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Café: extra-forte

Tem certos prazeres que, por serem tão banais, às vezes passam despercebidos. Desde que comprei o jogo de talheres, ainda não havia, que eu me lembre, utilizado os garfinhos de sobremesa. Como só morei até hoje em apartamentos mobiliados, não comprei muita coisa para casa: dois copos grandes, duas canecas, um jogo de talheres e uma garrafa térmica. Meu jogo de talheres é simples e pequeno, mas vem com essas peças que parecem mais garfos para crianças. Me sentindo ainda mais mulher que mora só, havia comprado ontem uma fatia de torta musse de café que me esperava na geladeira. Dentro da embalagem tinha deixado uma colherzinha de plástico, que veio junto. É que ontem não aguentei esperar e tirei um pedacinho. Deixei a colher dentro da embalagem, para o momento seguinte.

O momento chegou neste domingo de eleições. Depois de ir à esquina me livrar do compromisso, fiz um mercado básico. Nunca senti tanto prazer em morar só: fui a dois mercadinhos de bairro, comprei coisas só pra mim e almocei uma salada que fiz com base na criatividade e nas possibilidades de grana. Sentei para o outro compromisso corrente: li o jornal do dia e procurei o novo apartamento nos classificados. Selecionei alguns para visitar amanhã, enquanto outros movimentos acontecem em paralelo.

Ao tempo que resolvi esta parte, chegou o momento da torta-musse. Como tinha esquecido da colherzinha dentro da embalagem, abri a gaveta dos talheres e lá estavam eles: os garfinhos pequenos. Por mais banal que esse texto seja, o momento foi sincero. Sentei diante da tv, deixei a colherzinha de plástico de lado, assisti A Roda da Fortuna, tomei café e comi a torta. Com o tempo esfriando, criei meu próprio aconchego.

Vivemos o dia-a-dia sem pensar nas pequenas mudanças que nos acontecem. O garfinho pode ser a cereja no sorvete, um detalhe que não precisamos necessariamente, mas que fazem a diferença, como o sebo de outro dia, procurar apartamentos e trabalhos, estar só e rodeada. Ter um espaço próprio, construir a trajetória por si. Claro que, para isso, dependemos de nós mesmas para tudo: quando esqueço de comprar água, fico sem e com sede. Ou sem roupas limpas, por passar ou com a casa suja. Depender de nós mesmas é assumir tudo ao mesmo tempo, sem esquecer de fazer as unhas e ler um bom livro.
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Hoje tive mais uma tarde agradável. Fomos ao Festival do Rio assistir O Segredo, cuja crítica estará disponível amanhã por essas bandas... mas a questão nesse momento vai além: as conversas de um dia qualquer. É engraçado como deixamos passar momentos extraordinários em nossa vida cotidiana. Porque o "extraordinário" vem justamente dos momentos surpreendentes de nossos costumes ordinários... por mais óbvio que isso pareça assim, escrito, poucas vezes atentamos para os significados das palavras que falamos tanto.

Tenho convivido bastante com Daphne. Ela é uma carioca muito engraçada e inteligente que conheci no RECINE, um Festival de Cine de Arquivo que todo ano apresenta uma oficina e cada participante cria um curta-metragem a partir de imagens do Arquivo Nacional (que é, de fato, um prédio que arquiva diversas imagens, filmes, mídias do país...). No tempo de meu avô...,o curtinha, em breve estará disponível. Nos conhecemos na oficina, trocamos figurinhas e sugestões e colaboramos nos trabalhos. Com isso, e por nós duas falarmos além da conta, criamos identificação e surgiu uma amizade criativa, divertida e crítica.

Construímos idéias mirabolantes e discutimos questões universais. Eu sinto uma lufada de ar novo quando lembro das discussões clássicas que nunca chegam a conclusões diretas, mas criam ainda mais questões indissolúveis, sempre em locações sem sentido: ônibus, meio da rua, cinco minutos antes do filme começar. As discussões nunca acabam, mas são sublimadas com os pensamentos que ficam rondando nossas cabeças em busca de respostas.

