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Café: extra-forte


Cozinhei beringelas. Nunca tive muita proximidade com elas, sempre comi meio sem saber direito... entendia a berinjela como pedacinhos de coisas e via no mercado a bicha lá, inteira, roxa e verde. Estranha, mas bonita.

Decidi que faria beringelas recheadas, não porque as comi em algum lugar, mas porque inventei que deveria ser gostoso... como pimentões recheados. Fui no mercado, comprei a danada e coloquei na geladeira. Uma semana se passou. Todas as manhãs, abria a geladeira e lá estava ela, roxa e verde, bonita, mas estranha. Tive medo. Já pensou se a berinjela não é gostosa? Ela nem decide se prefere j ou g.

Hoje acordei mais pra tarde que manhã e lá estava ela novamente, me encarando. Resolvi tentar, afinal de contas o Girassol começou a esmorecer e precisava fazer alguma coisa. Recheei beringelas. Destruí a cozinha mais uma vez, nessa onda de programa de tv culinário para você mesma.

Abri as janelas, troquei a água do Girassol e cada dia que passa descubro que gosto mais e mais dele. Ele é muitíssimo amarelo, suas pétalas ficam resistindo e todos os dias aparecem as mini-abelhas. É a parte boa de morar no térreo. As mini-abelhas.

Terminei meu programa culinário, limpei a cozinha - parte que nunca aparece nos programas - e fui comer as beringelas com recheio de carne moída e todas as coisas que encontrei pela geladeira. O recheio, como sempre, ficou muito bom. As beringelas...

Murchar não é uma palavra legal para o Girassol. Porque ele não murcha, exatamente. Seu caule vai descendo devagarzinho, como se estivesse dizendo para o sol: seja feita a sua vontade, frente o peso da enorme flor. E a flor... ela tem um cheiro adocicado, mas fresco... parece que acabou de sair do banho.

Não agüentei comer as beringelas. A casca tem um sabor mais forte que não topei e um cheiro muito forte de planta. Não consigo comer vegetais com cheiro muito forte ou gosto expressivo de que saiu do mato. Gosto daquelas que disfarçam mesmo... por isso, não me chame para: casca de berinjela, açaí, beterraba e similares.

Quando eu era pequena, meu pai plantou um girassol no jardim. Eu passava um tempo enorme vendo ele se mover de acordo com o sol. Meu Girassol não faz isso. Ele foi presente e, assim, sacado da terra para minhas mãos, perdendo o super poder. Ao mesmo tempo, trouxe uma energia incrível, transformando dias como o de hoje.
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Estou lendo um livro divertido sobre cinema. Acho até que ele é mais divertido para quem não tem formação e doença pela sétima arte, que encontrará várias curiosidades bacanas e ótimas indicações de filmes: O caderno de Cinema de Marina W. A autora já escreveu outros livros e está anos-luz em popularidade em seu blog em relação ao meu pobrezinho aqui, mas não é isso que importa agora.

Uma das indicações é o obrigatório Acossado (1960, Jean Luc Godard). Godard é um dos homens mais importantes do cinema, um dos fundadores da Cahiers du Cinema (revista francesa sobre cinema nascida nos anos 60), junto com François Truffaut (dirigiu Jules e Jim e A noite Americana e outros tantos), e mais alguns importantes cineastas que não citarei, já que isso não é uma aula. Eles são os criadores da Nouvelle Vague, uma vanguarda artística francesa que mudou os hábitos e a linguagem de fazer filmes. A Nouvelle faz parte daquele turbilhão de novidades desta geração (Neo-realismo Italiano, Cinema Novo, Cinema Direto, o ano de 68 em todos os lugares do mundo... mas vamos parar por aí).

Acossado conta a história de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo), um ladrão de carros que acaba matando um policial e tem que sair da França. No meio da história, encontra Patricia Franchini, uma namorada americana que vende jornais pelos Champs Elysèes. Ao tempo que Michel tenta resolver seu impasse e quer levar Patricia para a Itália, ela fica na dúvida, pois pretende ascender à carreira de jornalista e ainda há outras complicações que deixarei em aberto, bem como o sensacional final da trama.

Se lemos simplesmene a sinopse, não entendemos a dimensão do filme que transformou a história do cinema. Há que assistí-lo e entender o momento em que ele surgiu, como o filme foi feito e sentir a estranheza, pois ainda hoje é um filme marcante.

Jean Seberg é Patrícia essa garota que apenas de olhar para seu rosto, já sentimos vontade de conhecê-la. Há um mistério naquele olhar meigo, ela não é simplesmente doce, ela tem algo mais, ela parece observar a todo instante, é uma mulher de opinião... No meio das opiniões de Marina W., fiquei sabendo mais da vida da atriz e fui investigar .

A atriz teve uma vida que ninguém imaginaria ao vê-la nesse filme. Ela casou-se quatro vezes, se envolveu com os Panteras Negras, teve dois filhos e um deles, uma garota, morreu em decorrência de uma overdose da mãe, dois dias depois de nascida em 1970. A mãe, a cada dia de aniversário de nascimento da filha, tentava se matar, até que conseguiu, em 1979. Uma vida turbulenta, envolvida em lutas sociais e que acaba em tragédia, com uma mulher cheia de potencial e um dos marcos do cinema mundial.

A história de Jean Seberg, ao tempo que nos entristece, nos faz pensar em quão complexa foi sua geração, em como deveria ser ao mesmo tempo interessante e crítico viver tantas tranformações em pouco tempo, quebrar tantas regras sociais, viver esse romper de situações com tanto preconceito, se envolver em movimentos que necessariamente mudariam o mundo, estar neste mesmo mundo que muda a todo instante e como uma ação em uma ponta deste espaço conversa com outra, no outro extremo.

Por fim, Jean escreveu dois livros: Como escapar de si mesmo (ao que a pesquina informa, um manual para suicídio) e Blue Jean - um ensaio sobre a esquizofrenia. Em uma das frases que pesquei da atriz, ela diz que o filme que mais gostou de fazer foi Lilith (Robert rossen, 1964), que vou procurar para assistir. E a última coisa: pra quem viu O bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968), lembrará totalmente da referência ao corte de cabelo de Jean em Mia Farrow.


Filmes:

Acossado (À bout de souffle)
Diretor: Jean-Luc Godard
1960, 90 min.
País: França

Jules e Jim (Jules et Jim)
Diretor: François Truffaut
1962, 105 min.
País: França

A Noite Americana (La Nuit américaine)
Diretor: François Truffaut
1973, 115 min.
País: França, Itália

Lilith
Diretor: Robert Rossen
1964, 114 min.
País: Estados Unidos

O bebê de Rosemary (Rosemary's baby)
Diretor: Roman Polanski
1968, 136 min.
País: Estados Unidos
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Depois de muito sofrer e desistir de pensar no infame vaso sanitário, cheguei a conclusão de que ele não poderia me vencer. A soda cáustica é uma desilusão só: não faz fumacinha, não explode e se tem cheiro, eu não senti. Ela finge que resolve seu problema. Acabou que usei o pote todo da soda seguindo as trezentas indicações à perfeição e exaustão e nada aconteceu... a água desceu um tiquinho mais rápido, mas mesmo assim, o vaso ficava inutilizado.

Depois do almoço, fui com uma comadre na rua: precisava comprar um livro e ela tinha que ir pra casa. Passei mais uma vez em uma das duas lojinhas de coisas baratas para casa; estava procurando lixeiras (duas pros banheiros e uma pra cozinha), achei todas feias e as que eu queria só encontrava pela metade: ou só a tampa, ou só o 'receptor'. No meio dessa história e com a loja entupida, confessei a uma das donas de casa que estavam por lá: a senhora sabe como é um desentupidor de vaso sanitário? Porque o meu vaso está impossível e olha que já tentei soda cáustica!! (a soda sempre assusta as pessoas). Falei com minha mãe e ela me disse que era para eu comprar um desentupidor, e me descreveu o aparato, mas só me lembro de 'cabo de vassoura'. Ela, à luz de sua sabedoria: ''você pode até comprar, mas tenho uma dica infalível, você vai precisar:

1 panela razoável com água ultra super quente destruidora
1 vassoura piaçava
1 saco plástico (ou 4 se você for neurótica/o como eu)
10 folhas de jornal

Faça uma casinha para a ponta da vassoura que varre dentro de um saco plástico. Enfie a vassoura dentro e dê um nó no cabo.'' Como eu sou mais preocupada, fui colocando sacos por cima para não molhar a vassoura por dentro. A brincadeira é jogar a água fervente na privada e meter a vassoura dentro, fazendo o velho movimento entra-e-sai e pronto. Seu vaso estará milagrosamente desentupido.

Eu juro que queria encontrar a dona moça da loja e agradecê-la profundamente. ela foi muito gênia e esse é o tipo de sabedoria que só o tempo resolve... não tem jeito. Eu fico pensando... as pessoas realmente usam mecanismos criativos para solucionar problemas. Elas sim, deveriam ser produtoras de cinema. Mas isso é outra história.

