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Café: extra-forte


Este ano participei da Oficina de Cinema de Arquivo do RECINE, um festival de Cinema de Arquivo que acontece todo ano no Rio de Janeiro. O filme que consegui construir com as imagens cedidas pelo Arquivo Nacional conta um pouco sobre meu avô, pai de meu pai. Minha busca é a construção de sua identidade, do que ele representou e representa para mim, com a ajuda de depoimentos da família.

Para montar No tempo de meu avô..., utilizamos as imagens do Arquivo e fotografias de família. Devido ao prazo curto e às limitações de produção, o filme careceu de um trato sonoro mais apurado. A oficina do Recine acontece todo ano, com duração de 40 horas com algum documentarista experimentado. Neste ano, Eduardo Escorel.
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E quando a gente sai de um filme como esse, com uma história trágica e real e partimos para a rua, andando e vemos meninos, homens de rua deitados em pontos de ônibus? Nossa sensibilidade já ampliada nos joga para a fronteira do descaso social, do preconceito e do mais óbvio de todos os sentimentos possíveis: o medo. Não é o medo de ser assaltada, de alguém 'estranho' entrar no mesmo ônibus que o seu. É o medo da possibilidade, da casualidade transformar-se em destino de alguém.

Esta foi a trajetória possível e presente na interpretação do Última Parada 174, a ficção da história do assalto ao ônibus 174 do Rio de Janeiro de 2000. O evento, inesquecível a todos os brasileiros foi televisionado, como aconteceu ao 11 de Setembro americano, um ano depois. A tragédia brasileira foi transmitida com seus próprios tons, o que passou na televisão pareceu de fato um filme brasileiro. Se continuarmos com o paralelo, a tragédia americana é análoga: o atentado – tantas vezes encenado e provocado – parece uma superprodução de Hollywood. O que Osama e sua trupe conseguiram possivelmente jamais se repetirá. Nunca uma imagem teve tanto impacto e nunca em tempo real.

O retrato de nossa tragédia reflete o sucesso de nosso governo. Sandro é filho da pobreza, da miséria, do tráfico e da dor. Sandro é o reflexo escancarado da política de manutenção da exclusão, emblema desta nação solidária. Mas, ainda assim, Sandro é vítima, e algoz.

O ônibus 174 não existe mais. O número foi cortado como símbolo de uma história ruim. Mas, ainda que se tente esquecer, as imagens continuam rondando. O fato virou filme documentário, reportagem especial, transmissão ao vivo e agora, filme de ficção. Não satisfeitos com a re-reflexão em cima do drama real, a ficção ainda tentará o Oscar. Os jurados brasileiros o justificam pela emoção. Para mim, tragédia vende e filmes como este reforçam a visão de terra perversa e sedutora que é nosso país.

Última Parada conta a vida de Sandro, de bebê ao dia em que morreu. Do fato que lhe deu fama, fala-se pouco: não fazia sentido recriar seqüências já consolidadas em nosso imaginário. O filme, conforme esperado, carrega nas tintas. O roteiro e as encenações criam personagens que nunca vimos e que jamais saberemos se realmente eram assim. Um tom de piada percorre o enredo nos diálogos: o público carioca se dividirá entre os risos de identificação e insatisfação com a caricatura. A impressão que dá é que esses momentos servem como suspiros de alívio, suspensões na trama para o espectador respirar, como o cinema americano faz. Da fotografia e montagem não há o que dizer. São trabalhos cuja qualidade é inqüestionável e que vão construindo o ápice da história. Relembramos as cores da nova safra brasileira de filmes do gênero e a violência é agora vivida por menos personagens.

O final do filme é como assistir a Romeu e Julieta: já sabemos como termina. Ainda assim, não satisfeito com o teor trágico inevitável – como fez Babenco em Carandiru – Bruno Barreto explora os últimos segundos em planos desnecessários. Outro dado que merece atenção: os contornos da cidade maravilhosa são utilizados como símbolo místico. O Cristo Redentor abre os braços para Sandro, mas quando chega seu dia, ele está de costas. Sandro tem pressentimentos, quase premonições sobre sua vida. É esse rapaz de bom coração, transformado por sua criação, por sua situação de vida, que ainda tem visões e um lado artístico maltratado. E é esta mística que acaba com uma possível reflexão crítica direta e surge como um reforço da trágica história das vítimas e seus destinos inevitáveis.

