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Café: extra-forte

Hoje não sei sobre o que escrever. Vamos ver o que acontece, mas já ia começando assim: almocei no Tango. Claro que só comi besteiras deliciosas, como torta de café e torta de atum com um monte de coisas dentro. Mais um capuccino. E um enjôo gigante, vontade de vomitar e muito arrependimento. Estava tudo maravilhoso, só que comi demais. E essas coisas demais sempre dão problemas... enfim.

* * * * *

Depois de uma noite mal dormida, acordar cedo e uma rinite interminável durante todo o dia, consegui driblar a chuva e chegar em casa. Prontamente tomei banho e soltei os filhotes (parêntese: tenho filhotes de She-ra, são dois dálmatas, He-Man e Tila) e me joguei no sofá com o bom e velho cobertor. Eu sou aquele personagem do Snoopy, amigo do Charlie Brown que vive com um cobertor por todos os lugaes...Mino? Sei lá, nunca sei o nome dele. Fui mudando os canais da tv, tenho mania doente de zapear, normalmente fico no máximo meia hora vendo tv e pronto. Só que desta vez foi diferente. Quando mudei os canais todos, estava passando um filme estranho. Chamava-se: Monólogos da Vagina.

Achei o título tão inusitado que resolvi experimentar. Era uma mulher americana que havia feito diversas entrevistas com mulheres pelo mundo, especialmente pelos EUA, e havia descoberto muitas coisas interessantes sobre o universo sexual da mulher. Algo como um Relatório Hite mais popular ou o outro filme que trata da vida sexual das pessoas, muito bom, por sinal, Kinsey, é seu título. Em Monólogos, a entrevistadora estava num palco, realmente executando um monólogo sobre a vagina. Um não, vários! Ela se valia das experiências coletadas nas entrevistas - algumas delas inclusive são apresentadas a nós - e criava em cima um texto bacana, com diversas impressões e expressões sexuais.

O filme me provocou diversas sensações. Não sou uma militante das descobertas sexuais da humanidade e nem me interessam muito os programas a la Sue alguma coisa que falam de sexo na tv. Não sou puritana, só acho que é uma coisa muito divertida e natural e que todos devem fazer sempre que sentirem vontade com as pessoas que sentirem vontade e se elas assim concordarem. A grande questão é que não é comum vermos a vagina como o foco das atenções. Na grande maioria das vezes, ou trata-se de sexo por ele mesmo, enquanto 'pacote completo' ou do pênis, que não discutiremos aqui. Entre os monólogos, a apresentadora/atriz/entrevistadora trazia um panorama sobre o próximo texto, com alguns trechos das entrevistas e informes, acontecimentos que causaram o novo subtema.

E aí vemos desde coisas realmente excitantes, de gemidos e prazeres e motivos e observações - um texto fala de uma história de uma mulher que passou a amar sua vagina depois que um cara com que se relacionou passou a observá-la realmente 'em todas as suas formas e peculiaridades', por assim dizer. E percebemos que algumas mulheres entrevistadas nunca se viram e não sabem como realmente são, como seu corpo se define, e em cada palavra, gesto, olhar, percebemos o interior de mulheres maravilhosas que se esconderam muitas vezes com medo da imagem que fariam de si mesmas. Já outras, por vezes se intimidavam com a câmera, mas ainda assim, percebíamos uma liberdade maior e risos, muitos risos de se encontrarem à vontade de conversar sobre um assunto que poucas pessoas falam com elegância e não com vulgaridade.

Só me incomodei um pouco com o fim, depois de alguma excitação e muitos risos - a personagem é engraçada e surreal - porque o último tema era sobre um parto que ela presenciou e ela poetizou o momento, que a maioria das mulheres acha lindo e deve ser mesmo. Quando eu for adulta espero pensar o mesmo, mas por enquanto a idéia me assusta um pouco... O texto escancarava o parto em detalhes e, como já vi em outros filmes, nunca me foi uma expriência agradável. Tenho minhas agonias com isso, ainda que queira ter três filhos. Penso no barrigão e na criancinha, mas nunca no entreato...