Me sinto muito feliz nesse momento e aprendi na prática porque não devemos jogar papel no vaso sanitário (ainda que eu não acredite que o papel tenha sido responsável e sim algum material de construção surreal deixado como resto...). A crise agora é me livrar os sacos plásticos da vassoura... mas isso é café pequeno!
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Se você um dia pensar em morar sozinho, provavelmente enfrentará os três momentos desesperadores, sintetizados como Surgimentos Inexplicáveis.
  1. Você costuma manter a casa limpa e razoavelmente arrumada e, do nada, surge uma barata gigantesca no banheiro. O ralo do chuveiro está fechado. O ralo menor que fica perto da privada também. A pergunta é: de onde a infame surgiu? Por mais que você tente descobrir isso, é importante não perdê-la de vista e eliminá-la prontamente. Ela pode resistir a vazamento radioativo, mas perde para o baygon. Se o medo surgir em seu coração e você resolver chamar o porteiro, duas coisas podem acontecer:
    a) o porteiro encontrará a barata, matará e te deixará feliz para sempre, agradecendo a ele horrores e pensando em lhe comprar um presente;
    b) o porteiro não encontrará a barata, o que significa um aumento substancial do seu desespero, um agradecimento sem graça ao porteiro e o olhar dele pra você de 'se lenhou'. O baygon ainda é a melhor opção se você é como eu, incapaz de matar/acertar a infame com sandália, sapato, bota, revista ou xampu.
  1. Em mais uma tarde de estudos, você resolve fazer café. Esquenta a água... faz o café. Senta-se para continuar a leitura e, cinco exatos minutos depois, um cheiro de gás inunda a sala. Você, achando muito surreal que o cheiro venha do fogão, já que você acabou de utilizá-lo, vai ao aquecedor. Nada acontece. Vai à cozinha e lá está o cheiro brutal do gás. Enquanto você acaba de pensar: ela deixou a saída do gás aberta. Não: um surgimento inexplicável de uma brecha antes da torneira do gás (aquele dispositivo que fica entre a tubulação que sai da parede e a mangueira) criou o vazamento e eu ia morrer envenenada/queimada. Liguei para a dona do apartamento, que me enviou o encanador-pedreiro-bombeiro-pintor, que resolveu mais um problema do além.
  1. Você chega em casa depois da aula, vai ao banheiro fazer xixi (notem: xixi), dá descarga e continua os processos de chegar em casa etc e tal. Na manhã seguinte, percebe que a água está ainda amarelada e dá descarga mais uma vez. A água sobe... e não desce. O desespero toma seu coração e você simplesmente finge que não é com você, que a privada de repente está com preguiça e que vai descer a água em algum momento. Vai fazer uma coisa ou outra e volta. A água está lá. Um surgimento inexplicável de entupimento de privada assolará sua tarde para sempre. Você pensa em todas as coisas nojentas que estão contidas neste entupimento e pega a coisa mais nojenta existente além da privada entupida (e da barata): a escovinha da privada. Mexe e remexe na água agora com outros tons e descobre que não adiantou nada e que resultou apenas no aumento do nojo que você sente e a certeza de que jamais olhará para aquela privada como da primeira vez.
Neste momento acabo meus tormentos cotidianos. Descobri, depois de uma investigação que a solução será coca cola ou a soda cáustica com água fervente, utilizando luvas e lenços e trezentas formas de proteção para não morrer queimada/intoxicada. Vou buscar os equipamentos na rua e um dia contarei o fim de mais um dia comum de situações surreais. Uma coisa é certa: quando você resolve morar sozinha, até pensa nessas possibilidades... mas pensa nelas lá... bem longe de você... e, de preferência que se vierem a acontecer, será uma vez na vida... e não todas no mesmo mês.
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Igual a tudo na vida
O fim de semana correu frio e chuvoso na suposta cidade maravilhosa. Mantive meu senso crítico em alta e acabei numa tarde de sábado agradável em companhia de Woody Allen e seu novo filme no cinema. Ainda investindo na sociabilidade, fui num bar recém inaugurado e até divertido, que rendeu momentos tão leves quanto as conversas. Retornando ao período de reclusão, me peguei desde sábado à tarde até hoje e espero por mais uns dias, pensando no Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen, 2008 – o do cinema), em suas formas narrativas e no que ele propõe. Minha surpresa agradável foi neste domingo de preguiça e sofá: Igual a Tudo na Vida (Woody Allen, 2003) e O Selvagem da Motocicleta (Francis Ford Coppola, 1983) numa seqüência em que se tornou impossível não associar os três bons filmes e traçar possíveis paralelos.

Ainda no sofá, me peguei pensando sobre as formas narrativas dos três filmes e percebo que eles seguem a mesma base: uma voz off que conta a história enquanto ela acontece e traça observações, opiniões sobre os personagens, seus sentimentos e ações. Isso é o que costumeiramente chamamos de voz de Deus: alguém fora da tela e da história que sabe tudo o que acontece na trama, a vida dos personagens e ainda está acima do bem e do mal para ditar as regras do jogo e nos favorecer com seu ponto de vista. Nos filmes fracos, é uma alternativa a algo que o diretor/roteirista não conseguiu exprimir em imagens, como o Jane Eyre (Robert Stevenson, 1944) em que trechos do romance são literalmente lidos pelo narrador a cada marco narrativo da trama e a imagem correspondente a este tempo é justamente um capítulo aberto do livro com o trecho narrado destacado. Jane Eyre surge na geração dos filmes que hoje consideramos clássicos por seu tempo de produção, com Elizabeth Taylor ainda menina e Orson Welles co-protagonizando. É um filme interessante, com roteiro do livro de uma das Irmãs Brontë (Charlotte, lembrando que a outra irmã, Emily, escreveu O Morro dos Ventos Uivantes) e que traduz um tempo onde o romance era romântico, os dramas verdadeiras tragédias e a mulher sofria as inevitáveis dores em uma sociedade que a fazia calar. Nos concentremos nas formas mais recentes.

Em Vicky Cristina Barcelona, encontramos o padrão do diretor somado às transformações percebidas há aproximadamente cinco filmes. Deixando de protagonizar seus filmes e dando vazão às histórias em novas locações, vemos um quê de experimentação em um dos mais ativos cineastas da atualidade. Neste filme, um narrador conta a história dos diversos conflitos amorosos entre Vicky, Cristina, Maria Elena e Juan António. Como em Igual a Tudo na Vida, este narrador esta a par dos acontecimentos presentes e futuros, ainda interpretando e cogitando as ações dos personagens. O interessante é que nestes dois filmes, o narrador comenta e quase conversa com o espectador, levantando questões sobre o que está na tela. A diferença entre as duas narrativas, apesar de simples, transforma e enriquece o trabalho do diretor. Vicky Cristina Barcelona traz questões sobre relacionamentos contrapondo a sociedade conservadora e seu padrão frente a uma situação que se impõe e que extrapolaria o que é tido como regular e que não seria ruim de todo. Os personagens percorrem a trama, vivenciando suas falas em locações belíssimas, enquanto nosso narrador nos faz pensar no que se vive ali. Igual a Tudo na Vida tem outros questionamentos e uma marca maior da neurose típica dos filmes do diretor, com ele em quadro e diluindo seus pensamentos em cada personagem. Além do narrador que nos acompanha, o protagonista investe diretamente num direcionamento a nós espectadores, passando por situações e nos questionando, como um personagem de ficção que entende que há não uma platéia, mas um participante ativo da história que tem opiniões próprias e, como o narrador, está a par dos acontecimentos fora da trama.

O Selvagem da motocicleta

Acompanhado desses dois filmes de Woody Allen – lembrando que ele é um dos poucos diretores cuja experiência no cinema o fez usar diversas formas narrativas para contar histórias simples – há o terceiro citado, O Selvagem da Motocicleta. Coppola já havia consolidado sua carreira brilhantemente com duas edições de O Poderoso Chefão (1972, 1974, o último viria em 1990), Apocalypse Now (1979) entre outros filmes, e com este trouxe mais ênfase no narrador de que tratamos. Não querendo adentrar no universo mítico do filme (com referência a O selvagem, 1953, somadas às questões autobiográficas do diretor, sociedade americana, gangues e o sonho do oeste americano), encontramos este narrador participante. Ele surge ocasionalmente, com muito menos freqüência do que nos demais filmes, mas nos lança questões para refletir, sobre os ideais do protagonista, sua vida e seu futuro. Resumidamente é a história de um jovem que busca se auto-afirmar com base no ideal que construiu de seu irmão mais velho – este sim, o Selvagem da Motocicleta – que comandava as ruas de sua cidade, subitamente parte para o oeste americano e retorna, rompendo os ideais do irmão, exibindo uma família desconstruída e uma previsão de futuro curta que a delinqüência promove.

Além da qualidade narrativa, do roteiro elaborado e de excelentes performances, os três filmes garantem entretenimento sem muitos efeitos especiais. Os três, por mais que suas histórias sejam diferentes, possuem em comum os questionamentos que temos sobre situações que passamos. É evidente que em O Selvagem da Motocicleta, há que dar-se um desconto por sua época e caracterização, ainda que vejamos na representação familiar, no discurso e experiências de nosso protagonistas, situações similares na 'vida real' da juventude em alguns espaços urbanos. Da mesma forma, Igual a Tudo na Vida investe na crise do relacionamento de um jovem casal e encontramos em Vicky muito a pensar sobre como nos relacionamos, a partir da possibilidade avistada com a diversidade e decidir sobre romper as amarras sociais tão conhecidas e investir em um território novo e repleto de oportunidades.

Ainda que Jane Eyre tenha entrado de supetão na história e ganhado um juízo de inferioridade frente aos demais, ele reaparece aqui como uma reflexão interessante quando o contrapomos no quesito das relações sociais. É um filme bonito, que exige o cuidado de atentar para a época de produção e o retrato que se fez de uma geração ainda anterior. Vemos na narrativa que apresenta os capítulos, marcos importantes para o desenrolar da história de Jane, esta menina desafortunada e sofrida que enfrenta como pode as situações de sua vida. Orson Welles é o homem com um passado em brumas que se desfazem aos poucos e há a surpresa de encontrar Elizabeth Taylor, uma criança cuja pequena participação já consegue destacar sua beleza e facilidade com as câmeras. É um filme cujas cores trariam um adicional de beleza, como visto nos demais, à exceção de O Selvagem da Motocicleta, em que o preto-e-branco proposital conjuga com a narrativa e peculiaridades daquele que carrega o título do filme – é daltônico. Para fechar, o que podemos perceber disso tudo é que à medida que o cinema vai percorrendo a história até o momento que vivemos, a interatividade que chega com as novas tecnologias e a tv digital encontra seu paralelo no direcionamento das narrativas em voz off. A voz de Deus está cada vez mais humana e comunicativa.

