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Café: extra-forte



O que torna um filme especial? É o filme em si, a companhia, a falta dela ou a situação que vivemos que aguça a nossa sensibilidade? Um beijo roubado é o novo filme de Wong Kar Wai. A história de um amor que se constrói através das experiências a distância e da necessidade que um tem do outro, ainda que em espaços diferentes, marca o filme cheio de memórias e momentos para pensar.

Ao assistir o filme pela primeira vez, muito sentimento vem à tona, ficamos enebriados com a beleza do filme, as cenas lentas, a sensualidade latente de cada olhar distante. Vemos histórias de amor acabando e que dão alimento a uma nova, que guia todo o filme. E, ao sair da sessão, não sabemos se queremos chorar, pensar ou sorrir... mas um silêncio egoísta nos domina, porque não temos muitas palavras para falar do filme.

Em inglês, My blueberry nights, traz mais o sabor do filme, cujas tortas de amora aparecem suculentas em primeiríssimo plano. Quase dá vontade de lamber a tela. E cada história que a trama traz é mais um aperto no peito, mais uma das dores que todos já conheceram algumas vezes.

A narrativa de cartões postais por onde passa nossa protagonista, que literalmente dá o tom do filme – ela é Norah Jones – nos faz mergulhar no ritmo da fala de um bom observador, aquele que para se recuperar de sua própria tragédia, acaba notando que esta não é a única do mundo, mas que há histórias em qualquer lugar que se esteja. O coração partido pelo amor traído, a morte de um ex-amor de culpas, a morte de um pai. Inseguranças e muita humanidade.

Na segunda vez que assistimos o filme, já estamos preparados para a carga de emoção. Não há mais a surpresa da história, mas, ao contrário do que pensávamos e que comprova a qualidade do que estamos vendo, os mesmos sentimentos retornam e mais uma vez, lágrimas e o aperto no peito. Não há como fugir do coração. Ele é o principal determinante da qualidade de uma obra de arte. Comédias e dramas românticos existem aos montes, mas poucos realmente fazem valer a sessão.

My blueberry nights tem um ar de noite, uma nostalgia, o olhar vazio. A leveza do filme está em Jude Law, o amigo amor, o destinatário das cartas da mocinha. A história dela cruza com a dele em intervalos, enquanto vemos Rachel Weisz e Natalie Portman dominarem seus personagens. Por trás da beleza única de cada atriz, há o espetáculo da atuação, o prazer de conhecermos o personagem e acreditarmos nele e em sua história. Em cada parada na trajetória de mais um Estados Unidos que pouco vemos, uma mulher sofre de passado, de uma história que ainda não acabou, mas que sua duração indica um final infeliz. É mais uma vez um filme de estrada, agora através de uma mulher em busca de se salvar e se conhecer.

O olhar sensível de Wong Kar Wai antes visto em tantos outros filmes, como Amor à Flor da Pele e o conturbado 2046 – Os Segredos do Amor, indica que não importa o local em que se filme, mas a busca do sentido para o que se procura filmar é que traz a marca de seu diretor. E essa sensibilidade é percebida logo nas primeiras seqüências: no close-up de um par de sapatos em pés inseguros, das imagens filmadas através de filtros singulares – vitrines de uma cafeteria, porta, paredes de vidro, copos, câmera de vigilância – na trilha sonora que nos envolve sem percebermos, nas cores e em seus escuros de vida real. Esta é a nova poesia de amor do cinema incrivelmente hollywoodiano.

P.S.: Aconselho ver o filme sem ver o trailer, mas indico aqui o site pra quem já viu.
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Estes dias estou lendo entre a agonia e o desespero um novo livro. A agonia é para ler tudo e me deliciar com as imagens, já que é uma hq, o desespero é de saber que logo acabará. Estou lendo Valentina, de Guido Crepax.