Última Parada 174 é obrigatório para se pensar o país a partir de óticas que conhecemos muito bem. Se a percepção do fato em tempo real já foi marcante pela brutalidade da vida ao vivo na televisão, o documentário (Ônibus 174, José Padilha - 2002) buscou as primeiras razões para o fato. Descobrimos que aquela pessoa que provocou a reação em cadeia dos assassinatos é, de fato, uma pessoa, cujas estruturas sociais nunca foram fundamentadas, nunca teve direitos, nunca foi ninguém. A ficção amplia esse horizonte com o drama, dando ao espectador a empatia necessária com o protagonista, forçando uma humanização maior.

Uma questão não se pode esquecer: ainda que o personagem Sandro esteja perdido com tantos déficits sociais, não podemos, com isso, justificar seus atos. Enquanto no documentário, Padilha parte para a pergunta direta e desnecessária àqueles que estavam no ônibus: você perdoa o Sandro?, Bruno Barreto tanto perdoa, quanto abraça seu protagonista. Quem vemos entrar no ônibus é um menino perdido entre as drogas, mas não é essa a imagem que vimos no dia do sequestro. Quem vimos no ônibus era uma pessoa fora de controle, de quem teríamos medo e não para quem torceríamos. Se a intenção de Bruno Barreto é justificar crimes a partir da história de quem o cometeu, há muitos filmes ainda por fazer, basta freqüentar o sistema prisional brasileiro. Por outro lado, não se fala dos heróis do cotidiano ou da menina que perdeu a vida quando resolveu pegar o ônibus 174 pra casa. Também pobre e moradora de favela, nordestina e tentando ganhar a vida.

A grande questão que pode surgir depois de tantas aparições do menino Sandro é que não há menino, não há pessoa. Sandro é criação coletiva ficcional. O Brasil colecionou eventos de sua vida, a partir de informações com pessoas que viveram com ele. Sandro foi o responsável pelas mortes do ônibus, isso jamais sairá das mentes brasileiras. Ele deixou de ser pessoa para ser personagem da mídia e os fragmentos reencenados de sua vida nunca nos dirão como ela de fato foi.

Por mais que busquemos razões para aquela tarde carioca, sabemos que há uma cadeia de ações e inações por parte não só do protagonista desta novela, mas de todo o seu entorno. Talvez este filme pretenda, além de justificar os atos do rapaz, se desculpar mais uma vez pela morte de Geísa, principal vítima e reflexo de mais uma falha do sistema-brasil, a polícia. Que se aproveite do 174 para conhecer uma história que é parte do país, que não se pense apenas no romance ali exibido, mas no sistema ações e conseqüências possíveis. Que se pense criticamente e, por fim, que cheguemos à simples constatação de que há muitos Sandros por aí, como há muitos ônibus e Geísas. Todos os dias, nas ruas, nas grandes e pequenas cidades. Que o filme não surja para criar heróis-vítimas, mas um pensamento crítico frente à realidade.


Título original: Última Parada 174
Diretor: Bruno Barreto
País: Brasil
2008, 110 min
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Nos domingos de frio e chuva não há muito o que fazer. Por mais que tentemos, a preguiça toma conta e fica difícil pensar em atividades que exijam sair de casa ou locomover-se de forma geral. Apesar dos exageros, uma verdade permanece: a tv fechada vence a batalha e algumas vezes passamos muito tempo na mesma posição no sofá. Hoje não foi diferente, fui tomada pela preguiça dominical e os 19 graus da rua me impediram de sair de casa. Uma nova série, em que eu já tinha visto anúncios e um episódio, me chamou atenção nesta noite de frio. Além de House, Sex and the City, Seinfeld ou Friends, já consagradas e com anos de sucesso, Seis Graus de Separação surge para fazer diferença nos dramas televisivos.