Filmes:

Em Cartaz
Título: Vicky Cristina Barcelona
Diretor: Woody Allen
País: Estados Unidos, Espanha
2008, 96 min

Título: Igual a Tudo na Vida
Título original: Anything Else
Diretor: Woody Allen
País: Estados Unidos
2003, 108 min

Título: O Selvagem da Motocicleta
Título Original: Rumble Fish
Diretor: Francis Ford Coppola
País: Estados Unidos
1983, 94 min

Título: Jane Eyre
Diretor: Robert Stevenson
País: Estados Unidos
1944, 97 min
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Cá estava eu, deitada na melhor posição para arruinar a coluna no sofá, quando decido ver o último filme de Bigas Luna passando no canal fechado. Yo soy La Juani conta a estória dessa menina que decide tomar o rumo da própria vida e tentar atingir seus sonhos a partir da realidade. E mais uma vez, o personagem menina que quer ser independente nos invade e carrega para seu universo de comparações com o que somos.

Juani é como eu, uma menina com vontade de aventura e coragem para se jogar nela. Bastou um motivo para que seus anseios se tornassem agonia e ela saísse para ganhar o mundo em Madri. Carregou uma amiga com ambições parecidas, curtiu a fantasia da cidade e caiu no dia-a-dia sem tanta maquiagem. Ninguém disse que seria fácil, certo?

Mas Juani segue em frente e aí entra a mágica do filme de Bigas Luna: nos concentramos na personagem sem esquecer a beleza das cores em sua construção. Uma fotografia suja, levemente granulada, com tons urbanos, mas narrativa sensível. Juani não esquece seus problemas, sua família e a princesa sai da carruagem do príncipe que se torna só mais um em sua vida, por mais que ela quisesse o contrário. Mas ela também não é uma princesa; é uma mulher em construção.

Bigas Luna aliviou a mão neste novo filme. As cenas de sexo – tão freqüentes e intensas que marcam sua filmografia – aparecem aqui mais suaves, como de uma menina real que não tem muita vergonha e sabe o que quer. Faz parte da elaboração do personagem essa sensualidade vista já a distância, não apenas com o desnudamento proposto no figurino, mas na forma como mexe o corpo, como anda nos saltos, como dança e dirige seu olhar. Juani tem a doçura do descobrimento no olhar, a maquiagem que carrega em seus olhos é só para tentar tornar mulher mais rápido aquela que ainda chora quando as ilusões se desfazem.

Costumo carregar as bandeiras dessas mulheres ou meninas-mulheres, pois estou na mesma linhagem delas, descobrindo meus caminhos a cada passo dado. É uma busca que a boa ficção transforma uma estória espanhola em universal. Este aprendizado que escolhemos traz o prazer da identificação com personagens como Juani; sou heroína da minha própria história, sem esquecer a ternura, o sorriso, a audácia e a constante observação aos movimentos que nos orbitam e impulsionam.

Título original: Yo soy La Juani
Diretor: Bigas Luna
País: Espanha
2006, 100 minutos.

Observações impertinentes:
1. Não dá pra ver muito na foto, mas a protagonista é muitíssimo parecida com Natalie Portman;
2. Haverá a seqüência do filme. Aguardemos Juani.
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Esses dias o mundo dá uma parada entre a crise econômica, o cargueiro dos piratas e as guerras mundiais e particulares para esperar. Todos ganharam uma ponta de esperança, talvez maior sentida nos Estados Unidos, com Barack eleito. Milhares de fotos, charges, vídeos, reportagens mantêm nosso ideal de mundo melhor em suspensão: estamos na ativa concentração tentando descobrir quem é esse homem que alavancou o maior poder do mundo e que enfrentará sua maior crise.

Há uma simpatia por ele; negro, bem formado, não são poucas as comparações, analogias, lembranças em relação à questão negra e seus heróis americanos. Hoje mesmo, acessei o New Yorker e vi estampadas séries de charges criticando Bush e fortalecendo os ideais que acreditamos encontrar, através dos discursos deste novo homem. Segundo a reportagem que acompanha a imagem acima, Obama não é o herói do movimento negro e reconhece sua história de luta, mas um homem com capacidades de liderar um país multicor. E enquanto seu discurso acontecia no dia da vitória, milhares choravam e não apenas norte-americanos. Sua campanha de mudança merece prêmios de marketing e não haveria momento melhor nos Estados Unidos para pô-la em prática. O que vimos em seus discursos era absolutamente oposto à besta que lidera o país.

É difícil, entretanto, manter viva por muito tempo essa idéia de que o mundo vai melhorar. Recentemente, em minha busca diária por notícias mundo afora, vi que está acontecendo uma possível nova guerra no Congo, que os piratas somalis seqüestraram mais um navio, agora com trigo, que nesse fim de semana contam-se 4 ou 5 meninas estupradas no Paraná. Quando buscamos notícias, já esperamos que as ruins sejam as tragédias do dia-a-dia e as boas, possíveis avanços na ciência. Nenhuma notícia é boa notícia de verdade ou anima a população. Eu, pelo menos, lembro de poucas assim...

Em todo caso, sinto por Obama uma simpatia, muito parecida com a que senti por nosso Lula quando foi eleito. Vejo em Obama e no pouco conhecimento que tenho dele, um preparo muito maior para tentar liderar seu país e, convenhamos, quase qualquer um é melhor que Bush. O que é estranho é como um país permitiu um líder deste quilate governar por tanto tempo. E se hoje - como acabo de ver uma propaganda na televisão - tanta gente escreve, pensa, sente, se interessa por Barack Obama é porque estamos nos entendendo como um todo e, assim, nossas preocupações tornam-se globais. Talvez, a partir daí, seja possível esperar alguma coisa para os anos vindouros.
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Estamos em um novo projeto. Eu e Pedro, meu colega da pós e parceiro neste novo documentário, resolvemos nos desafiar e entrar em algo que trate de nós mesmos, de nossa relação conosco, de como e porque nos tornamos quem somos... justamente a partir do olhar.

Esta idéia traz em seu íntimo uma busca de nos reconhecer em um novo ambiente. Eu e Pedro, cada um em seu novo espaço, esperamos conquistá-lo aos poucos, ainda que ele nos tenha dominado de imediato. Ainda tentamos deixá-lo um pouco mais parecido com o que achamos ser, mas tudo não passará de uma combinação de fatores para continuar a busca incessante pelo equilíbrio em movimento que é uma moradia. Porque mudar não é apenas de endereço físico, mas uma relocalização de nós mesmos.

Entrando neste novo espaço, espero renovar e reciclar as energias que me freqüentam neste ano. Mudanças já estão acontecendo aos poucos, readaptações, decisões e escolhas em todos os sentidos. A impressão que dá é que cada vez que nos transferimos, transformamos nosso olhar diante do todo, de tudo o que nos cerca. Assim, até as pessoas que encontramos em nosso cotidiano ganham outras dimensões. À medida que vamos conquistando os espaços, vamos nos permitindo novos mundos e para cada mundo, um grupo de situações novas. Tudo é sempre o que escolhemos e, claro, a não escolha é também uma decisão.

Minhas coisas ainda estão em caixas e malas e mais uma vez penso na quantidade de coisas que carregamos nas costas, como uma casa móvel, com o 'básico' para viver. Se meu básico é mais de livros, dvds, roupas e sapatos, hoje vivo com muito pouco disso tudo, as caixas fechadas e malas repletas assim continuam enquanto o filme não é rodado. Abri uma sacola menor e tirei três livros que me fazem companhia, ainda que na verdade, esteja lendo apenas um. Essa situação faz pensar no que sempre pensamos quando carregamos bagagens de um lado para o outro: temos sempre a certeza de que precisamos de muito menos para viver, mas sempre guardamos e guardamos, para criar uma pequena constelação de tudo o que somos onde estivermos.

Toda essa situação, a mudança, os novos olhares, o re-conhecimento das pessoas que se freqüentam socialmente me fazem querer parar, me concentrar em estudos e retomar meus objetivos, já que me fixei neste novo espaço. O mais engraçado é que todos percebem, é como Na Natureza Selvagem, o que vivemos vai nos transformando aos poucos e quem nos cerca percebe alguma alteração em nossas vibrações, mas normalmente não identificam de imediato. E nós acabamos sem dizer nada, dizemos o que um roteiro de cinema diria: estou em casa, lendo livros, sentada no sofá. Se fosse literatura outras palavras dariam sentido mais exato: estou buscando me reencontrar e, para isso, observo mais, falo menos, decido meus novos rumos que podem até ter a mesma cara de antes, mas em essência se reconstroem.
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Primo, uma coisa eu te digo: você está prestes a desvendar um novo mundo. Não vai ser fácil, mas não escolhemos o caminho mais fácil, caso contrário, estaríamos no mesmo lugar. Quando mudamos completamente de espaço, não apenas tudo ao nosso redor se transforma, como as idéias que acreditávamos estar solidificadas em nós.

Essa redescoberta é tão prazerosa quanto dolorosa algumas vezes. A falta que sentimos de casa não vai ser resolvida tão cedo... e voltar para casa será sempre uma aventura de retorno, você não vai segurar o sorriso e vai perceber no seu íntimo que foi a escolha certa, a decisão de mudar lhe mudou.

Não sei se nos tornamos melhores ou piores com isso... acho até que estes não são os melhores adjetivos; acho que nos tornamos outros, acho que passamos a entender de forma mais completa e complexa o significado de individualidade. Porque nos entendemos como uno, único, com uma bagagem de valores, família, amores, carinhos e aprendizados que aos poucos vamos entendendo que são só nossos, apesar de nossa linhagem.

De início, te adianto, a cidade te dominará. Ela vai tragar você, seu trabalho e poderá lhe pôr em prova. A cidade que você escolheu é a do trabalho, é uma máquina, uma linha de montagem que impulsiona o país em que vivemos e esse é o objetivo de pessoas como você e eu, quando decidimos partir para ela. Então, calma: deixe ela se mostrar pra você, mas extraia dela seus prazeres. A cidade que você escolheu é também cultura. Você vai para uma das maiores cidades do mundo que ainda faz parte de um dos países mais ricos e diversos que existe.

