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Café: extra-forte

Resolvi começar pelo final. A última grande etapa da minha viagem foi a visita ao Salar de Uyuni, na Bolívia. Como foi o que mais me marcou, fica ainda muito fresco na memória e talvez seja o mais importante de toda a viagem. Ou não.
Quando estava em Santiago e em Valparaíso, conheci outros viajantes que tinham ido ao Atacama. Como eu, alguns viajavam sozinhos, os europeus e norte americanos sempre por mais tempo que brasileiros ou vizinhos. Como eu estava prestes a chegar lá, queria estar segura do que ia encontrar. Todos me falaram para ir ao Salar de Uyuni, no altiplano boliviano.

Eu nem sabia como era o Salar, não tinha noção de como seria o passeio, com quem eu ia, como ou quando. Contaram que seria uma viagem de três ou quatro dias e que eu veria as paisagens mais impressionantes da região desértica. E que valeria muito mais a pena do que fazer passeios menores em torno de San Pedro.

Quando cheguei a San Pedro, estava mais perdida que cego em tiroteio. O hostel era bom, mas não era tão amigável ou com uma boa área comum para conhecer gente como os anteriores. Ainda não sabia direito que passeios fazer ou como encontrar o tour pra Bolívia. Dei sorte de no meu quarto ter uma garota canadense que virou minha comadre atacamenha e compartilhamos bebidas e comidas, compras, todos os nossos dilemas de viagem, de vida e do que mais aparecesse pela frente.

Última noite antes do tour, entro na internet pra enviar e-mails, além de uma pesquisa de 3 segundos sobre o mal da altitude. Vi os sintomas e como marinheira que não mareia, achei que no iba a  pasar nada.

Dia 01 – Entrando na Bolívia.
Deixamos San Pedro cedo num micro-ônibus para dar saída com o passaporte na polícia federal da fronteira chilena. Uma hora depois estávamos na polícia boliviana, num frio do cão, aguardando o novo carimbo. Tudo certo. Tomamos café da manhã ali mesmo e trocamos o confortável buzu pelo jipe com capacidade pra seis pessoas. Ali já era no meio do nada, ao longe uma carcaça de ônibus, a polícia boliviana era uma casinha com 2 cômodos, a bandeira do lado de fora e o mundo vazio, mas cheio de potencial para as nossas expectativas. Éramos 3 americanos – um casal e a amiga – 2 austríacos e eu. No outro jipe: suíços, irlandeses, alemães e franceses. Dali em diante meu espanhol se restringiu aos nativos e inglês por 4 dias consecutivos. Pra mim estava ótimo, porque nunca falei tanto os idiomas ao mesmo tempo. Mas toda manhã era um parto. O cérebro ainda não estava 100% e começar o dia numa outra língua requer um esforço quase sobrenatural diante da falta de oxigênio. Minha glória foi quando em outro grupo apareceram uns portugueses e nunca gostei tanto daqueles meninos por intensos dez minutos.

O primeiro dia foi o mais cruel. Achei que ia segurar a onda, mas a falta de oxigênio provocada pelos 4800m de altitude me deu uma dor de cabeça constante, um cansaço absurdo, sem falar na incapacidade de comer. Ainda assim, consegui ver todas as lagunas que nosso guia Johnny nos apresentou: Verde, Blanca, Colorada, Geysers fedorentos. Incríveis, vimos o vulcão Licancabur mais de perto em toda a sua grandeza e as primeiras paisagens de adjetivos que não são suficientes para expressar o que estava diante de nós. Tanto que não falávamos (e também porque eu não conseguia falar muito...). Tirávamos fotos e víamos e para mim era muito discrepante o que eu via do que eu conseguia registrar. Primeiro porque ao vivo é ao vivo e é 360 graus com todos os seus sentidos excitados e você percebe como as palavras beleza e natureza se associam de forma tão perfeita. Segundo, porque além de estar aprendendo a fotografar, precisava de lentes de maior alcance para chegar mais perto daquela magnitude. E terceiro, porque a foto é sempre um recorte, nunca vai te dar toda a amplidão e, principalmente nesta situação, jamais lhe dará a idéia de todo. Sempre algo se perde .
Mas entre uma laguna e outra, entre uma grande vista com parada para fotos e outra, havia todo o deserto. O altiplano é lindo e poderoso, mas eu estava num estado de sonolência atroz. Dividindo o último banco com Martin (um dos austríacos), sempre que entrava no carro passavam 5 minutos e eu me recostava. Ele via minha situação ridícula e perguntava: vai dormir? Tá tudo bem? E eu sempre respondendo: acho que sim, só um pouquinho. Até que não nos falávamos mais; assentíamos com a cabeça e sabíamos que eu ia me encolher no banco e fechar os olhos. Precisava sumir com a luminosidade por uns minutos. Quando estamos no deserto, todos os nossos sentidos afloram: o ruído do vento, o cheiro da terra estranha, o gosto dessa mesma terra, a luz do sol mais forte do que nunca, as pedras e os animais que tocamos, sem falar de tudo isso que sentimos de uma só vez e com seu corpo se adaptando àquelas alterações. E com tanta informação ao mesmo tempo, não dava para captar tudo sempre e precisava desligar algum botão. Todos estavam acostumados à altitude, já haviam passado pelo Peru (Cusco, Macchu Picchu e tudo mais), de forma que fui a única café com leite.

Mas todo mundo foi muito gentil e parceiro. Acabou que os onze cuidaram de mim de alguma forma e eu cuidei de alguns. Acho que fiz a diferença no grupo com aquele calor brasileiro, a alegria gratuita por simplesmente estar ali. Meu estado de graça – ainda que contrastasse um pouco com o físico – estava completamente exposto, devassado. Era impossível ser discreta com o que estava diante de mim. Mesmo abatida e sem ter almoçado no primeiro dia. Passei o dia sem comer, ainda mais tendo botado pra fora o café da manhã. Mas deu tudo certo, consegui dormir e a dipirona reduziu meu mal estar. No dia seguinte, acordei bem e provavelmente fui a que dormiu melhor. A noite foi realmente muito fria, mas estava tão protegida e dormente que nem percebi.
Dia 02 – Comendo poeira.
Engraçado que agora parei de escrever e estava revendo algumas fotos... cada uma traz tantas recordações de pequenos detalhes, conversas, uma vida tão intensa em cada um daqueles dias que parece que viajei por muito mais tempo. Acho que estar distante de todos e tudo que conhecemos, de estar realmente no deserto, isolado, longe, é de uma transformação talvez maior do que eu já tenha percebido. Sei que algo de diferente e especial aconteceu, mas acho que ainda não consegui captar tudo. Tento ficar atenta para não perder, não deixar essa energia tão forte se dissipar. Mas não sei também direito como se manifesta. Estou sentindo.

Viver aqueles dias neste contato direto com uma natureza estranha faz notar como a própria entidade natureza é realmente uma. É a única palavra – além de selvagem – que temos para definir tudo aquilo. E são essas duas palavras que também usamos para outros lugares, outros encontros extraordinários em regiões especiais. Eu estava com mais 11 pessoas, além dos guias, distintas e em seus pares, completamente alheias a mim inicialmente. E todas experimentavam o mesmo ambiente e em suas gradações eram mais ou menos generosas, mas sempre dispostas. Eu era toda receptividade. Não como uma figura zen, hippie, mística maluca ou qualquer coisa do tipo, mas o que havia ali para apreender era tão intenso – tanto nas relações sociais quanto com o ambiente – que não havia espaço para a reclusão – exceto quando eu não estava bem e aí havia um conflito interno entre o afastamento e o que esta escolha nos faz perder. Ainda assim, nunca conseguia dormir totalmente no carro, era quase um olho aberto e o outro fechado. Acho que por estar viajando sozinha, tudo isso se intensifica. Todos estavam com alguém ali e eu, mesmo estando com todos, estava muito mais apenas comigo. E a música boliviana ali, sutil, nos transformando.
O segundo dia foi bem cansativo. Eu estava muito mais disposta, já tinha tomado um pouco do chá de coca e estava indo bem, me alimentando e bebendo muito mais água do que no dia anterior. É importante sempre beber água, por mais óbvio que pareça. Como o altiplano é muito seco, perdemos água sem sentir e a ausência dela ajuda a intensificar algum desconforto. Por isso, eu e um dos irlandeses sentimos mais no dia anterior. Ainda assim, quando andava muito, ficava cansada, como uma senhorinha. Éramos todos idosos naquelas caminhadas curtas e o coração quase na boca ao menor esforço. Era engraçado.

Pegamos estrada o tempo inteiro e intercalamos com outros 2 jipes no caminho, então nem sempre éramos os primeiros na rota. A estrada era um caminho sem trilhas entre a areia e barro que Johnny conhecia muito bem, mas um dos outros dois motoristas não, então ele tinha que ser responsável por este carro, se posicionando atrás dele a maior parte do tempo, enquanto o terceiro seguia na frente. Com isso, comemos muita poeira. Não sei como resisti tanto tempo e nossos cabelos eram uma massa intocável de pó.

