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Café: extra-forte

Hoje foi meu último dia no Festival É Tudo Verdade deste ano. O que pude descobrir com os filmes que assisti só perde para a quantidade de idéias que apareceram nesse ínterim. Quando trabalhava em Salvador, estava muito longe do cinema, do fazer, ver, estudar, conhecer gente. Claro que aqui as oportunidades surgem com muito mais freqüência e facilidade e a conseqüência disso é que nossa cabeça começa a funcionar.

Conheço muita gente que não suporta o cinema brasileiro. Desse tanto, muito mais da metade não assiste documentário. De país nenhum. Uma outra parte diz que não é filme. Não vou defender o documentário aqui, acho que é um gênero importante como todos os outros, com suas características e não por isso mais pobre em relação aos demais. Mas este festival apenas de documentários tem uma riqueza de informações, formas, estéticas, que lota salas de cinema e provoca acirradas discussões, sobre seus temas e, mais importante, sobre a forma. Um dos problemas nas discussões sobre estes filmes é, muitas vezes, a importância é dada ao tema em detrimento do ponto de vista. Ainda assim, conseguimos alcançar o formato e estar mais perto da equipe e não do assunto.

Esta foi a noite de Procura-se e O aborto dos outros. Enquanto o primeiro tenta resgatar a memória de um artista, o outro trata da questão do aborto. O que estes dois filmes têm em comum é a coragem de seus autores, que defenderam perante um público crítico e, muitas vezes, chato, seu ponto de vista, sua soberania frente ao produto de suas criações tão originais.


Procura-se

Mário Rocha é um cantor dos anos 60, amigo de Wanderléa, um gênio da música psicodélica brasileira. Precursor dos Mutantes, Novos Baianos, Doces Bárbaros, do Tropicalismo e de qualquer manifestação artística musical do gênero, suas músicas e filmes em que aparece são sempre manifestações da vida hippie e, diria até, dos marginais artistas dos anos 70. O filme vem por depoimentos de amigos, familiares, contemporâneos, artistas, construir a imagem de um gênio esquecido e desaparecido do mundo.

Os filmes em super-8 que ajudam na composição desse documentário são todos datados e representam as manifestações de um aglomerado hippie que convivia com Mário. Vemos seu disco, ouvimos ensaios, conhecemos a família, até uma pessoa da platéia, quando foi sentar-se pra ver o filme, falou: vamos ver o filme do Mário, como uma amiga íntima ou conhecida de outros carnavais.

Tudo vai muito bem no filme de biografia, de conclusão de curso do pessoal da ECA, até que, quando chegamos nos minutos finais uma surpreendente reviravolta nos faz pensar que estamos num trote de 1° de Abril. Os créditos confirmam a brincadeira e o filme ganha dimensões ilimitadas, sorrisos e aplausos de muita adimração. A platéia, ainda incrédula, insiste nas perguntas sem querer ouvir a mesma resposta do jovem diretor. A pergunta que não ouvi foi: por quê você fez assim? Mas, acredito que a resposta que ele não precisou dar foi: Porque eu quis.

Ainda no debate, a cada nova pergunta eu ria mais e mais, surpresa com o final como todos, não posso dizer que escapei da brincadeira, mas compreendi e me diverti bastante. Nos olhares de todos para o diretor, uma mistura de admiração e incredulidade. Nos olhos do diretor para todos, a certeza de que o filme atingiu seu objetivo e um sorriso de canto de boca era percebido. E, aparentemente tranqüilo, vencia as perguntas do pessoal, ainda preocupados com o tema, que, no fim das contas, nem importava tanto.


O Aborto dos Outros

Sim, este é mais um filme de aborto. Não, ele não é polêmico. Diante de uma sala cheia, a única coisa que a diretora diz na abertura de seu filme é a mais desnecessária: conta uma história de uma amiga na adolescência que fez um aborto e ela a recriminou na época.