Insisto que invista na cultura: xous, filmes, pessoas, espetáculos. Adicione pitadas desse tempero e vá em busca também da diversidade. Na cidade que você escolheu, há pedaços do mundo perdidos em seus bairros. Uma cidade cosmopolita, que conserva em si a poluição e o coração de tanta gente na mesma situação que a sua.

E quando a saudade apertar, o coração pedir arrego, liga, manda mensagem, manda e-mail. Somos vizinhos, eu e seu amigo e é um pulo (grande) para te encontrarmos. Não se preocupe, vai dar certo, e você vai estar mais ocupado do que livre, para ter a mente ociosa. Fique tranqüilo também com quem fica, porque eles estão em número e você sabe como ninguém como todos são próximos apesar dos conflitos ocasionais. Até eles fazem parte da proximidade dos nossos.

Um beijo e pode contar comigo. Lhe veremos muito em breve em seu novo destino.
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Enquanto um texto novo não aparece por aqui, mas está em construção, sigo com a novidade. Acessem este link e vejam que, apesar de simples e singelo (agora tenho mais confiança em dizer), No tempo de meu avô..., tem potencial.

Conquistei with a little help from my friends, o Melhor Roteiro do RECINE 2008!

Para rever o curtinha, acessem este Arquivo.
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I
Ausência

Estou numa casa que não é a minha. Ouço músicas novas, estranho a falta de meu barulho costumeiro, ocupo outros espaços.

O dono desta casa não está. Possivelmente ele chegará na minha saída e não saberei como é viver com ele. A proposta não era essa, em todo caso. Estou aqui como pouso provisório para retomar a mais uma nova jornada de um ano de novas jornadas. Cada jornada significa a conquista de um novo território, onde um dos objetivos é se enxergar neste ambiente e transformá-lo em casa.

Na casa em que eu estou há um clima diferente. Um clima que combina bastante comigo, mas com uma versão de mim no futuro, como uma pessoa que estou tentando construir para ser. Há a falta óbvia de algumas coisas que seriam mais próximas de mim futura e há, por outro lado, uma infinidade de coisas que acho que já sou e de grandes descobertas e identificações. Mas fico pensando o que esta outra pessoa pensa de alguém utilizar seus espaços.

Uso sua sala, sua música, sua internet. Abro sua geladeira, vejo seus livros e ímãs, utensílios de cozinha e shampoos. E essa vida de outra pessoa começa a me parecer bacana. É uma casa que incentiva os estudos, a vontade de produzir, de ver, conhecer, investigar.

O apartamento em que eu morava era menor. Um quarto e sala com o básico que uma pessoa precisa para viver bem. Mas era um apartamento vazio... feito para locações, com uma cara que não era cara de ninguém... um apanhado de coleções moráveis. Se nos deixarmos levar por essa coleção que não nos estimula a nada, paramos tudo feito os pratos brancos da cristaleira ou os quadros da bailarina de antigamente. Algumas vezes fui levada por esse marasmo, outras tantas consegui me libertar e produzir movimento.

Acredito que esta saída abrirá as portas para a pessoa do futuro. O intervalo na casa deste amigo é mais uma experiência que podemos deixar passar sem pensar ou investir nela e sentir tudo o que é possível. Eu invisto. E esse objetivo da busca vai me levar a um novo lugar, uma nova morada. Esta nova casa vai ser a casa da nova experiência, mais um passo em busca do mundo. São as energias renováveis que nos transtornam e transformam. É a mudança, o fim de um tempo quase presente, já não estivesse passando por nós.
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Há alguns dias postei um texto sobre o Última Parada 174, quando foi lançado no Festival do Rio. O tempo passou e para a minha surpresa, li ontem no caderno cultural de domingo uma falação entre os bonequinhos de O Globo. Carlos Alberto Mattos, Rodrigo Fonseca e Marcelo Janot opinaram entre bonequinho achando espetacular, bonequinho de maresia na poltrona e bonequinho pedindo a morte... ou dormindo. Mas a parte realmente interessante de toda a história pode ter passado despercebida pela maioria: a forma como os três autores opinaram sobre o filme se transforma radicalmente e deixa o leitor que ainda não o assistiu, meio sem saber o que fazer.

Minha opinião sobre o 174 tá por aí, disponível. Mas, quem tiver acesso ao Globo, vai encontrar muita diversão pra quem curte crítica de filme, a começar pelos títulos dos três textos: “Uma tragédia brasileira sob o foco da sobriedade”, “Perplexidade em ensaio sobre o livre-arbítrio” e “Tropa de Elite do Bem em clima de Telecurso”. Vou comentar os três textos e seus autores, respectivamente.

Carlos Alberto dá um show de gentileza e opina com a bonança do cinema brasileiro... concorda com tudo, acha o filme perfeito, digno e justo. E essa boa vontade que nos torna café-com-leite é que me deixa irritada. Se este fosse um filme americano, de Hollywood, certamente choveriam críticas do apelo ao drama, das caricaturas, de que é mais um filme blockbuster. Mas, por ser tupiniquim, a pátria amada chora e acolhe os seus, ainda que o filme continue com suas caricaturas vendendo um Brasil que o mundo entende como óbvio e real, porque é sempre a mesma mídia que fabrica as mesmas idéias. Ainda assim, vale ler o texto, muito bem escrito e elegante.

Rodrigo Fonseca toma uma atitude mais arriscada e falha. Nos traz um cabedal de informações para cult achar bonito e poder participar da mídia de massa. Pasolini de início com mais outras citações que nem os iniciantes estudantes de cinema se acostumaram a ouvir. Ainda que a analogia ao texto do poeta-cineasta seja bem sucedida, poderia ter findado aí, para o leitor usual poder partilhar das opiniões sem precisar acessar a estante cult/alternativos/cinema europeu da locadora. O texto perde a graça e fica orbitando em torno dos intelectuais que devem ter achado bastante interessantes as opiniões baseadas em obras de arte. Não diz muito na vida real, o autor fica em cima do muro e deixa o bonequinho e seus leitores sem muita vontade de ver o filme.

Janot ganhou meu coração. Não sei o que aconteceu com ele nesse dia em que resolveu escrever o texto, não o conheço, mas ganhou ainda mais a minha simpatia com as comparações esdrúxulas e originais ao utilizar 'Tropa de Elite do Bem', 'telecurso primeiro grau' e 'mãe bíblia' no texto. Conciso, exato, direto. Não facilitou pra Bruno Barreto, identificou as caricaturas ridículas e perigosas do filme, e, como não poderia deixar de ser, acabei concordando, mas não é só isso: Marcelo Janot trouxe graça, leveza, opinião contundente. Tem quase uma raiva, um sarcasmo real nas palavras. Não precisamos do rebuscamento de Rodrigo ou da complacência de Carlos Alberto.

É uma peregrinação entre as diversas formas de se fazer crítica e acho que só essas diferenças já cabem em uma aula do gênero. Tomara que alguém faça uso. E, ainda que os textos sejam curtos como resenhas (talvez alguém aí reclame que eu os chamei de críticas), vale perceber a forma como cada autor se posiciona e aborda o que mais lhe chamou atenção. Poderiam ser textos maiores, mais elaborados e com reflexões que nos fornecessem material para além da polêmica óbvia, mas, para isso teríamos que pensar em um caderno de cinema e não de cultura geral. É uma falha que persiste no cerne da mídia impressa e só temos a lamentar.

Por fim, ainda que tenhamos tantas vertentes pra polemizar a vida real que girou em torno dessa ficção, continuo achando que vale a pena ver o filme. Vamos estudar um pouco o Brasil, nossas pessoas, nossas tragédias e, mais importante nesta ocasião, nossa representação na tela. Não podemos deixar de refletir em como nos vemos, em como quem fez esse filme nos vê e se vê enquanto brasileiro e se é isso mesmo o que somos, se somos o que está disposto aí, porque é assim que nos enxergarão lá fora, que imaginarão e que farão um resumo de nós. E, para deixar os incrédulos do documentário em crise, a verdade é uma só e unânime: o documentário sobre a tragédia – Ônibus 174 – é muito melhor do que estorinha de ficção.

Filmes:
Última Parada 174
Ficção, 110 min
Diretor: Bruno Barreto
Brasil, 2008.

Ônibus 174
Documentário, 133 min
Diretor: José Padilha
Brasil, 2002.
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Estou vivendo um momento muito particular desta trajetória. Como previsto, as dificuldades pra encontrar um apartamento persistem, mantenho vivo meu posicionamento (cada vez mais) crítico sobre meus atuais conterrâneos e, por conta de algumas questões menores, minha tolerância à imbecilidade anda bastante reduzida.

Resolvi que precisava investir neste momento e descolei dois autores: Gore Vidal e Charles Bukowski. Terminei Factotum (Bukowski) há algumas semanas. O livro aconteceu num flash, a literatura corrida, sem muitos floreios e sobre o que é contemporâneo nos faz passar de uma página a outra sem perceber. É a história de Chinaski, um rapaz que vive seus vinte e poucos anos percorrendo os EUA a custa de bebidas, mulheres e cigarros. Vive e mora como dá, em vielas e apartamentos como vários que já visitei por aqui. Chinaski trabalha para o momento, para o mínimo necessário. É o fim da Segunda Guerra e ele só para pra pensar nisso quando percebe a dificuldade cada vez maior de conseguir trabalho.

O que importa nisso tudo é a forma como Bukowski constrói seu personagem. É uma pessoa ordinária, cuja vida passaria despercebida, como alguém que passa por nós ao atravessarmos a rua, é aquele que se escora no boteco e passa a noite entre um gole e outro, vendo quadris camabaleando. A identificação ainda assim acontece e é aí que está a graça: Chinaski não se importa tanto com o mundo ou com o que pensam dele. Sabe do que é capaz e até onde vai sua mediocridade e inteligência. É avesso à modéstia, essa palavra infame que torna tanta gente um pouco mais cínica.