Não tínhamos tomado banho na noite anterior e a secura da região tirava qualquer possibilidade de ondas no meu pobre cabelo. Como uma índia, eles estavam lambidos e agora entupidos desse pó fino que não só estava no meu nariz e garganta, como em todo o meu ser. A rota off road batia muito. Foi bastante complicado e ainda tínhamos mais lagunas para ver. Estávamos meio cansados disso, então quando fomos ver a última – creio que La Negra – já tínhamos abstraído a pobre e tudo o que nos interessava eram as rochas, as formas imensas no meio do nada. Tudo era sempre no meio do nada. Como as nuvens que constroem figuras para decifrarmos, assim elas eram. De todos os tamanhos, desenhos... e era incrível como em alguns momentos era tudo planície, pouca ou nenhuma vegetação e imensas pedras no meio do nada, como se tivessem sido jogadas ali.
Em algum momento da tarde, paramos num vilarejo chamado Copacabana. O jipe passou muito rápido e não consegui a foto, mas juro que era esse o nome. Ermo, com umas quatro quadras em cada lado da praça, igreja e escola, era tudo que havia para ver. Acho que um dos guias mora ou tem família ali e decidiram parar para resolver algo ou descansar. Nós ficamos na praça, esperando as definições de nosso líderes e aproveitamos para fazer xixi num cantinho escondido e conversar ou simplesmente... esperar.

Fomos pro segundo refúgio e como eu tinha pouca bagagem, só uma mochilinha (tinha deixado o restante em San Pedro), consegui ser a primeira a tomar banho, com o imenso prazer de descobrir que realmente tinha água quente – ninguém acreditou que isso aconteceria. O banho foi incrível e deu uma renovada no astral do grupo. Éramos gratos por nos livrar momentaneamente de toda aquela terra, de poder pentear os cabelos (e descobrir que de novo ficariam irritantemente muito lisos) e não suficiente, ainda tomar café brasileiro no meio do altiplano boliviano.
Agora sim, eu estava de verdade em estado de graça. Eu ria na mesa enquanto conversava com o povo, ria de graça e sem motivo, enquanto na noite anterior ficava mais calada, esperando passar toda aquela confusão que estava sentindo. Eu falava agora e o café funcionou muito bem, quase como uma droga, com um efeito incrível e que desceu esquentando o coração e a mente. Foi uma noite muito boa e ainda teve lhama de jantar, mas fiquei com pena da bichinha e não comi. E quando fui lá fora – sim! No meio do nada! – para ver as estrelas, meu deus. O que era aquilo! Um mar, mais uma vez, de estrelas, como o que vi no observatório perto de San Pedro. As únicas luzes eram as do refúgio e o resto era nada, deserto escuro, iluminado por quantas constelações. Só consegui ficar uns poucos minutos ali fora, porque o romantismo todo some quando está muito frio. Acho que nessa viagem eu nunca senti tanto frio por tanto tempo.

Dia 03 – O Salar.
Terceiro dia. Todos estávamos ansiosos pra conhecer o Salar. Acho que ninguém sabia direito como era nosso percurso, estávamos nas mãos dos guias bolivianos e acho que não queríamos saber muito, na verdade. A graça estava no inesperado, na surpresa. Mas acabou que o refúgio era bem perto do Salar, então foi bem mais fácil do que tinha imaginado. Pegamos os jipes e em 10 minutos, era tudo branco e azul.
O caminho todo era como um mar ao contrário, ou como ir a uma praia em que o mar nunca chega. Andamos de carro um bom tempo e demos de cara com uma ilha de Cactus no meio do nada. Incahuasi, que em quéchua significa Casa do Inca é cactus, vegetação rasteira, lhamas e quase nada mais. É muito bonita e intensifica o caráter surreal do lugar. Inclusive, fiz alguns vídeos numa tentativa de criar algo em cima, mas minhas narrações ridículas são uma mescla de surreal, inacreditável e especial, além de bizarro. Porque era tudo muito extremo sempre e nunca há palavras suficientes para descrever esse tipo de coisa, então, como estamos mais sentindo do que pensando, as palavras saem soltas, quase sem sentido ou necessidade.

Era nosso último dia e quando pisamos naquele sal, éramos todos crianças. Como um imenso papel branco diante de nós, aquele chão era nossa rua, nosso jardim de infância; cada um buscava uma brincadeira, um jogo diferente pra fazer e registrar. Eu, como sempre, fiquei pensando nas maluquices, como dar estrelinhas e ficar de cabeça pra baixo, articulando e obedecendo os meninos nas artes deles. Foi muito divertido, mas em algum momento eu não conseguia tirar o chapéu gigante – que eu tinha comprado pra meu pai, mas que salvou minha vida – ou os óculos e ainda assim meus olhos ardiam. Era sal, branco, o céu muito azul e uma coisa refletia a outra! Mas brincamos muito e nessas horas não tem mal tempo, não problemas, preocupações... só existe o presente. E só existe ali.
Éramos catorze (com os guias) no meio do nada, com o mundo em volta. O horizonte, finalmente plano em qualquer direção, era branco e azul.  E a essa altura já tínhamos músicas americanas misturadas com as mais deliciosas e bregas como minhas nordestinas, bolivianas. Ouvir a letra das músicas era uma diversão quase só minha e eu ria sozinha, mais uma vez, tentando em vão explicar aos gringos o que dizia. Era tudo festa. Mas, por mais único que tenha sido, tinha que acabar. E fomos embora, a caminho de Uyuni, a cidade.

Paramos uma última vez, agora num cemitério de trens. Eram vários vagões e acho até que trens completos; uns em trilhos, uns fora deles. Parecia Mad Max, porque tudo que é metal velho retorcido e enferrujado me remete a Mad Max. Como não sei a história do lugar, ficou tudo meio solto, mas foi legal. Agora que éramos crianças e já tínhamos ganhado nosso brinquedo, poderiam nos levar pra qualquer lugar que estava ótimo. E esses trens não chegavam a ser mórbidos, mas sim retratos de um passado desconhecido, esqueletos enferrujados e pichados de assinaturas, românticos. Não sei por que, mas tinha gesso no chão, então como boa brasileira, deixei a marca. Mais brincadeiras, fotos e piadas. Fomos embora.
Tínhamos que deixar a maior parte do pessoal na cidade de Uyuni, eles partiriam de lá para dentro da Bolívia e eu, a americana e os suíços, voltaríamos para San Pedro. Ficamos um tempo rodando por Uyuni atrás de biscoitos e água (nossa vida girava em torno das garrafas individuais de 2L) e vimos que a cidade é meio triste, ao contrário de todo o passeio. Acho que ela era pequena demais, que os trens não existem mais e ela ficou meio esquecida. Parecia uma cidade dos filmes de velho oeste, toda em tons de terra e poeira. E meio vazia. Conseguimos comprar e agora era esperar o novo jipe. Em frente à nossa agência de turismo havia um bar, o mais bonitinho da região, com uma cara tropical engraçada, com folhagens fazendo um teto para sombra e cadeiras e mesas vermelhas, daquelas que as cervejarias patrocinam. Éramos poucos quando sentamos, não imaginei de reencontrar o resto do pessoal que já estava hospedado nos albergues. De alguma forma quase todos apareceram e conseguimos a despedida daqueles três dias realmente surreais.

O novo guia nos chamou, demos tchau aos novos amigos e partimos para o terceiro e último abrigo em alguma cidadezinha boliviana mais perto da fronteira. Teríamos um longo dia seguinte de caminho de volta.

Dia 04 – Fim de festa.
No caminho de volta ainda seguíamos animados. Agora eu já era amiga de Martin e Marc, os suíços que foram meus companheiros de jornada. Michelle, a americana, ainda estava nos conhecendo e agora, talvez por necessidade, ela se uniria mais a nós, já que seus amigos ficaram em Uyuni e ela teria mais uma noite e meio dia conosco. Acabou que ela também era uma menina divertida e fomos conversando o caminho até o último refúgio, à noite.

Curiosamente, nossa paisagem estava mudando e até em asfalto andamos com o carro. Entendi que como a etapa passeio estava no fim, poderíamos pegar uma estrada regular para chegar mais rápido ao destino. Chegamos na maior cidade que havíamos passado desde então e que também não me lembro o nome. Só lembro que ficamos animados com a ideia de estar em algum lugar mais povoado, com construções maiores. Mas logo que entramos no refúgio essa imagem desapareceu. Sabíamos que seria rústico e que teoricamente nem teríamos jantar, por isso as provisões. Tivemos um jantar de salsichas com purê de batatas e tomate que estava bom, mas os banheiros eram meio de filme de terror. Tinham uma porta sempre aberta e claro que não separavam por gênero. Michelle foi escovar os dentes e deu de cara com um turista sei lá de onde nu, tomando banho. Um dos boxes tinha porta e o outro não. Mas também não era desesperador. Decidimos de comum acordo que não tomaríamos banho gelado e fomos dormir. Acordamos acho que às 5h, num frio incrível e, claro, tomaríamos o café da manhã na fronteira, como fizemos na ida.

De volta à estrada, com e sem asfalto, com córregos, lhamas, cabras, montanhas mágicas e novas paisagens deslumbrantes. Estávamos relaxados e entre uma conversa e outra, um cochilo e outro, o tempo ia passando. Sem perceber, chegamos à fronteira. Era o café da manhã, o carimbo de despedida e o adeus à Bolívia. Dali em diante era só retorno. San Pedro. Santiago. Rio de Janeiro.
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Um dos melhores filmes da vida, um charme e delícia de assistir que ultrapassa décadas. Um clássico atemporal e para rever sempre. Este é Acossado, de Jean-Luc Godard.


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Acossado, Jean-Luc Godard

Já vi o filme algumas vezes e ontem foi mais uma. Presente da Nouvelle Vague, Acossado consagrou ao mesmo tempo Godard, Truffaut, Chabrol, Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg para sempre. Foi o primeiro filme dirigido por Godard e ele ainda aparece, como Hitchcock fazia, com um pequeno papel. Truffaut é o roteirista e Chabrol supervisionou a produção. Belmondo faz o papel de Michel Poiccard, um ladrão de carros que, saindo de Marselha, acaba matando um policial. Vai a Paris para receber o dinheiro de uma dívida e encontrar Patrícia Franchini, uma jornalista americana a quem tenta convencer a viverem juntos em Roma. Patrícia é essa moça que não usa sutiã e prefere ser independente a viajar com Michel sem garantias, numa condição desfavorável pra ela.

