lado. O japa deve ter achado chato ou difícil desvendar os próprios rabiscos, porque acabou rindo sozinho da mesma situação que eu e aquele sentimento de compartilhamento passou por nós. Se eu gostasse da japas, teria sido aquelas cenas de amor à primeira vista dos filmes, em que dividir um momento acaba virando dividir a vida no fim da história. O japa até tentou pegar a câmera pra tirar uma foto, mas demorou demais e o ônibus resolveu acabar com o exibicionismo de seus clientes, indo embora.

No fim da história fiquei pensando em como meu ônibus era mais arrumadinho de pessoas, em como a gordinha cuscuz deveria estar agoniada (eu estaria... ou melhor, jamais ficaria suja de praia desse jeito) e em como o sono venceu o calor, o vidro da janela e o cheiro da praia. Definitivamente eu tinha muita sorte de estar no ônibus ao lado.
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Com a chegada do ano novo, pensei em novidades, em situações novas além de um novo calendário. Numa viagem relâmpago de volta a Salvador, encontrei os meus e me senti em casa. Hoje estou de volta, sozinha no Rio e também em casa. Essa tranqüilidade de dormir pesado com os barulhos da rua é que me fez perceber o quanto eu mudei em apenas um ano.

Ao assistir mais um episódio repetido de Sex and the City, vi Carrie Bradshaw numa cena que me será recorrente neste verão: a personagem estava sentada de frente para um ventilador, lendo um livro. Se o verão carioca permitir menos frentes frias do que as freqüentes, o glamour fantasioso da televisão se transportará para meu apartamento térreo. Ainda assim, esta foi uma noite de dezenove graus bastante agradável. Deitada no sofá de uma outra cidade em um outro estado que há um ano nunca havia sequer visitado, estou à vontade.

É claro que minha relação com Salvador é muito diferente da que tenho com o Rio. Enquanto em Salvador encontro a cidade inteira como extensão da minha casa (percorro as ruas com olhos fechados, as pessoas, o jeito, a fala, a comida, tudo é família, não apenas familiar), no Rio essa dimensão se restringe ao espaço da residência. Os olhares são outros como meu comportamento e a familiaridade vai se construindo aos poucos. As ruas já percorro com tranqüilidade, descubro que caminhos seguir e amizades manter. Neste ano que chega, minha busca está mais uma vez entre conhecer o ofício do audiovisual, ser ainda mais seletiva e perder menos tempo.

Morar só continua sendo um prazer e cada vez mais, descoberta. Vou vivendo o dia-a-dia com a certeza de que só depende de mim construí-lo, das ações mais banais, como ir ao mercado, às necessidades urgentes, como uma visita a um hospital às cinco da manhã, ardendo em febre. São responsabilidades e a disciplina que vamos criando e aprendemos a manter, por vezes trocando experiências com conhecidos em situação parecida ou até contando para aqueles que estão distantes.

Acaba que o texto traz idéias que se renovam e reciclam, fruto dessa vida que ultrapassa a temporalidade dos dias que nos fazem atravessar mais um ano. Eu queria propor mudanças de mundo e aquelas lembranças, projetos, propostas, grandes sonhos que temos para nós e para os outros, os outros todos que existem por aí. Eu sei, entretanto, que seria apenas mais uma vontade do que a certeza de que daria certo, então deixo a vontade, o desejo de mudanças e a certeza de neste processo já me encontro.

Que venha o novo e que nos torne um pouco melhor do que somos ou acreditamos ser.
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Cozinhei beringelas. Nunca tive muita proximidade com elas, sempre comi meio sem saber direito... entendia a berinjela como pedacinhos de coisas e via no mercado a bicha lá, inteira, roxa e verde. Estranha, mas bonita.

Decidi que faria beringelas recheadas, não porque as comi em algum lugar, mas porque inventei que deveria ser gostoso... como pimentões recheados. Fui no mercado, comprei a danada e coloquei na geladeira. Uma semana se passou. Todas as manhãs, abria a geladeira e lá estava ela, roxa e verde, bonita, mas estranha. Tive medo. Já pensou se a berinjela não é gostosa? Ela nem decide se prefere j ou g.

Hoje acordei mais pra tarde que manhã e lá estava ela novamente, me encarando. Resolvi tentar, afinal de contas o Girassol começou a esmorecer e precisava fazer alguma coisa. Recheei beringelas. Destruí a cozinha mais uma vez, nessa onda de programa de tv culinário para você mesma.

