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Café: extra-forte

Não me recordo exatamente porque escrevi dois textos sobre o mesmo filme. Aqui temos reflexões acerca do filme A Queda! As últimas horas de Hitler. O primeiro texto procura fazer uma análise do filme pesando aí seu aspecto histórico. O segundo é um texto de impressões. Tenham paciência e leiam. :)

A Queda!

12 dias para o fim da guerra de 1939. Berlim é devastada a cada hora pela invasão do soviético Exército Vermelho. No centro da capital que uma vez conseguiu dominar toda a Europa, em um bunker, está Adolf Hitler, exibindo nada mais que seus cinqüenta e cinco anos. O líder do Terceiro Reich decai a olhos vistos, enquanto Eva Braun, sua esposa, tenta manter uma falida felicidade.

A Queda! As Últimas Horas de Hitler é quase um filme comum. Aos desavisados, apenas o título chama atenção. Será mais um filme de guerra? Como estará a atuação deste novo Hitler? Há um fascínio que percorre sutilmente as guerras mundiais. A grandiosidade das atrocidades permitidas, o desejo promíscuo de assistir as mazelas, a crueldade. Por que, então, mais um filme destes? Porque este não é mais um filme.

Para além do desejo do olhar, da curiosidade por acontecimentos mundiais trágicos, está a liderança. Todos os grandes líderes tiveram filmes a seu respeito. Hitler dominou muito mais a Segunda Guerra Mundial do que toda a tropa dos Aliados ou Mussolini e Hiroito juntos. Todos foram grandes homens, dimensionando o ‘grande’ com seu poder e não, caráter, mas o principal motivo da supremacia hitlerista decorre do Holocausto. O filme, contudo, não aborda sequer campos de concentração. O que interessa é a intimidade do bunker, os momentos finais do líder, seu comportamento, a fragilidade das pessoas concentradas à espera do fim.

Ao início do filme, uma voz off inaugura o tema. É Traudl Junge, a última secretária de Hitler, numa gravação concedida dois anos atrás. A ingênua mulher nos introduz ao filme, quando a primeira seqüência é sua admissão ao cargo. Então, Hitler vem a conhecê-la, com tanta educação e gentileza que estranha ao espectador o ditador, personagem conhecido de outros filmes.

Bruno Ganz, o último Hitler do cinema, encena com tanta humanidade que quase duvidamos do senhor na tela. Claro, sabemos ser Hitler sim, tem a dureza dos discursos inflamados, a frieza na punição dos ‘traidores’, o desprezo pelo seu próprio povo e o orgulho pelo genocídio judeu, este apenas citado em sua própria voz. Mas, ao tempo que conseguimos a identificação, vemos ternura no olhar. A seus próximos, Eva Braun e sua secretária, existe um carinho, paciência e gentileza, jamais conhecidas. Essa privacidade do bunker, moradia de todos, é escancarada aos espectadores. Somos o grande irmão da decadência do poder totalitário, da grandiosa ideologia, agora se esfarelando em suicídios no alto escalão.

A descrença em uma possível religião é suplantada facilmente no radicalismo da ideologia política. O Nacional Socialismo é a única solução para o país, para o mundo e, como imperador, Hitler ostentava seu poder com a máquina ideológica amparada na propaganda. Com o fim da guerra e de qualquer possibilidade de soerguimento, os governantes mais fiéis às pregações de seu salvador se viram sem saída, restando-lhe a morte como única alternativa. Assim, suicídios aconteceram como um mecanismo natural, a pacífica aceitação da morte em Eva Braun e Hitler, A família Goebbels e muitos outros. A questão que fica é da necessidade desta História na estória do filme; a quantidade de suicídios que presenciamos na sala de cinema anestesia o sentimento da morte; por outro lado, não há como omitir a morte crua que a decadência de um regime como o acontecido proporciona. A banalidade da morte na guerra seria a justificativa para estas ações se repetirem no filme. Hitler afirma diversas vezes da indiferença que tem ao povo alemão, a ele não interessa salvaguardar suas vidas, como não interessa a de ninguém mais naquele momento; seu suicídio é certeiro e só lhe importa a extinção do corpo.