Nossa heroína faz uma brincadeira sobre Romeu e Julieta, Michel procura o horóscopo no New York Herald Tribune. A sorte de que ela desdenha é a mesma que ele parece não encontrar, apesar de circular pela cidade e se resolver como um gatuno, um desses vagabundos que tanto adoramos no cinema. Michel é um anti-herói. Ele é o oposto da ordem, moral e bons costumes tanto quanto outros grandes anti-heróis do cinema, vide Scarface (que serviu como inspiração para o filme), ou o brasileiro Super Outro, do baiano Edgard Navarro. O trailer o identifica como o mocinho sem caráter e anárquico, já que ele nada busca ou defende, quer apenas sair daquela situação e viver em outro lugar.

Não só isso, a construção do personagem e a intimidade dos protagonistas nos fazem querer ser aquele casal, estar naquele apartamento, participar daquela intimidade. Jean Seberg conquista qualquer um com um rosto que parece desenhado, um charme irresistível e também por se opor àquele por quem nós já estamos apaixonados. Seu corte de cabelo será repetido no cinema em todas as décadas seguintes.

Saindo do encantamento dos atores, corremos para a direção. Godard passeia com a câmera na mão boa parte do filme, com a agilidade de um roteiro policial e exibindo aquela privacidade dos protagonistas. A impressão que temos é de que tudo é iminente e que em algum momento a polícia vai chegar. Essa urgência que vemos é tanto reflexo da década - da Cahiers du Cinéma (que também tem uma pontinha no filme), de uma nova forma de ver cinema, menos empolada, mais simples e com gente nova e sedenta de criatividade e ritmo - como da própria agilidade de produção; o roteiro era constantemente revisto pelo diretor e as cenas eram entregues aos atores momentos antes de filmá-las.

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Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo | Acossado

O filme é participativo: constantemente os personagens nos fazem alguma revelação, como se conversassem conosco, voltados para a lente. Nada passa despercebido e até quando algo acontece no plano de fundo, o diretor não nos abandona; ele aponta: olhem ali. A montagem funciona como um personagem, instaurando uma nova forma de associar planos alterando a duração e recepção de uma mesma ação – ao invés de esperar o fim de uma e cortar pra outra – e dissociando o som do que se vê, enriquecendo de significados a engrenagem da construção de sentidos no cinema.

A trilha ajuda a manter o ritmo do filme, junto com a montagem entrecortada que hoje é estudada nas escolas de cinema e usada como influência e homenagem em diversos filmes. Uma música entre o misterioso e corriqueiro, entre as escapadas, as artimanhas de nosso herói e os embates românticos ganham uma graça, um tom leve, não tão carregado de suspense, mas de cotidiano, reforçando ser aquela a rotina do protagonista.

A impaciência do dia a dia se solidifica na repetição das ações, do comportamento, do esvaziamento que a rotina traz e que se mostra ainda mais concreta quando voltamos a um lugar que não vamos há tempos e ele segue igual – inclusive nas pessoas que freqüentam (parecem saídas de um molde) – como se todos os dias em que estive ali se resumissem em um. Mas esquecemos de tudo isso nestes 90 minutos, nos entretemos com um filme já visto e revisto sem tédio, encontrando sempre algo novo dentro da obra. Filmes assim seguem sem data, ou talvez com o reforço dela. A graça de Acossado está também em relembrar aquele movimento que estava nascendo, um pouco como aqui no Brasil com o Cinema Novo ou na Itália do Neo-Realismo, uma revolução cultural única em séculos no mundo inteiro e que eu não estava lá pra ver.

Não dá pra fazer crítica de clássicos, só nos resta opinar. A crítica serve como formação de público a filmes novos, para que o espectador decida se o filme está de acordo com sua curiosidade. Com Acossado, o que podemos fazer é relembrar como foi, a grande importância que teve e assegurar diversão garantida a um preço justo. Ainda não sei se o problema está em mim, nos grandes filmes ou lugares pequenos mas, cada vez mais, troco as saídas que se repetem pelos clássicos a se rever.


Vamos manter este blog delicioso funcionando? Vem tomar um café comigo! =)
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Esse é certamente o mais formalista dos filmes de Almodóvar. É um thriller, um suspense intenso que nos deixa cada vez mais tensos e boquiabertos a cada cena. É a estória de um cirurgião plástico viúvo (Antonio Banderas) que desenvolve pesquisas para construção de tecido humano. Ele mantém em cativeiro uma cobaia (Elena Anaya) que recebe os cuidados de uma governanta-enfermeira (Marisa Paredes). Todos mantêm uma relação de intimidade conformada, compreendida inicialmente por estarem vivendo sob o mesmo teto, a mansão do médico.
As dicas do filme são só essas: é uma história de vingança e sobrevivência, o título é descortinado após um tempo e gera um encantamento imediato pela inteligência do roteirista e diretor, e de Thierry Jonquet, escritor de Tarântula, história em que se baseia o filme. Os figurinos minimamente desenvolvidos por Paco Delgado a quem desconheço, mas com colaboração de ninguém menos que Jean-Paul Gaultier, com tecidos elásticos que cobrem todo o corpo como uma segunda pele, os cenários simbolicamente definidos entre a ausência e a abundância de objetos, o voyeurismo. Neste filme, literalmente, tudo tem seu lugar.
A trama não comporta escrúpulos ou saídas fáceis. Entendemos isso logo no início e também deles temos que nos libertar, o filme precisa ser visto sem amarras, entendido como um jogo e ser participado com cúmplices e não juízes. Muitos fetiches e como não poderia de ser, há também uma importante questão de gênero e poder. Marca registrada do diretor, a sexualidade mais uma vez é ponto-chave na trama, mas agora levada a um outro patamar e abordada de uma forma inteiramente nova na filmografia do diretor.
O filme acontece num labirinto de situações que vão explicando aos poucos o que seria o presente, preenchendo as lacunas de um mistério kafkaniano e nos preparando para um desfecho quase imprevisível. Quase, porque as saídas deixadas para a resolução da trama vão se reduzindo com a gravidade das ações dos personagens, os abusos de poder, as violências, seus passados. A trilha sonora é tão presente quanto os demais elementos; como sempre, Almodóvar orquestra todas as camadas da criação de forma a torná-las fundamentais à diegese. As músicas eliminam as palavras e nos deixam sem ar, assim como as interpretações dos atores. Os cenários como já citei, nos ajudam a imaginar uma prisão confortável para o corpo mas, como todas devem ser, impossível para a mente.
O formalismo se justifica nas minúcias da produção, no desenrolar de uma trama ousada, arquitetada quase matematicamente. A música forte, incidente, criminosa quase, traz à memória o suspense Hitchcockiano e o amplia. Funciona como pontos de intensidade e, ao mesmo tempo que nos deliciamos com a velocidade das notas dos violinos, ficamos emocionados e quase escondemos o rosto ou tapamos os ouvidos. O efeito criado é como de um voyeurismo para os ouvidos, às avessas. Ou como nos filmes de terror em que sabemos que o mal vai aparecer e tampamos os olhos com as mãos, mas sempre deixando os dedos afastados. É impossível não olhar, como neste filme é impossível não ouvir. Antonio Banderas está transtornado como seu personagem exige, transformado em outro ser, e quanto à Elena Anaya e Jan Cornet, é melhor que não se diga muito. Suas atuações são como o mistério da obra, não merecem ser reveladas em texto.
Diferente de outros filmes em que costumamos dizer que as histórias são todas iguais e defendê-los indicando que o que importa é a forma de contá-las, em La Piel que Habito temos duas imensas razões para assisti-la: uma história verdadeiramente original abraçada a uma forma perfeita. Que fique claro: o começo-meio-e-fim existe, o filme garante a narrativa que conhecemos e que não temos dificuldades em acompanhar. Há aquele momento decisivo, onde o personagem não terá sua vida cotidiana de volta porque sua atitude marcou seu destino. E o melhor de tudo: neste filme, a reviravolta acontece com todos os maiores personagens. Todos têm um pouco da trajetória do herói em suas próprias vidas.
Mais um dos filmes que nos deixa perplexos e felizes, Almodóvar surpreende numa obra realmente nova, escapando um pouco de seus temas habituais de amor e ambicionando outros ‘gêneros’, se é que podemos enquadrar um filme deste diretor em algum. Não sei se pela importância e poder de que este filme já é imbuído, mas foi o melhor dos 14 que vi no Festival e possivelmente o melhor do ano até agora.

