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Café: extra-forte


Cá estava eu, deitada na melhor posição para arruinar a coluna no sofá, quando decido ver o último filme de Bigas Luna passando no canal fechado. Yo soy La Juani conta a estória dessa menina que decide tomar o rumo da própria vida e tentar atingir seus sonhos a partir da realidade. E mais uma vez, o personagem menina que quer ser independente nos invade e carrega para seu universo de comparações com o que somos.

Juani é como eu, uma menina com vontade de aventura e coragem para se jogar nela. Bastou um motivo para que seus anseios se tornassem agonia e ela saísse para ganhar o mundo em Madri. Carregou uma amiga com ambições parecidas, curtiu a fantasia da cidade e caiu no dia-a-dia sem tanta maquiagem. Ninguém disse que seria fácil, certo?

Mas Juani segue em frente e aí entra a mágica do filme de Bigas Luna: nos concentramos na personagem sem esquecer a beleza das cores em sua construção. Uma fotografia suja, levemente granulada, com tons urbanos, mas narrativa sensível. Juani não esquece seus problemas, sua família e a princesa sai da carruagem do príncipe que se torna só mais um em sua vida, por mais que ela quisesse o contrário. Mas ela também não é uma princesa; é uma mulher em construção.

Bigas Luna aliviou a mão neste novo filme. As cenas de sexo – tão freqüentes e intensas que marcam sua filmografia – aparecem aqui mais suaves, como de uma menina real que não tem muita vergonha e sabe o que quer. Faz parte da elaboração do personagem essa sensualidade vista já a distância, não apenas com o desnudamento proposto no figurino, mas na forma como mexe o corpo, como anda nos saltos, como dança e dirige seu olhar. Juani tem a doçura do descobrimento no olhar, a maquiagem que carrega em seus olhos é só para tentar tornar mulher mais rápido aquela que ainda chora quando as ilusões se desfazem.

Costumo carregar as bandeiras dessas mulheres ou meninas-mulheres, pois estou na mesma linhagem delas, descobrindo meus caminhos a cada passo dado. É uma busca que a boa ficção transforma uma estória espanhola em universal. Este aprendizado que escolhemos traz o prazer da identificação com personagens como Juani; sou heroína da minha própria história, sem esquecer a ternura, o sorriso, a audácia e a constante observação aos movimentos que nos orbitam e impulsionam.

Título original: Yo soy La Juani
Diretor: Bigas Luna
País: Espanha
2006, 100 minutos.

Observações impertinentes:
1. Não dá pra ver muito na foto, mas a protagonista é muitíssimo parecida com Natalie Portman;
2. Haverá a seqüência do filme. Aguardemos Juani.
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Esses dias o mundo dá uma parada entre a crise econômica, o cargueiro dos piratas e as guerras mundiais e particulares para esperar. Todos ganharam uma ponta de esperança, talvez maior sentida nos Estados Unidos, com Barack eleito. Milhares de fotos, charges, vídeos, reportagens mantêm nosso ideal de mundo melhor em suspensão: estamos na ativa concentração tentando descobrir quem é esse homem que alavancou o maior poder do mundo e que enfrentará sua maior crise.

Há uma simpatia por ele; negro, bem formado, não são poucas as comparações, analogias, lembranças em relação à questão negra e seus heróis americanos. Hoje mesmo, acessei o New Yorker e vi estampadas séries de charges criticando Bush e fortalecendo os ideais que acreditamos encontrar, através dos discursos deste novo homem. Segundo a reportagem que acompanha a imagem acima, Obama não é o herói do movimento negro e reconhece sua história de luta, mas um homem com capacidades de liderar um país multicor. E enquanto seu discurso acontecia no dia da vitória, milhares choravam e não apenas norte-americanos. Sua campanha de mudança merece prêmios de marketing e não haveria momento melhor nos Estados Unidos para pô-la em prática. O que vimos em seus discursos era absolutamente oposto à besta que lidera o país.

É difícil, entretanto, manter viva por muito tempo essa idéia de que o mundo vai melhorar. Recentemente, em minha busca diária por notícias mundo afora, vi que está acontecendo uma possível nova guerra no Congo, que os piratas somalis seqüestraram mais um navio, agora com trigo, que nesse fim de semana contam-se 4 ou 5 meninas estupradas no Paraná. Quando buscamos notícias, já esperamos que as ruins sejam as tragédias do dia-a-dia e as boas, possíveis avanços na ciência. Nenhuma notícia é boa notícia de verdade ou anima a população. Eu, pelo menos, lembro de poucas assim...