A ambientação do filme é precisa. Enquanto a vida no bunker é sentida com a eletricidade oscilante a cada bombardeio, em todo o exterior, não há mais Berlim. A capital da potência alemã rui, com seus míseros soldados remanescentes e civis, vítimas sempre. A polícia, entre o desespero da sobrevivência e os desvarios de uma cidade sem lei, autoriza e desautoriza mortes, de acordo com a compulsória entrada para o meio armado. A destruição da cidade, dos monumentos e espaços berlinenses é sentida; efeitos especiais e ausência de trilha sonora valorizam ainda mais a obra. A música aparece apenas enfatizando a tristeza, filhos de poderosos a serem assassinados muito em breve por seus pais, cantam em coro músicas da pátria agora incapaz. Ainda, festas para criar uma ilusão já desmistificada, ruídos nos discos de música aí tocados, entre bombas e tiros, muita bebida e um fingimento infeliz de que tudo acabará bem.

Aos dias finais de Hitler, sua decadência física evidencia um fim inexorável. A maquiagem cada vez mais pálida, envelhecendo, o tom monocromático em Hitler, cabelos e bigode grisalhos, enquanto em Eva as cores permanecem. Eva (Juliane Köhler) é personagem emblema da fantasia, o surrealismo das festas naquela prisão cinza, em fins de vida e guerra, a paciente aceitação da morte como única alternativa sem melodramas. Hitler, seu oposto e complemento. A tristeza pelo fim, a esperança de um levante quase ressuscitador de seus batalhões, o nervosismo e gritos já esperados no personagem fictício e real que foi, os tremores nas mãos; a fragilidade.

Toda a idéia criada deste Hitler e de sua mulher é percebida por Traudl. O filme é muito do ponto de vista desta mulher, baseado em suas memórias, a introdução e conclusão passam por sua voz, a convivência com um ditador diferente do que se conhece, a alienação desta única e fechada visão, sua apreensão do nazismo e das ações do líder. Aqui, como provavelmente aconteceu na ‘vida real’, Traudl (Alexandra Maria Lara) é o exemplo da obediência e fascínio pelo líder. Ela não é radical, apenas exerce seu ofício, com o olhar ingênuo que vemos na atriz e na senhora que aparece ao fim, na etapa quase documental a que se propõe, nos últimos minutos do rolo. Há a feliz consonância da atriz com seu personagem real, o olhar é o mesmo. O filme não se exime dos crimes do homem, mas assume uma culpa pela visão pequena e inocente, na voz da verdadeira Traudl. Outros personagens são evocados na obra, os históricos mais conhecidos Himmler, Speer, Goebbels, mas também o médico Dr. Shenck, cuja humanidade superava a própria sobrevivência.

É um filme longo, cujos 154 minutos poderiam ser reduzidos, mas a visão realista de um líder, além das maquiagens do nervosismo e dos reclames a que estamos acostumados em outras obras, realça a película. A fragilidade dos homens de ferro, dos amorais governantes, genocidas e criminosos não os romantiza, mas humaniza, no sentido menos utópico e idealista da palavra.

***

Quando vi A Queda.

Quando fui assistir A Queda! As últimas horas de Hitler, estava muito cansada. Não é justificativa pra minha opinião do filme, apesar de eu concordar que o moral do espectador influi plenamente no seu conceito da obra. Cansada estava, estressada estou, mas, ainda assim, resolvi ver mais um filme desses da Segunda Guerra. De tempos em tempos os cineastas acham válido reviver momentos históricos, ainda mais dessa guerra, com personagens tão fortes e carismáticos.

Para além do contexto histórico, minha maior curiosidade era ver o Hitler da vez. Já vi diversos atores personificando o homem, para a sátira ou drama. E, pela aclamação que este último teve – não vi trailer, só ouvi poucas e desconfiadas vozes e vi as fotos – sendo finalmente um filme alemão, resolvi investir. Me dei bem, claro.

O Hitler do Bruno Ganz é provavelmente o melhor de todos os tempos. O último que me lembro de ter assistido é, na verdade, dos primeiros já feitos. Líder da Tomania, Hynkel, paródia brilhante de Chaplin em O Grande Ditador, foi o que mais me marcou até então. Hynkel era o discurso de Hitler, sua caricatura, seus trejeitos. Claro que a comédia da situação suaviza a tragédia real, mas, até ali se evidencia o sofrimento dos reprimidos e a vida fútil da contrapartida do governo. É curioso pensar que Charles Chaplin era terminantemente contra o cinema sonoro. Para ele, a mistificação se acabaria, quando dessem vozes aos personagens, contudo, em sua fantástica estréia sonora, a primeira oportunidade de falar foi dada ao ditador; motivos justificados na obra.

