Entender do que trata o Amarelo Manga é perceber o Brasil sob um viés radical e crítico. Cláudio Assis trouxe para nós o que há de sujo e pobre em Recife, uma das capitais de potencial de efervescência cultural do país. Este não é simplesmente um filme de apresentação do grotesco, mas um retrato de nós que não queremos colocar em nossos álbuns.
Atualmente, o cinema brasileiro vive um momento de retomada. Bastante visado, esse período procurou transcrever para as telas o que se vê no cotidiano. Houve Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003), Amarelo Manga, apenas citando os mais violentos e de mais sucesso e/ou polêmica. O interessante é perceber que a violência destes filmes é o que mais marca o espectador; ao assistir um filme americano, passaria desapercebida. Por que, então, a nossa violência nos assusta?
Porque não a queremos como nossa. Não a entendemos como parte de nós, agravada por condições sub-humanas de existência mínima. A violência em Amarelo Manga é da classe pobre, dos mestiços, dos escravos revoltos, das classes perigosas¹. A classe média, tão próxima dessa condição, a repudia, sustentando-se no tênue fio da esperança de um dia fazer parte da facção abastada.
Em Amarelo Manga, o diretor tenta nos mostrar a classe perigosa vista de dentro, de quem faz parte dela. São os moradores do Texas Hotel - que nada mais é, senão uma rememoração dos antigos cortiços - os da favela, o faz-tudo do hotel, o padre sem fiéis, a dona do bar, o açougueiro, sua mulher. Pessoas sem esperança de qualquer ascensão na vida social, que assumem o que são, sem nem entender como. Esta é componente da identidade nacional, em grande parte rejeitada pelas classes privilegiadas. Há uma aceitação da classe pobre, mas não a assimilação do que ela é e de que ela faz parte do todo, um tanto por não aceitar suas origens e outro por simplesmente não entendê-las e aí entra o preconceito com a adoção do conceito de classe perigosa, surgindo em meados do século dezenove na França e incrustado erroneamente na carne brasileira.
Ao que se sabe, a classe pobre se formou no país enquanto colônia, a partir de um setor já marginalizado em sua metrópole. Imigrantes aportaram aqui e alguns conseguiram realizar fortunas, já outros, permaneceram tal qual em Portugal. Havia ainda os escravos e os colonos. A cada setor cabia sua função. Ao branco pobre livre, o trabalho informal, o descaimento para o crime – seja por subsistência ou vadiagem – ou uma vida de favores, o escambo com os colonos, causando uma dependência, um vírus que até hoje contamina nossa identidade. Ainda aqui percebemos o filme; o jeitinho brasileiro ou o favor de outrora funciona no câmbio de um necrófilo com um policial, um cadáver por maconha.
O hotel, moradia de maior parte dos personagens não passa de um cortiço tal qual Aluísio Azevedo descreve ou relembrando as antigas pensões do início do século. Abriga toda a sorte de pessoas e lá é quase onde todos se encontram. Texas Hotel, nome dado ao curta, que é uma prévia do filme em questão, simboliza a decadência de uma cidade em ruínas, ou uma versão que quase nunca assistimos em filmes, as ruínas que nunca são reformadas, porque ninguém as vê. É redundante mencionar que esse ninguém é uma exclusão da maior parte da população do país.
O filme ainda aponta, e aí entra uma questão polêmica, dois pontos a se pensar: a circularidade que a rotina daquelas pessoas faz em suas vidas e a percepção de uma camada social visitada por ela mesma, esse é um dos poucos filmes onde não encontramos luta de classes, posto que só vemos uma. A circularidade é marcada no início e fim do filme, com a dona do bar, que significa o amarelo manga, cor-título do filme e da atriz. Notamos que essa rotina anuncia a ruptura com os demais filmes, onde é perceptível o almejo às grandes ambições e desejos; aqui nada foge ao viável, cotidiano nosso, previsível. O visitar de uma classe social por ela mesma. Ora, é sabido que o filme não é feito por alguém do povo, é um classe média. Mas sabemos também que é possível realizar um filme que alie uma classe social com sua característica própria, ainda que nela não se esteja inserido. O Cláudio Assis o faz. Transporta, com seu foco ficcional, a realidade para a tela, trazendo, claro inserções autorais, mas mantendo-se fiel a sua proposta, que é eviscerar a sociedade, denunciando-a.