*Festival do Rio 2011.
Título Original: La Piel que Habito
Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet
Diretor: Pedro Almodóvar
Espanha, 2011. 117 min
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Quando saí do Roxy depois da sessão, havia uma senhora com o pé engessado tentando entrar em um táxi. Vi tudo de soslaio, porque estava andando rápido, doida pra chegar em casa. Mas a cena me fez virar a cabeça umas duas vezes para ver como terminava e ninguém foi ajudar a velhinha. Não sou heroína de história infantil, mas ela estava com uma dificuldade e eu poderia facilitar a vida dela naquele instante... por que não? E tinha gente por perto olhando a cena, curiosos provavelmente de ver se a senhora conseguiria entrar no táxi sozinha ou tímidos, distraídos para qualquer atitude. Fiz quase nada: abri a porta do táxi, ela sentou, me agachei, conseguimos colocar suas perninhas pra dentro e tchau. De novo, não sou madre Teresa, mas essa não deveria ser uma ação automática?
Enfatizo o ocorrido porque havia justamente uma cena nessa comédia romântica francesa em que a mocinha está no vagão do metrô com o paquera que acabou de conhecer e um casal de idosos caminha vagarosamente em direção ao vagão. Ela sabe que eles não conseguirão entrar a tempo e corre pra impedir que a porta se feche. Exatamente neste momento o público riu e provavelmente se identificou e/ou pensou: essa menina é bacana, engraçada, maluca. Provavelmente concordaram que era uma ação inesperada e imprevisível, mas uma atitude legal. E diante do real, nada acontece. Passa batido.
Voltando ao filme, acho que os romances franceses com voz off pós-Amelie Poulain sofrem o mal terrível da comparação. Sabemos que as comédias românticas desse estilo têm textos engraçadinhos, crônicas da vida com frases curtas, interessantes e sempre buscando uma forma diferente de descrever e completar o que os olhos vêem. Pois é, como Amelie. Entretanto, ainda que siga esse padrão e  que também tenha uma mocinha atípica, o filme vence isso numa boa. A estória: um homem de seus 40 anos (Jacques Gamblin), filho de mãe judia e pai francês, conhece a mocinha de vinte e poucos, Bahia Benmahmoud (e há referências sobre o Brasil por seu nome) filha de argelino com francesa hippie. Bahia (Sara Forestier) é politizada e radical e tem por objetivo converter ‘fascistas’ através do sexo. Só que o mocinho não tem nada a ver com isso e é aí que a brincadeira começa.
Uma questão de roteiro é que a partir de um ponto nos perguntamos onde está o problema que originará o clímax que tanto esperamos. Há indícios, mas nada parece forte o bastante. Tudo acontece rápido e muito bem e isso quase incomoda, mas a complexidade finalmente chega. A marca que o filme nos deixa está na construção dos personagens. O crescimento e a trajetória de cada um, com seus segredos a desvendar um para o outro, as diferenças entre cada um, a crescente intimidade, as descobertas. O filme sai do superficial e torna o próprio relacionamento idílico mais concreto.
A fotografia com o jogo de câmeras também fazem parte da trama. Parece até óbvio dizer isso de um filme, mas é que aqui há uma preocupação estética, um jogo, como repito. Como em 500 dias com ela, há um paralelo no uso de câmeras 16mm e 35mm, em que o filme 16mm normalmente acontece sem voz, apenas para imagens poéticas de tão bonitas, com uma granulação quase palpável que cria uma época de ‘memória’, mas não de passado. Remete às nossas próprias histórias quando apaixonados, em que colorimos as fotos de nossos grandes momentos com o olhar e guardamos no coração. Os detalhes, o sorriso, o cabelo, a pele, o cheiro. E mais: Sara Forestier não deve nada às atrizes populares no quesito beleza. Linda, de uma forma não tão óbvia, mas cativante, ainda tem um corpo que é muito bem explorado pelo diretor. Um pouco gratuito às vezes, mas com um ar provocativo que perde a vulgaridade com a atuação extremamente natural, à vontade com as cenas e com a câmera.
É um filme de brincadeiras agradáveis, que trabalha com temas sérios e um tanto caros aos franceses – o Holocausto e a colonização argelina, a mestiçagem, a política, as religiões, as culturas – com a leveza das comédias românticas que nos deixam tranqüilos após um dia de trabalho e com nossas próprias histórias para pensar.

Ah! Esse também é fruto do Festival do Rio, mas deve entrar em cartaz.
O trailer.
Título Original: Les Noms des Gens
Direção: Michel Leclerc
França, 2010. 104 min.
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Quando o trabalho exige criatividade, muitas idéias surgem quase ao mesmo tempo. A vida é um eterno pensar, descobrir, desenvolver e desistir. Quantas idéias os escritores têm por dia, mês ou ano? E os músicos, quantas letras são deixadas pela metade? O mesmo acontece com os roteiristas. E quando temos aquela idéia genial que vai timidamente se cristalizando em nosso cérebro, sendo de repente alimentada numa torrente de frases quase desconexas e temos que correr para qualquer lugar a fim de colocar tudo em alguma ordem, para que desse monstro saia alguma beleza?

Juntos para sempre é a história de um jovem roteirista que tem a idéia genial. Mais um argentino digno de aplauso do Festival do Rio, o filme é uma comédia inicialmente boba, mas complexa de execução e com um roteiro engenhoso – como não poderia deixar de ser – em que sentimos o cheiro do humor negro bem de perto. Gross (Peto Menahem) acabou de descobrir a pólvora, a sinopse ideal para um grande filme e precisa desenvolvê-la antes que se perca, enquanto sua namorada resolve lhe contar que teve um caso com o vizinho. Na obsessão pelo trabalho, sua vida desanda, Lucía termina o relacionamento e insiste que visite um psicólogo. Em paralelo, vemos a história criada de Gross, seu roteiro vira filme dentro do filme: um pai, Fabián, sai de férias com a família e abandona um a um pelas estradas que percorre. Seu objetivo é reencontrar, livre de qualquer amarra, um grande amor do passado que acredita ainda esperar por ele.

Enquanto vemos Gross adaptar sua vida em prol da estória que cria, sua mãe – numa interpretação incrível de Mirta Busnelli como uma mulher depressiva e histérica – tenta conversar com o filho sempre ausente. Nosso personagem fictício da metalinguagem cresce; sua história é tão interessante e simbólica quanto a de seu criador. E a psicologia, claro, bate à porta. O filme todo é um grande exercício. Imagino que para escrever o roteiro, o roteirista da vida real deve ter se divertido bastante e tomado um cuidado para não cair na própria armadilha. E dá tudo certo: o filme nos ganha desde o princípio e todas as guinadas vão se tornando cada vez mais interessantes, inteligentes e engraçadas. 

O humor negro, aquele íntimo que nos habita, é compartilhado. A doença do protagonista nos contamina; somos ele nos primeiros minutos, mas não sei se queremos continuar a sê-lo nos que se seguem. E, mesmo sabendo que tudo vai acabar, queremos continuar apostando, como viciados, como Gross e como sua criação, o pai obcecado.

A direção foi coesa – acabei de descobrir que o roteirista é também o diretor, Pablo Solarz – e o filme acontece com atores afinadíssimos. A fotografia se torna sombria à medida que o filme se inclina para o mórbido com sutileza, na proporção exata da transformação de todas as histórias ali contidas.

É incrível perceber como o filme metalinguistico nos parece simples na apresentação dos personagens:  a voz de Gross está ali, freqüentemente nos alimentando em off e ao vivo com cada desenrolar da trama, mas também aqui ela vai tomando corpo, como um Frankesntein que se apodera e tem vida própria. Luís Luque, o ator de Fabián é perfeito: apenas com sua expressão - até porque tem poucas falas, o que é um grande triunfo do filme - nos intriga. A quase ausência de voz em Fabián no início e o crescimento de seu personagem no final é o equilíbrio ideal para a progressiva mudez de Gross. Se no início sua intenção era buscar platéia para contar sua idéia e ter opiniões, agora já não é necessário, a certeza do sucesso lhe toma tanto quanto a semelhança que vai ganhando com seu personagem.

Esse é mais um caso em que os argentinos dominam, reafirmando o que disse sobre Querida. Melhor ainda é imaginar quantas pessoas foram ver esse filme acreditando ser uma comédia romântica.
O site do filme!

Título original: Juntos para siempre
Diretor: Pablo Solarz
Argentina, 2010. 98 min.
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Parece ser uma tradição, mas o cinema argentino ainda tem uma graça que nos supera facilmente. Não tem como escapar; talvez nossa evolução televisiva tenha adiado o treinamento no cinema e ficamos um pouco pra trás – claro, com incríveis e cada vez mais, exceções – em filmes que são como programas de TV estendidos para uma tela e duração maiores.

Querida, vou comprar cigarros e volto é outro exemplo de um filme relativamente simples, com grande criatividade e perfeita execução. Ernesto é um senhor de 63 anos que está em um café com sua esposa no interior da província de Buenos Aires. Em seus pensamentos reclama da vida, da mesmice, da falta de oportunidade, das decisões erradas. Um homem capta sua ladainha, aguarda a saída da mulher de Ernesto e lhe faz uma proposta irrecusável: dará um milhão de dólares para que reviva dez anos de sua vida com a cabeça que tem hoje.

A graça do filme está na narrativa e interpretações. A estória é um conto adaptado de Alberto Laiseca que também apresenta o filme como narrador e comentarista. O uso do escritor como aquele que guia a estória lembra – com menos suspense – Hitchcock no seu Hitchcock Presents, uma série de filmes feitos para TV, onde introduz seus personagens e explica o enredo de forma direta e misteriosa. Mas enquanto o papel de Hitchcock como apresentador se encerra logo no início e ele nos deixa à mercê dos fatos, Alberto nos acompanha, como um amigo de bar contando uma anedota um tanto autobiográfica e deixando o mistério a cargo das próximas cenas.

A montagem vai e vem no passado de Ernesto, um cara que se prova atrapalhado e gauche durante toda a vida. Permeando momentos importantes de nossa História contemporânea mundial, Ernesto tenta a todo custo se dar bem, seja como herói ou vigarista. Essa visita a um passado visando mudar o presente se prova infrutífera, e nos remete a outros filmes, como Forest Gump e De Volta para o Futuro. Enquanto o primeiro trata da participação de Forest em fatos históricos, De Volta busca com uma viagem ao passado, remodelar uma estrutura familiar e de vida que traga mais benefícios a Marty McFly e Dr. Emmet Brown. Querida se aproveita das duas experiências, com resultados nem sempre felizes para nosso protagonista.