Mas, retornando ao Hitler de hoje, pude vê-lo como um homem, além das facetas exploradas em todas as mídias. Claro, o personagem forte, cruel, maquiavélico e inteligente continua, somando agora com uma certa ternura, o carinho por seus próximos, a fragilidade diante do inevitável, o medo e nervosismo. Ao invés do monstro, foi nos dado o homem. É isso que os espectadores confundem quando saem da trama. Uns criticam dizendo que romantizaram ainda mais o mito, que quase se apaixonam e temem pela vida e boa saúde do genocida; tomando partido. Outros dizem que o filme é uma piada sem graça, de monotonia desnecessária e suicídios anestesiantes – realmente muito freqüentes na obra. A grande questão na verdade é que este é um filme de guerra, mas sob nova ótica.

O ponto de vista aqui não é dos campos de concentração e apenas da exploração histórica de cenas mais trágicas. A emoção que se procura é aquela da aceitação da fragilidade do inimigo. Todos sabemos que ali dentro não há heróis ou mocinhos, não deve haver, pelo menos. Até o médico, Dr. Shenck, não deveria estar ali como mártir. O que interessou ao diretor e sua equipe foi evidenciar o fim destinado àquelas pessoas, suas dificuldades, ignorâncias, radicalismos, sofrimentos, questionamentos. Ali, havia Traudl Junge, a secretária do ditador, sem nem saber direito o que se passava no governo, até gostando do emprego que tinha. Claro que ela se assume culpada. Ignorância é culpa aqui também, é fechar os olhos para o óbvio e estridente que se anuncia.

Saí me questionando acerca do filme. Sabemos nós que as boas obras são aquelas intermináveis, que circundam nossos pensamentos, tentando se recriar na mente. Saí pensando muito no filme, mesmo tendo entrado em outra sessão na mesma noite. Resolvi escrevê-lo para reafirmar ou ratificar minhas opiniões e descobri um novo filme, melhor do que o experimentado. Valem os dois textos, as reflexões e as novas descobertas. Vale, acima de tudo, o filme.

Textos de Junho de 2005
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Ontem fomos ao Cine Odeon. É um desses cinemas antigos da cidade, grande, bonito, de uma época de ouro que não mais corresponde, mas conserva a magnitude. Está acontecendo o Festival Estação Piauí, que reúne em 3 dias, filmes legais e temas para debates. Ontem vimos Vocação do Poder, do Eduardo Escorel. O filme trata da candidatura de alguns vereadores do Rio de Janeiro. O detalhe é que eles todos são marinheiros de primeira viagem e percebemos seu despreparo, angústias, discurso... muito bacana. Na seqüência, debate com a Soninha da MTV que é candidata a candidata à prefeitura de Sampa, o Eduardo Escorel e João Moreira Salles. Eles falaram sobre mídia e poder político. Caso se perguntem porque o João tava lá: ele fez Entreatos, filme sobre a campanha vencedora do Lula em seu primeiro mandato de presidente. abaixo, fotinhas nossas.


Do café do Cine Odeon. Fiquei tímida de ir pra rua tirar fotos e a máquina ser levada pelo vento...

Cela com o cardápio do Café. Água: R$ 2,80!

Agora me diga: pra quê um prédio tão alto? Só pode ser pra fazer inveja nos outros.
Vista da frente do cine... não tinha muito o que fazer.

Fachada do Cine Odeon. De noite é mais bonito! Reparou na luz divina? É do poste mesmo...
yo!
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Estamira, de Marcos Prado, conta a história de uma mulher que carrega o título do filme e vive de um dos aterros sanitários do Rio de Janeiro. Paciente de um instituto de saúde mental público, Estamira conta suas verdades no filme, entre alucinações e encontros com familiares e amigos.