Esse panorama da pobreza é, por fim, realidade do país em todos os seus estados. Em Recife, Cláudio Assis a interpretou, assustando espectadores mais sensíveis à luz quase apagada do fim do túnel do cotidiano ou apenas trazendo-a para fora, para a emergência luz do dia. É um choque visceral e instintivo. Tendo suas cores – o vermelho sangue e do sangue, o verde escuro, o jogo com claro e escuro, o amarelo, o filme espelha as escoriações sociais que nos permitimos esconder para um convívio ameno.
¹CHALOUB, Sidney. Cortiços in Cidade Febril – Cortiços e Epidemias na Corte Imperial Ed. Companhia das Letras. (pp.20-21)
Atualmente, o cinema brasileiro vive um momento de retomada. Bastante visado, esse período procurou transcrever para as telas o que se vê no cotidiano. Houve Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003), Amarelo Manga, apenas citando os mais violentos e de mais sucesso e/ou polêmica. O interessante é perceber que a violência destes filmes é o que mais marca o espectador; ao assistir um filme americano, passaria desapercebida. Por que, então, a nossa violência nos assusta?
Porque não a queremos como nossa. Não a entendemos como parte de nós, agravada por condições sub-humanas de existência mínima. A violência em Amarelo Manga é da classe pobre, dos mestiços, dos escravos revoltos, das classes perigosas¹. A classe média, tão próxima dessa condição, a repudia, sustentando-se no tênue fio da esperança de um dia fazer parte da facção abastada.
Em Amarelo Manga, o diretor tenta nos mostrar a classe perigosa vista de dentro, de quem faz parte dela. São os moradores do Texas Hotel - que nada mais é, senão uma rememoração dos antigos cortiços - os da favela, o faz-tudo do hotel, o padre sem fiéis, a dona do bar, o açougueiro, sua mulher. Pessoas sem esperança de qualquer ascensão na vida social, que assumem o que são, sem nem entender como. Esta é componente da identidade nacional, em grande parte rejeitada pelas classes privilegiadas. Há uma aceitação da classe pobre, mas não a assimilação do que ela é e de que ela faz parte do todo, um tanto por não aceitar suas origens e outro por simplesmente não entendê-las e aí entra o preconceito com a adoção do conceito de classe perigosa, surgindo em meados do século dezenove na França e incrustado erroneamente na carne brasileira.
Ao que se sabe, a classe pobre se formou no país enquanto colônia, a partir de um setor já marginalizado em sua metrópole. Imigrantes aportaram aqui e alguns conseguiram realizar fortunas, já outros, permaneceram tal qual em Portugal. Havia ainda os escravos e os colonos. A cada setor cabia sua função. Ao branco pobre livre, o trabalho informal, o descaimento para o crime – seja por subsistência ou vadiagem – ou uma vida de favores, o escambo com os colonos, causando uma dependência, um vírus que até hoje contamina nossa identidade. Ainda aqui percebemos o filme; o jeitinho brasileiro ou o favor de outrora funciona no câmbio de um necrófilo com um policial, um cadáver por maconha.
O hotel, moradia de maior parte dos personagens não passa de um cortiço tal qual Aluísio Azevedo descreve ou relembrando as antigas pensões do início do século. Abriga toda a sorte de pessoas e lá é quase onde todos se encontram. Texas Hotel, nome dado ao curta, que é uma prévia do filme em questão, simboliza a decadência de uma cidade em ruínas, ou uma versão que quase nunca assistimos em filmes, as ruínas que nunca são reformadas, porque ninguém as vê. É redundante mencionar que esse ninguém é uma exclusão da maior parte da população do país.