A fotografia que desde o presente tem ar de passado reforça a descoberta final de Ernesto. A queixa de uma vida infeliz aqui só marca uma “covardia” diante de um futuro desconhecido. Às vezes nos perdemos com a rotina confortável e previsível – ainda que saibamos insatisfatória e por isso reclamamos – quando ao notar, as alternativas, o aventurar-se também está diante de nós, como uma porta fechada à nossa frente e a chave em nossas mãos. Ao escolher abrir a porta, não sabemos o que estará lá, mas se nunca abrirmos, viveremos sempre com a chave na mão e a certeza de que ali se perde uma oportunidade.

O filme, não só apresenta uma história única, bem elaborada, divertida com atores incríveis – já na primeira seqüência sabemos que algo de bom vem por aí, basta sentir o mistério do homem que faz a proposta a Ernesto, e ainda, a mulher do Ernesto adulto – cuja maquiagem e figurino a transformam numa senhora típica de Copacabana (assustadora, mas gente boa), me trouxe Alberto Laiseca um escritor que ignorava a existência por completo e que, além de ser multi-plataforma, tem boas histórias. Com tantas qualidades, só podemos esperar que o filme volte após o Festival do Rio e consiga mais espaço no circuito.

Encontrei o blog de Alberto Laiseca.
E aqui, o trailer.

Título Original: Querida voy a comprar cigarrillos y vuelvo
Diretor: Mariano Cohn e Gastón Duprat
Argentina, 2011. 80 min.
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O filme de hoje do Festival do Rio me veio de presente através de um convite. Não havia visto o trailer, mas a sinopse me dizia algo de interessante e fui arriscar. O diretor apresentou a sessão, dizendo uma das coisas mais legais que todo nerd cinematográfico gosta de saber: a presença de outro diretor, ainda mais bacana na mesma sala. Dario Argento estava lá. E suspeito que do meu ladinho. Mas isso é tudo sobre ele.
O filme trata da história de uma Cônsul italiana na África do Sul se preparando para voltar a seu país. Conhece uma sul-africana que lhe pede ajuda para reencontrar seu companheiro, um fotógrafo que estava investigando o tráfico de humanos. O interesse da Cônsul é romântico: Marco, este fotógrafo, havia sido um grande amor cujo relacionamento foi rompido com muito sofrimento para os dois e algum mistério para um. E aí a Cônsul resolve entrar na jogada e tentar descobrir que fim teve esse rapaz.
Mas a grande questão é que o filme se perde. O diretor respondeu algumas perguntas após a sessão e explicou que queria mesmo enfatizar o tráfico humano, trazendo um conflito amoroso, mas o filme acaba ficando muito vazio e resulta no contrário: um pano de fundo com tema forte e tratado por cima, reforçando o diálogo sobre os relacionamentos destas mulheres. A Cônsul parece uma mulher alienada que viveu muito tempo numa situação de conforto, em que tudo que está além de sua casa e consulado não existe, não está a seu alcance e, de repente, ela  se envolve com tudo e todos, levantando uma bandeira justa, mas aparentemente com outro objetivo. A sul-africana, por outro lado, perde muito tempo querendo saber que tipo de relacionamento eles tiveram, ao invés de buscar respostas com outras perguntas que seriam mais úteis.
Me recorda um pouco o que vivemos aqui no Brasil, no Rio especialmente. O Rio é dividido em setores: Zona Sul, Oeste, Norte e Centro. Eu considero o Centro como uma extensão da Zona Sul. É muito perto e muito parecido em muitos aspectos. A Zona Oeste me parece ser mais heterogênea, mas tem o problema de respirar uns ares de Miami que deixam as largas avenidas estéreis e estranhas. E a Zona Norte, imensa e ainda uma interrogação pra mim, é a zona mais humilde, que concentra a maior parte da população e que faz com que a cidade efetivamente funcione. O incrível é que para muitos moradores da Zona Sul, a Zona Norte está muito distante, não existe praticamente. Essa noção espacial é reafirmada cotidianamente por seus moradores, como acontece com nossa protagonista Cônsul.
O que realmente irrita é que no processo de busca de um fotógrafo italiano talvez seqüestrado por traficantes escravocratas, os diálogos entre a atual companheira e a antiga são de uma futilidade tremenda. Enquanto a preocupação com a vida deste personagem invisível deveria estar sempre em primeiro plano e mobilizar muito mais do que duas mulheres - lembrando que uma delas é CÔNSUL e teria relações, no mínimo políticas, que favorecessem o caso - as mesmas disputam uma preferência impossível em discussões vazias, reduzindo seus próprios personagens a duas mulheres poderosas, mas paradoxalmente inseguras. Com assuntos tão sérios em pauta, ‘quem vai ficar com ele’ não deveria ser tão importante. O amor poderia e foi destacado no filme e é plausível, mas o eterno embate é cansativo. E a Cônsul mantém uma aura de mistério o tempo inteiro, em que não sabemos exatamente como foi o fim do relacionamento, sendo que isso pouco importa na trama do filme.
Acho que o pano de fundo acabou sendo o tráfico de escravos, e não o mote principal, como me parecia ser e que foi o que me trouxe ao filme. Algumas tentativas existem, a Cônsul visita abrigos de mulheres, conhece um traficante, se mete em algumas roubadas, acreditando que seu título a salvará no final - outra ingenuidade estranha vindo de uma mulher que aparenta ter alguma experiência no cargo. Ainda, a montagem poderia ser mais enxuta e o filme talvez resultasse mais curto, se eliminássemos metade das discussões redundantes e fúteis. Com um tema tão caro à África do Sul e ao restante do mundo, o mínimo a se esperar era uma preocupação maior e um final mais coerente.

Título Original: Il Console Italiano
Diretor: Antonio Falduto
2011, 90 min. Itália
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Ontem assisti A um passo da eternidade. Por mais clássico que seja, o amor do protagonista pelo exército não me tomou e o filme passou por mim sem fortes emoções, à exceção da cena da chegada dos aviões japoneses metralhando soldados americanos e de quando o protagonista chora a morte do amigo. E também passou por mim mais uma sexta-feira à noite em que os solteiros têm por obrigação (?) estar nas ruas se divertindo.

No meu trabalho há uma menina muito engraçada, que se sentia extremamente culpada quando não saía nos fins de semana ou até durante a semana. Ela tinha a impressão de que a vida está passando por nós enquanto trabalhamos, como se a rotina nos esmagasse paulatinamente. Especialmente quando somos solteiros. Acho que todos têm um pouco disso, mas era engraçado ver uma preocupação sincera nela, como se não houvesse amanhã.

Medianeras é um filme que mistura esses sentimentos. São dois jovens, Martin (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala), vizinhos que vivem suas vidas em apartamentos para um em Buenos Aires, como pessoas normais com frustrações, alegrias, tristezas, sucessos e fracassos. O cotidiano deles é o que nos aproxima do filme, nos tornando aqueles personagens e fazendo com que seus sentimentos nos habitem; em alguns ou vários momentos, somos exatamente daquele jeito.

Ela terminou um namoro e voltou a morar em seu apartamento. Ele, algum tempo só, construiu uma forma de viver em que necessitando muito pouco do ‘mundo lá fora’, seu analista lhe propõe que saia para fotografar; seu dispositivo de interação com o mundo é a câmera. As estações passam por eles e em um ano vemos suas transformações agora em nós, nos apaixonamos e acompanhamos as trajetórias na certeza infeliz da duração de 95 minutos. Dali a muito pouco seremos só nós, novamente.

O filme, de um diretor e atores desconhecidos pra mim e de orçamento baixo consegue logo no início nos prender com a voz de Deus, aquele recurso que Woody Allen usa muito para introduzir a trama e os personagens do filme. Aqui, de forma bastante parecida e com texto rápido e curioso, nos primeiros cinco minutos já sabemos que algo muito bom acontecerá. A nostalgia dos personagens nos invade sutilmente, como uma tristeza terna que se perde entre o que fomos e o que somos. Aqui o futuro não existe, estamos nas medianeras, os espaços intermediários dos prédios, naquelas paredes inteiras, fachadas laterais “inúteis” sem janelas ou saídas para o mundo. A voz de Deus nos informa, logo no início: a vida é como estar de passagem em Buenos Aires, uma cidade em que os fios se entrelaçam construindo teias para cobrir o céu, os prédios – como no Rio de Janeiro (acho as duas cidades bastante parecidas) – se fundem em uma arquitetura caleidoscópica com estruturas belíssimas e construções horrorosas espelhadas, uma cidade que deu as costas para seu rio... um espaço sempre entre o caos e uma tentativa de ordenamento.

A construção narrativa nos prende à medida que a voz off some. Somos introduzidos naquele tempo-espaço e deixados com eles, como uma apresentação a novos amigos quando crianças. Aqui são pessoas cujas vidas não têm apenas clímax, como nas comédias românticas americanas. Os tempos mortos existem, a mocinha está em casa olhando para seus manequins, buscando um Wally (sim, de Onde Está Wally?) no livro ou enlouquecendo com um vizinho que toca um triste piano sem fim. E a partir daí, como este tédio pode ser diluído na internet, universo fundamental ao mocinho, encontramos relacionamentos raramente felizes mas um pouco engraçados, os virtuais. Também é importante – e aí está a riqueza do filme – perceber o reflexo dos nossos relacionamentos, como os protagonistas se envolvem com outros personagens na certeza de que são encontros vazios, mas tão necessários como um teste, uma experiência com resquício de esperança, para se sentirem partilhando a si e conhecendo o outro – tentando driblar as carências que se reforçam ironicamente em mais alguns fracassos.

