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Café: extra-forte

Quando entramos numa turma, num novo grupo de pessoas, buscamos logo a identificação com alguns. Um olhar que sintonize com o seu, uma frase solta, um sorriso de concordância ou até a brutal discordância em algum momento. E uma aula de quatro horas torna-se possível.

Mas o que pensar quando perdemos esse detalhe? Quando confundimos ou deixamos confundir toda essa troca de carinho com um algo mais que na verdade não existe? A ilusão se quebra e a rotina das aulas volta a ter seu peso.

Dois pesos, duas medidas. O fato não importa, o que vale é a reação. Ao que minhas expectativas se transformam em conseqüências inesperadas, só resta o dia seguinte ao encontro: o próximo e agora, inevitável, segundo encontro.

A desilusão, quando as luzes do cinema se acendem e temos que sair daquele aconchego para a dureza da luz do dia ou a secura fluorescente e branca, nada mais somos capazes de ver como antes: o olhar tornou-se mais um, o sorriso perdeu o sentido e as piadas, a graça.

As aulas tornaram-se aulas novamente e talvez até mais produtivas. Agora busco outra identificação. Muito mais cuidado com a dose do carinho poque todos podemos confundir as situações e não se erra tantas vezes, simplesmente não é possível. Vamos levar a vida a sério como adultos que um dia devemos nos tornar. Será?
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... depois de um dia de sol e maresia, me peguei ouvindo as músicas. Domingo ordinário com outros tons.

I

If you didn't care what happened to me,
And I didn't care for you,
We would zig zag our way through the boredom and pain,
Occasionally glancing up through the rain,
Wondering which of the buggers to blame
And watching for pigs on the wing.

II

You know that I care what happens to you,
And I know that you care for me too,
So I don't feel alone,
Or the weight of the stone,
Now that I've found somewhere safe
To bury my bone.
And any fool knows a dog needs a home,
A shelter from pigs on the wing.

Pigs on the Wing (I e II)
Pink Floyd.
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O que parece mais um novo filme nos espanta com a nitidez da realidade. As fotos publicadas da mais nova guerra mundial nos transportam para a emoção da dor com tamanha qualidade estética que mais parece um ensaio fotográfico revolucionário. Mais uma vez, a vida real vence para as superproduções da sétima arte.

Os soldados, os civis, as paisagens incríveis e o contingente populacional envolvido surpreende. Os fotógrafos merecem o prêmio da estética, ainda que a ética permaneça em xeque. Eu gosto muito das fotos, as acho belíssimas e as cores são tão fundamentais como os sentimentos diversos expressos em cada imagem. É surpreendente o que o pessoal de comunicação aprende com esse tipo de reportagem. Guerras não faltaram como escolas.

Falar em guerra... eu fico me perguntando qual a razão disso tudo. Eu não sou estúpida e as razões para as guerras eu até sei, mas é que parece tão antiquado. É uma forma tão arcaica de humilhar o outro, de provocar o pior intencionalmente – porque não é já simplesmente o mal – é causar tanta dor e tanta dor já conhecida por todos.

Até o tema já perdeu a graça. E ficamos vendo a miséria de camarote... a mesma e diferente da que temos em nossas esquinas todos os dias. E aposto que ainda tem gente dando graças a Deus por não estar na Geórgia, Afeganistão, Rússia, Iraque, Israel, Palestina, Tibet, China, África(s) e mais um sem fim de nações em permanente conflito. Nossa rotina é nossa guerra particular.
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Acabei de ser transportada. Fui levada a um mundo onde a serenidade acontece em harmonia com a paixão. O equilíbrio dos homens é visto quando percebemos seu contato íntimo com a natureza, de afinidades, sem receio. É uma música que soa diferente em nossos ouvidos, uma tradição distinta e limpa, cores sutis, ainda que o clima seja o mesmo quente e úmido que conhecemos.

