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Café: extra-forte


Estamos em um novo projeto. Eu e Pedro, meu colega da pós e parceiro neste novo documentário, resolvemos nos desafiar e entrar em algo que trate de nós mesmos, de nossa relação conosco, de como e porque nos tornamos quem somos... justamente a partir do olhar.

Esta idéia traz em seu íntimo uma busca de nos reconhecer em um novo ambiente. Eu e Pedro, cada um em seu novo espaço, esperamos conquistá-lo aos poucos, ainda que ele nos tenha dominado de imediato. Ainda tentamos deixá-lo um pouco mais parecido com o que achamos ser, mas tudo não passará de uma combinação de fatores para continuar a busca incessante pelo equilíbrio em movimento que é uma moradia. Porque mudar não é apenas de endereço físico, mas uma relocalização de nós mesmos.

Entrando neste novo espaço, espero renovar e reciclar as energias que me freqüentam neste ano. Mudanças já estão acontecendo aos poucos, readaptações, decisões e escolhas em todos os sentidos. A impressão que dá é que cada vez que nos transferimos, transformamos nosso olhar diante do todo, de tudo o que nos cerca. Assim, até as pessoas que encontramos em nosso cotidiano ganham outras dimensões. À medida que vamos conquistando os espaços, vamos nos permitindo novos mundos e para cada mundo, um grupo de situações novas. Tudo é sempre o que escolhemos e, claro, a não escolha é também uma decisão.

Minhas coisas ainda estão em caixas e malas e mais uma vez penso na quantidade de coisas que carregamos nas costas, como uma casa móvel, com o 'básico' para viver. Se meu básico é mais de livros, dvds, roupas e sapatos, hoje vivo com muito pouco disso tudo, as caixas fechadas e malas repletas assim continuam enquanto o filme não é rodado. Abri uma sacola menor e tirei três livros que me fazem companhia, ainda que na verdade, esteja lendo apenas um. Essa situação faz pensar no que sempre pensamos quando carregamos bagagens de um lado para o outro: temos sempre a certeza de que precisamos de muito menos para viver, mas sempre guardamos e guardamos, para criar uma pequena constelação de tudo o que somos onde estivermos.

Toda essa situação, a mudança, os novos olhares, o re-conhecimento das pessoas que se freqüentam socialmente me fazem querer parar, me concentrar em estudos e retomar meus objetivos, já que me fixei neste novo espaço. O mais engraçado é que todos percebem, é como Na Natureza Selvagem, o que vivemos vai nos transformando aos poucos e quem nos cerca percebe alguma alteração em nossas vibrações, mas normalmente não identificam de imediato. E nós acabamos sem dizer nada, dizemos o que um roteiro de cinema diria: estou em casa, lendo livros, sentada no sofá. Se fosse literatura outras palavras dariam sentido mais exato: estou buscando me reencontrar e, para isso, observo mais, falo menos, decido meus novos rumos que podem até ter a mesma cara de antes, mas em essência se reconstroem.
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Primo, uma coisa eu te digo: você está prestes a desvendar um novo mundo. Não vai ser fácil, mas não escolhemos o caminho mais fácil, caso contrário, estaríamos no mesmo lugar. Quando mudamos completamente de espaço, não apenas tudo ao nosso redor se transforma, como as idéias que acreditávamos estar solidificadas em nós.

Essa redescoberta é tão prazerosa quanto dolorosa algumas vezes. A falta que sentimos de casa não vai ser resolvida tão cedo... e voltar para casa será sempre uma aventura de retorno, você não vai segurar o sorriso e vai perceber no seu íntimo que foi a escolha certa, a decisão de mudar lhe mudou.

Não sei se nos tornamos melhores ou piores com isso... acho até que estes não são os melhores adjetivos; acho que nos tornamos outros, acho que passamos a entender de forma mais completa e complexa o significado de individualidade. Porque nos entendemos como uno, único, com uma bagagem de valores, família, amores, carinhos e aprendizados que aos poucos vamos entendendo que são só nossos, apesar de nossa linhagem.