Chinaski é a crítica à sociedade americana e seus valores falseados. É muito do que nossa sociedade vive também. É o não à guerra com a indiferença de quem não vê razão pra tanta mobilização. É a dificuldade de seguir certas normas, apenas por não acreditar nelas. E ele não as segue.

Percebi que minha intolerância não é só minha... é de Bukowski, de Gore Vidal, de Martin Page e, para a minha surpresa, de Marcelo Janot*. É desses atuas e dos que estou para conhecer e me divertir com a concordância das mesmas idéias em outras formas de expressão. Agora inicio Kalki, de Gore Vidal... vamos ver o que acontece.

Indico totalmente para quem tem momentos em que não acredita na capacidade das pessoas de serem estúpidas: Factotum, Charles Bukowski.

*Mais tarde, neste blog. :)
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Essa é a abertura do documentário Cidade da Bahia, dirigido e escrito por mim. Foi meu trabalho de conclusão de curso da graduação em Cinema, em Salvador, a partir de uma prêmiação no concurso internacional Citès du Monde. Estou com uns problemas pra colocar o filme todo, então vai um trechinho.

Cidade da Bahia
2005. 26min.
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Pois é...

Ao mesmo tempo que o Curta cai no mundo virtual, será lançado em tela grande, para o meu desespero e agonia. Semana que vem, na noite de quinta-feira, aproximadamente às 20:30, será exibido no Arquivo Nacional, na mostra da Oficina do RECINE 2008 (confira programação). Já saímos em um caderno especial de O Globo de 10 de outubro de 2008.
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Tem certos prazeres que, por serem tão banais, às vezes passam despercebidos. Desde que comprei o jogo de talheres, ainda não havia, que eu me lembre, utilizado os garfinhos de sobremesa. Como só morei até hoje em apartamentos mobiliados, não comprei muita coisa para casa: dois copos grandes, duas canecas, um jogo de talheres e uma garrafa térmica. Meu jogo de talheres é simples e pequeno, mas vem com essas peças que parecem mais garfos para crianças. Me sentindo ainda mais mulher que mora só, havia comprado ontem uma fatia de torta musse de café que me esperava na geladeira. Dentro da embalagem tinha deixado uma colherzinha de plástico, que veio junto. É que ontem não aguentei esperar e tirei um pedacinho. Deixei a colher dentro da embalagem, para o momento seguinte.

O momento chegou neste domingo de eleições. Depois de ir à esquina me livrar do compromisso, fiz um mercado básico. Nunca senti tanto prazer em morar só: fui a dois mercadinhos de bairro, comprei coisas só pra mim e almocei uma salada que fiz com base na criatividade e nas possibilidades de grana. Sentei para o outro compromisso corrente: li o jornal do dia e procurei o novo apartamento nos classificados. Selecionei alguns para visitar amanhã, enquanto outros movimentos acontecem em paralelo.

Ao tempo que resolvi esta parte, chegou o momento da torta-musse. Como tinha esquecido da colherzinha dentro da embalagem, abri a gaveta dos talheres e lá estavam eles: os garfinhos pequenos. Por mais banal que esse texto seja, o momento foi sincero. Sentei diante da tv, deixei a colherzinha de plástico de lado, assisti A Roda da Fortuna, tomei café e comi a torta. Com o tempo esfriando, criei meu próprio aconchego.

Vivemos o dia-a-dia sem pensar nas pequenas mudanças que nos acontecem. O garfinho pode ser a cereja no sorvete, um detalhe que não precisamos necessariamente, mas que fazem a diferença, como o sebo de outro dia, procurar apartamentos e trabalhos, estar só e rodeada. Ter um espaço próprio, construir a trajetória por si. Claro que, para isso, dependemos de nós mesmas para tudo: quando esqueço de comprar água, fico sem e com sede. Ou sem roupas limpas, por passar ou com a casa suja. Depender de nós mesmas é assumir tudo ao mesmo tempo, sem esquecer de fazer as unhas e ler um bom livro.
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Hoje tive mais uma tarde agradável. Fomos ao Festival do Rio assistir O Segredo, cuja crítica estará disponível amanhã por essas bandas... mas a questão nesse momento vai além: as conversas de um dia qualquer. É engraçado como deixamos passar momentos extraordinários em nossa vida cotidiana. Porque o "extraordinário" vem justamente dos momentos surpreendentes de nossos costumes ordinários... por mais óbvio que isso pareça assim, escrito, poucas vezes atentamos para os significados das palavras que falamos tanto.

Tenho convivido bastante com Daphne. Ela é uma carioca muito engraçada e inteligente que conheci no RECINE, um Festival de Cine de Arquivo que todo ano apresenta uma oficina e cada participante cria um curta-metragem a partir de imagens do Arquivo Nacional (que é, de fato, um prédio que arquiva diversas imagens, filmes, mídias do país...). No tempo de meu avô...,o curtinha, em breve estará disponível. Nos conhecemos na oficina, trocamos figurinhas e sugestões e colaboramos nos trabalhos. Com isso, e por nós duas falarmos além da conta, criamos identificação e surgiu uma amizade criativa, divertida e crítica.

Construímos idéias mirabolantes e discutimos questões universais. Eu sinto uma lufada de ar novo quando lembro das discussões clássicas que nunca chegam a conclusões diretas, mas criam ainda mais questões indissolúveis, sempre em locações sem sentido: ônibus, meio da rua, cinco minutos antes do filme começar. As discussões nunca acabam, mas são sublimadas com os pensamentos que ficam rondando nossas cabeças em busca de respostas.

Estando numa fase nerd, acabo me divertindo nesses momentos e com as grandes aulas, aquelas que nos ampliam horizontes e nossa ambição de querer saber mais e mais vira um buraco negro que passaremos a vida tentando clarear (como a surpreendente aula sobre a Lei do Audiovisual). Oportunidades surgem como fagulhas em nossos cérebros, idéias pipocam e a vontade de produzir só perde pra de conhecer e, se pensarmos que uma coisa está necessariamente atrelada à outra, um sorriso surge em nosso rosto.

E vou em um sebo enorme por caminhos do acaso numa tarde de domingo, descubro a velha infinidade de livros e possibilidades, passo horas no meio de papéis e poeira, desvendando que livros levarei, sabendo da triste certeza que jamais lerei todos ali dispostos. O prazer de uma tarde como essa abraça poucas pessoas e corações... a tranquilidade de um sebo, o desejo de ter palavras escritas e, nessa horas, de ser absorvida por todas as frases que nos motivam a ler ainda mais frases e sentimentos que escolhemos levar pra casa, fazem o caminho de volta especial e a sacola de livros, um grande tesouro.

E agora? Como faço pra me transformar em 15 ao mesmo tempo? Quero estudar, ler, aprender, trabalhar, filmas, escrever, ver filmes, discutir, fofocar, namorar, decorar, lanchar tortas ou pão de queijo com café expresso, beber vodca com aditivos diversos ou um chopp cremoso e gelado... é muito pra uma pessoa só.
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Este ano participei da Oficina de Cinema de Arquivo do RECINE, um festival de Cinema de Arquivo que acontece todo ano no Rio de Janeiro. O filme que consegui construir com as imagens cedidas pelo Arquivo Nacional conta um pouco sobre meu avô, pai de meu pai. Minha busca é a construção de sua identidade, do que ele representou e representa para mim, com a ajuda de depoimentos da família.

Para montar No tempo de meu avô..., utilizamos as imagens do Arquivo e fotografias de família. Devido ao prazo curto e às limitações de produção, o filme careceu de um trato sonoro mais apurado. A oficina do Recine acontece todo ano, com duração de 40 horas com algum documentarista experimentado. Neste ano, Eduardo Escorel.
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E quando a gente sai de um filme como esse, com uma história trágica e real e partimos para a rua, andando e vemos meninos, homens de rua deitados em pontos de ônibus? Nossa sensibilidade já ampliada nos joga para a fronteira do descaso social, do preconceito e do mais óbvio de todos os sentimentos possíveis: o medo. Não é o medo de ser assaltada, de alguém 'estranho' entrar no mesmo ônibus que o seu. É o medo da possibilidade, da casualidade transformar-se em destino de alguém.

Esta foi a trajetória possível e presente na interpretação do Última Parada 174, a ficção da história do assalto ao ônibus 174 do Rio de Janeiro de 2000. O evento, inesquecível a todos os brasileiros foi televisionado, como aconteceu ao 11 de Setembro americano, um ano depois. A tragédia brasileira foi transmitida com seus próprios tons, o que passou na televisão pareceu de fato um filme brasileiro. Se continuarmos com o paralelo, a tragédia americana é análoga: o atentado – tantas vezes encenado e provocado – parece uma superprodução de Hollywood. O que Osama e sua trupe conseguiram possivelmente jamais se repetirá. Nunca uma imagem teve tanto impacto e nunca em tempo real.

O retrato de nossa tragédia reflete o sucesso de nosso governo. Sandro é filho da pobreza, da miséria, do tráfico e da dor. Sandro é o reflexo escancarado da política de manutenção da exclusão, emblema desta nação solidária. Mas, ainda assim, Sandro é vítima, e algoz.

O ônibus 174 não existe mais. O número foi cortado como símbolo de uma história ruim. Mas, ainda que se tente esquecer, as imagens continuam rondando. O fato virou filme documentário, reportagem especial, transmissão ao vivo e agora, filme de ficção. Não satisfeitos com a re-reflexão em cima do drama real, a ficção ainda tentará o Oscar. Os jurados brasileiros o justificam pela emoção. Para mim, tragédia vende e filmes como este reforçam a visão de terra perversa e sedutora que é nosso país.

Última Parada conta a vida de Sandro, de bebê ao dia em que morreu. Do fato que lhe deu fama, fala-se pouco: não fazia sentido recriar seqüências já consolidadas em nosso imaginário. O filme, conforme esperado, carrega nas tintas. O roteiro e as encenações criam personagens que nunca vimos e que jamais saberemos se realmente eram assim. Um tom de piada percorre o enredo nos diálogos: o público carioca se dividirá entre os risos de identificação e insatisfação com a caricatura. A impressão que dá é que esses momentos servem como suspiros de alívio, suspensões na trama para o espectador respirar, como o cinema americano faz. Da fotografia e montagem não há o que dizer. São trabalhos cuja qualidade é inqüestionável e que vão construindo o ápice da história. Relembramos as cores da nova safra brasileira de filmes do gênero e a violência é agora vivida por menos personagens.