Há pouco tempo escrevi sobre 4 meses, 3 semanas e 2 dias, um filme romeno que trata do aborto clandestino que uma jovem realiza com a ajuda da amiga. Recém-lançado nos cinemas brasileiros, Juno, outra ficção, conta o caso de uma adolescente americana que engravida e resolve ter a criança e entregá-la para adoção. O tema da gravidez não programada é recorrente e suas razões são óbvias. Aqui no Brasil, onda há leis que proibem o aborto, muitas mulheres morrem por optarem fazê-lo na clandestinidade. As informações sobre as possibilidades de realizá-lo dentro da lei são escassas e poucas pessoas estão aptas a dá-las corretamente.

O Aborto dos Outros é um documentário que exibe e relata as experiências de mulheres que realizaram abortos em diferentes situações e por diversas razões. Encontramos também, depoimentos de médicos que concordam com o aborto e argumentam. Tirando a infelicidade da abertura na fala da diretora, seu filme é muito bem feito e sensível. Ao tempo que percebemos a dor das envolvidas e sua força e determinação no que vão fazer ou fizeram, nos incomodamos com a frieza dos procedimentos.

A idéia de correr o risco de engravidar e pensar na possibilidade do aborto é sempre uma questão delicada pra mim e, ainda que não tenha passado pela experiência, é recorrente em meus pensamentos. O procedimento do aborto me abala tanto quanto de um estupro. Imaginar a interrupção de uma vida, as dores físicas, o sofrimento do corpo é tão forte quanto a marca que deve ficar para a vida. E nesse filme, ver as pernas abertas das mulheres e saber o que vai acontecer, ver o líquido amniótico de uma adolescente escorrer por suas pernas e saber que a criança não vai nascer, é muito triste. Ver uma menina que, além de estuprada, vai fazer o aborto já é chocante o suficiente. Mas, ao mesmo tempo que lido com a agonia, sou atraída para o tema e, volta e meia, aparece um filme como esse e estou do lado para conhecer mais.

Dos aspectos fílmicos, só me incomodei com a ausência dos pares. Claro que não esperamos que o estuprador apareça ou que o marido violento participe, mas onde a culpa não é masculina e poderíamos ouvir sua voz, ela não aparece. Entendo que seja um filme de mulher, mas não precisamos calar a voz dos homens para tanto. Os únicos momentos em que eles estão são de depoimentos abalizados, médicos e professores. Sem querer pesar a importância das falas científicas num filme que tenta partir apenas dos processos e não da polêmica, o filme se fecha sem maiores problemas e nos encaminhamos ao debate.

Da minha parte, já estava satisfeita para ir pra casa, morrendo de frio e esperando as palavras finais, mas as mulheres defensoras da pátria amada resolveram falar mais e mais e, mais uma vez, os homens poucas vezes tiveram seu momento. Afinal, quem vai discutir um tema desses com várias participantes de órgãos de proteção às mulheres? Tudo ia bem, até que apareceu uma senhora que interpretou o filme sob uma ótica mais defensora da vida e ainda assim, a favor do aborto, que conseguiu confundir todos. E ela perguntava por que a diretora havia escolhido aqueles personagens, por que não outros, por que não fez daquele jeito e começou uma longa fala sobre, resumindo, por que a diretora não fez outro filme. Depois de muito ouvir, de pedir para que os exaltados se acalmassem e parassem de atirar pedras com olhares para esta senhora, a diretora respondeu: porque eu quis fazer assim. Palmas surtiram da platéia como um grande xelp à descontente senhora. Um outro garoto perguntou sobre ponto de vista, já que faltam falas no filme que sejam a favor da proibição total do aborto e uma resposta similar apareceu.

É uma pena que este debate tenha se perdido para seu conteúdo, mas temas polêmicos se sobressaem às formas, paciência. A única coisa que me deixa triste é idéia que ela deixou marcada no início de sua noite: que seu filme foi a redenção para a culpa que sentia por ter recriminado a amiga. Mas, ainda assim, vencer um debate com a coragem de defender uma obra tão autoral é sempre interessante, ainda que esperado.