De início, te adianto, a cidade te dominará. Ela vai tragar você, seu trabalho e poderá lhe pôr em prova. A cidade que você escolheu é a do trabalho, é uma máquina, uma linha de montagem que impulsiona o país em que vivemos e esse é o objetivo de pessoas como você e eu, quando decidimos partir para ela. Então, calma: deixe ela se mostrar pra você, mas extraia dela seus prazeres. A cidade que você escolheu é também cultura. Você vai para uma das maiores cidades do mundo que ainda faz parte de um dos países mais ricos e diversos que existe.

Insisto que invista na cultura: xous, filmes, pessoas, espetáculos. Adicione pitadas desse tempero e vá em busca também da diversidade. Na cidade que você escolheu, há pedaços do mundo perdidos em seus bairros. Uma cidade cosmopolita, que conserva em si a poluição e o coração de tanta gente na mesma situação que a sua.

E quando a saudade apertar, o coração pedir arrego, liga, manda mensagem, manda e-mail. Somos vizinhos, eu e seu amigo e é um pulo (grande) para te encontrarmos. Não se preocupe, vai dar certo, e você vai estar mais ocupado do que livre, para ter a mente ociosa. Fique tranqüilo também com quem fica, porque eles estão em número e você sabe como ninguém como todos são próximos apesar dos conflitos ocasionais. Até eles fazem parte da proximidade dos nossos.

Um beijo e pode contar comigo. Lhe veremos muito em breve em seu novo destino.
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Enquanto um texto novo não aparece por aqui, mas está em construção, sigo com a novidade. Acessem este link e vejam que, apesar de simples e singelo (agora tenho mais confiança em dizer), No tempo de meu avô..., tem potencial.

Conquistei with a little help from my friends, o Melhor Roteiro do RECINE 2008!

Para rever o curtinha, acessem este Arquivo.
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I
Ausência

Estou numa casa que não é a minha. Ouço músicas novas, estranho a falta de meu barulho costumeiro, ocupo outros espaços.

O dono desta casa não está. Possivelmente ele chegará na minha saída e não saberei como é viver com ele. A proposta não era essa, em todo caso. Estou aqui como pouso provisório para retomar a mais uma nova jornada de um ano de novas jornadas. Cada jornada significa a conquista de um novo território, onde um dos objetivos é se enxergar neste ambiente e transformá-lo em casa.

Na casa em que eu estou há um clima diferente. Um clima que combina bastante comigo, mas com uma versão de mim no futuro, como uma pessoa que estou tentando construir para ser. Há a falta óbvia de algumas coisas que seriam mais próximas de mim futura e há, por outro lado, uma infinidade de coisas que acho que já sou e de grandes descobertas e identificações. Mas fico pensando o que esta outra pessoa pensa de alguém utilizar seus espaços.

Uso sua sala, sua música, sua internet. Abro sua geladeira, vejo seus livros e ímãs, utensílios de cozinha e shampoos. E essa vida de outra pessoa começa a me parecer bacana. É uma casa que incentiva os estudos, a vontade de produzir, de ver, conhecer, investigar.

O apartamento em que eu morava era menor. Um quarto e sala com o básico que uma pessoa precisa para viver bem. Mas era um apartamento vazio... feito para locações, com uma cara que não era cara de ninguém... um apanhado de coleções moráveis. Se nos deixarmos levar por essa coleção que não nos estimula a nada, paramos tudo feito os pratos brancos da cristaleira ou os quadros da bailarina de antigamente. Algumas vezes fui levada por esse marasmo, outras tantas consegui me libertar e produzir movimento.

