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Café: extra-forte


Este filme prova que os críticos são fundamentais ao cinema. É de bom tom escolher um crítico, um entendedor de cinema e que tenha um texto fluido e interessante e acompanhar suas opiniões. O crítico ou até o bom resenhista tem acesso aos filmes antes dos pobres mortais e sua obrigação é assití-los com atenção e escrever sobre, para informar e alertar seu leitor. Faço parte deste grupo de forma bastante humilde e caí na besteira de perder minha tarde neste filme sem propósito.

Fim dos Tempos é o filme em cartaz do M. Night Shyamalan, diretor dos bacanas O Sexto Sentido, Corpo Fechado e A Vila. Mesmo tensa com a perspectiva dele fazer algo parecido com Sinais, filme que odeio por usar o argumento dos ets como solução fácil de um roteiro cheio de expectativas, fui em frente, ignorei minhas inclinações mesmo tendo visto o trailer e fui ver. Gastei dinheiro e paciência e ganhei o ódio momentâneo dos meus amigos.

Esta é a estória em que pessoas subitamente morrem na costa leste dos Estados Unidos. Elas estão em ambientes amplos e expostos à natureza e, do nada, param o que estão fazendo, como aquela brincadeira de estátua, dão três passos pra trás e se matam com a primeira coisa que encontram pela frente. O trailer mostra isso. As autoridades buscam soluções. As cenas de morte são bacanas. O Mark Wahlberg é péssimo, mas, pensamos, com uma estória bacana ele passa despercebido. Mark Wahlberg é o professor de ciências que, como outros tantos e sem motivo, consegue se safar da síndrome desconhecida.

Roteiro péssimo, com diálogos ainda piores, sublimados com interpretações superficiais de grande parte dos atores transformam sua duração num tormento. A parte divertida é muito rápida: o coordenador da escola em que trabalha o maldito professor de ciências é nosso companheiro Alan Ruck, o Cameron Frye, melhor amigo de Ferris Bueller, em Curtindo a Vida Adoidado, agora grisalho. Espectadores saem da sala, outros se enterram nas poltronas. Não há o que fazer. E vem a explicação para o misterioso fenômeno: talvez uma neurotoxina natural, produzida pelos homens ou produzida e espalhada pelas plantas (!) contamina os humanos e eles ficam desorientados, perdem a vontade de viver e se matam. Então, quando passar um vento e as folhas das árvores de mexerem, fique atento: você talvez seja vítima da fúria da natureza. Talvez sim, porque ninguém sabe porque mata uns e não mata outros. Ponto.

Deste filme nada presta. É triste e duro dizer isso, mas o fato é que é muito ruim. A impressão que dá é de que o roteiro começou a ser escrito, aconteceu a greve dos roteiristas nos Estados Unidos e, para não atrapalhar o cronograma, alguém tomou as notas do roteirista e destruiu o que poderia ser, quem sabe, uma estória legal. É surpreendente que o M. Night tenha acabado com a confiança de seus espectadores desse jeito. É misterioso como ele conseguiu dirigir um Sexto Sentido e este filme anos depois. Será que ele bateu a cabeça? E como os atores toparam se queimar desse jeito? Será que eles tinham muitas dívidas? Perguntas que não têm respostas... bem como o porquê da existência do filme. Uma coisa é certa: não indique a seus amigos.
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Conheço uma pessoa que resolveu morar só. Juntou uma grana, comprou o apartamento e saiu da casa dos pais. Chegando na nova morada, encontrou no meio do seu processo de adaptação, um tronco de árvore à altura de sua janela. O tronco estava liso como sua árvore que, morta de aparência, era toda tronco e raiz que não se vê.

Também resolvi que ia morar só. Como não tinha grana suficiente, aluguei um apartamento e me mudei. O meu tronco é o Carlos Drummond de Andrade. O poeta está morto como o tronco, só se vê sua estátua à beira da praia, sentada num banco. Como o tronco, Drummond está cercado de vida. Como meu amigo, também fiz de Drummond meu parceiro de importantes reflexões, sentimentos e pensamentos inúteis.

A distância que separa Drummond do tronco é imensa: estamos em estados vizinhos de duas regiões do país. E enquanto converso com Drummond a distância, porque tenho vergonha de ir pertinho e falar com ele, percebo que Drummond está para todos à sua volta, como o tronco de meu amigo que abriga os passarinhos.

Enquanto meu amigo conversa escondido e convive com o tronco, vivo de Drummond. Em torno de toda essa história, uma coisa é certa: Drummond sente muita saudade do tronco. Eu sei, porque vejo no olhar dele a distância de quem espera e lembra.
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Finalmente fui ver o filme das garotas de NY. Sempre gostei da série, que nos liberta para um ideal de vida fútil e divertida. Não dá pra ser cérebro e arte o tempo todo. Acho que a série funciona à medida que nos relembra das coisas que gostamos, das grandes amizades e, é claro, dos relacionamentos deliciosamente comentados como se fossem os nossos próprios.

Como me mudei recentemente, estou criando junto com outros também expatriados, um novo grupo de amigos. Surpreendentemente, todos são agradáveis e muito diferentes entre si. Cada um de nós combina particularidades que, se estivéssemos em nosso habitat primeiro, possivelmente acabaríamos naturalmente em grupos distintos. Fazemos concessões e vamos criando uma intimidade aos poucos, nos abrindo vagarosamente, como toda cautela do individualismo prega, não sei se tão racionalmente como pareceu aqui descrito. O que significa isso tudo é que ainda há uma diferença entre novos amigos e amigos já estabelecidos.

Todo relacionamento novo é sempre mais complicado, mais “cheio de dedos”. Vamos mostrando o que há de melhor em nós, vamos permitindo o outro em nossa vida e entrando até onde é permitido na dele. Vamos construindo nossos pequenos alicerces em momentos agradáveis e de muita conversa. As diferenças, entretanto, continuam marcantes.

Sex and the City é um filme de mulher. Não tem pra onde correr: são sapatos perfeitos, a moda das grandes grifes em roupas muitas vezes estranhas, cafés, noitadas e um grupo de amigas de longa data. Relacionamentos e a discussão deles daquele jeito que só é possível e suportável entre mulheres ou meninas. É a extensão da série anos depois, é apenas o último episódio de pouco mais de duas horas.

Fui ver o filme com aquela ansiedade que temos em rever uma grande amiga. Fui com uma nova amiga, dessas agregadas expatriadas e amiga de longa data de minha prima. Fomos como novas amigas com este e mais alguns interesses em comum. Fomos juntas e na mesma ansiedade, mas entendendo que precisaríamos de nossas amigas antigas nesses momentos. Foi ótimo ver o filme com ela, mas fiquei pensando bastante nas minhas amigas antigas e eternas que nunca mais vi. Morri de vontade de tomar um café depois e falar as abobrinhas típicas que resultam de um filme de mulher. Minha companheira de sessão teve que sair mais cedo. Fui pra um café, comi sozinha e depois segui para a aula que, claro, não me concentrei nem um pouco. Cheguei atrasada e um filme acabava de ser exibido e estava em discussão. Eu estava no pós-Sex and the City-último episódio da saga Mr.Big-Carrie.

O filme é divertido em todas as suas idas e vindas. O reencontro das amigas de Manhattan e o vai-e-vém de seus relacionamentos. As crises que nós passamos e passaremos. Tudo pede uma conversa de fofoca, papo de amiga, abobrinha que nem toda menina (inclusive) tem saco para participar. Apesar de se estender em alguns momentos e mostrar muito figurino inusitado, o conto de fadas moderno chega ao fim e me deixa com alguns questionamentos. Tenho uma opinião sobre a conclusão do filme, que me incomodou um pouco, mas não vou estragar a surpresa. Vou esperar minha visita às amigas e discutir com elas, que me disseram que também já viram este último episódio, com o mesmo sentimento de que está faltando alguma coisa, ou melhor, alguém na poltrona ao lado.
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Tudo bem que esses caras dos anos 60 são importantes e participaram dos movimentos que nos transformaram em comportamento, nas artes e na forma de pensar. Tudo bem que agenda do Meio Ambiente é fundamental e com a saída da Marina Silva talvez não dê tempo pra se preocupar com outras coisas... mas essa Era Hippie acabou.

Acabei de ver o Minc num discurso em rede nacional no horário nobre. Ele fez o favor de esquecer os figurinistas e adicionar a uma camisa social branca uma gravata estampada e, por cima dela, um colete também estampado. Enquanto assistia à importante fala de nosso novo ministro verdinho, fiquei confusa, se olhava para a moça que traduzia para LIBRAS - que sempre prende minha atenção - ou encarava a confusão visual do modelito.

O Minc, que lembra bastante seus colegas de faixa etária em ideais, propostas e objetivos, não foge também ao figurino de cores desbotadas e estampas estranhamente combinadas. E, ainda que não se veja muita importância imediata em notar o vestuário de nossos governantes, eles precisam atentar para tal, já que devem passar suas informações da forma mais clara possível. Esta confusão visual atrapalha a compreensão do discurso e nos faz pensar nas baboseiras do dia-a-dia e na moda, ao invés da mensagem. Eu sei que a preocupação do Minc certamente não era essa, mas, por favor, agentes de comunicação, mexam-se!

Aproveitando o momento, agora percebo que posso estar cometendo uma grande gafe. Acabo de passar pela seção de moda da revista TPM deste mês e vi muitas estampas a la Minc. Será que eu é que estou errada, que a onda do momento é misturar tudo mesmo, como num liquidificador de tecidos? Definitivamente não entendo de moda... quando acho que estou por dentro, tomo uma rasteira das tendências mundiais...
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Tem filmes que não adianta resistir, um dia eles aparecem diante de nós e somos obrigados a ver. Agora mesmo, me apareceu Turistas, um filme de terror-tortura filmado no Brasil e que por isso gerou uma onda de polêmica e algumas tentativas de boicote no país. Levando em conta que não me interesso muito por filmes tortura e que não acho que vale o momento sublime da sala de cinema, não tinha visto até que apareceu na tv, em horário propício. O filme está passando.

Oito turistas entre ingleses e americanos estão a passeio numa praia perto da Bahia. Depois de uma noitada de álcool, funk, areia e aditivos, todos acordam pela praia selvagem sem bagagens. Em paralelo, um grupo se organiza com perversidade no olhar. Roubados, os jovens decidem ir à vila e buscar ajuda, até que encontram um suposto amigo brasileiro que os ajudaria a sair da cidade. Claro que ainda há muita coisa pra acontecer.

Entre críticas superficiais sobre o país, prostitutas de festa e estrangeiros tentando se dar bem, o filme não traz nada de novo ou interessante além de carnificina e nojeira. Não se constrói uma boa história, não há retrato do país nem de longe, é só mais um filme como O Albergue ou Jogos Mortais. O arrependimento do amigo brasileiro faz com que alguns se salvem, mas provavemlente ele morrerá até o fim da trama. O medo, claro, está presente na possibilidade de fazer o mal, personificado num grupo de toturadores com alguma prática médica, conforme a História mostra. A idéia é retirar órgãos dos turistas como uma vingança ao uso inescrupuloso de nossas belezas.

Enquanto eu gosto de filmes de terror e suspense de diversos tipos, fico me perguntando: o que ganhamos ao ver um filme desse? Não muito, além de visões do paraíso perdido que nos cerca. Uma seqüência, entretanto, prende nossa atenção: a perseguição embaixo d´água. Os três sobreviventes da estória fogem de um perseguidor entre os buracos de ar e formados pelas pedras de um leito de rio, embaixo de cavernas e grutas. A falta de ar e o nado constante dos quatro nos deixa tensos o tempo todo, como se nós estivéssemos sufocando com eles.