No fim da noite já estava cansada pelos filmes e alegre pelos debates loucos, mas pude perceber que é cada vez mais forte a autoria presente nos documentários, a vontade de fazer e a simplicidade das abordagens. Não adianta querer abraçar o mundo com as mãos, como já disse aqui e estes dois documentaristas entenderam isso muito bem. A finalidade de um festival é essa, ampliar nossos horizontes para o ver, conhecer e fazer filmes. Descobrir novas idéias e entender que o universo da construção em cinema é muito amplo e ainda há talentos a serem descobertos, como esses dois e eu, que de repente me descubro por aí.
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A despeito do que meus amigos conhecedores de Bob Dylan me disseram acerca de seu filme, venci seus preconceitos com a minha ignorância e fui ao cinema. A conclusão que cheguei junto a meu companheiro de jornada cinematográfica foi a de que se fosse um filme sobre os Beatles, seria bem melhor. O problema não está em Bob Dylan e seu inquestionável talento, mas na lacuna de conhecimento sobre ele em minha trajetória. O que posso dizer do filme, portanto, concerne muito mais ao aspecto fílmico do que ao que tentou representar.

O filme trata principalmente do momento em que se acredita haver uma transição musical e de comportamento do cantor. É bem aquela música que Elis Regina canta, Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude, tá em casa, guardado por Deus, contando vil metal... E, enquanto vemos todos os atores que o interpretam se revezarem na tela para expressar seus motivos, o que notamos é que o problema não está simplesmente na transformação do estilo do artista, mas em uma mudança de pensamento ou no seu próprio descrédito em tudo, agora finalmente revelado e cuspido na frente de todos. E os atores, muito bem escolhidos e dirigidos, conseguem ser um único Bob Dylan, sendo todos controversos e absolutamente diferentes entre si, na fala, no comportamento, no olhar. Cada um expressa um momento na carreira do cantor – com os filhos, drogas, viagens, crença, reclusão – mas, alternados na sequencia lógica do filme, ao tempo que nos apresentam os vários aspectos de sua vida, se repetem na questão da aceitação popular, sempre alta e contraditória.

Para mim, cuja infância foi recheada de Beatles e Rolling Stones, Bob Dylan passou apenas nas coletânias de sucesso, como aquele cd que todo mundo tem para dizer que gosta e conhece. Aproveitando a deixa, relembro do trailer do filme do Martin Scorsese sobre os Stones a ser lançado em breve, que parece ser muito bom. Para quem pouco conhece Bob, como eu, fica um espaço vazio nos vai-e-véns da história, nos embates políticos e até nos personagens que o circundam. O que fica em segundo plano é mais assimilado e é a partir disso que vamos tecendo os reais motivos para conhecê-lo melhor. Bob Dylan é o cantor da geração Nixon e Kennedy, da Guerra do Vietnã, onde desacreditar em seu país era no mínimo, plausível, como hoje aliás, ainda é. Desde cedo, enfrentando politicamente as injustiças sociais com suas canções, acredito que ele não viu mais como seguir desta forma e, assim como o mundo mudava radicalmente, as músicas acompanhavam o ritmo. Elvis tinha passado, os Beatles foram contemporâneos e também controversos, a música norte-americana tomava outro rumo, assim como os idealismos e as ilusões que se desfaziam.

Conhecer um pouco a obra de Bob Dylan tem um aspecto positivo; ao passo que as músicas cobriam os eventos na tela, eu recordava um ou outro trecho e reconhecia a importância do cantor e sua qualidade musical e, ainda que não seja muito fã de sua voz, a harmonia entre música e letra se faz sempre natural. O filme é estranho, mas fez recordar Zelig, de Woody Allen, com a construção documental de um personagem que não existe ou existiu em vida. Acredito que Não estou lá procura criar um Bob Dylan a partir da compilação de vários momentos de sua vida, mas aglomera um emaranhado de confusões e os desavisados encontram monotonia e um eterno jogo de entendimento, para descobrir trechos de músicas em falas e momentos chaves de um artista admirado por todos.