A teoria é a de que duas pessoas estão ligadas por, no máximo, seis laços de amizades, como se entre eu e o George Clooney houvessem seis pessoas que se conheceriam por conexão, nos unindo, por fim. Essa é a graça dos sites de comunidades virtuais, conhecer quem nos conhece. Os criadores partiram deste princípio e criaram esta série cujas conexões vão se construindo a partir de relacionamentos de amizade, família, amor. Histórias entrelaçadas com personagens de histórias de vida distintas em encontros casuais.

A série é exibida na tv fechada e conta com atores que encontramos em outros seriados e alguns que já são familiares na grande tela, como Campbell Scott ou Jay Hernandez. A série é de 2006 e está na primeira temporada no Brasil.

Não há muito o que dizer. É uma produção sensível e, como a maioria dos seriados, descrever a trama não diz muito, quando se trata de um programa sem grandes eventos. A graça está justamente nisso: na construção de pequenas histórias que se entrelaçam, nos sentimentos que nos são permitidos a partir de nossa participação. Ao mesmo tempo, por contar com doses de drama, não parece ser um sitcom que nos permite ver e rever eternamente sem cansar. É um enredo muito mais de acompanhar seu desenvolvimento, do que assistir interminavelmente, como os já citados (à exceção de House, que passa pela mesma situação deste).

Depois de uma breve pesquisa, tive a infeliz informação de que o seriado foi cancelado ao fim da primeiríssima temporada. Certamente não atingiu o público esperado, talvez por ser uma série séria, um drama, uma situação que foge dos padrões blockbuster ou sitcom que a turma estadunidense está acostumada. Uma pena. E uma questão se levante: por que um canal passaria seriados já cancelados na televisão? Será que eles são mais baratos e servem para fechar lacunas de programação? Em todo caso, ainda vale assistir para perceber as atuações de primeira e o roteiro criativo e bem estruturado.
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Nome Próprio trata da vida de uma jovem aspirante a escritora no mundo real das grandes cidades. Camila Lopes é uma garota cuja aspiração intelectual a faz pensar que é diferente dos outros, com seu estilo moderninho, livros e bom gosto musical. Mas ela é só uma menina comum das moderninhas blogueiras. Digo isto, porque sou uma blogueira, toparia ser escritora e tenho bom gosto musical. Estou numa grande cidade e passo por algumas situações Nome Próprio. As semelhanças acabam aí. Como Máquina de Pinball, de Clarah Averbuck (um dos livros-base do filme - o outro chama-se: Cama de Gato), o filme apresenta uma trama que, em alguns momentos, deixa a desejar.

Leandra Leal é Camila, esta garota com tantas ambições quanto desejos e volúpia, mas que incoerentemente se apaixona por todos com que transa. Os envolvimentos vazios se justificam em seus textos, mas não com a pintura básica do personagem. Ou espero demais desta blogueira urbanóide, talvez uma identificação que nunca chega, à exceção da necessidade rotineira de escrever. Camila entende a palavra escrita e seus pensamentos como o mote para sua vida e, com isso, se vale de seu dia-a-dia para extrair idéias.

O filme tem soluções bacanas para a saga-blog da personagem: inserções gráficas nas paredes, textos que sempre aparecem, sons de digitação. As próprias palavras são interessantes, assim como a interpretação de Leandra Leal, já esperada que fosse de impacto. Os personagens masculinos, entretanto, ajudam a fragilizar a estrutura do filme. A impressão que dá é que faltou atenção no tratamento de seus atores. Uma dúvida pinga no ar: os personagens masculinos, nitidamente menores na trama e fracos de estrutura, são propositais para dar a ênfase no vazio das relações e intensificar a personagem feminina? Se for, é mérito, mas acredito que a dúvida reforça a segunda opção.