Os turistas continuarão a aparecer por aqui pelos mesmos motivos do filme, violência existe no mundo todo e o aqui não há retrato disso como característica do país. Pensar que um filme como este pode gerar uma polêmica por ferir nosso orgulho ufanista é ser muito pequeno e levar a sério demais Hollywood. Pra coroar a surrealidade da obra, a música final é aquela doce e enjoada de Buchecha, cantada por Adriana Calcanhoto, que não faz sentido com nada do filme... exceto por ser brasileira.
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E então, estávamos mais uma vez na boemia. Numa fila de festa e minha irmã apertada para ir ao banheiro. Do nosso lado, apenas um lugar se mostrou plausível: o Hotel. No bairro em que estávamos, todos os ambientes de hospedagem eram um tanto suspeitos. Haviam dois Hotéis para Solteiros, cujas entradas eram definidas por homens estranhos com caras de más intenções e nada muito limpo, desde a porta até o corredor que se seguia.

O Hotel não era para solteiros. Pelo menos, não era sua indicação. No corredor da fila, desviamos dos amigos e entramos pelas portas de vidro. Um salão amplo e vazio, com poucas luzes e um balcão no fundo. O barulho da tv indicava um programa de sexta à noite de grandes emissoras. De alguma forma, os eventos da rua não influenciavam no silêncio do ambiente. Um homem velho, um senhor branco e simpático, com olhar beirando o sombrio, levantou-se da cadeira e nos atendeu com um sorriso. Boa noite, dissemos. Boa noite. Podemos usar o sanitário? Aqui não tem sanitários, vão no 105. Então podemos ir ao sanitário. Vão ao 105. Com o terror instaurado do quarto 105, como dos quartos onde pessoas morrem de forma macabra, seguimos por um corredor estreiro e fomos escada acima.

No primeiro andar, diversas portas. Éramos duas garotas e resolvemos nos separar. No fundo do corredor em que estava, saiu um homem similar ao recepcionista, baixo, branco, estranhamente educado e com olhar cansado, mas bastante receptivo. Minha irmã percebeu o senhor e, diante de sua agonia em usar o banheiro e sair logo, não se deu conta de um possível problema: onde é o 105, por favor? A esta altura já estávamos no meio do corredor, o senhor se aproximando. É logo aí, ao lado de vocês. Ao nosso lado, grandes sacos de pano no chão brancos, uma entrada estreita, diferente dos outros quartos. Duas portas abertas. A primeira, à frente, parecia ser um setor de serviços, uma despensa de limpeza. Ele indicou: o quarto é aí do lado. Entrei na frente, ela me seguiu. O quarto estava desmontado, como se uma limpeza fosse iminente, mas nunca feita. O quarto não era pequeno e fui atrás do banheiro. Com um olho na frente e outro atrás, entrei, minha irmã me acompanhou, mas pude observar o ambiente. O banheiro, escuro, mais escuro ficou, quando minha irmã apagou a luz. Quase em pânico, mas fingindo calma universal, falei: Marcela, a luz. Ao que ela acende, percebemos outra luz se acendendo: o velho do corredor acendeu a luz da entrada do quarto. Fiquei esperando ele entrar, vigiando a porta, enquanto minha irmã fazia xixi. Esperei pela entrada do velho com o machado, esperei Jack Nicholson e o guri no triciclo, as gêmeas e até a música dos Carpenters do quarto 1408. Estava pronta para tudo, menos para o sumiço repentino do bom velhinho.

Não apagamos a luz. Saímos muito rápido e depois de um calmo trocar de muito obrigada e boa noite, conseguimos fugir do Alicante Hotel. Na rua, os sons de volta, a fila e o mesmo lugar. Decidimos que era hora de ir embora.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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