Ainda que o roteiro se perca um pouco tentando abraçar o mundo com as mãos, temos que dar vivas a fotografia do filme, que, para cada Bob Dylan criou um conceito, com as atuações muito bem marcadas e coloridas devidamente. Assistimos a surpreendente transformação de Cate Blanchet, Cristian Bale e Ben Whishaw (lembram de O Perfume?) a lembranca do Heath Ledger, a manutenção da atuação de Richard Gere (que consegue ser o mesmo em todos os filmes) a trilha sonora, como não deixaria de ser e as supostas entrevistas documentais que, de tão bem feitas, parecem mais reais do que o filme, mesmo sendo mais falsas do que qualquer verdade dita por estes personagens. Acredito ainda que, ao contrário dos meus amigos conhecedores e seus preconceitos contra Cate Blanchet se tornar Bob Dylan, existe uma chance de se identificarem muito mais com o filme e com as histórias do que a minha ignorância impediu de associar. O maior demérito talvez seja esse, confundir os leigos e entregar a glória aos cultos.
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Hoje é um daqueles dias que nos mudam para sempre. Sabe quando você se pega parado pensando e tem a certeza de que naquele momento, alguma coisa mudou? Alguma coisa muito forte, ainda que você não saiba direito o que é, apenas sinta. Hoje foi a noite em que eu vi Na Natureza Selvagem.


É um daqueles filmes que você pede muito pra que não acabe, porque a estória tomou um rumo tão interessante, te despertou tantos desafios e questões e é tão bem feito que não precisa acabar. Quando acabar, não tenha dúvida, vai ter deixar pensando por milênios. Na Natureza Selvagem, que eu insisto em digitar No Coração Selvagem(o livro de Clarice que não li - Perto do Coração Selvagem), de tão coração que ele é, trata da história de um garoto americano que, ao se graduar na faculdade, resolve desaparecer da vida de seus pais e de sua irmã para viver sua própria vida, rumo ao Alasca.

O mais importante desse filme é assistí-lo. Não vou pesquisar na internet sua trajetória, porque sei que deve ser cheio de prêmios. O filme é baseado na história real de Alexander Supertramp, como gostava de se chamar, ou Christopher McCandless e é narrado por sua irmã Carine. A viagem de Alexander Supertramp é de conhecimento. É uma experiência extrema, onde ele busca o isolamento total da sociedade, mas, para chegar nisso, invade a privacidade e entra ainda mais nela. Alexander conhece muitas pessoas em seu caminho de andarilho, trabalha e vive relacionamentos mais íntimos do que o que tinha com seus pais. O isolamento que ele busca é justamente da família que ele rejeita, que não o compreende, mas o aceita. E ele não os compreende, não os aceita e não os perdoa.
Emile Hirsch
Enquanto Alexander vive seus dilemas e põe em questionamento as pessoas que passam por sua vida - e aí temos que brindar à fantástica atuação destes coadjuvantes - trechos e mais trechos de autores fundamentais são citados por ele, são os livros que lhe fazem companhia e ajudam durante suas viagens, Tolstói, Byron, Thoreau entre outros. E, mesmo para quem nunca tenha lido a maioria destes autores, seus trechos nos fazem refletir e percebemos que também começamos a nos questionar durante a exibição. Solidão, morte, felicidade, amor, família, amigos. São significados muito particulares e que, cada uma dessas palavras, já carrega um imenso potencial. No filme, encontramos com Alexander uma parte de suas definições e saímos dele, reconhecendo que o que descobrimos ainda é muito pouco para atestarmos qualquer coisa. Por isso saí calada. Saí com um nó na garganta e uma agonia, como essas em que tentamos dizer as coisas e sabemos que não vamos conseguir, porque o nó vai se desatar e um rio correrá dos nossos olhos. Então, saímos calados, pensando...pensando... até que vamos digerindo tudo aos poucos e conseguimos um sorriso. Esse é o resultado de um bom filme.

