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Café: extra-forte

Os dias de fúria estão chegando. Um misto de carência, irritabilidade e dores percorrerão meu corpo e, mais uma vez, me transformarei num monstro apocalíptico. Ainda que isso aconteça invariavelmente todo mês, parece sempre ser insuportável a condição e a briga com algum ente querido. Essa situação catastrófica, como as profecias que se realizam, faz parte de um ciclo feminino que todos compreendem e aceitam.

Quando eu era mais nova, achava que nunca iria ter TPM, como achava também que jamais beberia cerveja. A TPM surgiu em mim quando me dei conta de que realmente tinha problemas a resolver e crises existenciais e outras questões apenas ridículas começaram a fazer parte da lista de tormentos que por vezes percorre meu cérebro e acaba com meu sono.

Agora existem as pílulas. Elas não servem para nada em relação a tudo o que foi citado, mas, ao tempo que reduzem meu prazo de expiração à tortura mensal, definem a data de chegada do armagedon. Quando faltam duas ou três para acabar a cartela, o nervoso e o mau humor viram minha rotina e só me resta conversar com minhas comparsas neste sistema.

Acho que só estou escrevendo isso porque não tenho o que fazer agora e aproveito para justificar meus atos bárbaros da próxima semana. Pode não acontecer nada disso também e o máximo que farei é chorar. Não que eu esteja sofrendo ou que alguém morreu, mas acontece o problema da sensibilidade. É duro ser mulher e instável. Mas sempre desconfie daquelas que não têm TPM. Estas sim, são muito mais macabras. Ou doidas, daquelas que fazem yoga há decênios, não comem nada animal, não fumam e sequer bebem. Desconfie.

Nesse meio tempo, vou beber. Já que, como a TPM, a cerveja é inevitável.
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Não sei se fará efeito, levando em conta que ninguém provavelmente acessa mais esse blog instável. Em todo caso, vale perguntar: qual foi o último romance que valeu a pena ter lido?

Da minha parte, estou me esforçando mais uma vez para ler Shalimar, o equilibrista, do Salman Rushdie. Apesar de todo o sucesso que o autor faz no meio intelectual, não estou realmente me divertindo com esse livro. Tenho uma mania de buscar autores novos pra ler e é a segunda vez que me estrepo. Não digo com isso que ele é ruim, mas já li coisas melhores. O autor enrola no texto, na esperança de trazer encantamento ao que conta, mas cansa o leitor com tantas palavras bonitas. Melhor faz García Márquez, que usa as palavras de forma tal que traz a fantasia perfeita com a combinação dos termos simples sem muitos adjetivos. Ainda assim, estou me esforçando: a história trata de amores em tempos diversos envolvendo as relações entre a Índia, Caxemira, Estados Unidos. Existem momentos realmente bonitos, a tradição da Caxemira, as diferenças sociais, um assassinato, personagens interessantes, mas das 78 páginas do momento, se enxugarmos a enrolação, dá pra tirar umas vinte... sou uma pessoa esforçada, posso mudar de idéia ainda.

Enfim, não sou crítica de livros ou li o suficiente para ter toda a propriedade no falar, mas tratando de gosto, não há erros. Minha segunda escorregada foi com “A menina que roubava livros”, que é mais um livro com histórias do tempo hitlerista.Ainda há nesse alguma graça, já que é a morte quem narra a epopéia da menina, mas o autor inventa uma interlocução com o leitor, opinando sobre a história em muitos intervalos e perde mais tempo na narrativa.