O filme ainda aponta, e aí entra uma questão polêmica, dois pontos a se pensar: a circularidade que a rotina daquelas pessoas faz em suas vidas e a percepção de uma camada social visitada por ela mesma, esse é um dos poucos filmes onde não encontramos luta de classes, posto que só vemos uma. A circularidade é marcada no início e fim do filme, com a dona do bar, que significa o amarelo manga, cor-título do filme e da atriz. Notamos que essa rotina anuncia a ruptura com os demais filmes, onde é perceptível o almejo às grandes ambições e desejos; aqui nada foge ao viável, cotidiano nosso, previsível. O visitar de uma classe social por ela mesma. Ora, é sabido que o filme não é feito por alguém do povo, é um classe média. Mas sabemos também que é possível realizar um filme que alie uma classe social com sua característica própria, ainda que nela não se esteja inserido. O Cláudio Assis o faz. Transporta, com seu foco ficcional, a realidade para a tela, trazendo, claro inserções autorais, mas mantendo-se fiel a sua proposta, que é eviscerar a sociedade, denunciando-a.
Esse panorama da pobreza é, por fim, realidade do país em todos os seus estados. Em Recife, Cláudio Assis a interpretou, assustando espectadores mais sensíveis à luz quase apagada do fim do túnel do cotidiano ou apenas trazendo-a para fora, para a emergência luz do dia. É um choque visceral e instintivo. Tendo suas cores – o vermelho sangue e do sangue, o verde escuro, o jogo com claro e escuro, o amarelo, o filme espelha as escoriações sociais que nos permitimos esconder para um convívio ameno.
¹CHALOUB, Sidney. Cortiços in Cidade Febril – Cortiços e Epidemias na Corte Imperial Ed. Companhia das Letras. (pp.20-21)
*texto de 2002
Eu vim, mas só porque não teve jeito...
Estava eu aqui, deitada no sofá, lendo a revista da tv do jornal O Globo, quando, na página sete, me deparo com uma aberração. Para quem tem esse exemplar do fim de semana passado, verá aí uma entrevista com o Marcelo Tas, que lançou um programa de tv na Bandeirantes nas noites de domingo. Obviamente não estamos tratando dele, mas da coluna ao lado de sua entrevista, intitulada: Saúde & Beleza.
Tudo ia bem com minha leitura do Marcelo Tas, quando leio "Lipoaspiração de Beverly Hills" e o que me chama mais atenção nesta propaganda em formato de cartão é a loira de biquíni que a acompanha. Ela segura um pote e pense no que tem dentro: sua própria e escandalosa GORDURA! Fiquei pensando que não seria possível tamanho mau gosto assim, escancarado e analisei bem de pertinho. Na propaganda logo abaixo desta há mais um cartão da "Lipoescultura Beverly Hills" e vemos um homem e duas mulheres, agora vestidos, com tarja nos olhos, como fazem com os menores na televisão, segurando sacos cheios de GORDURA!
Eu não posso ser a única pessoa desta terra ensolarada a se assustar com isso... enfim. Foi um desabafo. Mas uma pergunta ainda me cutuca o espírito: Por que os infelizes donos das clínicas acharam interessante pôr as gorduras das pessoas ao lado delas? Elas estão orgulhosas de terem sugado sua gordura numa maquininha? Elas acham que devem compartilhar sua gordura com o resto do país?
Definitivamente, estas propagandas são infinitamente piores do que a primeira da coluna que as acompanha, com uma dentadura imensa em seu cartão e a frase: "Recupere o prazer de comer falar e sorrir".
Ontem foi dia de ver filme. Enquanto o trabalho não chega, faço meu papel de aprendiz de crítica de cinema, assistindo aos filmes e escrevendo sobre eles aqui e em nosso site. O site não dá grana, mas evita gastar. Temos acesso às cabines de imprensa e a possibilidade de dizer o que achamos do filme para que nossos leitores decidam por aí, se quiserem, se assistirão ou não aos filmes. Ontem assisti A Família Savage e Um Amor de Tesouro, ambos com estréias previstas para sexta-feira, 21/03. A foto que acompanha o post corresponde ao estado de ânimo de nossos colegas ao sair da sessão.
Curiosidade: diferente de Salvador, algumas cabines de imprensa daqui são realizadas nos próprios escritórios das distribuidoras, o que significa que elas têm uma sala de cinema bem menor... é como se fôssemos a um cine de 50 lugares. É interessante a experiência. Por isso que na foto não parece um corredor de cinema. :)
Ah! Meu amigo Café é o que faz cara de japinha na foto. Ele é baiano e estuda cine aqui também.

