• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte



José Saramago tem a característica dos escritores sensacionais de criar imagens singulares em quem o lê, a partir de suas histórias quase incoerentes. Ele faz parte da legião que cria para si mesmo o desafio de consolidar em nós uma verossimilhança e uma crença no que estamos prestes ou no processo de absorver. Já assistimos a mais uma reconstrução criativa e inteligente da vida de Jesus Cristo, vivemos o incrível dilema de um Homem Duplicado e fomos forçados a visualizar a cegueira. Por mais paradoxal que pareça, Saramago, que não é cego, descreveu uma cegueira que nos permite vê-la com uma simples ideia: é branca. A partir do momento em que compramos a história e passamos a participar da trama, construímos nosso filme. A graça de um bom romance é a consolidação de sua história de palavras desenhadas em palavras imagens. Mas... e se alguém gosta tanto do seu filme particular que resolve construí-lo concretamente para que outros participem de sua criatividade? É aí que nosso texto começa:

Fernando Meirelles adaptou O Ensaio sobre a Cegueira e trouxe suas imagens para nós na grande tela dos cinemas. O Ensaio, texto cujo esforço de nossa subjetividade vai além dos romances mais comuns, exige apuro, sensibilidade e precisão, para não cair nos excessos que transformam tramas complexas em suspenses banais.

Quando li o livro, me prendi na forma da doença. Acredito que a cegueira impõe uma criatividade diária para quem a tem. Todas as imagens devem ser desvendadas inventivamente, nada é gratuito. A audição torna-se fundamental neste processo, muito mais do que naqueles que enxergam. E sempre imaginamos a cegueira como ausência e a ausência como escuridão. A cegueira de Saramago é branca como leite, espuma e bruma. Outra característica que me fez não respirar foi a condição de desenvolvimento, o ritmo do texto. Saramago apresenta sempre uma escrita particular, onde diálogos quase se misturam e a forma do texto é como a do pensamento, ininterrupta. Uma cadeia de ações desencadeia outros fatores que complexificam uma situação já limite: uma epidemia de cegueira cujo foco da doença é inexplicável, é apenas o detalhe que transforma e transtorna uma sociedade.

O livro já me causava desejos, anseios e agonias. O desespero das mulheres era como o meu, se estivesse com elas; a dor de não ver, o despreparo que isso traz para nós em um espaço automaticamente desconhecido, os perigos da vulnerabilidade. Estar cego, neste caso, é estar entregue, despejado no mundo, sem defesas. Perceber o nosso redor entrar em colapso é perceber a própria derrota e a incapacidade de mudar o rumo. Ser mulher nesta condição é um risco óbvio.

A forma como a cegueira se dá no livro/filme é a mesma para o Os Pássaros de Hitchcock: não há explicação, simplesmente acontece. Não precisamos da explicação, o que importa é o fato e como ele se desenvolve. A cegueira é, antes de tudo, metafórica, e esta é, talvez, a maior dificuldade de explanar os sentidos dessa metáfora no filme. O filme é imagem, os sentidos da imagem nós também precisamos construir.


Não fui assistir a Ensaio sobre a Cegueira inocentemente. Acompanhei o blog do diretor e fui desvendando uma parte dos mistérios que encontraria tempos depois. Conhecer o livro aumentava ainda mais as expectativas. A trama de Saramago é repleta de ação, o que facilitava. Em oposição, a cegueira precisava ser exibida e Fernando Meirelles encontrou boas saídas. O uso do som com menos música e mais pinceladas, pingos de expressões sonoras em momentos de carência visual, são muito bem executados. O choque de estar cego de repente também foi bem sucedido.

Apesar de me incomodar com alguns atores – à exceção de Julianne Moore, Maury Chaykin, Yoshino Kimura e de Gael García Bernal – o filme soma pontos na carreira do diretor, agora internacional. O blog indicava algumas questões acerca do tom do filme; os produtores entenderam que as primeiras versões estavam fortes demais, muito carregadas e que possivelmente o público se incomodaria. Ledo engano. O filme, a meu ver, poderia carregar nas tintas, mas esta será sempre uma observação de alguém que já tinha seu próprio filme na cabeça, antes de ver o de outro diretor.

A seleção de atores com diversas nacionalidades, a fotografia e a diversidade de locações para simbolizar um espaço mundial – uma história sem cidade, mas uma história possível em qualquer nação – somada à arte desbotada, traduzem um espaço onde poucos enxergam. Aquele seria realmente o mundo onde ninguém vê? A cegueira é a anulação do ser humano para tornar-se o animal que presenciamos na trama? O que significa ver e não ver? O que deixamos de ver? Para o quê fechamos nossos olhos? Além da banalização do ser humano, sobram as necessidades, a dependência e, por conseqüência, o egoísmo. Havendo apenas uma pessoa que enxerga, a memória nos traz a brincadeira: em terra de cego quem tem olho é rei? De que serve enxergar o que ninguém vê? O que se enxerga onde ninguém vé?