Estou em busca de um livro que me prenda, que me faça ler rápido não importando o número de páginas que eu tenha pena de terminar, como Cem anos de Solidão, O Evangelho segundo Jesus Cristo, A Paixão segundo GH e, por que não, as besteiras femininas de Bridget Jones e similaress. Quero uma indicação de um livro divertido, que me faça ficar ansiosa pra ler quando não puder e tenha pena de terminar enquanto estiver lendo.
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Eis que fui pegar ônibus. Eram quase nove da manhã, o sol brilhava no céu e o mar convidava para curtir. Assumindo a responsabilidade do trabalho, fingi que não era comigo e fui ao ponto de ônibus. Quando fui atravessar a rua, meu ônibus passa e eu abstraio essa situação, mesmo estando atrasada, prefiro não me estressar e perder o dia bonito só por causa do transporte público. Pressa para quê? A vida é assim, pensei.
Atravessei e esperava. Esperava numa boa, me distraindo com tudo, até que vi as três meninas negras sentadas no banco. Elas estavam muito juntas, deviam ter uns vinte e poucos anos e parecia que faziam questão da proximidade; uma delas estava deitada, com a cabeça no colo da outra, que mexia no cabelo. As roupas simples, mas as unhas dos pés e mãos de um rosa choque lindo, que destacava ainda mais a beleza de suas peles. Todos os passantes olhavam para as meninas de comportamento esquisito. Pareciam três irmãs, vindas não sei de onde, sérias, que olhavam desconfiadas e falavam baixinho, uma no ouvido da outra. Eu evitava olhar, mas elas me atraíam de uma forma que eu só me distraía com a tentativa de ler os letreiros dos ônibus.
Depois de uns vinte minutos com o vento e o cheiro do mar me provocando, o Lauro de Freitas azul aparece e entro. Para o bem da nação estava vazio e escolhi o lado oposto ao do mar para sentar. A bem da verdade, eu até sentei do lado do mar, mas além do menino ao meu lado ter me olhado de uma forma muito esquisita - até agora não sei se ele me odiava, paquerava ou estranhava - a criatura da frente fez o favor de brincar de sauna e fechou a janela. Olhei com cara de 'droga' e fui pro outro lado. Pelo menos o menino deve ter agradecido. Acho que tem dias que não queremos ninguém perto de nós e tinha espaço de sobra no ônibus... ele deve ter se perguntado "meu deus, tanto lugar no mundo pra essa menina sentar e ela escolhe logo aqui? Só pode ser pirraça..."

Me mudei e sentei. No banco de trás tinha um cara. Ele parecia com um cara do trabalho, mas, como ele me olhou de forma estranha também - juro que não sei o que se passa - nem olhei no rosto dele e sentei. Ele ouvia coisas no mp3 player e estava encostado na janela com o braço para o lado de fora. Eu descobri isso porque a mão da criatura ficava ameaçadoramente na MINHA janela, sem tocar, mas tomando a lateral. Como eu sou o tipo da pessoa que fica vendo a vida do lado de fora dos transportes, via a hora dele me estapear toda ou fazer cócegas... aí comecei a pensar em que reação teria se ele fizesse algo do tipo. Imagine você, no ônibus, num dia lindo, sentada, vendo a vida passar, e uma mão enorme a te ameaçar? De início achei que ele tava jogando meleca fora, daquele jeito que todo mundo sabe fazer, aí me concentrei e analisei os movimentos e não, ele não era tão podre. Ele tava só recebendo o vento na mão...

Nesse ínterim, a outra mão surge, enorme, apoiada no topo do assento ao meu lado. Um choque, claro. Percebi que ou ele toca violão ou não entende de unhas. A mão tinha unhas enormes e me assustei. Para desviar da situação, olhei pra janela e um alívio esfriou meu corpo: ela já não estava lá. Já pensou se as duas estivessem?

É claro que ele nem deve ter percebido toda a situação surreal que causou... só sei que ele levantou e sentou numa cadeira mais à frente. Quando foi minha vez de sair, ele ainda estava lá e não resisti: olhei bem para as duas mãos, ameaçadoramente, como todo mundo tinha feito comigo durante o caminho.
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“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sôbre o Amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
Juscelino Kubitschek
Brasília, 02 de outubro de 1956.


Assim pensava o JK, no auge de sua esperança e fé na nação, no crescimento e progresso que Brasília traria. Ele, como Lúcio Costa, Bernardo Sayão, Niemeyer, Burle Marx e muitos outros que, na cidade planejada para ser o coração do país pensavam que teríamos o que merecíamos e que os candangos que estavam construindo e vivendo pelo país se orgulhariam do que a cidade nação deveria ser.

Brasília, coração do país, foi construída para gerir os mandos e desmandos da vastidão de culturas, nações e populações brasileiras. A arquitetura e as artes se voltaram para o progresso dos 50 em 5 e o país viveu duas décadas de efervescência cultural e política, ensino de qualidade e outras benfeitorias. O aumento de nossa dívida externa foi perdoado pelo interesse e desafio em fazer uma nação crescer em plena América do Sul, Latina, única de idioma português e dimensões continentais.

O que entristece é o óbvio. Com tanta vontade, deu-se o pior. Brasília está suja e podre. Seus odores se espalham por todo o país. Seus prédios estão repletos do ideal do progresso – em suas paredes, pinturas e estruturas, mas no convívio só há desmame, descaso e atraso. Sem precisar tratar do estampido contaminador da corrupção, só nos resta uma saída: sair. Evadir do país ou dizimar a escória política que nos rege. Enquanto nos encontramos entre a covardia de desistir e a loucura de continuar, mais e mais tiram, mais e mais matam e roubam. E as caridades aumentam, porque a culpa é nossa. Nós elegemos e mantemos.

Mas continuamos acreditando no deixe estar. Deixe estar que tudo vai ser bom e certo um dia, que a justiça deixará de ser cega e enxergará de vez as veleidades daqueles que estranhamente possuem demais e são tão poucos. Deixe estar que nossas necessidades básicas de ser humano serão supridas sem precisarmos pedir por favor e gritar. E aí, deixemos estar logo tudo de vez, deixemos sessões fechadas de eleições corruptíveis de cassação, impostos usurpadores aprovados mais uma vez e mais uma vez para nada, porque deveriam ir à Saúde e lá nem se viu a cor. A única cor freqüente é a do sangue, nas raivas nos rostos daqueles em filas de hospitais e clínicas, daqueles que perderam seus amores sem atendimento médico e daqueles que assistem televisão e vêem jornais, lêem jornais e vêem parentes dos outros morrendo, se preocupam com os seus próprios e pedem pra sempre ter condições de não sofrer das mazelas. Esse é só um aspecto.

E nem podemos rezar direito, já que na maioria das vezes, também precisamos pagar pra isso.
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Era sábado. Depois do cumprimento das atividades familiares, me vi livre pra encontrar as pessoas de sempre e pôr as histórias em dia. Combinei de encontrar uma amiga assim que essa saísse do trabalho e pronto, resolvido. A amiga dormiu exausta e fiquei com o controle da televisão, pai, mãe e cachorros... paciência. Era sábado, eu estava tranquila, ficaria em casa numa boa... também não tinha muita opção. O resultado de tudo foi a produção de uma geléia de morango deliciosa que fiz com base no gostosíssimo programa de tv culinário de Jamie Oliver, que passa num canal fechado.

Tenho um fraco por programas de cozinha e receitas... tenho o costume de assisti-los e roubar umas dicas simples que deixam os pratos super ultra mega saborosos. Jamie Oliver é um britânico que começou seus programas de tv com a apresentação das receitas numa cozinha simples, com um monte de utensílios bacanas, dicas importantes, tudo aparentemente fácil de fazer. Na seqüência, um convidado chegava e se deliciava. Pude perceber a evolução de seu programa, quando ele foi passear pela Itália, aprendendo a cozinhar outras delícias. Cada episódio era interessantíssimo, pois mesclava a feitura dos pratos com a exposição casual da cultura italiana.

Ainda houveram apresentações ao vivo, em um teatro e agora ele apresenta um programa de uma horta, ou uma casa de campo com um quintal cheio de segredos. O de ontem foi o morango. Ele fez uns três pratos com o morango, entre eles a geléia. Depois ele jogou a geléia num arroz doce, mas não precisamos evoluir tanto... segue o preparo:

1. Pegue todos os morangos que existirem na sua geladeira. Na minha tinha um potinho, mas pra sair bonito na foto coloquei tudo num prato. O Jamie fez com dois quilos de morango. Corte os moranguinhos para a etapa posterior ser mais fácil de realizar;

2. Para cada quilo, 150 gramas de açúcar comum, cristalizado. Nada dessa coisa de açúcar refinado que faz muito mal para nossa preservadíssima saúde. Joga lá na vasilha dos morangos cortados;


3. Essa é a parte mais divertida. Quando passamos por momentos de raiva e sentimos vontade de destruir as coisas, xingar, dar murros e tapas... lave bem as mãos e mate os morangos: espremas-os o máximo que conseguir. Uns pedacinhos continuarão lá, não se preocupe, mas triture com vontade. É nojento, mas é muito gostoso de fazer;

4. Joga toda a morangada batida e de aspecto duvidoso numa panela, mexa só de vez em quando, tire as espumas que aparecerem quando as bolhinhas da fervura surgirem e deixa lá por 20 minutos em fogo médio;



5. Deixe esfriar para não queimar a língua, bota num pão, torrada, biscoito ou similar e se divirta! Não esquece um cafezinho pra acompanhar. Fica bom, viu!? Não dura tanto quanto aquelas que compramos nos mercados, mas não tem química nenhuma envolvida, o sabor é muito mais leve e autêntico. Claro que deve ir à geladeira.