Por fim, aconselho a nós todos esse filme que causa estranhamento, incômodo, excitação e admiração. São muitas informações, um horizonte amplo e que queremos que seja ainda maior, vemos mulheres corajosas e tranquilas com seu conhecimento e não-conhecimento de si mesmas, vemos situações impactantes e uma forma de descobrimento incrível, tanto para os rapazes quanto para as moças. E, não me canso de dizer, sou fã da mulher corajosa que se mostrou e mostrou seu trabalho a tanta gente, de forma tão natural. Precisamos de mais mulheres assim, que consigam chegar lá na frente e dizer apenas: somos mulheres.
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Antonio Máquez

Esta segunda-feira aconteceu em Salvador um espetáculo de ballet flamenco da Companhia Antônio Márquez, de Madri. O TCA estava cheio das pessoas que nunca vemos pela cidade, à exceção de minhas coleguinhas do flamenco que tentamos aprender nas noites de segundas e quartas. O espetáculo não foi barato como os xous da Concha Acústica, mas valeu cada centavo e talvez eu ainda fosse capaz de pagar mais.

Acho que minhas necessidades de ver coisas diferentes aliadas ao cansaço extremo dos pequenos conflitos do dia-a-dia me impulsionaram como num desafio para cruzar a cidade. O espetáculo foi magnífico, me estimulou 1000% para continuar na danza e me divertir, porque não há esporte melhor do que o conhecimento.

Sempre conheci muito pouco sobre o Flamenco. Sabia que era uma dança espanhola e tive pouquíssimas experiências visuais, já tinha visto em filmes e só. Entrei ano passado e me apaixonei, mas, ainda assim, não tinha noção da beleza e energia dos movimentos execuados com perfeição. Antonio Márquez transformou a noção de limite entre a sensualidade e o equilíbrio que a rudeza dos passos no tablado e do quase flutuar do ballet clássico poderiam permitir. Se eu conseguisse realmente identificar todo o acontecido no palco em palavras, não valeria tanto a pena.

Estou redescobrindo meus prazeres mais uma vez. Eu sei que isso tudo pode parecer muito intecional, levando em conta que meus convidados de mesa já se empolgaram com o último escrito, mas estou disposta a esse novo desafio.

Um bom reencontro como tive esses dias com amigos de longa data, regado a velhas histórias e novos acontecimentos, amigos de sempre e que nunca causam estranhamento quando nos cumprimentamos.

O café com chantily do Tango, que já mencionei e a notícia de que abriram outra cafeteria na cidade. Hoje estive na aula de espanhol e me tremia tanto de frio... só porque não havia tomado café. Nada como a hora do intervalo pra alimentar nossos vícios mais divertidos e simples.

Uma conversa de telefone e boas idéias no trabalho que te surpreendem e alegram. Uma ponta de orgulho dos colegas e a satisfação de ainda se divertir com todos eles.

Sei lá. São pequenos prazeres que vão alimentando nossa vida e dirimindo nossas queixas, amenizando nossas ansiedades e permitindo que consigamos viver os diversos sabores do cotidiano. É necessário uma pitada de qualquer coisa nova durante a rotina para nos sentirmos diferentes. Só assim percebemos que passamos com o tempo e não apenas que ele passou por nós, como uma duração de qualquer coisa.
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Mais uma vez, solteira em definitivo. Isso aqui não é classificados. Todas as pessoas que ousam ler isso aqui sabem, pelo menos, de metade de minha vida. Posso falar do livro do Saramago?

Então: acabei de ler "As Intermitências da Morte". Divertido, mas me irritei com o fim. É uma estória divertida sobre a personagem morte. Ela é hilária, inteligente e sagaz, mas se atrapalha um pouco. Queria discutir com alguém sobre o final do livro, mas ninguém que eu conheço leu. E agora?

Vou pro Tango escrever minhas opiniões um dia. O Café, claro. Um caderno... porque esse é o tipo do programa que nem todo mundo tem saco de aceitar. Mas eu sou a favor, então vou. Chega um momento em que ser solteira se torna quase uma profissão: você define onde ir, quando ir, que roupa usar e o mais importante: que acessórios ter à mão.