Na Natureza Selvagem é dirigido por Sean Penn, que depois de trilhar uma carreira de ator inquestionável, se desenvolve com o mesmo potencial na direção. Para Emile Hirsch, o protagonista, nada além de muito aplauso. Ele, só com esse filme, se tornou um dos melhores atores de sua geração. Como trata-se também de um road movie, conseguimos imagens surpreendentes dos Estados Unidos, aquelas que raramente vemos em seus filmes. É uma obra que trata de pessoas, de suas vidas, de suas emoções e descobertas. As pessoas que atravessam a vida de Alexander durante seu percurso não apenas admiram sua coragem, sem compreender seu motivo, como, de alguma forma, se identificam com ele e o ajudam, afinal, estamos sempre a procura de quem somos. E os atores que interpretam estes passantes garantem esse resultado tão íntimo e próprio de todos, do sentimento. O filme consegue não se firmar apenas com uma história bem contada, mas sua equipe, em todos os setores merece prêmios. Os gráficos deste filme, os textos citados com letra corrida, condizem muito bem com a história contada, já que foi extraída de um diário-livro e vemos o protagonista escrevendo e lendo todo o tempo. A montagem, que volta e meia altera o percurso do contar da história vai construindo seus personagens de forma que, ao final do filme, conseguimos um apanhado de todos muito bom, até daqueles que pouco aparecem, mas dão sentido à trama e tornam-se fundamentais.
O real Alexander Supertramp
Acredito que Clarice, que escreveu Perto do Coração Selvagem iria se identificar bastante Na Natureza Selvagem deste filme, ainda que o universo dele gire em torno de um jovem rapaz. Como Clarice, em seus textos, esse filme, ainda que parta de um diário e de impressões próprias a um indivíduo, entra em nossas vidas como se nós fôssemos também protagonistas de sua história. Nunca sabemos realmente o que nos muda, ou como nós mudamos. Sentimos e vemos no olhar das pessoas que nos conhecem e algumas delas podem até dizer: tem alguma coisa diferente em você, não sei o que é, só sei que tem. Espero que todos que vejam esse filme descubram algumas respostas que ele nos provoca com seus questionamentos. Da minha parte, reconheço um aumento considerável da saudade de meus amores e a identificação com um pedaço da aventura de Alexander, aquela em que nos permitimos ir em busca de conquistar nossos objetivos, ainda que enfrentemos os obstáculos do caminho.

Se o filme não chegou aí ainda, visite o site.
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Ontem fiquei na dúvida do que ia restar do meu domingo de ócio e Páscoa; o tempo não ia nem vinha e as praias, como sempre, muito cheias. Resolvi conhecer o Centro Cultural Banco do Brasil e aproveitei pra ver as exposições que estavam rolando.

O CCBB fica na esquina da Igreja da Candelária, no Centro do Rio, aquela da chacina em 93, quando mataram quase dez crianças e jovens moradores de rua. Aquela mesma chacina em que um dos sobreviventes foi Sandro, o sequestrador do ônibus 174, anos depois. Só aqui eu soube o que siginficava isso tudo, já que vi os moradores de rua, a Igreja da Candelária e entendi a linha que o 174 fazia (Gávea – Central do Brasil).

As exposições que estão rolando por aqui são: Família Ferrez e Os Trópicos – Visões a partir do Centro do Globo. Ia tudo bem comigo no ônibus que dava no centro da cidade até que o cobrador disse, quando eu perguntei se estava perto: você vai pro CCBB, né? Então, se você der sorte e o sinal fechar, você salta na porta, se não... só depois da Candelária. É óbvio que ao ouvir Candelária, “chacina” apareceu na minha cabeça e pensei, como menina de classe média besta: meninos de rua, assalto e o fim do meu circuito cultural num dos marcos de violência da cidade, mas evitei sofrer muito. Fiz cara de “droga, me lenhei” e falei pro cobrador: relaxe, vou dar sorte. Ele riu e continuamos nosso percurso. 

Como sou realmente uma pessoa de sorte, agradeci milhões ao cobrador e motorista, Deus, Todos os Santos e Orixás e pulei de alegria do ônibus para o portão do CCBB. É um prédio grande e amplo, com teatros, cinemas, auditórios, salões de exposição e um café. A exposição Os Trópicos já começa no andar 1 (aqui no Rio eles abstraíram o "térreo"). De cima a baixo, no centro do prédio há uma abóbada toda ornamentada com uma peça imensa que fizeram para compor. Há os bancos para sentar e deitar no centro, para observarmos. É uma visão interessante.