O final do filme é como assistir a Romeu e Julieta: já sabemos como termina. Ainda assim, não satisfeito com o teor trágico inevitável – como fez Babenco em Carandiru – Bruno Barreto explora os últimos segundos em planos desnecessários. Outro dado que merece atenção: os contornos da cidade maravilhosa são utilizados como símbolo místico. O Cristo Redentor abre os braços para Sandro, mas quando chega seu dia, ele está de costas. Sandro tem pressentimentos, quase premonições sobre sua vida. É esse rapaz de bom coração, transformado por sua criação, por sua situação de vida, que ainda tem visões e um lado artístico maltratado. E é esta mística que acaba com uma possível reflexão crítica direta e surge como um reforço da trágica história das vítimas e seus destinos inevitáveis.

Última Parada 174 é obrigatório para se pensar o país a partir de óticas que conhecemos muito bem. Se a percepção do fato em tempo real já foi marcante pela brutalidade da vida ao vivo na televisão, o documentário (Ônibus 174, José Padilha - 2002) buscou as primeiras razões para o fato. Descobrimos que aquela pessoa que provocou a reação em cadeia dos assassinatos é, de fato, uma pessoa, cujas estruturas sociais nunca foram fundamentadas, nunca teve direitos, nunca foi ninguém. A ficção amplia esse horizonte com o drama, dando ao espectador a empatia necessária com o protagonista, forçando uma humanização maior.

Uma questão não se pode esquecer: ainda que o personagem Sandro esteja perdido com tantos déficits sociais, não podemos, com isso, justificar seus atos. Enquanto no documentário, Padilha parte para a pergunta direta e desnecessária àqueles que estavam no ônibus: você perdoa o Sandro?, Bruno Barreto tanto perdoa, quanto abraça seu protagonista. Quem vemos entrar no ônibus é um menino perdido entre as drogas, mas não é essa a imagem que vimos no dia do sequestro. Quem vimos no ônibus era uma pessoa fora de controle, de quem teríamos medo e não para quem torceríamos. Se a intenção de Bruno Barreto é justificar crimes a partir da história de quem o cometeu, há muitos filmes ainda por fazer, basta freqüentar o sistema prisional brasileiro. Por outro lado, não se fala dos heróis do cotidiano ou da menina que perdeu a vida quando resolveu pegar o ônibus 174 pra casa. Também pobre e moradora de favela, nordestina e tentando ganhar a vida.

A grande questão que pode surgir depois de tantas aparições do menino Sandro é que não há menino, não há pessoa. Sandro é criação coletiva ficcional. O Brasil colecionou eventos de sua vida, a partir de informações com pessoas que viveram com ele. Sandro foi o responsável pelas mortes do ônibus, isso jamais sairá das mentes brasileiras. Ele deixou de ser pessoa para ser personagem da mídia e os fragmentos reencenados de sua vida nunca nos dirão como ela de fato foi.

Por mais que busquemos razões para aquela tarde carioca, sabemos que há uma cadeia de ações e inações por parte não só do protagonista desta novela, mas de todo o seu entorno. Talvez este filme pretenda, além de justificar os atos do rapaz, se desculpar mais uma vez pela morte de Geísa, principal vítima e reflexo de mais uma falha do sistema-brasil, a polícia. Que se aproveite do 174 para conhecer uma história que é parte do país, que não se pense apenas no romance ali exibido, mas no sistema ações e conseqüências possíveis. Que se pense criticamente e, por fim, que cheguemos à simples constatação de que há muitos Sandros por aí, como há muitos ônibus e Geísas. Todos os dias, nas ruas, nas grandes e pequenas cidades. Que o filme não surja para criar heróis-vítimas, mas um pensamento crítico frente à realidade.


Título original: Última Parada 174
Diretor: Bruno Barreto
País: Brasil
2008, 110 min
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Nos domingos de frio e chuva não há muito o que fazer. Por mais que tentemos, a preguiça toma conta e fica difícil pensar em atividades que exijam sair de casa ou locomover-se de forma geral. Apesar dos exageros, uma verdade permanece: a tv fechada vence a batalha e algumas vezes passamos muito tempo na mesma posição no sofá. Hoje não foi diferente, fui tomada pela preguiça dominical e os 19 graus da rua me impediram de sair de casa. Uma nova série, em que eu já tinha visto anúncios e um episódio, me chamou atenção nesta noite de frio. Além de House, Sex and the City, Seinfeld ou Friends, já consagradas e com anos de sucesso, Seis Graus de Separação surge para fazer diferença nos dramas televisivos.

A teoria é a de que duas pessoas estão ligadas por, no máximo, seis laços de amizades, como se entre eu e o George Clooney houvessem seis pessoas que se conheceriam por conexão, nos unindo, por fim. Essa é a graça dos sites de comunidades virtuais, conhecer quem nos conhece. Os criadores partiram deste princípio e criaram esta série cujas conexões vão se construindo a partir de relacionamentos de amizade, família, amor. Histórias entrelaçadas com personagens de histórias de vida distintas em encontros casuais.

A série é exibida na tv fechada e conta com atores que encontramos em outros seriados e alguns que já são familiares na grande tela, como Campbell Scott ou Jay Hernandez. A série é de 2006 e está na primeira temporada no Brasil.

Não há muito o que dizer. É uma produção sensível e, como a maioria dos seriados, descrever a trama não diz muito, quando se trata de um programa sem grandes eventos. A graça está justamente nisso: na construção de pequenas histórias que se entrelaçam, nos sentimentos que nos são permitidos a partir de nossa participação. Ao mesmo tempo, por contar com doses de drama, não parece ser um sitcom que nos permite ver e rever eternamente sem cansar. É um enredo muito mais de acompanhar seu desenvolvimento, do que assistir interminavelmente, como os já citados (à exceção de House, que passa pela mesma situação deste).

Depois de uma breve pesquisa, tive a infeliz informação de que o seriado foi cancelado ao fim da primeiríssima temporada. Certamente não atingiu o público esperado, talvez por ser uma série séria, um drama, uma situação que foge dos padrões blockbuster ou sitcom que a turma estadunidense está acostumada. Uma pena. E uma questão se levante: por que um canal passaria seriados já cancelados na televisão? Será que eles são mais baratos e servem para fechar lacunas de programação? Em todo caso, ainda vale assistir para perceber as atuações de primeira e o roteiro criativo e bem estruturado.
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Nome Próprio trata da vida de uma jovem aspirante a escritora no mundo real das grandes cidades. Camila Lopes é uma garota cuja aspiração intelectual a faz pensar que é diferente dos outros, com seu estilo moderninho, livros e bom gosto musical. Mas ela é só uma menina comum das moderninhas blogueiras. Digo isto, porque sou uma blogueira, toparia ser escritora e tenho bom gosto musical. Estou numa grande cidade e passo por algumas situações Nome Próprio. As semelhanças acabam aí. Como Máquina de Pinball, de Clarah Averbuck (um dos livros-base do filme - o outro chama-se: Cama de Gato), o filme apresenta uma trama que, em alguns momentos, deixa a desejar.

Leandra Leal é Camila, esta garota com tantas ambições quanto desejos e volúpia, mas que incoerentemente se apaixona por todos com que transa. Os envolvimentos vazios se justificam em seus textos, mas não com a pintura básica do personagem. Ou espero demais desta blogueira urbanóide, talvez uma identificação que nunca chega, à exceção da necessidade rotineira de escrever. Camila entende a palavra escrita e seus pensamentos como o mote para sua vida e, com isso, se vale de seu dia-a-dia para extrair idéias.

O filme tem soluções bacanas para a saga-blog da personagem: inserções gráficas nas paredes, textos que sempre aparecem, sons de digitação. As próprias palavras são interessantes, assim como a interpretação de Leandra Leal, já esperada que fosse de impacto. Os personagens masculinos, entretanto, ajudam a fragilizar a estrutura do filme. A impressão que dá é que faltou atenção no tratamento de seus atores. Uma dúvida pinga no ar: os personagens masculinos, nitidamente menores na trama e fracos de estrutura, são propositais para dar a ênfase no vazio das relações e intensificar a personagem feminina? Se for, é mérito, mas acredito que a dúvida reforça a segunda opção.

Nome Próprio é a estória radicalizada das meninas que moram só. Sou eu, são algumas amigas na mesma faixa etária. São situações de independência que, às vezes, transforma nossas carências intensificadas. Quando mudamos de cidade, deixamos nossos amigos em outras terras, nossa família, nossos amores, nosso forte. Recriamos nossa base em outro canto e, na maioria deste tempo temos que ser tudo simultaneamente: forte, amor, família, amigos. Às vezes a carência de tudo nos põe em riscos e temos que atentar para os possíveis deslizes. É aí que o filme torna-se real. São nas experiências vazias que, por falsas razões ou nas que queremos erroneamente acreditar, cometemos a falha de nos deixar levar. Nada contra a diversão, sou a favor da gratuidade das alegrias, dos anseios, dos desejos. Cada um faz o que quer consigo e é com essa liberdade arriscada que nos permitimos um incômodo futuro. Nem todas as experiências são desastrosas, entretanto, e são estas que nos permitem entrar nas seguintes, com a expectativa de mais momentos que guardaremos na memória e na pele.

Como Camila, as liberdades totais geram conseqüências íntimas. As transformações, tão fundamentais enquanto estamos nos tornando adultos – acho que a palavra adulto requer uma gama de experiências que ainda não tive – rompem algumas ilusões enquanto somos jovens. As drogas, os excessos, os descasos. Não é só ressaca física e moral, é o porque antes do fato. Nome Próprio funciona a partir do momento em que faz as garotas se identificarem nas situações, num espelho que ninguém quer se ver refletido. O mesmo para os rapazes, acredito, mas em menor intensidade.