Porque, quando todos os seus amigos estão ocupados e/ou namorando, e você percebe que não há mais ninguém da sua faixa etária que você curta compartilhar momentos disponível, você pega o irmão do códex e vai pra um canto legal, da cidade ou do teu quarto. É sempre bom. Daí, no caso de você ter escolhido a cidade, tem um monte de opções e em todas pode ver as pessoas e o comportamento delas e escrever contos divertidos em seu caderno ou agenda, também à mão ou ler o livro que carregas. Que seja num lugar agradável, sem muito barulho e calor. De preferência, longe da rua e do trânsito. Opa, tem que ser uma cafeteria. Acabaram as opções, eu tentei ir além dos cafés e tortas e salgadinhos legais. Ia esquecendo: no caso do teu quarto, pode ficar de camisola, pijamas, calcinha e camisão ou simplesmente pelada na cama lendo e escrevendo abobrinhas como essa que ninguém vai se importar e você vai se divertir à beça (mas tem é tempo que não leio/ouço/vejo essa expressão). Cuidado com uma coisa: caso isso seja freqüente e você se divirta muito, sua mãe pode vir a te acusar de depressiva e lhe encher a paciência para que encontres um analista o quanto antes. Ou seja, disfarce!
:)
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Calma, não é o que você está pensando. Nada vai acontecer de eroticamente extraordinário por aqui. Mas... até que é uma idéia, um conto erótico... não sei se tenho competência para escrever essas coisas. Tentarei.

Recebi uma proposta indecorosa. Uma proposta de casamento. Aceitei, claro. Foi a primeira, vai que não rola a segunda chance, oportunidades devem ser aproveitadas. Não tenho namorado. Como assim, você pensou. Assim. Tudo acontece ao contrário na minha vida. Padrão, pra quê.

Foi divertida e hoje sou noiva de araque. A proposta foi ridiculamente orkutiniana e quem a fez é uma pessoa muito divertida, me alegrou, claro. Vai que cola mesmo... Não posso casar por agora, mas daqui a pouco... quem sabe.
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diarios

Desculpe. Estou estressada. Não me concentro mais. Escrevo poucas vezes, sempre muito. Dizem que quem fala os males espanta (não era quem canta?). Foi o que aprendi hoje quando não falei na hora que devia. Mas depois eu escrevi e espantei uma parte. O problema é entregar o papel. E agora? Que nada, amanhã entrego e pronto. Fim de drama.

Descobri uma cafeteria em Villas do Atlântico, chama Tango. Me levaram lá e o lugar é lindo, gostoso e tudo o mais de legal que raras vezes aparece por essas bandas. Aconselho o expresso com chantilly, até porque foi a única coisa que consegui tomar até agora. Mas tudo parece gostoso.

Depois conto um conto pra você. Por hora, mando um beijo. Pra mim! :)
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"Temos que aceitar a nossa eixstência em toda a plenitude possível; tudo, inclusive o inaudito, deve ficar possível dentro dela. No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar."

"Falando-se novamente em solidão, torna-se cada vez mais evidente que ela não é, na realidade, uma coisa que nos seja possível tomar ou deixar. Somos nós."

Estes são trechos de um dos livros mais importantes que já li. É Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke. O livro é simples, trata de uma coletânea de cartas a um jovem escritor que aspira o título de poeta. Rilke escreve para ele, respondendo a seus anseios, nunca criticando seus textos, mas lhe mostrando formas de ver a vida, a união imprescindível de pensamento e sentimento. O texto é simples e corrido, mas há que prestar atenção a cada vírgula e pausa, pois aí é que está o verdadeiro, o imo de suas palavras, as entranhas de todo o livro. E depois, um texto belíssimo, de presente, quase que esquecido depois ds cartas. Sabe aquela caixa onde guardamos nossas correspondências afetuosas? Aí escrevemos um texto que gostamos muito. Guardamos lá. É onde está, no livro.

E eu, que converso tanto com dois amigos sobre solidão, encontro aí, não minhas palavras, mas minhas idéias descritas. E é tão difícil, ás vezes, seguir o que pensamos. Mas devemos. E esses trechos são para eles. Acreditem, não sou a única que pensa assim. E a você que me emprestou e depois percebeu que eu não poderia ficar sem o livro, valeu. Você bem sabe a importância disso tudo.

É só.
:)
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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