O título não seria tão ruim quanto o filme, caso a tradução fosse exata. Um Amor de Tesouro (Fool's Gold) é a mais nova comédia romântica em cartaz nos cinemas nacionais. Acreditando que a parceria Kate Hudson – Mathew McConaughey faria sucesso independente do roteiro, a equipe do filme achou possível realizar mais este filminho de sessão da tarde.
Ao que tudo indica, a parceria romântica não é de todo mal, mas a impressão que se tem em seus intermináveis 113 minutos é que o filme foi feito em meio à greve de roteiristas e um deles resolveu, em protesto, fazer um trote com o cinema hollywoodiano. Falas desnecessárias, tramas secundárias sem razão de existir ou com pouco desenvolvimento e atuações forçadas engendram o quadro. Como sempre, a química entre o casal protagonista permanece, como vista em Como Perder um Homem em 10 Dias, mas o foco é constantemente desviado para a aventura fraca que envolve o enredo.
Ben Finnegan (Mathew McConaughey) e Tess Finnegan (Kate Hudson) formam um casal de caçadores de tesouros, em crise conjugal, que busca resgatar o acervo de jóias da Coroa espanhola do século XVIII, supostamente naufragado no Caribe. Em meio a viagem em um iate de um milionário (Donald Sutherlad) que pretende reconquistar sua filha adolescente e fútil, encontram um grupo rival com os mesmos interesses. Realizado para o verão americano, Um Amor de Tesouro promete emoção, diversão, corpos sarados e romance, mas cumpre pouco.
Assim como em Piratas do Caribe verificamos que a faixa etária para o filme é preferencial para adolescentes – ainda que seja uma boa trilogia de aventura para todas as idades – este filme tenta seguir a mesma linha. Vilões fracos e caça ao tesouro com a certeza da vitória são os primeiros clichês. Sabemos também que a mocinha ficará com o mocinho e que o bandido perecerá. O que não compreendemos é como o diretor dos sucessos Doce Lar e Hitch – Conselheiro Amoroso cai em tão desanimada produção, ainda que algumas poucas falas sejam auspiciosas e cordiais. Caso você não tenha o que fazer e não queira pensar, veja o filme, uma boa fotografia, impecável figurino e algumas risadas em face ao ridículo são certos.
Um Amor de Tesouro estréia sexta nos cinemas. Você lê mais no Drops.
Pois é... mais um dia na terra maraviosa. Hoje foi dia de filme. O Drops vai receber uma enxurrada de novos textos sobre os filmes que entrarão em cartaz essa semana. Enquanto escrevo sobre eles em parceria com meu digníssimo amigo Café, cada um em seu território, resolvi fazer uma sopinha para alimentar e ser feliz.
Tudo muito simples, tudo muito rápido:
1. Veja o que tem na geladeira. se tiver duas verduras, já tem sopa!!
2. Limpe as verduras, descasque (porque ninguém gosta de agrotóxico) e coloque numa panela com água e caldo de alguma coisa (carne, legumas, peixe, galinha, tanto faz...).
3. Enquanto as verduras cozinham, pegue uma panela menor, refogue no azeite de oliva (porque é melhor que qualquer outro óleo e o cheiro é fantástico) alho e cebola e jogue, na seqüência, pimentão, tomate e tempero verde. Salgue e prove.
4. Junte uma coisa na outra e espere terminar de cozinhar.
5. Bote um pouco num prato bonitinho, tire uma foto e coloque aqui! :)
Tudo muito simples, tudo muito rápido:
1. Veja o que tem na geladeira. se tiver duas verduras, já tem sopa!!
2. Limpe as verduras, descasque (porque ninguém gosta de agrotóxico) e coloque numa panela com água e caldo de alguma coisa (carne, legumas, peixe, galinha, tanto faz...).
3. Enquanto as verduras cozinham, pegue uma panela menor, refogue no azeite de oliva (porque é melhor que qualquer outro óleo e o cheiro é fantástico) alho e cebola e jogue, na seqüência, pimentão, tomate e tempero verde. Salgue e prove.
4. Junte uma coisa na outra e espere terminar de cozinhar.
5. Bote um pouco num prato bonitinho, tire uma foto e coloque aqui! :)