Abri as janelas, troquei a água do Girassol e cada dia que passa descubro que gosto mais e mais dele. Ele é muitíssimo amarelo, suas pétalas ficam resistindo e todos os dias aparecem as mini-abelhas. É a parte boa de morar no térreo. As mini-abelhas.

Terminei meu programa culinário, limpei a cozinha - parte que nunca aparece nos programas - e fui comer as beringelas com recheio de carne moída e todas as coisas que encontrei pela geladeira. O recheio, como sempre, ficou muito bom. As beringelas...

Murchar não é uma palavra legal para o Girassol. Porque ele não murcha, exatamente. Seu caule vai descendo devagarzinho, como se estivesse dizendo para o sol: seja feita a sua vontade, frente o peso da enorme flor. E a flor... ela tem um cheiro adocicado, mas fresco... parece que acabou de sair do banho.

Não agüentei comer as beringelas. A casca tem um sabor mais forte que não topei e um cheiro muito forte de planta. Não consigo comer vegetais com cheiro muito forte ou gosto expressivo de que saiu do mato. Gosto daquelas que disfarçam mesmo... por isso, não me chame para: casca de berinjela, açaí, beterraba e similares.

Quando eu era pequena, meu pai plantou um girassol no jardim. Eu passava um tempo enorme vendo ele se mover de acordo com o sol. Meu Girassol não faz isso. Ele foi presente e, assim, sacado da terra para minhas mãos, perdendo o super poder. Ao mesmo tempo, trouxe uma energia incrível, transformando dias como o de hoje.
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Estou lendo um livro divertido sobre cinema. Acho até que ele é mais divertido para quem não tem formação e doença pela sétima arte, que encontrará várias curiosidades bacanas e ótimas indicações de filmes: O caderno de Cinema de Marina W. A autora já escreveu outros livros e está anos-luz em popularidade em seu blog em relação ao meu pobrezinho aqui, mas não é isso que importa agora.

Uma das indicações é o obrigatório Acossado (1960, Jean Luc Godard). Godard é um dos homens mais importantes do cinema, um dos fundadores da Cahiers du Cinema (revista francesa sobre cinema nascida nos anos 60), junto com François Truffaut (dirigiu Jules e Jim e A noite Americana e outros tantos), e mais alguns importantes cineastas que não citarei, já que isso não é uma aula. Eles são os criadores da Nouvelle Vague, uma vanguarda artística francesa que mudou os hábitos e a linguagem de fazer filmes. A Nouvelle faz parte daquele turbilhão de novidades desta geração (Neo-realismo Italiano, Cinema Novo, Cinema Direto, o ano de 68 em todos os lugares do mundo... mas vamos parar por aí).

Acossado conta a história de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo), um ladrão de carros que acaba matando um policial e tem que sair da França. No meio da história, encontra Patricia Franchini, uma namorada americana que vende jornais pelos Champs Elysèes. Ao tempo que Michel tenta resolver seu impasse e quer levar Patricia para a Itália, ela fica na dúvida, pois pretende ascender à carreira de jornalista e ainda há outras complicações que deixarei em aberto, bem como o sensacional final da trama.

Se lemos simplesmene a sinopse, não entendemos a dimensão do filme que transformou a história do cinema. Há que assistí-lo e entender o momento em que ele surgiu, como o filme foi feito e sentir a estranheza, pois ainda hoje é um filme marcante.

Jean Seberg é Patrícia essa garota que apenas de olhar para seu rosto, já sentimos vontade de conhecê-la. Há um mistério naquele olhar meigo, ela não é simplesmente doce, ela tem algo mais, ela parece observar a todo instante, é uma mulher de opinião... No meio das opiniões de Marina W., fiquei sabendo mais da vida da atriz e fui investigar .

A atriz teve uma vida que ninguém imaginaria ao vê-la nesse filme. Ela casou-se quatro vezes, se envolveu com os Panteras Negras, teve dois filhos e um deles, uma garota, morreu em decorrência de uma overdose da mãe, dois dias depois de nascida em 1970. A mãe, a cada dia de aniversário de nascimento da filha, tentava se matar, até que conseguiu, em 1979. Uma vida turbulenta, envolvida em lutas sociais e que acaba em tragédia, com uma mulher cheia de potencial e um dos marcos do cinema mundial.