Subi para a exposição. Peças artesanais, fotografias, pinturas, tecidos, roupas, música, vídeo-instalações, documentário. Algumas são do Museu Etnográfico de Berlim e outras coletadas pelo mundo: Etiópia, África do Sul, Brasil, Espanha, Indonésia, Suíça e mais uns aí. É dessas exposições que você passa um tempão e tenta guardar tudo na memória. Claro que com a que eu tenho, pouco fica. O que mais surpreendeu foi o vídeo sobre Ruanda. Filmado lá, tratava em sete capítulos, do genocídio de 1995. Como sabemos, mais de 500.000 pessoas foram assassinadas a facão, a grande maioria da etnia tutsi.

O que importa neste filme é a forma. Ele não era um documentário de depoimento ou uma ficção, como Hotel Ruanda (2004). O filme tratava não do epicentro do conflito, mas das montanhas, onde algumas famílias viviam das plantações de café – a principal economia do país. Crianças, jovens, idosos, mulheres. Mostrou-se o massacre, como era impossível não fazê-lo, mas desfocado, para que víssemos as ações criminais mas não passássemos por mais desconforto além do inevitável. Mostrava ainda, o vazio após o incidente e a tristeza nos olhos das pessoas. Foi um filme que me prendeu, parei para ver todos os capítulos. Eram dois telões com imagens simultâneas, com a montagem combinada que tornava dois vídeos em um só. Como era de se esperar, não saí me sentindo bem do vídeo, mas entendi a proposta e aprendi com ela e com a história que foi contada. 


Depois de muito caminhar nos Trópicos, achei que conseguiria ver os Ferrez tirando fotos. Vi, mas cansada do monte de cultura que tinha engolido de uma só vez. A fotos dos Ferrez são muito boas e antigas, datam até os anos 60 do último século e, em sua maioria, são paisagens do Brasil de norte a sul. O que mais me interessou nessa exposição foram as fotos de família e quando eram fotografadas pessoas. Para mim, as fotos tornavam-se muito mais interessantes, porque víamos como as pessoas andavam, se vestiam e se portavam diante das câmeras. Muito mais legal que as paisagens, não querendo diminuí-las. 

Saindo de lá, mais terrorismo. O taxista infame da porta do CCBB me informou que eu teria que pegar o ônibus pertinho da Candelária, que era pra eu ter cuidado e andar atenta. Ele praticamente disse: você vai ser assaltada. Mais uma vez, contei com a ajuda do pessoal do plano astral e fui em frente. Quando cheguei no ponto, vi que as pessoas de rua realmente moram ali e não são poucas, mas ficam mais longe, do outro lado da rua e estavam tranquilas, deitadas ou quietas. Peguei meu coletivo e segui para casa, sem crises. Estou gostando desta terra.

Observação fundamental: Juro que pensei em comprar o livro da Expo dos Trópicos para mostrar ao povo da pátria amada, mas era 60 reais e fiquei tímida. :P
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"Esse cara tinha que pôr o pé aí?"
Carlos Drummond de Andrade
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Entender do que trata o Amarelo Manga é perceber o Brasil sob um viés radical e crítico. Cláudio Assis trouxe para nós o que há de sujo e pobre em Recife, uma das capitais de potencial de efervescência cultural do país. Este não é simplesmente um filme de apresentação do grotesco, mas um retrato de nós que não queremos colocar em nossos álbuns.

Atualmente, o cinema brasileiro vive um momento de retomada. Bastante visado, esse período procurou transcrever para as telas o que se vê no cotidiano. Houve Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003), Amarelo Manga, apenas citando os mais violentos e de mais sucesso e/ou polêmica. O interessante é perceber que a violência destes filmes é o que mais marca o espectador; ao assistir um filme americano, passaria desapercebida. Por que, então, a nossa violência nos assusta?

Porque não a queremos como nossa. Não a entendemos como parte de nós, agravada por condições sub-humanas de existência mínima. A violência em Amarelo Manga é da classe pobre, dos mestiços, dos escravos revoltos, das classes perigosas¹. A classe média, tão próxima dessa condição, a repudia, sustentando-se no tênue fio da esperança de um dia fazer parte da facção abastada.