A solução talvez esteja, como no título do filme, num intervalo entre uma parede sempre fechada e uma nova janela que se força abrir exatamente ali, contra a lei (nem que seja a da engenharia), mas como um imperativo, como aquela luz inevitável do fim do túnel. Este filme, que nos lembra a nós mesmos com bom e inteligente humor, ao tempo que nos faz rir cúmplices, nos lembra que não precisamos viver uma eterna busca, entendendo que tão importante quanto novos encontros é se permitir ficar em casa assistindo um filme qualquer em uma sexta à noite.

Título Original: Medianeras
2011, Buenos Aires, 95 min.
Diretor: Gustavo Taretto
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Agora são 3:33 de Sete de Setembro e um acidente de carro acaba de acontecer na esquina. Eu moro num cruzamento de Copacabana bastante movimentado, numa avenida que liga Copa a Ipanema. Há vinte minutos estava dormindo, quando um barulho de uma violência tremenda me assustou e achei que todos haviam morrido em um capotamento.

Passei dois minutos na cama, trêmula, coração na boca. Levantei ainda assim, um homem desesperado gritava olha o que você fez com a minha mulher e tudo era um diálogo de terror. Fui à janela e o homem ainda gritava, ainda desesperado, o carona do causador do acidente tentava acalmá-lo em vão. O motorista culpado não podia e nem saía do carro, certamente apanharia e estava muito bêbado. O homem seguia desesperado, o carona do outro carro já estava chorando e a mulher, invisível. Liguei para o 190, 192 e 193. No 193, a moça que me atendeu muito bem, me informou que eu deveria descer e ver o estado da vítima. Estava apreensiva de entrar na situação, a moça me deu coragem e eu me vestia, quando liguei para o porteiro que disse ter chamado a polícia e a Samu e alguns taxistas chegavam.

Agora que a Samu já levou a moça e seu marido – me tranqüilizei porque a vi andando e sendo atendida, depois levada de maca para dentro da ambulância – voltei para a cama. Espero, de coração, que tudo dê certo para este casal que queria apenas voltar pra casa e, em tempos de Lei Seca, se viu num acidente com um motorista imbecil e bêbado.

Muitas pessoas são contra a Lei Seca. Aqui no Rio – como na maior parte do país – já aconteceram tantos acidentes horrorosos com muitas vítimas inocentes por conta do álcool, que esta frase parece desnecessária, de tão clichê. A medida punitiva é tão óbvia quanto seu objetivo preventivo. Os que reclamam são os que bebem e se dizem senhores de si, independente da gradação alcoólica, sem pensar, tão imbecis quanto o motorista de hoje, que merdas realmente acontecem e que sim, podemos provocá-las.

Antes disso tudo, estava com alguns amigos num bar. Havia um grupo de mulheres em uma despedida de solteiro e a noiva, que estava dirigindo, confirmou a intenção de beber. Quando sua amiga sugeriu que conversasse com a irmã para que não bebesse, a resposta foi: e você acha que ela não vai beber? Nada que o twitter da Lei Seca não resolva. Esse twitter pode ter sido o que o motorista de hoje usou e a fiscalização da lei não deu conta do recado, se é que está acontecendo.

Tive meus momentos, como grande parte das pessoas dos vinte e muitos, de beber e dirigir. Também dei muita sorte como carona e nunca me envolvi em nenhum acidente do tipo. A responsabilidade do motorista é o que o deve manter abstêmio toda a noite - outro clichê. Até hoje não encontrei um argumento válido que justifique o fim da aplicação da lei ou da fiscalização. Acidentes como este, que me tiram o sono, me fazem querer ser médica e útil, rezar para qualquer crença e eventualmente chorar, reforçam a idéia. Somos incapazes de controlar a imbecilidade alheia e podemos simplesmente estar no carro ao lado, como essa moça machucada e seu marido. Temos, pelo menos, que tentar reduzir este índice de acidentes e vítimas por e para nós mesmos. Sejamos egoístas.
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A memória que temos de Charles Chaplin é a daquele vagabundo inocente que faz estripulias em alguma cidade em preto e branco. Ou daquele operário enferrujado que aperta porcas e parafusos e, num surto, aperta também tudo que assim se pareça, ou ainda - é dos meus preferidos - o personagem do filme falado, O Grande Ditador, esse, magnânimo.. Sábado encontrei o vagabundo no Municipal e, como num passe de mágica, voltamos ao tempo dos grandes cinemas orquestrados.

O  Theatro Municipal do Rio de Janeiro – assim mesmo, com o charme do h – tem um calendário em que alguns dos mais importantes filmes do Cinema mudo são exibidos ao som de uma orquestra ao vivo. Essa apresentação imediatamente nos leva, como no último filme de Woody Allen, a outra época, no início do século passado. O Theatro, reformado e lindo estava lotado e consegui ficar no balcão nobre, logo acima da platéia, com uma boa companhia. E, por mais que conhecesse o filme, foi uma emoção de primeira vez.

Aqui temos a história de um vagabundo - nos termos de um desempregado e pobre  - que se apaixona por uma florista cega e faz de tudo para melhorar sua vida e curar sua doença. Um filme com uma história simples, sem muitos rodeios, como tem que ser.

É também daqueles filmes que te prendem em todos os momentos. Primeiro porque é surdo, já que os personagens falam bastante no filme e não ouvimos: uma cartela ou outra nos dá informações básicas para que possamos apreender tudo. A riqueza está no personagem, no Carlitos que tanto conhecemos e que preenche a tela com uma leveza daquelas pessoas únicas de grande coração. E o mais incrível, a orquestra ao vivo em total sincronia com o filme, acertando em todos os ruídos e ênfases. A música não só acompanha a trama, como é grande responsável pelas ondas de emoção que nos pegam de tempos em tempos nesta precisa duração. É aqui que rimos escandalosamente, gargalhamos livres num filme de piadinhas antigas, ingênuas e lindas.

E a platéia ria... ria e se deliciava, se reencontrando com um passado que nunca foi seu, com piadas de outros tempos mas com beleza e inocência, aquela pureza que provavelmente as guerras, a internet, as bombas e tudo mais de novidades estranhas foram ajudando a removê-la de nós aos poucos. A ingenuidade, o romantismo de uma época que não vivemos nos faz ver tudo com um ar de saudade do que não temos ou fomos – que seria um pouco o significado da melancolia, mas que passa longe daquela de está em cartaz nos cinemas, também com h. Aqui é um riso conjunto, compartilhado e confesso. E que começa tímido, um aqui, outro ali, o Municipal no escuro com umas luzes para a orquestra e em cinco minutos estamos todos juntos, rindo do menor esforço de nosso ator genial, como se fôssemos de uma mesma família reencontrando alguém que não vemos há muitos anos.

E o final, o que é o final? Não vou contar, vai que alguém não viu e merece a surpresa. O final nos toma de uma forma que o Theatro inteiro parou de respirar. Parou naquele segundo, naquele fechamento indefectível de uma história terna, quente e triste ao mesmo tempo. A última seqüência é um aperto no peito de ansiedade pelo último segundo, pelo desfecho perfeito dos filmes perfeitos de Charles Chaplin. As paredes do Municipal ficaram mais fortes e ricas nesta noite de sábado, com tantos aplausos, risos, lágrimas, carinhos e amor pelo Cinema, pelo espaço mágico em que estávamos, ambos eternos. E ainda mais aplausos para a Orquestra e para a última imagem da tela, a foto do gênio, do artista completo. Aí fomos todos alegria.

Obs.: acabei de checar aqui e terá uma última exibição no próximo dia 20/08. Vale muito a pena.
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Yoko finalmente liberou o doc na íntegra na internet!
Segue nota:

"Queridos amigos,

Em 1969, eu e John éramos ingênuos a ponto de acreditar que deitar numa cama ajudaria a mudar o mundo.
Bom, pode ter ajudado. Mas na época nós não sabíamos.

Foi bom termos filmado, de qualquer forma.
O filme é poderoso hoje.
O que dissemos na época, poderia ser dito agora.

Na verdade, algumas coisas que dissemos no filme podem encorajar e inspirar ativistas de hoje. Boa sorte para todos nós.

Vamos lebrar que A GUERRA ACABOU, se assim quisermos.
Depende de nós, de ninguém mais.
John gostaria de dizer isso.