Em todo caso, sinto por Obama uma simpatia, muito parecida com a que senti por nosso Lula quando foi eleito. Vejo em Obama e no pouco conhecimento que tenho dele, um preparo muito maior para tentar liderar seu país e, convenhamos, quase qualquer um é melhor que Bush. O que é estranho é como um país permitiu um líder deste quilate governar por tanto tempo. E se hoje - como acabo de ver uma propaganda na televisão - tanta gente escreve, pensa, sente, se interessa por Barack Obama é porque estamos nos entendendo como um todo e, assim, nossas preocupações tornam-se globais. Talvez, a partir daí, seja possível esperar alguma coisa para os anos vindouros.
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Estamos em um novo projeto. Eu e Pedro, meu colega da pós e parceiro neste novo documentário, resolvemos nos desafiar e entrar em algo que trate de nós mesmos, de nossa relação conosco, de como e porque nos tornamos quem somos... justamente a partir do olhar.

Esta idéia traz em seu íntimo uma busca de nos reconhecer em um novo ambiente. Eu e Pedro, cada um em seu novo espaço, esperamos conquistá-lo aos poucos, ainda que ele nos tenha dominado de imediato. Ainda tentamos deixá-lo um pouco mais parecido com o que achamos ser, mas tudo não passará de uma combinação de fatores para continuar a busca incessante pelo equilíbrio em movimento que é uma moradia. Porque mudar não é apenas de endereço físico, mas uma relocalização de nós mesmos.

Entrando neste novo espaço, espero renovar e reciclar as energias que me freqüentam neste ano. Mudanças já estão acontecendo aos poucos, readaptações, decisões e escolhas em todos os sentidos. A impressão que dá é que cada vez que nos transferimos, transformamos nosso olhar diante do todo, de tudo o que nos cerca. Assim, até as pessoas que encontramos em nosso cotidiano ganham outras dimensões. À medida que vamos conquistando os espaços, vamos nos permitindo novos mundos e para cada mundo, um grupo de situações novas. Tudo é sempre o que escolhemos e, claro, a não escolha é também uma decisão.

Minhas coisas ainda estão em caixas e malas e mais uma vez penso na quantidade de coisas que carregamos nas costas, como uma casa móvel, com o 'básico' para viver. Se meu básico é mais de livros, dvds, roupas e sapatos, hoje vivo com muito pouco disso tudo, as caixas fechadas e malas repletas assim continuam enquanto o filme não é rodado. Abri uma sacola menor e tirei três livros que me fazem companhia, ainda que na verdade, esteja lendo apenas um. Essa situação faz pensar no que sempre pensamos quando carregamos bagagens de um lado para o outro: temos sempre a certeza de que precisamos de muito menos para viver, mas sempre guardamos e guardamos, para criar uma pequena constelação de tudo o que somos onde estivermos.

Toda essa situação, a mudança, os novos olhares, o re-conhecimento das pessoas que se freqüentam socialmente me fazem querer parar, me concentrar em estudos e retomar meus objetivos, já que me fixei neste novo espaço. O mais engraçado é que todos percebem, é como Na Natureza Selvagem, o que vivemos vai nos transformando aos poucos e quem nos cerca percebe alguma alteração em nossas vibrações, mas normalmente não identificam de imediato. E nós acabamos sem dizer nada, dizemos o que um roteiro de cinema diria: estou em casa, lendo livros, sentada no sofá. Se fosse literatura outras palavras dariam sentido mais exato: estou buscando me reencontrar e, para isso, observo mais, falo menos, decido meus novos rumos que podem até ter a mesma cara de antes, mas em essência se reconstroem.
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Primo, uma coisa eu te digo: você está prestes a desvendar um novo mundo. Não vai ser fácil, mas não escolhemos o caminho mais fácil, caso contrário, estaríamos no mesmo lugar. Quando mudamos completamente de espaço, não apenas tudo ao nosso redor se transforma, como as idéias que acreditávamos estar solidificadas em nós.

Essa redescoberta é tão prazerosa quanto dolorosa algumas vezes. A falta que sentimos de casa não vai ser resolvida tão cedo... e voltar para casa será sempre uma aventura de retorno, você não vai segurar o sorriso e vai perceber no seu íntimo que foi a escolha certa, a decisão de mudar lhe mudou.

