• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte

2 altos para a faxina de nossas vidas...
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Hoje eu percebi que até na arte há limites. Estava aqui me atualizando na internet, porque nunca sei os horários dos telejornais, quando me deparei com a mais nova bizarra e grotesca, de extremo mau gosto, instalação nos Estados Unidos. Uma mulher, mestranda em artes em Yale, perdeu nove meses de sua vida se inseminando artificialmente, engravidando e abortando em seguida. Não suficiente em fazer isso sozinha, ela insiste em mostrar pro mundo, através de vídeos dos abortos e outros registros.

A matéria saiu em um blog do Globo que eu nem tinha intenção em entrar, mas a chamada me atraiu. Eu entendo que a arte contemporânea não precisa de definições e que cada um se vire pra gostar e interpretar e metaforizar em cima do que se veja, mas há que se pensar numa questão ética quando tratamos de um tema como o aborto. É incompreensível inclusive como um espaço de arte dá vazão a esse tipo de expressão. É discutível como uma pessoa com idéias como essa é admitida numa universidade tão tradicional e cheia de valores. Que não sejam os valores... não é nem estético.

Numa semana em que o Brasil assiste às investigações acerca do assassinato da menina Isabella, cujos pais parecem tão conformados que incomoda, fico me perguntando: o que está acontecendo com as pessoas? Uma menina tão nova ser assassinada pela família daquele jeito e nignuém se desespera? Uma trajetória de desequilíbrio e violência do pai e da madrasta e a mãe da menina ainda permite os encontros? E só faz rezar? Nada contra as religiões... mas tenha a paciência! O que percebemos disso tudo é que os brasileiros outros se incomodam muito mais com a situação do que os envolvidos. Basta ver a multidão na porta do casal, as pedras lançadas e a audácia do advogado em citar Jesus Cristo.

Entrei nos sites de notícia para ver o caso de Isabella, que já acho surreal de tão frio e sórdido, e me defronto com essa imbecil dizendo que arte é fazer abortos e mostrar ao público e ninguém...sei lá... prende essa mulher? Não entendo o que acontece com a arte, com expressão pública... não entendo essa contemporaneidade e comportamentos como esses. Enfim.
Share
Tweet
Pin
Share
2 Comentários
Às vezes a gente enche o saco das coisas. Não é tpm, não, é um cansaço de tudo que não funciona, do processo de chegar a fazer com que funcionem, nunca no tempo que queremos.

Hoje estive conversando com uma amiga baiana sobre nossas besteiras do dia-a-dia e de como elas nos irritam. Ontem tive um dia complicadíssimo, cheio de ir e vir, numa cidade onde a chuva nunca pára de cair... ela sempre cai e cai indefinidamente. E as agonias só se acumulavam, lembranças de momentos ruins, objetivos não alcançados, paqueras desnecessárias, saudades, uma vontade de rosto conhecido. Achando que tudo isso acabaria ontem mesmo, acordo num humor do cão, só querendo ser paparicada um pouquinho, mesmo sabendo que isso é impossível. Ainda: roupa e pratos a lavar, almoço pra fazer, água pra comprar. A independência custa caro, às vezes.

Disse a ela que o que eu mais queria hoje era ser mulherzinha, ao invés de super-mulher. Mesmo sendo a mulher maravilha de alguns amigos, preciso de um cineminha à tarde, um namoro de mãos dadas e conversa no ouvido, café e, pra finalizar perfeitamente, uma sandália linda de presente. Tudo pode parecer besteira e futilidade, mas são detalhes que fazem a diferença no imaginário feminino e alimentam nossos corações e mentes com carinhos e gentilezas. Mas, como diz uma outra super-mulher amiga que também mora só e em terra fria, preciso abrir meu coração e minha cabeça para essas coisas e rir dos detalhes surreais. Tenho ela para trocarmos experiências e dividir as angústias. Somos heroínas de terras quentes, do calor humano e de ruas conhecidas de olhos vendados.

Acho que, no resumo da ópera, é só o tempo fechado que arde os olhos, guarda-chuva aberto em rua movimentada e frio de casaco que cansa tudo de uma vez. É só o começo de um dia cinza depois de noite mal dormida. Vou tentar chocolate e Instantâneos de Felicidade pra animar o espírito e dar coragem pra acordar de novo.