O livro ainda se faz mais interessante que o filme, neste sentido. Enquanto o filme exibe uma garota cuja força sexual sublima outras características que a permitiriam tornar-se mais reconhecida por todos, em Máquina de Pinball a encontramos. A Camila do livro é uma garota que pensa, que vive outras situações que favorecem mais a identificação e a verossimilhança com seu mundo; é a situação de morar só, de morar com outros, de não ter grana, de falta de trabalho, de escrever para viver. Lembra Alta Fidelidade de Nick Hornby nos momentos musicais e outros livros de autores jovens contemporâneos. No livro, acredito que só falta o enriquecimento da trama e aprofundamento da personagem. Ficamos esperando mais da história, sua evolução, o que acontece depois. No filme, há o lapso do cuidado, a personagem parece movida por seus impulsos sexuais e, em alguns momentos, consegue tornar-se outra coisa, mas, ainda aí, intercalada com bebidas e anfetaminas. Talvez as únicas situações em que a vemos como uma menina vaidosa a que estamos mais acostumados – e que talvez esperássemos menos nestas tramas devido ao teor corrosivo em que Camila é exibida – é quando ela assume saltos altos, os adquire mesmo sem grana e ainda pinta os olhos. É quando o sorriso tímido aparece nas espectadoras da sala de cinema.

Título original: Nome Próprio
Diretor: Murilo Salles
País: Brasil
2008, 120 min

*Visite o blog.
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José Saramago tem a característica dos escritores sensacionais de criar imagens singulares em quem o lê, a partir de suas histórias quase incoerentes. Ele faz parte da legião que cria para si mesmo o desafio de consolidar em nós uma verossimilhança e uma crença no que estamos prestes ou no processo de absorver. Já assistimos a mais uma reconstrução criativa e inteligente da vida de Jesus Cristo, vivemos o incrível dilema de um Homem Duplicado e fomos forçados a visualizar a cegueira. Por mais paradoxal que pareça, Saramago, que não é cego, descreveu uma cegueira que nos permite vê-la com uma simples ideia: é branca. A partir do momento em que compramos a história e passamos a participar da trama, construímos nosso filme. A graça de um bom romance é a consolidação de sua história de palavras desenhadas em palavras imagens. Mas... e se alguém gosta tanto do seu filme particular que resolve construí-lo concretamente para que outros participem de sua criatividade? É aí que nosso texto começa:

Fernando Meirelles adaptou O Ensaio sobre a Cegueira e trouxe suas imagens para nós na grande tela dos cinemas. O Ensaio, texto cujo esforço de nossa subjetividade vai além dos romances mais comuns, exige apuro, sensibilidade e precisão, para não cair nos excessos que transformam tramas complexas em suspenses banais.

Quando li o livro, me prendi na forma da doença. Acredito que a cegueira impõe uma criatividade diária para quem a tem. Todas as imagens devem ser desvendadas inventivamente, nada é gratuito. A audição torna-se fundamental neste processo, muito mais do que naqueles que enxergam. E sempre imaginamos a cegueira como ausência e a ausência como escuridão. A cegueira de Saramago é branca como leite, espuma e bruma. Outra característica que me fez não respirar foi a condição de desenvolvimento, o ritmo do texto. Saramago apresenta sempre uma escrita particular, onde diálogos quase se misturam e a forma do texto é como a do pensamento, ininterrupta. Uma cadeia de ações desencadeia outros fatores que complexificam uma situação já limite: uma epidemia de cegueira cujo foco da doença é inexplicável, é apenas o detalhe que transforma e transtorna uma sociedade.

O livro já me causava desejos, anseios e agonias. O desespero das mulheres era como o meu, se estivesse com elas; a dor de não ver, o despreparo que isso traz para nós em um espaço automaticamente desconhecido, os perigos da vulnerabilidade. Estar cego, neste caso, é estar entregue, despejado no mundo, sem defesas. Perceber o nosso redor entrar em colapso é perceber a própria derrota e a incapacidade de mudar o rumo. Ser mulher nesta condição é um risco óbvio.

A forma como a cegueira se dá no livro/filme é a mesma para o Os Pássaros de Hitchcock: não há explicação, simplesmente acontece. Não precisamos da explicação, o que importa é o fato e como ele se desenvolve. A cegueira é, antes de tudo, metafórica, e esta é, talvez, a maior dificuldade de explanar os sentidos dessa metáfora no filme. O filme é imagem, os sentidos da imagem nós também precisamos construir.


Não fui assistir a Ensaio sobre a Cegueira inocentemente. Acompanhei o blog do diretor e fui desvendando uma parte dos mistérios que encontraria tempos depois. Conhecer o livro aumentava ainda mais as expectativas. A trama de Saramago é repleta de ação, o que facilitava. Em oposição, a cegueira precisava ser exibida e Fernando Meirelles encontrou boas saídas. O uso do som com menos música e mais pinceladas, pingos de expressões sonoras em momentos de carência visual, são muito bem executados. O choque de estar cego de repente também foi bem sucedido.

Apesar de me incomodar com alguns atores – à exceção de Julianne Moore, Maury Chaykin, Yoshino Kimura e de Gael García Bernal – o filme soma pontos na carreira do diretor, agora internacional. O blog indicava algumas questões acerca do tom do filme; os produtores entenderam que as primeiras versões estavam fortes demais, muito carregadas e que possivelmente o público se incomodaria. Ledo engano. O filme, a meu ver, poderia carregar nas tintas, mas esta será sempre uma observação de alguém que já tinha seu próprio filme na cabeça, antes de ver o de outro diretor.

A seleção de atores com diversas nacionalidades, a fotografia e a diversidade de locações para simbolizar um espaço mundial – uma história sem cidade, mas uma história possível em qualquer nação – somada à arte desbotada, traduzem um espaço onde poucos enxergam. Aquele seria realmente o mundo onde ninguém vê? A cegueira é a anulação do ser humano para tornar-se o animal que presenciamos na trama? O que significa ver e não ver? O que deixamos de ver? Para o quê fechamos nossos olhos? Além da banalização do ser humano, sobram as necessidades, a dependência e, por conseqüência, o egoísmo. Havendo apenas uma pessoa que enxerga, a memória nos traz a brincadeira: em terra de cego quem tem olho é rei? De que serve enxergar o que ninguém vê? O que se enxerga onde ninguém vé?

A sociedade da cegueira branca entra no colapso e se expõe da forma como ninguém gostaria de ser visto. Ao estarem todos cegos, a vergonha perde espaço, o despudor ganha forma e une-se ao desrespeito, à soma de todos os poderes, à lei do mais forte. E o reflexo dos totalitarismos soa como uma lembrança plausível. E a personagem que vê? A única mulher que vê e se deixa violentar para a sobrevivência de um grupo, é a mesma que assiste a um mundo que tombou ao caos. Ao contrário uma possível situação de controle, ver é quase nada, até o suportável. Até onde é possível sustentar este silêncio? E este caos não é o que vemos diariamente? Ou é aquele que fazemos questão de fingir cegueira?

O filme, como toda imagem já realizada, sublima algumas questões. Nos prendemos à trama e deixamos o incômodo surgir sorrateiramente em nós, nos dias que passam, nos momentos seguintes ao filme, na esquina de nossa rua, na violência de guerras espalhadas. A cegueira aqui é apenas o que não queremos ver. Mas... e se formos obrigados a enxergar novamente, haverá alguma diferença?


Título original: Blindness
Diretor: Fernando Meirelles
País: Brasil, Canadá, Japão
2008, 120 min

*Veja o site depois de ver o filme.
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Estou finalizando um curta sobre meu avô. No tempo de meu avô, ficou curto de verdade, não sei se chega aos cinco minutos e é uma brincadeira com imagens do Arquivo Nacional e fotos antigas da família.

Não saiu muito como eu queria, acho que ainda falta sentimento em minha voz, nas palavras, alguma direção nesse sentido. Mas, além de não ter outra pessoa e eu dirigir minha própria atuação, estamos condenados ao uso de imagens que não escolhemos e assim fica mais difícil. Queria ter mais seqüências que retratassem o que imagino de meu avô, mas isso quase não consegui.

Acho que ficou um produto interessante, mas pretendo depois, construir um maior e mais livre. Inventei um avô que me interessa muito. Inventei uma vontade, inventei uma idéia, inventei uma vida. Mas não inventei a saudade.

É uma saudade engraçada, porque eu era criança e só sei dele criança. Minhas imagens dele são muito carregadas de silêncio e silêncio que eu via nele, como uma aura. Da varanda da casa de minha avó em Brotas (Salvador), da cadeira de balanço. E até da minha primeira casa, quando aconteciam os almoços e aniversários. Eu sempre achava que uma hora ele ia gritar com alguém. Mas nunca conseguia falar direito com ele. Eu também era uma pessoa de silêncio, pequena e criança, mas era.

As fotos que conseguimos selecionar representam a família muito bem. Ainda que sejam de um tempo muito anterior a esta fase de nossas vidas, traduz uma imagem bem sincera de como somos. Uma família simples e divertida, cheia de neuras, carinhos e piadas. Um pouco como toda família. Fotos antigas são as coisas mais bonitas que podem existir. Elas te resgatam sentimentos, momentos, pessoas, abraços. Fotos sempre renovam sentimentos. É um passado com sentimentos de presente.

A mais surpreendente de todas as coisas que vi nesses tempos é a foto dele sorrindo. E o depoimento de minha avó, Dona Lita. A foto dele sorrindo é a coisa mais fantástica do mundo. Porque não é simplesmente um sorriso, é como se ele estivesse rindo e querendo gargalhar, como se estivesse prendendo o riso e não conseguiu segurar direito, escapou um sor-riso tímido e vermelho. É linda.