Não sei se nos tornamos melhores ou piores com isso... acho até que estes não são os melhores adjetivos; acho que nos tornamos outros, acho que passamos a entender de forma mais completa e complexa o significado de individualidade. Porque nos entendemos como uno, único, com uma bagagem de valores, família, amores, carinhos e aprendizados que aos poucos vamos entendendo que são só nossos, apesar de nossa linhagem.

De início, te adianto, a cidade te dominará. Ela vai tragar você, seu trabalho e poderá lhe pôr em prova. A cidade que você escolheu é a do trabalho, é uma máquina, uma linha de montagem que impulsiona o país em que vivemos e esse é o objetivo de pessoas como você e eu, quando decidimos partir para ela. Então, calma: deixe ela se mostrar pra você, mas extraia dela seus prazeres. A cidade que você escolheu é também cultura. Você vai para uma das maiores cidades do mundo que ainda faz parte de um dos países mais ricos e diversos que existe.

Insisto que invista na cultura: xous, filmes, pessoas, espetáculos. Adicione pitadas desse tempero e vá em busca também da diversidade. Na cidade que você escolheu, há pedaços do mundo perdidos em seus bairros. Uma cidade cosmopolita, que conserva em si a poluição e o coração de tanta gente na mesma situação que a sua.

E quando a saudade apertar, o coração pedir arrego, liga, manda mensagem, manda e-mail. Somos vizinhos, eu e seu amigo e é um pulo (grande) para te encontrarmos. Não se preocupe, vai dar certo, e você vai estar mais ocupado do que livre, para ter a mente ociosa. Fique tranqüilo também com quem fica, porque eles estão em número e você sabe como ninguém como todos são próximos apesar dos conflitos ocasionais. Até eles fazem parte da proximidade dos nossos.

Um beijo e pode contar comigo. Lhe veremos muito em breve em seu novo destino.
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Enquanto um texto novo não aparece por aqui, mas está em construção, sigo com a novidade. Acessem este link e vejam que, apesar de simples e singelo (agora tenho mais confiança em dizer), No tempo de meu avô..., tem potencial.

Conquistei with a little help from my friends, o Melhor Roteiro do RECINE 2008!

Para rever o curtinha, acessem este Arquivo.
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I
Ausência

Estou numa casa que não é a minha. Ouço músicas novas, estranho a falta de meu barulho costumeiro, ocupo outros espaços.

O dono desta casa não está. Possivelmente ele chegará na minha saída e não saberei como é viver com ele. A proposta não era essa, em todo caso. Estou aqui como pouso provisório para retomar a mais uma nova jornada de um ano de novas jornadas. Cada jornada significa a conquista de um novo território, onde um dos objetivos é se enxergar neste ambiente e transformá-lo em casa.

Na casa em que eu estou há um clima diferente. Um clima que combina bastante comigo, mas com uma versão de mim no futuro, como uma pessoa que estou tentando construir para ser. Há a falta óbvia de algumas coisas que seriam mais próximas de mim futura e há, por outro lado, uma infinidade de coisas que acho que já sou e de grandes descobertas e identificações. Mas fico pensando o que esta outra pessoa pensa de alguém utilizar seus espaços.

Uso sua sala, sua música, sua internet. Abro sua geladeira, vejo seus livros e ímãs, utensílios de cozinha e shampoos. E essa vida de outra pessoa começa a me parecer bacana. É uma casa que incentiva os estudos, a vontade de produzir, de ver, conhecer, investigar.

O apartamento em que eu morava era menor. Um quarto e sala com o básico que uma pessoa precisa para viver bem. Mas era um apartamento vazio... feito para locações, com uma cara que não era cara de ninguém... um apanhado de coleções moráveis. Se nos deixarmos levar por essa coleção que não nos estimula a nada, paramos tudo feito os pratos brancos da cristaleira ou os quadros da bailarina de antigamente. Algumas vezes fui levada por esse marasmo, outras tantas consegui me libertar e produzir movimento.

Acredito que esta saída abrirá as portas para a pessoa do futuro. O intervalo na casa deste amigo é mais uma experiência que podemos deixar passar sem pensar ou investir nela e sentir tudo o que é possível. Eu invisto. E esse objetivo da busca vai me levar a um novo lugar, uma nova morada. Esta nova casa vai ser a casa da nova experiência, mais um passo em busca do mundo. São as energias renováveis que nos transtornam e transformam. É a mudança, o fim de um tempo quase presente, já não estivesse passando por nós.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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