Depois de um breve intervalo entre esse primeiro texto e o momento atual, vemos que as coisas mudam muito rapidamente. Acho que nós, mocinhas da nova geração, somos muito "volúveis" com nossos sentimentos... mudamos muito rapidamente... como o tempo, eu diria.

Agora o sol está tentando ganhar das nuvens e antes dele, eu já havia ligado os Beatles (não precisei dos entorpecentes citados anteriormente), limpei a casa, comprei água e decidi lavar roupas amanhã... mas continuo não sabendo o que comer. Mais umas vez alguém olha pra você na rua e as paqueras desnecessárias começam a se tornar divertidas de novo...

O engraçado é que o texto faz parecer que estou em Londres (minha idéia de lugar frio e cinza) ou em algum lugar que só chove, mas é o Rio com frente fria. O porteiro acabou de me avisar de uma nova possibilidade de apê aqui no prédio e vamos ver o que acontece.

Quanto a parte do namorico com gentilezas... continuo querendo isso. Enquanto não tenho, vou estudar um pouquinho que ganho mais e volto a ser a Mulher Maravilha de todos os dias. :)
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários
Henri Cartier-Bresson, 1969
Boulevard Diderot, Paris

Voltar pra casa é legal. Rever todo mundo, encontrar as pessoas... mesmo na correria do pouco tempo, deu pra fazer alguma coisa. Fica um sentimento engraçado. Quando estamos chegando é uma alegria de ver rostos ansiosos por você e você por eles... ao tempo que quando vamos embora, não é mais um desespero, mas uma espera, mais um momento de lembrança e saudade. Sem tanto drama, com mais tranquilidade e leveza. Depois que escancaramos a porta de casa e colocamos as sacolas para fora, ir e vir vira visita de gente que já é da casa.

Voltei ao Rio. Vim logo para um trabalho que apareceu, caiu como uma luva em meus tempos mortos. Estou acompanhando no Centro Cultural Banco do Brasil, a Mostra ACIE - Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira no Brasil, quinta edição este ano. A mostra apresenta 16 filmes brasileiros, entre eles os ótimos: A Casa de Alice, Santiago, Jogo de Cena, Tropa de Elite e O Cheiro do Ralo que concorrem às categorias clássicas de festivais e mostras. Meu trabalho é apresentar estes filmes e pedir ao público que vote para a categoria Júri Popular.

O legal é que vou conhecendo pessoas de todo o tipo, como quando eu estagiava na GPW - videolocadora. Encontrar o público é bacana, porque percebemos pontos de vista distintos do que estamos acostumados em nossas críticas exigentes e arrogantes. Quem trabalha ou estuda cinema não libera os filmes, mas não percebemos que nossa opinião não quer dizer muita coisa... não fazemos o filme para nós, afinal de contas. Acabo ouvindo opiniões completamente opostas às minhas e procuro investigar o olhar das pessoas nestes filmes... às vezes acabo concordando com elas e baixo minha guarda.

Entre as sessões dos filmes que não assisto, fico perambulando pelo CCBB, tomo café, converso com os funcionários e bisbilhoto a livraria. Numa dessas passeadas, me deparei com o catálogo da exposição Instantâneos de Felicidade. A expo aconteceu no fim do ano passado, é da Coleção Maison Européenne de la Photographie - Paris e reuniu fotografias que significavam momentos de grandes alegrias, situações únicas e bonitas. Dei uma olhada no catálogo em promoção, enrolei daqui e dali, acabei comprando. Tem Sebastião Salgado, Henri Cartier-Bresson, Pierre Verger e vários outros fotógrafos que não conheço. São imagens muito bonitas e que te deixam pensando... naturalmente me encantei com elas e acabei sorrindo junto com a alegria de seus personagens, feito menina apaixonada. É uma pena ter perdido a exposição, mas o catálogo garante as fotos, um resumo da vida dos fotógrafos e mais alguns detalhes.

Minhas aulas começam na segunda e já tô agoniada pra voltar a estudar oficialmente. Conto com a ajuda de todos os nossos santos dos quatro cantos para cumprir as metas da semana... encontrar outro trabalho e um lugar legal pra morar nos próximos meses. Vamos ver o que acontece. Prometido para breve: críticas de filmes e mais coisas interessantes.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários
Hoje foi meu último dia no Festival É Tudo Verdade deste ano. O que pude descobrir com os filmes que assisti só perde para a quantidade de idéias que apareceram nesse ínterim. Quando trabalhava em Salvador, estava muito longe do cinema, do fazer, ver, estudar, conhecer gente. Claro que aqui as oportunidades surgem com muito mais freqüência e facilidade e a conseqüência disso é que nossa cabeça começa a funcionar.