Nome Próprio é a estória radicalizada das meninas que moram só. Sou eu, são algumas amigas na mesma faixa etária. São situações de independência que, às vezes, transforma nossas carências intensificadas. Quando mudamos de cidade, deixamos nossos amigos em outras terras, nossa família, nossos amores, nosso forte. Recriamos nossa base em outro canto e, na maioria deste tempo temos que ser tudo simultaneamente: forte, amor, família, amigos. Às vezes a carência de tudo nos põe em riscos e temos que atentar para os possíveis deslizes. É aí que o filme torna-se real. São nas experiências vazias que, por falsas razões ou nas que queremos erroneamente acreditar, cometemos a falha de nos deixar levar. Nada contra a diversão, sou a favor da gratuidade das alegrias, dos anseios, dos desejos. Cada um faz o que quer consigo e é com essa liberdade arriscada que nos permitimos um incômodo futuro. Nem todas as experiências são desastrosas, entretanto, e são estas que nos permitem entrar nas seguintes, com a expectativa de mais momentos que guardaremos na memória e na pele.

Como Camila, as liberdades totais geram conseqüências íntimas. As transformações, tão fundamentais enquanto estamos nos tornando adultos – acho que a palavra adulto requer uma gama de experiências que ainda não tive – rompem algumas ilusões enquanto somos jovens. As drogas, os excessos, os descasos. Não é só ressaca física e moral, é o porque antes do fato. Nome Próprio funciona a partir do momento em que faz as garotas se identificarem nas situações, num espelho que ninguém quer se ver refletido. O mesmo para os rapazes, acredito, mas em menor intensidade.

O livro ainda se faz mais interessante que o filme, neste sentido. Enquanto o filme exibe uma garota cuja força sexual sublima outras características que a permitiriam tornar-se mais reconhecida por todos, em Máquina de Pinball a encontramos. A Camila do livro é uma garota que pensa, que vive outras situações que favorecem mais a identificação e a verossimilhança com seu mundo; é a situação de morar só, de morar com outros, de não ter grana, de falta de trabalho, de escrever para viver. Lembra Alta Fidelidade de Nick Hornby nos momentos musicais e outros livros de autores jovens contemporâneos. No livro, acredito que só falta o enriquecimento da trama e aprofundamento da personagem. Ficamos esperando mais da história, sua evolução, o que acontece depois. No filme, há o lapso do cuidado, a personagem parece movida por seus impulsos sexuais e, em alguns momentos, consegue tornar-se outra coisa, mas, ainda aí, intercalada com bebidas e anfetaminas. Talvez as únicas situações em que a vemos como uma menina vaidosa a que estamos mais acostumados – e que talvez esperássemos menos nestas tramas devido ao teor corrosivo em que Camila é exibida – é quando ela assume saltos altos, os adquire mesmo sem grana e ainda pinta os olhos. É quando o sorriso tímido aparece nas espectadoras da sala de cinema.

Título original: Nome Próprio
Diretor: Murilo Salles
País: Brasil
2008, 120 min

*Visite o blog.
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José Saramago tem a característica dos escritores sensacionais de criar imagens singulares em quem o lê, a partir de suas histórias quase incoerentes. Ele faz parte da legião que cria para si mesmo o desafio de consolidar em nós uma verossimilhança e uma crença no que estamos prestes ou no processo de absorver. Já assistimos a mais uma reconstrução criativa e inteligente da vida de Jesus Cristo, vivemos o incrível dilema de um Homem Duplicado e fomos forçados a visualizar a cegueira. Por mais paradoxal que pareça, Saramago, que não é cego, descreveu uma cegueira que nos permite vê-la com uma simples ideia: é branca. A partir do momento em que compramos a história e passamos a participar da trama, construímos nosso filme. A graça de um bom romance é a consolidação de sua história de palavras desenhadas em palavras imagens. Mas... e se alguém gosta tanto do seu filme particular que resolve construí-lo concretamente para que outros participem de sua criatividade? É aí que nosso texto começa:

Fernando Meirelles adaptou O Ensaio sobre a Cegueira e trouxe suas imagens para nós na grande tela dos cinemas. O Ensaio, texto cujo esforço de nossa subjetividade vai além dos romances mais comuns, exige apuro, sensibilidade e precisão, para não cair nos excessos que transformam tramas complexas em suspenses banais.

Quando li o livro, me prendi na forma da doença. Acredito que a cegueira impõe uma criatividade diária para quem a tem. Todas as imagens devem ser desvendadas inventivamente, nada é gratuito. A audição torna-se fundamental neste processo, muito mais do que naqueles que enxergam. E sempre imaginamos a cegueira como ausência e a ausência como escuridão. A cegueira de Saramago é branca como leite, espuma e bruma. Outra característica que me fez não respirar foi a condição de desenvolvimento, o ritmo do texto. Saramago apresenta sempre uma escrita particular, onde diálogos quase se misturam e a forma do texto é como a do pensamento, ininterrupta. Uma cadeia de ações desencadeia outros fatores que complexificam uma situação já limite: uma epidemia de cegueira cujo foco da doença é inexplicável, é apenas o detalhe que transforma e transtorna uma sociedade.

O livro já me causava desejos, anseios e agonias. O desespero das mulheres era como o meu, se estivesse com elas; a dor de não ver, o despreparo que isso traz para nós em um espaço automaticamente desconhecido, os perigos da vulnerabilidade. Estar cego, neste caso, é estar entregue, despejado no mundo, sem defesas. Perceber o nosso redor entrar em colapso é perceber a própria derrota e a incapacidade de mudar o rumo. Ser mulher nesta condição é um risco óbvio.

A forma como a cegueira se dá no livro/filme é a mesma para o Os Pássaros de Hitchcock: não há explicação, simplesmente acontece. Não precisamos da explicação, o que importa é o fato e como ele se desenvolve. A cegueira é, antes de tudo, metafórica, e esta é, talvez, a maior dificuldade de explanar os sentidos dessa metáfora no filme. O filme é imagem, os sentidos da imagem nós também precisamos construir.


Não fui assistir a Ensaio sobre a Cegueira inocentemente. Acompanhei o blog do diretor e fui desvendando uma parte dos mistérios que encontraria tempos depois. Conhecer o livro aumentava ainda mais as expectativas. A trama de Saramago é repleta de ação, o que facilitava. Em oposição, a cegueira precisava ser exibida e Fernando Meirelles encontrou boas saídas. O uso do som com menos música e mais pinceladas, pingos de expressões sonoras em momentos de carência visual, são muito bem executados. O choque de estar cego de repente também foi bem sucedido.

Apesar de me incomodar com alguns atores – à exceção de Julianne Moore, Maury Chaykin, Yoshino Kimura e de Gael García Bernal – o filme soma pontos na carreira do diretor, agora internacional. O blog indicava algumas questões acerca do tom do filme; os produtores entenderam que as primeiras versões estavam fortes demais, muito carregadas e que possivelmente o público se incomodaria. Ledo engano. O filme, a meu ver, poderia carregar nas tintas, mas esta será sempre uma observação de alguém que já tinha seu próprio filme na cabeça, antes de ver o de outro diretor.

A seleção de atores com diversas nacionalidades, a fotografia e a diversidade de locações para simbolizar um espaço mundial – uma história sem cidade, mas uma história possível em qualquer nação – somada à arte desbotada, traduzem um espaço onde poucos enxergam. Aquele seria realmente o mundo onde ninguém vê? A cegueira é a anulação do ser humano para tornar-se o animal que presenciamos na trama? O que significa ver e não ver? O que deixamos de ver? Para o quê fechamos nossos olhos? Além da banalização do ser humano, sobram as necessidades, a dependência e, por conseqüência, o egoísmo. Havendo apenas uma pessoa que enxerga, a memória nos traz a brincadeira: em terra de cego quem tem olho é rei? De que serve enxergar o que ninguém vê? O que se enxerga onde ninguém vé?

A sociedade da cegueira branca entra no colapso e se expõe da forma como ninguém gostaria de ser visto. Ao estarem todos cegos, a vergonha perde espaço, o despudor ganha forma e une-se ao desrespeito, à soma de todos os poderes, à lei do mais forte. E o reflexo dos totalitarismos soa como uma lembrança plausível. E a personagem que vê? A única mulher que vê e se deixa violentar para a sobrevivência de um grupo, é a mesma que assiste a um mundo que tombou ao caos. Ao contrário uma possível situação de controle, ver é quase nada, até o suportável. Até onde é possível sustentar este silêncio? E este caos não é o que vemos diariamente? Ou é aquele que fazemos questão de fingir cegueira?

O filme, como toda imagem já realizada, sublima algumas questões. Nos prendemos à trama e deixamos o incômodo surgir sorrateiramente em nós, nos dias que passam, nos momentos seguintes ao filme, na esquina de nossa rua, na violência de guerras espalhadas. A cegueira aqui é apenas o que não queremos ver. Mas... e se formos obrigados a enxergar novamente, haverá alguma diferença?


Título original: Blindness
Diretor: Fernando Meirelles
País: Brasil, Canadá, Japão
2008, 120 min

*Veja o site depois de ver o filme.
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Estou finalizando um curta sobre meu avô. No tempo de meu avô, ficou curto de verdade, não sei se chega aos cinco minutos e é uma brincadeira com imagens do Arquivo Nacional e fotos antigas da família.

Não saiu muito como eu queria, acho que ainda falta sentimento em minha voz, nas palavras, alguma direção nesse sentido. Mas, além de não ter outra pessoa e eu dirigir minha própria atuação, estamos condenados ao uso de imagens que não escolhemos e assim fica mais difícil. Queria ter mais seqüências que retratassem o que imagino de meu avô, mas isso quase não consegui.

Acho que ficou um produto interessante, mas pretendo depois, construir um maior e mais livre. Inventei um avô que me interessa muito. Inventei uma vontade, inventei uma idéia, inventei uma vida. Mas não inventei a saudade.

É uma saudade engraçada, porque eu era criança e só sei dele criança. Minhas imagens dele são muito carregadas de silêncio e silêncio que eu via nele, como uma aura. Da varanda da casa de minha avó em Brotas (Salvador), da cadeira de balanço. E até da minha primeira casa, quando aconteciam os almoços e aniversários. Eu sempre achava que uma hora ele ia gritar com alguém. Mas nunca conseguia falar direito com ele. Eu também era uma pessoa de silêncio, pequena e criança, mas era.

As fotos que conseguimos selecionar representam a família muito bem. Ainda que sejam de um tempo muito anterior a esta fase de nossas vidas, traduz uma imagem bem sincera de como somos. Uma família simples e divertida, cheia de neuras, carinhos e piadas. Um pouco como toda família. Fotos antigas são as coisas mais bonitas que podem existir. Elas te resgatam sentimentos, momentos, pessoas, abraços. Fotos sempre renovam sentimentos. É um passado com sentimentos de presente.

A mais surpreendente de todas as coisas que vi nesses tempos é a foto dele sorrindo. E o depoimento de minha avó, Dona Lita. A foto dele sorrindo é a coisa mais fantástica do mundo. Porque não é simplesmente um sorriso, é como se ele estivesse rindo e querendo gargalhar, como se estivesse prendendo o riso e não conseguiu segurar direito, escapou um sor-riso tímido e vermelho. É linda.

O depoimento de minha avó. Tirando os problemas com o som e com minha entrevistadora agoniada demais, conseguimos grandes frases. Os sorrisos de minha avó a denunciam. Foram anos de convivência relembrados em pequenos instantes. Foi a História do Mundo e a História Deles, ainda maior, mais importante, mais bonita, é o surgimento de uma família. Foram as alegrias e as agonias... e agora ficou a saudade dela, o carinho e todas as suas lembranças. E deu pra ver. Minha avó é uma fortaleza, mas cheia de emoções... em também sorrisos, muito mais fáceis de conseguir.

O que ganho com esse projeto é meu avô, minha avó, meu pai, minha família. São recordações e revelações tão bonitas quanto surpreendentes. Acho que assim vou amenizando a saudade, retomando a vida do lado de cá e construindo novas idéias.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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