Estando numa fase nerd, acabo me divertindo nesses momentos e com as grandes aulas, aquelas que nos ampliam horizontes e nossa ambição de querer saber mais e mais vira um buraco negro que passaremos a vida tentando clarear (como a surpreendente aula sobre a Lei do Audiovisual). Oportunidades surgem como fagulhas em nossos cérebros, idéias pipocam e a vontade de produzir só perde pra de conhecer e, se pensarmos que uma coisa está necessariamente atrelada à outra, um sorriso surge em nosso rosto.

E vou em um sebo enorme por caminhos do acaso numa tarde de domingo, descubro a velha infinidade de livros e possibilidades, passo horas no meio de papéis e poeira, desvendando que livros levarei, sabendo da triste certeza que jamais lerei todos ali dispostos. O prazer de uma tarde como essa abraça poucas pessoas e corações... a tranquilidade de um sebo, o desejo de ter palavras escritas e, nessa horas, de ser absorvida por todas as frases que nos motivam a ler ainda mais frases e sentimentos que escolhemos levar pra casa, fazem o caminho de volta especial e a sacola de livros, um grande tesouro.

E agora? Como faço pra me transformar em 15 ao mesmo tempo? Quero estudar, ler, aprender, trabalhar, filmas, escrever, ver filmes, discutir, fofocar, namorar, decorar, lanchar tortas ou pão de queijo com café expresso, beber vodca com aditivos diversos ou um chopp cremoso e gelado... é muito pra uma pessoa só.
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Este ano participei da Oficina de Cinema de Arquivo do RECINE, um festival de Cinema de Arquivo que acontece todo ano no Rio de Janeiro. O filme que consegui construir com as imagens cedidas pelo Arquivo Nacional conta um pouco sobre meu avô, pai de meu pai. Minha busca é a construção de sua identidade, do que ele representou e representa para mim, com a ajuda de depoimentos da família.

Para montar No tempo de meu avô..., utilizamos as imagens do Arquivo e fotografias de família. Devido ao prazo curto e às limitações de produção, o filme careceu de um trato sonoro mais apurado. A oficina do Recine acontece todo ano, com duração de 40 horas com algum documentarista experimentado. Neste ano, Eduardo Escorel.
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E quando a gente sai de um filme como esse, com uma história trágica e real e partimos para a rua, andando e vemos meninos, homens de rua deitados em pontos de ônibus? Nossa sensibilidade já ampliada nos joga para a fronteira do descaso social, do preconceito e do mais óbvio de todos os sentimentos possíveis: o medo. Não é o medo de ser assaltada, de alguém 'estranho' entrar no mesmo ônibus que o seu. É o medo da possibilidade, da casualidade transformar-se em destino de alguém.

Esta foi a trajetória possível e presente na interpretação do Última Parada 174, a ficção da história do assalto ao ônibus 174 do Rio de Janeiro de 2000. O evento, inesquecível a todos os brasileiros foi televisionado, como aconteceu ao 11 de Setembro americano, um ano depois. A tragédia brasileira foi transmitida com seus próprios tons, o que passou na televisão pareceu de fato um filme brasileiro. Se continuarmos com o paralelo, a tragédia americana é análoga: o atentado – tantas vezes encenado e provocado – parece uma superprodução de Hollywood. O que Osama e sua trupe conseguiram possivelmente jamais se repetirá. Nunca uma imagem teve tanto impacto e nunca em tempo real.

O retrato de nossa tragédia reflete o sucesso de nosso governo. Sandro é filho da pobreza, da miséria, do tráfico e da dor. Sandro é o reflexo escancarado da política de manutenção da exclusão, emblema desta nação solidária. Mas, ainda assim, Sandro é vítima, e algoz.

O ônibus 174 não existe mais. O número foi cortado como símbolo de uma história ruim. Mas, ainda que se tente esquecer, as imagens continuam rondando. O fato virou filme documentário, reportagem especial, transmissão ao vivo e agora, filme de ficção. Não satisfeitos com a re-reflexão em cima do drama real, a ficção ainda tentará o Oscar. Os jurados brasileiros o justificam pela emoção. Para mim, tragédia vende e filmes como este reforçam a visão de terra perversa e sedutora que é nosso país.