Em Amarelo Manga, o diretor tenta nos mostrar a classe perigosa vista de dentro, de quem faz parte dela. São os moradores do Texas Hotel - que nada mais é, senão uma rememoração dos antigos cortiços - os da favela, o faz-tudo do hotel, o padre sem fiéis, a dona do bar, o açougueiro, sua mulher. Pessoas sem esperança de qualquer ascensão na vida social, que assumem o que são, sem nem entender como. Esta é componente da identidade nacional, em grande parte rejeitada pelas classes privilegiadas. Há uma aceitação da classe pobre, mas não a assimilação do que ela é e de que ela faz parte do todo, um tanto por não aceitar suas origens e outro por simplesmente não entendê-las e aí entra o preconceito com a adoção do conceito de classe perigosa, surgindo em meados do século dezenove na França e incrustado erroneamente na carne brasileira.

Ao que se sabe, a classe pobre se formou no país enquanto colônia, a partir de um setor já marginalizado em sua metrópole. Imigrantes aportaram aqui e alguns conseguiram realizar fortunas, já outros, permaneceram tal qual em Portugal. Havia ainda os escravos e os colonos. A cada setor cabia sua função. Ao branco pobre livre, o trabalho informal, o descaimento para o crime – seja por subsistência ou vadiagem – ou uma vida de favores, o escambo com os colonos, causando uma dependência, um vírus que até hoje contamina nossa identidade. Ainda aqui percebemos o filme; o jeitinho brasileiro ou o favor de outrora funciona no câmbio de um necrófilo com um policial, um cadáver por maconha.

O hotel, moradia de maior parte dos personagens não passa de um cortiço tal qual Aluísio Azevedo descreve ou relembrando as antigas pensões do início do século. Abriga toda a sorte de pessoas e lá é quase onde todos se encontram. Texas Hotel, nome dado ao curta, que é uma prévia do filme em questão, simboliza a decadência de uma cidade em ruínas, ou uma versão que quase nunca assistimos em filmes, as ruínas que nunca são reformadas, porque ninguém as vê. É redundante mencionar que esse ninguém é uma exclusão da maior parte da população do país.

O filme ainda aponta, e aí entra uma questão polêmica, dois pontos a se pensar: a circularidade que a rotina daquelas pessoas faz em suas vidas e a percepção de uma camada social visitada por ela mesma, esse é um dos poucos filmes onde não encontramos luta de classes, posto que só vemos uma. A circularidade é marcada no início e fim do filme, com a dona do bar, que significa o amarelo manga, cor-título do filme e da atriz. Notamos que essa rotina anuncia a ruptura com os demais filmes, onde é perceptível o almejo às grandes ambições e desejos; aqui nada foge ao viável, cotidiano nosso, previsível. O visitar de uma classe social por ela mesma. Ora, é sabido que o filme não é feito por alguém do povo, é um classe média. Mas sabemos também que é possível realizar um filme que alie uma classe social com sua característica própria, ainda que nela não se esteja inserido. O Cláudio Assis o faz. Transporta, com seu foco ficcional, a realidade para a tela, trazendo, claro inserções autorais, mas mantendo-se fiel a sua proposta, que é eviscerar a sociedade, denunciando-a.

Esse panorama da pobreza é, por fim, realidade do país em todos os seus estados. Em Recife, Cláudio Assis a interpretou, assustando espectadores mais sensíveis à luz quase apagada do fim do túnel do cotidiano ou apenas trazendo-a para fora, para a emergência luz do dia. É um choque visceral e instintivo. Tendo suas cores – o vermelho sangue e do sangue, o verde escuro, o jogo com claro e escuro, o amarelo, o filme espelha as escoriações sociais que nos permitimos esconder para um convívio ameno.

¹CHALOUB, Sidney. Cortiços in Cidade Febril – Cortiços e Epidemias na Corte Imperial Ed. Companhia das Letras. (pp.20-21)
*texto de 2002
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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