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Café: extra-forte

E cada passada de mão era só mais uma mão que passava por meu corpo. Só mais uma mão. Enquanto os desejos vinham como ondas fortes e eu me ancorava nas pedras, pensava que não era a mão que tinha que estar ali. E meu desejo esvanecia e parecia uma nuvem cinza. E eu voltava a acordar e sentir o pesadelo vivo daquele momento.

Enquanto ele dormia ao meu lado, eu me perguntava porque aquilo tudo acontecia. Me permiti deixar levar por um desconhecido para um caminho escuro que só eu tinha a chave, mas permiti também que ela sumisse por uns momentos. A menina que abriga esta mente perigosa estava mais acordada do que nunca. Desamparada, ela queria o telefone que nunca tocava. Só uma chamada e seria salva.

O telefone jamais tocou. Passou a noite em claro, tentando organizar os pensamentos e minimizar os danos. Ela percebeu, entretanto, que não poderia se enganar. Achou que, com toda a inteligência que ainda acredita ter, se deixou emburrecer por uns tempos e virou uma adolescente novamente. Ou seria aquele o momento em que estava deixando de ser? Sempre se chamando de menina, independente de toda a maturidade que aparenta, gostou do momento em que mais uma vez conseguiu se sentir sozinha.

Saí da cama. Não conseguia dormir e quando fechava os olhos, os pensamentos voavam ainda mais rápido. Lembranças da noite. Todo o desenrolar e a certeza de que dominaria tudo, mesmo quando se deixou levar pela saudade de outros beijos, beijando novamente. Mas não era novamente. O ato de beijar não queria dizer muito, eram bocas coladas, entrelaçadas as línguas, mas sem muito estímulo. Era a pessoa que faltava, mais presente do que nunca.

Na janela da sala ela pensava. Com um copo de água na mão, matava a ressaca de várias noites em uma só. Um silêncio no amanhecer e um sorriso de canto de boca. A independência é um amanhecer silencioso perto da praia.

Eu estava finalmente feliz de novo. O dia chegava, a noite acabava levando a desilusão embora. Talvez eu tenha perdido o que seria um amigo. Talvez, e muito mais provável, ele não seja nada e nunca queira ser nada e este era só mais um ideal romântico. Não sei se o que sinto agora é a perda da inocência, acho que ainda não.

Os pensamentos dela continuam a se contradizer. Ela faz análise dela mesma e agora tem onde gastar o tempo: as atividades intelectuais estão tomando corpo e finalmente consegue produzir. O tempo me distrai e me concentro no que seria um estudo prático, uma experiência profissional. Algumas noites ainda pesam.

O que mais machuca nisso tudo é o vazio, na verdade. Não importa a noite errada. Ainda que não tenha sido tão ruim, não foi boa e eu intimamente já esperava por isso. O que incomoda é essa realidade das relações sem sentido, sem motivo. Ainda conservo a inocência em mim, se ela for o cuidado e a necessidade de conhecer e gostar. Esta ilusão é necessária.
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Quando entramos numa turma, num novo grupo de pessoas, buscamos logo a identificação com alguns. Um olhar que sintonize com o seu, uma frase solta, um sorriso de concordância ou até a brutal discordância em algum momento. E uma aula de quatro horas torna-se possível.

Mas o que pensar quando perdemos esse detalhe? Quando confundimos ou deixamos confundir toda essa troca de carinho com um algo mais que na verdade não existe? A ilusão se quebra e a rotina das aulas volta a ter seu peso.

Dois pesos, duas medidas. O fato não importa, o que vale é a reação. Ao que minhas expectativas se transformam em conseqüências inesperadas, só resta o dia seguinte ao encontro: o próximo e agora, inevitável, segundo encontro.

A desilusão, quando as luzes do cinema se acendem e temos que sair daquele aconchego para a dureza da luz do dia ou a secura fluorescente e branca, nada mais somos capazes de ver como antes: o olhar tornou-se mais um, o sorriso perdeu o sentido e as piadas, a graça.