Última Parada conta a vida de Sandro, de bebê ao dia em que morreu. Do fato que lhe deu fama, fala-se pouco: não fazia sentido recriar seqüências já consolidadas em nosso imaginário. O filme, conforme esperado, carrega nas tintas. O roteiro e as encenações criam personagens que nunca vimos e que jamais saberemos se realmente eram assim. Um tom de piada percorre o enredo nos diálogos: o público carioca se dividirá entre os risos de identificação e insatisfação com a caricatura. A impressão que dá é que esses momentos servem como suspiros de alívio, suspensões na trama para o espectador respirar, como o cinema americano faz. Da fotografia e montagem não há o que dizer. São trabalhos cuja qualidade é inqüestionável e que vão construindo o ápice da história. Relembramos as cores da nova safra brasileira de filmes do gênero e a violência é agora vivida por menos personagens.

O final do filme é como assistir a Romeu e Julieta: já sabemos como termina. Ainda assim, não satisfeito com o teor trágico inevitável – como fez Babenco em Carandiru – Bruno Barreto explora os últimos segundos em planos desnecessários. Outro dado que merece atenção: os contornos da cidade maravilhosa são utilizados como símbolo místico. O Cristo Redentor abre os braços para Sandro, mas quando chega seu dia, ele está de costas. Sandro tem pressentimentos, quase premonições sobre sua vida. É esse rapaz de bom coração, transformado por sua criação, por sua situação de vida, que ainda tem visões e um lado artístico maltratado. E é esta mística que acaba com uma possível reflexão crítica direta e surge como um reforço da trágica história das vítimas e seus destinos inevitáveis.

Última Parada 174 é obrigatório para se pensar o país a partir de óticas que conhecemos muito bem. Se a percepção do fato em tempo real já foi marcante pela brutalidade da vida ao vivo na televisão, o documentário (Ônibus 174, José Padilha - 2002) buscou as primeiras razões para o fato. Descobrimos que aquela pessoa que provocou a reação em cadeia dos assassinatos é, de fato, uma pessoa, cujas estruturas sociais nunca foram fundamentadas, nunca teve direitos, nunca foi ninguém. A ficção amplia esse horizonte com o drama, dando ao espectador a empatia necessária com o protagonista, forçando uma humanização maior.

Uma questão não se pode esquecer: ainda que o personagem Sandro esteja perdido com tantos déficits sociais, não podemos, com isso, justificar seus atos. Enquanto no documentário, Padilha parte para a pergunta direta e desnecessária àqueles que estavam no ônibus: você perdoa o Sandro?, Bruno Barreto tanto perdoa, quanto abraça seu protagonista. Quem vemos entrar no ônibus é um menino perdido entre as drogas, mas não é essa a imagem que vimos no dia do sequestro. Quem vimos no ônibus era uma pessoa fora de controle, de quem teríamos medo e não para quem torceríamos. Se a intenção de Bruno Barreto é justificar crimes a partir da história de quem o cometeu, há muitos filmes ainda por fazer, basta freqüentar o sistema prisional brasileiro. Por outro lado, não se fala dos heróis do cotidiano ou da menina que perdeu a vida quando resolveu pegar o ônibus 174 pra casa. Também pobre e moradora de favela, nordestina e tentando ganhar a vida.

A grande questão que pode surgir depois de tantas aparições do menino Sandro é que não há menino, não há pessoa. Sandro é criação coletiva ficcional. O Brasil colecionou eventos de sua vida, a partir de informações com pessoas que viveram com ele. Sandro foi o responsável pelas mortes do ônibus, isso jamais sairá das mentes brasileiras. Ele deixou de ser pessoa para ser personagem da mídia e os fragmentos reencenados de sua vida nunca nos dirão como ela de fato foi.