A sociedade da cegueira branca entra no colapso e se expõe da forma como ninguém gostaria de ser visto. Ao estarem todos cegos, a vergonha perde espaço, o despudor ganha forma e une-se ao desrespeito, à soma de todos os poderes, à lei do mais forte. E o reflexo dos totalitarismos soa como uma lembrança plausível. E a personagem que vê? A única mulher que vê e se deixa violentar para a sobrevivência de um grupo, é a mesma que assiste a um mundo que tombou ao caos. Ao contrário uma possível situação de controle, ver é quase nada, até o suportável. Até onde é possível sustentar este silêncio? E este caos não é o que vemos diariamente? Ou é aquele que fazemos questão de fingir cegueira?

O filme, como toda imagem já realizada, sublima algumas questões. Nos prendemos à trama e deixamos o incômodo surgir sorrateiramente em nós, nos dias que passam, nos momentos seguintes ao filme, na esquina de nossa rua, na violência de guerras espalhadas. A cegueira aqui é apenas o que não queremos ver. Mas... e se formos obrigados a enxergar novamente, haverá alguma diferença?


Título original: Blindness
Diretor: Fernando Meirelles
País: Brasil, Canadá, Japão
2008, 120 min

*Veja o site depois de ver o filme.
Share
Tweet
Pin
Share
2 Comentários

Estou finalizando um curta sobre meu avô. No tempo de meu avô, ficou curto de verdade, não sei se chega aos cinco minutos e é uma brincadeira com imagens do Arquivo Nacional e fotos antigas da família.

Não saiu muito como eu queria, acho que ainda falta sentimento em minha voz, nas palavras, alguma direção nesse sentido. Mas, além de não ter outra pessoa e eu dirigir minha própria atuação, estamos condenados ao uso de imagens que não escolhemos e assim fica mais difícil. Queria ter mais seqüências que retratassem o que imagino de meu avô, mas isso quase não consegui.

Acho que ficou um produto interessante, mas pretendo depois, construir um maior e mais livre. Inventei um avô que me interessa muito. Inventei uma vontade, inventei uma idéia, inventei uma vida. Mas não inventei a saudade.

É uma saudade engraçada, porque eu era criança e só sei dele criança. Minhas imagens dele são muito carregadas de silêncio e silêncio que eu via nele, como uma aura. Da varanda da casa de minha avó em Brotas (Salvador), da cadeira de balanço. E até da minha primeira casa, quando aconteciam os almoços e aniversários. Eu sempre achava que uma hora ele ia gritar com alguém. Mas nunca conseguia falar direito com ele. Eu também era uma pessoa de silêncio, pequena e criança, mas era.

As fotos que conseguimos selecionar representam a família muito bem. Ainda que sejam de um tempo muito anterior a esta fase de nossas vidas, traduz uma imagem bem sincera de como somos. Uma família simples e divertida, cheia de neuras, carinhos e piadas. Um pouco como toda família. Fotos antigas são as coisas mais bonitas que podem existir. Elas te resgatam sentimentos, momentos, pessoas, abraços. Fotos sempre renovam sentimentos. É um passado com sentimentos de presente.

A mais surpreendente de todas as coisas que vi nesses tempos é a foto dele sorrindo. E o depoimento de minha avó, Dona Lita. A foto dele sorrindo é a coisa mais fantástica do mundo. Porque não é simplesmente um sorriso, é como se ele estivesse rindo e querendo gargalhar, como se estivesse prendendo o riso e não conseguiu segurar direito, escapou um sor-riso tímido e vermelho. É linda.

O depoimento de minha avó. Tirando os problemas com o som e com minha entrevistadora agoniada demais, conseguimos grandes frases. Os sorrisos de minha avó a denunciam. Foram anos de convivência relembrados em pequenos instantes. Foi a História do Mundo e a História Deles, ainda maior, mais importante, mais bonita, é o surgimento de uma família. Foram as alegrias e as agonias... e agora ficou a saudade dela, o carinho e todas as suas lembranças. E deu pra ver. Minha avó é uma fortaleza, mas cheia de emoções... em também sorrisos, muito mais fáceis de conseguir.

O que ganho com esse projeto é meu avô, minha avó, meu pai, minha família. São recordações e revelações tão bonitas quanto surpreendentes. Acho que assim vou amenizando a saudade, retomando a vida do lado de cá e construindo novas idéias.
Share
Tweet
Pin
Share
5 Comentários
Tenham paciência... um dia terei a versão final desse layout.
:)
Share
Tweet
Pin
Share
9 Comentários
E cada passada de mão era só mais uma mão que passava por meu corpo. Só mais uma mão. Enquanto os desejos vinham como ondas fortes e eu me ancorava nas pedras, pensava que não era a mão que tinha que estar ali. E meu desejo esvanecia e parecia uma nuvem cinza. E eu voltava a acordar e sentir o pesadelo vivo daquele momento.