As aulas tornaram-se aulas novamente e talvez até mais produtivas. Agora busco outra identificação. Muito mais cuidado com a dose do carinho poque todos podemos confundir as situações e não se erra tantas vezes, simplesmente não é possível. Vamos levar a vida a sério como adultos que um dia devemos nos tornar. Será?
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... depois de um dia de sol e maresia, me peguei ouvindo as músicas. Domingo ordinário com outros tons.

I

If you didn't care what happened to me,
And I didn't care for you,
We would zig zag our way through the boredom and pain,
Occasionally glancing up through the rain,
Wondering which of the buggers to blame
And watching for pigs on the wing.

II

You know that I care what happens to you,
And I know that you care for me too,
So I don't feel alone,
Or the weight of the stone,
Now that I've found somewhere safe
To bury my bone.
And any fool knows a dog needs a home,
A shelter from pigs on the wing.

Pigs on the Wing (I e II)
Pink Floyd.
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O que parece mais um novo filme nos espanta com a nitidez da realidade. As fotos publicadas da mais nova guerra mundial nos transportam para a emoção da dor com tamanha qualidade estética que mais parece um ensaio fotográfico revolucionário. Mais uma vez, a vida real vence para as superproduções da sétima arte.

Os soldados, os civis, as paisagens incríveis e o contingente populacional envolvido surpreende. Os fotógrafos merecem o prêmio da estética, ainda que a ética permaneça em xeque. Eu gosto muito das fotos, as acho belíssimas e as cores são tão fundamentais como os sentimentos diversos expressos em cada imagem. É surpreendente o que o pessoal de comunicação aprende com esse tipo de reportagem. Guerras não faltaram como escolas.

Falar em guerra... eu fico me perguntando qual a razão disso tudo. Eu não sou estúpida e as razões para as guerras eu até sei, mas é que parece tão antiquado. É uma forma tão arcaica de humilhar o outro, de provocar o pior intencionalmente – porque não é já simplesmente o mal – é causar tanta dor e tanta dor já conhecida por todos.

Até o tema já perdeu a graça. E ficamos vendo a miséria de camarote... a mesma e diferente da que temos em nossas esquinas todos os dias. E aposto que ainda tem gente dando graças a Deus por não estar na Geórgia, Afeganistão, Rússia, Iraque, Israel, Palestina, Tibet, China, África(s) e mais um sem fim de nações em permanente conflito. Nossa rotina é nossa guerra particular.
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Acabei de ser transportada. Fui levada a um mundo onde a serenidade acontece em harmonia com a paixão. O equilíbrio dos homens é visto quando percebemos seu contato íntimo com a natureza, de afinidades, sem receio. É uma música que soa diferente em nossos ouvidos, uma tradição distinta e limpa, cores sutis, ainda que o clima seja o mesmo quente e úmido que conhecemos.

Vi um filme rodado no Vietnã. Mais uma vez, o sentimento do filme me levou a sair de minha cama, de debaixo das cobertas e ser uma das personagens. Ou querer ser. Vemos uma vida se descortinar sob nossos olhos... uma criada, criada desde pequena em uma casa de família, ao tornar-se adulta é obrigada a sair por falta de condições financeiras da casa. Ela passa a trabalhar para um amigo da família, mantendo o mesmo círculo social, a mesma situação. E há um misto de passividade e leveza, onde os valores são outros, as ambições não se percebem tanto e vemos o comportamento minimalista e sereno de outra cultura.

Não que o Vietnã seja tranqüilo e pacato, mas isso pouco importa neste momento. O Cheiro do Papaia Verde nos domina pelo olhar, pelo gosto que quase sentimos e odor que queremos tanto participar. Não há muito barulho e até a desarmonia, se é que podemos tratar as dores assim, é flagrada nas expressões de pessoas de rosto simples e bonito.