Conheço muita gente que não suporta o cinema brasileiro. Desse tanto, muito mais da metade não assiste documentário. De país nenhum. Uma outra parte diz que não é filme. Não vou defender o documentário aqui, acho que é um gênero importante como todos os outros, com suas características e não por isso mais pobre em relação aos demais. Mas este festival apenas de documentários tem uma riqueza de informações, formas, estéticas, que lota salas de cinema e provoca acirradas discussões, sobre seus temas e, mais importante, sobre a forma. Um dos problemas nas discussões sobre estes filmes é, muitas vezes, a importância é dada ao tema em detrimento do ponto de vista. Ainda assim, conseguimos alcançar o formato e estar mais perto da equipe e não do assunto.

Esta foi a noite de Procura-se e O aborto dos outros. Enquanto o primeiro tenta resgatar a memória de um artista, o outro trata da questão do aborto. O que estes dois filmes têm em comum é a coragem de seus autores, que defenderam perante um público crítico e, muitas vezes, chato, seu ponto de vista, sua soberania frente ao produto de suas criações tão originais.


Procura-se

Mário Rocha é um cantor dos anos 60, amigo de Wanderléa, um gênio da música psicodélica brasileira. Precursor dos Mutantes, Novos Baianos, Doces Bárbaros, do Tropicalismo e de qualquer manifestação artística musical do gênero, suas músicas e filmes em que aparece são sempre manifestações da vida hippie e, diria até, dos marginais artistas dos anos 70. O filme vem por depoimentos de amigos, familiares, contemporâneos, artistas, construir a imagem de um gênio esquecido e desaparecido do mundo.

Os filmes em super-8 que ajudam na composição desse documentário são todos datados e representam as manifestações de um aglomerado hippie que convivia com Mário. Vemos seu disco, ouvimos ensaios, conhecemos a família, até uma pessoa da platéia, quando foi sentar-se pra ver o filme, falou: vamos ver o filme do Mário, como uma amiga íntima ou conhecida de outros carnavais.

Tudo vai muito bem no filme de biografia, de conclusão de curso do pessoal da ECA, até que, quando chegamos nos minutos finais uma surpreendente reviravolta nos faz pensar que estamos num trote de 1° de Abril. Os créditos confirmam a brincadeira e o filme ganha dimensões ilimitadas, sorrisos e aplausos de muita adimração. A platéia, ainda incrédula, insiste nas perguntas sem querer ouvir a mesma resposta do jovem diretor. A pergunta que não ouvi foi: por quê você fez assim? Mas, acredito que a resposta que ele não precisou dar foi: Porque eu quis.

Ainda no debate, a cada nova pergunta eu ria mais e mais, surpresa com o final como todos, não posso dizer que escapei da brincadeira, mas compreendi e me diverti bastante. Nos olhares de todos para o diretor, uma mistura de admiração e incredulidade. Nos olhos do diretor para todos, a certeza de que o filme atingiu seu objetivo e um sorriso de canto de boca era percebido. E, aparentemente tranqüilo, vencia as perguntas do pessoal, ainda preocupados com o tema, que, no fim das contas, nem importava tanto.


O Aborto dos Outros

Sim, este é mais um filme de aborto. Não, ele não é polêmico. Diante de uma sala cheia, a única coisa que a diretora diz na abertura de seu filme é a mais desnecessária: conta uma história de uma amiga na adolescência que fez um aborto e ela a recriminou na época.

Há pouco tempo escrevi sobre 4 meses, 3 semanas e 2 dias, um filme romeno que trata do aborto clandestino que uma jovem realiza com a ajuda da amiga. Recém-lançado nos cinemas brasileiros, Juno, outra ficção, conta o caso de uma adolescente americana que engravida e resolve ter a criança e entregá-la para adoção. O tema da gravidez não programada é recorrente e suas razões são óbvias. Aqui no Brasil, onda há leis que proibem o aborto, muitas mulheres morrem por optarem fazê-lo na clandestinidade. As informações sobre as possibilidades de realizá-lo dentro da lei são escassas e poucas pessoas estão aptas a dá-las corretamente.