Enquanto ele dormia ao meu lado, eu me perguntava porque aquilo tudo acontecia. Me permiti deixar levar por um desconhecido para um caminho escuro que só eu tinha a chave, mas permiti também que ela sumisse por uns momentos. A menina que abriga esta mente perigosa estava mais acordada do que nunca. Desamparada, ela queria o telefone que nunca tocava. Só uma chamada e seria salva.

O telefone jamais tocou. Passou a noite em claro, tentando organizar os pensamentos e minimizar os danos. Ela percebeu, entretanto, que não poderia se enganar. Achou que, com toda a inteligência que ainda acredita ter, se deixou emburrecer por uns tempos e virou uma adolescente novamente. Ou seria aquele o momento em que estava deixando de ser? Sempre se chamando de menina, independente de toda a maturidade que aparenta, gostou do momento em que mais uma vez conseguiu se sentir sozinha.

Saí da cama. Não conseguia dormir e quando fechava os olhos, os pensamentos voavam ainda mais rápido. Lembranças da noite. Todo o desenrolar e a certeza de que dominaria tudo, mesmo quando se deixou levar pela saudade de outros beijos, beijando novamente. Mas não era novamente. O ato de beijar não queria dizer muito, eram bocas coladas, entrelaçadas as línguas, mas sem muito estímulo. Era a pessoa que faltava, mais presente do que nunca.

Na janela da sala ela pensava. Com um copo de água na mão, matava a ressaca de várias noites em uma só. Um silêncio no amanhecer e um sorriso de canto de boca. A independência é um amanhecer silencioso perto da praia.

Eu estava finalmente feliz de novo. O dia chegava, a noite acabava levando a desilusão embora. Talvez eu tenha perdido o que seria um amigo. Talvez, e muito mais provável, ele não seja nada e nunca queira ser nada e este era só mais um ideal romântico. Não sei se o que sinto agora é a perda da inocência, acho que ainda não.

Os pensamentos dela continuam a se contradizer. Ela faz análise dela mesma e agora tem onde gastar o tempo: as atividades intelectuais estão tomando corpo e finalmente consegue produzir. O tempo me distrai e me concentro no que seria um estudo prático, uma experiência profissional. Algumas noites ainda pesam.

O que mais machuca nisso tudo é o vazio, na verdade. Não importa a noite errada. Ainda que não tenha sido tão ruim, não foi boa e eu intimamente já esperava por isso. O que incomoda é essa realidade das relações sem sentido, sem motivo. Ainda conservo a inocência em mim, se ela for o cuidado e a necessidade de conhecer e gostar. Esta ilusão é necessária.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários
Quando entramos numa turma, num novo grupo de pessoas, buscamos logo a identificação com alguns. Um olhar que sintonize com o seu, uma frase solta, um sorriso de concordância ou até a brutal discordância em algum momento. E uma aula de quatro horas torna-se possível.

Mas o que pensar quando perdemos esse detalhe? Quando confundimos ou deixamos confundir toda essa troca de carinho com um algo mais que na verdade não existe? A ilusão se quebra e a rotina das aulas volta a ter seu peso.

Dois pesos, duas medidas. O fato não importa, o que vale é a reação. Ao que minhas expectativas se transformam em conseqüências inesperadas, só resta o dia seguinte ao encontro: o próximo e agora, inevitável, segundo encontro.

A desilusão, quando as luzes do cinema se acendem e temos que sair daquele aconchego para a dureza da luz do dia ou a secura fluorescente e branca, nada mais somos capazes de ver como antes: o olhar tornou-se mais um, o sorriso perdeu o sentido e as piadas, a graça.

As aulas tornaram-se aulas novamente e talvez até mais produtivas. Agora busco outra identificação. Muito mais cuidado com a dose do carinho poque todos podemos confundir as situações e não se erra tantas vezes, simplesmente não é possível. Vamos levar a vida a sério como adultos que um dia devemos nos tornar. Será?
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários

... depois de um dia de sol e maresia, me peguei ouvindo as músicas. Domingo ordinário com outros tons.

I

If you didn't care what happened to me,
And I didn't care for you,
We would zig zag our way through the boredom and pain,
Occasionally glancing up through the rain,
Wondering which of the buggers to blame
And watching for pigs on the wing.

II

You know that I care what happens to you,
And I know that you care for me too,
So I don't feel alone,
Or the weight of the stone,
Now that I've found somewhere safe
To bury my bone.
And any fool knows a dog needs a home,
A shelter from pigs on the wing.

Pigs on the Wing (I e II)
Pink Floyd.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
    Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
  • Spotlight
    Spotlight
  • Livro da Semana - Física em seis lições
    Livro da Semana - Física em seis lições
  • Amy
    Amy

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose