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Café: extra-forte

As escolas de cinema ensinam roteiro traduzindo a ideia aristotélica de narrativa clássica, indicando que esta sempre acontecerá nos filmes porque somos fadados a produzir e compreender as obras de duração desta maneira. Porque nossa característica humana nos permite perceber o mundo sob a ótica indissociável do tempo, sendo este, naturalmente linear.

Onde então seria possível uma alteração desta ordem? As vanguardas cinematográficas investiram na ruptura dos tradicionalismos, mas poucas vezes conseguiram fugir à questão tempo. Percebemos as vanguardas sob o véu histórico de seus surgimentos, com seus desdobramentos em narrativas paralelas, na alteração da ordem de apresentação de presente, passado e futuro das estórias e buscando em sonhos uma forma diferente de contar. Ainda assim, a forma de compreender não se perde e é possível interligar as ações, ainda que fora de ordem e montar em linha, no cérebro, uma narrativa do que está se mostrando. Até hoje foi possível criar sentido diante de um caos pretendido pelos produtores destas obras de arte.

lynch-david
David Lynch
Um dos locais onde é possível não apenas a ruptura das narrativas, mas de qualquer motivação lógica direta é o universo dos sonhos. Aqui, ainda que busquemos após análises e estudos, os sentidos para o que vivenciamos no sono, podemos não os ter de todo. David Lynch é um dos investidores deste território da inconsciência, da subconsciência. É através dos sonhos e pelos sonhos que percebemos suas criações mais radicais e inovações narrativas. E nos sonhos, como a psicanálise explica, estão nossas verdades quase inalcançáveis, os medos, as fugas. O autor traz em sua filmografia imagens bizarras, caricaturas e tipos. O estranhamento e, por vezes, a aversão são sentimentos freqüentes a seus novos espectadores. Aos familiarizados, há sempre o duelo entre a atração e a repulsa. O estranhamento das situações surreais provoca a necessidade de compreender o que se vê. Veludo Azul, Cidade dos Sonhos, Twin Peaks, A Estrada Perdida e Coração Selvagem são alguns exemplos do que tratamos. Ainda que a narrativa pareça distorcida em contratempos dos personagens e diálogos a interpretar, conseguimos traçar um padrão narrativo e seguimos ao que é exibido, nos atrelando às estruturas-base apresentadas.

Em Inland Empire (2006), em português Império dos Sonhos, a combinação tradicional permanece. Personagens estranhos, diálogos aparentemente desconexos, sequências sem ligação umas com as outras, ícones de medo. Em três horas, o espectador enfrenta o desafio de tentar compreender, de construir o percurso narrativo constantemente rompido. Agora, trabalhando com a tecnologia digital e executando muitas das funções de uma equipe de cinema – produtor, diretor, roteirista e editor – David Lynch ganhou sua liberdade criativa. Império dos Sonhos é a catarse da busca pela significação de quem o assiste, e do ápice para a interpretação de Laura Dern e dos radicalismos de seu diretor.

Peter Greenaway, diretor cujos trabalhos se inserem em alterações na linguagem fílmica tradicional, falou em entrevista recente que o cinema ainda está por vir, que o que entendemos hoje como a sétima arte não passa de expressão literária transformada em audiovisual. Ele assume, como Lynch agora pratica, que as inovações tecnológicas trarão o cinema para o que ele deve realmente ser, uma arte interativa e multimidiática. Os trabalhos atuais de Greenaway permeiam o eletrônico, como uma experiência de múltiplas interpretações e intervenções.

Laura Dern em Império dos Sonhos (2006)

O cinema, estando em renascimento, surge aos olhos de Lynch como uma experiência estética, função primeira das artes. Ao que parece já ter sido verificado com o autor, a intenção não é provocar o entendimento completo do que propõe em seu último fillme, mas vivenciar as imagens, ter a oportunidade de conhecer o conjunto das cenas rodadas. Segundo Lynch, o filme é um conjunto de fragmentos de diversos curta-metragens rodados em outros tempos, montados hoje pelo autor. À primeira vista, é difícil compreender a ligação dos temas do filme, assim definidos:
  • Atriz em oportunidade de dar guinada na carreira participa de elenco de antigo projeto de filme inconcluso devido ao assassinato dos protagonistas;
  • Sitcom de uma família com gigantes cabeças de coelho e diálogos desconexos que provocam gargalhadas numa platéia que não é vista;
  • Uma mulher que chora em frente a um aparelho de televisão aparentemente sem antena.
Em intervalos que promoveriam as conexões entre os grandes temas há prostituição, assassinatos, poloneses falando sem tradução e um cenário que nos faz pensar em algum lugar na Polônia. No primeiro tema, percebemos Laura Dern como a atriz a ser reerguida de uma fraca carreira com um novo projeto. Sua vida pessoal se mistura com cenas do filme em produção e dos encontros com poloneses que ela parcamente compreende e parecem fazer parte da família de seu marido. Assumindo ainda que não os compreende,como os espectadores deste filme, tudo resulta na apreciação da imagem através da interpretação cênica, mas não de um conteúdo oral entendido. A visita inesperada de uma nova e suspeita vizinha à casa da protagonista inspira um início de filme mais plausível e apesar de existirem cenas anteriores – introdução do sitcom e mulher chorando em frente a uma televisão – acredita-se que iniciará aí a proposta lógica do filme. O sitcom inicial, entretanto, inaugura aos olhos familiarizados, mais um filme que romperá a narrativa fluida que vimos, por exemplo, em História Real (1999), sua obra-exceção (A Straight Story trata da trajetória de um senhor que atravessa os Estados Unidos para visitar seu irmão enfermo. O filme é apresentado de forma simples, com a narrativa clássica).

História real (1999)
Enquanto o espectador busca somar as sequências para alcançar o significado, Lynch interrompe os processos lógicos em longas sequências desconectadas. O espectador que enfrenta o desafio permanece no jogo, compreendendo que nem sempre será possível interligar semanticamente todas as sequências, mas vivê-las esteticamente, como acontece nas obras de arte sem duração. Feito esse acordo, sustos são garantidos e sensações estranhas percorrem o corpo, vide as cenas de assassinato e o desenvolvimento do personagem marido de Laura Dern.

Rodado em digital e transformado para 35mm, os típicos planos abertos perdem espaço para planos-detalhe, em iluminação que mescla o noir com o terror psicológico. Não havendo muitos sustos de alterações sonoras, o que encontramos é a imprevisibilidade das imagens do por vir, de sequências carregadas dramaticamente e da justificativa para atores fortes que dominem as cenas, pois o que mais importa neste filme são as impressões que vemos de Laura Dern, por exemplo, enquanto alguém que está a descobrir o sentido do que lhe acontece, um pouco como nós, ao assistir o filme. Com tantas cenas desconjugadas, tantas imagens a executar e absorver com o desnorteamento constante, o filme só nos permite um desejo: deliciar-se com sua própria embriaguez e a promessa de assistir de novo, como um desafio a novas descobertas.

À função narrativa do cinema, cabe esperar pelo declínio final da literatura ilustrada de Greenaway e embarcar em suas performances de VJ, atravessar os percursos visuais de Lynch sem se importar com o contar, mas com o sentir, ou perceber que estas podem ser as novas vanguardas que tentarão se firmar enquanto uma vertente do cinema independente com o universo da tecnologia digital a seu favor. Ao espectador, a fruição; ser agraciado com a diversidade que a as artes permitem e participar delas. Que o desafio de transformar a narrativa torne-se a mola propulsora da inovação artística do cinema, garantindo novas interpretações e teorias, e, acima de tudo, descobrindo outras formas de contar e assim, de ensinar cinema.
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É... como toda baiana que se preze, a praia anda me fazendo muito bem. O verão começou no dia da primavera e o calor só faz aumentar. Dias lindos e, pra mim que moro pertinho do mar, é um sufoco e suplício sair todos os dias de manhã para vir à sucursal do inferno na terra: Lauro de Freitas.

Não tenho exatamente nada específico contra esta cidade, à exceção do fato de ter que vir aqui das segundas às sextas. Lauro de Freitas cresceu sob a sombra de Salvador, fazendo parte de sua região metropolitana. A ousadia é tanta que vivem reclamando o Aeroporto Internacional de SALVADOR para si. Lauro de Freitas é um município onde o desafio é a busca por lugares razoáveis para se alimentar; as opções são escassas e Villas do Atlântico, que corresponde à metade de Lauro, oferece mais opções... em Lauro é possível encontrar muito mais calor do que em Salvador, sem falar na total ausência de beleza natural. A feiúra reina e o máximo que a prefeitura conseguiu até hoje, foi construir uma fonte em frente à entrada do aeroporto, com um formato de barco + berimbau. O senso estético surpreende. Falar em policiamento e segurança ou coerência no trânsito é piada; como toda cidade pequena, as duas opções são quase inexistentes.

Evitando pensar nisso tudo, vivo pelos dias de sol nos fins de semana soteropolitanos. O feriado passou com chuva nesta terra e minha fuga ao litoral norte foi providencial. Retorno à terra natal, agora linda e brilhante, com o sol estampado onde o biquíni não cobre. Praias limpas e tranqüilas, surfistas, ondas e piscininhas. Onde eu fui tinha isso tudo e mais uma pousadinha com gente muito tranqüila. Nessa brincadeira toda, pedi dois altos pra relaxar e mudar as estratégias do jogo.

Com um domingo agitadíssimo e já estressante, fico pensando nas estratégias do descanso e de que forma posso virar este barco para mares mais tranqüilos, onde as ondas batam com força, mas sem perder o controle do leme. Sem problemas novos à vista, vou contornando os obstáculos do dia-a-dia com o retorno de um passatempo que deve construir algo de diferente em mim: o quebra-cabeças. Melhor remédio para concentração e aliviar o estresse, este jogo que acaba com a paciência de muitos, me faz refletir, através do colar das três mil peças, como construo meu mundo. Pessoas importantes e não importantes e o que deve se encaixar ao redor. É incrível como um passatempo pode solucionar nossas questões e criar significado diante das coisas sérias. Ou pode ser tudo invenção, daquelas que dizem que para tudo existe um significado. O que eu penso mesmo é que podemos inventar interpretação que nos apeteça para qualquer coisa e as metáforas e simbologias estão aí para provar. Enquanto tudo acontece ao mesmo tempo, meu olho crava no calendário em busca de um futuro próximo e muito diferente deste presente ensolarado.
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Os dias de fúria estão chegando. Um misto de carência, irritabilidade e dores percorrerão meu corpo e, mais uma vez, me transformarei num monstro apocalíptico. Ainda que isso aconteça invariavelmente todo mês, parece sempre ser insuportável a condição e a briga com algum ente querido. Essa situação catastrófica, como as profecias que se realizam, faz parte de um ciclo feminino que todos compreendem e aceitam.

Quando eu era mais nova, achava que nunca iria ter TPM, como achava também que jamais beberia cerveja. A TPM surgiu em mim quando me dei conta de que realmente tinha problemas a resolver e crises existenciais e outras questões apenas ridículas começaram a fazer parte da lista de tormentos que por vezes percorre meu cérebro e acaba com meu sono.

Agora existem as pílulas. Elas não servem para nada em relação a tudo o que foi citado, mas, ao tempo que reduzem meu prazo de expiração à tortura mensal, definem a data de chegada do armagedon. Quando faltam duas ou três para acabar a cartela, o nervoso e o mau humor viram minha rotina e só me resta conversar com minhas comparsas neste sistema.

Acho que só estou escrevendo isso porque não tenho o que fazer agora e aproveito para justificar meus atos bárbaros da próxima semana. Pode não acontecer nada disso também e o máximo que farei é chorar. Não que eu esteja sofrendo ou que alguém morreu, mas acontece o problema da sensibilidade. É duro ser mulher e instável. Mas sempre desconfie daquelas que não têm TPM. Estas sim, são muito mais macabras. Ou doidas, daquelas que fazem yoga há decênios, não comem nada animal, não fumam e sequer bebem. Desconfie.

Nesse meio tempo, vou beber. Já que, como a TPM, a cerveja é inevitável.
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Não sei se fará efeito, levando em conta que ninguém provavelmente acessa mais esse blog instável. Em todo caso, vale perguntar: qual foi o último romance que valeu a pena ter lido?

Da minha parte, estou me esforçando mais uma vez para ler Shalimar, o equilibrista, do Salman Rushdie. Apesar de todo o sucesso que o autor faz no meio intelectual, não estou realmente me divertindo com esse livro. Tenho uma mania de buscar autores novos pra ler e é a segunda vez que me estrepo. Não digo com isso que ele é ruim, mas já li coisas melhores. O autor enrola no texto, na esperança de trazer encantamento ao que conta, mas cansa o leitor com tantas palavras bonitas. Melhor faz García Márquez, que usa as palavras de forma tal que traz a fantasia perfeita com a combinação dos termos simples sem muitos adjetivos. Ainda assim, estou me esforçando: a história trata de amores em tempos diversos envolvendo as relações entre a Índia, Caxemira, Estados Unidos. Existem momentos realmente bonitos, a tradição da Caxemira, as diferenças sociais, um assassinato, personagens interessantes, mas das 78 páginas do momento, se enxugarmos a enrolação, dá pra tirar umas vinte... sou uma pessoa esforçada, posso mudar de idéia ainda.

Enfim, não sou crítica de livros ou li o suficiente para ter toda a propriedade no falar, mas tratando de gosto, não há erros. Minha segunda escorregada foi com “A menina que roubava livros”, que é mais um livro com histórias do tempo hitlerista.Ainda há nesse alguma graça, já que é a morte quem narra a epopéia da menina, mas o autor inventa uma interlocução com o leitor, opinando sobre a história em muitos intervalos e perde mais tempo na narrativa.

Estou em busca de um livro que me prenda, que me faça ler rápido não importando o número de páginas que eu tenha pena de terminar, como Cem anos de Solidão, O Evangelho segundo Jesus Cristo, A Paixão segundo GH e, por que não, as besteiras femininas de Bridget Jones e similaress. Quero uma indicação de um livro divertido, que me faça ficar ansiosa pra ler quando não puder e tenha pena de terminar enquanto estiver lendo.
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Eis que fui pegar ônibus. Eram quase nove da manhã, o sol brilhava no céu e o mar convidava para curtir. Assumindo a responsabilidade do trabalho, fingi que não era comigo e fui ao ponto de ônibus. Quando fui atravessar a rua, meu ônibus passa e eu abstraio essa situação, mesmo estando atrasada, prefiro não me estressar e perder o dia bonito só por causa do transporte público. Pressa para quê? A vida é assim, pensei.
Atravessei e esperava. Esperava numa boa, me distraindo com tudo, até que vi as três meninas negras sentadas no banco. Elas estavam muito juntas, deviam ter uns vinte e poucos anos e parecia que faziam questão da proximidade; uma delas estava deitada, com a cabeça no colo da outra, que mexia no cabelo. As roupas simples, mas as unhas dos pés e mãos de um rosa choque lindo, que destacava ainda mais a beleza de suas peles. Todos os passantes olhavam para as meninas de comportamento esquisito. Pareciam três irmãs, vindas não sei de onde, sérias, que olhavam desconfiadas e falavam baixinho, uma no ouvido da outra. Eu evitava olhar, mas elas me atraíam de uma forma que eu só me distraía com a tentativa de ler os letreiros dos ônibus.
Depois de uns vinte minutos com o vento e o cheiro do mar me provocando, o Lauro de Freitas azul aparece e entro. Para o bem da nação estava vazio e escolhi o lado oposto ao do mar para sentar. A bem da verdade, eu até sentei do lado do mar, mas além do menino ao meu lado ter me olhado de uma forma muito esquisita - até agora não sei se ele me odiava, paquerava ou estranhava - a criatura da frente fez o favor de brincar de sauna e fechou a janela. Olhei com cara de 'droga' e fui pro outro lado. Pelo menos o menino deve ter agradecido. Acho que tem dias que não queremos ninguém perto de nós e tinha espaço de sobra no ônibus... ele deve ter se perguntado "meu deus, tanto lugar no mundo pra essa menina sentar e ela escolhe logo aqui? Só pode ser pirraça..."

Me mudei e sentei. No banco de trás tinha um cara. Ele parecia com um cara do trabalho, mas, como ele me olhou de forma estranha também - juro que não sei o que se passa - nem olhei no rosto dele e sentei. Ele ouvia coisas no mp3 player e estava encostado na janela com o braço para o lado de fora. Eu descobri isso porque a mão da criatura ficava ameaçadoramente na MINHA janela, sem tocar, mas tomando a lateral. Como eu sou o tipo da pessoa que fica vendo a vida do lado de fora dos transportes, via a hora dele me estapear toda ou fazer cócegas... aí comecei a pensar em que reação teria se ele fizesse algo do tipo. Imagine você, no ônibus, num dia lindo, sentada, vendo a vida passar, e uma mão enorme a te ameaçar? De início achei que ele tava jogando meleca fora, daquele jeito que todo mundo sabe fazer, aí me concentrei e analisei os movimentos e não, ele não era tão podre. Ele tava só recebendo o vento na mão...

Nesse ínterim, a outra mão surge, enorme, apoiada no topo do assento ao meu lado. Um choque, claro. Percebi que ou ele toca violão ou não entende de unhas. A mão tinha unhas enormes e me assustei. Para desviar da situação, olhei pra janela e um alívio esfriou meu corpo: ela já não estava lá. Já pensou se as duas estivessem?

É claro que ele nem deve ter percebido toda a situação surreal que causou... só sei que ele levantou e sentou numa cadeira mais à frente. Quando foi minha vez de sair, ele ainda estava lá e não resisti: olhei bem para as duas mãos, ameaçadoramente, como todo mundo tinha feito comigo durante o caminho.
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“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sôbre o Amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
Juscelino Kubitschek
Brasília, 02 de outubro de 1956.


Assim pensava o JK, no auge de sua esperança e fé na nação, no crescimento e progresso que Brasília traria. Ele, como Lúcio Costa, Bernardo Sayão, Niemeyer, Burle Marx e muitos outros que, na cidade planejada para ser o coração do país pensavam que teríamos o que merecíamos e que os candangos que estavam construindo e vivendo pelo país se orgulhariam do que a cidade nação deveria ser.

Brasília, coração do país, foi construída para gerir os mandos e desmandos da vastidão de culturas, nações e populações brasileiras. A arquitetura e as artes se voltaram para o progresso dos 50 em 5 e o país viveu duas décadas de efervescência cultural e política, ensino de qualidade e outras benfeitorias. O aumento de nossa dívida externa foi perdoado pelo interesse e desafio em fazer uma nação crescer em plena América do Sul, Latina, única de idioma português e dimensões continentais.

O que entristece é o óbvio. Com tanta vontade, deu-se o pior. Brasília está suja e podre. Seus odores se espalham por todo o país. Seus prédios estão repletos do ideal do progresso – em suas paredes, pinturas e estruturas, mas no convívio só há desmame, descaso e atraso. Sem precisar tratar do estampido contaminador da corrupção, só nos resta uma saída: sair. Evadir do país ou dizimar a escória política que nos rege. Enquanto nos encontramos entre a covardia de desistir e a loucura de continuar, mais e mais tiram, mais e mais matam e roubam. E as caridades aumentam, porque a culpa é nossa. Nós elegemos e mantemos.

Mas continuamos acreditando no deixe estar. Deixe estar que tudo vai ser bom e certo um dia, que a justiça deixará de ser cega e enxergará de vez as veleidades daqueles que estranhamente possuem demais e são tão poucos. Deixe estar que nossas necessidades básicas de ser humano serão supridas sem precisarmos pedir por favor e gritar. E aí, deixemos estar logo tudo de vez, deixemos sessões fechadas de eleições corruptíveis de cassação, impostos usurpadores aprovados mais uma vez e mais uma vez para nada, porque deveriam ir à Saúde e lá nem se viu a cor. A única cor freqüente é a do sangue, nas raivas nos rostos daqueles em filas de hospitais e clínicas, daqueles que perderam seus amores sem atendimento médico e daqueles que assistem televisão e vêem jornais, lêem jornais e vêem parentes dos outros morrendo, se preocupam com os seus próprios e pedem pra sempre ter condições de não sofrer das mazelas. Esse é só um aspecto.

E nem podemos rezar direito, já que na maioria das vezes, também precisamos pagar pra isso.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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