Por mais que busquemos razões para aquela tarde carioca, sabemos que há uma cadeia de ações e inações por parte não só do protagonista desta novela, mas de todo o seu entorno. Talvez este filme pretenda, além de justificar os atos do rapaz, se desculpar mais uma vez pela morte de Geísa, principal vítima e reflexo de mais uma falha do sistema-brasil, a polícia. Que se aproveite do 174 para conhecer uma história que é parte do país, que não se pense apenas no romance ali exibido, mas no sistema ações e conseqüências possíveis. Que se pense criticamente e, por fim, que cheguemos à simples constatação de que há muitos Sandros por aí, como há muitos ônibus e Geísas. Todos os dias, nas ruas, nas grandes e pequenas cidades. Que o filme não surja para criar heróis-vítimas, mas um pensamento crítico frente à realidade.


Título original: Última Parada 174
Diretor: Bruno Barreto
País: Brasil
2008, 110 min
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Nos domingos de frio e chuva não há muito o que fazer. Por mais que tentemos, a preguiça toma conta e fica difícil pensar em atividades que exijam sair de casa ou locomover-se de forma geral. Apesar dos exageros, uma verdade permanece: a tv fechada vence a batalha e algumas vezes passamos muito tempo na mesma posição no sofá. Hoje não foi diferente, fui tomada pela preguiça dominical e os 19 graus da rua me impediram de sair de casa. Uma nova série, em que eu já tinha visto anúncios e um episódio, me chamou atenção nesta noite de frio. Além de House, Sex and the City, Seinfeld ou Friends, já consagradas e com anos de sucesso, Seis Graus de Separação surge para fazer diferença nos dramas televisivos.

A teoria é a de que duas pessoas estão ligadas por, no máximo, seis laços de amizades, como se entre eu e o George Clooney houvessem seis pessoas que se conheceriam por conexão, nos unindo, por fim. Essa é a graça dos sites de comunidades virtuais, conhecer quem nos conhece. Os criadores partiram deste princípio e criaram esta série cujas conexões vão se construindo a partir de relacionamentos de amizade, família, amor. Histórias entrelaçadas com personagens de histórias de vida distintas em encontros casuais.

A série é exibida na tv fechada e conta com atores que encontramos em outros seriados e alguns que já são familiares na grande tela, como Campbell Scott ou Jay Hernandez. A série é de 2006 e está na primeira temporada no Brasil.

Não há muito o que dizer. É uma produção sensível e, como a maioria dos seriados, descrever a trama não diz muito, quando se trata de um programa sem grandes eventos. A graça está justamente nisso: na construção de pequenas histórias que se entrelaçam, nos sentimentos que nos são permitidos a partir de nossa participação. Ao mesmo tempo, por contar com doses de drama, não parece ser um sitcom que nos permite ver e rever eternamente sem cansar. É um enredo muito mais de acompanhar seu desenvolvimento, do que assistir interminavelmente, como os já citados (à exceção de House, que passa pela mesma situação deste).

Depois de uma breve pesquisa, tive a infeliz informação de que o seriado foi cancelado ao fim da primeiríssima temporada. Certamente não atingiu o público esperado, talvez por ser uma série séria, um drama, uma situação que foge dos padrões blockbuster ou sitcom que a turma estadunidense está acostumada. Uma pena. E uma questão se levante: por que um canal passaria seriados já cancelados na televisão? Será que eles são mais baratos e servem para fechar lacunas de programação? Em todo caso, ainda vale assistir para perceber as atuações de primeira e o roteiro criativo e bem estruturado.
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Nome Próprio trata da vida de uma jovem aspirante a escritora no mundo real das grandes cidades. Camila Lopes é uma garota cuja aspiração intelectual a faz pensar que é diferente dos outros, com seu estilo moderninho, livros e bom gosto musical. Mas ela é só uma menina comum das moderninhas blogueiras. Digo isto, porque sou uma blogueira, toparia ser escritora e tenho bom gosto musical. Estou numa grande cidade e passo por algumas situações Nome Próprio. As semelhanças acabam aí. Como Máquina de Pinball, de Clarah Averbuck (um dos livros-base do filme - o outro chama-se: Cama de Gato), o filme apresenta uma trama que, em alguns momentos, deixa a desejar.

Leandra Leal é Camila, esta garota com tantas ambições quanto desejos e volúpia, mas que incoerentemente se apaixona por todos com que transa. Os envolvimentos vazios se justificam em seus textos, mas não com a pintura básica do personagem. Ou espero demais desta blogueira urbanóide, talvez uma identificação que nunca chega, à exceção da necessidade rotineira de escrever. Camila entende a palavra escrita e seus pensamentos como o mote para sua vida e, com isso, se vale de seu dia-a-dia para extrair idéias.

O filme tem soluções bacanas para a saga-blog da personagem: inserções gráficas nas paredes, textos que sempre aparecem, sons de digitação. As próprias palavras são interessantes, assim como a interpretação de Leandra Leal, já esperada que fosse de impacto. Os personagens masculinos, entretanto, ajudam a fragilizar a estrutura do filme. A impressão que dá é que faltou atenção no tratamento de seus atores. Uma dúvida pinga no ar: os personagens masculinos, nitidamente menores na trama e fracos de estrutura, são propositais para dar a ênfase no vazio das relações e intensificar a personagem feminina? Se for, é mérito, mas acredito que a dúvida reforça a segunda opção.

Nome Próprio é a estória radicalizada das meninas que moram só. Sou eu, são algumas amigas na mesma faixa etária. São situações de independência que, às vezes, transforma nossas carências intensificadas. Quando mudamos de cidade, deixamos nossos amigos em outras terras, nossa família, nossos amores, nosso forte. Recriamos nossa base em outro canto e, na maioria deste tempo temos que ser tudo simultaneamente: forte, amor, família, amigos. Às vezes a carência de tudo nos põe em riscos e temos que atentar para os possíveis deslizes. É aí que o filme torna-se real. São nas experiências vazias que, por falsas razões ou nas que queremos erroneamente acreditar, cometemos a falha de nos deixar levar. Nada contra a diversão, sou a favor da gratuidade das alegrias, dos anseios, dos desejos. Cada um faz o que quer consigo e é com essa liberdade arriscada que nos permitimos um incômodo futuro. Nem todas as experiências são desastrosas, entretanto, e são estas que nos permitem entrar nas seguintes, com a expectativa de mais momentos que guardaremos na memória e na pele.

Como Camila, as liberdades totais geram conseqüências íntimas. As transformações, tão fundamentais enquanto estamos nos tornando adultos – acho que a palavra adulto requer uma gama de experiências que ainda não tive – rompem algumas ilusões enquanto somos jovens. As drogas, os excessos, os descasos. Não é só ressaca física e moral, é o porque antes do fato. Nome Próprio funciona a partir do momento em que faz as garotas se identificarem nas situações, num espelho que ninguém quer se ver refletido. O mesmo para os rapazes, acredito, mas em menor intensidade.

O livro ainda se faz mais interessante que o filme, neste sentido. Enquanto o filme exibe uma garota cuja força sexual sublima outras características que a permitiriam tornar-se mais reconhecida por todos, em Máquina de Pinball a encontramos. A Camila do livro é uma garota que pensa, que vive outras situações que favorecem mais a identificação e a verossimilhança com seu mundo; é a situação de morar só, de morar com outros, de não ter grana, de falta de trabalho, de escrever para viver. Lembra Alta Fidelidade de Nick Hornby nos momentos musicais e outros livros de autores jovens contemporâneos. No livro, acredito que só falta o enriquecimento da trama e aprofundamento da personagem. Ficamos esperando mais da história, sua evolução, o que acontece depois. No filme, há o lapso do cuidado, a personagem parece movida por seus impulsos sexuais e, em alguns momentos, consegue tornar-se outra coisa, mas, ainda aí, intercalada com bebidas e anfetaminas. Talvez as únicas situações em que a vemos como uma menina vaidosa a que estamos mais acostumados – e que talvez esperássemos menos nestas tramas devido ao teor corrosivo em que Camila é exibida – é quando ela assume saltos altos, os adquire mesmo sem grana e ainda pinta os olhos. É quando o sorriso tímido aparece nas espectadoras da sala de cinema.

Título original: Nome Próprio
Diretor: Murilo Salles
País: Brasil
2008, 120 min

*Visite o blog.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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