Não adianta se perguntar o que surpreende mais neste documentário. A intimidade da equipe de filmagem com a protagonista é tão absurda que nos perguntamos se realmente a câmera está ali. Estamira está sempre à vontade e conversa fartamente. A transição entre as imagens granuladas em preto-e-branco e as atualíssimas limpas coloridas contrastam, não apenas com o choque de ver a miséria em sua versão mais crua, mas com os intervalos dos discursos da protagonista. O granulado nos remete a um espaço, ao lixão, ao tempo que mostra a vida no aterro, mulheres, crianças e homens em busca de comida e outros bens ainda úteis, descartados pela maioria. A cada descarregamento de caminhão mais e mais pessoas se juntam, como em Ilhas das Flores (Jorge Furtado, 1989), ao lado de animais. Um cadáver humano aparece e, como a crueza da vida das pessoas, é só mais lixo jogado fora. Ao isolamento do preto-e-branco, Estamira aparece colorida e falante, numa imagem limpa que nos impregna ainda mais de uma realidade que não estamos acostumados a ver.

Estamira é um personagem, é uma mulher real e que passou por muitas atrocidades em sua vida. Prostituta, casada, separada, estuprada, mãe, avó, filha de mãe doente, abandonada e tão abaixo da linha de pobreza que nem esta se enxerga mais, o que lhe restou foi a dúvida se há excesso de lucidez em sua vida ou a necessidade dela freqüentar outros percursos mentais para suportar o dia-a-dia. A equipe a acompanhou durante dois anos e neste tempo há a estabilidade, os momentos de raiva e a certeza que, além de amar seu trabalho, depois de sua morte será finalmente feliz.

Outra certeza de sua vida é a não existência de Deus. No decorrer do filme, vemos um de seus netos lhe perguntando se Deus existe e ela, aos berros, indica que não, que não é possível existir um deus que permita as atrocidades já cometidas, os assaltos, a violência, a pobreza. E toda a ruindade do mundo não é culpa dele, ela garante, mas do ‘trocadilo’, que é a entidade do mal ou as pessoas ruins que passaram na sua vida para destruí-la de alguma forma. É interessante perceber que o ‘trocadilo’ é sugestivo quando ao significar algo, indica uma outra coisa, sendo dúbio – o trocadilho – e aí, a verdade se dissipa. Não seria essa a brincadeira do termo? Quando Estamira trata destes assuntos sempre se exalta, mas não estaria ela correta em seu arroubo? Não deveríamos também gritar sobre as mazelas, injustiças, ficar com raiva?

Percebemos, entretanto, os delírios desta guerreira. Como numa possessão, passa momentos em outro plano, murmurando delírios em palavras estranhas que não reconhecemos. Vemos seu olhar percorrer o vazio, como se estivesse procurando algo e encontra, mas não vemos nada. Mas aí surge outra surpresa: ao retornar de uma visita ao instituto de doença mental, rejeita os remédios que lhe indicaram, porque reconhece neles seu poder ‘dopante’. Nos informa que não usará os remédios, como o Diazepan que certa vez lhe receitaram e que entregou aos médicos, dizendo para utilizarem em outro paciente que não ela. Estamira não quer se dopar, quer se saturar de vida.

O discurso de Estamira é lógico neste sentido e a coerência de sua língua portuguesa surpreende ainda mais. Estamira erra pouco. O que nós pensamos das condições de sua vida e de seu colega – um senhor que também passa a vida no aterro – nos leva a um tipo específico da sociedade, onde o idioma não se faz culto. Erro. Os dois são limpos em seu linguajar e gosto; uma das cenas mais surpreendentes do filme é quando esse senhor canta. Sua voz é tão bonita e clara que nos perguntamos por que ele não canta durante o filme todo...

Enquanto há o duelo da crítica em falar do filme ao invés de se prender no personagem, percebo que a atração que Estamira personagem provoca é superior às qualidades do filme ou talvez seja essa sua maior qualidade, seu brilho. O filme nos prende e nos faz evitar piscar, para apreender ainda mais da mulher que, apesar de viver na sujeira, tem um sorriso limpo e olhar firme.

Estamira é vomitório de palavras, é a tentativa de se descobrir e melhorar seu espaço. Ela sabe que não consegue, porque seu Deus morreu e o ‘trocadilo’ está aí, escondido pelos cantos escuros do mundo. Sua lucidez é tamanha que nos perguntamos sobre sua ‘loucura’. Estamira me remeteu automaticamente a Clarice Lispector. Estamira, como Clarice em “Um Sopro de Vida” está em sua última chance de descoberta. E Clarice não pára em seu discurso, poucos são os intervalos, os assuntos vão se atropelando e acumulando e cada frase é uma bomba de filosofia e sentimento. É visceral e tenta dar conta do pouco tempo que lhe resta para ser ela mesma, em toda a sua plenitude infinita. E, enquanto vamos lendo e buscamos digerir e tatuar as palavras de Clarice em nossa essência e descobrir-nos a partir de sua descoberta, ela nos manda mais e mais, para não pararmos, para absorvermos o máximo, o excesso, o que vai além de qualquer limite. Assim também é Estamira. Sua força é tão grande que nem ela suporta a velocidade de suas palavras, em seus ápices, nem respira. E não respiramos com ela, queremos ver até onde ela vai, até onde é possível, até quanto ela agüenta? E ela agüenta tudo, ela tenta se agüentar e quando se satisfaz, se cala. E pára. E retorna, como num ciclo, a cada provocação. Estamira é sofrimento, é riso, é dor. Estamira é além, é o símbolo de uma força que muitos desconhecem, que parte da dor constante dos desprivilégios da vida, mas que não desiste, resiste. Estamira é um tapa na cara de nossas queixas, nos faz rever motivos, sentimentos, questões e relações. Como Clarice.
Publicado em outubro de 2007, no Drops de Anis
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Resolvi tomar vergonha na cara e ir restaurando este quase estático blog. A partir desta semana aparecerão críticas de filmes e outras coisas guardadas nas gavetas ou espalhadas em outros sites mundo afora...

Entendi que, mudando tanto como eu estou conseguindo, o blog merece refletir isso também. Haverá mais cinema, estudos, besteiras e várias outras coisas obscuras...

É isso. Foi só um recadinho. Não se preocupem, terá um monte de fofocas sobre minha vida longe de minhas pessoas.

:)
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Foto minúscula do Cristo na chegada ao Rio


Cheguei ao Rio de Janeiro. Em visita permanente, de mala e cuia, caí em Copacabana. Vim a estudos e trabalho, vim pra ficar. Mas, com toda a beleza e maravilha que a cidade carrega, a saudade de Salvador ainda supera em muito a vontade de ouvir carioquês.

Com o coração mais do que apertado, saí da minha terra, essa aí de que já reclamei tanto e vim pra cá... dizem que basta você sair de seu território para amá-lo ainda mais. É verdade... mas não pelo território em si, e sim pelo reconhecimento do espaço, das pessoas, da energia, da família, das religiões... Salvador é minha, afinal de contas.

O Rio é uma cidade linda e não há maior clichê. É cidade de todas as coisas que todo mundo sempre fala e as praias são muito cheias. As mulheres são lindas, têm bundas fantásticas e eu, pessoa normal que sou, fico tímida nas praias.

Dei a sorte de aterrissar com minha irmã a tiracolo e neste fim de semana fui recebida por Mari, uma amiga baiana que mora em Friburgo. Sushi também veio para um aniversário e consegui uma primeira semana muito engraçada.

É uma barra largar todo mundo de vez e ir pra um canto desconhecido, mas carregando todo mundo no coração, levo a certeza de que fiz a coisa certa e de que reconheço em cada uma das minhas pessoas, amigas e amores uma importância indescritível na minha formação. No máximo, vou chorar um pouco...ou muito e ligo desesperadamente pra ouvir a voz de alguém. Por enquanto tá tudo bem... tô conseguindo levar.

A faculdade é ótima e não vejo a hora do curso começar. Já tenho fila de livros me esperando e filmes para ver. Falando em filmes, vocês deviam ver o "Caderno 2" daqui... chega dá preguiça de ler. Muitas opções, muitos cinemas, teatros e eu perdi o show da Maria Bethania. Mais virão. Essa semana tem lançamento de filme pra ir e cara-de-pau pra catar emprego. Já estou olhando os classificados pra o próximo aluguel e soube que devo ter trabalho com isso... mas tudo se resolve!

Está tudo bem. Preciso tirar fotos e gastar rios de dinheiro nos passeios culturais de turista. Mando fotos na próxima sessão...
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ou

...uma versão soteropolitana de cinema paradiso contada por uma menina baiana apaixonada por cinema...


Ela passou e a porta se fechou levada pelo vento, lentamente, como se prezasse pelo silêncio de quem ainda não chora de saudade. Era seu primeiro dia numa terra estranha. Na noite seguinte, quando fosse dormir, ela sabia que seria um novo quarto. Tinha medo do que a solidão faria com seus desejos antigos, vivia tudo intensamente e os prazeres da última noite ainda soavam como os primeiros acordes daquele amor de menina adolescente que ela ainda não escapara.