Yoko Ono"
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Em tempos atuais, é importante não perder o Vejo Você no Próximo Verão. Acabei de assistir. Estreou hoje causando impacto. E é claro que a versão original do título é mais interessante; Jack goes Boating.
Em tempos atuais, porque parece que vivemos um mundo de contrários. O filme trata do surgimento de um novo relacionamento romântico, da formação de um novo casal. Um casal de amigos resolve ‘armar’ o melhor amigo com a colega de trabalho da mulher. E é isso, nada mais. O filme é sobre essa conquista, que não parte apenas de um.
Neste mundo de contrários parece que o mais importante é a coleção. Não importa quem seja a pessoa, o objetivo é como o war: quanto mais territórios temos, vencemos o jogo. Ou destruímos o oponente. Na minha adolescência, quando somos apresentados aos nossos hormônios e aos dos outros e entramos no mundo das relações amorosas, eu achava sinceramente que era tudo meio simples, que quando se gostava, ficava-se junto e pronto, acabou. Felizes para sempre. Mas todo conto de fadas existe tanto quanto as fadas. Tem um processo de conquista, muitas vezes estranho e sem propósito, que acontece e este final feliz some feito fumaça.
Depois de tantas figurinhas trocadas entre amigos e amigas, fui convidada a ler um livro mulherzinha. He’s not that into you e eu quase com vergonha admito que estou me divertindo lendo e me vendo em muitas situações ridículas. Eu admito mesmo, fiz umas coisas já, mas entendendo que cada um é cada um e que os homens e as mulheres podem agir individual e originalmente. O livro diz exatamente o contrário e tenta provar isso por a + b. É um livro escrito por um homem e uma mulher americanos (por isso o dualismo é gritante e exagerado, eu sei), roteiristas de Sex and the City. Os escritores buscam comprovar com exemplos práticos o nível de interesse do homem num relacionamento heterossexual, de forma a alertar as mulheres – sim, estas que vivem buscando justificativas para ‘segurar’ ou ‘acreditar’ em situações quase surreais – para que não percam tempo na vida com quem não interessa.
E aí aparece esse filme, que, ao tempo que comprova no extremo o que o livro nos conta, mostra o exato oposto: há um paralelo entre um relacionamento estabelecido, mais complicado e este novo casal que está descobrindo como é conviver. E enquanto as diferenças entre os pares vão se tornando cada vez mais evidentes, a transformação dos personagens ganha força e o roteiro se sobressai surpreendentemente. Não é um filme de clichês, pelo contrário, é um filme sobre a vida, sobre um dia a dia de alguns amigos que não sabem muito bem - como grande parte de nós - o que podemos e não podemos nos permitir viver.
É um filme, soube nos créditos, baseado numa peça que o próprio Philip Seymour Hofman protagoniza (além de ter dirigido e produzido o filme) e por isso há poucas locações. Ao mesmo tempo, não percebemos isso de forma alguma. Os diálogos estão na medida, bem como seus silêncios fundamentais.
Outro dia assisti Quem tem medo de Virgínia Woolf, que me remeteu a outro, O Anjo Exterminador, de Buñuel. Toda essa leva de clássicos é para uma analogia simples: em um determinado momento dos três filmes, os personagens ficam confinados numa residência e por mais que a tensão seja insuportável, eles não saem dali. E a nossa tensão aumenta absurdamente, o incômodo torna-se coletivo e nossa vontade é entrar pela tela do cinema ou da TV e arrancá-los porta afora. O Anjo Exterminador pretende com isso outro objetivo – não vou discutir os temas de Buñuel aqui – mas Quem tem medo... também nos mostra relacionamentos complicados. E como eles se solidificaram em bases frágeis ou tetos de vidro. Nada disso suporta muito tempo.
Há uma carga emocional muito forte neste novo filme. Philip Seymour Hoffman – e nem preciso falar dele, de verdade – é o cara. Sem mais adjetivos. O protagonista é um personagem extremamente sensível, que conhece uma mulher incrível e sensibilizada. Nos primeiros 2 minutos, já nos apaixonamos por ele e pela paradoxal força desta mulher: aqui também ela é a atriz que carrega o filme, com poucos gestos, tímida e resistente.
As mulheres sempre ganham esses adjetivos: resistente, forte, batalhadora. Os homens têm ganhado outros: sensível, perdido, indefinido. Em resumo: nós carregamos o piano enquanto eles decidem quem são. Não tão drástico, mas o fato é que nem sempre queremos ser e ter essa força toda. Somos mocinhas. Queremos ser delicadas, bem tratadas, reconhecidas, paparicadas. E neste filme há uma força, literalmente, que faz com que isso aconteça. Simplesmente porque era necessário para os dois, precisava ser daquele jeito. E não era um sacrifício.
Esse é um filme sensível e honesto. É simples, perfeito em sua composição e nos prende como muitos outros filmes ‘pequenos’ americanos não por coincidência (lembrei de: Sunshine Cleaning, A lula e a baleia, Pequena Miss Sunshine, O casamento de Margot, Away we go – que, no IMDB mostra em quase todos, os mesmos produtores). Só é difícil de encontrar – como nesta linda produção – uma realidade parecida. Mas é bom dormir com essa idéia, esse respiro de que se um filme assim foi possível, por que o resto não seria?

Título original: Jack goes boating
Diretor: Philip Seymour Hoffman
2011 - EUA - 91 min
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Na semana passada, no dia treze, foi o dia mundial do rock. Aqui no Rio não aconteceu nada de interessante, mas me peguei ouvindo uma banda baiana que me tomou por inteira e me levou para os shows que ia em Salvador no início dos anos 2000. Scambo era o nome e Salvador conhecia as letras originais e as versões, e percebi que me marcou muito mais do que eu imaginava.
Nessa leva de baianidade, troquei boa parte das músicas internacionais que ouvia diariamente por outras baianas e às vezes meu coração aperta de saudade e me dá vontade de cantar bem alto, mas quase sempre estou dentro de um ônibus e o que acontece é meu coração explodir por dentro e uns risos meus, sorrisos, enquanto olho o mar carioca.
Hoje assisti a pré-estreia de Filhos de João, o filme de Henrique Dantas sobre os Novos Baianos. Dei uma sorte danada, porque encontrei outros baianos e vi o filme entre eles. Nada melhor, já que ouvi o sotaque de pertinho, vi o filme, cantamos umas partes e no final, mais baianidade no coquetel. Parece bobagem, mas esse retorno é realmente importante. Às vezes o tempo vai passando e deixamos passar junto um pouco do que somos e vamos nos tornando outros, sem perceber... às vezes é só uma música, a companhia ou um filme que nos avisa com um ‘psiu... lembra? Você é isso também’. Era tudo o que eu precisava.
O que acontece é que este filme foi feito durante 11, 12 anos e trouxe entrevistas de tempos diversos, mas que juntas, davam um tom gostoso e interessante, traduzindo numa boa forma de contar a história. E eu nem sabia que João Gilberto era esse João do título e sua importância na formação do grupo. A questão é que João Gilberto já era um mestre nos anos 60 e essa turma dos Novos Baianos, de músicos fantásticos estava se descobrindo, quando o músico-padrinho mostrou possibilidades e novos olhares que transformariam o rock dos baianos numa música essencialmente brasileira e fundamental.
O filme mostra raridades, trechos de shows, da convivência deles num sítio aqui no Rio, de como as canções se formaram, de como eles viviam e cresciam, se multiplicavam. E múltiplo é também o filme, que nos dá o prazer de ver os pais da guitarra elétrica, do nosso Carnaval baiano, de Armandinho, Dodô e Osmar, até de Gil e Caetano, como quem não quer nada. É um prazer de ver e ouvir. E é a história da música brasileira. Isso tudo num documentário inesperado, lindo e divertido.
Tom Zé abre o filme e faz as vezes de mediador da história, ditando os momentos importantes da virada, com sua fala completamente original e, que pode parecer a muitos ‘viajante’ e metafórica, mas, se pensada e ouvida faz total sentido. Todas as suas palavras e adjetivos. Junto com isso, um contexto da época na Bahia, com os filmes de Edgard Navarro e tantos outros – porque os Novos Baianos também fizeram filmes – e toda a efervescência cultural de uma época que aconteceu assim no mundo inteiro. E o legal é que eles todos falam num tom simples, com tranqüilidade, sem maneirismos ou palavras difíceis. É um filme para todos. Todos que gostam de música, cultura, de Brasil, de Bahia.
Acabei de chegar em casa e não consegui não escrever sobre o filme. E tenho que agradecer à minha irmã que me apresentou a esses baianos maravilhosos quando eu nem sabia de nada. Hoje o filme chegou tímido e me deu uma recarga de baianidade no inverno carioca, não tão gelado como em outras cidades, mas longe de ser aconchegante como na minha terra. E quando isso acontece, não tem essa adversidade que me tire o humor. E nem falemos de outros filhos dos filmes de música; gostei muito dos de Francisco, mas não se comparam a esses aqui. Assim como a analogia ao Admirável Mundo Novo, aqui se justifica plenamente no filme. Era uma geração que buscava algo novo, diferente, livre... que se perdeu na ingenuidade do velho sonho de romper um sistema - na verdade, talvez um sonho ainda novo naquele tempo - mas que ainda assim permaneceu num sistema próprio tempo suficiente para criarem vida e nova música. É isso, Novos e Velhos baianos no rádio e agora nos cinemas, por favor.

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Quando não conhecemos um lugar, costumamos viajar por ele através das impressões dos outros. Impressões vendidas por companhias de turismo, dadas com emoção por parentes e amigos que lá estiveram, por filmes, músicas, fotos, postais, internet. Essa coleção de imagens e sons é comum e acessível a todos. É gratuita e nos permite interpretar aquilo que não conhecemos, mas que temos alguma(s) idéia(s) de como deva ser. E, enquanto não vamos lá, aprendemos daqui a perceber como seria aquela vivência, ilusão farta e romântica de um espaço, de um momento.

Meia noite em Paris trata da viagem de um casal americano junto com os pais da noiva à cidade. O noivo, Gil Pender (Owen Wilson) encantado com a capital francesa e se aproveitando dela para ganhar força e coragem para mudar sua profissão lucrativa de roteirista hollywoodiano, tornando-se um escritor de primeira viagem, entra em conflito com os anseios da noiva Inez (Rachel McAdams), que pensa na decoração da nova casa e em passeios com um casal de amigos não tão divertidos que encontrou pelo caminho. Insatisfeitos com a discrepância dos anseios individuais, o casal se separa nas noites parisienses e vaga pela cidade, cada um à sua maneira. A cada novo dia, as diferenças entre eles se tornam mais evidentes e novas descobertas os fazem rever o casamento.

Esta é uma sinopse alargada do novo filme de Woody Allen. Ao contrário dos anteriores, este não começa com uma narração. Na verdade, o filme prescinde totalmente daquele narrador, da voz que já conhecemos, presente em grande parte de sua filmografia. A história se deixa contar à medida que nosso herói vivencia a cidade e por ela se apaixona, a cada quadra, a cada esquina. Romântico, acredita que seria mais feliz em outra época, de outra forma. Esse pensamento nos transporta pelas ruas de Paris a outras décadas e todos  vivemos uma experiência inusitada.