Acredito que esta saída abrirá as portas para a pessoa do futuro. O intervalo na casa deste amigo é mais uma experiência que podemos deixar passar sem pensar ou investir nela e sentir tudo o que é possível. Eu invisto. E esse objetivo da busca vai me levar a um novo lugar, uma nova morada. Esta nova casa vai ser a casa da nova experiência, mais um passo em busca do mundo. São as energias renováveis que nos transtornam e transformam. É a mudança, o fim de um tempo quase presente, já não estivesse passando por nós.
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Há alguns dias postei um texto sobre o Última Parada 174, quando foi lançado no Festival do Rio. O tempo passou e para a minha surpresa, li ontem no caderno cultural de domingo uma falação entre os bonequinhos de O Globo. Carlos Alberto Mattos, Rodrigo Fonseca e Marcelo Janot opinaram entre bonequinho achando espetacular, bonequinho de maresia na poltrona e bonequinho pedindo a morte... ou dormindo. Mas a parte realmente interessante de toda a história pode ter passado despercebida pela maioria: a forma como os três autores opinaram sobre o filme se transforma radicalmente e deixa o leitor que ainda não o assistiu, meio sem saber o que fazer.

Minha opinião sobre o 174 tá por aí, disponível. Mas, quem tiver acesso ao Globo, vai encontrar muita diversão pra quem curte crítica de filme, a começar pelos títulos dos três textos: “Uma tragédia brasileira sob o foco da sobriedade”, “Perplexidade em ensaio sobre o livre-arbítrio” e “Tropa de Elite do Bem em clima de Telecurso”. Vou comentar os três textos e seus autores, respectivamente.

Carlos Alberto dá um show de gentileza e opina com a bonança do cinema brasileiro... concorda com tudo, acha o filme perfeito, digno e justo. E essa boa vontade que nos torna café-com-leite é que me deixa irritada. Se este fosse um filme americano, de Hollywood, certamente choveriam críticas do apelo ao drama, das caricaturas, de que é mais um filme blockbuster. Mas, por ser tupiniquim, a pátria amada chora e acolhe os seus, ainda que o filme continue com suas caricaturas vendendo um Brasil que o mundo entende como óbvio e real, porque é sempre a mesma mídia que fabrica as mesmas idéias. Ainda assim, vale ler o texto, muito bem escrito e elegante.

Rodrigo Fonseca toma uma atitude mais arriscada e falha. Nos traz um cabedal de informações para cult achar bonito e poder participar da mídia de massa. Pasolini de início com mais outras citações que nem os iniciantes estudantes de cinema se acostumaram a ouvir. Ainda que a analogia ao texto do poeta-cineasta seja bem sucedida, poderia ter findado aí, para o leitor usual poder partilhar das opiniões sem precisar acessar a estante cult/alternativos/cinema europeu da locadora. O texto perde a graça e fica orbitando em torno dos intelectuais que devem ter achado bastante interessantes as opiniões baseadas em obras de arte. Não diz muito na vida real, o autor fica em cima do muro e deixa o bonequinho e seus leitores sem muita vontade de ver o filme.

Janot ganhou meu coração. Não sei o que aconteceu com ele nesse dia em que resolveu escrever o texto, não o conheço, mas ganhou ainda mais a minha simpatia com as comparações esdrúxulas e originais ao utilizar 'Tropa de Elite do Bem', 'telecurso primeiro grau' e 'mãe bíblia' no texto. Conciso, exato, direto. Não facilitou pra Bruno Barreto, identificou as caricaturas ridículas e perigosas do filme, e, como não poderia deixar de ser, acabei concordando, mas não é só isso: Marcelo Janot trouxe graça, leveza, opinião contundente. Tem quase uma raiva, um sarcasmo real nas palavras. Não precisamos do rebuscamento de Rodrigo ou da complacência de Carlos Alberto.