Do outro lado da parede estavam todas as suas boas memórias. Sua recordação da família unida no hall do aeroporto, quando se deu conta de que precisava olhar mais uma vez, naqueles trinta segundos antes de entrar na sala de embarque, ainda sem a certeza de que realmente precisava passar por tudo aquilo, ela já sabia que todas aquelas relações jamais seriam as mesmas. Toto finalmente deixava a Sicília.



Ela não conversara muito com ele durante a última noite. Ele demonstrava pouco sua dificuldade de lidar com a ausência dela, mas ela sabia que ele não teria mais ninguém para curar suas crises durante a madrugada. Ele a amava, não como ela queria, mas na medida que ela precisava. Ela pedia fidelidade, ansiava por manter contato diário, sofria com a possibilidade do ciúme, sentia seu primeiro amor escorrendo pelo rosto e secando. Ele sorria, leve como quem dá nas mãos de quem ama uma rosa retirada do jardim da própria alma, leve por saber que as vidas continuam e as mudanças precisam acontecer e não poderia ser diferente, leve por enxergar nos olhos dela o reflexo daquilo que ele acreditava ser o melhor de si mesmo. Leve como quem sente a beleza de um coração disposto a amar novamente porque fora isso que aprendera ao viver sua primeira história de amor.



Ela temia o que seria dito nos últimos instantes, o que ele faria, como reagiria, tudo era sempre tão imprevisível, intenso, natural, ela admirava a direção que ele dava a cada cena acidentalmente calculada. Assim deveria ser a vida: um plano sequência filmado com base em um roteiro pensado e escrito no set de filmagem. Estava decidida. Ela reagiria em silêncio, e esperaria um beijo ao final. Mas se ele não desse, ela sorriria.



Quando se despediram pela manhã, ele ainda reagia como quem pretende ligar no dia seguinte para ir ao cinema. Antes de descer do carro ele deu um abraço e um beijo. “É tão difícil ficar sem você, O teu amor é gostoso demais, Teu cheiro me dá prazer, Quando estou com você, Estou nos braços da paz”. Foi cuidadoso com as mãos e com a boca, que é a maneira que ele utiliza para demonstrar carinho e dizer o que sente. “Nunca se esqueça, nem um segundo, que eu tenho o amor maior do mundo”. Beijou sem parar o braço dela. “Meu coração pulou, você chegou me deixou assim, com os pés fora do chão, pensei: que bom, parece enfim acordei, pra renovar meu ser, faltava mesmo chegar você, assim, sem me avisar, pra acelerar, um coração que já bate pouco, de tanto procurar por outro, anda cansado, mas quando você está do lado, fica louco de satisfação”. Abraçou ela deitada em seu colo. “Já me fiz a guerra, por não saber que esta terra encerra, meu bem querer, e jamais termina meu caminhar, só o amor me ensina, onde vou chegar”. Ela chorou assustada com o prazer e a segurança que sentia. “Me leva amor... Por onde for, quero ser seu par”.

E ela limpou os olhos, tocou os lábios dele e deu um beijo calmo. E o olhou profundamente.

Ele sorriu e disse calmamente suas últimas palavras: “Não olhe para trás. Nunca mais volte e me procure. Não ligue para mim. Ame profundamente e intensamente a si mesma. E mostre para o mundo o que uma mulher de verdade pode fazer quando sabe amar.”

Ela ganhou um último beijo. Desceu do carro calada. Ele pediu uma foto com ela dando tchau. Era uma foto triste. E ele brincava com a tristeza, na tentativa de não tornar as coisas assim tão tristes. Ele sofria muito mais do que ela. Ela sorriu e fez pose. Deu as costas e atravessou o portão.

Ele dissera tudo aquilo de forma dura e sincera, como alguém que realmente espera se tornar apenas uma boa lembrança. Ela chorava aliviada. Já sabia que aquelas seriam as últimas palavras de Alfredo. Estava a caminho da Roma tropical. Iria trabalhar com cinema, contar histórias, começar uma nova vida. Estava feliz e realizada.

O único final verdadeiramente feliz é aquele que ainda não aconteceu. E ela jamais respeitaria a previsibilidade dos 90 minutos de duração de um filme como se fosse a imponderabilidade da vida.

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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