O filme mantém o estilo leve, a narrativa fluida, a suspeita simplicidade no contar da história. Com mais de vinte filmes no currículo do diretor, não poderia ser diferente. Aqui há atores de peso – com destaque para o incrível Adrien Brody e Corey Stoll – e até Carla Bruni dá o ar da graça em momentos divertidos da história. Ainda que não soubéssemos quem havia dirigido, ficava fácil perceber a quem pertence o tom do filme. Não há um neurótico assumido, mas um homem confuso, perdido entre suas decisões, ingênuo e descobrindo o que quer e precisa, como alguém que chegou agora ao mundo. Há uma tranqüilidade no personagem de Owen Wilson e nos diálogos incríveis com o amigo pseudo-intelectual de Inez, que nos fazem gargalhar.

A surpresa do protagonista diante do inusitado – também para mim que não li nada sobre o filme, apenas vi o trailer – nos faz entrar imediatamente na história, quase como o herói de A Rosa Púrpura do Cairo, só que de forma invertida. Aliás, a primeira grande diferença deste novo filme para os demais não é tanto a ausência de voz off, mas as primeiras cenas, lindas, das pequenas ruas estreitas, de paralelepípedos, com cafés e restaurantes e uma trilha de fundo, nos indicando: é Paris, nada mais importa.

Com mais imagens deliciosas de uma cidade ainda desconhecida, a ansiedade me tomou o coração com um imperativo de ‘você precisa viver isso’. Este filme aparentemente simples – como todos os outros de Woody Allen aparentemente são – traz questionamentos de forma sutil sobre o tempo que vivemos, o tempo que queremos viver e se o que estamos fazendo agora é viver o que queremos ou se estamos sempre pensando no que queremos viver. As respostas suscitam outras questões e provavelmente não teremos uma solução que não signifique novas decisões e atitudes. E tudo pode se passar num domingo qualquer com uma boa companhia e que não se pense mais a respeito ou, como um bicho que nos morde, pode ficar uma marquinha, uma manifestação pequena e incômoda do que realmente precisamos fazer e que não conseguiremos esquecer.

Título original: Midnight in Paris
2011 / 94 min
Diretor: Woody Allen
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Sem assistir novos filmes num fim de semana atribulado, fechei o domingo com chave de ouro no show de Paul McCartney. Já tinha perdido o de São Paulo e não poderia deixar de ir, estando Paul no Rio de Janeiro.

Para chegar pegamos o metrô até a Central do Brasil e de lá um trem direto ao Engenhão. Foi minha primeira visita à Central, meu primeiro trem carioca. Uma fila incrível nos aguardava na entrada do estádio, mas tínhamos tempo. Fui com 3 amigos que encontro de vez em quando e foi como se o tempo não houvesse passado.

Foi incrível! Não sei se pela excitação do evento, se por ser um show grande, pelos fanáticos – como eu – que cantavam com toda a voz e pulmão todas as músicas do começo ao fim... mesmo sem conseguir ver o palco direito, valeu cada minuto. Fiquei pensando em como deve ser difícil montar um set list com tantos sucessos de carreira, mas ele escolheu bem e como nos filmes em que não leio sinopse, aqui também não sabia a rotina do show e cada música era uma grande surpresa. Cada primeiro acorde nos levava ao delírio, já reconhecíamos quase todas assim e os gritos, xingamentos, lágrimas e abraços celebravam aquela imensa comunhão musical.

Segunda teve um show extra. O amigo que foi domingo comigo havia comprado o ingresso de segunda e me disse que eu ia me arrepender se não fosse. Na verdade, quando ele me falou que já tinha o ingresso, eu comecei a sofrer. Imaginar que poderia ver o show novamente, de repente até de mais perto, ver Paul no palco junto com os músicos... reviver chorando the long and winding road... eu merecia isso. E fui.

Consegui ficar muito mais perto por um valor não tão absurdo graças ao desespero dos cambistas e não só me acabei em the long and winding road como fiz o mesmo em let it be. Não sei exatamente por que... acho que por estar sozinha naquele momento e sozinha por escolha, porque queria ficar na frente e outro amigo que foi comigo não era tão fanático assim... acho que acabei também ficando mais à vontade e me deixei levar nessas duas lindas músicas. Um rapaz me viu naquela alegria chorosa, me abraçou e me consolou, mas nem precisava... era um transbordamento feliz.

O Rio estava me entediando há um tempo e eu precisava de fortes emoções, fortes e boas que eu sabia que encontraria ali. As duas noites recarregaram minhas energias, eu estava tranqüila novamente e ainda reencontrei grandes amigos. São prazeres fundamentais. Era preciso viver. Foi importante.

Soube de uma lenda que Paul vem no último bimestre. Mesmo não sendo meu Beatle favorito, não posso encontrar com John, então... Eu tinha esquecido como é divertido ir a um show e encontrar tanta gente ali, feliz, vibrando com o mesmo motivo, na mesma energia, buscando o mesmo fim. Como nos entregamos naquelas 3 horas, esperando que elas nunca acabassem... Eu entendi porque Paul faz um show longo: é porque já conhecemos tanto as músicas que elas passam muito rápido... o tempo corre e nos perdemos. Quando olhava no relógio, me assustava como já estava perto do fim e todos ainda estavam gritando e vivendo, rindo, pulando. Valeu cada centavo. Agora é esperar.
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Se Tarkovski diz em certo sentido, o passado é muito mais real, ou de qualquer forma, mais estável, mais resistente que o presente, o qual desliza e se esvai como areia entre os dedos, adquirindo peso material somente através da recordação, é justamente deste peso e de como lidar com a recordação que trata Rabbit Hole ou ridiculamente em português Reencontrando a Felicidade.

Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart) formam um casal que perdeu há oito meses o filho de poucos anos num acidente. Eles, ao contrário de estar reencontrando a felicidade – como assim definiu o título em português alguém que não entendeu o filme – buscam apenas conseguir conviver com a realidade, com o presente, lidando com um passado ao mesmo tempo feliz e triste.

Enquanto o pai tenta se apegar às recordações tentando reviver momentos com o filho em filmes gravados no celular, reclama da ausência de fotos na casa e vai à terapia de grupo na esperança de se reerguer, a mãe prefere transformar o presente, arrumando a casa, guardando e doando o que não vai mais ter uso, como as roupas e brinquedos do filho. O interessante é perceber que o tratamento da perda aqui é individual. Apesar de todos viverem uma dor compartilhada, as manifestações são particulares e é esse o ponto forte do filme.

Rabbit Hole refere-se aos buracos de coelho, parte de uma teoria sobre universos paralelos em que através deles conseguimos atravessar deste para outros universos onde seria possível viver versões de nós. Daí  vem a própria construção do poster, onde vemos frações de uma mesma pessoa. A explicação quem nos dá é um adolescente que está criando uma história em quadrinhos com esse tema. Becca o encontra e começa a ler um livro sobre o assunto. Para ela, é interessante pensar que em algum lugar, ainda que em outro universo, ela está se divertindo. Sem falar que a expressão rabbit hole nos remete a outras obras que se valem desta teoria, onde os mais óbvios são Alice no País das Maravilhas, Matrix e um pouco mais distante, A Origem. A teoria dos universos paralelos sempre esteve nos filmes, enriquecendo e tornando mais complexas as tramas. Especialmente em filmes de ficção científica. Mas aqui, funciona como um caminho para se pensar alternativas. Não tanto em relação à dor, mas como uma forma de olhar diferente o que se está vivendo, tornar suportável.

Com toda a carga trágica do filme, este não é um melodrama. A postura dos atores, a forma como foram dirigidos deixa claro que o objetivo é muito mais a sinceridade do que a pungência.  Este resultado é fruto da construção dos personagens e a de Nicole Kidman merece atenção. Ela nos prende com o menor dos movimentos, acreditamos nela apenas com o olhar, com uma frase, num personagem complexo e fantástico. Ao mesmo tempo, vemos um Aaron Eckhart crescendo. Ele ainda não tem a presença de um protagonista, mas seu desenvolvimento é notável, especialmente quando nos lembramos dele como o Duas Caras de Batman e agora nesse drama quase real. Há ainda personagens secundários, alguns descartáveis e outros marcantes como o de Dianne Wiest, que faz a mãe de Becca, uma mulher que também sofreu perdas e ajuda a filha dentro do limite que lhe foi imposto.

As construções de contexto também se tornam elementos chave. A fotografia mantém uma aura de passado, especialmente na residência do casal. Tons monocromáticos em gradações distintas, de figurino e iluminação, a fotografia em si, com um filtro de textura quase palpável e enquadramentos nos olhares, focos nas expressões e momentos de silêncio são a chave. Filmes silenciosos devem ser difíceis de fazer. Construir a cena na expressão e nos enquadramentos exige não só preparo, mas refinamento dos atores e do diretor. Talvez aqui tenha sido menos difícil ao se tratar de uma adaptação de uma peça e, já tendo sido montada, ficou mais fácil perceber os momentos onde – e aí vai um clichê – menos é mais.

Não é um filme leve. É um filme que fala sobre perda de alguém fundamental. Ao mesmo tempo, é um filme real, possível. O que vemos na tela é muito parecido com o que vivemos em algum momento e isso é doído, mas, ao mesmo tempo, conseguimos ultrapassar os apertos e perceber que não é só disso que trata o filme, mas de amor e de relacionamentos. Numa sessão cheia, conseguimos ainda gargalhar e se solidarizar, em conjunto, com o que víamos na tela.

Trailer aqui.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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