Sim, é um filme de pequenas grandes ações. Os corações desavisados podem sofrer de amor ou desilusão nesse filme. Os longos planos-seqüência nos ajudam a entrar no clima, se deixando valer por entre-salas e janelas ornamentadas. Os movimentos de câmera vão construindo nosso caminho no andar dos personagens nos ambientes das casas filmadas.

É um filme do silêncio da natureza, ainda muito mais forte aqui do que no levemente urbano Luzes de um Verão, do mesmo diretor. Também a atriz principal é a mesma, como concorda mais uma vez com o poder reflexivo do primeiro filme. Luzes de um Verão é o amor de uma família impregnando-se em nós como a música do Lou Reed que suavemente nos contamina não conseguimos tirar da cabeça.

O Cheiro do Papaia Verde traz a doçura da infância que não foi perdida pelo meio. A inocência se esvai como uma música que acaba, mas as cores ficam, junto com o barulho dos grilos e sapos. Para quem se interessa por um mundo diferente, estes dois filmes são fundamentais. É uma pena que já os vi.

Em mim, ficou a experiência do reencontro com o cineasta, com seu estilo e seus tempos. Em mim, ficou a vontade de ser um pouco daquilo como já acho que sou em meus momentos, e o receio de estar perdendo isso aos poucos vai se esvaindo cada vez que me deparo com uma parte da minha natureza nestas carinhosas obras de arte.

O Cheiro do Papaia Verde (1993) - 104 min.
Cyclo (1996) - 123 min.
Luzes de um Verão (2000) - 112min.
Dir.: Anh Hung Tran
Vietnã.
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Estou vivendo sob um grande risco. Estou construindo meu avô através da minha memória e dos meus familiares. Ele morreu quando eu tinha 12 anos, mas a pouca convivência e nosso jeito de ser não permitiram que fôssemos mais próximos.

Acho que eu tinha receio de meu avô. Como ele sempre foi muito calado, achava que um dia ele ia falar alto e sério com alguém... ele ria pouco... tão pouco que não me lembro. Estou recolhendo fotografias dele de todos os tempos que posso e estou observando a vida de outra pessoa em momentos que eu nem mesmo vivi. É um pouco como a praia que fui hoje. Levei a máquina a tiracolo na intenção de encontrar alguma coisa interessante pra ver, como sempre tem. Observei a vida dos outros e fotografei algumas pessoas... vim pra cá e fico com as pessoas olhando a vida e nunca sei o que elas pensam.

Nas fotografias, acabo vendo mais meu avô do que pelo relato de meus parentes. É que a foto registrou um momento que hoje não passa por interpretações e rasgos das memórias. A fotografia não vem com explicação de personalidade; vemos a imagem, as expressões e o momento. Nada mais.

E nesses momentos vem sempre a nostalgia e o sentimento de estar conhecendo mais, a vontade de ter convivido mais, sabido mais, conversado mais, mesmo sendo pequena. E a imagem que eu tinha antes, a idéia deste avô vai se completanto com novas versões, personagens e características de atitudes que vamos ganhando ao ouvir os outros.

Cada um carrega consigo esse conjunto de idéias sobre as pessoas e ao somá-las conseguimos um padrão razoável, mas jamais um perfil fiel. Agora com as novas histórias sobre esse fantástico personagem, percebo que temos muito mais em comum do que minha infância previa, mas esse é também o grande risco: criar a nova imagem como uma ilusão da vida de alguém que já se foi e que não temos como verificar. E os desejos de pertencimento que construimos podem não corresponder à realidade, caso ele estivesse vivo. Jamais saberei.

Sei que ele era quieto, observador, estudioso, inteligente e sorridente em algumas fotos. Mas sempre parecia à parte, como se estivesse esperando por alguma coisa que nunca acontecia. Mas, ainda estou pesquisando, observando, escrevendo e esperando, para também aprender mais.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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