Dessa vez ninguém me disse nada, ninguém me indicou. Tinha uma estante aqui meio bagunçada e eu, como toda neurótica que se preza, resolvi pôr tudo na ordem mínima de tamanho. Valentina estava meio torta na estante e a capa me interessou. Quando folheei, não acreditei e comecei a rir: tinha feito uma imensa e prazerosa descoberta.

Valentina é criação de Guido Crepax em meados dos anos 60, na Itália. Descobri, quando fui buscar uma imagem para postar, que ele é responsável também pela adaptação em quadrinhos de A História de O, de Pauline Réage, um clássico do sadomasoquismo internacional. Foi isso o que mais me surpreendeu e aumentou minha curiosidade. Já li A História de O e vê-la em quadrinhos deve ser mais chocante do que apenas ler, ainda mais sabendo quem a desenhou.

Valentina Rosselli é uma jovem fotógrafa que se envolve com o crítico de arte Philip Rembrandt, codinome Neutron, um super-herói com poderes mediúnicos. Ela é linda, morena de corte chanel, esguia de olhos grandes e lábios carnudos. Usa as roupas da moda, de grandes estilistas. Todas as mulheres retratadas são belíssimas e o que eu sinto é uma vontade imensa de me tornar uma delas, ainda que seus personagens sejam um pouco vazios e sem maior importância. A própria Valentina acaba sendo pega de surpresa em algumas situações, como uma menina boba que descobre as coisas sem querer ou cai de páraquedas nas situações mais perigosas. Pelo menos ela é uma mulher independente, fotógrafa (na época poucas mulheres exerciam a profissão) corajosa e enfrenta os inimigos como pode.

Vale ressaltar que estes anos 60, tão importantes para o mundo, são lembrados em reuniões e festas em que a dupla ocasionalmente participa: sempre tem alguém comentando sobre os livros, os pensadores, artistas, sem falar nas citações freqüentes dos filmes, até agora: Fellini e Eisenstein. Percebemos muito claramente que nada disso importa, quando vemos que por trás da falsa atenção que Rembrandt dá às conversas vazias, está, na verdade, recebendo as informações através das escutas instaladas nos ambientes da história. Acredito que toda esta brincadeira de contextualização com o universo burguês é apenas para fazer um pano de fundo para as histórias e muito menos uma provocação de pensamento artístico em meio às desventuras de bandido e mocinha.

Nossa heroína acaba se envolvendo nas tramas e vai ganhando cada vez mais espaço, até se tornar a protagonista. Para além das histórias divertidas e da criatividade sem fim de Crepax, é fundamental percebermos a beleza de seus desenhos e a importância deles para o cinema. Quadros com tamanhos diferentes, a expressão das emoções em planos-detalhe, a montagem, a complexidade e riqueza das imagens, a construção dos personagens. Em cada página precisamos ficar olhando por um tempo, para tentar guardar na memória e captar toda a idéia em cada traço. Guido Crepax é o mestre dos quadrinhos e isso tudo em p&b. Como não cheguei ao fim da história, só garanto a diversão do momento. Se pudesse, colocaria na íntegra para que vocês vissem a capacidade do autor, deixo uma imagem razoável de Valentina, por falta de uma melhor. Vou tentar ler uma página por dia, pra ver se dura mais.
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2 altos para a faxina de nossas vidas...
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Hoje eu percebi que até na arte há limites. Estava aqui me atualizando na internet, porque nunca sei os horários dos telejornais, quando me deparei com a mais nova bizarra e grotesca, de extremo mau gosto, instalação nos Estados Unidos. Uma mulher, mestranda em artes em Yale, perdeu nove meses de sua vida se inseminando artificialmente, engravidando e abortando em seguida. Não suficiente em fazer isso sozinha, ela insiste em mostrar pro mundo, através de vídeos dos abortos e outros registros.