A história de Jean Seberg, ao tempo que nos entristece, nos faz pensar em quão complexa foi sua geração, em como deveria ser ao mesmo tempo interessante e crítico viver tantas tranformações em pouco tempo, quebrar tantas regras sociais, viver esse romper de situações com tanto preconceito, se envolver em movimentos que necessariamente mudariam o mundo, estar neste mesmo mundo que muda a todo instante e como uma ação em uma ponta deste espaço conversa com outra, no outro extremo.

Por fim, Jean escreveu dois livros: Como escapar de si mesmo (ao que a pesquina informa, um manual para suicídio) e Blue Jean - um ensaio sobre a esquizofrenia. Em uma das frases que pesquei da atriz, ela diz que o filme que mais gostou de fazer foi Lilith (Robert rossen, 1964), que vou procurar para assistir. E a última coisa: pra quem viu O bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968), lembrará totalmente da referência ao corte de cabelo de Jean em Mia Farrow.


Filmes:

Acossado (À bout de souffle)
Diretor: Jean-Luc Godard
1960, 90 min.
País: França

Jules e Jim (Jules et Jim)
Diretor: François Truffaut
1962, 105 min.
País: França

A Noite Americana (La Nuit américaine)
Diretor: François Truffaut
1973, 115 min.
País: França, Itália

Lilith
Diretor: Robert Rossen
1964, 114 min.
País: Estados Unidos

O bebê de Rosemary (Rosemary's baby)
Diretor: Roman Polanski
1968, 136 min.
País: Estados Unidos
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Depois de muito sofrer e desistir de pensar no infame vaso sanitário, cheguei a conclusão de que ele não poderia me vencer. A soda cáustica é uma desilusão só: não faz fumacinha, não explode e se tem cheiro, eu não senti. Ela finge que resolve seu problema. Acabou que usei o pote todo da soda seguindo as trezentas indicações à perfeição e exaustão e nada aconteceu... a água desceu um tiquinho mais rápido, mas mesmo assim, o vaso ficava inutilizado.

Depois do almoço, fui com uma comadre na rua: precisava comprar um livro e ela tinha que ir pra casa. Passei mais uma vez em uma das duas lojinhas de coisas baratas para casa; estava procurando lixeiras (duas pros banheiros e uma pra cozinha), achei todas feias e as que eu queria só encontrava pela metade: ou só a tampa, ou só o 'receptor'. No meio dessa história e com a loja entupida, confessei a uma das donas de casa que estavam por lá: a senhora sabe como é um desentupidor de vaso sanitário? Porque o meu vaso está impossível e olha que já tentei soda cáustica!! (a soda sempre assusta as pessoas). Falei com minha mãe e ela me disse que era para eu comprar um desentupidor, e me descreveu o aparato, mas só me lembro de 'cabo de vassoura'. Ela, à luz de sua sabedoria: ''você pode até comprar, mas tenho uma dica infalível, você vai precisar:

1 panela razoável com água ultra super quente destruidora
1 vassoura piaçava
1 saco plástico (ou 4 se você for neurótica/o como eu)
10 folhas de jornal

Faça uma casinha para a ponta da vassoura que varre dentro de um saco plástico. Enfie a vassoura dentro e dê um nó no cabo.'' Como eu sou mais preocupada, fui colocando sacos por cima para não molhar a vassoura por dentro. A brincadeira é jogar a água fervente na privada e meter a vassoura dentro, fazendo o velho movimento entra-e-sai e pronto. Seu vaso estará milagrosamente desentupido.

Eu juro que queria encontrar a dona moça da loja e agradecê-la profundamente. ela foi muito gênia e esse é o tipo de sabedoria que só o tempo resolve... não tem jeito. Eu fico pensando... as pessoas realmente usam mecanismos criativos para solucionar problemas. Elas sim, deveriam ser produtoras de cinema. Mas isso é outra história.

Me sinto muito feliz nesse momento e aprendi na prática porque não devemos jogar papel no vaso sanitário (ainda que eu não acredite que o papel tenha sido responsável e sim algum material de construção surreal deixado como resto...). A crise agora é me livrar os sacos plásticos da vassoura... mas isso é café pequeno!
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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