O depoimento de minha avó. Tirando os problemas com o som e com minha entrevistadora agoniada demais, conseguimos grandes frases. Os sorrisos de minha avó a denunciam. Foram anos de convivência relembrados em pequenos instantes. Foi a História do Mundo e a História Deles, ainda maior, mais importante, mais bonita, é o surgimento de uma família. Foram as alegrias e as agonias... e agora ficou a saudade dela, o carinho e todas as suas lembranças. E deu pra ver. Minha avó é uma fortaleza, mas cheia de emoções... em também sorrisos, muito mais fáceis de conseguir.

O que ganho com esse projeto é meu avô, minha avó, meu pai, minha família. São recordações e revelações tão bonitas quanto surpreendentes. Acho que assim vou amenizando a saudade, retomando a vida do lado de cá e construindo novas idéias.
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Tenham paciência... um dia terei a versão final desse layout.
:)
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E cada passada de mão era só mais uma mão que passava por meu corpo. Só mais uma mão. Enquanto os desejos vinham como ondas fortes e eu me ancorava nas pedras, pensava que não era a mão que tinha que estar ali. E meu desejo esvanecia e parecia uma nuvem cinza. E eu voltava a acordar e sentir o pesadelo vivo daquele momento.

Enquanto ele dormia ao meu lado, eu me perguntava porque aquilo tudo acontecia. Me permiti deixar levar por um desconhecido para um caminho escuro que só eu tinha a chave, mas permiti também que ela sumisse por uns momentos. A menina que abriga esta mente perigosa estava mais acordada do que nunca. Desamparada, ela queria o telefone que nunca tocava. Só uma chamada e seria salva.

O telefone jamais tocou. Passou a noite em claro, tentando organizar os pensamentos e minimizar os danos. Ela percebeu, entretanto, que não poderia se enganar. Achou que, com toda a inteligência que ainda acredita ter, se deixou emburrecer por uns tempos e virou uma adolescente novamente. Ou seria aquele o momento em que estava deixando de ser? Sempre se chamando de menina, independente de toda a maturidade que aparenta, gostou do momento em que mais uma vez conseguiu se sentir sozinha.

Saí da cama. Não conseguia dormir e quando fechava os olhos, os pensamentos voavam ainda mais rápido. Lembranças da noite. Todo o desenrolar e a certeza de que dominaria tudo, mesmo quando se deixou levar pela saudade de outros beijos, beijando novamente. Mas não era novamente. O ato de beijar não queria dizer muito, eram bocas coladas, entrelaçadas as línguas, mas sem muito estímulo. Era a pessoa que faltava, mais presente do que nunca.

Na janela da sala ela pensava. Com um copo de água na mão, matava a ressaca de várias noites em uma só. Um silêncio no amanhecer e um sorriso de canto de boca. A independência é um amanhecer silencioso perto da praia.

Eu estava finalmente feliz de novo. O dia chegava, a noite acabava levando a desilusão embora. Talvez eu tenha perdido o que seria um amigo. Talvez, e muito mais provável, ele não seja nada e nunca queira ser nada e este era só mais um ideal romântico. Não sei se o que sinto agora é a perda da inocência, acho que ainda não.

Os pensamentos dela continuam a se contradizer. Ela faz análise dela mesma e agora tem onde gastar o tempo: as atividades intelectuais estão tomando corpo e finalmente consegue produzir. O tempo me distrai e me concentro no que seria um estudo prático, uma experiência profissional. Algumas noites ainda pesam.

O que mais machuca nisso tudo é o vazio, na verdade. Não importa a noite errada. Ainda que não tenha sido tão ruim, não foi boa e eu intimamente já esperava por isso. O que incomoda é essa realidade das relações sem sentido, sem motivo. Ainda conservo a inocência em mim, se ela for o cuidado e a necessidade de conhecer e gostar. Esta ilusão é necessária.
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Quando entramos numa turma, num novo grupo de pessoas, buscamos logo a identificação com alguns. Um olhar que sintonize com o seu, uma frase solta, um sorriso de concordância ou até a brutal discordância em algum momento. E uma aula de quatro horas torna-se possível.

Mas o que pensar quando perdemos esse detalhe? Quando confundimos ou deixamos confundir toda essa troca de carinho com um algo mais que na verdade não existe? A ilusão se quebra e a rotina das aulas volta a ter seu peso.

Dois pesos, duas medidas. O fato não importa, o que vale é a reação. Ao que minhas expectativas se transformam em conseqüências inesperadas, só resta o dia seguinte ao encontro: o próximo e agora, inevitável, segundo encontro.

A desilusão, quando as luzes do cinema se acendem e temos que sair daquele aconchego para a dureza da luz do dia ou a secura fluorescente e branca, nada mais somos capazes de ver como antes: o olhar tornou-se mais um, o sorriso perdeu o sentido e as piadas, a graça.

As aulas tornaram-se aulas novamente e talvez até mais produtivas. Agora busco outra identificação. Muito mais cuidado com a dose do carinho poque todos podemos confundir as situações e não se erra tantas vezes, simplesmente não é possível. Vamos levar a vida a sério como adultos que um dia devemos nos tornar. Será?
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... depois de um dia de sol e maresia, me peguei ouvindo as músicas. Domingo ordinário com outros tons.

I

If you didn't care what happened to me,
And I didn't care for you,
We would zig zag our way through the boredom and pain,
Occasionally glancing up through the rain,
Wondering which of the buggers to blame
And watching for pigs on the wing.

II

You know that I care what happens to you,
And I know that you care for me too,
So I don't feel alone,
Or the weight of the stone,
Now that I've found somewhere safe
To bury my bone.
And any fool knows a dog needs a home,
A shelter from pigs on the wing.

Pigs on the Wing (I e II)
Pink Floyd.
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O que parece mais um novo filme nos espanta com a nitidez da realidade. As fotos publicadas da mais nova guerra mundial nos transportam para a emoção da dor com tamanha qualidade estética que mais parece um ensaio fotográfico revolucionário. Mais uma vez, a vida real vence para as superproduções da sétima arte.

Os soldados, os civis, as paisagens incríveis e o contingente populacional envolvido surpreende. Os fotógrafos merecem o prêmio da estética, ainda que a ética permaneça em xeque. Eu gosto muito das fotos, as acho belíssimas e as cores são tão fundamentais como os sentimentos diversos expressos em cada imagem. É surpreendente o que o pessoal de comunicação aprende com esse tipo de reportagem. Guerras não faltaram como escolas.

Falar em guerra... eu fico me perguntando qual a razão disso tudo. Eu não sou estúpida e as razões para as guerras eu até sei, mas é que parece tão antiquado. É uma forma tão arcaica de humilhar o outro, de provocar o pior intencionalmente – porque não é já simplesmente o mal – é causar tanta dor e tanta dor já conhecida por todos.

Até o tema já perdeu a graça. E ficamos vendo a miséria de camarote... a mesma e diferente da que temos em nossas esquinas todos os dias. E aposto que ainda tem gente dando graças a Deus por não estar na Geórgia, Afeganistão, Rússia, Iraque, Israel, Palestina, Tibet, China, África(s) e mais um sem fim de nações em permanente conflito. Nossa rotina é nossa guerra particular.
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Acabei de ser transportada. Fui levada a um mundo onde a serenidade acontece em harmonia com a paixão. O equilíbrio dos homens é visto quando percebemos seu contato íntimo com a natureza, de afinidades, sem receio. É uma música que soa diferente em nossos ouvidos, uma tradição distinta e limpa, cores sutis, ainda que o clima seja o mesmo quente e úmido que conhecemos.

Vi um filme rodado no Vietnã. Mais uma vez, o sentimento do filme me levou a sair de minha cama, de debaixo das cobertas e ser uma das personagens. Ou querer ser. Vemos uma vida se descortinar sob nossos olhos... uma criada, criada desde pequena em uma casa de família, ao tornar-se adulta é obrigada a sair por falta de condições financeiras da casa. Ela passa a trabalhar para um amigo da família, mantendo o mesmo círculo social, a mesma situação. E há um misto de passividade e leveza, onde os valores são outros, as ambições não se percebem tanto e vemos o comportamento minimalista e sereno de outra cultura.

Não que o Vietnã seja tranqüilo e pacato, mas isso pouco importa neste momento. O Cheiro do Papaia Verde nos domina pelo olhar, pelo gosto que quase sentimos e odor que queremos tanto participar. Não há muito barulho e até a desarmonia, se é que podemos tratar as dores assim, é flagrada nas expressões de pessoas de rosto simples e bonito.

Sim, é um filme de pequenas grandes ações. Os corações desavisados podem sofrer de amor ou desilusão nesse filme. Os longos planos-seqüência nos ajudam a entrar no clima, se deixando valer por entre-salas e janelas ornamentadas. Os movimentos de câmera vão construindo nosso caminho no andar dos personagens nos ambientes das casas filmadas.

É um filme do silêncio da natureza, ainda muito mais forte aqui do que no levemente urbano Luzes de um Verão, do mesmo diretor. Também a atriz principal é a mesma, como concorda mais uma vez com o poder reflexivo do primeiro filme. Luzes de um Verão é o amor de uma família impregnando-se em nós como a música do Lou Reed que suavemente nos contamina não conseguimos tirar da cabeça.

O Cheiro do Papaia Verde traz a doçura da infância que não foi perdida pelo meio. A inocência se esvai como uma música que acaba, mas as cores ficam, junto com o barulho dos grilos e sapos. Para quem se interessa por um mundo diferente, estes dois filmes são fundamentais. É uma pena que já os vi.

Em mim, ficou a experiência do reencontro com o cineasta, com seu estilo e seus tempos. Em mim, ficou a vontade de ser um pouco daquilo como já acho que sou em meus momentos, e o receio de estar perdendo isso aos poucos vai se esvaindo cada vez que me deparo com uma parte da minha natureza nestas carinhosas obras de arte.

O Cheiro do Papaia Verde (1993) - 104 min.
Cyclo (1996) - 123 min.
Luzes de um Verão (2000) - 112min.
Dir.: Anh Hung Tran
Vietnã.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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