A matéria saiu em um blog do Globo que eu nem tinha intenção em entrar, mas a chamada me atraiu. Eu entendo que a arte contemporânea não precisa de definições e que cada um se vire pra gostar e interpretar e metaforizar em cima do que se veja, mas há que se pensar numa questão ética quando tratamos de um tema como o aborto. É incompreensível inclusive como um espaço de arte dá vazão a esse tipo de expressão. É discutível como uma pessoa com idéias como essa é admitida numa universidade tão tradicional e cheia de valores. Que não sejam os valores... não é nem estético.

Numa semana em que o Brasil assiste às investigações acerca do assassinato da menina Isabella, cujos pais parecem tão conformados que incomoda, fico me perguntando: o que está acontecendo com as pessoas? Uma menina tão nova ser assassinada pela família daquele jeito e nignuém se desespera? Uma trajetória de desequilíbrio e violência do pai e da madrasta e a mãe da menina ainda permite os encontros? E só faz rezar? Nada contra as religiões... mas tenha a paciência! O que percebemos disso tudo é que os brasileiros outros se incomodam muito mais com a situação do que os envolvidos. Basta ver a multidão na porta do casal, as pedras lançadas e a audácia do advogado em citar Jesus Cristo.

Entrei nos sites de notícia para ver o caso de Isabella, que já acho surreal de tão frio e sórdido, e me defronto com essa imbecil dizendo que arte é fazer abortos e mostrar ao público e ninguém...sei lá... prende essa mulher? Não entendo o que acontece com a arte, com expressão pública... não entendo essa contemporaneidade e comportamentos como esses. Enfim.
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Às vezes a gente enche o saco das coisas. Não é tpm, não, é um cansaço de tudo que não funciona, do processo de chegar a fazer com que funcionem, nunca no tempo que queremos.

Hoje estive conversando com uma amiga baiana sobre nossas besteiras do dia-a-dia e de como elas nos irritam. Ontem tive um dia complicadíssimo, cheio de ir e vir, numa cidade onde a chuva nunca pára de cair... ela sempre cai e cai indefinidamente. E as agonias só se acumulavam, lembranças de momentos ruins, objetivos não alcançados, paqueras desnecessárias, saudades, uma vontade de rosto conhecido. Achando que tudo isso acabaria ontem mesmo, acordo num humor do cão, só querendo ser paparicada um pouquinho, mesmo sabendo que isso é impossível. Ainda: roupa e pratos a lavar, almoço pra fazer, água pra comprar. A independência custa caro, às vezes.

Disse a ela que o que eu mais queria hoje era ser mulherzinha, ao invés de super-mulher. Mesmo sendo a mulher maravilha de alguns amigos, preciso de um cineminha à tarde, um namoro de mãos dadas e conversa no ouvido, café e, pra finalizar perfeitamente, uma sandália linda de presente. Tudo pode parecer besteira e futilidade, mas são detalhes que fazem a diferença no imaginário feminino e alimentam nossos corações e mentes com carinhos e gentilezas. Mas, como diz uma outra super-mulher amiga que também mora só e em terra fria, preciso abrir meu coração e minha cabeça para essas coisas e rir dos detalhes surreais. Tenho ela para trocarmos experiências e dividir as angústias. Somos heroínas de terras quentes, do calor humano e de ruas conhecidas de olhos vendados.

Acho que, no resumo da ópera, é só o tempo fechado que arde os olhos, guarda-chuva aberto em rua movimentada e frio de casaco que cansa tudo de uma vez. É só o começo de um dia cinza depois de noite mal dormida. Vou tentar chocolate e Instantâneos de Felicidade pra animar o espírito e dar coragem pra acordar de novo.


Depois de um breve intervalo entre esse primeiro texto e o momento atual, vemos que as coisas mudam muito rapidamente. Acho que nós, mocinhas da nova geração, somos muito "volúveis" com nossos sentimentos... mudamos muito rapidamente... como o tempo, eu diria.