Vi um filme rodado no Vietnã. Mais uma vez, o sentimento do filme me levou a sair de minha cama, de debaixo das cobertas e ser uma das personagens. Ou querer ser. Vemos uma vida se descortinar sob nossos olhos... uma criada, criada desde pequena em uma casa de família, ao tornar-se adulta é obrigada a sair por falta de condições financeiras da casa. Ela passa a trabalhar para um amigo da família, mantendo o mesmo círculo social, a mesma situação. E há um misto de passividade e leveza, onde os valores são outros, as ambições não se percebem tanto e vemos o comportamento minimalista e sereno de outra cultura.

Não que o Vietnã seja tranqüilo e pacato, mas isso pouco importa neste momento. O Cheiro do Papaia Verde nos domina pelo olhar, pelo gosto que quase sentimos e odor que queremos tanto participar. Não há muito barulho e até a desarmonia, se é que podemos tratar as dores assim, é flagrada nas expressões de pessoas de rosto simples e bonito.

Sim, é um filme de pequenas grandes ações. Os corações desavisados podem sofrer de amor ou desilusão nesse filme. Os longos planos-seqüência nos ajudam a entrar no clima, se deixando valer por entre-salas e janelas ornamentadas. Os movimentos de câmera vão construindo nosso caminho no andar dos personagens nos ambientes das casas filmadas.

É um filme do silêncio da natureza, ainda muito mais forte aqui do que no levemente urbano Luzes de um Verão, do mesmo diretor. Também a atriz principal é a mesma, como concorda mais uma vez com o poder reflexivo do primeiro filme. Luzes de um Verão é o amor de uma família impregnando-se em nós como a música do Lou Reed que suavemente nos contamina não conseguimos tirar da cabeça.

O Cheiro do Papaia Verde traz a doçura da infância que não foi perdida pelo meio. A inocência se esvai como uma música que acaba, mas as cores ficam, junto com o barulho dos grilos e sapos. Para quem se interessa por um mundo diferente, estes dois filmes são fundamentais. É uma pena que já os vi.

Em mim, ficou a experiência do reencontro com o cineasta, com seu estilo e seus tempos. Em mim, ficou a vontade de ser um pouco daquilo como já acho que sou em meus momentos, e o receio de estar perdendo isso aos poucos vai se esvaindo cada vez que me deparo com uma parte da minha natureza nestas carinhosas obras de arte.

O Cheiro do Papaia Verde (1993) - 104 min.
Cyclo (1996) - 123 min.
Luzes de um Verão (2000) - 112min.
Dir.: Anh Hung Tran
Vietnã.
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Estou vivendo sob um grande risco. Estou construindo meu avô através da minha memória e dos meus familiares. Ele morreu quando eu tinha 12 anos, mas a pouca convivência e nosso jeito de ser não permitiram que fôssemos mais próximos.

Acho que eu tinha receio de meu avô. Como ele sempre foi muito calado, achava que um dia ele ia falar alto e sério com alguém... ele ria pouco... tão pouco que não me lembro. Estou recolhendo fotografias dele de todos os tempos que posso e estou observando a vida de outra pessoa em momentos que eu nem mesmo vivi. É um pouco como a praia que fui hoje. Levei a máquina a tiracolo na intenção de encontrar alguma coisa interessante pra ver, como sempre tem. Observei a vida dos outros e fotografei algumas pessoas... vim pra cá e fico com as pessoas olhando a vida e nunca sei o que elas pensam.

Nas fotografias, acabo vendo mais meu avô do que pelo relato de meus parentes. É que a foto registrou um momento que hoje não passa por interpretações e rasgos das memórias. A fotografia não vem com explicação de personalidade; vemos a imagem, as expressões e o momento. Nada mais.

E nesses momentos vem sempre a nostalgia e o sentimento de estar conhecendo mais, a vontade de ter convivido mais, sabido mais, conversado mais, mesmo sendo pequena. E a imagem que eu tinha antes, a idéia deste avô vai se completanto com novas versões, personagens e características de atitudes que vamos ganhando ao ouvir os outros.

Cada um carrega consigo esse conjunto de idéias sobre as pessoas e ao somá-las conseguimos um padrão razoável, mas jamais um perfil fiel. Agora com as novas histórias sobre esse fantástico personagem, percebo que temos muito mais em comum do que minha infância previa, mas esse é também o grande risco: criar a nova imagem como uma ilusão da vida de alguém que já se foi e que não temos como verificar. E os desejos de pertencimento que construimos podem não corresponder à realidade, caso ele estivesse vivo. Jamais saberei.

Sei que ele era quieto, observador, estudioso, inteligente e sorridente em algumas fotos. Mas sempre parecia à parte, como se estivesse esperando por alguma coisa que nunca acontecia. Mas, ainda estou pesquisando, observando, escrevendo e esperando, para também aprender mais.
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Hoje fez frio novamente. Foi bom, porque quando faz frio ficamos em casa, fazendo o que há de melhor num domingo: se esbaldar no excesso da preguiça.

É muito diferente fazer isso quando moramos só. Não tem o barulho do domingo coletivo, como era lá em casa, em que tinha a televisão do quarto de meus pais, a televisão da sala, os barulhos de cozinha, a falação no meio do filme. O telefone sempre tocando. Aqui, o barulho é meu e da rua. No meu domingo tem feira no começo da rua; tem menos carros e ônibus. Tem barulho de gente passeando, ainda que faça frio. Tem os meus barulhos, da cozinha, do teclado do notebook, da televisão. Não tem gente falando.

Hoje passei esse domingo todo em casa. Até me deu uma vontade de sair pra passear e de talvez encontrar algumas pessoas... mas logo desisti. O tempo friozinho só me deu vontade de fazer uma coisa de verdade: tirar fotos. Estou investigando minha vida nesses tempos e dentro dela descobri um desejo incontrolável de mexer com fotografia, de trabalhar, de aprender, de viver assim.

E existiu a joaninha. Ela surgiu na minha janela, enquanto eu olhava a rua e tirava fotos das amendoeiras. Achei as amendoeiras fantásticas na mudança de suas cores, as folhas caindo no asfalto. Deu um outro ar à cidade. Pensei como deveria estar bonito o Jardim Botânico que ainda não conheço. Fiquei da janela, com aquelas surradas calças de pano folgadas, uma blusa branca, óculos e a câmera digital automática sem lentes legais. Mas eu precisava fazer alguma coisa.

Como não consegui sair de casa, fiquei na janela, atenta ao barulho das folhas cortado com o pouco trânsito. Vi uns velhinhos amigos. Aqui é muito bonito nesse sentido. Na minha família somos muito fechados em nós mesmos. Eu insisto nas amizades de meus mais velhos, que se visitem, que se curtam. Aqui os velhinhos se visitam a todo instante, passeiam juntos, vivem jogando dominó ou dama ou alguma coisa, porque sempre estou passando e os vejo em umas mesinhas, mas não dá pra saber que jogo é. E eles vão à praia, vão caminhar e uma vez até os vi, corajosamente no mar, muito cedo da manhã. A água é fria e eu fico me tremendo ao meio-dia de sol quando decido mergulhar.

A joaninha apareceu na minha janela. No parapeito, onde eu me esgueirava para descobrir meu melhor ângulo preguiçoso para ver a rua, o mar, as amendoeiras coloridas, as pessoas passeando. Fiquei tentada em fotografar a joaninha, que me percebeu de imediato. Invadi a joaninha, aproximando cada vez mais a câmera, ao passo que ela cada vez mais se assustava e virava de costas para mim. Acho que ela esperava que eu a destroçasse, como deve ter visto acontecer, mas eu estava muito encantada e só queria conseguir tirar sua foto. As joaninhas são muito pequenas, redondas e vermelhas. Para minha inexperiência se comprovar, esqueci de pôr a câmera no manual e ficava insistindo em focá-la no automático, mas a lente apenas queria encontrar o foco a uma distância maior, na rua, nas folhas. Eu tentei até a joaninha ir embora.

A joaninha cansou. Eu tirei as fotos, mas só consegui ficar sem foco, como uma pequena mancha no parapeito branco e as folhas verdes lá atrás, lindas e quase nítidas. Perdi dessa vez. Acho que isso tudo significa que eu preciso estudar. Estudar mais e muito. Ainda vou ter minha câmera fotográfica analógica, manual, com algumas lentes. Vocês vão ver.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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