É uma peregrinação entre as diversas formas de se fazer crítica e acho que só essas diferenças já cabem em uma aula do gênero. Tomara que alguém faça uso. E, ainda que os textos sejam curtos como resenhas (talvez alguém aí reclame que eu os chamei de críticas), vale perceber a forma como cada autor se posiciona e aborda o que mais lhe chamou atenção. Poderiam ser textos maiores, mais elaborados e com reflexões que nos fornecessem material para além da polêmica óbvia, mas, para isso teríamos que pensar em um caderno de cinema e não de cultura geral. É uma falha que persiste no cerne da mídia impressa e só temos a lamentar.

Por fim, ainda que tenhamos tantas vertentes pra polemizar a vida real que girou em torno dessa ficção, continuo achando que vale a pena ver o filme. Vamos estudar um pouco o Brasil, nossas pessoas, nossas tragédias e, mais importante nesta ocasião, nossa representação na tela. Não podemos deixar de refletir em como nos vemos, em como quem fez esse filme nos vê e se vê enquanto brasileiro e se é isso mesmo o que somos, se somos o que está disposto aí, porque é assim que nos enxergarão lá fora, que imaginarão e que farão um resumo de nós. E, para deixar os incrédulos do documentário em crise, a verdade é uma só e unânime: o documentário sobre a tragédia – Ônibus 174 – é muito melhor do que estorinha de ficção.

Filmes:
Última Parada 174
Ficção, 110 min
Diretor: Bruno Barreto
Brasil, 2008.

Ônibus 174
Documentário, 133 min
Diretor: José Padilha
Brasil, 2002.
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Estou vivendo um momento muito particular desta trajetória. Como previsto, as dificuldades pra encontrar um apartamento persistem, mantenho vivo meu posicionamento (cada vez mais) crítico sobre meus atuais conterrâneos e, por conta de algumas questões menores, minha tolerância à imbecilidade anda bastante reduzida.

Resolvi que precisava investir neste momento e descolei dois autores: Gore Vidal e Charles Bukowski. Terminei Factotum (Bukowski) há algumas semanas. O livro aconteceu num flash, a literatura corrida, sem muitos floreios e sobre o que é contemporâneo nos faz passar de uma página a outra sem perceber. É a história de Chinaski, um rapaz que vive seus vinte e poucos anos percorrendo os EUA a custa de bebidas, mulheres e cigarros. Vive e mora como dá, em vielas e apartamentos como vários que já visitei por aqui. Chinaski trabalha para o momento, para o mínimo necessário. É o fim da Segunda Guerra e ele só para pra pensar nisso quando percebe a dificuldade cada vez maior de conseguir trabalho.

O que importa nisso tudo é a forma como Bukowski constrói seu personagem. É uma pessoa ordinária, cuja vida passaria despercebida, como alguém que passa por nós ao atravessarmos a rua, é aquele que se escora no boteco e passa a noite entre um gole e outro, vendo quadris camabaleando. A identificação ainda assim acontece e é aí que está a graça: Chinaski não se importa tanto com o mundo ou com o que pensam dele. Sabe do que é capaz e até onde vai sua mediocridade e inteligência. É avesso à modéstia, essa palavra infame que torna tanta gente um pouco mais cínica.

Chinaski é a crítica à sociedade americana e seus valores falseados. É muito do que nossa sociedade vive também. É o não à guerra com a indiferença de quem não vê razão pra tanta mobilização. É a dificuldade de seguir certas normas, apenas por não acreditar nelas. E ele não as segue.

Percebi que minha intolerância não é só minha... é de Bukowski, de Gore Vidal, de Martin Page e, para a minha surpresa, de Marcelo Janot*. É desses atuas e dos que estou para conhecer e me divertir com a concordância das mesmas idéias em outras formas de expressão. Agora inicio Kalki, de Gore Vidal... vamos ver o que acontece.

Indico totalmente para quem tem momentos em que não acredita na capacidade das pessoas de serem estúpidas: Factotum, Charles Bukowski.

*Mais tarde, neste blog. :)
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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