O Aborto dos Outros é um documentário que exibe e relata as experiências de mulheres que realizaram abortos em diferentes situações e por diversas razões. Encontramos também, depoimentos de médicos que concordam com o aborto e argumentam. Tirando a infelicidade da abertura na fala da diretora, seu filme é muito bem feito e sensível. Ao tempo que percebemos a dor das envolvidas e sua força e determinação no que vão fazer ou fizeram, nos incomodamos com a frieza dos procedimentos.

A idéia de correr o risco de engravidar e pensar na possibilidade do aborto é sempre uma questão delicada pra mim e, ainda que não tenha passado pela experiência, é recorrente em meus pensamentos. O procedimento do aborto me abala tanto quanto de um estupro. Imaginar a interrupção de uma vida, as dores físicas, o sofrimento do corpo é tão forte quanto a marca que deve ficar para a vida. E nesse filme, ver as pernas abertas das mulheres e saber o que vai acontecer, ver o líquido amniótico de uma adolescente escorrer por suas pernas e saber que a criança não vai nascer, é muito triste. Ver uma menina que, além de estuprada, vai fazer o aborto já é chocante o suficiente. Mas, ao mesmo tempo que lido com a agonia, sou atraída para o tema e, volta e meia, aparece um filme como esse e estou do lado para conhecer mais.

Dos aspectos fílmicos, só me incomodei com a ausência dos pares. Claro que não esperamos que o estuprador apareça ou que o marido violento participe, mas onde a culpa não é masculina e poderíamos ouvir sua voz, ela não aparece. Entendo que seja um filme de mulher, mas não precisamos calar a voz dos homens para tanto. Os únicos momentos em que eles estão são de depoimentos abalizados, médicos e professores. Sem querer pesar a importância das falas científicas num filme que tenta partir apenas dos processos e não da polêmica, o filme se fecha sem maiores problemas e nos encaminhamos ao debate.

Da minha parte, já estava satisfeita para ir pra casa, morrendo de frio e esperando as palavras finais, mas as mulheres defensoras da pátria amada resolveram falar mais e mais e, mais uma vez, os homens poucas vezes tiveram seu momento. Afinal, quem vai discutir um tema desses com várias participantes de órgãos de proteção às mulheres? Tudo ia bem, até que apareceu uma senhora que interpretou o filme sob uma ótica mais defensora da vida e ainda assim, a favor do aborto, que conseguiu confundir todos. E ela perguntava por que a diretora havia escolhido aqueles personagens, por que não outros, por que não fez daquele jeito e começou uma longa fala sobre, resumindo, por que a diretora não fez outro filme. Depois de muito ouvir, de pedir para que os exaltados se acalmassem e parassem de atirar pedras com olhares para esta senhora, a diretora respondeu: porque eu quis fazer assim. Palmas surtiram da platéia como um grande xelp à descontente senhora. Um outro garoto perguntou sobre ponto de vista, já que faltam falas no filme que sejam a favor da proibição total do aborto e uma resposta similar apareceu.

É uma pena que este debate tenha se perdido para seu conteúdo, mas temas polêmicos se sobressaem às formas, paciência. A única coisa que me deixa triste é idéia que ela deixou marcada no início de sua noite: que seu filme foi a redenção para a culpa que sentia por ter recriminado a amiga. Mas, ainda assim, vencer um debate com a coragem de defender uma obra tão autoral é sempre interessante, ainda que esperado.

No fim da noite já estava cansada pelos filmes e alegre pelos debates loucos, mas pude perceber que é cada vez mais forte a autoria presente nos documentários, a vontade de fazer e a simplicidade das abordagens. Não adianta querer abraçar o mundo com as mãos, como já disse aqui e estes dois documentaristas entenderam isso muito bem. A finalidade de um festival é essa, ampliar nossos horizontes para o ver, conhecer e fazer filmes. Descobrir novas idéias e entender que o universo da construção em cinema é muito amplo e ainda há talentos a serem descobertos, como esses dois e eu, que de repente me descubro por aí.
Share
Tweet
Pin
Share
2 Comentários

A despeito do que meus amigos conhecedores de Bob Dylan me disseram acerca de seu filme, venci seus preconceitos com a minha ignorância e fui ao cinema. A conclusão que cheguei junto a meu companheiro de jornada cinematográfica foi a de que se fosse um filme sobre os Beatles, seria bem melhor. O problema não está em Bob Dylan e seu inquestionável talento, mas na lacuna de conhecimento sobre ele em minha trajetória. O que posso dizer do filme, portanto, concerne muito mais ao aspecto fílmico do que ao que tentou representar.