Agora o sol está tentando ganhar das nuvens e antes dele, eu já havia ligado os Beatles (não precisei dos entorpecentes citados anteriormente), limpei a casa, comprei água e decidi lavar roupas amanhã... mas continuo não sabendo o que comer. Mais umas vez alguém olha pra você na rua e as paqueras desnecessárias começam a se tornar divertidas de novo...

O engraçado é que o texto faz parecer que estou em Londres (minha idéia de lugar frio e cinza) ou em algum lugar que só chove, mas é o Rio com frente fria. O porteiro acabou de me avisar de uma nova possibilidade de apê aqui no prédio e vamos ver o que acontece.

Quanto a parte do namorico com gentilezas... continuo querendo isso. Enquanto não tenho, vou estudar um pouquinho que ganho mais e volto a ser a Mulher Maravilha de todos os dias. :)
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Henri Cartier-Bresson, 1969
Boulevard Diderot, Paris

Voltar pra casa é legal. Rever todo mundo, encontrar as pessoas... mesmo na correria do pouco tempo, deu pra fazer alguma coisa. Fica um sentimento engraçado. Quando estamos chegando é uma alegria de ver rostos ansiosos por você e você por eles... ao tempo que quando vamos embora, não é mais um desespero, mas uma espera, mais um momento de lembrança e saudade. Sem tanto drama, com mais tranquilidade e leveza. Depois que escancaramos a porta de casa e colocamos as sacolas para fora, ir e vir vira visita de gente que já é da casa.

Voltei ao Rio. Vim logo para um trabalho que apareceu, caiu como uma luva em meus tempos mortos. Estou acompanhando no Centro Cultural Banco do Brasil, a Mostra ACIE - Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira no Brasil, quinta edição este ano. A mostra apresenta 16 filmes brasileiros, entre eles os ótimos: A Casa de Alice, Santiago, Jogo de Cena, Tropa de Elite e O Cheiro do Ralo que concorrem às categorias clássicas de festivais e mostras. Meu trabalho é apresentar estes filmes e pedir ao público que vote para a categoria Júri Popular.

O legal é que vou conhecendo pessoas de todo o tipo, como quando eu estagiava na GPW - videolocadora. Encontrar o público é bacana, porque percebemos pontos de vista distintos do que estamos acostumados em nossas críticas exigentes e arrogantes. Quem trabalha ou estuda cinema não libera os filmes, mas não percebemos que nossa opinião não quer dizer muita coisa... não fazemos o filme para nós, afinal de contas. Acabo ouvindo opiniões completamente opostas às minhas e procuro investigar o olhar das pessoas nestes filmes... às vezes acabo concordando com elas e baixo minha guarda.

Entre as sessões dos filmes que não assisto, fico perambulando pelo CCBB, tomo café, converso com os funcionários e bisbilhoto a livraria. Numa dessas passeadas, me deparei com o catálogo da exposição Instantâneos de Felicidade. A expo aconteceu no fim do ano passado, é da Coleção Maison Européenne de la Photographie - Paris e reuniu fotografias que significavam momentos de grandes alegrias, situações únicas e bonitas. Dei uma olhada no catálogo em promoção, enrolei daqui e dali, acabei comprando. Tem Sebastião Salgado, Henri Cartier-Bresson, Pierre Verger e vários outros fotógrafos que não conheço. São imagens muito bonitas e que te deixam pensando... naturalmente me encantei com elas e acabei sorrindo junto com a alegria de seus personagens, feito menina apaixonada. É uma pena ter perdido a exposição, mas o catálogo garante as fotos, um resumo da vida dos fotógrafos e mais alguns detalhes.

Minhas aulas começam na segunda e já tô agoniada pra voltar a estudar oficialmente. Conto com a ajuda de todos os nossos santos dos quatro cantos para cumprir as metas da semana... encontrar outro trabalho e um lugar legal pra morar nos próximos meses. Vamos ver o que acontece. Prometido para breve: críticas de filmes e mais coisas interessantes.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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