No fim da história, fiquei vendo Memórias de uma Gueixa pela segunda vez. O filme, apenas um curto parêntese, vale a pena. Apesar da vergonha de ser falado em inglês, o idioma original da terra dos olhos puxados, trata de uma forma bacana do papel destas mulheres na sociedade oriental. Trata ainda da beleza, da vaidade e da inteligência femininas. Não é um filme para um sábado à noite, mas não faz mal assistir de vez em quando...
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A maior dificuldade do ser humano contemporâneo é, possivelmente, manter-se ético. Claro que a moral, um dos componentes da Ética é uma variante cultural que parte da definição dos princípios fundamentais de bem e mal, certo e errado, mas ainda assim, com a globalização e internacionalização dos grandes valores, é possível traçar um perfil humano de fazer o bem e fazer o mal.

Por exemplo: os governantes de todo o mundo não devem tomar dinheiro que vem da arrecadação fiscal para uso próprio. A arrecadação fiscal serve para a manutenção do Sistema de governo e do aprimoramento dos setores sociais de que se responsabiliza, como Saúde, Educação, Transportes, Alimentação e Emprego. A CPMF, um imposto cujo P de Provisório já se tornou Permanente, apregoa que sua renda deve ser destinada a sanar um dos problemas nacionais que se tornou a Saúde. A CPMF arrecada por ano, mais de quatro bilhões de reais e a Saúde pública do Nordeste mata pacientes por não atendimento, visto as condições alarmantes de instalações hospitalares e vínculos empregatícios cruéis.

Nossos governantes são os mestres na arte da enganação e de seu fator conseqüente direto: o assassinato. Sejamos práticos: quando os governantes criam salários estapafúrdios que lhes satisfaçam, abarrotam dinheiro em cuecas e malas, contratam laranjas e não conseguem identificar legalmente sua renda e bens, eles, por dedução e comprovação, roubam dinheiro nosso. Com isso, acidentes nos Transportes acontecem, a Saúde não dá saúde a quem dela carece, os Empregos não crescem juntamente com a economia nacional, a Educação, menos letal de todos os quesitos, fica à mercê de milagres dos educadores comprometidos com um sonho de país melhor e a Alimentação inexiste. Pessoas morrem de fome, violência, acidentes e falta de atendimento médico. Claro está, portanto, que todos os corruptos, corruptores e até corruptíveis de nossa nação deveriam estar presos sem CPI ou qualquer prerrogativa de protelação de pena, mas com um julgamento sumário, público e direto.

Não é radical pensar assim, mas humano. No Oriente Médio, aquele que rouba tem sua mão decepada; em Portugal, qualquer governante que está sob suspeita de corrupção é automaticamente afastado do cargo e sua remuneração cortada até que se comprove sua condição e, na China, meu país preferido em atitudes contra infratores, os corruptos são condenados à pena de morte e morrem com um tiro na cabeça cuja bala é paga pela família do ladrão. Aqui, cuja maioria da população sofre da culpa católica ou de sei lá que outra bondade surreal, nada se faz e, quando muito, apóia-se quem rouba, mas faz. Aqui, mesmo sabendo quem são os corruptos, construímos suas campanhas políticas a troco de grandes remunerações, aceitamos politicamente suas trapaças, entendendo que nossos shows musicais acontecerão de forma mais tranqüila, garantimos a segurança de nossos artistas comprando policiais, compramos terrenos do Estado e de Áreas de Proteção Ambiental, como quem compra os votos e reescreve os nomes nos papéis das urnas, garantimos, por fim, nossa satisfação mesmo que esse nossa advenha de uma parcela reduzida de cidadãos.

Com tantos focos da sociedade carentes quanto a incidência das queimadas nas matas de nosso país nesses últimos dias, lembramos que tanta revolta por coisas certas que não existem, gera a violência nas ruas e nos corações da civilidade. Mas aí, ao mesmo tempo, lembramos dos bandidos que se fantasiam de policiais, dos policiais que viram bandidos, dos bombeiros que viram bandidos, dos médicos que matam seus pacientes realizando cirurgias mutiladoras, professores de escolas carentes do norte do país incitando suicídio e pensamos que, por mais católicos ou qualquer coisa que sejamos, não adianta rezar ou pedir perdão, mas gritar, fechar ruas e implorar para que algo seja feito. Parar Transporte, parar Saúde, parar Educação. Com o país parado, esperamos que os governantes corruptos pelo menos tenham a decência de se movimentar um pouco a nosso favor.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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