O filme trata principalmente do momento em que se acredita haver uma transição musical e de comportamento do cantor. É bem aquela música que Elis Regina canta, Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude, tá em casa, guardado por Deus, contando vil metal... E, enquanto vemos todos os atores que o interpretam se revezarem na tela para expressar seus motivos, o que notamos é que o problema não está simplesmente na transformação do estilo do artista, mas em uma mudança de pensamento ou no seu próprio descrédito em tudo, agora finalmente revelado e cuspido na frente de todos. E os atores, muito bem escolhidos e dirigidos, conseguem ser um único Bob Dylan, sendo todos controversos e absolutamente diferentes entre si, na fala, no comportamento, no olhar. Cada um expressa um momento na carreira do cantor – com os filhos, drogas, viagens, crença, reclusão – mas, alternados na sequencia lógica do filme, ao tempo que nos apresentam os vários aspectos de sua vida, se repetem na questão da aceitação popular, sempre alta e contraditória.

Para mim, cuja infância foi recheada de Beatles e Rolling Stones, Bob Dylan passou apenas nas coletânias de sucesso, como aquele cd que todo mundo tem para dizer que gosta e conhece. Aproveitando a deixa, relembro do trailer do filme do Martin Scorsese sobre os Stones a ser lançado em breve, que parece ser muito bom. Para quem pouco conhece Bob, como eu, fica um espaço vazio nos vai-e-véns da história, nos embates políticos e até nos personagens que o circundam. O que fica em segundo plano é mais assimilado e é a partir disso que vamos tecendo os reais motivos para conhecê-lo melhor. Bob Dylan é o cantor da geração Nixon e Kennedy, da Guerra do Vietnã, onde desacreditar em seu país era no mínimo, plausível, como hoje aliás, ainda é. Desde cedo, enfrentando politicamente as injustiças sociais com suas canções, acredito que ele não viu mais como seguir desta forma e, assim como o mundo mudava radicalmente, as músicas acompanhavam o ritmo. Elvis tinha passado, os Beatles foram contemporâneos e também controversos, a música norte-americana tomava outro rumo, assim como os idealismos e as ilusões que se desfaziam.

Conhecer um pouco a obra de Bob Dylan tem um aspecto positivo; ao passo que as músicas cobriam os eventos na tela, eu recordava um ou outro trecho e reconhecia a importância do cantor e sua qualidade musical e, ainda que não seja muito fã de sua voz, a harmonia entre música e letra se faz sempre natural. O filme é estranho, mas fez recordar Zelig, de Woody Allen, com a construção documental de um personagem que não existe ou existiu em vida. Acredito que Não estou lá procura criar um Bob Dylan a partir da compilação de vários momentos de sua vida, mas aglomera um emaranhado de confusões e os desavisados encontram monotonia e um eterno jogo de entendimento, para descobrir trechos de músicas em falas e momentos chaves de um artista admirado por todos.

Ainda que o roteiro se perca um pouco tentando abraçar o mundo com as mãos, temos que dar vivas a fotografia do filme, que, para cada Bob Dylan criou um conceito, com as atuações muito bem marcadas e coloridas devidamente. Assistimos a surpreendente transformação de Cate Blanchet, Cristian Bale e Ben Whishaw (lembram de O Perfume?) a lembranca do Heath Ledger, a manutenção da atuação de Richard Gere (que consegue ser o mesmo em todos os filmes) a trilha sonora, como não deixaria de ser e as supostas entrevistas documentais que, de tão bem feitas, parecem mais reais do que o filme, mesmo sendo mais falsas do que qualquer verdade dita por estes personagens. Acredito ainda que, ao contrário dos meus amigos conhecedores e seus preconceitos contra Cate Blanchet se tornar Bob Dylan, existe uma chance de se identificarem muito mais com o filme e com as histórias do que a minha ignorância impediu de associar. O maior demérito talvez seja esse, confundir os leigos e entregar a glória aos cultos.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
    Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
  • Spotlight
    Spotlight
  • Livro da Semana - Física em seis lições
    Livro da Semana - Física em seis lições
  • Amy
    Amy

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose